EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

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EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:09 pm

EM BUSCA DO AMANHÃ
ELISA MASSELLI

SURPRESA
Como acontecia já há muito tempo, Lia acordou, olhou o relógio e, rapidamente, levantou-se.
Nossa! Hoje dormi demais, também, depois do jantar e daquela bomba que Raquel soltou, demorei muito para dormir.
Foi até o banheiro, voltou, trocou de roupa e, apressada, passou pela sala de refeições.
Viu que a mesa do café estava colocada.
Quando entrou na cozinha, Cleide estava junto ao fogão.
- Está tudo pronto, Cleide?
- Está dona Lia, mas a dona Raquel ainda não veio para tomar café.
Lia olhou para o relógio pendurado na parede, disse:
- Ela nunca dormiu até tão tarde.
Depois do jantar de ontem, deve estar cansada.
Vou até o seu quarto para ver o que está acontecendo.
Assim dizendo, sob o sorriso de Cleide, saiu da cozinha.
Chegou junto à porta do quarto de Raquel e, antes de entrar, bateu levemente.
Não obteve resposta. Preocupada, abriu a porta.
Raquel estava deitada na mesma posição de sempre.
Aproximou-se e falou baixinho:
- Acorde, Raquel, já está tarde.
Você disse que íamos a algumas lojas para fazermos compras.
Não obteve resposta.
Preocupada, tirou o lençol que cobria Raquel.
Ela estava branca como cera.
Percebeu que ela estava morta.
Sem saber o que fazer, começou a gritar.
Cleide e os outros empregados da casa ouviram e correram para o quarto de Raquel.
Assim que entraram, encontraram Lia que chorava desesperada.
- O que aconteceu, dona Lia?
- Ela está morta, Cleide! Morta!
- Como morta?
- Não sei como, só sei que está morta!
- Será que ela teve um ataque do coração?
- Não sei Cleide, como vou saber o que aconteceu?
- Ela tinha algum problema no coração?
- Não, Cleide, não que eu saiba, não, mas você conhece Raquel, nunca demonstrou estar tendo algum tipo de problema!
- Meu Deus do céu, o que a gente vai fazer, dona Lia?
- Não sei, ou melhor, telefone para os meninos e para o Martin, eles saberão o que fazer.
- Vou fazer isso agora mesmo.
Cleide saiu do quarto.
Lia, chorando, ficou ao lado de Raquel que parecia dormir.
Só se percebia que estava morta pela cor de seu rosto.
Cleide, tremendo muito, pegou o telefone e o primeiro número que discou foi o da casa de Moacir.
Quem atendeu foi Joice.
- Dona Joice!
Preciso falar com o Moacir!
- O que aconteceu, Cleide?
Pare de chorar! Parece que está muito nervosa!
- Estou sim. A dona Raquel está morta!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:09 pm

- O quê?
- Isso mesmo!
Ela demorou em vir tomar o café, a dona Lia foi até o seu quarto e ela está morta!
- Como isso aconteceu?
- A gente não sabe!
Por favor, dona Joice, chame o Moacir!
- Está bem. Vou fazer isso, espere um pouco.
Joice ia saindo da sala, quando Moacir saiu do banheiro e, ainda segurando uma toalha, notou, pela expressão do rosto dela, que alguma coisa havia acontecido:
- O que aconteceu, Joice?
Quem está no telefone, outro agiota?
- Não, Moacir! Não é nada disso!
A Cleide está no telefone...
- A Cleide? Por que ela está telefonando a esta hora da manhã?
- Ela está muito nervosa, disse que sua mãe foi encontrada morta!
- O quê?
- Foi o que ela disse...
Moacir correu e pegou o telefone da mão de Joice.
Desesperado e assustado, perguntou:
- O que aconteceu, Cleide?
Ela não conseguia falar, só chorava.
- Pare de chorar, conte o que aconteceu!
Com muito custo, ela conseguiu se controlar:
- Sua mãe está morta...
- Como? Onde?
- A dona Lia foi chamá-la para o café e a encontrou morta...
- Meu Deus do céu! Já avisou o Marcos?
- Não! Ele não está em casa!
- Como não está em casa?
- Não sei, assim que sua mãe foi encontrada, fui até o quarto dele, mas ele não está lá e a cama não foi desfeita.
- Ele dormiu onde?
- Não sei Moacir.
- Está bem, estou indo para aí!
- Venha logo, dona Lia está desesperada.
- Estou indo!
- Enquanto eu não chegar, chame o Martin.
- Está bem.
Moacir desligou, colocou o telefone de volta no gancho.
Olhou para Joice que, como ele, não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Como isso aconteceu, Moacir?
Será que ela teve um infarto?
- Como vou saber.
Ela nunca comentou a respeito de estar doente, mas conhece dona Raquel, não duvido de que ela soubesse da doença e não quis nos alarmar.
- O que vai fazer agora?
- Não sei Joice! Marcos não está em casa.
- Onde ele está?
- Não sei. Depois de ontem, com aquilo que aconteceu no jantar, fera esperado que ele fizesse alguma coisa...
- Tem razão, mas precisamos encontrá-lo!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:10 pm

- Vai ser encontrado.
Vou me trocar para ir com você.
- Está bem. Também vou me vestir.
Saíram da sala e foram ao quarto.
Enquanto se vestiam, Moacir perguntou:
- Está feliz, Joice?
- Feliz, por que, Moacir?
- Não era isso que queria?
Não disse que só a morte da minha mãe resolveria a nossa situação?
- Eu disse e ainda acho, mas não estou feliz nem esperava que isso acontecesse.
- Mas aconteceu!
Suas preces foram ouvidas!
Ela está morta!
- Não fale assim, Moacir.
Na realidade, eu não queria que isso acontecesse.
Falei aquilo por falar.
- Não, Joice, você falou o que sentia, mas agora não é hora de discutirmos isso.
Precisamos ir até a casa da minha mãe e ver como estão as coisas.
Mais tarde conversaremos sobre isso e outras coisas também.
Joice ouviu e resolveu ficar calada.
Somente concordou com a cabeça. Foram até a sala.
Joice disse à babá:
- Precisamos sair Fátima.
Minha sogra foi encontrada morta.
Estamos indo até lá.
Fátima, como todos, recebeu a notícia, espantada:
- Morta? A dona Raquel está morta?
- Está, Fátima.
- O que aconteceu?
- Não sabemos.
Por isso estamos indo até lá.
Não conte às crianças.
Assim que voltarmos, eu e o Moacir contaremos.
Siga o dia normalmente.
Se perguntarem, diga que tivemos que sair.
- Está bem, senhora. Vá com Deus.
Joice apenas sorriu e foi encontrar Moacir, que já estava na garagem, esperando-a, com o carro ligado.
Entrou no carro.
Ele acelerou e, rapidamente, saiu da garagem e foi em direcção à casa de Raquel.
Nesse mesmo instante, Cleide telefonava para Martin.
Quem atendeu foi Lídia.
- Alô!
- Alô, dona Lídia, é a Cleide.
- Cleide? O que aconteceu para telefonar a esta hora da manhã?
- A dona Raquel foi encontrada morta...
- O que aconteceu?
- Não sabemos!
Ela demorou em vir tomar o café, a dona Lia foi até o seu quarto e encontrou-a morta.
A gente acha que foi um enfarte...
Lídia, tremendo, olhou para Martin que estava ao seu lado.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:10 pm

