EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:15 pm

- O quê?
- Ela contou ontem à noite.
- Está chorando por causa disso?
- Ela não é casada, Raquel!
- Mas pode se casar, não pode?
Ela não namora aquele rapaz que trabalha na farmácia?
- Trabalhava...
- Não estou entendendo...
- Assim que soube que ela estava grávida, ele desapareceu.
- E agora, Tereza? Manuel já sabe?
- Sabe e pode imaginar. Ficou furioso.
Espancou Arlete e, quando fui defendê-la, me espancou também e deu até esta manhã para que Arlete saia de casa.
Não quer ser envergonhado perante as pessoas.
- Para onde ela vai?
- Não sei. Sabe como são as coisas, nas condições em que ela está ninguém vai querer recebê-la.
- O que pretende fazer, Tereza?
- Ela é minha filha, Raquel.
Não posso deixar que fique na rua, mas não tenho o que fazer.
- Nunca entendi como suportou ser espancada da maneira como ele faz...
- Eu sei que é terrível, mas o que podia fazer?
Nunca trabalhei e tinha três filhos para cuidar.
Para onde eu iria com três crianças?
Raquel, furiosa, disse:
- Agora não são mais crianças, Tereza!
Todos vocês podem abandonar aquele monstro, arrumar um emprego e viver uma vida de paz!
- É o que mais desejo e vou fazer isso.
Não vou deixar Arlete sozinha.
Sei que ela errou, mas é minha filha e essa criança que vai nascer é minha neta.
Só não sei para onde ir.
Por isso, vim aqui conversar com você.
Você, diferente de mim, sempre foi tão decidida, sempre soube tomar atitude.
O que me aconselha a fazer?
Raquel olhou para Lia que tudo ouvia sem nada dizer.
Com o rosto sério, perguntou:
- Tereza, quer mesmo largar aquele homem?
- Quero Raquel. Preciso escolher entre ele e minha filha.
Não tem outro caminho, só posso e quero escolher minha filha...
- Tem certeza de que é isso que quer?
- Tenho! Sempre que ele me espancava por motivo algum, eu queria fazer isso, mas nunca tive coragem.
Tinha medo de ficar sozinha...
- Está bem. Sendo assim, posso ajudar você, mas a decisão final será sua.
- Não quero mais ficar com ele, Raquel!
Chega de tanto sofrimento!
Seria tão bom se a vida fosse como acontece nas novelas, no final sempre acaba bem e todos ficam felizes...
- A vida não é uma novela, Tereza.
A vida é a realidade.
Por outro lado, se abandonar aquele homem, realmente, tudo terminará bem para você e seus filhos.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:16 pm

Talvez não tenha o mesmo conforto que tem hoje, mas vai ter paz.
- Como vai me ajudar?
- Como pode ver, a casa está uma bagunça e eu não fui trabalhar hoje.
Estamos nos mudando. Comprei uma casa maior.
Se, realmente, quiser largar aquele homem, pode vir morar aqui com seus filhos.
Podemos arrumar um lugar para que trabalhem na marcenaria.
Norberto precisa de um ajudante para fazer as entregas.
Julinho pode fazer isso.
Netinho pode começar como aprendiz, assim como aconteceu com Francisco.
Você, no começo, pode cuidar da limpeza e aprender dactilografia.
Assim, em pouco tempo, poderá me ajudar no escritório.
Arlete, enquanto estiver esperando a criança, ficará em casa, depois vamos arrumar um trabalho para ela também.
Com o dinheiro que receberem, poderão viver muito bem, sem precisar sofrer a violência que sofreram até hoje.
- Vai fazer isso, Raquel?
- Se você quiser, sim.
Só tem um problema.
Ficarão morando na mesma rua em que Manuel mora.
Será que você vai suportar?
Será que ele não vai convencê-la a voltar?
- Nunca, Raquel, nunca!
- Sendo assim, como vamos nos mudar à tarde e ainda hoje, vocês podem vir para cá.
- Obrigada, Raquel.
- Não precisa agradecer, só não diga a palavra "nunca".
Ela representa muito tempo e, durante esse tempo, decisões e escolhas são mudadas.
Agora, vamos voltar ao nosso trabalho, Lia.
Hoje quero dormir na casa nova!
- Vamos, sim, Raquel!
Voltaram a dobrar as roupas que iam levar.
Sem que imaginassem, Olímpia, Samuel e Francisco estavam ali, felizes pela felicidade delas.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:16 pm

O MOTIVO
Como sempre acontece, o tempo passou.
Raquel continuou trabalhando muito.
Através do correio, distribuiu os panfletos para outras cidades e outros estados.
Isso fazia com que precisasse viajar e ficar vários dias longe de casa, porém, não se preocupava, pois sabia que Lia cuidaria não só da casa, mas das crianças também.
Com a exportação dos móveis para outras cidades e outros estados, o galpão onde ficava a marcenaria ficou pequeno e ela foi obrigada a comprar uma área grande de terra e a construir um galpão bem maior do que aquele que usara até o momento.
Precisou contratar mais funcionários.
Norberto, agora, só cuidava dos funcionários.
Não saía mais para fazer entregas.
Moacir, após terminar a faculdade de administração, era quem, ao lado de Martin, cuidava da administração.
Marcos, embora quisesse ser engenheiro e construir casas e arranha-céus, por exigência de Raquel, também estava no último semestre de Administração.
Ela desejava que, com sua morte, os filhos continuassem com a empresa.
Durante todo esse tempo, todos os dias, Raquel se lembrava de Francisco e de Mauro.
Em uma noite, antes de dormir, pensou:
É uma pena que vocês não estejam aqui para poderem ver como tudo mudou, mas como dona Catarina disse, naquele dia, sei que estão me esperando.
Logo mais estarei chegando.
O importante é que meus filhos estão bem e felizes.
Acho que tudo está bem e vai continuar assim, Francisco, pois, sempre que existe um problema, geralmente não me lembro do que foi, mas sei que sonhei com você.
Agora, faz muito tempo que isso não acontece.
Será que se esqueceu de mim?
Francisco, que estava ali ao lado de Olímpia e Samuel, sorriu.
Raquel adormeceu e pouco tempo depois foi acordada por ele:
- Acorde, Raquel, precisamos conversar.
Ela abriu os olhos e sorriu, perguntando:
- Hoje mesmo pensei em você, Francisco.
Chegou minha hora? Veio me buscar?
Francisco olhou para Samuel, que respondeu:
- Não, Eliete!
Sua hora está muito distante.
Viemos buscar você porque precisamos conversar.
Ela olhou para o lado e viu Olímpia, que sorria.
- Olá, Eliete!
Como você está?
- Estou muito bem e feliz, mas não consigo me acostumar a ser chamada por Eliete.
Meu nome agora é Raquel.
Samuel continuou:
- Sim, mas ontem você foi Eliete e é sobre ela que precisamos conversar.
- Podemos conversar, mas, por favor, me chamem de Raquel.
Gosto mais desse nome!
- Nomes não são importantes.
Os nomes mudam, mas o espírito continua e ele é que tem importância.
Portanto, para que se sinta bem, podemos chamá-la por Raquel.
- Obrigada...
Samuel sorriu e continuou:
- Depois de esse ponto ter sido esclarecido, vamos continuar.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:16 pm

