EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:00 pm

Hoje tenho mais de trinta clientes e já posso me casar.
- Você vai se casar, Martin?
- Vou, Raquel, e estou aqui para convidar vocês.
- Claro que vamos, não é Francisco.
- Com certeza!
Não poderíamos deixar de ir.
- Não vim aqui para convidar vocês para irem ao casamento, estou aqui para pedir que sejam meus padrinhos.
Afinal, só estou podendo me casar porque vocês iniciaram a minha profissão.
Raquel e Francisco se olharam.
Depois, Francisco, rindo, disse:
- Claro que vamos ser seus padrinhos!
Queremos que sejam muito felizes, assim como eu e a Raquel temos sido!
Para quando é o casamento?
- Daqui a quatro meses.
- Estaremos lá como seus padrinhos e, mesmo tendo todo esse trabalho que você está vendo, vou tirar um tempo para fazer a mesa e as cadeiras da sua cozinha.
- Não precisa Francisco.
Não é por isso que estou convidando vocês.
- Sei disso, mas faço questão.
Leve a Lídia até a marcenaria para que ela me diga que tipo de mesa e cadeiras quer.
- Você vai ter tempo para fazer?
- Vou encontrar um tempo, nem que tenha de trabalhar até tarde da noite.
Não se preocupe, apenas preciso saber que modelo vocês querem.
- Já que insiste, só posso agradecer.
Bem, já está tarde e vocês querem jantar. Vou embora.
- Não, Martin, jante connosco!
- Não posso Raquel.
Bem que gostaria, mas preciso pegar Lídia na escola e já estou atrasado.
- Não sabia que ela estava estudando.
- Está sim, Raquel, este ano ela se forma professora.
- Que bom Martin.
Não existe melhor profissão para uma mulher.
Francisco começou a rir.
- Embora você fique brava, Raquel, essa é a única profissão aceitável para uma mulher.
Fingindo estar nervosa, Raquel jogou sobre ele o pano de prato que estava em sua mão.
Martin também riu, despediu-se e saiu.
Já na rua, pensou:
Eles merecem toda essa felicidade.
São pessoas de bem e lutadores.
Enquanto Raquel preparava Mauro para dormir, Francisco, sentado em uma cadeira junto à mesa, em um papel, fazia as contas de quanto material precisaria.
Anotou tudo e deixou o papel sobre a mesa.
Depois, ele e Raquel foram para o quarto e deitaram-se.
Francisco ligou o rádio e, ao som de uma música, adormeceram.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:00 pm

UM NOVO COMEÇO
No dia seguinte, acordaram cedo.
Após tomar café, Raquel vestiu Mauro e preparou a sacola com as coisas que precisava levar para atender ao menino.
Antes de saírem, Francisco disse:
- Raquel, vamos começar uma nova fase da nossa vida.
Sinto que é para melhor. Obrigado.
- Também sinto isso, só não estou entendendo por que está me agradecendo...
- Por ter tido a ideia e me convencido a abrirmos a nossa empresa.
Estou feliz por ter aceitado a sua ideia.
Você não teve medo de arriscar todo dinheiro que tínhamos.
- Tive a ideia, mas só está dando certo porque você é um óptimo profissional e criativo.
Se não fosse, os modelos que você inventou teriam apenas mais um.
Estamos no caminho certo, Francisco.
Saíram e tomaram o ônibus que os levaria até o lugar onde Francisco estava acostumado a comprar o material de que precisava para fabricar seus móveis.
Foram atendidos por um vendedor, que Francisco já conhecia:
- Olá, Francisco!
O que vai levar hoje?
Francisco deu a lista com todo o material de que precisava:
- Quanta coisa!
Desta vez, a encomenda deve ser muito grande!
Francisco sorriu, demonstrando toda sua felicidade:
- É sim e tenho prazo para entregar.
Você tem tudo isso?
- Tenho, sim, mas como você vai pagar, com dinheiro ou cheque?
- Com dinheiro.
Pode separar e fazer as contas.
Preciso que me entregue o mais rápido possível.
- Amanhã, bem cedo, vai estar tudo na marcenaria.
- Está bem. Estarei esperando.
Raquel, calada, acompanhou toda a conversa.
Depois de tudo acertado, saíram dali e foram para uma rua onde havia muitas lojas de tecido.
Depois de muito procurar e de entrar em várias lojas, ela encontrou aqueles com os quais poderia fazer cortinas para as nove salas.
Separou, perguntou o preço.
Anotou em um papel os preços do tecido e de todo o material de que precisaria.
O dono da loja, quando viu que ela anotava tudo, perguntou:
- Sua casa parece ser grande.
Ela riu:
- Não! Moro em um quarto e cozinha!
- Para que está escolhendo tanto tecido?
- Vou fazer cortinas para algumas salas de uma empresa.
- A senhora faz cortinas?
- Sim e muito bonitas.
- Pode me deixar seu telefone.
Muitas mulheres vêm até aqui e me perguntam se eu conheço alguma costureira que faz cortinas e eu não conhecia ninguém.
Raquel olhou para Francisco que acenou com a cabeça para ela e disse para o homem.
- Ainda não temos telefone, mas teremos em breve.
Enquanto eu não vier trazer o número, se aparecer alguém pode dar o endereço da nossa casa.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:00 pm

- Óptimo! Não imagina o quanto eu procurava alguém que costurasse cortinas.
Vai ter muita encomenda, minha senhora.
Raquel sorriu:
- Tomara, preciso muito trabalhar!
- Vai trabalhar muito, pode ter certeza disso!
Saíram dali, comeram um lanche e tomaram o ônibus que os levaria de volta.
Francisco desceria alguns pontos antes de Raquel.
Ela iria para casa e ele ficaria na marcenaria. Enquanto o ônibus andava, ele disse:
- Você estava muito feliz, escolhendo os tecidos, Raquel.
- Estava, sim, pois, se eles aceitarem o orçamento, poderei ganhar um bom dinheiro em casa e, ainda, cuidar do Mauro.
Você viu como o dono da loja ficou entusiasmado, Francisco!
Acho que não vou mais parar de trabalhar.
Como Martin disse:
Deus cuida mesmo de todos nós!
Não poderia ter acontecido nada melhor.
- Tem razão.
Tomara que venham outras encomendas de cortinas.
- Não entendi quando você falou que dentro de alguns dias teríamos telefone.
Sabe que é muito caro conseguir um telefone.
- Sei que é caro, mas nós precisamos.
Preciso na marcenaria para falar com os clientes e, agora, você vai precisar para receber encomendas de cortinas.
Separei um pouco do dinheiro que recebi ontem e vou comprar o telefone à prestação.
Tem um lugar em que só é preciso dar uma entrada.
Eu nunca tive dinheiro, mas agora tenho.
- E se não pudermos pagar as prestações, Francisco?
- Vamos pagar Raquel!
Eu e você trabalhando, vai dar para pagar não só o telefone, mas muitas outras coisas que vamos comprar.
Vamos considerar que o telefone é uma ferramenta de trabalho.
Este é o primeiro dia do nosso crescimento!
A nossa marcenaria vai se transformar em uma grande empresa!
- Sabe que não gosto de ter dívidas, Francisco.
- Também não gosto, mas, se não fizermos dívidas, não conseguiremos nada na vida.
- É você tem razão.
Estive pensando, Francisco.
- No quê, Raquel?
- Depois de tudo o que aconteceu ontem, penso no que Martin e sua mãe têm dito.
Nunca havia prestado muita atenção àquilo tudo.
- Também tenho pensado a respeito.
Martin é uma pessoa que sempre está de bem com a vida.
Nunca o vi triste ou desanimado.
Só sabe dizer que tudo está certo, que todos nós temos um caminho para seguir, alguma coisa para fazer ou dívidas espirituais para resgatar.
Que todos precisamos caminhar, que, durante essa caminhada, nunca estamos sós e que sempre teremos ajuda para cumprir a jornada.
Que todos nós estamos caminhando em busca do amanhã.
Confesso que nunca acreditei muito nessa conversa, porque sempre achei muito cómodo se pensar assim.
Na realidade, a vida não é assim, mas você tem razão, depois de tudo o que aconteceu ontem, dá para se pensar a respeito.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:00 pm