- A Raquel foi encontrada morta, Martin.
- Morta, como?
- A Cleide não sabe. Elas acham que foi um infarto.
- Não pode ser! Ela não tinha problema algum no coração!
- Não sei Martin.
Estou repetindo o que a Cleide disse.
Martin pegou o telefone:
- Como isso aconteceu, Cleide?
- Não sei doutor.
Ela está morta lá no quarto...
- Está bem. Pare de chorar.
Estou indo até aí.
Desligou o telefone, olhou atónito, para Lídia, que olhava firmemente para ele.
- O que você fez Martin?
- Não estou entendendo essa pergunta.
O que acha que fiz?
- Não sei. Ontem você disse que havia feito algo e que hoje todos saberiam...
- Está dizendo que matei a Raquel?
- Não sei. Estou perguntando o que você fez ontem.
- Não matei a Raquel!
Não sei o que aconteceu!
Nada tenho a ver com essa morte! Você está louca, jamais eu faria isso!
- Não sei Martin. Ontem, você estava desesperado e disse que ia fazer algo e que, hoje, todos descobririam...
- Realmente fiz algo, mas não matei Raquel.
Jamais faria isso! Foi à melhor amiga que alguém poderia ter!
- Estou preocupada, Martin.
Se você fez mais essa loucura, está perdido para sempre.
- Está louca, Lídia, não matei Raquel! - ele gritou.
- Tomara que não, Martin, tomara que não.
- Agora não é hora para discutirmos!
Estou indo para a casa de Raquel.
Quer vir comigo?
- Claro que vou.
Está bem, não vou falar sobre isso, mas estou muito preocupada, Martin... Estou mesmo...
Ele, parecendo não lhe dar atenção, saiu para a garagem, ligou o carro e saíram rapidamente.
O primeiro a chegar à casa de Raquel foi Moacir.
Assim que entrou, correu para o quarto da mãe.
Ainda da porta, viu Raquel deitada na posição de sempre.
Parecia dormir. Ao seu lado, Lia sentada em um pequeno banco, com carinho e chorando, segurava a mão da amiga.
Ele se aproximou e, gaguejando, perguntou:
- O que aconteceu, dona Lia?
- Não sei meu filho.
Ela demorou em se levantar e ir tomar o café, estranhei, vim até aqui e a encontrei da maneira como está.
Ele se aproximou da mãe, abaixou-se, colocando sua cabeça sobre o coração dela, e, chorando, perguntou:
- O que aconteceu, mãe?
Beijou o rosto da mãe e ficou assim por um bom tempo.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:10 pm

Joice também chegou e, ao ver aquela cena, começou a chorar.
Aproximou-se do marido, colocou a mão sobre o ombro dele, mas permaneceu calada.
Sabia que aquele momento era importante para ele.
Estavam assim, quando Martin e Lídia também chegaram.
Martin ficou parado.
Movido pela emoção, não conseguiu emitir um som.
Olhou para Lídia e viu que ela, sim, chorava.
Lídia, sem conseguir se mover, pensando, se perguntava:
O que você fez Martini.
Martin continuou parado junto à porta, sem coragem de entrar.
Lídia entrou, aproximou-se e tocou no braço de Moacir, que se voltou e viu Martin.
Correu para ele e, abraçando-o, perguntou:
- Você sabe o que aconteceu?
Martin olhou para Lídia e respondeu:
- Claro que não sei Moacir.
Como poderia saber?
- Foram sempre muito amigos.
Sei que minha mãe não tinha segredos para você.
Sabia se ela tinha algum problema no coração?
Por isso ia se afastar da empresa?
Martin, soltando-se do abraço e, olhando primeiro para Lídia, depois para Moacir, respondeu:
- Não, Moacir. Ela não tinha problema algum de saúde, não que eu soubesse.
Nunca fez comentário algum!
Pelo contrário, estava muito bem, disse até que queria viajar!
- Não pode ser Martin.
Ela devia saber e só não nos contou para que não nos preocupássemos.
Novamente Martin olhou para Lídia, que chorava sem parar.
- Pode ser Moacir... Pode ser.
Ela sempre foi independente e, se alguma coisa como essa estava acontecendo, se soubesse que tinha uma doença grave, provavelmente não contaria a ninguém, muito menos a vocês, seus filhos, a quem sempre quis preservar de sofrimentos.
Lídia não suportou, chorando, saiu dali.
Assim que entrou na sala, sentou-se em um sofá que ficava em frente a um grande vitrô.
Sempre chorando, ficou olhando o jardim, que, por ser primavera, estava todo colorido com rosas de todas as cores e tamanhos.
Rosas sempre foram às preferidas de Raquel.
Como você pôde fazer uma coisa como essa Martin?
Como pôde se esquecer de tudo o que aprendeu?
E agora, como vai ser? O que vai nos acontecer?
Meu Deus, não nos abandone em uma hora como esta.
Martin, embora preocupado, tentando não demonstrar o que sentia, perguntou:
- Marcos foi avisado, Moacir?
- Não! Ele não passou a noite em casa!
Não sabemos onde está.
- Como não sabem?
- Depois que ele saiu, ontem à noite, não voltou mais.
Precisamos encontrá-lo, Moacir, para que possamos tomar as providências necessárias para o enterro.
- Tem razão, Martin, não havia pensado nisso.
Nesse mesmo instante, Marcos chegou, entrou pela alameda que levava até a garagem, estranhou.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:10 pm

O que Martin e Moacir estão fazendo aqui em casa tão cedo?
Estacionou o carro e entrou.
Lia que cedeu seu lugar a Moacir e que estava sentada em um sofá na sala, ao ver Marcos entrar, levantou-se e foi ao seu encontro.
- O que aconteceu, dona Lia?
Por que Moacir e Martin estão aqui em casa a esta hora da manhã?
- Sua mãe está morta, Marcos...
- O quê?
- Isso que ouviu.
- Como isso aconteceu?
Lia contou. Marcos, transtornado, perguntou:
- Ela estava doente?
- Não que eu saiba.
A não ser o dia em que fingiu aquele desmaio, ela nunca ficou doente ou consultou um médico.
Marcos, em silêncio e com lágrimas nos olhos, afastou-se e foi até a parede onde estava a fotografia do pai.
Ficou ali, olhando para a fotografia, pensando:
Eu não o conheci, pai, mas nunca senti tanto sua falta como estou sentindo agora...
Francisco, que estava ali, sorriu e olhou para as duas entidades que o acompanhavam, perguntou:
- O que podemos fazer por ele?
A mulher respondeu:
- Neste momento, apenas enviar luzes de paz e de amor.
Lia voltou até a porta do quarto de Raquel.
Moacir e Martin continuavam ali.
Voltou-se e, vendo Marcos em frente à fotografia do pai, aproximou-se:
- Como você está Marcos?
Ele olhou-a e, abraçando-se a ela, respondeu:
- Não sei, dona Lia...
Não sei o que estou sentindo. Ontem, após o jantar, odiei minha mãe.
Ela destruiu minha vida, mas, agora, vendo-a assim, não consigo acreditar que esteja morta...
- Também não posso acreditar, mas ela está morta, sim, Marcos, e isso não têm volta.
Sabe que considero você e seu irmão como se fossem meus filhos.
Por isso, preciso fazer uma pergunta:
- Que pergunta?
- Você teve a ver alguma coisa com essa morte?
Fez alguma coisa para que isso acontecesse?
- Por que está me fazendo essa pergunta?
Logo a senhora que, como acabou de dizer, me considera como se fosse seu filho e, posso dizer também a considero como minha mãe!
Sabe que eu, embora tenha odiado minha mãe e tenha desejado, mil vezes, que ela morresse, jamais faria qualquer coisa para prejudicá-la, muito menos matá-la!
- Ainda bem, meu filho.
Tudo precisa ser esclarecido, para que possamos continuar nossas vidas.
Quem sabe, agora, você possa acertar sua vida, procurar Marília e tentar ser feliz.
- Agora é tarde, dona Lia.
- Por que está dizendo isso?
- Ontem, depois que saí daqui, fui até a casa de Lena para contar o que minha mãe havia feito e dito, na esperança de que ela me contasse onde Marília está, mas isso não aconteceu...
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:11 pm