Você disse que está feliz, posso saber por quê?
Ela olhou para Francisco que segurava sua mão e respondeu:
- Consegui tudo o que queria nesta vida!
Meus filhos estão criados e são lindos!
A marcenaria, agora, é uma grande empresa!
Não tenho mais o que desejar!
- Estou feliz por você, Raquel, mas precisamos conversar. As coisas vão mudar.
- Mudar, como? Por quê?
- Todo espírito, ao nascer, traz consigo algumas tarefas para serem cumpridas, outras para serem concluídas e outras, as principais, para que sejam resgatados enganos ou erros cometidos.
Para que o espírito possa continuar sua caminhada, é necessário que esteja livre de qualquer amarra.
- Não entendi muito bem.
- Vou tentar explicar melhor.
- Todo espírito tem uma missão a cumprir.
O não cumprimento dessa missão faz com que ele seja obrigado a renascer muitas vezes até que consiga cumpri-la.
- Todos não cumprem sua missão?
- Infelizmente, não.
- Por que isso acontece?
- Antes de renascer, os espíritos escolhem a missão, mas, depois de renascidos, algumas vezes não a aceitam e se afastam dela.
Isso acontece, porque, depois de renascidos, o sonho de todos é fazer algo importante, que seja reconhecido, mas, na maioria das vezes, isso não acontece.
A missão quase sempre é algo simples.
Algo que não lhe trazer glória nem reconhecimento.
Como exemplo, saber ouvir é uma missão das mais valiosas, mas aqueles que a praticam não se dão conta disso.
Querem fazer algo maior, que lhes dê glória e fama, dinheiro e poder.
Muitas vezes, não têm paciência com aqueles que precisam apenas de uma palavra amiga.
- Todos querem ser reconhecidos, ter glória, dinheiro e poder!
Estou feliz por ser a dona de uma grande empresa!
De ter muito mais dinheiro de que preciso e até de ter certo poder sobre as pessoas que trabalham para mim! Que mal há nisso?
- Na verdade, não há mal algum, mas o reconhecimento e a glória não querem dizer que seja o melhor para o espírito; ao contrário, às vezes, fazem com que ele se afaste de sua real necessidade.
Às vezes, fazem com que se deixe dominar pelo orgulho, o que é muito prejudicial, pois, por ser homenageado, glorificado por algo que faz, sente-se superior aos demais, quando, na verdade, não o é.
- Não é, Samuel?
- Não, Raquel, não é e, na maioria das vezes, como todo espírito renascido, não importa se tem fama, glória e dinheiro, está resgatando erros ou enganos passados.
- Eu estou cumprindo minha missão?
- Sim, até aqui.
Você, quando perdeu tudo, ajudada por Catarina conseguiu se levantar e levar sua vida para frente.
Criou seus filhos e os encaminhou para a vida.
Cabe a eles seguirem, sozinhos, sua jornada, fazendo suas escolhas, cumprindo sua missão sem que haja interferência alguma.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:16 pm

Está vendo?
Mesmo não sendo reconhecida ou glorificada, cumpriu uma missão das mais gloriosas.
- Está dizendo que essa foi a minha missão, mas não percebi. Estava apenas tentando sobreviver.
Samuel começou a rir e disse:
- Foi sua missão, sim, Raquel e, como aconteceu com você, a maioria não percebe que sua missão está sendo cumprida, mas não se esqueça de que sobreviver também é uma missão.
Ela olhou para Francisco que a abraçou e beijou sua testa.
- Você venceu todos os problemas, meu amor.
- Consegui, somente porque tive você sempre no meu pensamento, Francisco.
Olímpia, também a abraçou, dizendo:
- Todos estamos felizes por você, Raquel.
Samuel continuou:
- Sua missão foi cumprida, Raquel, mas, agora, chegou o momento do resgate.
- Resgate? O que preciso resgatar?
Procurei viver minha vida sempre dentro dos padrões!
- Sim, sem se afastar um minuto deles.
- Fala como se isso fosse condenável!
- Não, não é condenável, mas, agora, vai precisar sair dos seus padrões e seguir sentimentos de amor, de igualdade.
Terá de deixar de lado os preconceitos.
- Não tenho preconceito algum!
- Será que não, Raquel?
- Não que eu saiba.
Converso com todas as pessoas sem me preocupar se são ricas, pobres, negras, brancas ou amarelas.
- Já pensou em ter na sua família alguém negro ou pobre?
Raquel parou e ficou olhando para Francisco, que sorriu.
Samuel insistiu:
- Já pensou Raquel?
- Não, nunca pensei...
- Você cumpriu sua missão, Raquel, agora, falta resgatar alguns erros passados.
Está em suas mãos fazer a escolha certa.
- Não estou entendendo.
Sempre achei que havia feito as escolhas certas.
- Sim, tem razão.
As escolhas que fez foram às fáceis, aquelas que a ajudaram a, como você diz, sobreviver, porém, vai chegar a hora em que terá de resgatar erros passados, de tentar, desta vez, escolher o que, realmente, é certo.
- Estou assustada com seu tom de voz.
- Não precisa ficar assustada, somente terá de escolher o caminho que deseja seguir.
Francisco, segurando a mão de Raquel, disse:
- É verdade, meu amor, mas não se preocupe, haja o que houver, escolhendo certo ou errado, estarei sempre ao seu lado.
Ela, assustada, olhou para ele e sorriu.
Samuel continuou:
- É verdade, Raquel, não precisa ficar assustada.
Fomos buscar você, enquanto dormia, para ajudá-la a fazer essa escolha.
- Não estou entendendo...
- Lembra-se daquela vez em que conversamos em que você se lembrou da Eliete do passado?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:17 pm

- Sim, mas, embora tenha sonhado muitas vezes com vocês, nunca mais conversamos a esse respeito.
- Deixamos para voltar ao assunto na hora certa e à hora é agora, mas, antes, espere.
Olhe para lá.
Raquel olhou para o lado em que ele apontava e viu Yara, que chegou acompanhada por duas entidades.
Raquel se admirou:
- Yara? O que ela está fazendo aqui?
- Estiveram unidas no passado e estão agora, portanto, as duas precisam recordar o que, juntas, fizeram.
Yara, um pouco sonolenta, ao ver Raquel, perguntou:
- Que lugar é este, dona Raquel?
O que estamos fazendo aqui?
- Também não sei Yara, mas sente-se aqui ao meu lado e logo descobriremos.
Olímpia disse:
- Isso mesmo, Yara.
Sente-se ao lado de Raquel.
Yara, desconfiada, sentou-se.
Samuel continuou:
- Acalme-se, Yara.
Está tudo bem.
Somos seus amigos e você está aqui para que possa entender o momento que está vivendo.
Daqui a alguns minutos, estará totalmente consciente e se lembrará do tempo em que se chamava Maria da Glória.
Realmente isso aconteceu.
Poucos minutos depois, Yara disse:
- Estou me lembrando de quando era Maria da Glória...
- Sim, filha de um homem poderoso, uma moça mimada e que nunca aceitou um não como resposta.
Yara abaixou a cabeça e Samuel continuou:
- Lembra-se, Raquel, de que, naquele dia, conversamos até o momento em que você me disse que ia conversar com João Pedro?
- Sim, lembro-me daquele dia e dessa conversa.
- E o que fez em seguida?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Sim, eu, furiosa, procurei João Pedro.
Ele estava em casa, lendo um livro, me aproximei e perguntei, gritando:
- João Pedro, é verdade que está namorando a Maria Rita?
- Ele levantou os olhos do livro e, calmamente, respondeu:
- Sim.
- O que está pretendendo com ela?
- Quero me casar.
- O quê?
- Isso que a senhora está ouvindo.
Quero me casar com ela.
- Não pode fazer isso nem sequer pensar em uma coisa como essa!
- Não posso, por quê?
Eu gosto dela e ela de mim, não vejo problema algum em nos casarmos.
- Não vê problema algum?
- Não, mamãe, não vejo. Ela é a mulher da minha vida!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:17 pm

- Não pode ser João Pedro!
- Não pode ser por quê?
- Ela é uma negra!
Neta de escravos!
Como pode pensar em se casar com uma negra?
Com alguém que tem como herança a escravidão!
Nada mais que isso!
- A cor dela não tem importância.
Eu a amo e vou me casar com ela!
Quanto a ser escrava, a senhora se esqueceu de que a Princesa Isabel assinou a lei que diz que não existe mais escravidão no Brasil?
- Essa lei foi assinada em um momento de loucura da Princesa!
Essa Lei precisa ser derrubada!
Imagine um país como o nosso sem escravidão!
Mesmo que seja, o negro sempre será negro e pobre!
- Está enganada!
Essa Lei veio para ficar!
Os negros não são melhores ou piores que todos nós!
São pessoas iguais, com a mesma inteligência e sentimentos!
Não existe diferença alguma!
Muitos deles, assim como acontece com os brancos, poderão estudar trabalhar e ter uma vida decente.
Quanto à pobreza, existem muitos brancos que nunca serão ricos ou poderosos!
Não existe diferença, mamãe!
Somo iguais...
- Você está louco, mesmo!
- Não, mamãe, não estou louco, apenas apaixonado e nada fará com que eu me afaste de Maria Rita!
Vou me casar com ela!
- Vou falar com seu pai, ele não vai permitir uma loucura como essa!
- Papai já sabe, eu mesmo contei.
- Ele sabe?
- Sim e disse que devo fazer o que eu achar quer for melhor.
Ele só quer que eu seja feliz.
- Ele não pode ter dito isso, sabe que temos um compromisso com o coronel Leôncio!
Você vai se casar com Maria da Glória, a filha dele!
- Quem tem esse compromisso é a senhora, não eu!
Já disse que vou me casar com Maria Rita.
- Não vai, não! Eu não vou permitir!
- A senhora não pode fazer isso!
Não pode interferir na minha Vida!
Eu e Maria Rita estamos juntos desde o tempo em que ela trabalhava aqui em casa.
Escondemos, para que ninguém mais soubesse.
Quando ela engravidou, não poderia continuar morando aqui, por isso inventou aquela história de que ia para a casa de um tio no interior, mas, na realidade, aluguei um quarto em um cortiço, e é onde ela está morando.
O lugar é horrível, mas é o único que eu posso pagar com a mesada que papai me dá.
Porém, agora, com o nascimento do menino, isso não pode continuar!
Estou muito feliz com o meu filho!
Por isso, quero me casar com ela para dar um nome a ele.
A voz de Raquel, enquanto falava, tremia.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:17 pm

