Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:24 am

Após poucos segundos de silêncio, ela admitiu:
- É uma questão de raciocínio lógico, Alexandre.
A qualquer momento ficarei sem emprego por causa do rumo que as coisas estão tomando.
Lá na casa do meu irmão, posso também, de repente, ficar sem ter onde morar.
Tenho todos os motivos do mundo para ficar preocupada.
Raquel estava com os olhos brilhando pelas lágrimas que começaram a brotar, então lamentou com suave voz abafada pelas mãos que passava no rosto:
- Deus! Eu não sei o que fazer. Estou desesperada, você entende?
- Entendo sim, Raquel. Calma. Eu vou ajudá-la.
- Como? Ninguém pode me ajudar - respondendo inconformada e abaixou a cabeça, escondendo o rosto para não chamar a atenção.
Paciente, Alexandre argumentou:
- Lá no serviço eu posso ajudá-la, sim - argumentou Alexandre, paciente.
Já fiz o seu trabalho antes, você sabe.
Quando tiver dúvidas, ou alguma dificuldade, é só me falar.
- Não posso usá-lo, Alexandre.
Tenho que resolver tudo isso sozinha.
- Preste atenção, Raquel.
Ninguém precisa ficar sabendo.
Eu posso e quero ajudá-la.
Há alguns dias eu a vejo com dificuldades e só não me ofereço para não parecer intrometido.
- Você já me ajudou muito.
- Não tanto quanto eu acredito que posso.
Diante do silêncio, ele perguntou:
- Se eu estivesse em dificuldade e com problemas, você não faria o mesmo por mim?
Raquel não respondeu nada e ele concluiu:
- Então fica assim: lá no serviço, quando surgir alguma dúvida, eu a ajudo.
Assim você ficará mais calma e encontrará soluções para as outras coisas.
Vai dar tudo certo, Raquel.
Não podemos ser pessimistas.
Depois de alguns segundos, ele perguntou:
- Você está com fome? Vamos lá!
Vamos comer alguma coisa?
- Não, obrigada. Preciso ir.
Encarando-o com jeito meigo, Alexandre figurou como um bálsamo reconfortante para Raquel, que o olhava firme.
Expressando-se com gentileza, ele pediu com ternura:
- Deixe-me levá-la em casa?
Conheço o caminho, já fiz isso antes e você chegou inteirinha.
Confie em mim, vai.
Raquel sorriu levemente e, sem entender, acabou aceitando o convite.
Quando se levantaram, ela percebeu que Alexandre, rápido e discreto, tirou do bolso um pequeno recipiente que manuseou com agilidade e pegou de dentro dele um comprimido que, ligeiro, engoliu a seco.
Raquel não disse nada, pois percebeu que o amigo não queria ser notado.
No caminho para casa, ela contou sobre o sono perturbado que estava tendo e comentou sobre seus pesadelos, mas sem entrar em detalhes.
Ao estacionar o carro, eles não puderam ver que Alice e Marcos os observavam por uma das janelas da casa.
Sem perder muito tempo no interior do veículo, Raquel rapidamente agradeceu a carona, enquanto Alexandre, com as costas na porta do carro, despediu-se a distância, pois sabia que Raquel não gostava de aproximações.
Ao entrar em casa, Marcos e Alice ficaram em silêncio.
Raquel sentiu algo estranho, mas não disse nada.
Ela não tinha o que falar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:24 am

Capítulo 6 - Confiando em alguém

Na primeira oportunidade de se ver sozinha com o marido, Alice, calma e cautelosa, observou comentando:
- Viu, Marcos, foi como falei.
Agora você mesmo pôde comprovar que Raquel não é o que aparenta.
Ela disfarça muito bem.
- Por que ela faz isso, Alice?
Não posso acreditar.
- Ela faz isso a troco de sua protecção, sua atenção.
Não se esqueça de que, anos atrás, Raquel criou um caso que revolucionou a vida de toda a sua família.
Todos ficaram contra ela, só você a apoiou.
Até sua mãe reconheceu a filha que tem, tanto, que nem com você ela quer mais contacto.
Agora está aí a verdade.
Após alguns instantes de silêncio, aparentando-se tranquila e racional, Alice continuou:
- Onde você acha que Raquel arrumou o dinheiro que nos emprestou para que pagássemos o aluguel em atraso?
Se fosse através de economias, você não acha que ela já teria guardado outro tanto?
Sim, porque o seu salário deve ser o mesmo, se é que não aumentou.
E, morando aqui connosco, ela não tem tantas despesas assim.
Acorde, Marcos! A Raquel é bonita!
Muito bonita! Quem iria trazê-la em casa a troco de nada?
Na certa ela fez programas para conseguir o dinheiro que reservou e, agora, por estar morando aqui, sob a sua vigilância, não deve estar ganhando nada e, por isso, não consegue juntar alguma grana.
Marcos, embebido por pensamentos terríveis, deixava-se envolver por Alice e Sissa, que lhe passavam incentivos com o propósito de amargurá-lo e colocá-lo contra sua irmã.
Ao ver o marido em silêncio, Alice perguntou:
- O que faremos?
Tristonho e até abatido, ele resolveu:
Ainda não sei.
Vamos esperar mais um pouco.
Não podemos mandá-la embora daqui.
Marcos, a passos lentos, retirou-se sem dizer mais nada.
Alice imediatamente esboçou um ar de felicidade através de uma satisfação sórdida, indecente.
Iria, a qualquer custo, macular a imagem de Raquel para o irmão.
Por quê? Por simples prazer.
O coração das criaturas pequenas, que ainda não descobriram o amor, promove os danos nos sentimentos alheios através de seus pensamentos, palavras e atitudes.
Mas elas ignoram que, no exacto momento em que pensam indevidamente, falam de modo não conveniente à boa moral ou agem com intenções indevidas, criam imediatamente em torno de sim uma aura impregnada, uma grosseira camada de energias, fluidos pesarosos, vis, torpes, baixos e que inevitavelmente atraem entidades sem evolução nem valores morais.
Só que, independente de qualquer coisa, a duras penas, haverão de harmonizar tudo o que desarmonizaram, pois esta é a Lei.
Como nos disse Jesus:
- "... de modo nenhum passará da Lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido".
Só temos a eternidade para nos refazermos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:24 am

Com o passar de algumas semanas, Alice via-se nervosa e preocupada.
Seu relacionamento extra conjugal não estava indo muito bem.
Ela e Aldo se desentendiam por qualquer coisa.
Ele exigia mais tempo em sua companhia, o que era difícil, pois Alice não poderia oferecer nenhuma desconfiança ao marido.
Esse foi um dos motivos que geraram várias divergências entre ela e o amante.
Por essa razão, Alice começava a ficar impaciente e irritada dentro de casa, voltando a ser mal-humorada, só que não brigava tanto quanto antes.
Marcos acreditava que ela tornara a se comportar assim por estar insatisfeita com a presença e o comportamento de Raquel.
O que ele poderia fazer?
Ele não poderia colocar a irmã na rua.
Se bem que, se Alice estivesse com razão, Raquel arrumaria rapidinho um lugar para ficar.
Outra coisa que o incomodava era o facto de ter usado o dinheiro que Raquel lhe emprestara e, no momento, não teria como devolver.
Procurando por Alice, que se encontrava nervosa, conversou com ela a respeito e ouviu depois:
- Veja, não tenho onde guardar mais nada.
Não tenho espaço, não tenho os móveis nem armários suficientes.
Esta casa está pequena.
Estamos precisando de dinheiro para poder viver melhor.
- Será que não teríamos um jeito de ajuntar um certo valor em dinheiro para devolver à Raquel? - ele ainda insistiu.
Alice estremeceu de ódio, porém não se mostrou alterada.
Teria que manter a aparente harmonia se quisesse convencer seu marido.
Serena, mostrando uma calma incomum, perguntou:
- Como assim:
"devolver o dinheiro para a Raquel?".
- Se nós devolvermos o que minha irmã nos emprestou, ela arrumaria um lugar para ficar e aí teríamos mais tranquilidade e espaço.
- Estou querendo minha privacidade, sim expressou-se Alice, ponderada.
Mas você se esqueceu de que Raquel também nos deve?
Tempos atrás, quando ela não tinha onde ficar, pois até nas ruas como indigente sabemos que ela morou, nós a apoiamos.
Pagamos médicos, psicólogos.
Eu sei que a nossa situação era um pouco melhor.
Mesmo assim, logo que se ajeitou e foi morar sozinha, nunca se preocupou em nos pagar.
- Mas, Alice...
- Marcos - interrompeu com cautela -, se tivéssemos sobrando, eu concordaria agora mesmo.
Mas no momento não podemos.
Além domais, ela vem mentindo para nós todos esses anos.
Veja como ganhou fácil aquele dinheiro.
Marcos se esforçava para reagir contra aquelas ideias, mas era difícil.
A cada dia ele tinha motivos para acreditar que Raquel não era verdadeira e que mentira aquele tempo todo.
Alice realmente possuía um coração repleto de impulsos maldosos.
Ela começou a usar verniz para disfarçar seus interesses mesquinhos e desprezíveis.
A cada dia, se realizava em satisfação íntima ao perceber que Raquel murchara, perdendo o viço e a alegria, ao se deixar abater visivelmente pelos próprios pensamentos pessimistas que cultivava, por perceber a diferença de tratamento que seu irmão lhe dispensava.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:25 am