- Por que, mesmo após saber a verdade, ela se recusou a dizer onde a filha está?
- Não a encontrei e a mulher que mora na antiga casa dela disse que já mora ali há mais de um ano.
Disse que elas foram para o interior, mas não soube dizer para onde.
Eu a perdi para sempre...
- Marcos! Que bom que chegou!
Marcos olhou em direcção à voz e viu Moacir que se aproximava com os braços abertos.
Os dois irmãos se abraçaram.
Moacir chorava sem parar, enquanto Marcos, com os olhos presos no espaço, não demonstrava emoção alguma.
Separaram-se do abraço.
Martin, também emocionado, disse:
- Estamos todos surpresos, mas precisamos passar para a acção.
Os irmãos olharam para ele, que continuou:
- Precisamos providenciar o sepultamento.
- Não sei como se faz, Martin.
Nunca precisei enterrar alguém.
- Também não sei Moacir, mas é preciso.
Marcos, parecendo não estar ali, se afastou, saiu da casa e foi para o jardim.
Moacir e Martin olharam-se.
- Ele está estranho, Moacir.
- Você o conhece, Martin.
Ele foi sempre assim.
Não liga para nada que acontece ao seu redor.
Desde Marília, só pensava em si mesmo.
Agora, depois de ontem, precisamos dar razão a ele.
Acho que nós teremos de tomar as providências necessárias.
- É isso mesmo, precisamos nos apressar.
Foram até Lia, Joice e Lídia, que conversavam.
Martin disse:
- Precisamos sair ir até a funerária para providenciar o sepultamento.
Não sabemos quanto tempo vamos demorar.
Beijaram as esposas e saíram.
Elas continuaram conversando.
Marcos continuou em pé, olhando para a fotografia do pai.
Lia voltou para junto de Raquel e ficou olhando para a amiga de tantos anos.
Algum tempo depois, Moacir e Martin voltaram:
- Para conseguirmos a sepultura, precisamos de um atestado de óbito.
Como Raquel morreu em casa, temos que conseguir um atestado junto a um médico.
Do contrário, ela será levada para o Instituto Médico Legal, onde será feita uma autópsia.
Lia, a Raquel tem algum médico com quem se consultava?
- Não, Martin.
Ela nunca acreditou muito em médicos e, como sempre teve boa saúde, nunca precisou deles.
Há muito tempo, ela apresentou dificuldades para dormir e se consultou com um que lhe receitou um remédio manipulado.
Desde esse dia, ela começou a tomar e dizia que estava bem.
- Você sabe o nome desse médico?
Ele poderia dar o atestado.
- Não lembro. Ela foi sozinha.
- Não tem a receita?
- Não, esse tipo de remédio não precisa de receita. Para comprá-lo, basta apresentar o vidro anterior.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:11 pm

- Será que na agenda dela não tem o nome desse ou de outro médico?
- Podemos ver, vou buscar.
Lia saiu e voltou, logo depois, trazendo a agenda.
Olharam e encontraram o nome de um médico. Telefonaram, mas foram informados de que há muito tempo ele havia morrido. Martin, desolado, disse:
- Esse médico está descartado.
Ao ouvir aquilo, Joice disse:
- Tem o pediatra das crianças.
Talvez ele possa nos dar o atestado ou nos indicar algum amigo seu.
- Tem razão, Joice, vou telefonar para ele.
Moacir telefonou, o pediatra deu o nome e número do telefone de um amigo seu.
Imediatamente, Martin telefonou, explicou o que havia acontecido e o médico se comprometeu em ir até a casa de Raquel.
Eles ficaram esperando por um longo tempo.
Enquanto eles esperavam, conversaram sobre Raquel e sua vida.
Marcos, alheio ao que estava acontecendo, continuou no jardim, sentado em um banco, onde Raquel sempre ficava quando estava com algum problema.
Eles não estranharam, pois Marcos, desde Marília, sempre foi calado.
Deixou de gostar da vida.
O médico chegou e foi levado até o quarto de Raquel, onde ela permanecia da maneira como fora encontrada.
Após examiná-la, preocupado, disse:
- Não posso dar um atestado.
- Por que não, doutor? - Moacir, admirado, perguntou.
- Pelo telefone, me foi dito que ela havia tido um infarto, mas, depois de examinar e ver estas manchas em seu corpo, receio dizer que não foi isso que ocorreu.
- Se não foi um infarto, o que foi que aconteceu?
- Não sei, tenho um palpite, mas não tenho certeza.
Por isso, não posso dar o atestado.
Ela precisa ser submetida a uma autópsia.
- O que o senhor está dizendo?
- Estou dizendo que não posso dar o atestado.
Recomendo que telefonem para a polícia.
Ela saberá o que fazer. Sinto muito.
O médico se despediu e foi embora.
Assim que ele saiu, olharam-se.
Martin disse:
- Bem, precisamos seguir o que o médico disse.
Vou telefonar para a polícia e explicar o que aconteceu.
Joice levantou-se do sofá em que estava sentada e, parecendo preocupada, disse:
- Talvez não seja preciso, Martin.
- Como não, Joice?
Raquel precisa ser sepultada e isso só será possível se houver um atestado de óbito que o médico não quis dar!
- Existem outros médicos.
Podemos tentar encontrar algum.
Uma autópsia é muito demorada e traumatizante...
- Tem razão, além do mais, não acho necessária.
Esse médico deve estar enganado.
Ela só pode ter tido um infarto.
- Também acho Moacir, mas, mesmo assim, acho que vai ser necessário.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:11 pm

Marcos, que entrava, ao ouvir o que Lídia falou, perguntou:
- Por que está dizendo isso, dona Lídia?
Por que acha que é necessário?
Acha que minha mãe foi assassinada?
- O que está dizendo, Marcos? Está louco?
- Não, não estou louco, Joice!
Por que acham que o médico não quis dar o atestado?
Ele percebeu que alguma coisa estava errada e não quis se comprometer.
Ele pareceu achar que minha mãe foi assassinada por um de nós.
- Está maluco? Quem de nós faria isso?
- Qualquer um de nós teria motivo para isso.
- O único que me vem à mente é você, Marcos.
Você, ontem à noite, saiu daqui com ódio mortal dela!
- Tem razão, Moacir.
Saí daqui com muito ódio, mas não a matei!
Enquanto que todos vocês, embora não demonstrassem, queriam que ela morresse!
- Está louco, mesmo!
- Não estou louco!
Vocês acham que eu não ligo para nada, mas não é assim!
Sei de tudo o que acontece na empresa!
Sei de todo o dinheiro que vem sido tirado, roubado da empresa!
Sei quem são as pessoas que estão fazendo isso!
Lia que permanecia ao lado de Raquel, ao ouvir os gritos, levantou-se, foi até onde eles estavam e gritou mais alto ainda:
- Parem com isso!
Vocês ainda não sabem o que aconteceu realmente e já estão se acusando!
Não podem continuar assim, são irmãos, não é isso que Raquel queria que acontecesse!
Vocês sabem o quanto ela lutou para preservar a família unida!
Marcos e Moacir olharam para ela.
Depois, Marcos olhou para todos e se afastou.
Voltou para o jardim e para o banco em que estivera sentado todo o tempo.
Moacir olhou para Joice, que abaixou a cabeça.
Lídia segurou e apertou o braço de Martin.
Lia, chorando, voltou para junto de Raquel.
- Não adianta ficarmos brigando sem saber o que, realmente, aconteceu.
Vamos chamar a polícia.
Como o médico falou, ela saberá o que fazer.
Depois que obtivermos a resposta, poderemos discutir a respeito.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:11 pm

O INÍCIO
O bairro era novo.
Uma grande área foi dividida em pequenos lotes e vendida.
Por ser distante do centro, esses lotes tinham um preço bem baixo, o que facilitou a pessoas de pequena renda a sua compra e a construção de suas casas.
Assim, um bairro começou a se formar.
Entre as pessoas que construíram suas casas, estavam os pais de Raquel.
Ela era ainda criança, tinha apenas oito anos e, junto com os irmãos, começou a viver ali.
Embora seus pais não tivessem recursos, a vida dela, como criança, foi feliz.
Havia um vasto campo onde as crianças corriam, brincavam.
A escola ficava longe, precisavam andar mais de meia hora, mas aquela pequena viagem de todos os dias era encarada como uma brincadeira, uma aventura.
O tempo foi passando e, aos poucos, o bairro já tinha muitos moradores.
As casas eram simples, mas não havia tristeza, pois todos aqueles que moravam ali tinham as mesmas condições e viviam da mesma maneira.
O pai de Raquel trabalhava em uma fábrica de vidros e a mãe cuidava da casa e das crianças, que eram quatro.
Quando Raquel completou dezassete anos, a casa vizinha à sua foi vendida e outra família veio morar ali:
pai, mãe e um casal de filhos, uma moça, com dezanove anos, e um rapaz, com dezoito.
Seu nome, Francisco.
Ele estava servindo o exército.
Raquel, assim que o viu com a farda, ficou impressionada e comentou com Jandira, sua amiga:
- Ele é muito bonito...
O mesmo aconteceu com Francisco, assim que a viu, ficou impressionado.
Em pouco tempo, estavam namorando.
Francisco, antes de ir para o exército, trabalhava em uma marcenaria que ficava na Capital, onde a família morava, antes de se mudar para lá.
Francisco só acompanhou os pais, porque estava servindo o exército, mas sua intenção era a de voltar a morar na Capital e trabalhar na marcenaria.
Gostava daquilo que fazia e o dono da marcenaria mais ainda, pois era um bom marceneiro, responsável e criativo.
Quando Raquel completou dezoito anos, depois de muita insistência, os pais concordaram e eles se casaram.
A festa, embora simples, reuniu vários amigos e se estendeu quase a noite toda.
Raquel estava feliz.
No dia seguinte, partiram para a Capital.
Como o salário de Francisco era pequeno, alugaram um quarto e cozinha nos fundos de uma casa.
Assim que entraram, Francisco, beijando Raquel, disse:
- Esta casa é pequena, mas sei que vamos ser felizes aqui.
- Claro que vamos, Francisco!
A casa é pequena, mas é nossa!
Francisco continuou trabalhando na marcenaria.
Raquel cuidava da casa, mas não se sentia bem.
Sabia que Francisco, como todos os homens da época, não queria que ela trabalhasse.
Todo dinheiro necessário para casa devia vir do homem.
A mulher deveria cuidar da casa e dos filhos.
Para ela, o dia não passava, pois a casa era pequena e não tinha muito que fazer.
Ficavam várias horas ouvindo rádio ou lendo, coisa de que ela gostava muito.
Estavam casados há seis meses quando ela engravidou.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:12 pm