Samuel, pegando sua mão, disse:
- Está relembrando com muita força aquele dia, não é, Raquel?
- Sim. Fiquei possessa e perguntei, gritando:
- Um filho? Você está louco mesmo!
Acha que vou receber e chamar de neto um negrinho qualquer?
Acha que vou mostrar para nossos amigos a loucura que você fez?
- Não me importo com o que a senhora ache ou pense, vou me casar com ela, porque é a mulher que amo, somente por isso!
- Não vou permitir que faça essa loucura e, se insistir, não o aceitarei mais como meu filho!
Você vai pegar essa negra e a sua cria e sumir desta casa, sumir da nossa vida!
- Eu sabia que sua reacção seria essa, por isso não contei.
Não se preocupe, eu já havia dito a Maria Rita que precisaríamos ir embora daqui, desta casa e da sua vida!
Sabia que a senhora não aceitaria o nosso amor!
- Lembro-me de que, com ironia na voz, eu perguntei:
- Vai embora, é? Pode me dizer para onde? Como vai viver?
Está pensando em continuar recebendo nosso dinheiro?
- Não, mamãe, se o preço que tiver de pagar para ficar com Maria Rita e ser feliz for esse, é um preço muito alto e estou disposto a pagar.
Ainda não sei como vamos viver, mas encontrarei uma maneira.
Samuel interrompeu o que Raquel contava:
- Lembre-se de que, ao ver que o caminho que estava seguindo não a levaria a lugar algum, resolveu mudar de táctica?
- Sim, percebi que ele não desistiria daquela loucura e falei:
- Está bem. Já que seu pai não se importa com o facto de você se casar com uma negra e de quebrar o compromisso que temos com o Coronel Leôncio, não vejo como me opor.
Seja feliz, meu filho.
Nada farei para interferir.
- Está falando a verdade, mamãe?
- Claro que estou João Pedro!
Conheço você o bastante para saber que não vai mudar de ideia, por isso, não vou me opor, ainda mais agora, com uma criança.
Embora não seja o neto que sempre desejei, prometo que vou amar essa criança com toda força do meu coração.
Disse que essa é a mulher da sua vida, então, case-se e seja feliz.
Ele, incrédulo, voltou a perguntar:
- Está falando a verdade, mamãe?
- Claro que estou meu filho.
Desculpe eu ter sido tão dura, me conhece para saber que sou assim mesmo.
Grito fico nervosa, mas, no fundo, sou mole como uma gema de ovo.
Samuel, sorrindo, perguntou:
- Você disse aquilo, mas estava mentindo, não estava, Raquel?
- Sim. Eu precisava pensar em outra maneira de afastar meu filho daquela mulher e evitar que ele fizesse aquela loucura.
Saí dali e fui procurar você, Francisco.
- Lembro-me daquele dia, Raquel.
Eu estava em meu escritório, quando você entrou, bufando de raiva.
Chegou perto de mim e perguntou, gritando:
- Você sabia da loucura que seu filho estava fazendo e não me contou?
- Olhei firme para você e respondi:
- Sabia e não contei, porque sabia que sua reacção seria essa que está tendo.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:18 pm

- Que reacção queria que eu tivesse?
Ela não passa de uma negra e teve um negrinho!
- Ela é a mulher que seu filho ama e o menino que você chama de negrinho é o filho dele, nosso neto!
- Você está louco como ele, para aceitar uma coisa como essa!
Jamais vou aceitar um negrinho como meu neto!
- Não entendo você, Eliete.
- Como não entende?
- Quando quisemos nos casar, seu pai não queria.
Dizia que eu era pobre e que só queria o seu dinheiro.
Lembra-se de quanto resolvemos de lutar para conseguir que ele me aceitasse?
Lembra-se de que estávamos dispostos afazer qualquer coisa para ficarmos juntos?
Conseguimos convencê-lo e, hoje, ele gosta de mim como se fosse seu filho!
O mesmo vai acontecer com Maria Rita e o menino que nasceu.
Em pouco tempo, diante da felicidade de nosso filho, nem vamos nos lembrar de que são negros.
- Com você foi diferente!
- Diferente, por quê?
- Você não era negro!
- Mas era pobre e o preconceito é o mesmo!
Nada disso importa Eliete!
O que importa é a felicidade que vejo nos olhos do meu filho quando ele fala na mulher que ama e no filho que nasceu!
Isso é que tem verdadeiro valor!
- Pode ser para você, não para mim!
Francisco, com tristeza na voz, continuou:
- Você não quis mais me ouvir, Raquel, e saiu dali muito nervosa.
- Sim, estava muito nervosa.
Fui para casa e fiquei pensando em uma maneira de acabar com aquilo tudo.
Depois de pensar muito, encontrei uma solução.
Samuel a interrompeu novamente:
- Apesar de toda ajuda espiritual no sentido de que você se acalmasse, Raquel, e compreendesse o que estava se passando, afastou qualquer bom pensamento que o plano lhe mandava e se uniu às forças malignas que lhe deram a resposta de que precisava.
Achou que era você quem estava pensando, quando, na realidade, os pensamentos eram delas.
- É verdade.
Tive uma ideia, saí dali e fui procurar você, Yara, pois era a moça com quem eu queria que João Pedro se casasse.
Eu queria, porque, além de ser bonita, era filha de um homem poderoso que muito poderia nos ajudar para que nossa fortuna aumentasse ainda mais.
Contei-lhe o que estava acontecendo.
Lembro-me de que, quando terminei de falar, você ficou furiosa e disse aos gritos:
- Isso não pode acontecer, dona Eliete!
Eu amo seu filho e quero me casar com ele!
Se isso não acontecer, vou morrer!
- Não vai precisar morrer!
Ele não vai se casar com ela!
Só precisamos encontrar uma maneira para que isso não aconteça, mas vou precisar da sua ajuda.
Estou pensando em algo que só pode dar certo!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:18 pm

- Que ideia?
- Vou à busca de uma pessoa que conheço.
É uma negra velha que mexe com ervas e que, quando eu era criança, trabalhou lá em casa.
Depois que conversar com ela, preciso descobrir onde aquela negra, que pensa que vai entrar para minha família, mora e ir até lá.
- Para fazer o que, dona Eliete?
- Para pôr fim a essa história e meu filho poder se casar com você!
- Não sei, não.
Conhecendo João Pedro como conheço, acho que isso só vai acontecer se ela e o menino morrerem.
- Essa é a ideia!
- A senhora está pensando em matar os dois?
- Isso mesmo, mas, como já disse, preciso da sua ajuda.
- Você pensou um pouco e, decidida, falou:
- Para poder ficar com ele, faço o que a senhora quiser!
- Está bem. Depois que eu for à casa da negra velha e conseguir um veneno bem forte, vou conversar com Zefinha, outra negrinha ignorante, que trabalha lá em casa.
Ela é muito amiga da outra.
Deve saber onde ela mora.
Com o veneno na mão e o endereço, vou marcar um dia para ir até a casa da negra e do menino.
Vou até lá e faço o serviço.
Vai ser nesse dia que vou precisar de você.
- A senhora quer que eu vá junto?
- Não, quero que, no dia em que for à casa de Maria Rita, Você vá almoçar lá em casa.
Depois do almoço, eu, como sempre faço, vou dormir.
Você precisa ficar conversando com ele, até que eu volte.
- Por que quer que eu o segure?
- Não posso me arriscar.
Ele não pode chegar e me encontrar lá.
Sabendo que ele está com você, ficarei mais tranquila.
- Sobre o que vou falar?
Sabe que ele sempre me evita.
- Não sei sobre o que vai falar Maria da Glória!
Precisa inventar um assunto qualquer!
Se ele se recusar, insista!
Só poderei fazer o que pretendo se tiver a certeza de que ele está com você.
- Vou tentar, mas não sei se vou conseguir.
- Claro que vai!
Insista que o assunto é urgente.
Quando ele perguntar do que se trata, diga que ficou sabendo do romance dele com aquela negra!
Diga que entende e, por desejar que ele seja feliz, o compromisso que há entre vocês está desfeito, não existe mais.
Ele vai ficar tranquilo e, daí para frente, basta inventar um assunto qualquer.
O importante é que o segure até eu voltar!
- Está bem.
Quando souber o dia, me avise e vou tentar fazer da maneira como à senhora falou.
Yara começou a chorar:
- Nós fizemos aquilo, dona Raquel...
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