- Eu estava tão revoltada e desesperada porque o que desejava não havia dado certo e, agora, vejo que foi melhor, que realmente não posso deixar de cuidar do Mauro, ele é ainda muito pequeno, mas nem por isso preciso deixar de ganhar algum dinheiro.
Entendi que, embora o lugar da mulher, em minha opinião, não possa ser só o de dona de casa, pois ela tem a mesma capacidade do homem, entendi que cuidar dos filhos, educá-los e prepará-los para a vida estão em primeiro lugar.
Quando Mauro crescer mais um pouco, souber falar e dizer o que quer, será mais fácil deixá-lo com alguém.
Por enquanto, ainda precisa de mim.
Depois de ontem, tenho fé de que receberei muitas encomendas e poderei ajudar você, não da maneira como pensava, mas costurando cortinas.
- Bem, parece que Martin está certo.
Sabe que nunca fui muito religioso e que, para mim, esse negócio de religião não passa de negócio mesmo.
Usam do medo do futuro para fazer com que as pessoas sintam que, tendo uma religião, estarão salvas e com o futuro garantido e que, depois da morte, poderão viver felizes na eternidade.
Tudo isso, para mim, sempre foi balela.
Ninguém pode saber realmente o que acontece com cada um de nós depois da morte e se realmente existe esse inferno terrível ou esse céu maravilhoso.
Cada um diz o que quer e acredita quem quiser.
Mas, agora, estou pensando nessa religião de Martin e vou saber mais sobre ela.
- Ele sempre diz que não é religião, Francisco, que é uma doutrina que nos ensina a viver e a entender que tudo o que nos acontece tem um motivo, um propósito e que existem momentos bons e ruins, e que tanto uns como outros são sempre para o nosso bem.
Confesso que é difícil aceitar isso, como compreender que algumas pessoas sofrem tanto, têm tanto problema, miséria, doenças, enquanto outras passam pela vida sem problema algum, com beleza, dinheiro, parecendo que nasceram para que tudo dê certo?
Não dá para entender.
- Tem razão, Raquel, mas, segundo Martin, tudo está sempre certo e cada um colhe o que planta.
- Outra coisa que não entendo Francisco.
Nem toda pessoa que tem tudo para ser feliz é uma pessoa boa, muitas são até cruéis.
Como pode estar colhendo o que plantou?
- Também não entendo, mas uma coisa não podemos negar.
- O quê, Francisco?
- Na hora em que mais precisávamos, quando parecia que tudo estava perdido, de repente, do nada, tudo aconteceu e, agora, temos à nossa frente uma nova vida, com um trabalho que vai nos dar, por muito tempo, tranquilidade para vivermos, criarmos nosso filho e outros que, provavelmente, virão.
Tenho fé que, mesmo antes de terminar essa encomenda, outra virá.
Por isso, precisamos conhecer mais a fundo essa religião ou doutrina.
- É mesmo, Francisco.
Eu estava tão triste por não poder sair de casa para vender os seus móveis e agora, além de não precisar sair, por um bom tempo, tenho trabalho para fazer em casa, podendo, assim, ganhar algum dinheiro e ainda cuidar da casa e do Mauro.
- Segundo o Martin, nunca estamos sós e sempre, nos momentos de maior desespero, aparece ajuda e tudo fica bem.
Parece que é verdade.
- Estou achando que é verdade, mesmo!
Ele sempre disse isso.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:01 pm

Vou até a casa do Martin, conversar com a mãe dele e pedir que me explique algumas coisas.
Ela entende muito.
Sempre pertenceu a essa religião ou doutrina.
- Vá mesmo, Raquel.
Eu, por enquanto, não posso fazer isso.
Preciso encontrar uma maneira de trabalhar e cumprir o prazo da entrega dos móveis.
É muito trabalho e sou sozinho.
Preciso encontrar alguém que me ajude.
Só não sei quem poderia ser.
Vou precisar de dois ou três ajudantes e de um bom marceneiro...
- É verdade, Francisco.
Você não vai dar conta, sozinho.
O vulto de mulher sorriu e estendeu a mão em direcção a Raquel, que, sem saber por que, perguntou:
- Será que o Norberto está trabalhando, Francisco?
Ele, admirado, olhou para ela e respondeu:
- Não sei Raquel.
Não está pensando em...
- Estou Francisco.
Sei que não quis ser nosso sócio, mas, se não estiver trabalhando, vai ficar agradecido por encontrar trabalho.
Ele é um marceneiro tão bom como você, não é?
- É um óptimo marceneiro, só não sei se vai aceitar...
- Não custa tentar.
Com ele trabalhando ao seu lado, você conseguirá entregar os móveis no prazo.
- Isso é verdade, só não sei como fazer esse convite.
E se ele ficar bravo ou se sentir ofendido?
- Não vejo motivo para isso.
Foi ele quem não quis ser seu sócio.
Entretanto, se estiver sem emprego, vai agradecer.
Na vida, sempre temos dois caminhos.
A única resposta que você pode ter é um sim ou um não.
Nada, além disso.
Portanto, acho que não custa tentar.
- Pensando bem, você tem razão, Raquel.
Quando chegarmos na hora de descer do ónibus, antes de você ir para casa e eu para a marcenaria, vamos passar pela casa do Norberto, fazer o convite e ver o que acontece.
Afinal, como você disse, só há uma resposta, não é?
- É, sim, Francisco, vamos fazer isso.
O vulto de mulher sorriu e continuou ao lado deles.
Assim que desceram do ónibus, foram para a casa de Norberto e Lia.
Diante do portão, bateram palmas.
Lia abriu a porta da sala e, ao vê-los, surpreendeu-se:
- Raquel, Francisco?
- Isso mesmo, Lia.
Estamos aqui para conversarmos com você e com o Norberto.
Ele está em casa?
- Está sim. Podem entrar.
Francisco abriu o trinco do portão e entraram.
Lia, tentando não demonstrar a surpresa que estava sentindo, afastou-se para que eles entrassem na sua frente.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:01 pm

Eles entraram.
Norberto, que estava sentado, ouvindo o rádio e lendo jornal, também ficou surpreso e, ao vê-los, levantou-se:
- Francisco, Raquel?
Estou surpreso com a visita de vocês.
- Surpreso por que, Norberto?
- Sei que ficaram magoados por eu não ter aceitado a sociedade.
Pensei que nunca mais fossem conversar comigo.
Francisco, sorrindo, disse:
- Não posso negar que fiquei chateado, mas vocês tinham o direito de não aceitar.
Afinal, precisariam apostar quase todo o dinheiro que tinham em algo que poderia não dar certo.
Era muito arriscado.
- Mas você, mesmo assim, arriscou, não foi?
- Foi, mas confesso que fiquei com medo, porém Raquel me convenceu de que deveríamos tentar.
- Está dando certo?
- Foi bem difícil.
Muitas vezes, ao ver que nosso dinheiro estava indo embora, me apavorei, mas sempre surgia algum trabalho e dava para viver e eu fui continuando.
- E agora, como está?
- É por isso que viemos até aqui.
Você está trabalhando, Norberto?
- Não. Sabe que as coisas estão difíceis.
Percorri todas as marcenarias, mas em nenhuma delas encontrei trabalho.
Dizem que não estão vendendo e que, por isso, não precisam de marceneiros.
Sabe como a situação do país está difícil, Francisco.
- Sei bem.
Também passei por momentos difíceis, mas agora apareceu uma luz.
Recebi uma encomenda grande e preciso entregar no prazo, para isso, terei de contratar ao menos um marceneiro.
Se quiser, pode vir trabalhar comigo.
Norberto olhou para Lia que a tudo ouvia.
Percebeu nos olhos dela um brilho de felicidade.
Perguntou:
- Você quer que eu vá trabalhar na sua marcenaria?
- Quero Norberto.
Sei que é um óptimo profissional e estou precisando.
- Não acredito que isso esteja acontecendo.
- Por que, está ofendido pelo convite?
- Não, Francisco, ao contrário.
Hoje pela manhã, ao acordar, depois de uma noite mal dormida, estava desesperado sem saber o que fazer da minha vida.
Não temos mais dinheiro.
Quase tudo o que recebi foi gasto durante esses meses que fiquei sem trabalho.
Não sabia mesmo o que fazer e, agora, você me aparece com uma proposta desta!
Claro que quero!
Quando posso começar?
Francisco sorriu, aliviado.
- Amanhã mesmo!
Fiz a encomenda do material que vamos usar.
Ficaram de entregar amanhã.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:01 pm