A felicidade foi imensa.
Raquel sentia que, daquele momento em diante, teria com quem se preocupar e os dias se tornariam mais curtos.
Faltavam três meses para a criança nascer.
Raquel estava ansiosa.
Naquele dia, Francisco chegou.
Assim que entrou, Raquel percebeu que ele estava diferente.
- O que aconteceu, Francisco?
- O patrão me chamou e disse que as coisas não estão boas.
Os pedidos diminuíram e ele precisava mandar alguns funcionários embora.
Disse que sentia muito, mas como eu e o Norberto recebemos o maior salário, demitiu-nos.
Entretanto, prometeu que, assim que as coisas melhorarem, nos contratará novamente.
Estou desesperado, Raquel. Como vai ser?
Embora não demonstrasse, Raquel também ficou desesperada.
Não sabia o que fazer ou dizer.
Meu Deus, o que vai acontecer?
Sei que Francisco precisa de uma palavra de ânimo, mas qual?
Não sei o que dizer. Os dias passaram.
Francisco, em vão, tentou encontrar outro emprego, mas a situação do país não estava boa.
Muitas empresas estavam fechando ou dispensando funcionários.
Raquel, embora estivesse também desesperada, fazia de tudo para incentivar Francisco.
Quando via que ele estava desesperado, dizia:
- Não fique assim, Francisco.
Vai aparecer algum emprego e você pode até ganhar mais do que ganhava.
- Não quero ganhar mais, Raquel, só quero ter um trabalho para poder sustentar a minha família.
É só isso que quero!
Vou receber algum dinheiro de indemnização, sei que vai dar para algum tempo, mas e depois, como vai ser?
Naquele desespero e ao ouvir aquilo, Raquel teve uma ideia:
- Francisco, você disse que vai receber um bom dinheiro da empresa?
- Vou sim. Não é muito, mas até eu conseguir um novo emprego, precisamos guardar.
- Por que você não pega esse dinheiro, aluga um galpão, compra algumas máquinas e começa sua própria marcenaria.
Você é um óptimo marceneiro, vai fazer sucesso!
- Não posso Raquel!
É o único dinheiro que temos!
Se essa marcenaria não der certo, como vamos fazer?
- Sei que esse é o único dinheiro que temos, mas o Norberto também não foi mandado embora?
- Foi. O que está pensando, Raquel?
- Ele também é um bom profissional.
Podemos conversar com ele e fazer uma sociedade, assim, nenhum dos dois terá de gastar todo o dinheiro e vocês podem ter o seu próprio negócio.
Francisco, calado, ficou olhando para ela.
Ela sabia que ele estava pensando a respeito, se não fosse assim, teria dito logo.
Depois de algum tempo, ele disse:
- Você pode estar certa, Raquel.
Se juntarmos o dinheiro, não gastaremos tudo e poderemos tentar abrir a nossa marcenaria. Talvez dê certo.
- Vai dar certo, Francisco!
Sinto que você não vai se arrepender!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:12 pm

- Não sei, não, mas é uma solução.
Vou pedir ao Norberto que venha até aqui e conversaremos a respeito.
- Peça para trazer a Lia.
Eles também são recém-casados, por isso é importante que ela esteja presente e dê sua opinião.
- Tem razão, vou fazer isso, agora mesmo.
Ele saiu e Raquel ficou nervosa e ansiosa, esperando sua volta.
Uma hora depois, eles chegaram.
Como ela havia sugerido, Lia também veio.
Sentaram-se em volta da mesa da cozinha e, enquanto Raquel preparava um café, Francisco contou a eles a ideia que tiveram.
Raquel, junto ao fogão, enquanto Francisco falava, olhava para a reacção deles.
Ela percebeu que Norberto ficou animado.
- Acho uma boa ideia, Francisco!
Com a nossa própria marcenaria, poderemos ganhar muito mais dinheiro e não precisamos gastar tudo o que temos.
Vamos tentar e ver o que acontece.
Raquel notou que Lia ficou o tempo todo ouvindo, mas calada.
Não estranhou, pois sabia que as mulheres tinham pouca força junto aos maridos.
Eram eles quem decidiam tudo. Francisco, assim como Raquel, também se animou.
- Vou conversar com Martin, ele acabou de se formar contador, poderá nos ajudar na abertura da firma.
- Faça isso, Francisco.
Vamos tentar e que Deus nos ajude.
- Ele vai nos ajudar, Norberto.
Tenho certeza disso.
- Você é muito confiante, Raquel.
Tomara que dê certo.
Raquel ficou calada, apenas sorriu.
Eles se despediram.
Raquel e Francisco foram à procura de Martin.
Como faltava pouco tempo para a criança nascer, Raquel estava pesada e tinha até dificuldade para caminhar.
Quando chegaram à casa de Martin, foram recebidos por sua mãe:
- Francisco, Raquel, que surpresa!
- Boa tarde, dona Catarina.
Podemos entrar, precisamos conversar com o Martin. Ele está?
- Claro que pode entrar Francisco.
Ele está tomando banho.
Entraram. Catarina entrou por um corredor e logo depois voltou:
- Avisei Martin de que vocês estão aqui.
Ele está terminando de tomar banho e vem em seguida.
- Obrigada, dona Catarina.
- Como você está grande, Raquel.
Para quando é o bebé?
- Faltam menos de dois meses.
Estou grande mesmo, acho que engordei além do normal.
- É assim mesmo, mas assim que a criança nascer, você vai voltar ao normal.
- Espero que sim, dona Catarina.
Martin, ainda com o cabelo molhado, entrou na sala.
- Fiquei surpreso quando minha mãe veio me avisar que vocês estavam aqui.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:12 pm

Antes de tomar banho, eu estava lendo os classificados de um jornal, procurando emprego, mas está difícil começar a trabalhar como contador.
Francisco, parece que você está preocupado e que você está ansiosa, Raquel.
O que está acontecendo?
Raquel estava mesmo.
Ela havia tido a ideia de abrir a marcenaria, mas, ao mesmo tempo, estava com medo, pois estavam empregando quase todo o dinheiro que tinham e, se não desse certo, ficariam em uma situação muito difícil.
A única coisa que a confortava era que as despesas seriam divididas com Norberto.
Martin ouviu com atenção o que desejavam.
Embora não tenha dito nada, também achou que eles estavam se precipitando.
Mesmo assim, comprometeu-se em ajudá-los:
- Está bem, vocês querem e eu vou abrir a empresa, mas devo lhes dizer que não tenho prática alguma.
Preciso me informar de como fazer.
Daqui a três dias, vou dizer se é possível que eu faça ou se precisarão encontrar outro contador mais experiente.
Não foi preciso.
Martin se informou e três dias depois foi até a casa deles.
- Eu me informei e não vejo problema algum para abrir a empresa.
Só preciso de alguns documentos.
Naquele mesmo dia, Francisco e Raquel foram até a casa de Norberto para lhes contar o que Martin havia dito.
Assim que chegaram, perceberam que alguma coisa estava acontecendo.
Embora se esforçassem para não demonstrar, parecia que Norberto e Lia estavam brigados.
Depois de Francisco contar o que Martin havia dito e o valor que precisava ser gasto, Norberto, olhando para Lia, um pouco sem graça, disse:
- Vocês vão me desculpar, mas não posso entrar na sociedade.
Raquel e Francisco se olharam.
Francisco perguntou:
- Por que não, Norberto?
Só assim poderemos ter uma empresa só nossa...
- Também pensei assim, mas Lia me fez ver que só temos esse dinheiro e que, se não der certo, ficaremos sem nada.
Como está difícil encontrar um emprego, não queremos imaginar o que pode acontecer.
Confesso que estou com medo.
Desanimado, Francisco disse:
- Talvez você tenha razão.
Acho melhor deixar isso para mais tarde.
É muito arriscado mesmo.
- Desculpe Francisco, mas Lia tem razão, não podemos arriscar o único dinheiro em algo que pode não dar certo.
- Tudo bem, Norberto.
Acho que tem razão.
Também vou pensar a respeito.
Não sei se vale à pena corrermos esse risco.
Desanimados, saíram dali.
Raquel percebeu que Francisco estava triste e preocupado.
Também ficou preocupada, mas, nesse exacto momento, sentiu a criança se mexer em sua barriga.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:12 pm