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Raquel, com o olhar distante e parecendo não acreditar, respondeu:
- Fizemos Yara.
Não sei como tivemos coragem, mas fizemos.
Francisco, que até aquele momento ouvia calado, desesperado, perguntou:
- O que vocês fizeram?
Raquel, sem coragem para responder, olhou para Samuel, que respondeu:
- Tenha um pouco mais de paciência, Francisco, em breve saberá tudo o que aconteceu.
Continue Raquel.
Com os olhos marejados, ela continuou:
- Quando cheguei à casa da preta velha, ela me recebeu com um sorriso:
- O que mia fia quer com a nega?
- Estou tendo muito rato lá em casa, mãe Albertina.
Sei que a senhora mexe com ervas, preciso de um veneno forte para acabar com eles.
Um veneno que não faça mal para os cachorros e gatos.
A senhora sabe como gosto de animais.
- Lembru, sim, desde o tempo em que trabaiei pra vossa mãe.
Uncê era piquitita e gustava muito do seu cachorro, Lorde.
- A senhora se lembra do Lorde?
- Craro qui mi lembru, minina!
- Por isso, por gostar muito de animais, preciso de um veneno que não faça mal a eles.
- Rato tumem é animar...
- Sei disso, mas ele é nocivo!
- É virdade.
O xixi faz muito mal.
Num tenho veneno que não faz mal pra animar.
Posso dar um, que faço com erva, mas tem que ter cuidado e só colocar onde os animar não chega.
- Para o ser humano, faz mal?
- É muito perigoso, mata na hora!
Tem qui tê cuidado.
- Sendo assim, vou tomar cuidado.
Raquel, com os olhos marejados, disse:
- Ela me deu um pouco de pó enrolado em um jornal.
- Tome muito cuidado com esse veneno.
Deixa-o longe dos animar e das crianças.
- Pode ficar sossegada, vou tomar muito cuidado.
- Estava saindo com o pacotinho na mão, quando pensei:
Se eu usar veneno primeiro no menino, ela pode desconfiar.
- Voltei-me e disse:
- Estou tendo dificuldade para dormir, mãe Albertina.
Será que a senhora não tem alguma erva para me ajudar?
- Tenho, sim.
- Entrou em casa e, de cima do guarda comida, pegou um pote de barro.
Colocou sobre a mesa e foi tirando uma porção de pacotinhos menores.
Olhou um após outro, até que encontrou o que queria.
- Este aqui é muito bom.
Se colocar um pouquinho em qualquer chá, dorme na hora e por muito tempo.
- É verdade? Vou poder dormir a noite toda?
- Dependendo da quantidade, pode dormir até mais.
Por isso, não usa muito.
- Muito obrigada, mãe Albertina.
Quanto vai custar o veneno e o calmante?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:18 pm

- Não custa nada, não.
Essas coisa aprendi cum minha mãe, que aprendeu cum a mãe dela.
Está na famia há muito tempo.
É coisa de Deus. Por isso, num possu cubrá, não.
- Está bem, sendo assim, obrigada. Depois eu trago um presentinho para a senhora.
- Num percisa não, minha fia.
Só quero que seja filiz.
- Com o pacotinho na mão, saí de lá e voltei para casa.
Encontrei Zefinha lavando o quintal.
Olhei em volta e vi que não havia ninguém que pudesse ouvir nossa conversa, me aproximei:
- Zefinha, você sabe onde Maria Rita mora?
Ela me olhou desconfiada:
- Para que a senhora quer saber?
- João Pedro me contou que estão juntos e que nasceu um menino.
Embora possa parecer o contrário, fiquei muito feliz e quero conhecer o menino.
Comprei um presente para ele e quero dizer para Maria Rita que vou providenciar o casamento.
João Pedro disse que ela mora em um lugar muito ruim.
Isso não pode continuai acontecendo.
O menino é meu neto, precisa ter o melhor!
- Ela, ainda desconfiada, perguntou:
- A senhora está falando a verdade?
- Claro que estou Zefinha!
Para que ia inventar uma coisa como essa?
Não sou aquele monstro que todos pensam!
Esse menino é o meu primeiro neto!
- Ela pensou mais um pouco:
- Parece que a senhora está falando a verdade.
Eu sei onde ela mora, sim.
Vou dar o endereço e, quando vir o menino, vai ficar apaixonada!
Ele é lindo, forte que nem um touro!
Estou muito feliz, porque a senhora aceitou seu neto.
Não sei escrever, mas vou ensinar direitinho.
Não tem erro, vai achar logo.
- Não vejo a hora de conhecer o meu neto!
- Depois de entender bem o endereço, agradeci e entrei em casa.
Fiquei algum tempo, andando de um lado para outro, depois saí e fui conferir se havia entendido bem onde ficava o cortiço.
Como ela havia dito, ficava ali perto e não foi difícil achar.
Feliz por tudo estar caminhando como eu planejara, fui para sua casa, Yara.
- Lembro-me muito bem daquele dia...
- Eu também, infelizmente.
Depois de contar a você o que havia conversado com Zefinha, disse:
- Vai ser amanhã, Maria da Glória.
Vá até lá em casa e, depois do almoço, faça da maneira como combinamos.
Você vai ficar conversando com ele na sala da frente.
Vou sair e entrar pelo portão dos fundos.
Ele vai pensar que eu estarei dormindo.
Quando eu voltar, vou até a sala e, só aí, você poderá ir embora.
Se fizer direito, vai dar tudo certo e ficaremos livres daquela mulher.
Depois que ela e o menino morrerem, você ficará ao lado de João Pedro, confortando-o, dando-lhe apoio.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:19 pm

Só assim você poderá se casar com ele!
- Sei disso, dona Eliete, vou fazer o possível para que dê certo.
- O possível, não, Maria da Glória!
Vai fazer o impossível, mas precisa conseguir!
- Ele não vai querer ficar conversando comigo...
- Fale daquela negra!
Diga que está feliz por ele!
Pergunte como tudo começou!
Diga que quer conhecer seu filho!
Diga que também não queria se casar com ele e que só estava aceitando por insistência de seus pais!
Não sei, invente qualquer coisa, mas não permita que ele saia de casa!
- Está bem, vou fazer como está dizendo.
E se ele não quiser falar comigo?
- Precisa arrumar um jeito de me avisar e teremos de pensar em outra maneira, mas, se falar como eu disse, sei que vai escutá-la.
- Fiz o que a senhora mandou.
Fui almoçar e, depois do almoço, ele quis sair, mas consegui impedir.
Comecei a falar de Maria Rita.
Ele parou para me escutar.
Eu fui puxando um assunto após o outro, sempre falando dela.
Disse que também não queria me casar com ele, que estava sendo obrigada por meus pais.
Disse que, assim como ele, também gostava de outro.
Ao ouvir isso, ele se sentou e ficamos conversando até quando a senhora voltou.
- Depois do almoço, vendo que você estava na sala conversando com ele, fui até lá.
- Desculpe Maria da Glória, mas todas as tardes eu preciso dormir.
Fique conversando com João Pedro até que eu acorde.
Espero que não fique brava, mas estou acostumada.
- De maneira alguma, dona Eliete. Conheço seu costume.
- Percebi que João Pedro não ficou contente, mesmo assim, me afastei e caminhei em direcção ao meu quarto.
Entrei, coloquei um casaco comprido sobre o vestido, peguei um cachecol e enrolei sobre a cabeça e o rosto, deixando apenas os olhos para fora.
Precisava tomar cuidado para que ninguém me visse, não podia deixar rastro algum da minha passagem pela casa de Maria Rita.
Como não era muito longe, fui caminhando.
Poderia tomar uma charrete, mas, caso a polícia desconfiasse de alguma coisa, poderia ser reconhecida pelo chofer.
Quando cheguei frente ao portão, olhei para os lados e, para minha alegria, não havia ninguém na rua.
Abri o portão e entrei. O corredor era imenso.
À medida que caminhava, pude ver que, de um lado, só havia quartos e do outro, as cozinhas.
O lugar era deprimente.
Lembro-me de que, enquanto caminhava, pensava:
Este lugar é digno de uma negra como ela!
- Caminhei alguns metros, até que cheguei à porta em que Zefinha me disse que ela morava.
Pude ouvir o choro de uma criança.
Bati à porta e fiquei esperando.
Quando Maria Rita abriu e me viu, começou a tremer:
- O que a senhora quer aqui?
Como me descobriu?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:19 pm