Como se não bastasse, Raquel ainda tinha como companheiro espiritual um sofredor que lhe emitia contínuas afirmações tristonhas e desanimadoras.
Em conversa com a amiga Célia, Alice revelava sua insatisfação por ter a cunhada em sua casa e também seu desejo de vê-la longe o quanto antes.
- ... e o Marcos ainda quer lhe devolver o dinheiro! Que absurdo!
- Por que você não foi lá naquele "lugar"? - perguntou Célia, curiosa.
- Já fui! Lógico que fui.
- Então considere realizado.
- Estou só aguardando, Célia. Só aguardando.
Após alguns dias, algo inesperado aconteceu e Alice, aos prantos, retornou para casa e narrou seu drama em desespero:
- Eu não acredito! - gritava Alice, inconformada.
Tudo poderia acontecer, menos a minha demissão.
- Calma, Alice - pedia Raquel, consolando-a.
Você arrumará outro emprego com facilidade.
Acredite!
Em um pranto compulsivo, onde os soluços, vez ou outra, inibiam-lhe a voz, Alice reclamava:
- Isso foi injusto!
Eu já estava acostumada ali...
Isso foi por culpa daquelas invejosas! Cretinas!
Raquel estava muito penalizada com a situação, até porque sabia o quanto era importante para a família que Alice tivesse emprego e salário.
Recordando os primeiros dias de sua estadia naquela casa, Raquel lembrou que nem mesmo a comida era farta.
Temia que Alice voltasse a ser tão briguenta como antes.
A vida de seu irmão voltaria a ser aquele inferno, pois Alice tinha o dom de irritar a qualquer um.
Marcos poderia, novamente, voltar a ter aquelas ideias terríveis que lhe contara sobre querer matar a esposa e depois tentar o suicídio.
Esforçando-se para reagir e dar ânimo à sua cunhada, Raquel falou:
- Quem sabe isso aconteceu para você arrumar coisa melhor?
Agora, com experiência, você conseguirá um emprego mais rendoso, em um lugar mais tranquilo.
Anime-se, amanhã mesmo vou ver o que posso fazer por você.
- Você promete, Raquel? - tornou Alice, quase implorando.
Eu preciso tanto de um trabalho.
Prometa que vai me ajudar.
Estou tão desorientada.
- Prometo, sim. Vou conseguir.
Raquel parecia entorpecida.
Envolvida por Sissa, ela se comovia com a condição de Alice.
Sissa, através de Raquel, iria procurar ajudar a sua protegida e colocá-la em uma situação melhor.
A jovem Raquel, sem conseguir raciocinar, quase automaticamente, fazia os contactos necessários para empregar Alice.
Em uma das oportunidades que teve durante o horário de serviço, Raquel comentou com Alexandre o ocorrido e o amigo se indignou:
- Você ficou louca?! - exclamou incrédulo.
Sua cunhada tripudia sobre você e ainda quer ajudá-la?
- Mas Alexandre, ela precisa.
Além do que, quando Alice está desempregada, ela é terrível!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:25 am

Parece que, com os pensamentos ocupados no serviço, ela não se revolta dentro de casa e fica menos implicante.
- Quer um conselho, Raquel?
E sem aguardar, opinou:
- Cuide da sua vida.
Arrume um jeito de sair dali.
Procure alugar uma casa, uma quitinete, sei lá...
- Como?
- Ora, Raquel, procure - insistiu Alexandre, sem se exaltar.
Deve haver um jeito.
Tem que haver um lugar sem tantas exigências.
- Tá! Tudo bem, eu arrumo o lugar e onde vou dormir?
Como vou comer?
Preciso de móveis e utensílios básicos. Vendi tudo.
Mal me sobraram as roupas, pois Alice vive pegando emprestado o que tenho de melhor.
Suspirando e pendendo a cabeça de forma negativa, Alexandre confessou:
- Tudo isso me deixa indignado.
Como você foi entrar nessa?
Ninguém se desfaz de tudo o que tem e...
- Devo muito ao meu irmão.
Você não entende porque não sabe o que já me aconteceu.
Alexandre, fixando o olhar sério, encarava Raquel, aguardando que ela contasse.
- Já me vi em muitas dificuldades, Alexandre, e somente o Marcos me ajudou.
Por isso, farei por ele o que for preciso, nem que isso seja arrumar um emprego para Alice.
- Você deve ajudá-lo, sim, mas sem se prejudicar.
Ultimamente, Raquel, vejo-a triste, abatida, desanimada com tudo.
Como vai querer ajudar seu irmão sem ter forças nem para você?
- Eu sei que tem razão, mas a verdade é essa:
sinto-me realmente sem forças, sinto-me incapacitada.
Encontro-me num serviço em que não me acho competente, não me dou bem nessa função e acredito que vou perder o emprego a qualquer hora.
- Quem falou que você vai perder o emprego?
- Alexandre, para tudo o que faço fico dependendo de você.
- Ora, Raquel, nem tanto.
- É verdade! Eu o uso o tempo todo.
Tudo o que faço dá errado.
Eu luto, trabalho, me esforço ao máximo e ninguém me reconhece.
Nem minha família.
A moça se deixava envolver pelas vibrações daquele espírito que a acompanhava e que, desalentado, passava-lhe suas impressões.
O colega ouvia calado.
Mas um espírito de maior evolução moral, que agora acreditou ser o momento certo de agir, envolveu Alexandre, que reagiu optimista ao pessimismo de Raquel:
- Quem precisa valorizar os seus feitos é você mesma, Raquel, e não os outros.
Não ressalte o seu orgulho, mas você pode se considerar uma pessoa vitoriosa por ter chegado aonde chegou.
Não fique olhando os problemas.
Procure as soluções.
Após uma pequena pausa, ele prosseguiu firme:
- Tem uma frase de Guimarães Rosa que é mais ou menos assim:
"o animal satisfeito dorme".
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:25 am

Se não está satisfeita, acorde, Raquel! Não se acomode!
Não creia que a vida seja assim mesmo, porque não é, não.
Você sempre pode fazer algo para melhorar. Reaja!
- Não tenho motivos que me impulsionem, Alexandre.
Estou sem vontade.
Olhando-a bem nos olhos, ele se aproximou e, como se quisesse embutir-lhe as palavras, afirmou categórico:
- A decadência de uma pessoa se inicia com frases desse tipo.
Não pense assim.
Seu humor, seu ânimo, sua força de vontade e a reconquista da auto-estima serão renovados quando sair da casa de seu irmão, mas, para isso, você precisa se auto-afirmar como pessoa.
Raquel não dizia nada, e o colega continuou:
- Não faça nada em favor de Alice até você se estabilizar.
Guarde suas energias para você mesma.
Vendo a colega manter o olhar fixo no chão, ele completou:
- Pense, Raquel. Pense bem.
Estabilize-se primeiro depois você pode pensar em ajudá-la.
Antes, não.
Passado alguns segundos, Alexandre tomou coragem e decidiu:
- Eu preciso muito falar com você, mas não pode ser agora, nem aqui.
O assunto é sério e por isso precisamos de um tempo maior.
Quando encerrar o expediente, você me espera, certo?
Raquel, confusa e sem saber o que pensar, afirmou positivamente sem dizer nada.
Alexandre voltou para o seu lugar e ficou planeando o que iria dizer.
Durante todo esse tempo de conversa, Rita e Vagner ficaram paralisados e olhando-os, sem saber qual era o assunto.
Quando terminaram, Rita, pensando em voz alta, falou entre os dentes:
- Ela me traiu. Quietinha, linda, ingénua e falsa.
- Acho que ali o cafajeste é ele - avisou Vagner.
Alexandre, como todo bonitão, só sabe "dar em cima", conseguir e cair fora.
- Tá a fim da Raquel? - perguntou Rita bem directa.
- Não mais. Se bem que ela é tentadora - admitiu sorrindo com malícia.
Rita sorriu cinicamente exibindo no olhar um brilho diferente pelas ideias que começaram a surgir; virou-se para o colega e decidiu:
- Podemos ser grandes amigos, Vagner.
O que você acha?
Vagner quase gargalhou de satisfação e estendeu a mão para a amiga, que se encontrava sentada em sua mesa.
Bem mais tarde, Raquel e Alexandre se encontraram no shopping a fim de conversarem sobre o assunto tão importante que ele anunciou.
Esquecendo-se das promessas que fizera a si mesmo, tinha vontade de se declarar apaixonado, mas deveria ter paciência.
Raquel era diferente e estava com problemas.
Então resolveu guardar seus sentimentos e cuidar dos assuntos materiais.
Ele poderia se conter.
Sentado em frente dela, muito decidido, Alexandre estava sério, com o semblante exibindo preocupação, entretanto, firme avisou:
- Raquel, quero lhe fazer uma proposta.
Primeiro ouça tudo o que tenho para dizer.
Tudo! - Entendeu?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:26 am