Pensou:
Também estou com medo, mas sei que é a única solução.
- Francisco, você não pode deixar se abater.
Embora eles não queiram, acho que vai ser bom e vai dar certo.
- E se não der, Raquel?
Se perdermos todo o nosso dinheiro?
Gastando só a metade, se acontecesse alguma coisa, se não desse certo, teríamos tempo de achar outra solução, mas se ficarmos sem dinheiro, como vamos fazer?
- Não sei o que responder Francisco.
Só sei que, se não fizermos agora, nunca mais teremos outra oportunidade.
O dinheiro que vai receber, sem que percebamos, será gasto e se você não encontrar outro emprego, ficaremos sem nada da mesma maneira.
Por isso, acho que você deve abrir a empresa, sozinho.
É um bom profissional, tenho certeza de que vai conseguir.
- Você pensa assim, mesmo, Raquel?
- Penso Francisco.
Nada mais pode ser feito.
Vamos nos arriscar e ver o que acontece.
- E se perdermos todo o dinheiro, Raquel?
- Isso não vai acontecer, Francisco, mas se acontecer, na hora certa, veremos o que fazer.
Por ora, vamos pedir ao Martin que abra a empresa.
Precisamos encontrar um galpão para alugar e ver as máquinas que precisamos comprar.
- Você está certa de que é isso que deve ser feito?
Será que não vamos nos arrepender?
- Não sei se vamos nos arrepender, mas é melhor o arrependimento por não ter dado certo, do que por não se ter tentado.
- Está bem, Raquel.
Vamos fazer isso e seja o que Deus quiser.
Foram até a casa de Martin.
Francisco, ainda preocupado, disse:
- Conversamos com Norberto, Martin, e ele não quer fazer a sociedade.
Está com medo de perder todo o dinheiro que tem.
- É uma pena, Francisco.
Estive pensando e acho que vocês têm alguma chance de que dê certo.
- Raquel também pensa assim.
Eu confesso que estou com um pouco de medo, mesmo assim, vamos arriscar.
Pode abrir a empresa somente no nosso nome e seja o que Deus quiser.
Martin, embora preocupado com a situação deles, disse:
- Seria melhor se a sociedade com Norberto tivesse dado certo, pois não precisariam gastar todo o dinheiro que têm, mas se querem mesmo se arriscar, estou disposto a ajudar em tudo o que puder.
Depois que saíram, Martin contou à mãe o que estava acontecendo.
- Que bom, meu filho, é o seu primeiro trabalho!
- É mesmo, mãe, e estive pensando em uma coisa.
- No quê?
- Já que tenho o primeiro trabalho, quem sabe se não daria certo montar o meu escritório de contabilidade.
A senhora sabe que quero me casar, mas que não tenho condições.
Com um escritório, talvez ganhe o dinheiro necessário para isso.
- Acho que Deus está usando a Raquel e o Francisco para ajudar você a começar.
- Acredita mesmo no que está dizendo, mãe?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 7:13 pm

- Acredito meu filho.
Já tive muitos momentos em que achei que não havia um caminho para eu seguir, que tudo estava perdido, mas logo acontecia algo ou alguém aparecia e a luz voltava e eu me encontrava novamente.
Raquel e Francisco procuraram você, em um momento em que você está perdido, sem saber o que fazer com o seu diploma.
Eles mostraram a luz, o caminho que deve seguir.
- A senhora acredita mesmo no que diz.
A senhora gosta mesmo dessa religião?
- Sim. Meus pais já seguiam o Kardecismo e eu fui criada aprendendo com eles.
Porém, você está enganado, não se trata de uma religião, mas sim de uma doutrina.
Um modo de se levar a vida, sabendo que somos responsáveis por tudo o que fazemos de bom ou de ruim.
Sempre tentei ensinar isso a vocês.
- Não entendi...
- Tudo o que fazemos Martin, seja da maneira como for, é exclusivamente responsabilidade nossa.
Somente nós responderemos por nossos actos.
Pensando assim, sempre procurei levar minha vida da melhor maneira possível.
Procurei, e acho que consegui não prejudicar ninguém.
Posso lhe dizer que estou feliz com a minha vida e com todas as oportunidades que Deus me deu.
Sou uma mulher feliz.
- Pensando assim, também posso dizer o mesmo.
Estou feliz com as oportunidades que tive, embora tenha consciência de que cometi alguns enganos.
- Enganos, erros e escolhas mal feitas são normais.
De acordo com aquilo em que acredito nada o que acontece é por acaso.
Tudo acontece como tem de ser.
- Pensando assim, nunca teremos culpa alguma do que acontece e o que disse a respeito de responsabilidade perde o valor.
- Ao contrário, sempre seremos responsáveis.
Nada sabemos ao certo, por isso, precisamos fazer o que o momento pede e seguir as intuições que sempre nos chegam.
- Assim fico preocupado, mãe, será que fiz o certo ou interferi em algo?
- Como disse, não sabemos, mas, depois de feito, não adianta se amargurar.
Se tiver como mudar uma atitude tomada, que depois nos pareceu errada, pode-se tentar, mas, se não puder ser mudada, precisamos continuar nossa vida.
No final, tudo volta ao seu lugar.
O que passou, passou se foi certo ou errado, já foi feito.
- É verdade, mãe.
O jeito é continuar vivendo e procurar errar menos.
- Isso mesmo, meu filho.
Assim que deve ser.
Martin providenciou os documentos necessários e a empresa foi aberta.
Enquanto isso, Raquel e Francisco encontraram um pequeno galpão e alugaram.
Compraram, também, as ferramentas e o material necessário para começar.
O dinheiro que tinham foi quase todo gasto, mas, embora com medo, estavam com o coração cheio de esperança.
Em uma manhã, ao se levantar, Francisco disse:
- Raquel, não consegui dormir esta noite.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:13 pm

- Por quê?
- Tive um sonho estranho.
- Que sonho?
- Eu estava em um lugar que parecia ser um escritório, só que diferente dos que conhecemos.
Eram claros e luminosos.
As mesas e armários tinham uma forma diferente.
Acordei e fiquei pensando nos móveis que vi e não consegui dormir mais.
Todos os escritórios têm mesas e armários pesados e escuros.
Têm um ar fúnebre.
Porém, se fosse ao contrário, se os móveis fossem claros, as salas dariam a impressão de ser mais amplas, o ambiente seria mais aconchegante e as pessoas que ali trabalham também se sentiriam melhor.
Você não acha?
Raquel pensou por um tempo, ficou imaginando uma sala de escritório clara.
- Nossa, Francisco, que boa ideia!
Você tem razão! Todos os escritórios têm mesmo aparência fúnebre!
- Estive pensando em alguns modelos.
Agora mesmo vou desenhar e você vai dar sua opinião.
Foi o que fez.
Pegou um caderno, sentou-se e começou a desenhar.
Em pouco tempo, tinha, diante de si, desenhos de mesas, cadeiras e armários, diferentes de tudo o que conheciam.
Ao ver os desenhos, Raquel vibrou:
- São lindos, Francisco.
Imagine um escritório com esses móveis, algumas cortinas e vasos de flores.
Todos se sentirão bem dentro dele!
Faça alguns para que possam ser mostrados.
- Também acho.
Só estou pensando em uma coisa.
- No quê?
- Você não acha estranho eu ter tido esse sonho?
- Estranho, por quê?
- Logo agora que, embora estejamos com esperança, não podemos negar que estamos com medo, também, eu sonhar com algo que pode mudar não só as nossas vidas, mas toda uma tradição?
- O que está pensando, realmente?
- Acho que esse sonho foi mandado para que possamos começar algo que vai dar certo, sim, Raquel!
Acho que estamos no caminho certo!
Acho que estamos sendo ajudados por Deus!
- Será, Francisco?
Será que esse sonho foi uma ajuda?
- Tenho certeza que sim!
Sinto que tudo vai dar certo e que esse dinheiro que estamos empregando para abrir a empresa vai render muito!
- Tomara Francisco, tomara que esteja certo...
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:14 pm