- Fique calma.
Não estou aqui para fazer mal a você.
Ao contrário, João Pedro me falou do menino e eu quero conhecê-lo. Posso entrar?
- Ela, receosa, se afastou para que eu entrasse.
Entrei e o que vi me deixou arrepiada.
O quarto era minúsculo.
Tinha só uma cama de casal e roupas penduradas em pregos presos às paredes.
Sobre duas cadeiras forradas com um travesseiro, estava o menino que chorava sem parar.
Maria Rita seguia todos os meus movimentos.
Quando me aproximei do menino, ela se colocou na minha frente e, nervosa, perguntou:
- O que a senhora quer com o meu filho?
- Apenas conhecê-lo e levar você e ele para a nossa casa, até que os papéis do casamento fiquem prontos.
- Casamento?
- Claro que sim!
João Pedro me contou tudo.
Não entendo por que esconderam por tanto tempo.
Ainda mais agora que esta coisa linda nasceu!
É o meu primeiro neto e ele vai ter tudo do que precisa e ainda mais!
Ele vai ser o nosso príncipe!
Raquel, ao se lembrar daquela cena, começou a chorar:
- Como pude fazer aquilo, meu Deus?
Samuel respondeu:
- Usou seu livre-arbítrio.
Teve a chance de escolha.
- É verdade...
Francisco, nervoso e curioso, perguntou:
- O que você fez Raquel?
- Maria Rita, acreditando no que estava dizendo, pegou o menino e deu para que eu o segurasse.
Quando peguei o menino no colo, senti um frio pela espinha e um asco tão grande que não consegui olhar no seu rosto.
Aconcheguei-o junto ao meu peito e comecei a embalá-lo.
Ele, parecendo pressentir o que estava para acontecer, chorava sem parar.
Maria Rita, confiante, disse:
- Não sei o que fazer dona Eliete, ele não para de chorar.
Já dei de mamar, troquei a fralda, mas ele não para!
- É normal, Maria Rita.
Isso acontece com todo recém-nascido.
Eles sentem cólica.
Não sei qual é o motivo, deve ser porque seu organismo precisa funcionar.
Sabendo disso, antes de vir para cá, fui conversar com mãe Albertina.
Você se lembra dela?
- Claro! Todo mundo conhece!
Já fui a sua casa em busca de algum medicamento.
- Foi por isso que, antes de vir para cá, fui até lá.
Quando eu tive meus filhos, ela tinha um pó que colocava na chupeta e essa cólica passava na hora.
Conversei com ela. Contei que você tinha tido um filho de João Pedro e pedi que me desse aquele pó para que eu trouxesse para você.
Quer experimentar?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 7:19 pm

- Não vai fazer mal?
- Claro que não! Usei com meus filhos e eles se acalmaram na hora!
Não se esqueça de quem me deu foi mãe Albertina, ela sabe o que faz!
- Nisso a senhora tem razão.
Ela é muito boa no que faz.
Vamos experimentar.
- Pegue a chupeta dele e vamos colocar um pouco desse pó.
Precisa molhar um pouco para que o pó grude.
- Ela, confiando, pegou a chupeta, molhou em um copo onde havia água e me deu.
Peguei a chupeta, passei pelo pó e coloquei na boca do menino que, após chupar, adormeceu.
Ela ficou encantada:
- Deu certo, dona Eliete!
Ele está dormindo!
- Não falei que funcionava?
Quando ele começar a chorar, faça isso novamente.
Ele vai deixar de sofrer e você vai ficar mais calmo.
- Vendo que meu plano estava dando certo, falei:
- Está muito frio, Maria Rita.
Você tem algum tipo de chá?
- Tenho de cidreira. A senhora quer?
- Gostaria.
- Vou preparar.
A senhora não se importa de ficar tomando conta dele?
- Não, pode ir.
Estou, realmente, com muito frio.
- Ela, ainda acreditando em mim, saiu do quarto. Eu sorri.
Sabia que a cozinha ficava em frente.
Logo depois, ela voltou com duas xícaras.
Colocou em uma pequena mesa que havia ali e disse:
- Desculpe, mas não tenho pires nem açucareiro.
Adocei da minha maneira, espero que esteja bem, mas, se não estiver, eu pego outro ou coloco mais açúcar.
- Peguei a xícara e tomei um gole.
- Desculpe Maria Rita, mas está um pouco amargo.
- Coloquei bastante açúcar, mas, se quiser, posso colocar mais.
- Se não se incomodar, gostaria muito.
- Ela saiu e eu aproveitei para colocar o veneno no chá que ela ia beber.
Voltou logo depois e me entregou a xícara.
Enquanto eu tomava o meu chá, ela tomava o dela.
Quando terminei, disse:
- Agora que colocou mais açúcar, o chá está muito bom, Maria Rita.
Eu precisava mesmo.
Estava com muito frio.
- Ela sorriu.
Ia dizer alguma coisa, mas não conseguiu.
Sentiu o corpo fraco, contraiu o rosto e, com os olhos abertos, caiu sobre a cama.
Vendo que ela ainda não estava morta, peguei um travesseiro, coloquei sobre seu rosto e fiquei apertando bem firme.
Percebi quando tentou, em um último esforço, se mexer, mas não dei importância.
Continuei segurando e apertando, até perceber que seu corpo havia amolecido.
Tirei o travesseiro e constatei que ela não respirava mais.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:18 pm

Feliz por ter dado certo, voltei-me para o menino que dormia.
Peguei o mesmo travesseiro, coloquei sobre seu corpinho e apertei sobre seu rosto.
Ele demorou bem menos que a mãe para deixar de respirar.
Depois disso, peguei uma das xícaras em que ainda havia um pouco do veneno e, com cuidado, abri os dedos dela e coloquei a xícara, para parecer que ela havia tomado o chá com veneno.
Peguei a chupeta que estava ao lado do menino, passei pelo pó e, com esforço, consegui abrir a boquinha dele e colocar a chupeta.
Peguei a xícara em que eu havia bebido o chá, saí dali e, rapidamente, voltei para casa.
Entrei pelo portão dos fundos.
Fui para o meu quarto, troquei de roupa, depois de alguns minutos, para poder respirar tranquilamente, fui até a sala, onde você, Yara, ainda conversava com João Pedro.
- Quando vi a senhora entrando na sala, respirei aliviada.
Já havia falado sobre todos os assuntos.
Ele estava se despedindo, dizendo que ia ver Maria Rita e o menino.
Eu não sabia mais o que fazer.
Fiquei com medo de que ele a encontrasse lá.
- Também fiquei com medo, Yara, mas confiei que você estivesse seguindo nosso plano.
Samuel disse:
- Deveria ter temido não pelo facto de João Pedro poder encontrá-la ali, mas, sim, pelos vultos negros que a esperavam do lado de fora do quarto de Maria Rita.
Assim que você saiu, eles a envolveram e acompanharam até depois de sua morte.
- Eu sei. Eles me aterrorizaram por muito tempo.
Raquel tentava segurar as lágrimas de arrependimento que caíam sobre seu rosto.
Yara estava pálida e também chorava.
Raquel, olhando para todos, disse:
- Eu mereci tudo o que veio depois.
O que eu fiz? Tirei uma criança inocente dos braços da mãe para matá-la?
Matei uma mulher sem motivo algum?
Samuel, que segurava sua mão, afastou-se.
- Foi isso o que fez Eliete, ajudada por você, Maria da Glória.
Porém, embora estivesse feliz por seu plano ter dado certo, na realidade não deu.
Assim que você chegou, João Pedro saiu dali e foi ao encontro de Maria Rita.
Quando chegou e viu que ela e o filho estavam mortos, ficou desesperado, sem entender o que havia acontecido.
Começou a gritar o que atraiu os vizinhos.
Todos se comoveram com o sofrimento dele.
Chamaram a polícia e, enquanto os corpos foram levados, você, Eliete, e você, Maria da Glória, ainda conversavam.
Entusiasmada, você contava:
- Consegui que ela confiasse em mim, Maria da Glória.
Não desconfiou nem por um minuto de que aquilo que eu falava era mentira!
Deu tudo certo. João Pedro deve voltar logo, por isso você vai ficar aqui para consolá-lo.
Vai precisar ter paciência.
Por algum tempo, ele vai sofrer muito, mas logo esquecerá e vocês poderão se casar e serão felizes para sempre!
Samuel continuou:
- Realmente isso aconteceu.
Quando os corpos foram levados, João Pedro voltou para casa.
Como vocês previram, ele estava arrasado e desesperado.
Assim que ele entrou, vocês correram para ele.
- O que aconteceu, meu filho?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:19 pm