Ela o encarou e ele prosseguiu:
-Eu moro sozinho e não tenho muitas despesas.
O apartamento é meu.
Não é muito grande, mas tem três quartos.
Um é suíte, um eu uso como escritório e no outro eu guardo algumas coisas, este último é meio bagunçado.
O quarto que faço de escritório não tem muita coisa, nele eu posso colocar uma cama e...
- O que você quer dizer com isso, Alexandre? - perguntou ela, já entendendo a proposta do colega.
- Espere. Ouça, por favor - pediu tentando se explicar.
Depois continuou:
- Você poderia vir morar comigo.
Eu passo a dormir no escritório e você fica com a suíte, será mais próprio e adequado para...
- Você ficou louco?!
- Não! Espere!
Raquel ajeitou a alça de sua bolsa em seu ombro e foi levantando quando Alexandre a segurou, pedindo:
- Por favor, Raquel. Espere-me terminar.
Vamos conversar como dois adultos inteligentes e racionais.
Não fuja da situação. Por favor.
- Eu não vou morar com você! - respondeu quase sussurrando.
Isso é um absurdo!
Onde já se viu?...
- Sente-se Raquel. Não chame a atenção.
Ela obedeceu e o amigo prosseguiu:
- Será por pouco tempo.
Podemos até estipular um prazo de três ou quatro meses.
Só até você guardar certa quantia para comprar o que precisa e montar uma casa.
Aceite, por favor. É uma boa alternativa.
Nervosa, suspirou fundo exibindo seu desagrado, depois comentou:
- Olha, Alexandre, eu venho comentando para você os meus problemas como um desabafo.
Não quero envolvê-lo em minhas dificuldades.
O facto de ser meu amigo não lhe dá a obrigação de ter que me ajudar.
Se eu soubesse que iria agir assim...
Alexandre percebeu que não teria chances, sentiu-se derrotado, não conseguiria convencê-la.
Após breves instantes, ela concluiu, sempre educada e gentil:
- Se quiser ainda continuar sendo meu amigo, vou sugerir, por favor, me entenda e não me force a aceitar seu convite.
Eu sei que foi com boa intenção, mas...
- Está bem, Raquel. Esquece.
Não vamos mais falar nisso, eu prometo.
Mas tome cuidado com sua cunhada.
E, lembre-se, serei sempre seu amigo.
Certa vez eu disse que não tinha amigo por não confiar em mais ninguém.
Eu estava enganado, ainda existem pessoas sinceras, honestas e desinteressadas, e você, Raquel, é uma delas.
Eu a considero minha amiga.
O silêncio reinou por longos minutos.
Alexandre, para disfarçar sua decepção, começou a falar alegremente sobre o carro novo que havia comprado com a cor que ele desejava e que dera o outro como parte do pagamento.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:26 am

A conversa seguiu sobre coisas corriqueiras até que Raquel, olhando a hora, informou:
- Preciso ir embora. Já está tarde.
- Posso levá-la para casa?
Diante da humilde ternura que ele colocou no tom de voz e no olhar que parecia suplicante ao encará-la, Raquel não teve coragem de recusar.
Após deixá-la em frente de casa, Alexandre se despediu com um nó a engasgar-lhe na garganta.
Algo estava errado. Ele sentia.
Seus olhos estavam humedecidos e uma vontade de chorar o amargurava.
A custo conseguia conter-se.
Raquel, percebendo seu estado sensível, perguntou antes de descer do carro:
- Você está bem?
- Sim. Estou - admitiu disfarçando o olhar sem encará-la.
- Não está sentindo nada? - preocupou-se a amiga.
- Não - dissimulando com um sorriso generoso, ele fugia do seu olhar.
Não se preocupe, Raquel. Estou bem.
Pode ir tranquila.
Ah! Tome! - disse buscando no porta-luvas do carro um bloco de anotações e uma caneta.
Depois explicou:
- Sempre quis te passar o telefone do meu apartamento e acabo esquecendo.
Após anotar o número no papel, entregou-o para Raquel, que admirou:
- Nossa! Que número fácil de ser lembrado!
Os quatro últimos são do meu ramal!
- É verdade. Se precisar, não se acanhe.
Ligue-me a qualquer hora.
Sei que não vai esquecer.
- Obrigada. Vou me lembrar.
Raquel desceu do carro e entrou.
Mais uma vez eles não perceberam que Marcos e Alice os observavam de dentro da residência.
- Veja você mesmo.
Ela chegou em outro carro, com outro cara.
Marcos só observou, sem dizer nada.
Mas seus pensamentos fervilhavam indignados.
Com o passar dos dias, Raquel conseguiu uma colocação para Alice na mesma empresa em que trabalhava.
Alice ficou maravilhada.
Mais experiente, ela se empenhava em obter destaque.
No decorrer de poucos meses, bem inteirada do serviço que realizava, Alice se destacava com o que fazia e, em razão de trabalhar no atendimento telefónico, anotando recados e oferecendo informações, se aproximou da chefia que, observando seu empenho, a colocou em outro sector, porém com o mesmo tipo de serviço.
- Só vou atender as ligações para os directores, anotar os recados e, dependendo de quem ligar, oferecer informações.
Só que o horário será o do expediente - contava ao marido.
- Você e a Raquel fazendo o mesmo horário podem ir juntas e voltar também.
- Ah, não! Deixe a Raquel seguir o ritmo dela e eu sigo o meu respondeu a esposa, com o semblante sério.
- Por quê?
- Bem, será melhor assim - tornou Alice generosa.
Marcos ficou pensativo.
Aquela atitude de sua mulher deixou a desejar sobre o comportamento de Raquel.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:27 am

Sua irmã talvez tivesse companhias que não agradassem a sua esposa.
Analisando bem, reparou que Raquel arrumou um emprego muito rápido para Alice e num momento de crise.
Só alguém com muita influência conseguiria isso.
Ele ficou intrigado e não disse mais nada.
Na primeira oportunidade, Alice e Célia conversavam a respeito de Raquel.
- Então eu fui lá novamente e reforcei os trabalhos.
Quero a Raquel fora da minha casa o quanto antes.
Disseram que está sendo difícil porque ela tem um "santo muito forte".
Mas eles vão dar um jeito.
Célia ignorava que tinha grande parcela de culpa nas maldades que Alice realizava e, com toda certeza, teria que harmonizar à custa de muito trabalho o que estava fazendo.
Só pelo facto de ouvir algo errado e não ensinar o correto, já estamos coniventes com o erro e somos responsáveis por ele.
Em uma oportunidade casual, ao chegar ao restaurante, Alexandre viu Raquel almoçando sozinha.
Depois de se servir, devido ao tipo de serviço que o referido restaurante prestava, o rapaz se aproximou da colega e, parado diante dela, empunhando uma bandeja com a refeição, perguntou:
- Posso?
- Claro. Sente-se e fique à vontade - indicou, sorrindo satisfeita pela companhia.
Por alguns minutos a conversa predominante foi sobre o serviço, até que Alexandre não conseguiu conter sua preocupação e perguntou:
- E você, como está?
Há tempos não conversamos.
Como estão os desafios?
- Não sei, Alexandre. Cada dia...
Agora a voz de Raquel embargou, seus olhos ficaram nublados pelas lágrimas que quase rolaram.
Vendo que a amiga tentava se controlar, ele aconselhou:
- Tudo bem. Não diga mais nada.
Aqui não é um lugar propício.
Vamos fazer o seguinte.
No final do expediente nós nos encontraremos no shopping, no lugar de sempre, está bem?
Para a surpresa de Alexandre, ele ouviu:
- Sim, por favor.
Eu estou sentindo falta...
Preciso falar com alguém.
Pouco depois, já na empresa e antes de retornar para a secção, pois ainda não estava no horário, Alexandre encontrava-se no corredor à espera do elevador quando Vagner perguntou:
- Tudo bem, Alexandre?
- Sim. Está - respondeu, friamente e desconfiado.
- Então não há problema algum com o serviço ou com o ambiente de trabalho?
- Não, Vagner.
E, mesmo se houvesse, acredito que esse não é o lugar mais propício para o assunto.
Além do que, ele não lhe diz respeito.
- Está irritado, Alexandre?
- Deveria?
- Não sei.
Só que você me parece um tanto nervoso, decepcionado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:27 am