CONSTATAÇÃO
Francisco começou a trabalhar e se especializou em móveis para escritório.
Aproveitou o material que tinha e fez móveis iguais aos do sonho.
Tirou algumas fotos e foi visitar alguns escritórios.
As pessoas olhavam as fotos, mas tinham medo de mudar aquilo que já era usado há tantos anos.
Depois de muito andar, conseguiu a encomenda de uma mesa, um armário e algumas cadeiras.
Entrou em casa, feliz:
- Consegui Raquel!
Consegui a primeira encomenda!
Vou fazer móveis para um escritório que está sendo montado agora!
- Que bom Francisco!
- Estou feliz, mas também preocupado.
- Com o quê?
- Enquanto eu estiver trabalhando nesses móveis, não poderei sair para vender.
Quando estes estiverem prontos, não terei outros para fazer e não sei quanto tempo vai demorar em receber outra encomenda.
Para poder convencer o proprietário a comprar, dei um preço, cujo lucro não será muito...
- Eu poderia ajudar você.
- Como, Raquel?
- Enquanto você fabrica os móveis, eu poderia sair e tentar vender.
- Não pode Raquel!
Não vê como está pesada?
Falta pouco tempo para a criança nascer!
- Ainda falta um mês, Francisco.
- Não, Raquel!
Além de não poder sair de casa nas condições em que está não é certo a mulher trabalhar.
Eu sou o homem da casa e preciso dar a minha família tudo do que precisa.
- Que bobagem é essa que está falando, Francisco?
- Não é bobagem, Raquel!
Cabe ao homem sustentar sua família.
A mulher precisa ficar em casa e cuidar de tudo.
Nosso filho vai nascer e precisa que cuide dele.
Não se preocupe, não vai faltar nada a você nem a ele.
Fique tranquila, esperando a nossa criança.
Deixe o resto comigo.
- De certa maneira você tem razão.
Agora não posso me arriscar a sair de casa, mas, depois que a criança nascer, eu posso, sim, sair algumas horas e tentar vender seus móveis.
Eu, ajudando você, estarei ajudando a mim e a nossa criança que está chegando.
Quando tiver mais trabalho, vai ganhar mais, poderemos mudar desta casa e ter um quarto só para a criança.
Sinto que posso conseguir vender, Francisco.
Não se preocupe se é certo ou errado a mulher ajudar o marido.
Além do mais, não é você que quer quebrar a tradição?
Não é você que está tentando mudar a cara dos escritórios?
Francisco ouviu calado, o que ela dizia.
Depois, disse:
- Está bem.
Não quero brigar com você e não posso contratar um vendedor, não tenho dinheiro para isso.
Depois que a criança nascer, vamos ver se você terá tempo para sair e vender os nossos móveis.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:14 pm

Raquel abraçou o marido, sorrindo, disse:
- É por isso que amo tanto você, Francisco.
Sinto que tudo vai dar certo na nossa vida!
Naquela manhã, como fazia todos os dias, Raquel acordou, levantou-se e foi preparar o café.
Estava sentindo-se muito bem.
Francisco acordou em seguida, tomou o café, beijou Raquel e, pegando a bicicleta, foi para o trabalho.
O galpão ficava distante da casa em que moravam.
Ele levava mais de meia hora, de bicicleta, para chegar lá, mas não se importava.
Estava feliz por ser seu próprio patrão.
Assim que Francisco saiu, Raquel olhou em volta e pensou:
Esta cozinha é pequena e o quarto também.
Não sei onde vou colocar o berço do bebé.
Entrou no quarto e ficou olhando.
Bem, se trocar o guarda-roupa de lugar, trouxer para este lado, a cama para ali, do outro lado, embora um pouco apertado o berço vá caber.
Será por pouco tempo, tenho certeza, logo a empresa vai nos dar dinheiro para comprarmos a nossa própria casa e bem maior.
Estou bem, acho que consigo empurrar o guarda-roupa.
No mesmo instante, sem pensar muito, foi até o guarda-roupa e empurrou-o para o lado que queria.
Após empurrar alguns passos, sentiu uma forte dor nas costas.
A dor foi tão forte que teve de se deitar.
Sou mesmo uma louca!
Como fui fazer tanta força?
Devo ter dado um mau-jeito nas costas.
Ficou deitada por algum tempo e a dor, como que por encanto, desapareceu.
Levantou-se, olhou para o guarda-roupa que estava bem afastado da parede e sorriu:
Foi só um mau-jeito, mesmo.
Não sei como isso foi acontecer, eu estava muito bem...
Olhou para o guarda-roupa e, sorrindo, pensou:
Você vai continuar aí.
Não posso me arriscar a me machucar agora, quando falta tão pouco tempo para minha criança nascer.
Quando Francisco voltar, sei que vai brigar comigo e com razão, depois vai colocar você onde eu quiser.
Voltou para a cozinha e começou a lavar a louça do café.
De repente, a dor voltou.
Sentou-se em uma cadeira e com as mãos esfregou as costas.
Estava assim quando Tereza, a vizinha da frente e dona da casa, chegou à porta da cozinha.
- Bom dia, Raquel, está tudo bem com você?
- Bom dia, Tereza.
O que está fazendo aqui há esta hora?
- Não sei o que aconteceu, mas assim que me levantei, senti uma vontade imensa de vir até aqui.
- Foi Deus quem mandou você até aqui.
- Por que está dizendo isso?
- Fiz a loucura de tentar mudar o guarda-roupa de lugar e, agora, estou com muita dor nas costas.
Tereza olhou bem para Raquel e disse:
- Acho que não é por causa do guarda-roupa que está assim.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:14 pm

- Não?
- Sabe que tenho três filhos, acho que a criança está chegando.
É bom você ir para o hospital.
- Acha mesmo? Faltam ainda alguns dias.
- Alguns dias a mais ou a menos, não faz diferença.
Ainda acho que deve ir até ao hospital.
Vi quando Francisco saiu, vou pedir ao Julinho que vá até a marcenaria e peça para ele voltar.
- Espere Tereza.
Não sabemos se essa dor é mesmo da criança, se não for, Francisco virá até aqui e perderá muito tempo, ele tem alguns móveis para entregar.
Além do mais, não vá incomodar seu filho, que acabou de acordar.
- Acho que não deve esperar.
Como lhe disse, já tive filhos e sei como acontece.
Precisamos chamar Francisco.
O Julinho gosta muito de você e do Francisco, não vai se incomodar.
Ele vai de bicicleta, não vai demorar muito.
- Se acha mesmo necessário, está bem.
Espero que não seja um falso aviso.
- Não é, Raquel, pode confiar no que estou dizendo.
- A dor passou!
Acho que estamos nos precipitando, Tereza.
- Não estamos, não, Raquel.
Ela vai voltar e mais forte ainda.
Fique feliz, sua criança está chegando!
- Está bem. Não vou discutir com você, peça ao Julinho que vá chamar Francisco.
Tereza, preocupada, saiu dali e foi conversar com seu filho, um rapazinho de doze anos.
O menino havia terminado de acordar, ouviu o que a mãe disse, pegou sua bicicleta e saiu em disparada em direcção à marcenaria de Francisco.
Francisco se admirou de vê-lo ali:
- O que está fazendo aqui, Julinho?
- Minha mãe pediu para eu vir avisar você que a sua criança está para nascer, precisa ir para casa.
- Ainda não está no tempo!
Faltam alguns dias!
- Não entendo nada disso, só estou dizendo o que minha mãe disse.
- Está bem, vou agora mesmo.
Julinho, você tem alguma coisa para fazer agora?
- Não, só vou à escola à tarde.
Ia fazer a minha lição de casa, por quê?
- Preciso ir, mas não posso fechar a marcenaria, se pudesse ficar aqui até eu voltar e, se alguém aparecer, disser o que está acontecendo e anotar algum recado.
Estou precisando muito de trabalho, não posso deixar um cliente chegar e encontrar as portas fechadas.
- Pode ir, Francisco.
Posso fazer minha lição mais tarde.
O importante é você ajudar Raquel.
- Obrigado, Julinho.
Volto assim que puder.
Francisco, nervoso e atrapalhado, pegou a bicicleta.
Saiu em disparada, dando adeus com a mão para Julinho, que ficou rindo do nervosismo dele.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:14 pm