- Estarei lá bem cedo.
Vocês foram anjos que Deus mandou em um momento em que eu pensava que tudo estava terminado, que não existia mais caminho algum...
Francisco riu, olhou para Raquel e disse:
- Segundo o Martin, é assim que Deus trabalha.
- O que está dizendo, Francisco?
- Nada, Norberto.
Eu e a Raquel estávamos conversando sobre a religião do Martin e ele sempre diz isso.
- Ele me falou algumas vezes sobre essa religião, mas nunca me interessei muito por ela.
- Nem nós, Norberto.
Nem nós, mas agora estamos pensando a respeito, não é, Raquel?
- É verdade. Aconteceram algumas coisas que nos fizeram pensar.
- Que coisas?
- Ainda estamos pensando nelas.
Outro dia conversaremos sobre isso.
O importante, agora, é começarmos a trabalhar e terminarmos, no prazo, a encomenda.
Está disposto mesmo, Norberto?
Olhe que tem muito trabalho!
- Quando tive medo do trabalho, Francisco?
- Não quer saber quanto vou lhe pagar?
- Não, sei que é um homem justo.
- Mesmo assim, vou dizer.
Pretendo dar a você dez por cento de tudo o que ganhar.
Está bem, assim?
- Não sei de quanto está falando, mas para mim está óptimo.
Qualquer importância é melhor do que nada, não é?
- Tem razão, mas posso lhe garantir que é uma boa quantia.
- Está certo, amanhã bem cedo estarei lá.
- Que bom, agora precisamos ir.
Esse moleque está cansado, precisa dormir no seu berço.
- Está bem. Até amanhã.
Acompanharam Francisco e Raquel, que se despediram. Enquanto se afastavam, Norberto disse:
- É, Lia, eles foram anjos mandados por Deus.
- Foram, mesmo, Norberto.
Só podemos agradecer.
O vulto de mulher olhou para outras duas entidades que estavam ao lado de Lia e Norberto e que jogavam luzes brancas sobre eles.
Depois, sorriu e acompanhou Raquel e Francisco.
No dia seguinte, antes mesmo de Francisco chegar, Norberto já estava em frente à marcenaria.
Francisco, ao chegar e ao vê-lo, sorriu:
- Bom dia, Norberto.
Está mesmo com vontade de trabalhar.
- Bom dia, Francisco. É verdade.
Não aguentava mais ficar em casa sem ter o que fazer e vendo o dinheiro acabar.
Vocês chegaram à boa hora.
Francisco abriu a marcenaria e entraram.
Ao entrar, Norberto disse admirado:
- Este galpão é bem grande, Francisco.
Aqui cabem muitos móveis.
- Tem razão, Norberto.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:02 pm

Eu e Raquel procuramos muito um lugar e este foi o melhor que encontramos e que podíamos pagar.
Terminei o último trabalho e ia ficar sem ter o que fazer.
Estava preocupado, mas recebi uma encomenda grande e, por um bom tempo, teremos muito trabalho.
- E depois, Francisco?
- Depois, não sei.
Mas acho que não devemos nos preocupar com isso.
Assim que o material chegar, vamos começar a trabalhar, o depois fica para depois, não é?
- Preciso conversar algo com você, Francisco.
- Pode falar. Do que se trata?
- Ontem, depois que vocês saíram lá de casa, eu e a Lia ficamos conversando.
Ela acha que ao invés de você me pagar uma percentagem pelo trabalho, seria melhor que me pagasse um salário fixo.
- Por que ela acha isso?
- Hoje, você tem muito trabalho, mas quando terminar e se não aparecer outro?
Como vou ficar?
- Sempre apareceu trabalho, Norberto.
Desde que abri a marcenaria, nunca fiquei sem trabalho.
Não tão grande como este, mas sempre trabalhei.
- Mesmo assim, ela acha melhor que eu tenha um salário fixo, para podermos ter a tranquilidade de saber que nunca ficaremos sem dinheiro.
- Poderá se tornar difícil, se, depois deste, não aparecer outro trabalho, mas posso pagar a você o mesmo que recebia no nosso antigo trabalho.
Porém, sabe que, se receber comissão, poderá ganhar muito mais.
- Sei disso, mas gosto de ter garantia, Francisco.
Se não se importar, gostaria de ter um salário fixo.
- Está bem. Você é quem sabe, mas acho que vai se arrepender.
Estavam terminando de arrumar a marcenaria para começarem o serviço, quando um caminhão chegou trazendo o material de que precisavam.
Ajudaram os outros dois rapazes, que vieram no caminhão.
Em pouco tempo, tudo foi descarregado.
Quando terminaram, um dos rapazes deu um papel para que Francisco assinasse e disse:
- Hoje só veio uma parte, depois entregaremos o resto.
- Está óptimo.
Com esse material já podemos começar.
O caminhão foi embora.
Francisco mostrou a Norberto um papel onde estava desenhada a figura de uma mesa com suas medidas. Disse:
- Vamos fazer uma sala por vez, Norberto.
Vamos cortar a madeira necessária para esta mesa.
Depois, faremos estes armários.
- Você já desenhou todas as salas?
- Não, só esta, que é a maior.
Vamos começar?
- Vamos.
Pegaram as madeiras e começaram a trabalhar.
Enquanto isso, Raquel, em casa, estava junto ao tanque, lavando roupas e pensando:
Quando Francisco me passar à medida das janelas, vou poder calcular de quanto tecido vou precisar e o quanto cobrar pelo meu trabalho.
Ainda bem que o meu pai me deu, de presente de casamento, a máquina de costura.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:02 pm

Nem ele nem eu imaginávamos que poderia ganhar algum dinheiro com ela.
Mesmo não podendo sair de casa para trabalhar, vou ganhar um bom dinheiro.
De onde estava, viu quando Tereza acompanhou o marido até o portão.
Para evitar conversar com ela, pois ainda estava magoada não só por ela não ter tomado conta de Mauro, mas, muito mais, por se deixar oprimir pelo marido da maneira como fazia, entrou em casa.
Tereza percebeu que Raquel não queria conversar com ela, coisa que, naquele horário, fazia todos os dias.
Também entrou em sua casa.
Na hora do almoço, Francisco telefonou para Mário, avisando-o de que o material havia chegado e pedindo as medidas das janelas para que as cortinas fossem confeccionadas.
Mário, feliz pela notícia, passou as medidas.
No dia seguinte, Raquel, carregando Mauro no colo, foi até a loja e comprou o tecido para uma das janelas.
Como o pacote ficou pesado, e como ela havia combinado com o marido, pediu que guardassem até depois do almoço, quando Francisco iria buscar.
Foi o que Francisco fez.
À noite, ele chegou com o pacote e os acessórios para que ela fizesse a cortina.
No dia seguinte, ela, como sempre, acordou cedo.
Lavou as roupas, deu uma ajeitada na casa e começou a cortar o tecido no tamanho certo da cortina.
Depois de cortada, começou a costurar.
Naquele mesmo dia, quase terminou a cortina.
Trabalhou com carinho.
Esta cortina precisa ficar perfeita.
Sei que vai ser a primeira de muitas.
Não está sendo fácil, pois preciso parar muitas vezes para atender ao Mauro, mas vou conseguir.
Ela tinha razão em pensar assim, pois, enquanto costurava, Mauro engatinhava pelo chão à sua volta e, algumas vezes, chorava, pedindo colo.
Ela não se importava.
Parava por alguns instantes, pegava o menino no colo, dava-lhe um brinquedo, água ou alguma coisa para comer.
Em uma tarde, estava costurando, quando Tereza apareceu na porta da cozinha.
Raquel não viu quando ela se aproximou.
Tereza ficou algum tempo parada na porta.
Depois, disse:
- Olá, Raquel.
Raquel levantou os olhos que estavam na costura, ergueu a cabeça e, admirada, também disse:
- Olá, Tereza.
- O que você está costurando?
- Uma cortina.
- Mas suas cortinas são novas, vai trocar?
Raquel não conseguiu disfarçar e começou a rir.
- Está curiosa, Tereza?
- Desculpe Raquel, mas estou sim.
Tenho notado que você está costurando há vários dias.
Vai trocar suas cortinas?
- Não, Tereza.
Vou contar a você o que aconteceu.
Depois que percebi que não poderia sair de casa levando Mauro, fiquei triste, mas, naquele mesmo dia, aconteceu algo que me fez ficar feliz.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 15, 2017 9:02 pm