- Engana-se, Vagner.
Não tenho motivos para decepções nem para me sentir nervoso.
Procurando encontrar um meio de impor a Alexandre suas colocações venenosas, Vagner atacou:
- Será que não está nervoso ou decepcionado por não conseguir nada com a Raquel?
Alexandre sentiu-se gelar, quase não conseguindo conter sua raiva.
Calado, ele cerrou os punhos pelo nervosismo, enquanto seu rosto transpirou, exibindo sua inquietação.
Mas conseguiu permanecer em silêncio.
Vagner, com sorriso irónico, desfechou a punhalada fatal:
- Estou tentando ser seu amigo.
Não me leve a mal.
Mas sabe porque você não consegue nada com a Raquel?
Porque ela "camufla".
A Raquel joga no "nosso time".
O negócio dela é outra mulher.
Alexandre sentiu-se ferver.
Seus olhos faiscavam de raiva e, indignado, agarrou Vagner pela camisa, exigindo:
- Você vai ter que provar isso!
- É fácil! Solte-me!
Alexandre o largou com um empurrão e Vagner, alargando mais o sorriso de desafio, concluiu:
- A prova está em você mesmo.
Seja esperto, cara!
Como é que você, sendo como é, que tem qualquer uma aos seus pés, não consegue nada com a Raquel?
Depois de tanto tempo "chegando junto", não acha que já deveria ter conseguido alguma coisa?
Por que nunca a vimos com algum cara?
- Isso não é prova, canalha.
Vou quebrá-lo ao meio.
Quando ia investir contra Vagner, este rapidamente falou:
- Pergunte à Rita.
Alexandre estancou e o colega prosseguiu:
- Pergunte à Rita por que ela não tem mais amizade com a Raquel.
Repare que nenhuma outra moça tem amizade com ela.
- Você está mentindo.
Isso é muito baixo, Vagner!
Alexandre parecia estar enjaulado.
Ele andava de um lado para o outro sem saber o que pensar e Vagner continuou:
- A Rita se afastou de Raquel porque ela a estava assediando.
Vamos! Vai lá e pergunta.
Foi por isso que me afastei.
Nunca percebeu que a Raquel não suporta um abraço ou um beijinho nosso?
Com quem soubemos que ela namorou, ou coisa assim?
Desalentado, Alexandre falou em voz baixa, começando a crer no outro:
- É mentira... Isso não pode ser verdade.
Vagner, querendo magoar ainda mais o colega, favoreceu-se de sua fragilidade, notando seus sentimentos abalados.
- Eu sei que você está decepcionado.
Pelo visto, pela sua cara, você estava mesmo gostando dela, não é?
Sem responder, Alexandre virou-se e caminhou até as escadas, usando-as.
Seu rosto empalidecera e exibia uma amarga decepção.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:27 am

Ele afirmava, em pensamento, que aquilo era mentira, mas algo o enfraquecia.
Tudo o que era lógico passou a ser duvidoso, e isso acontecia pelo facto de Alexandre ter ao seu redor companheiros espirituais que insistiam em lhe passar pensamentos inferiores, fazendo-o crer naquelas acusações baixas e irresponsáveis.
Chegando ao andar desejado, ele se deparou com Rita, que o cumprimentou e depois se alarmou:
- Nossa, Alexandre!
Que cara é essa?!
Sentindo-se atordoado e confuso, ele parecia ouvir a frase de Vagner em sua mente:
"Nunca percebeu que Raquel não suporta um abraço ou um beijinho nosso?"
"Como é que você, sendo como é, não consegue nada com a Raquel?"
Ele parou e ficou olhando para Rita, seus olhos pareciam vidrados.
- Alexandre, você está bem?
Encarando-a, foi directo e objectivo:
- Por que você e a Raquel não têm mais amizade como antes?
Já preparada para tal indagação, pois Rita e Vagner haviam combinado tudo, ela disfarçou cinicamente ao responder:
- Alexandre, isso não vem ao caso.
Você está tão branco, pálido.
Vamos até ali, vamos conversar um pouco.
Reagindo impulsivamente, ele quase gritou:
- Não!
Rita encarou-o nos olhos e disse:
- Você já sabe, não é?
Por isso está tão irritado e decepcionado, mas é isso mesmo.
É por causa desse tipo de vida que Alice briga com ela.
Alexandre parecia estar entorpecido.
Não podia mais ouvir aquilo.
Virando as costas, deixou Rita falando sozinha e se foi.
Ocupando o lugar em sua mesa, o rapaz não parecia bem.
Os companheiros espirituais que o envolviam faziam com que se lembrasse de detalhes que achava estranho em Raquel.
Ela nunca namorara, não tinha amigas, era calada, não gostava de ser tocada pelos rapazes.
Ele acabou recordando quando a viu abraçada a Rita, enquanto riam por alguma coisa.
Era estranho. Quando Rita a abraçou, Raquel não a repeliu.
Ele se sentia muito mal com tudo aquilo.
Procurou por seus remédios, mas com as mãos trémulas e suadas, não conseguiu segurar o vidro, que lhe escapou para o chão, onde se espatifou.
Sem conseguir pegá-los, pois estava tonto e com a respiração alterada, ele se debruçou sobre os braços e ficou quieto.
Raquel, que acabava de chegar, percebeu que algo estava errado, pois o amigo não costumava largar-se daquela forma.
Enquanto ia se aproximando percebeu sua palidez e, ao olhar no chão, viu os comprimidos espalhados junto com pedaços de vidro.
- Alexandre! - assustou-se ela, correndo em sua direcção.
Às pressas, Raquel pegou água, teve o cuidado de limpar bem um comprimido que apanhou do chão e, oferecendo-o a Alexandre, disse:
- Tome. Beba isso logo.
- Dois... - sussurrou ele.
Raquel abaixou-se, pegou outro remédio e o deu ao amigo, que, após ingeri-los, debruçou-se novamente aguardando o efeito.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:28 am

Raquel apanhou todas as cápsulas que encontrou no chão e as colocou sobre uma folha de papel.
Virando-se para Alexandre, avisou preocupada:
- É melhor chamar alguém.
Você precisa de um médico.
- Não! - reagiu o colega com toda firmeza que conseguiu.
- Você não está bem, Alexandre.
- Estou sim.
Por favor, espere. Isso passa.
O quanto antes, ele ergueu a cabeça fitando-a longamente com um olhar suplicante que ela não pôde entender.
Vencendo-se, Raquel o tocou no rosto sentindo sua temperatura fria.
Em seguida, afagou-lhe de leve e com terno carinho.
Ele não dizia nada, mas seus pensamentos fervilhavam.
- Alexandre, deixe-me chamar alguém? - pediu com sua voz suave.
- Não. Estou melhorando.
Isso é assim mesmo.
Tomando novamente o fôlego, ele perguntou:
- Tem alguém nos observando?
Raquel olhou em volta e respondeu:
- Não. A seção ainda está vazia.
O pessoal não voltou.
Só têm alguns lá embaixo; onde estão, não podem vê-lo sentado aí.
Diante do silêncio, ela insistiu:
- Tem certeza de que está melhorando?
- Sim, já estou melhor.
Mais alguns minutos e isso já vai passar.
Ele parecia se tornar mais corado.
Vagner acabava de chegar e presenciou a cena em que Raquel novamente acariciava com delicadeza o rosto do amigo sentindo sua temperatura, mas ela não o viu.
Alexandre começou a se sentir melhor.
Sentou-se correctamente, esfregou o rosto com as mãos e girou a cabeça em círculos.
Raquel, já sentada em seu lugar, observava-o a pouca distância.
Ele pegou o telefone e solicitou a alguém da manutenção que viesse prestar o serviço de limpeza pelo vidro que quebrou.
- Percebi que está menos gelado.
Mas tem certeza de que está melhor? - perguntou Raquel um tanto inibida, porém preocupada.
- Sim, já estou melhor.
Obrigado - respondeu sem encará-la.
- Você me assustou, Alexandre - admitiu sensível.
- Acontece. Não se preocupe - afirmou sorrindo para disfarçar.
Alexandre procurou se entreter com alguns papéis, mas fazia isso para dissimular.
Ele ainda não estava conseguindo se concentrar, na verdade.
Seus pensamentos eram tumultuados pelas cenas das lembranças de alguns acontecimentos.
Quantas vezes ele simplesmente pegou em suas mãos e ela, com certo jeitinho, se afastou?
Vagner parecia ter razão.
Como é que, sendo como era, não conseguia fazê-la se impressionar por ele?
Raquel o tratava sempre como amigo, nunca ofereceu qualquer oportunidade para uma aproximação.
Só poderia ser essa a explicação para tudo isso.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:28 am