Antes de chegar a casa, Francisco parou no ponto de táxi, conversou e o taxista o seguiu.
Quando entrou em casa, Raquel estava sentindo muita dor.
Assim que a viu, empalideceu:
- O que aconteceu, Raquel, está com muita dor?
- Estou, sim, Francisco.
Já havia escutado que dói muito, mas nunca pensei que fosse tanto...
- Acha que a criança vai nascer mesmo?
- Acho que sim...
Tereza, que está acostumada, disse que sim.
- Vai sim, Francisco, acho bom não perderem tempo.
Com a ajuda da Raquel, preparei a mala com roupas dela e do bebé.
Está tudo pronto.
- Então vamos, Raquel!
O táxi está esperando aí na frente.
- Vamos sim.
Saíram da casa e foram acompanhados por Tereza até o portão.
Lá, Tereza se despediu:
- Vá com Deus, Raquel.
Você vai ter uma criança linda!
- Obrigada, Tereza.
Ainda bem que você chegou, senão eu ainda estaria pensando que era mau-jeito por causa do guarda-roupa.
Tereza sorriu:
- Foi Deus, Raquel... Foi Deus...
Francisco ajudou Raquel a entrar no táxi.
As dores que ela sentia estavam mais fortes, mas ela não reclamou para não o deixar mais preocupado ainda.
Assim que chegaram ao hospital, Francisco foi imediatamente até a recepção.
Raquel passou por uma avaliação e o médico disse:
- Vai nascer mesmo.
A senhora será levada até o quarto e, agora, só nos resta esperar.
- Posso ficar com ela?
- Infelizmente, não.
O senhor poderá voltar às quinze horas, que é a hora da visita.
Até lá, a criança já deverá ter nascido.
Ao ouvir aquilo, Raquel, preocupada e assustada, perguntou:
- Não pode, mesmo, doutor?
- Não, senhora.
Este é um hospital público, há algumas regras que não podem ser mudadas.
Raquel, com lágrimas nos olhos, tentou sorrir para Francisco.
Sabia o que ele estava sentindo.
- Vai trabalhar Francisco, e não se preocupe.
Eu vou ficar bem.
- Queria ficar com você...
- Sei disso, mas não pode.
Vou ficar bem e, quando vier na hora da visita, a criança já nasceu...
- Está bem. Eu vou, mas não vou me esquecer um minuto de você.
Ela sorriu, ele deu um beijo em sua testa e saiu.
Assim que se encontrou na rua, olhou para o hospital e começou a chorar.
Chorava de felicidade, por saber que sua criança estava prestes a nascer, e também de tristeza, por saber que Raquel estaria sofrendo.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:15 pm

No mesmo instante, como se fosse para aliviá-lo, pensou:
Nossa! Não terminei o berço!
Achei que faltavam alguns dias.
Preciso fazer isso hoje!
Vou para a marcenaria terminar e levar lá para casa.
Quando o neném chegar, precisa ter um lugar para dormir.
A marcenaria ficava longe dali.
Francisco teve de tomar um ônibus e andar mais dez minutos para poder chegar.
Quando chegou, encontrou Julinho, que conversava com um senhor.
Francisco aproximou-se.
Ao vê-lo, Julinho abriu um sorriso e, olhando para o senhor, disse:
- Não falei que ele ia chegar logo?
- Falou, sim.
Como está sua esposa?
Este rapaz disse que o senhor a levou ao hospital, para dar à luz.
- Foi isso mesmo o que aconteceu.
Tive de deixá-la lá, infelizmente não pude ficar junto.
Bem que eu queria, mas não permitiram.
Espero que esteja bem e que a nossa criança nasça sem problema algum.
- Vai nascer e sua esposa também ficará bem.
O nascimento de uma criança é sempre uma bênção de Deus.
- Tem razão.
Essa criança está sendo esperada com muito amor.
Vou fazer o possível para que não lhe falte nada.
- Vai conseguir.
A propósito, não disse meu nome.
Sou Rui e estou montando uma empresa.
Vou fabricar artigos de borracha, inclusive chupetas, e preciso montar o meu escritório.
Soube que o senhor tem ideias novas.
Gostaria de saber quais são.
- Pois não.
Vamos até o meu escritório e poderá ver as peças que já fabriquei.
- Vamos, sim. Estou curioso.
- Já posso ir embora, Francisco?
- Desculpe Julinho.
Esqueci que você precisa ir para a escola, pode ir, sim, e obrigado por ter ficado aqui.
Diga a sua mãe que Raquel ficou no hospital e que, se Deus quiser, está bem.
- Não precisa agradecer.
Vou dizer para minha mãe, sim.
Ela deve estar preocupada, sabe como gosta de vocês.
Sempre diz que não poderia ter melhores vizinhos que vocês.
- O mesmo nos dizemos.
Vocês são os melhores vizinhos que qualquer um queria ter.
Julinho sorriu.
Subiu na bicicleta e foi embora.
Assim que ele se afastou, Francisco olhou para Rui e perguntou:
- Vamos até o meu escritório?
O escritório ficava nos fundos da marcenaria.
Para chegar nele, era preciso passar por todo o galpão.
Estavam caminhando, quando Rui, admirado, parou:
- Pensei que só fizesse móveis para escritório, mas, pelo que estou vendo, faz outras coisas também.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:15 pm

Francisco também parou e viu que Rui olhava para um berço pintado de branco.
- Ah! Está falando desse berço?
Ele é especial, fiz para o meu filho que está para nascer.
Mas minha especialidade é móveis para escritórios.
- Seu berço está muito bonito.
Suas linhas são suaves e esta cor branca não lembra em nada os berços tradicionais.
Gostei muito! Está pronto?
- Tem razão, estou procurando fugir de tudo o que é tradicional.
Por que os móveis têm de ser escuros, o que lhes dá um ar pesado?
O mesmo estou fazendo com os móveis para escritório.
- O senhor sabe que não vai ser fácil mudar uma tradição.
- Sei disso, mas por que não mudar, se o mundo está mudando?
Hoje, as pessoas não pensam como antes.
Com a Segunda Guerra, muita tecnologia foi desenvolvida.
Agora que a guerra terminou, toda essa tecnologia será empregada na paz e para melhorar a vida das pessoas.
As coisas e costumes estão mudando mais rápido do que antes.
Acredito que essas mudanças serão cada vez mais rápidas.
As pessoas terão de se adaptar aos novos tempos.
- Pelo que estou vendo, o senhor enxerga longe.
Vai conseguir muito na vida!
- É o que espero, mas, antes de conseguir qualquer coisa, preciso terminar o berço.
Logo minha criança vai estar em casa e precisa ter um lugar para dormir.
- Vai precisar mesmo e garanto que, em um berço como este, terá um sono tranquilo.
Mas, agora, vamos ver os móveis para o meu escritório?
- Vamos, sim.
Estamos quase chegando, fica naquela porta pintada de azul.
Rui olhou para a porta que Francisco apontava e continuaram andando.
- Preciso lhe dizer uma coisa, senhor Francisco.
- O que é?
- Estou abrindo minha empresa.
Trabalho há muito tempo com artigos de borracha.
Ela tem tudo para dar certo, mas nunca se sabe.
Tenho pouco dinheiro para as instalações, por isso não posso gastar muito, mas quero algo bonito e moderno.
- Não se preocupe com o preço.
Entendo a sua situação, pois estou fazendo o mesmo.
Também estou começando e espero que dê certo.
Vamos nos ajudar mutuamente.
Se o senhor gostar dos móveis, vamos ver como pode pagar.
Preciso do dinheiro para o material e um pouco para cuidar da minha família.
O resto vamos conversar.
Rui sorriu.
Chegaram junto à porta azul, que estava aberta.
Antes de entrar, Rui ficou parado olhando a sala que estava à sua frente.
- Esta sala está uma beleza!
- Também acho.
Estes são os móveis que estou vendendo.
Fiz alguns de amostra para tirar fotografia e aproveitei para montar o meu escritório.
O que achou?
- Esses móveis são realmente diferentes!
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Ave sem Ninho

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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:15 pm