- O que foi?
Raquel contou tudo e terminou, dizendo:
- Como pode ver, mesmo sem sair de casa, vou ganhar algum dinheiro e logo poderei comprar o meu ferro de passar roupa e até, quem sabe, um fogão a gás.
- Vai ganhar dinheiro sem sair de casa?
- Vou, sim, e espero que, depois destas cortinas que estou fazendo, venham outras.
- Já tinha visto sua máquina de costura, mas não pensei que soubesse costurar.
- Sei, sim. Meu pai me deu esta máquina no dia em que recebi o diploma de corte e costura.
- Comprei um tecido para fazer camisas para os meninos e estava pensando quem poderia costurar.
Pode costurar para mim?
Raquel nunca havia pensado que poderia costurar para fora.
Fez o curso de corte e costura, não porque gostasse, mas porque sua mãe quase a obrigou.
Naquele momento, agradeceu à mãe, em silêncio.
Respondeu:
- Posso, sim, Tereza, se puder esperar, pois preciso terminar todas as cortinas.
- Posso esperar.
Não estou precisando agora.
- Sendo assim, vou costurar para você.
- Não sei se vou conseguir Raquel.
Você conhece o Manuel, mas vou conversar com ele e pedir para que deixe você colocar uma placa lá no muro da frente.
Assim, quando as pessoas passarem, saberão que aqui tem uma costureira.
- Isso seria muito bom, Tereza, mas não precisa.
Sabe o que seu marido pensa da mulher que trabalha.
Ele não vai consentir, ainda vai ficar nervoso com você e brigar.
Mas você me deu uma boa ideia.
Vou conversar com o seu Joaquim do bar e da mercearia e com o seu Rubens do açougue e pedir a eles que deixem que eu coloque um papel lá.
Muitas mulheres vão, todos os dias, à mercearia e ao açougue, não é mesmo?
- É verdade, Raquel. Faça isso.
Sei que vai receber muitas encomendas.
- Também sinto isso, Tereza.
Já que não posso ganhar o meu dinheiro de uma maneira, encontrei outra.
Tereza ficou calada, apenas olhando a quantidade enorme de tecido espalhado sobre a cama.
Depois se afastou.
Raquel, sentindo-se vitoriosa, sorriu.
Raquel também trabalhou muito.
Como precisava cuidar de Mauro e da casa, só conseguia trabalhar, com tranquilidade, à noite, quando o menino dormia.
Com isso, não só Francisco entregou os móveis na data combinada como ela entregou as cortinas e os quadros que ela mesma escolheu para cada sala.
Logo no início do trabalho, ela pediu a uma vizinha mudas de folhagens e as plantou.
Quando chegou o dia de entregar os móveis, os vasos estavam bonitos com as folhagens que cresceram verdes e saudáveis.
No dia da entrega dos móveis, Francisco e Norberto foram juntos para que eles pudessem ser montados.
Aproveitaram o caminhão que precisaram alugar para a entrega, passaram pela casa de Raquel, pegaram as cortinas, os vasos com as folhagens plantadas e os quadros e levaram com eles.
Trabalharam o dia todo sem parar.
Enquanto montavam os móveis, funcionários de Mário e Josafá penduravam os quadros, as cortinas e colocavam os vasos nos seus lugares.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:14 pm

No fim da tarde, Mário e Josafá, acompanhados por um senhor, chegaram e olharam as salas que já estavam prontas.
Não conseguiram esconder a satisfação que sentiam.
Mário disse:
- Senhor Francisco, ficaram muito bons.
Seus móveis, realmente, são maravilhosos.
Francisco olhou para Norberto, sorriu e falou:
- Obrigado, senhor.
Fico feliz de que tenha gostado.
- Não só gostei como pedi ao Frederico, meu amigo, que viesse ver.
Ele também vai precisar de móveis para seu escritório de advocacia.
Francisco olhou para Frederico que, rindo, disse:
- É verdade, senhor, e confesso que estou impressionado.
Seus móveis e essa decoração dão uma nova aparência para as salas.
Precisamos conversar.
- Está bem, podemos fazer isso agora.
As salas estão quase prontas.
Montaremos amanhã as que faltam.
Conversaram e Frederico pediu que Francisco fosse, no dia seguinte, ao seu escritório para que lhe desse uma ideia de como fazer para transformá-lo em algo diferenciado.
Francisco sorriu e aceitou a oferta. Despediram-se.
Quando Francisco voltou para casa, contou a Raquel o que havia acontecido e ela contou da ideia de colocar cartazes na mercearia e no açougue.
Ele aprovou a ideia, jantaram e foram dormir.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:15 pm

UM PRESENTE DO CÉU
Francisco conseguiu mais uma encomenda e, daquele dia em diante, não ficou sem trabalho.
Raquel, após colocar os cartazes, recebeu muitas encomendas e não parou mais de costurar.
O tempo passou, o dia do casamento de Martin chegou.
Raquel fez um vestido novo para ela e roupa nova para Mauro.
Francisco vestiu o terno que usara no dia do seu casamento.
Após a cerimónia na igreja, foram para a casa de Martin, onde uma pequena recepção foi oferecida aos convidados.
Havia sanduíches de pernil assado, doces e muito chope.
Um sanfoneiro tocava e as pessoas dançavam.
Raquel se aproximou de Lídia, que estava feliz com seu vestido de noiva.
- Você está linda, Lídia!
- Obrigada, Raquel.
Estou, realmente, muito feliz.
- Sua casa também está linda!
- Está sim, preciso agradecer ao Francisco e a você a linda mesa e cadeiras que nos deram de presente, além dos outros móveis que ele fez.
- Sabe que ele fez com todo carinho.
Ele gosta muito do Martin e, é claro, de você também.
A festa foi até altas horas, mas Raquel, por causa de Mauro, saiu antes de ela acabar.
O tempo foi passando.
Francisco e Raquel trabalhavam muito.
Mauro ia completar dois anos.
Raquel estava preparando uma pequena festa.
Mandou uma carta convidando seus pais e irmãos e Jandira.
Seus pais e irmãos responderam que não poderiam vir, porque a viagem ficaria muito cara e eles não estavam em condições de gastar tanto.
Jandira também respondeu que não poderia vir, pois estava esperando um filho para aqueles dias e não queria fazer uma viagem longa como aquela.
Raquel, embora tenha ficado triste, entendeu a dificuldade que cria uma viagem como aquela.
Continuou preparando a festa.
Em uma manhã, enquanto preparava o café, disse:
- Francisco, preciso ir ao médico.
- Por quê?
Está doente?
- Não, acho que estou grávida.
Ele se levantou da cadeira onde estava sentado e quase gritou:
- O quê?
Ela, rindo, respondeu:
- Não tenho certeza, mas acho que sim.
- Vamos hoje mesmo ao médico!
Estou feliz.
Sabe que quero ter muitos filhos!
- Eu também, Francisco.
- Você acha que agora vem uma menina?
- Tomara que sim.
Foram ao médico e, depois de alguns dias, obtiveram o resultado.
Ela estava grávida realmente.
Ficaram felizes, porém Francisco também ficou preocupado.
- Estou feliz, Raquel, mas temos um problema.
- Que problema?
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:15 pm