As ideias de Alexandre fervilhavam. Ele estava aflito.
Intimamente sentia tanta amargura que era quase impossível descrever.
Lembrou-se de quando surpreendeu sua noiva traindo-o com seu melhor amigo.
Quanta decepção!
Agora não sabia dizer qual experiência tinha sido pior, pois tudo apontava que só essa explicação justificava as atitudes de Raquel.
Ele sentia algo muito forte por ela.
Não saberia descrever, mas era algo muito acima dos sentimentos comuns.
Alexandre a amava.
Ele a respeitava e a queria muito bem.
Seu coração estava oprimido pelos pensamentos que agora o fustigavam.
Com o olhar perdido, ele reflectiu e resolveu:
"Não vou julgar Raquel.
Apesar de tudo indicar que isso seja verdade, não posso julgá-la.
Raquel nunca me enganou e se não me contou foi por vergonha.
Mas ela nunca me enganou.
Talvez seja por isso que disse já ter sofrido muito", pensava Alexandre, forçando-se ao equilíbrio.
"Não vou dizer nada a ela, pois já está com muitos problemas, com muitas dificuldades."
E, como que em prece, ele fechou os olhos e clamou:
"Deus, dá-me forças.
Ajude-me a suportar.
Parece que nasci para não ser feliz no amor, por isso, me dê forças para suportar mais essa.
Estou decepcionado, arrasado, não posso acreditar, mas...
Sabe, se alguém me dissesse que a Sandra me traía com meu melhor amigo, eu também diria que era mentira.
Portanto, diante do comportamento de Raquel eu não posso..."
A voz meiga e suave de Raquel tirou-o daquele diálogo com Deus.
Alexandre quase se sobressaltou ao ouvi-la perguntar:
- Alexandre, você está bem?
- Que susto, Raquel.
Eu estava tão longe - respondeu ao oferecer um leve sorriso.
- Desculpe-me. Estou preocupada.
Você fechou os olhos e ficou tão quieto.
Ele sorriu e acabou ficando satisfeito com a preocupação da colega, porém afirmou que estava bem e que só pensava em um relatório que tinha de preparar.
Raquel voltou para sua mesa e ele passou discretamente a observá-la com carinho e até piedade.
Alexandre possuía um coração nobre, pois era bondoso por índole.
Bem mais tarde, no final do dia, ele sinalizou para Raquel que já estava saindo e a esperaria no local de sempre.
Após alguns minutos, Raquel e Alexandre já se encontravam conversando na praça de alimentação do shopping.
- Você tinha razão, Alexandre.
Trazer Alice para trabalhar comigo foi a pior coisa que eu poderia ter feito.
Ele escutava atencioso e calado, pois sabia ouvir.
Passando a olhar as lágrimas copiosas que rolavam no rosto de Raquel, desejou apará-las, mas não podia.
Respeitava sua amiga, afinal ele a amava e acreditava no amor incondicional.
Se era desse jeito que Raquel queria, assim seria.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:28 am

Alexandre somente aproximou sua cadeira de Raquel para ficar mais perto e a fim de ouvi-la melhor.
Raquel queria lhe contar algo, mas sua emoção não deixava, embargando-lhe a fala que ele não conseguia entender.
Em dado momento, a amiga pareceu perder o controle das emoções.
Queria falar, mas os soluços a impediam.
Foi então que um choro compulsivo, quase desesperador, a dominou.
Não resistindo, Alexandre se viu compelido a colocar seu braço nas costas de Raquel; abraçando-a, recostou-a em si.
Raquel parecia muito tensa, mesmo assim não o repeliu e chorou algum tempo em seu ombro.
Envergonhada pela situação, ela abaixou a cabeça e, enquanto ele lhe afagava os cabelos, pediu com a voz rouca, sussurrando:
- Alexandre, me leva embora daqui, por favor?
- Claro, vamos - concordou gentil e prestativo.
Ajudando-a se levantar, ele a abraçou com generoso cuidado e a conduziu para que saíssem dali.
Raquel estava envergonhada, aquele era um lugar público e muitos olhavam curiosos, não tinham discrição.
Ela recostou seu rosto no peito de Alexandre, usando os cabelos para encobri-lo a fim de que ninguém a visse chorando, entregando-se aos cuidados do amigo.
Atencioso, sofrendo por vê-la naquele estado emocional, ele a levou para o seu carro, a fez entrar e logo saíram do shopping.
Raquel não dizia nada, só chorava, pois seus pensamentos estavam impregnados de ideias pelas vibrações de amigos espirituais que a castigavam com induções.
Nesse caso, o mentor sabiamente não interferia.
Havia um bem ocorrendo no suposto mal.
Raquel começava a vencer um medo que há muito sofria e deixava-se abraçar por alguém de carácter em quem poderia confiar.
Em breve, ela descobriria que, por falta de preces nos momentos aflitivos, deixava seus pensamentos desguarnecidos de fé.
Após dar algumas voltas, Alexandre decidiu ir para o seu apartamento e, ao vê-lo entrar na garagem subterrânea do prédio, ela perguntou, com voz vacilante:
- Onde estamos?
- Calma, Raquel.
Estamos em um lugar tranquilo e seguro.
Não vamos ficar na rua "dando sorte ao azar", correndo o risco de sermos assaltados ou coisa assim.
Amedrontada, com os olhos assustados, a moça parecia estar em choque.
Após estacionar o carro, Alexandre saiu do veículo, contornou-o, abriu a porta e convidou com generosidade, ao estender a mão para ajudá-la:
- Vamos?
Demonstrando certo espanto, com a respiração alterada, olhos vermelhos e voz levemente rouca, Raquel pediu timidamente:
- Leve-me embora.
Alexandre percebeu que a amiga estava trémula e trazia uma expressão de pavor no olhar.
Acreditou que a qualquer momento ela pudesse gritar apavorada.
Por isso, com cautela e extrema brandura, ele se abaixou para ficar na mesma altura de Raquel, que continuava sentada no banco do carro.
Aproximando-se um pouco mais, olhou em seus olhos assustados e, generoso, com voz suave, explicou:
- Raquel, estamos na minha casa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 9:29 am

Não vou lhe fazer nenhum mal.
Confie em mim. Eu sei que você está nervosa e que precisa conversar, só que não dá para ficarmos no shopping por causa da sua emoção e não podemos ficar sentados dentro do carro parado na rua, é perigoso.
Após pequena pausa, ele se levantou e, estendendo-lhe novamente a mão, pediu afectuoso:
- Confie em mim, Raquel. Venha.
Vamos só conversar, eu prometo.
Nesse instante, Raquel sentiu-se entorpecida.
Sem entender, pegou na mão de Alexandre e aceitou o convite.
Após fechar a porta do carro, temeroso e com todo cuidado, ele tornou a colocar o braço no ombro da colega, que estranhamente não reagiu e se deixou conduzir.
Já no devido andar, após abrir a porta do apartamento, ele educadamente se desculpou, oferecendo suave sorriso:
- Entre. Fique à vontade.
Só me perdoe pela bagunça.
Sou um pouco desordeiro.
Raquel ainda parecia assustada e nada disse.
Fazendo-a se sentar em um sofá na sala, ele foi até a cozinha, voltando rapidamente com latinhas de refrigerante e ofereceu-lhe uma.
Sentando-se observou que sua amiga ainda estava nitidamente trémula e nervosa por estar ali.
Com paciência e generosidade nas palavras, perguntou:
- O que foi, Raquel?
Se bem que já imagino o que está acontecendo, mas quero ouvir de você.
Com os olhos novamente banhados de lágrimas, ela o encarou e desabafou:
- Você tinha razão.
Eu não deveria ter trazido Alice para trabalhar junto comigo.
Agora, já estabilizada no serviço e com "certos contactos", ela está fazendo tudo para me prejudicar.
- Como?
- Sabe, assim que a Rita voltou de férias, ela foi indicada para outro serviço e eu acabei ficando com o que era dela.
- É...?
- Eu soube que a Alice, assim que começou a ter amizade com a Rita, disse-lhe que fui eu quem insistiu para pegar aquele trabalho.
Isso não é verdade!
Agora a Rita está com raiva de mim, virando a cara, jogando indirectas bobas e falando coisas que... - Raquel deteve as palavras.
Ao ouvir isso, Alexandre ficou alerta.
Tudo começava a fazer sentido.
Se Rita estivesse com raiva de Raquel, nada melhor do que difamá-la.
Mas, por outro lado, Raquel agia estranhamente.
Ele não disse nada, achou melhor ouvi-la primeiro.
- Isso não é só - continuou Raquel falando baixinho e em meio a um choro mais suave -, Alice anda inventando calúnias absurdas!
- Como o quê? - perguntou mansamente.
- Agora, trabalhando mais perto do senhor Valmor, ela anda... vamos dizer, fazendo cena, cara de triste ou algo assim.
Quando o senhor Valmor pergunta o que é, a Alice diz que eu sou o motivo de sua preocupação, pois a ameaço só porque fui eu quem lhe arrumou o emprego.
Ainda mentiu dizendo que eu falei tanta coisa ruim sobre ele e, só agora, trabalhando mais próximo, é que ela viu que era tudo mentira minha.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:14 am