Não se parecem em nada com aqueles escuros e pesados.
Pintados de branco, com a sala também pintada de branco e só aquela parede azul clara, tudo isso deu uma leveza, uma suavidade que nunca vi em escritório algum!
Parece que a sala é enorme, quando, na realidade, não é!
- Essa é a minha ideia.
Só por ser um local de trabalho, não precisa ser feio.
Acredito que as pessoas se sentirão melhor, trabalhando em um lugar como este.
- O senhor tem razão, seu Francisco. Gostei muito!
Vou montar meu escritório com os seus móveis!
Dependendo do preço, é claro.
- Não se preocupe com isso.
O importante é que tenha gostado.
Encontraremos uma maneira para que me pague.
- Sendo assim, vamos conversar.
Sentaram-se e Francisco deu os preços.
Rapidamente, o negócio foi fechado.
Assinaram um contrato no qual estava explicitado o valor, a forma de pagamento e o tempo em que os móveis seriam entregues.
Feliz, Rui foi embora.
Francisco também ficou feliz, pois aquela era uma encomenda grande, diferente das que tinha tido até então.
Preciso contar a Raquel! Ela vai ficar feliz!
Com esse trabalho, poderemos ficar algum tempo sem nos preocupar com dinheiro.
Sinto que, assim que ficarem prontos e as pessoas virem surgirão mais encomendas.
Francisco foi até o berço. Preciso terminar.
Só falta a última mão de tinta.
Amanhã, estará pronto.
Ficou ali, terminando, com carinho, o berço para sua criança.
Enquanto fazia isso, pensava:
Será que vai ser um menino?
Gostaria que fosse, mas se não for não tem importância.
O importante é que nasça com saúde e que nada aconteça com Raquel.
Ela é tudo para mim. Enquanto pintava, pensava:
Parece que vamos conseguir sobreviver com a marcenaria.
Com essa encomenda de hoje, grande como é, Raquel não terá motivo algum para se preocupar, só mesmo, criar a nossa criança.
Com a primeira parte que o senhor Rui me deu, vai dar para eu comprar todo o material de que preciso e ainda vai sobrar um pouco de dinheiro.
Obrigado, meu Deus.
Quando se deu conta, já eram duas horas.
Preciso me apressar.
Está quase na hora da visita.
Estou louco para encontrar Raquel e contar tudo o que está acontecendo.
Será que a criança já nasceu?
Tomara que sim...
Trocou de roupas, fechou a porta, colocou um aviso dizendo que estava fechado por força maior e foi para o hospital.
Quando chegou, foi directo para a recepção, precisava pegar um cartão para poder entrar.
Deu o nome de Raquel.
A recepcionista olhou em uma ficha:
- O senhor não vai poder vê-la agora.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:15 pm

- Por quê?
- Ela está em trabalho de parto e não pode ser incomodada.
- Preciso falar com ela nem se for somente por um minuto!
- Sinto muito, mas são ordens, não posso desobedecer.
- Por favor, moça, só por um minuto... - ele disse quase chorando.
- Não posso senhor.
Ela está em um quarto junto com outras mulheres que, também, assim como ela, estão se preparando para dar à luz.
Se o senhor entrar, poderá constranger a todas.
Vá para sua casa e não se preocupe, sua mulher está muito bem.
Amanhã, quando voltar na hora da visita, sua criança já terá nascido e poderá vê-la.
Ele ainda insistiu:
- Vou ficar só por um minuto.
Prometo que não vou incomodar as outras mulheres, nem vou olhar para elas...
- Sinto muito, senhor, mas não posso.
Se ela estivesse em um quarto particular, não haveria problema algum e o senhor poderia entrar a qualquer hora ou ficar o tempo todo com ela, mas como não está, precisamos seguir as regras.
Vendo que não conseguiria convencer a moça e não a culpando, sabendo que eram as regras do hospital, saiu.
Já na rua, não pôde evitar que lágrimas caíssem por seu rosto.
Perdão, Raquel por não poder ficar ao seu lado.
Perdão por não ter dinheiro para colocá-la em um quarto particular, mas sinto que tudo isso vai mudar.
Vamos conseguir fazer com que a nossa marcenaria nos dê muito dinheiro e você vai ter tudo o que não pôde ter agora, quando vierem os próximos filhos...
Lembrou-se da encomenda de Rui.
O melhor a fazer agora é ir comprar o material de que preciso e começar amanhã, mesmo, a encomenda.
Esses móveis precisam ficar bons, vão ser a propaganda de que preciso.
Pegou um ônibus e foi até o local onde encontraria todo o material de que precisava.
Quando voltou para a marcenaria, já era quase noite.
Entrou e foi directo para o berço que, agora, já estava pronto.
Olhando para o berço, pensou:
Raquel não está em casa, como vou ficar ali, sozinho, sem ela?
Sei que é por poucos dias, mas não sinto vontade de ir para casa.
Vou começar a fazer o desenho dos móveis que quero fabricar.
Trabalhei até agora sozinho, mas acho que vou precisar contratar um ajudante, senão não vou dar conta.
Preciso ganhar muito dinheiro para que, quando Raquel for ter outra criança, possa ficar em um quarto particular e eu possa ficar ao seu lado o tempo todo.
Ficou ali até tarde.
Distraído, desenhando, nem viu o tempo passar.
Quando chegou ao portão da casa, já eram quase nove horas.
Entrou pelo corredor.
Estava passando pela porta de Tereza, que se abriu.
Ela surgiu e, parecendo preocupada, perguntou:
- Ainda bem que chegou.
Como você não voltou, fiquei preocupada.
Aconteceu alguma coisa com Raquel?
Ela não está bem?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 13, 2017 8:16 pm

- Deve estar. Desculpe-me, Tereza.
Eu devia ter voltado mais cedo, mas me distraí trabalhando.
- Trabalhando? E a Raquel?
- Vou contar o que aconteceu.
Contou tudo o que havia acontecido e terminou, dizendo:
- Como pode ver, por não ter dinheiro para pagar um quarto particular, não pude ficar ao lado dela.
Espero, em Deus, que ela esteja bem e que a minha criança já tenha nascido, mas só vou saber amanhã, na hora da visita.
Não ligo muito para dinheiro, Tereza.
Sempre achei que ele deve servir somente para nos trazer a felicidade e a felicidade, para mim, se resume em ter uma casa para morar e comida, além de paz e tranquilidade, mas, nesses momentos, vejo que ele serve também para outras coisas.
Quando temos saúde, não nos preocupamos com essas coisas, mas, nos momentos em que precisamos de uma assistência médica, é que sabemos como o dinheiro é importante.
- Tem razão, mas Raquel deve estar bem e a criança já deve ter nascido.
- Assim espero Tereza.
Nada mais posso fazer, além disso, não é mesmo?
- É, sim, Francisco.
Esperar e rezar.
- Eu rezo sempre, Tereza, muito mais hoje.
- Também rezei muito pela Raquel.
Tenho certeza de que ela está bem.
Nossa Senhora do Bom Parto deve estar ao lado dela...
- Espero que esteja, Tereza...
Espero que esteja...
Francisco se despediu e foi para sua casa, que, embora pequena, para ele, nunca foi tão grande.
Sozinho pela primeira vez, desde que se casara, sentia-se pequeno lá dentro.
Comeu alguma coisa que estava sobre o fogão e, cansado, adormeceu.
No dia seguinte não se lembraria, mas, assim que adormeceu uma senhora se aproximou e sorriu:
- Amanhã vai ter uma surpresa, meu filho.
Apesar de Raquel não estar em um quarto particular, está sendo bem tratada e seu filho nasceu.
- Nasceu, vó?
- Nasceu meu neto, e ele é lindo.
Vai ser muito importante na vida de vocês.
- Estou feliz!
Nunca disse a Raquel, mas sempre quis que fosse um menino!
Ela sorriu:
- Sei disso. Não se preocupe mais.
Durma em paz e, amanhã, irá conhecer o seu filho.
Raquel está sendo assistida não só pelos médicos e enfermeiras, mas pelo plano espiritual que está ao lado dela e da criança.
Para o plano, sempre que uma criança nasce, é motivo de felicidade e de apreensão também.
- Apreensão, por quê?
- Todos, quando nascem, trazem consigo a esperança de bem cumprirem o que prometeram, mas nem sempre isso acontece.
Por isso, estamos sempre ao seu lado, dando boas intuições e tentando impedir que cometam enganos.
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