- O berço que fiz para o Mauro está pequeno.
Ele vai precisar de uma cama maior.
No nosso quarto não tem lugar para ela, muito menos para outro berço.
- Tem razão, Francisco.
Não havia pensado nisso.
O que vamos fazer?
- Não sei, vou pensar em algo.
O importante é que você esteja bem.
- Temos muito tempo até a criança nascer.
Sei que você vai encontrar uma solução.
Alguns meses se passaram.
Em uma tarde, Francisco, para surpresa de Raquel, chegou.
Ela, ao vê-lo, levantou-se admirada:
- O que está fazendo há esta hora aqui em casa?
- Preciso que venha comigo.
Quero lhe mostrar uma coisa.
- Que coisa?
- Logo vai saber.
Pegue o Mauro e vamos.
Não tenho muito tempo.
Dei uma escapada da marcenaria, mas preciso voltar logo.
Tenho muito trabalho.
Ela não entendeu, mas pegou Mauro que, sentado no chão, brincava com um carrinho, trocou-o e saíram.
Caminharam a pé por alguns minutos.
Ela, sem entender, acompanhou-o calada.
Francisco parou algumas casas acima daquela em que moravam.
Um homem que estava dentro da casa saiu.
- Olá, senhor Francisco!
Essa é a sua esposa?
- É sim.
- Entrem e fiquem à vontade.
Raquel, ainda sem entender, entrou com Francisco que a conduziu para que olhasse a casa que estava vazia.
Ela tinha dois quartos grandes, uma sala e uma cozinha.
Depois de olhar a casa por dentro, Francisco abriu a porta da cozinha que dava para os fundos.
Raquel ficou encantada.
Além de um puxado, onde havia um tanque para lavar roupas, havia, também, uma área cercada com bambu, onde foram plantadas verduras e alguns pés de tomates que estavam carregados.
Francisco, ao perceber que ela estava gostando, sorriu e perguntou:
- O que você acha desta casa?
- Ela é linda!
- E também é sua.
- O quê?
- É sua.
- Como minha?
Quem mora aqui é a Madalena.
Eles se mudaram e eram inquilinos.
Fiquei sabendo que o dono morava no interior e que estava querendo vender.
Entrei em contacto com este senhor, que é o dono.
Seu nome é Pedro.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:15 pm

Dei uma pequena entrada e vou pagar o resto em prestações mensais.
Em dois anos, ela será totalmente nossa!
- Por que não me contou?
- Queria fazer uma surpresa e acho que consegui.
- Pode acreditar que conseguiu mesmo, Francisco!
Ela é linda!
- Agora, Mauro e a criança que está chegando terão um quarto só deles.
Como vamos ter outros filhos, ainda tem espaço para construirmos mais dois quartos!
Raquel, emocionada, começou a chorar.
- Por que está chorando, Raquel?
- É de felicidade, Francisco.
Jamais poderia imaginar que, um dia, teria uma casa como esta...
Ele abraçou-a e começou a rir.
- Se está assim por esta casa, imagine como vai ficar quando comprarmos uma mansão.
Agora quem riu foi ela.
- Sabe que o que está falando é uma bobagem.
- Bobagem, por quê?
- Sei que nunca poderemos comprar uma mansão.
- Por que não poderemos comprar Raquel?
Somos jovens, temos uma vida longa pela frente.
A marcenaria está indo muito bem.
Vamos comprar uma mansão, sim! Você vai ver!
- Não sei se um dia poderemos comprar, mas, para mim, esta casa já é uma mansão.
Estou muito feliz!
- Vai ficar muito mais.
Agora, vamos para casa.
Precisamos preparar a nossa mudança.
Vou conversar com Norberto e pedir que me ajude a pintar a casa.
- Faça isso, Francisco.
Não vejo a hora de mudarmos.
Francisco e Norberto, à noite, depois de voltarem do trabalho, pintaram a casa.
Alguns dias antes de mudarem, quando jantavam, Norberto e Lia chegaram:
- Que surpresa é essa? Vocês aqui em casa?
Aconteceu alguma coisa, Norberto?
Querem nos acompanhar no jantar?
- Não, Francisco, obrigado, nós já jantamos.
Estamos aqui porque precisamos conversar.
- Conversar? Sobre o quê?
- Eu e a Lia estivemos conversando.
Sabem que moramos longe tanto de vocês como da marcenaria.
Lia teve uma ideia e eu achei muito boa.
Por isso estamos aqui.
- Que ideia?
- Deixe que eu fale Norberto.
Norberto sorriu. Lia continuou:
- Já que vocês vão se mudar poderíamos alugar esta casa e, assim, moraríamos perto.
Sabe que não podemos ter filhos e o quanto gostamos do seu.
Morando perto, posso ajudar você, Raquel, a cuidar do Mauro e da outra criança que vai nascer.
Raquel olhou para Francisco e, rindo, disse:
- Que boa ideia, Lia!
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:15 pm

Vai ser muito bom ter você por perto e, tem razão, vou precisar de ajuda, pois tenho costuras para fazer e, com duas crianças, vai ser quase impossível.
- Você poderia falar com o proprietário?
- Claro que sim, Norberto.
Acho que não haverá problema algum.
Sempre paguei o meu aluguel em dia e vou me responsabilizar pelo seu.
Trabalhando na marcenaria, não tem como deixar de pagar.
- Faça isso, Francisco.
Sei que não vai se arrepender.
- Claro que não!
Vai ser bom ter vocês por perto.
Francisco conversou com Manuel, marido de Tereza e ele, como não podia deixar de ser, concordou.
Poucos dias depois, fizeram as mudanças.
Francisco e Raquel mudaram-se para a casa que compraram Norberto e Lia para a que alugaram.
Depois de instalados na casa nova, Francisco, feliz, perguntou:
- E então, Raquel, como está se sentindo na sua casa?
- Estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo!
- Isso é só o começo, da maneira como está indo a marcenaria, vamos conseguir muito mais.
O tempo foi passando.
Em uma tarde, Raquel sentiu que a criança estava para nascer.
Foi conversar com o taxista que era seu vizinho e pediu para que ele fosse avisar Francisco.
Em seguida, foi até a casa de Lia e pediu para que ela ficasse com Mauro, enquanto ela fosse para o hospital.
- Vá em paz, Raquel.
Agora já sabe como é.
Dentro de alguns dias, estará de volta trazendo sua criança. Espero que seja uma menina.
- Eu gostaria muito, Lia, mas, se não for uma menina, não tem importância, só desejo que tenha saúde.
Tereza, que estava ao lado delas, começou a rir:
- É isso o que toda mãe fala, mas, lá no fundo, você está torcendo por uma menina, não é?
- Realmente, isso é verdade, mas volto a dizer que, se for um menino, será bem-vindo.
- Está certa, Raquel.
Agora, volte para sua casa, Francisco deve estar chegando.
- Obrigada a vocês duas.
Da outra vez, tive só você, Tereza, hoje, tenho as duas, sou mesmo uma pessoa de muita sorte.
Elas riram, Lia falou:
- Tem razão, mas, agora, coloque toda sua energia para a sua criança.
Raquel saiu dali e, enquanto subia a rua, voltando para sua casa, encontrou Francisco que chegou ao táxi.
Entraram em casa, pegaram a maleta que Raquel havia preparado e foram para o hospital.
Como aconteceu quando Mauro nasceu desta vez, também, Francisco não pôde ficar ao lado de Raquel.
Embora sua condição financeira, agora, fosse melhor do que naquele tempo, o dinheiro que ganhava era quase todo para pagar a prestação da casa.
O horário da visita era somente às quinze horas.
Como já eram dezoito horas, ele não poderia vê-la mais naquele dia, somente no dia seguinte.
Como da outra vez, ficou ansioso e angustiado, esperando, sem saber o que estava acontecendo.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:16 pm