Raquel começou a chorar mais e, mesmo entre os soluços, continuou:
- O Vagner ficou irritado comigo e...
- Por quê? - perguntou Alexandre, imediatamente alterado.
- Ele disse que eu só fazia meu trabalho quando você me ajudava.
Disse-me que você não estava dando conta do seu serviço por minha causa.
- Canalha! Isso é mentira!
E foi por isso que você parou de me pedir as coisas?
Raquel afirmou que sim, ao pender com a cabeça, e continuou:
- Além de tudo isso, o Marcos está muito diferente comigo nos últimos tempos.
Talvez até ele já deva estar sabendo da fofoca que Alice e Rita inventaram.
- Que fofoca, Raquel? - interessou-se, mas perguntou tranquilamente.
A jovem não se conteve, caiu em um choro compulsivo e até desesperador.
Sua natureza sensível e delicada estava sendo rigorosamente agredida.
Alexandre, ao seu lado, procurou olhar em seus olhos, curvando-se ao perguntar com subtileza:
- O que elas inventaram a seu respeito que a deixou assim?
Raquel escondia o rosto com as mãos e os soluços não a deixavam responder.
Nesse minuto, Alexandre, ligeiro em seu raciocínio, já havia descoberto tudo.
Sem que Raquel visse, ele sorriu satisfeito ao juntar os factos:
Rita, não conseguindo conquistá-lo, juntamente com Vagner, que nada conseguiu com Raquel, e agora com o apoio de Alice, que não gostava da cunhada, inventaram aquela enorme calúnia contra Raquel para afastá-los como amigos ou até algo mais sério que pudesse existir entre eles.
"Como pude ser tão idiota?", pensava ele.
"Raquel é feminina demais para aquela história ser verdadeira.
E só observar o seu jeito delicado, sua personalidade sensível, seu comportamento feminino íntegro e recatado, a maciez de sua voz... sua beleza...
Como eu pude acreditar?!"
Ele sorriu satisfeito, mas piedoso, e ficou olhando para Raquel imaginando o quanto aquilo a magoava, o quanto lhe doía tanta ofensa.
Com a voz branda, aconselhou:
- Não se preocupe, Raquel.
Isso não é verdade e logo...
- Você... tam... também já sa-be? - gaguejou pelo soluço insistente.
- Isso não tem importância - argumentou com ternura.
Raquel, envergonhada, começou a chorar mais ainda, mesmo assim ela dizia entre os soluços:
- Meu irmão deve estar acreditando nisso!
Que horror! Todo mundo pensa...
Ela estava em desespero.
Raquel era extremamente sensível e Alexandre sabia disso.
Ele podia entendê-la, conseguia sentir sua alma delicada e compreender sua dor, mesmo desconhecendo sua história e as dificuldades que a deixaram assim.
Aproximando-se dela, a abraçou recostando-a em si, oferecendo seu ombro para o pranto da amiga.
Raquel, talvez pelas fortes emoções e pela carência de alguém sincero naquele momento, não o repeliu.
Sem que ela percebesse, Alexandre encostou seus lábios na cabeça de sua querida, beijou-lhe várias vezes os cabelos, roçando suavemente os fios que se enroscavam de leve em seu rosto.
Sentia um carinho, uma ternura imensa por ela, só que não podia se revelar, foi muito difícil conquistar aquele pouco de confiança e trazê-la até ali fazendo acreditar nele.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:15 am

Agora não poderia estragar tudo. Ele saberia esperar.
Reflectindo um pouco concluiu que Raquel, para ser arisca daquela forma, deveria ter experimentado, vivenciado algo muito grave.
Com generosidade, afagando-lhe os cabelos, Alexandre falava baixinho:
- Não chore, Raquel.
Não fique assim.
- Eu... eu não sei o que faço - lamentava soluçando.
Delicadamente Raquel afastou-se do abraço e começou a secar as lágrimas com as mãos.
Passado alguns minutos, um pouco mais recomposta, ela falou com leveza na voz:
- Lá na casa do meu irmão está tão difícil.
A Alice é falsa comigo. Eu sei.
Ela está enchendo as ideias de Marcos a meu respeito.
Vou acabar sem ter onde morar e ainda perderei o emprego.
- Não vai, não.
Pense diferente, Raquel.
- Como? Como devo pensar?
É difícil arrumar um bom emprego.
Estou desactualizada.
Não tenho casa, vivo com meu irmão e...
Depois de breve pausa continuou:
- Parece que nasci para sofrer. Tudo dá errado para mim.
A cada instante a jovem se deixava envolver em vibrações inferiores.
Pensando daquela forma, não reagia e se entregava à manipulação de espíritos inferiores.
Alexandre, mais racional, procurava animá-la:
- Não fale assim, Raquel.
Aproveite esse grande momento e descubra sua capacidade.
- Que grande momento?
- Aproveite esse desafio e mostre sua capacidade de vencer.
Pense nas soluções, e não nos problemas.
- Você diz isso porque não está em meu lugar.
Encarando-o nos olhos, ela admitiu:
- Estou cansada.
Não sabe o que eu já passei, nem imagina o que já tive de suportar e de superar.
Não tenho mais forças, Alexandre. Quero morrer!
- Raquel! Não fale assim!
"Faça uma jangada com o resto dos destroços do naufrágio."
Já passei por poucas e boas, também.
Você sabe. E, veja, estou aqui.
Não sei o que enfrentou, mas se foi um problema maior do que o actual e já superou, então, o desafio do momento não é nada.
Reaja, Raquel!
Ela ofereceu um sorriso e um olhar tristonho com lágrimas que começaram a brotar novamente; falou delicadamente:
- Meu amigo, o difícil é saber que, até hoje, não solucionei meu desafio do passado e ainda tenho um grande problema para resolver.
- O que aconteceu, Raquel? - perguntou interessado, sério e ansioso.
Encarando-o, ficou em silêncio, mas sem conseguir deter os soluços que se fizeram teimosos.
Fitando-a com serenidade, ele viu rolar as lágrimas em seu rosto trémulo que, apesar de angelical beleza, expressava-se triste.
Seu olhar parecia implorar por socorro e amparo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:15 am

Raquel sofria angustiada.
Alexandre sentiu um envolvimento irresistível entre eles.
Instintivamente, puxou-a para perto de si, agasalhou-a em seu peito, envolvendo-a com ternura e carinho.
Raquel, parecendo entorpecida e um tanto paralisada, não reagiu.
Ele a ajeitou nos braços, quase a deitando em seu colo, prendendo-a firme contra si, mas com delicadeza.
Não acreditando naquele momento, Alexandre beijou-lhe a testa com todo carinho, com todo seu amor.
Sussurrando, pediu:
- Raquel, conta para mim a sua história.
Um choro desesperador se fez sem que ela conseguisse se conter, segurando-o com as mãos, puxava-o pela camisa num gesto de aflição extrema, escondendo o rosto em seu peito.
Alexandre começou a embalá-la nos braços esperando que se acalmasse.
Com voz generosa e piedosa, murmurou:
- Oh, Deus! O que fizeram com você para ser assim?
Raquel não disse nada e continuou chorando enquanto escondia o rosto.
Aos poucos ela se acalmou até se recompor do desespero.
Afastando-se dos braços dele, não o encarava, como que envergonhada.
Com a cabeça baixa, escondendo o rosto vermelho entre os cabelos, pediu:
- Leve-me embora, por favor, Alexandre. Já é tarde.
- Você não quer conversar comigo sobre isso?
- Não consigo... - respondeu hesitante.
- Quer tentar? - sugeriu bondoso.
A bela jovem ergueu o olhar, que parecia clamar por misericórdia, fitou-o por longo tempo, mas não teve coragem de relatar sua história.
Diante do silêncio que se fez, o amigo decidiu:
- Tudo bem.
Deixa para outro dia.
Ela concordou e depois pediu temerosa, envergonhada:
- Dá para você me levar embora?
- Lógico! Vamos - respondeu Alexandre, com suave sorriso generoso.
Levantando-se rapidamente ele lhe estendeu a mão, ajudando-a.
Não poderia trair a confiança que a amiga lhe depositara, mesmo desejando que ficassem ali por mais algum tempo.
Quando ela já estava em pé, ele lembrou:
- Quer ir lavar o rosto?
O banheiro é ali - ofereceu indicando.
Muito acanhada, Raquel aceitou.
Ao retornar à sala sem fazer barulho, viu que Alexandre, sentado no sofá, segurava a cabeça com as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto olhava para o chão, pensativo.
Aproximando-se do amigo, Raquel falou tímida e praticamente sussurrando:
- Alexandre, por favor, me desculpe.
Isso nunca me aconteceu antes e...
Levantando-se rapidamente, se pôs à sua frente e, interrompendo-a educadamente, disse bem seguro:
- Por favor, não se desculpe.
Tenho uma consideração, um respeito e um carinho muito grande por você, Raquel.
Acredito em você e, como já disse, eu a respeito muito.
Gostaria que confiasse em mim, pois quero, antes de qualquer coisa, ser seu amigo de verdade.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:15 am

Amigo mesmo tem que entender e sempre deve estar pronto para tudo. Lembre-se disso.
- É difícil encontrarmos pessoas sinceras, honestas e sem segundas intenções.
- Sincero e honesto eu sempre fui - revelou deixando-se conhecer.
Mas não posso negar que, no passado, eu não me aproximava de uma moça, principalmente bonita como você, sem segundas intenções.
Já sofri muito por isso também.
Hoje é diferente.
Sorrindo meio sem jeito, ele completou:
- Creio que amadureci, cresci.
Aprendi a respeitar as pessoas.
Após pequena pausa prosseguiu:
- Quero que confie em mim. Está certo?
Não se sinta ridícula, boba, nem coisa assim pelo que aconteceu aqui.
Eu compreendo que precisava desabafar, necessitava de atenção, carinho e tudo isso tinha que acontecer.
Eu sei o que é precisar disso.
- Obrigada por entender - agradeceu encabulada e abaixando o olhar.
Depois elogiou:
- Seu apartamento é muito bonito!
Você disse que ele não era muito grande, você mentiu - riu com leveza no semblante e, antes que ele se pronunciasse, pediu:
- Vamos? Já é bem tarde, você me leva?
- Sim. Claro.
Deixe-me ver onde coloquei as chaves do carro.
Alexandre a levou para casa, deixando-a, como sempre, em frente da residência de Marcos e indo embora após vê-la entrar.
Raquel reparou que, mesmo tendo-a em seus braços, confortando-a em um momento de desespero, Alexandre não se viu com a liberdade para abraçá-la ou beijá-la para se despedir ao deixá-la em casa.
Realmente ele a respeitava.
Ao mesmo tempo, estranhou sua própria reacção, deixando-se envolver por ele.
Não estava acostumada àquilo!
O que será que acontecera?
Aquela conversa com Alexandre lhe fizera muito bem.
Ela não sentia seu coração tão oprimido agora.
E em meio a esses pensamentos, entrou em casa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:15 am