- Ele, chorando, respondeu:
- Estão mortos...
- Demonstrando um nervosismo que não sentia você perguntou:
- Quem morreu João Pedro?
- Maria Rita e meu filho...
- O que você está falando?
- Eles estão mortos, mamãe!
- Morreram como?
- Não sei!
Quando cheguei, encontrei os dois mortos...
- Como isso aconteceu?
- Não sei! Não sei...
- Mesmo diante do desespero de seu filho, você não se comoveu Raquel.
A única coisa com que se importava era que seu plano havia dado certo.
Você também, Maria da Glória, estava feliz.
Sabia que agora poderia se casar com o homem que tanto queria.
Ainda chorando, João Pedro foi para seu quarto.
Assim que ele saiu, você, vitoriosa, disse:
- Deu certo, Maria da Glória!
Ele não desconfia do que aconteceu!
Por alguns dias, ele vai ficar assim, mas logo todo esse sofrimento vai passar e ele poderá ser só seu!
- É só isso que quero dona Eliete!
Quero ficar com ele para o resto da minha vida!
- Também quero isso!
Imagine se eu ia permitir que uma negra ignorante como aquela entrasse para a minha família que tem nome e tradição!
Raquel, agora, estava em prantos:
- Lembro-me de tudo isso e não entendo como pude fazer uma coisa como aquela...
- Hoje, você pensa assim, mas, naquele dia, achava que estava certa.
Ao cometer aquele crime, você escreveu o seu destino, a sua próxima encarnação.
- Estou começando a entender...
Samuel continuou:
- Após uma rápida investigação, a polícia concluiu que Maria Rita havia matado o filho e se matado depois.
João Pedro não se conformou, não entendia por que ela havia feito aquilo.
Julgava-se culpado por não tê-la assumido logo e por tê-la colocado ali naquele cortiço.
Desde esse dia, ele se trancou no quarto e só saiu para ir ao enterro.
Depois que o enterro terminou, ele foi para um bar e bebeu sem parar.
- Foi isso que aconteceu.
Começou a beber e, embora eu e você, Yara, tenhamos tentado, ele não parou nunca mais.
Logo pela manhã, saía de casa, bebia muito e ficava perambulando pelas ruas.
A culpa que sentia não o abandonava.
- É verdade, Eliete.
Você, que não quis que seu nome fosse comentado por ter uma negra na família, era, agora, comentado, por ter um bêbado, que mais parecia um mendigo.
Com a vida que levou e a quantidade de bebida que tomou, em pouco tempo, João Pedro adquiriu uma doença no fígado e morreu muito jovem.
No momento de sua morte, Maria Rita estava ao seu lado, esperando-o.
Com a morte de seu filho, você ficou inconsolável.
Ninguém havia desconfiado do que acontecera realmente, o que, a princípio, deixou-a muito feliz e tranquila, mas, ao ver seu filho naquela situação e sabendo o que havia feito, sentiu-se culpada.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:19 pm

Como companhia, você tinha os vultos negros que, com suas energias, não a deixavam esquecer.
- Com o peso da minha culpa, também adoeci e morri.
Assim que dei o último suspiro, pude ver essas energias de que está falando, Samuel.
O medo que senti foi terrível.
Sem que falassem qualquer coisa, eu sabia o motivo de estarem lá.
Tentei fugir, mas não consegui.
Em todos os lugares, eu via o rosto de Maria Rita e do menino.
As energias me rodeavam, não importando o lugar onde eu tentasse me esconder.
- Foi isso o que aconteceu.
Quando se ouve dizer que, mesmo não pagando um mal na Terra, Deus tomará conta, muitos dão risadas e não acreditam, porém, isso é verdade.
Ninguém fica impune de um crime praticado.
- Eu corria e me escondia.
O lugar era horrível, ouvia prantos, gemidos e monstros me atacavam, não importando o lugar em que eu estivesse.
Sentia-me só e desamparada.
- Mas não estava, Raquel.
Apesar do que havia feito, seus amigos estavam sempre ao seu lado, até mesmo Maria Rita e Mauro, o filho dela.
- Mauro?
- Sim, ele mesmo.
Mauro, que depois seria seu filho, era o menino que você havia matado.
Depois de você ser resgatada, e chegando a hora de renascer, ele aceitou ser seu filho.
Ambos sabiam que ele morreria cedo.
Assim, você sofreria a dor de perder um filho, ainda criança.
O mesmo aconteceu com Francisco.
Mesmo sabendo de tudo o que você havia feito, ele quis renascer ao seu lado e ficar até o dia em que estivesse pronta para caminhar sozinha, para fazer suas escolhas e, assim, resgatar todos os erros cometidos.
- Espero que, desta vez, eu esteja agindo certo.
- Até aqui, sim.
Por isso trouxemos você até aqui.
Você sentiu a dor de perder um filho e reagiu muito bem a isso.
Também superou a dor de perder um marido e a de ficar sozinha.
Agora, vai passar por uma prova definitiva.
Nunca se esqueça de que tudo por que está passando foi opção dada e aceita por você.
- O senhor falou em prova definitiva.
Que prova vai ser essa?
- Sempre que falhamos em algo, a mesma situação se repete.
Você, por orgulho, ignorância e preconceito, falhou com Maria Rita, seu filho e com João Pedro.
Isso acontece há várias encarnações, mesmo assim, eles sempre voltam para ajudá-la a superar esses sentimentos nocivos.
- Já cometi esse crime outras vezes?
- Sim, infelizmente.
Por mais que se arrependa, sempre volta a fazer, de maneira diferente, as mesmas coisas.
Precisa resgatar o mal que lhes causou.
Antes de renascer, sabia que esse dia chegaria.
Estamos aqui somente para ajudar você, neste momento decisivo.
- Nunca mais vou fazer o que fiz!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:19 pm

- Não fale com tanta certeza, Raquel.
O orgulho, a ignorância e, principalmente, o preconceito são sentimentos muito fortes, difíceis de serem superados.
- Sei disso, mas, como Raquel, não tenho preconceito algum.
Converso com todas as pessoas.
Hoje estou bem, tenho dinheiro e tranquilidade, mas não esqueço os momentos difíceis por que passei!
Dessa vez, tenho certeza, vou vencer!
- Estamos torcendo por você.
Tomara que consiga!
- Vou conseguir!
- Agora, precisa voltar.
Está amanhecendo e você vai ter um longo dia de trabalho. Descanse.
- Está bem e obrigada por tudo o que estão fazendo por mim.
Voltou-se para Francisco.
- A você, também, preciso agradecer por ter ficado sempre ao meu lado.
- Aconteça o que acontecer, estarei sempre ao seu lado...
Ela beijou-o e disse:
- Sempre soube disso e é por isso que tive forças para continuar.
Yara perguntou:
- E eu? O que vou fazer?
- Terá a mesma chance que Raquel.
Em muitas vidas, tem sido sua cúmplice, tomara que, nesta, consiga reagir e fazer a coisa certa.
- Vou conseguir!
Desta vez não vou me deixar influenciar!
- Está bem, faça isso e só nos trará alegria e, para você, será um aval para continuar em busca do amanhã, da eternidade.
Antes que pudesse dizer algo, desapareceram.
Raquel acordou sentindo sede.
Yara virou-se na cama e continuou dormindo.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:20 pm