No dia seguinte, ao chegar para a visita, soube que Raquel estava, naquele momento, tendo a criança.
Nervoso, ficou esperando.
Meu Deus, por favor, faça com que tudo corra bem.
Que nada aconteça de mal com Raquel ou a criança.
Depois de mais de meia hora, uma enfermeira se aproximou da recepção, onde Francisco estava e, vendo a angústia em seus olhos, disse:
- Está tudo bem.
Nasceu um lindo menino.
Parece que ele é muito forte.
Sua esposa está sendo levada para o quarto.
No momento, o senhor não poderá vê-la, ela está muito cansada, mas, se quiser, pode ir até o berçário e ver o seu filho.
- Um menino?
- Sim. Um lindo menino.
- Pensávamos que seria uma menina, mas, mesmo assim, estou feliz.
Queria muito ver minha esposa, não pode ser nem por alguns minutos?
Por favor...
A enfermeira, sem saber o porquê, sorriu e disse:
- Está bem.
Ela está no quarto trezentos e quinze.
Pode ir até lá, mas fique só alguns minutos, pois, se alguém reclamar, terei problemas.
Ele pegou a mão da enfermeira e, beijando-a, disse:
- Obrigado, senhora!
Afastou-se rapidamente e foi até o elevador.
A enfermeira ficou olhando-o se afastar e pensou:
Não costumo fazer isso, pois, se alguém descobrisse, teria de fazer com todas as pacientes e isso seria impossível, mas não sei o que aconteceu dessa vez.
O vulto de mulher sorriu e estendeu os braços em direcção a ela.
Francisco encontrou o quarto que a enfermeira disse.
Entrou. Raquel estava pálida e com olheiras.
Parecia dormir.
Ele se aproximou, beijou sua testa.
Ela abriu os olhos:
- Como você conseguiu entrar?
Disseram que só poderia receber visitas amanhã...
- Não sei, acho que foi ajuda de Deus, mas agora, só quero saber como você está.
- Estou bem.
Você viu o nosso filho?
É outro menino, Francisco.
- Ainda não fui até o berçário, queria ver primeiro você.
Não posso ficar muito tempo. Preciso ir.
Logo você vai estar em casa e não se preocupe, vamos ter uma menina. Temos muito tempo.
Beijou-a e saiu apressado.
Foi até o berçário e viu o menino.
Alguns dias depois, Raquel voltou para casa.
Trouxe com ela o menino.
Assim que chegou, pediu a Francisco que fosse até a casa de Lia e trouxesse Mauro.
Francisco saiu e voltou logo depois acompanhado por Tereza e Lia que trouxe Mauro no colo.
Assim que entraram, ele disse:
- Preciso ir até o cartório registar o menino, Raquel.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:16 pm

Depois vou para a marcenaria.
Meu trabalho está atrasado.
Acha que vai ficar bem?
- Vou, Francisco, não se preocupe.
Ele beijou-a e Mauro passou a mão de leve no rosto do recém-nascido e saiu.
Assim que Francisco saiu, Lia, olhando para o menino que dormia em um berço maior do que aquele que Francisco havia feito para Mauro, disse:
- Nasceu um menino, Raquel, mas é lindo!
- É sim, Lia.
Sabe que eu queria uma menina, mas estou muito feliz com ele.
Como Francisco sempre fala, somos jovens e temos muito tempo para termos não só uma menina, mas duas ou três.
Tereza arregalou os olhos e, olhando para Lia, perguntou:
- Lia você já viu alguma mulher que fala em ter outra criança assim que acaba de ter uma?
- Não, Tereza, nunca ouvi, mas você se esqueceu de como Raquel é corajosa?
Raquel, fingido estar nervosa, disse:
- Quero ter muitos, Tereza, para, quando ficar velha e doente, ter alguém que cuide de mim.
- Sabe que nem sempre isso acontece.
Quantas pessoas você conhece que, após ficarem velhas, foram abandonadas por seus filhos.
- Muitas.
Existe até um ditado que diz:
Uma mãe consegue cuidar de dez filhos.
Dez filhos não conseguem cuidar de uma mãe.
Porém, penso que comigo será diferente.
Vou criar meus filhos com muito amor e carinho.
Eles cuidarão de mim, Tereza.
- Também espero que isso aconteça comigo, mas confesso que, algumas vezes, tenho medo da velhice...
- Não adianta ter medo, Tereza.
Precisamos esperar para ver o que acontece.
Por enquanto, vamos cumprir a nossa obrigação que é a de dar e fazer tudo o que for possível para que nossos filhos sejam felizes.
- Tem razão.
- Pior sou eu que, por não poder ter filhos, não posso nem pensar em ter alguém que cuide mim.
Vou ficar velha e sozinha...
- Não fique assim, Lia.
Quem sabe vocês ainda conseguem ter filhos.
A medicina está evoluindo.
- Talvez isso aconteça, mas, enquanto não acontecer, vamos amar este menino lindo.
Já amamos Mauro, não é, Tereza?
- É verdade, Lia.
Vamos amar os dois.
Já sabe que nome vai dar a ele?
- Eu e o Francisco conversamos e resolvemos que todos os nossos filhos terão o nome começando com a letra M.
Gosto muito dela.
Francisco saiu e vai registá-lo com o nome de Moacir.
O que vocês acham?
- É um nome bonito, gostei.
Lia e Tereza ficaram ali por mais algum tempo, depois foram embora.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:16 pm

Raquel chamou Mauro e, levando-o até o berço onde Moacir estava, disse:
- Este é seu irmão.
Ele é menor do que você, não sabe fazer nada, só chorar.
Por isso, você precisa ajudar a mamãe a cuidar dele.
Você vai ajudar?
Mauro olhou para Moacir e, meio desconfiado, respondeu:
- Ajudo...
Raquel sorriu, beijou o filho e, olhando para Moacir que dormia, pensou:
Meu filho, você foi mais um presente que Deus me deu.
Tomara que eu possa dar a você tudo o que é necessário para que seja feliz...
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:16 pm

O INESPERADO
Como sempre acontece, o tempo foi passando.
Raquel, conversando com Lia, contou sobre os dias em que saiu para vender e que só teve de parar por não ter com quem deixar Mauro.
Após ouvir com atenção, Lia disse:
- Você gostou de mostrar e vender os móveis, não foi?
- Gostei muito!
Sinto que nasci para isso.
- Por que não volta a sair?
- Como, Lia? Precisei parar porque não tinha com quem deixar o Mauro, imagine agora com os dois?
- Posso cuidar deles, Raquel.
Raquel arregalou os olhos:
- Você faria isso, Lia?
- Claro que sim.
Sou só eu e Norberto.
Esta casa é pequena, passo, praticamente, o dia todo sem ter o que fazer.
Posso cuidar dos meninos.
Para mim, não seria sacrifício algum, ao contrário, seria muito bom.
Além do mais, quanto mais você vender, mais certeza eu terei de que meu marido não ficará sem emprego.
Raquel riu:
- Tem razão. Vou conversar com Francisco e você converse com Norberto e, se eles aceitarem, vai ser muito bom.
- Eles vão aceitar Raquel.
Embora Norberto ainda seja daqueles que acha que a mulher não precisa trabalhar, se eu trabalhar em casa, não vai haver problema algum.
- Converse com ele, Lia.
Se ele aceitar e você ficar com as crianças à tarde, de todos móveis que eu vender, vou dar a você uma comissão.
- Não precisa Raquel, mas, se fizer isso, para mim, vai ser muito bom.
Eles concordaram.
Raquel começou a sair todas as tardes e a vender.
Tinha, realmente, nascido para ser vendedora.
Além de vender os móveis, oferecia as cortinas e todo o resto.
Apesar de ter de cuidar das duas crianças e sair para vender, ela ainda encontrava tempo para costurar e, assim, ganhar algum dinheiro.
Sabia que não era muito, mas, com ele, podia comprar coisas de que as crianças precisavam.
A marcenaria, depois de muita propaganda feita por Mário e Josafá, estava crescendo e, com as vendas de Raquel, cresceu mais ainda.
Tanto que Francisco teve de recorrer a antigos colegas marceneiros que trabalharam com ele e contratou aqueles que estavam desempregados.
Agora, já tinha oito funcionários.
Norberto continuou ao seu lado.
Mauro ia fazer oito anos e Moacir cinco, quando Raquel engravidou mais uma vez.
- Vamos ganhar outra criança, Francisco.
- Tem certeza?
- Tenho e, desta vez, vai ser uma menina.
Mauro já está indo para a escola.
Moacir, quando fizer sete anos, vai também, é uma boa hora para termos mais uma criança.
- Também acho. Terminamos de pagar a casa e vou construir mais um quarto.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:17 pm