Capítulo 7 - Desorientada e sem rumo

Ao caminhar seguindo pelo corredor lateral da casa, Raquel passou a ouvir Marcos e Alice conversando em voz alta e seu nome ser pronunciado.
Sem imaginar que eles sabiam de sua chegada, caminhou a passos lentos parando próxima de uma janela onde poderia ouvir melhor o que eles diziam.
- Antigamente você não acreditava.
Agora está aí nervoso e sem saber o que fazer.
- Eu mato a Raquel! - prometia Marcos, enfurecido.
Aquela mentirosa!
- Mentirosa mesmo!
Eu vi, com os meus próprios olhos.
Depois de breve pausa, Alice prosseguiu com voz de desdém:
- Quer dar uma de mocinha ingénua, pura!
Ela é uma safada, isso sim!
- Você foi até eles?
- Ora, Marcos!
Você acha que eu ainda deveria me sujeitar a isso?
Tenho testemunha, se quiser.
Porém, depois do que vi hoje, exijo que tome uma atitude, antes que ela apronte e sobre para nós.
Não suportando mais ouvir aquilo, Raquel entrou, parou após os primeiros passos e perguntou:
- O que eu posso aprontar, Alice?
Apesar de sentir seu coração apertado agora, Raquel tentou ser forte e insistiu com veemência na voz fraca:
- É, diga Alice!
O que é que eu posso aprontar e deixar para vocês?
- Quem você pensa que é para exigir alguma coisa aqui na minha casa? - interferiu Marcos rigoroso ao encorpar a voz.
Tomada de um súbito mal-estar, Raquel sentiu-se atordoada.
Não esperava aquela reacção de seu irmão.
- Quero saber o que Alice inventou a meu respeito.
Como ela pode me tratar assim e...
- Alice não inventou nada.
Eu mesmo vi! - interrompeu-a bruscamente.
- Viu o quê, Marcos? - perguntou Raquel.
- Sinto muito, Raquel - interferiu Alice coberta por um verniz cínico -, estou cansada de esconder tudo do seu irmão.
Chegou o momento de dizer a verdade.
Após pequeno intervalo de tempo, continuou:
Lá no serviço, assim que comecei a trabalhar, souberam que éramos parentes e pensaram que eu fosse igual a você.
Foi aí que começaram a fazer inúmeros convites... convites indecentes.
- O quê?! - indignou-se Raquel.
Que história é essa?
- Chega de dar uma de santa, Raquel! - gritou Alice, representando de uma maneira impressionante.
Você sabe do que eu estou falando.
O Marcos também está ciente de tudo.
Não precisa mais fingir para nós.
Seu irmão já te viu chegando em casa com um e com outro!
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:15 am

Marcos sabe que você está acostumada a aceitar convites para esses programas levianos e se vende.
O que ele não sabe é que você já tirou filho várias vezes porque não achou um trouxa para assumir você e a criança!
Raquel começou a empalidecer diante da veemência da cunhada, que gritava.
Ela ficou estática, ensurdecida e não conseguia reagir contra Alice.
Marcos, paralisado, também ficou boquiaberto e incrédulo ao que ouvia da esposa.
Ele ficou em silêncio enquanto sua mulher arrumava forças e convicção para dizer muito mais sem que restasse qualquer dúvida sobre a verdade.
- Estou sabendo também - continuou Alice - que você está tentando "segurar" esse tal de Alexandre, dizendo que ele é o pai do filho que você está esperando.
Chega, Raquel! Já chega!
Se pensa que vai largar esse filho aqui, está muito enganada.
A moça olhou para seu irmão e não conseguia falar por causa de seu estado de choque.
Raquel passava mal.
Marcos, por sua vez, enlouquecido, colocou num grito seu ódio e sua repugnância para com aquelas revelações, dizendo:
- Diga algo, Raquel!!!
A jovem sentiu que o ar lhe faltou aos pulmões.
Vendo-a desorientada, Alice perguntou aproveitando-se do estado de choque da cunhada:
- Vamos, Raquel, diga que é mentira o facto de você ter ido até o apartamento desse homem, que é solteiro e mora sozinho!!!
- Isso é verdade, Raquel?
Você foi até o apartamento desse cara?
Raquel ficou perplexa, muda!
Não acreditava no que acontecia.
Alice não oferecia uma trégua para que ela respondesse e exigia:
- E então, Raquel!
Como foi lá no apartamento do Alexandre hoje? Diga!
Marcos se aproximou da irmã, pegou-a pelo braço e inquiriu sacudindo-a:
- É verdade, Raquel?!
- Marcos, não é bem assim... gaguejou Raquel timidamente tentando se explicar.
Em vão.
Marcos, alteando mais ainda a voz, tornou firme:
- Você veio da casa de um homem?
Então é verdade...
Decepcionado, ele a olhou nos olhos e revelou:
- Você mentiu pra mim.
Você me traiu, Raquel.
Todo esse tempo...
- Vamos, Raquel, tente explicar! - inquiria Alice, irritando Marcos ainda mais.
O que você foi fazer lá?
O que você fez com os seus traumas?
E os seus medos?
Onde é que está o seu pânico e pesadelo?
Nos fez acreditar que precisava de ajuda, atenção.
Pagamos médicos, tratamentos!
Para quê? Sua sem-vergonha!
Raquel quase não ouvia o que Alice falava.
Ela ensurdeceu em razão do nervosismo e nem conseguia se defender.
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:16 am

- Eu disse ao seu irmão que todo aquele trauma que você apresentava era mentira!
Explique-se agora!
Hoje ele viu com os próprios olhos!
- Marcos... - aturdida e intimidada, tentou dizer.
- Cale a boca, Raquel! - gritou Alice.
Eu e seu irmão vimos quando ele a trouxe de carro agora há pouco.
Eu vi, com meus próprios olhos, você indo ao apartamento do Alexandre.
Foi assim:
eu estava com a Rita no shopping, nós vimos vocês dois lá na praça de alimentação, sentados e conversando muito à vontade.
Vocês estavam abraçados!
A Rita ainda me disse:
"Esse cara é o maior safado!
Usa uma garota, depois outra...
Agora ele vai levá-la para o seu apartamento, você quer apostar?"
Ela ainda me revelou:
"Você sabia que a Raquel está grávida?".
Eu me assustei e ela disse:
"A essas alturas, o Alexandre está convencendo-a a tirar o filho".
Não demorou muito e vocês saíram abraçadinhos. Negue!!!
- Isso é verdade, Raquel?! - perguntou o irmão.
Com os olhos banhados em lágrimas, Raquel não dizia nada e Alice continuou:
- Eu fui com a Rita até o estacionamento.
Vimos vocês saindo.
Entrei no carro da Rita e, a convite dela, seguimos os dois até o apartamento.
Nem acreditei quando vi você entrando naquele prédio.
A Rita ainda avisou que há tempos vocês estão se envolvendo.
Fora isso ela me falou muitas coisas que a vê fazer desde quando começou a trabalhar lá.
Agora eu pergunto:
onde estão os seus medos e traumas?
- Não posso acreditar que você nos enganou esse tempo todo, Raquel! - afirmava o irmão desolado, pendendo com a cabeça negativamente, enquanto se apoiava no encosto da cadeira.
Raquel ficou paralisada, atónita.
E em choque não conseguia falar.
Erguendo-se, ficando na frente de sua irmã, Marcos perguntou calmo e quase friamente:
- O que Alice contou é verdade?
Você foi até o apartamento desse moço e ficou lá até agora?
- Eu fui, mas... - tentou explicar-se com voz fraca e coagida.
Interrompendo-a, com modos bruscos, o irmão pediu exigente:
- Quero que vá embora desta casa.
Raquel ficou incrédula.
Paralisada, não saiu do lugar e Marcos gritou:
- Agora!!!
A moça não tinha palavras.
Ela tremia enquanto as lágrimas, antes abundantes, agora se escassearam.
O irmão virou as costas e foi para outro cómodo.
Enquanto Alice, com sorriso cínico, estampava na face um ar de vitória.
Raquel, sem saber o que fazer, estava sem forças para enfrentar novamente a dura realidade do abandono.
Seu coração batia acelerado, dolorido e triste.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:16 am