A COBRANÇA
O tempo passou.
Raquel continuou viajando.
Ela se ausentava duas ou três vezes por mês.
Fazia isso com tranquilidade, pois sabia que em sua casa, tudo estava bem, porque Lia cuidava de tudo.
Em uma tarde, Lia estava conversando com uma das empregadas da casa, quando Marcos entrou.
Como sempre fazia, beijou-a no rosto.
- O que está fazendo em casa a esta hora, Marcos?
Não foi à faculdade?
Ele abriu um largo sorriso e respondeu:
- Como sempre, curiosa, dona Lia!
Não, não fui à faculdade.
Vou me encontrar com alguns amigos para fazermos um trabalho juntos. Eles virão para cá.
Espero que não fique nervosa.
- Quando foi que fiquei nervosa por trazer amigos aqui em casa?
Se fosse Moacir, eu estranharia, pois sei que ele não é de fazer muitos amigos, mas você, não, é amigo até de desconhecidos.
- Moacir é muito sério.
Gosta mesmo é de trabalhar com a mamãe. Gosta de empresa.
Eu não quero viver a vida e ser feliz!
- Ainda bem que ele é assim.
Quando sua mãe resolver parar de trabalhar, alguém vai precisa continuar com a empresa.
- Que seja ele.
Não quero ser como minha mãe.
- O que está dizendo, Marcos?
Sua mãe é uma grande mulher!
Trabalhou muito para transformar a pequena marcenaria que seu pai começou nessa grande empresa!
Com muito trabalho, conseguiu dar a você e a seu irmão a vida com que sempre sonhou!
Você deveria agradecer a Deus pela mãe que tem!
- Eu agradeço, dona Lia!
Mas, de vez em quando, fico pensando em quanto eu perdi para ter tudo o que tenho.
- O que você perdeu Marcos?
- Nunca tive minha mãe por perto.
Sempre que a via ou tentava conversar com ela, não podia, porque ela estava entrando ou saindo.
Ela nunca teve tempo para nós, seus filhos.
- Você está sendo injusto, Marcos!
A única preocupação dela foi sempre com vocês.
Conseguiu pagar uma boa escola e a faculdade.
Poderia ter se casado outra vez e olhe que não faltou oportunidade, mas sempre recusou.
Quando eu perguntava por que não aceitava que qualquer homem se aproximasse, ela respondia:
- Não quero dar outro pai para meus filhos, Lia!
Francisco foi o único homem da minha vida!
- Moacir gosta disso, eu não.
- Por que não, Marcos?
- Quando meu pai morreu, minha mãe passou a se preocupar só em ganhar dinheiro, se esqueceu de que precisávamos da sua presença.
Eu preferia que ela tivesse se casado, assim teria ficado mais tempo ao nosso lado.
A sorte foi que tivemos a senhora e o seu Norberto, que são os nossos verdadeiros pais.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:20 pm

Lia, emocionada, disse:
- E vocês sempre foram os filhos que não tivemos, mas você não está sendo justo com sua mãe.
Ela só pensou em dar tudo a vocês.
Ela sempre quis que vocês fossem felizes e crescessem com tranquilidade.
- Isso, ela conseguiu, graças à senhora e ao seu Norberto, mas, mesmo assim, senti muito sua falta.
Só sei que nunca vou me casar, mas, se isso acontecer e eu tiver um filho, vou estar sempre presente em sua vida!
- Olhe quem está falando!
Você que nunca se interessou realmente por moça alguma!
Você só quer namorar todas, mas sem compromisso!
Ele começou a rir:
- Tem razão! Para que vou me casar e ficar só com uma, quando posso ter tantas?
Nunca vou me casar!
Quero continuar vivendo assim como vivo!
- Sabe que essa vida, quando terminar a faculdade, vai acabar não sabe?
- Sei. Minha mãe já deixou isso bem claro.
Ela quer que eu também trabalhe na empresa.
Vou ter que fazer isso, mas, enquanto essa hora não chegar, vou aproveitar a vida.
- Faça isso, meu filho.
Aproveite bem a vida.
Nunca sabemos quando ela vai terminar.
- Pare com isso, dona Lia!
Vou viver muito!
- Claro que vai, Marcos!
- De uma coisa eu tenho certeza!
- Do quê?
- Não vou fazer como Moacir!
- O que seu irmão faz que desagrada tanto a você?
- Não sei como ele conseguiu namorar e se casar com uma moça como a Joice.
- Por que está dizendo isso, Marcos?
Ela é uma boa moça.
- Pode ser uma boa moça, mas é pedante.
Já viu as roupas e sapatos que usa?
- Sim, são bonitos.
- E muito caros dona Lia!
Não sei como ela consegue gastar tanto!
- Seu pai sempre teve muito dinheiro e sempre fez todas as suas vontades.
- Pode ser, mas, mesmo assim, acho que gasta mais do que pode.
Sempre que a vejo, está carregando um pacote de alguma grande loja.
Quem compra roupas em lojas?
A senhora compra?
Minha mãe compra?
Olhe que minha mãe, se quisesse, poderia usar roupas muito cara, mas não faz isso.
- Raquel é diferente, sempre foi muito simples, já Joice gosta de andar bem arrumada.
- O que ela gosta é de gastar!
Não sei se Moacir vai ter tanto dinheiro assim.
- Com o tempo, ela vai mudar.
- Não sei, não. Jamais me casaria com uma mulher igual a ela.
Lia começou a rir:
- Vamos ver com quem você vai se casar.
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Ave sem Ninho

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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:20 pm

Sabe que sua mãe quer muito que você se case com Yara.
Ela, além de muito bonita, é filha de deputado!
- Quem quer é minha mãe, eu não!
Yara pode ser muito bonita, mas não quero me casar nem ter compromisso, mas, se um dia for me casar, com certeza não vai ser com ela!
- Esse casamento deixaria sua mãe muito feliz.
- Então ela vai ficar infeliz para o resto da vida.
Não vou me casar com Yara nem com ninguém!
Nunca vou me casar!
Quero viver a vida!
- Está bem, vamos esperar o tempo passar.
Quando encontrar aquela que vai ser sua mulher, garanto que vai mudar de ideia.
- Pode esperar sentada.
Isso nunca vai acontecer!
- Vamos esperar Marcos.
Ele, beijando-a novamente, disse:
- Vamos esperar, mas, agora, vou para a biblioteca.
Meus amigos devem estar chegando.
- Vá e, assim que eles chegarem vou servir um lanche para que comam enquanto estudam.
Antes de sair, Marcos, parecendo lembrar-se de alguma coisa, perguntou:
- Como está o seu Norberto?
- Do mesmo modo.
Ele está sofrendo muito com a doença.
Quando o vejo sofrer dessa maneira, sem que eu possa nada fazer para evitar sua dor, sofro muito, mas o médico disse que não podemos ter esperança.
Não há cura para sua doença.
É só uma questão de tempo.
Ele é um bom homem, um bom marido e fez de tudo para que eu fosse feliz e, agora, nada posso fazer para que não sofra...
- Sinto o mesmo que a senhora, pois, além de tudo o que a senhora falou, ele foi o melhor pai que poderíamos ter tido.
Não entendo por que a morte precisa ser assim...
- Assim como, Marcos?
- Por que precisamos sofrer tanto para morrer?
Um homem como ele não merece tanta dor, tanto sofrimento.
Penso que, quando chegasse há nossa hora, devíamos dormir à noite e, no dia seguinte, não acordar.
Sem dor, sem sofrimento...
- Isso seria o ideal, mas, infelizmente, não é assim.
- Quando vejo o quanto ele está sofrendo, eu penso que, se ele tivesse sido um homem mau, até que merecia sofrer tanto, mas não, ele sempre foi bom!
Foi o pai que não tivemos!
Não merecia isso!
- Também penso assim, mas o que sabemos da vontade de Deus?
- Embora todos falem muito em Deus, tenho cá as minhas dúvidas...
- O que está dizendo, Marcos?
Tem dúvidas sobre o quê?
- Quando vejo o que está acontecendo com o seu Norberto, chego a duvidar de que Deus exista realmente...
Raquel estava entrando e ouviu o que Marcos disse. Nervosa, falou:
- Não fale isso nem brincando, Marcos!
Ele e Lia se voltaram.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:20 pm