- Vamos fazer isso, Francisco. Estou feliz.
Foi o que ele fez.
Enquanto Raquel esperava pela criança, ele construiu um quarto, onde foi colocada uma cama para Mauro.
A criança que estava para nascer e Moacir dormiriam no quarto em que este já dormia.
Uma noite, quando terminaram de jantar, Raquel, que estava sentindo uma dor já sua conhecida, preocupada, disse:
- Está chegando a hora, Francisco.
A criança vai nascer.
- Tem certeza?
- Tenho. Além de estar no tempo, estou sentindo as primeiras dores.
- Acha que devemos ir ao hospital?
- Acho que sim.
- Como vamos fazer com as crianças?
- Já conversei com a Lia e com a Tereza.
Caso eu tivesse que ir ao hospital durante a noite, Mauro ficaria na casa de Tereza, onde há uma cama a mais, e Moacir, com a Lia.
Sabe como ele gosta dela.
Norberto disse que providenciaria uma cama com algumas cadeiras para que pudesse caber no quarto que, como você sabe, é pequeno.
- Sendo assim, enquanto você prepara as coisas, vou levar as crianças.
Mauro, que a tudo ouvia, perguntou:
- Nós vamos ficar sozinhos?
- Vai ser só por esta noite, meu filho.
O papai vai levar a mamãe para o hospital e, talvez, quando ele voltar, já esteja tarde.
Vocês são muito pequenos e não podem ficar sozinhos, mas amanhã, vou dormir aqui com vocês.
- Eu não sou pequeno, mãe, e não tenho medo, posso dormir sozinho...
- Sei que não é pequeno, mas, mesmo assim, não podem ficar sozinhos e vai ser só por uma noite.
Quando eu voltar, vou trazer um irmãozinho ou uma irmãzinha para vocês!
- Não quero mais um irmãozinho ou uma irmãzinha, só o Moacir já está bom.
Raquel começou a rir e, beijando o filho, disse:
- Sei que só o Moacir já está bom, mas você vai gostar deste que está chegando.
Você vai ver que neném lindo vai ser...
O menino, sabendo que não havia jeito, parou de chorar. Francisco, que a tudo acompanhava, disse:
- A mamãe tem razão, Mauro, como já disse, vai ser só por uma noite. Agora, vamos.
Raquel deu a ele uma sacola com os pijamas para que os meninos pudessem dormir e ele saiu, levando-os seguros em suas mãos.
Assim que eles saíram, Raquel respirou fundo e foi pegar a sacola onde havia colocado as coisas de que precisaria no hospital e a roupinha que seria colocada no neném para que viesse para casa.
Logo depois, Francisco voltou e, abraçando-a, disse:
- Eu já conversei com a Lia e o táxi já está aí, na frente de casa, esperando por você.
- Então, vamos, já estou pronta.
Saíram e foram para o hospital e, mais uma vez, não havia condições financeiras para fazer com que Raquel ficasse em um quarto particular.
Como das outras vezes, deixou-a no hospital, dizendo:
- Não posso ficar com você, Raquel.
Queria muito, mas sabe que não temos condições de pagar um quarto particular.
- Não se preocupe com isso, Francisco.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:17 pm

Sabe que vou ficar bem.
Quando voltar, na hora da visita, a nossa criança já terá nascido e logo voltarei para casa.
- Está certo e espero encontrar, desta vez, uma menina.
- Também desejo isso, mas, se for um menino, também será bem recebido.
Como você sempre fala, temos muito tempo para ir tentando. - ela falou, rindo.
Ele também riu.
- Tem razão, Raquel.
Somos jovens, temos muito tempo.
Já é tarde, as crianças devem estar dormindo, mas, mesmo assim, vou passar pela casa de Lia e Tereza e, se estiverem acordados, vou levar os dois para casa.
- Pode ir, mas acho que não precisa ficar preocupado, a Lia e a Tereza gostam muito dos meninos, por isso, sei que eles estão bem.
- Tem razão, mas, mesmo assim, vou passar pela casa delas.
Francisco beijou Raquel e, acenando com a mão, foi embora.
O vulto de mulher estava ali.
Enquanto se afastava, olhou para ele, mas, dessa vez, não sorriu.
Francisco saiu do hospital.
Pegou o ônibus e foi para casa.
Ele fez o que disse.
Passou pela casa de Lia e Tereza, viu que as luzes estavam apagadas.
Concluiu que todos dormiam, foi para sua casa.
Entrou, deitou-se e, também depois de algum tempo, adormeceu.
No dia seguinte, acordou, preparou o café, tomou-o rapidamente e foi para a casa dos amigos.
Estava entrando, quando Norberto saía na bicicleta.
- Bom dia, Norberto.
Já está indo para a marcenaria?
- Bom dia, Francisco. Estou sim.
Como está Raquel?
- Eu deixei-a no hospital.
Quero confessar que, embora esta seja a terceira vez, ainda está muito ansiosa, mas, fora isso, posso garantir que ela está bem.
- Infelizmente, eu e a Lia nunca poderemos ter um filho, portanto, nunca sentiremos o que vocês sentiram e estão sentindo hoje.
- Acho que não deve perder a esperança.
A medicina está evoluindo muito.
- No nosso caso é impossível, mas isso não nos aflige mais.
Gostamos muito dos seus meninos e os consideramos como se fossem nossos.
- Sei disso e tenho a certeza de que, se alguma coisa acontecer comigo ou com a Raquel, vocês cuidarão deles.
Sabe que tanto os meus pais como os da Raquel já morreram e que nossos irmãos precisam cuidar de suas próprias vidas.
Todos têm filhos e não teriam como cuidar deles.
- Que conversa é essa Francisco?
Nada vai acontecer com você ou com Raquel!
Vocês vão criar essas crianças!
- Claro que vamos, Norberto, é só uma maneira de falar.
Temos tempo para ter mais filhos!
- Sendo só uma maneira de falar, pode ficar tranquilo.
Seus filhos sempre serão nossos filhos.
Antes de irmos para a marcenaria, vou entrar com você para tomarmos café.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:17 pm

Entraram. Estavam passando pela porta da casa de Tereza, quando ela apareceu:
- Bom dia, Francisco.
A Raquel ficou no hospital?
- Bom dia, Tereza.
Ela ficou no hospital, sim.
Disseram que a criança poderia nascer de madrugada.
Não sei ainda o que aconteceu, só vou saber na hora da visita.
- Tomara que já tenha nascido.
- Também estou querendo isso.
Por trás de Tereza, apareceu Mauro, que correu para os braços do pai.
Francisco abraçou-o e foram até a casa de Lia, onde Moacir estava.
Quando entraram na casa de Lia, ela estava dando café para o menino.
Moacir, assim que viu o pai, correu para ele que o pegou no colo e, abraçando-o, perguntou:
- Tudo bem, Moacir?
O menino, demonstrando no rosto que ainda estava com sono, não respondeu.
Lia apontou uma cadeira para Francisco, que se sentou e, enquanto ela servia café, perguntou:
- Como está a Raquel?
- Não sei, Lia.
Ontem, quando a deixei no hospital, pareceu-me bem.
Há esta hora, a criança já deve ter nascido, mas só vou saber na hora da visita.
- Tomara que já tenha nascido mesmo.
- Também espero.
Não vejo a hora de a visita chegar.
Francisco tomou café e Norberto, apesar de já ter tomado, acompanhou-o.
Enquanto comia, Francisco disse:
- Mauro, a mamãe vai dar para você uma irmãzinha ou um irmãozinho.
Está feliz?
- Estou, mas preferia ser só eu e o Moacir.
A gente não precisa de mais um irmão...
Francisco olhou para Lia e Norberto, que riram.
- Quando você vir o neném que está chegando, sei que vai gostar.
O menino olhou para eles e abaixou a cabeça.
Francisco abraçou o filho com força e disse:
- Como você e o Moacir estão bem, agora, vou para a marcenaria e, na hora da visita, vou ver a mamãe e, quando voltar, conto para vocês se é um irmão ou uma irmã que chegou.
- Me deixa eu ir junto, papai...
- Não pode Mauro, você não pode entrar no hospital.
- Não quero ir ao hospital, quero ir à marcenaria.
Sabe que gosto de ajudar.
Francisco olhou para Norberto e perguntou:
- Quando eu for para o hospital, você cuida dele?
- Claro que sim, Francisco.
Ele vai me ajudar no trabalho, não vai, Mauro?
- Vou, sim. Vou lustrar os móveis.
- Está bem. Já que Norberto vai cuidar de você, vamos.
Assim, a Lia vai ter menos trabalho.
- Se quiser levá-lo com você, Francisco, leve, mas não para que eu tenha menos trabalho.
Suas crianças são boas, não dão trabalho algum e eu as adoro!
- Obrigado, Lia. Você é um anjo da guarda.
Está sempre disposta a nos ajudar.
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Ave sem Ninho

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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:17 pm