Encarando a cunhada que, com ar de desdém, fitava-a quase sorrindo, usou suas últimas forças e falou firme para Alice:
- Você não perde por esperar.
Um dia você vai se lembrar de tudo o que está fazendo comigo hoje, porque eu tenho certeza de que ainda vai passar por situação igual.
Virando as costas, carregando consigo somente sua bolsa, que continha alguns documentos, e a roupa do corpo, Raquel deixou a casa de seu irmão sem saber para onde ir.
Passou horas caminhando sem rumo e os pensamentos conflituantes a deixavam mais confusa, atordoada.
Ela não acreditava no que estava acontecendo, não sabia o que fazer.
Seu abalo era tanto que nem sentia a garoa fina que a molhava toda.
Aos poucos, Raquel parecia não saber o que se passava, a perturbação súbita intensa desequilibrou-a mentalmente, mas de forma parcial.
Ela não se lembrava de toda a discussão e acreditava ter perdido a consciência daqueles últimos instantes vividos.
Ela caminhava automaticamente e estava em choque, desorientada e sem rumo.
Naquele mesmo instante, Alexandre, já deitado em sua cama, nem de longe podia imaginar o que estava acontecendo.
Ele começou a lembrar das dificuldades de Raquel e se preocupava.
"Como poderiam existir pessoas tão sórdidas e baixas como Rita, Alice e Vagner para inventar tudo aquilo?", pensava.
"Como eu pude acreditar naquela mentira tão infantil?
Raquel é doce, delicada...
Se bem que ela é diferente.
Sim, Raquel é diferente de todas as garotas que conheci.
Seu jeito, seu silêncio é como um mistério que me atrai e encanta."
Seus pensamentos vagavam deslumbrados.
Em alguns momentos, ele acreditava que jamais poderia se aproximar dela, em outros garantia que a teria junto a si.
Fora tão bom abraçá-la!
Beijar seus cabelos e confortá-la nos braços!
Como queria tê-la novamente!
Queria protegê-la e tirá-la daquele medo, daquela aflição extrema para apreciar, ainda mais, sua brandura.
Como estava feliz por ter conseguido chegar até ali.
Em dado momento, Alexandre elevou os pensamentos em uma prece agradecendo por tudo o que tinha.
"Deus! Obrigado pela confiança que me depositou para proteger Raquel, de poder encontrar palavras que a confortassem.
Obrigado por tê-la colocado no meu caminho, por ter me considerado digno de alguém tão nobre e fiel como ela, obrigado por me dar forças...
Dê-me nova oportunidade para que ela confie em mim.
Dê-me discernimento, sabedoria...
Proteja-a, Senhor.
Proteja a minha Raquel.
Envolva-a com amor e carinho.
Dê-lhe forças..."
A prece se seguiu.
Alexandre voltou a relembrar os breves momentos com Raquel e passou a sonhar acordado até que o sono o arrebatou, suave e definitivamente.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:16 am

- Alexandre... Alexandre, querido.
Em poucos minutos, o rapaz passava a ouvir seu nome pronunciado como que por uma vibração angelical, terna.
Ao dormir, no estado em que a alma se emancipou do corpo ou se desdobrou, Alexandre, ainda assonorentado, passou a se deslumbrar com a bela imagem que lhe surgia na percepção.
Era uma figura doce, que trazia um rosto lirial, um aspecto suave e uma postura majestosa, impressionantemente bela.
Estendendo-lhe a mão, esse ser, que como um anjo se portava, sorriu com candura.
Encantado, Alexandre pegou-lhe a mão com cuidado e, olhando-a, sentiu como se um bálsamo sereno o envolvesse todo.
Ele se deixou largar naquele êxtase maravilhoso, indescritível.
Aquele ser passou-lhe carinhosamente a sua mensagem com brandura:
- Meu querido, que bom tê-lo!
Não foi fácil chegar onde está.
Temos conhecimento disso.
No entanto, querido Alexandre, sabemos que é a porta estreita que nos conduz ao envolvimento sublime, à reparação e à harmonização necessária.
Querido filho, peço-lhe a paciência, a tranquilidade nas acções e a perseverança no bem.
Eleve os pensamentos nos momentos difíceis e tenha a certeza do amparo.
Não duvide. Procure o conhecimento para compreender, aceitar e se elevar diante dos factos.
Se deseja respostas, busque-as você mesmo através do estudo sério.
Conheça Jesus!
Estude o Seu Evangelho. Tenha fé.
Diante das turbulências, renuncie ao fácil, à acomodação.
Seja sensato para conseguir separar o bom do mau.
Agora descanse. Restaure as energias para se fortalecer.
Nós o amamos! Estaremos sempre com você!
Alexandre nada dizia, parecendo acostumado àquele envolvimento sublime.
Eram suas preces e sua fé que o elevavam àquele envolvimento.
Seu silêncio parecia render culto àquele amor pela nobreza de seus sentimentos.
No estado de sono, a alma encarnada dispõe de liberdade e actividade, pois quando o corpo se encontra em repouso, não necessita da mesma e esta, com liberdade parcial, frequentemente se liga aos espíritos e até às assembleias que possuem o seu nível moral, suas afinidades e seus objectivos; quando são os mesmos.
Encarnados que cultivam a prece sincera, pensamentos bons, conversação salutar e a tudo mais que inclinem para elevados valores morais, quando dormem, procuram se reunir com os que lhe são superiores, se instruem, se elevam e trabalham para o bem.
Mesmo não tendo recordações sobre esses ocorridos durante o sono, os conselhos salutares recebidos surgirão no momento oportuno, como ideias exactas para se equilibrar diante da situação, ou sentir o que poderá fazer de melhor.
Assim também acontece com aqueles que são egoístas, maldosos, que desprezam o bem, o bom ânimo e os valores morais elevados; esses, em estado de sono, vêem-se emancipados do corpo e buscam assembleias, sociedades ou amigos no plano espiritual com os quais comunguem "doutrinas vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que as que professam", como nos ensina a questão 402 de O Livro dos Espíritos.
Todo o tempo que tiramos para o repouso do corpo físico, seja para um simples cochilo, seja para um sono profundo, entramos em contacto com companheiros espirituais que influenciam imensamente nossa vida e nossas experiências.
"Dormir para o bem ou dormir para o mal" depende somente de nossas opiniões, acções, pensamentos e práticas quando "acordados".
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:17 am

As questões de número 400 a 418 de O Livro dos Espíritos nos explicam muito bem sobre a emancipação da alma e as visitas que podemos ter ou fazer durante o sono do corpo físico, bem como os sonhos que, às vezes, recordamos.
Enquanto isso, Raquel chegava caminhando devagar até uma praça.
Com o coração descompassado, atordoada ainda, Raquel estava alheia e sem se importar com mais nada.
Desalentada, sentou-se em um banco, sem reparar os frequentadores do lugar, parecendo incapaz de ver e ouvir.
Minutos ali e um travesti, que a observava desde a sua chegada, incomodou-se com a presença da moça.
Amigos espirituais, que foram designados para auxiliar Raquel, agiam naquele instante fazendo com que aquele irmão pudesse ter compaixão da moça e se sensibilizar com as suas dificuldades.
Eles procuravam envolvê-lo, mas não era fácil.
Raquel nada notou até o travesti dizer:
- Por que não dá o fora daqui?!
Esse lugar não é pra você!
Angustiada, Raquel ergueu vagarosamente o olhar, exibindo um semblante extenuado.
Suas mãos estavam trémulas, geladas, aliás, todo o seu corpo tremia.
Seguindo o rapaz com o olhar, pois ele enervado andava de um lado para outro a examinando, Raquel, com voz fatigada, explicou:
- Desculpe-me, não tenho pra onde ir.
- Se vira!
- Meu irmão me tocou de casa... Fui roubada...
Após poucos segundos, abaixando o olhar, disse, quase sussurrando:
- Tenho vontade de me matar, mas nem sei como.
O olhar de Raquel prendia-se em ponto algum do chão, enquanto as lágrimas caíam abundantes.
O rapaz, de súbito, sentiu um arrepio por todo o corpo ao ouvir aquilo, que o impressionou imensamente.
- Credo, menina!
Pare com essa história de morrer!
Cruzes!!! - respondeu o moço, horrorizado fazendo o sinal-da-cruz.
Depois de observá-la um pouco, ele começou a se apiedar do estado de Raquel.
Ela trazia o rosto machucado e a leve blusa de frio rasgada.
A garoa intensa, que caía pouco antes, a deixou toda molhada e naquela hora fazia muito frio.
Compadecido, perguntou:
- Você não tem nenhum namorado? Uma amiga?
Raquel ficava paralisada e parecia não ouvi-lo.
Seu olhar continuava perdido.
Menos agitado, o rapaz perguntou:
- Qual é o seu nome?
- Raquel - respondeu automaticamente.
- Olha, menina, esse não é um bom lugar para você ficar.
Aqui, vai acabar arrumando encrencas, acredite!
Você tem que ligar para alguém.Tem que cair fora daqui. Entendeu?
Raquel, olhando-o sem expressão alguma, murmurou:
- Não sei o que fazer.
Não tenho para onde ir.
Não tenho como avisar alguém...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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