Ele, rindo, disse:
- Olá, mamãe! A senhora já chegou?
Ela, ainda nervosa, respondeu:
- Já cheguei e não gostei de ouvir o que você falou!
- A senhora está dizendo isso, porque não ouviu toda a nossa conversa.
- Não ouvi, mas nada existe que possa colocar em dúvida a existência de Deus!
De onde tirou essa ideia, meu filho?
- Estávamos falando sobre a doença de seu Norberto, de quanto ele está sofrendo.
- Também não entendo tanto sofrimento, mas, mesmo assim, não iremos duvidar de que Deus existe.
- Não sei como logo à senhora pode falar algo assim.
- Logo eu, por quê?
- A senhora perdeu o marido e o filho no dia em que nasci como pode, ainda, acreditar que Deus existe?
Eu penso ao contrário, mesmo que exista é muito mau!
- Quando seu pai e seu irmão morreram também me revoltei, mas, graças a Deus, uma pessoa me ajudou muito a entender que Deus existe e que é muito bom.
- Que pessoa?
O que ela disse?
- Dona Catarina, a mãe de Martin.
Ela, infelizmente, já morreu, ela foi de grande ajuda naquele momento pelo qual eu estava passando e graças a ela, consegui retomar minha vida e chegar até aqui, sentindo-me vitoriosa.
Embora muitas vezes não entendamos os motivos de alguns sofrimentos, Deus existe e é muito bom, Marcos.
- O que posso fazer, se a senhora pensa assim.
Eu ainda tenho minhas dúvidas.
- Não vou tentar mudar sua opinião.
Porém foi muito bom encontrar você em casa.
Precisamos conversar.
- Eu é quem digo isso.
Quase nunca vejo a senhora.
Quando não está trabalhando, está viajando.
- Graças ao meu trabalho, você tem uma boa vida.
Marcos, rindo, perguntou:
- Sobre o que quer conversar?
- Como está o seu namoro com Yara?
Ele rindo, mais ainda, respondeu:
- Eu não namoro a Yara, mamãe!
De onde tirou essa ideia?
- Como não namora? Vocês saem juntos!
Vão a teatro, cinema e festas?
- Assim como vou com ela, vou com outras mais!
Não existe namoro!
Não quero namorar sério com ela nem com ninguém!
Ela é uma boa companhia e minha amiga!
Nada mais que isso!
- Você precisa se casar com ela, Marcos.
- Precisa? O que está dizendo, mamãe!
- É o que ela mais quer!
- Nem pensar, mamãe!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:21 pm

Já disse que não estou pronto para me casar e, quando estiver, com certeza não será com ela que me casarei!
- Não entendo o porquê dessa rejeição quanto à Yara.
Ela é uma moça bonita, educada, fala nem sei quantos idiomas e já viajou por muitos lugares.
É uma moça preparada para ser sua mulher!
- Ela é tudo isso, mas não a amo para me casar com ela.
Quando eu me casar, se isso acontecer, vai ser com uma mulher a quem amo e com queira viver ao lado por toda minha vida e Yara, definitivamente, não é essa mulher!
Raquel, nervosa, falou:
- Você precisa se casar com ela, Marcos!
- Não estou entendendo por que tanta insistência para que eu me case!
O que está acontecendo?
- Hoje almocei com o deputado, pai dela.
Conversamos muito e ele me falou de quanto ela gosta de você e do quanto gostaria que se casassem.
- O que mais ele disse para que a senhora viesse falar comigo a esse respeito?
- Ele me contou que está sendo terminado o prédio onde vai ser instalada a Câmara e que, por isso, vai ser aberta licitação.
Disse que, com sua ajuda, a nossa empresa poderá ganhar a licitação, Marcos!
- O que eu tenho a ver com isso?
- Ele não falou claro, mas falou nas entrelinhas que só tem uma filha, que é a coisa mais importante na vida dele e que faria qualquer coisa para que ela fosse feliz.
Depois, falou do grande interesse que ela tem por você.
Depois dessa conversa, deduzi que, se você se casar com Yara, poderemos vencer a concorrência e ganhar muito dinheiro!
Marcos voltou a rir:
- A senhora está me vendendo, mamãe?
- Não é isso, Marcos!
Só estou vendo uma maneira de ganharmos muito dinheiro!
- Não entendo a senhora!
Nossa empresa é sólida!
Exportamos não só para outros estados como para alguns países da América do Sul!
A senhora conseguiu bens móveis e imóveis.
Temos tanto dinheiro que meus filhos e netos poderão ter uma boa vida!
Para que a senhora precisa de mais dinheiro?
- Para dar a você e ao seu irmão tudo do que precisam!
Ele voltou a rir, só que muito nervoso:
- Não, mamãe! No princípio, pode ter sido esse o motivo, mas agora não é mais!
A senhora se tornou gananciosa!
Largou seus filhos para correr atrás de um sonho!
De umas conquista!
Conseguiu, mas não venha pedir que eu sacrifique minha juventude, minha vida!
Não farei isso!
Não vou me casar com Yara nem com qualquer outra que não ame e que eu mesmo não escolha!
Não vou fazer isso!
Raquel, perplexa, olhou para Lia que a tudo assistia:
- Você ouviu o que ele disse, Lia?
Depois de tanto trabalho, tanto sacrifício, eu ouvir que sou gananciosa!
Não consigo acreditar que tenha dito isso, Marcos!
Vivi a minha vida por vocês!
Dei tudo do que precisavam!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 7:21 pm

Moram em uma boa casa, comem o que sentem vontade, usam as melhores roupas, sempre frequentaram as melhores escolas e nunca sentiram frio!
Sempre dormiram em uma boa cama!
Quando seu pai morreu, eu não tinha trinta anos!
Nunca quis me casar para não dar um padrasto para vocês e é assim que me agradece?
Marcos, ainda nervoso, respondeu:
- Essas foram suas escolhas que eu agradeço, mas não é justo exigir que eu pague por tudo isso!
É um preço muito alto, que não estou disposto a pagar!
Não vou me casar com qualquer mulher que a senhora escolher!
Só vou me casar com aquela que eu amar e escolher!
Lia, ao pressentir para onde aquela conversa caminhava nervosa, falou:
- Parem com isso!
Nem parece que são mãe e filho!
Os dois estão errados e não é assim, ofendendo um ao outro, que resolverão essa situação!
Raquel ia falar qualquer coisa, mas a campainha tocou.
Lia ainda nervosa, disse:
- Seus amigos chegaram Marcos.
É melhor deixarmos essa conversa para depois.
Calada e muito nervosa, Raquel saiu.
Marcos se voltou para Lia e, beijando seu rosto, disse:
- Obrigado por tudo o que sempre fez por nós, dona Lia.
Ela sorriu e foi abrir a porta e, disfarçando o nervosismo, recebeu-os com um grande sorriso.
Eles, também sorrindo e brincando, entraram.
Estudaram a tarde toda.
Quando estavam indo embora, José Carlos, um deles, perguntou:
- Não se esqueçam da festa, sábado, na minha casa!
É o meu aniversário e vai ser muito boa.
Marcos, feliz, perguntou:
- Convidou muitas moças?
- Claro que sim, Marcos!
Se elas não fossem, não haveria festas!
Um deles disse:
- Não vá querer ficar com todas elas!
- Por que está dizendo isso, Paulo?
- Olhe a cara de inocente dele!
Você nunca se contenta só com uma! Quer todas!
- Não sei por que está reclamando, todos vocês já têm uma fixa!
Eu, ao contrário, ainda estou procurando a minha!
- Não tem uma fixa porque não quer!
Yara faria qualquer coisa para namorar você!
Marcos lembrou-se da conversa que havia tido com a mãe, mas, disfarçando, disse:
- Ela é somente minha amiga.
- Pode ser para você, mas, para ela, não é não!
Ela gosta de você e não esconde isso!
- Está exagerando, Paulo!
- Eu não! Você é que não quer ver!
- Deixe isso para lá!
O importante é que não se esqueçam do meu aniversário!
Vamos embora.
Todos olharam para José Carlos, riram e, acompanhados por Marcos que os levou até o portão, foram embora.
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