- O que é isso, Francisco?
Quantas vezes Raquel também me ajudou e sei que, se eu precisar, ela vai ajudar novamente.
- Obrigado, Lia.
Agora, vamos embora, Mauro?
Moacir começou a chorar:
- Também quero ir...
- Não pode meu filho.
Você é ainda muito pequeno.
Quando crescer um pouco mais, poderá ir para a marcenaria.
Por enquanto, não pode.
- Seu pai tem razão, Moacir.
Você vai ficar aqui e depois que terminar de tomar o café, vamos desenhar, está bem?
O menino, embora não quisesse, sabia que o pai não o levaria.
Concordou com a cabeça.
Norberto pegou sua bicicleta e, conduzindo-a com a mão, saíram pelo corredor.
Quando chegaram à rua, Francisco disse:
- Pode ir, Norberto.
Vou até a casa pegar a minha bicicleta.
Mauro vai comigo.
Norberto subiu na bicicleta e Francisco, segurando na mão de Mauro, começou a subir a rua em direcção à sua casa, quando percebeu que um caminhão descia em disparada em sua direcção.
Com força, empurrou Mauro para longe, mas não teve tempo suficiente para evitar o acidente.
O caminhão subiu na calçada e atingiu os dois, espremendo-os à parede de um muro.
O estrondo que se ouviu foi muito alto.
Norberto também ouviu, voltou-se para ver o que havia acontecido e, ao notar que Francisco e Mauro haviam sido atingidos, largou a bicicleta e subiu, correndo, a rua em direcção ao acidente.
Assim que se aproximou, viu que outras pessoas, que também ouviram o barulho, desesperadas, tentavam tirar os dois que se encontravam presos no muro.
Apavorado, Norberto, sem conseguir dizer uma palavra ou fazer um movimento, parou e somente conseguiu chorar.
As pessoas tentaram ajudar, mas foi em vão.
Rapidamente perceberam que não havia o que fazer.
Tanto Francisco como Mauro estavam mortos.
Norberto, depois de algum tempo, recuperou-se e aproximou-se do amigo que, ainda segurando a mão de Mauro, estava com os olhos fechados e com aquela cor característica da morte.
A notícia se espalhou e, rapidamente, as pessoas foram chegando.
Algumas, ao verem aquela cena dantesca, choravam.
Outras ficaram paradas, sem acreditar no que estavam vendo.
Francisco ainda estava com o braço estendido em direcção a Mauro.
O menino estava de costas para ele a alguns centímetros.
Todas as pessoas perceberam que o pai tentou afastar o menino, mas não conseguiu.
As pessoas, tristes e desesperadas, não podiam ver que muitas entidades também estavam ali.
Entre tais entidades, estava a mulher que sempre estava ao lado deles e um homem, que pegou Francisco adormecido, enquanto ela pegava Mauro e o entregava a uma das entidades que estava ali.
Os dois, carregando Francisco e Mauro, rapidamente desapareceram.
Enquanto muitas delas jogavam luzes sobre as pessoas que estavam ali, outra pegou o motorista que, por causa da batida forte, não conseguiu se segurar bateu a cabeça no pára-brisa e também não resistiu.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:18 pm

As entidades saíram dali e ela voltou para o lado de Raquel que, feliz, aguardava a visita de Francisco para que ele visse o menino que havia nascido.
Uma das vizinhas, que também ouviu o barulho, ao constatar que se tratava de Francisco, correu para a casa de Tereza.
Abriu o portão e entrou correndo.
A porta da cozinha estava aberta.
Tereza, ao vê-la transtornada daquela maneira, assustada, perguntou:
- O que aconteceu, Norma?
- Uma coisa horrível!
- O que foi?
- Um acidente aí na rua!
Um acidente pavoroso com o Francisco e o Mauro!
- O que aconteceu?
- Eles foram atropelados por um caminhão que subiu na calçada!
- O quê?
- É isso que ouviu, foram atropelados e estão mortos!
Tereza quase desmaiou, soltou um grito forte, vindo do fundo do seu ser.
O grito foi tão alto que Lia que morava nos fundos, ouviu e correu para ver o que havia acontecido:
- O que aconteceu, Tereza?
Por que está chorando desesperada dessa maneira?
Realmente, Tereza chorava muito e não conseguia se controlar.
Quem respondeu foi Norma:
- O Francisco e o Mauro foram atropelados por um caminhão e estão mortos.
Lia ficou parada sem mover um músculo sequer.
Depois, chorando, perguntou:
- O que você está dizendo, Norma?
Francisco acabou de sair da minha casa!
Ele foi para a marcenaria e levou o Mauro com ele!
- Infelizmente é isso que estou dizendo, Lia.
Eles foram atropelados aí na rua.
Acho que estava indo para sua casa, quando o caminhão os pegou.
- Vou pegar o Moacir que está lá em casa e ver o que aconteceu.
- Não faça isso, Lia.
Moacir é muito pequeno, não precisa ver o que aconteceu.
Vá com a Tereza, eu fico aqui tomando conta dele.
- Obrigada, Norma! Vamos, Tereza?
Antes mesmo de responder, Tereza já corria para a rua.
Saíram em disparada.
Lia se aproximou de Norberto que estava ali, parado, apenas olhando:
- O que aconteceu, Norberto?
- Não sei, Lia.
Ele estava indo para casa pegar a bicicleta.
Eu estava indo para a marcenaria quando ouvi o barulho.
Tereza, que estava ao lado e que também olhava abismada, disse:
- Meu Deus do céu, como isso foi acontecer?
O que vai ser da Raquel?
Ela está feliz no hospital e nem imagina que isso tenha acontecido.
Elas não tinham as respostas, apenas choravam, não só pelos dois que jaziam ali, mas, principalmente por Raquel.
O ambiente estava tenso.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 16, 2017 7:18 pm

As pessoas comentavam entre si o que havia acontecido.
Algumas, sem conseguir suportar aquela cena, precisaram ir embora, mas, ao lado de cada uma, havia um espírito amigo que jogava luz sobre todas.
O carro da polícia chegou e afastou as pessoas que ficaram olhando de longe.
Um dos policiais perguntou:
- Alguém conhece esse homem?
- Eu conheço! É o meu patrão!
- Venha comigo, por favor.
Norberto acompanhou o policial até o carro e respondeu a todas as perguntas.
Tereza e Lia, chorando, permaneceram ali, olhando para Francisco e Mauro.
Estavam com o coração apertado. Lia, chorando, disse:
- Francisco acabou de tomar café lá em casa.
Não queria levar Mauro para o trabalho, mas o menino insistiu tanto que ele não teve como negar.
Se soubesse que isso ia acontecer, eu não teria deixado Mauro acompanhar o pai...
- Você não teve culpa, Lia.
Como poderia imaginar que isso ia acontecer?
- Isso não é justo!
Ele e Raquel se davam tão bem!
Formavam um casal feliz!
Nunca vi uma briga entre eles e estavam radiantes com a chegada de outra criança!
Não está certo, Tereza! Não está mesmo!
- Deus é quem sabe, Lia...
- Que Deus, Tereza? Ele não existe!
Se existe como pode permitir que um homem bom como Francisco e uma criança linda como Mauro morram, enquanto existem tantos outros que são ruins e malvados e, mesmo assim, continuam vivendo?
Com Deus ou sem Deus, não está certo!
Tereza, lembrando-se do seu marido e das maldades que ele fazia com ela e com as crianças, disse:
- Talvez você tenha razão, Lia.
Deus nem sempre é justo...
- Claro que não é justo, Tereza!
- Não sei se você está certa, mas, no momento, o que devemos pensar é em como vamos contar para Raquel que essa tragédia aconteceu...
Lia, com os olhos cheios de lágrimas, passou as mãos por eles e respondeu:
- Não sei Tereza! Não sei!
Ela nem imagina o que aconteceu.
Vai ser muito difícil aceitar.
Não sei como falar com ela, ainda mais acabando de ter uma criança.
- Será que a criança já nasceu?
- Acho que sim.
Ela começou a sentir as dores ontem à tarde.
Deve ter nascido sim.
- O que vamos fazer?
Norberto terminou de conversar com o policial e se aproximou delas:
- Dei todas as informações de que precisavam.
Os corpos serão levados.
Agora podemos ir para casa.
- Como vamos contar para a Raquel, Norberto?
- Já me fiz essa pergunta e não encontrei a resposta.
Não sei, Lia.
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Re: EM BUSCA DO AMANHÃ / Elisa Masselli

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