DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:51 am

E as pessoas prejudicadas, lesadas por esse homem, vão ficar no prejuízo?
Fábio lembrou-se rapidamente de uma passagem do livro Iniciação Espírita, de Allan Kardec, e a repetiu:
"Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas só o obtém se modificar a sua conduta.
As boas acções são as melhores preces, pois os actos valem mais do que palavras".
Fez-se um breve silêncio de reflexão.
Depois prosseguiu:
- Crendo na eternidade e na evolução do espírito, eu diria que esse homem iria para o plano espiritual.
Lá receberia instruções, tomaria ciência de tudo o que fez de errado e reencarnaria quantas vezes fossem necessárias para resgatar seus erros, corrigir suas falhas, aí sim, ele iria evoluir.
Diante da falta de argumentação e de longa pausa, o amigo questionou:
- Márcia, entende agora por que eu acredito na reencarnação?
Se a criatura humana não reencarnar, como poderá reconhecer seus erros e repará-los para evoluir e ter direito de ir a um lugar melhor? Como?
Márcia ficou pensativa.
Começava a entender o que Fábio queria ensinar.
Então perguntou:
- Deixe-me simular uma situação para ver o que o seu espiritismo me diz.
Fábio sorriu, teve a intenção de dizer que a Doutrina Espírita não lhe pertencia, mas calou-se e ela simulou um facto:
- Façamos de conta que uma pessoa nasceu rica, como diríamos... alguém que "nasceu em berço-de-ouro", cresceu e viveu sem nenhum problema grave para enfrentar, criou seus filhos, viu seus netos e depois morreu.
Não se importou com religião, mas também não fez nada de errado.
Essa pessoa iria para o céu ou para o inferno?
Fábio, pacientemente, explicou:
- Céu ou inferno não existem.
Existem os agrupamentos de espíritos afins, mais conhecidos como colónias espirituais.
Cada uma com um nível diferente, pois o espírito desencarnado irá para a colónia ou agrupamento de espíritos, respectivo ao seu nível espiritual, moral.
Nesse lugar haverá instrução e aprendizados diversos.
Se quiser, poderá auxiliar os outros e ao mesmo tempo receberá auxílio.
Poderá, de acordo com seu nível, visitar os parentes e amigos encarnados e os que já desencarnaram também.
E usamos o termo umbral, para designar uma espécie de portal entre o plano dos encarnados e desencarnados, região intermediária para os que ficam em um estado de perturbação muito grande pelos erros graves, apego material, falhas cometidas ou tem o coração endurecido, não se arrependendo do que fizeram, julgando-se com razão, sempre.
Esses espíritos ficarão nesse lugar até o tempo em que pesarem suas faltas ou erros e mudarem seus procedimentos, modo de pensar, sua maneira de agir, principalmente.
Se acreditarem em Deus e ficarem verdadeiramente arrependidos, aí sim serão resgatados mais rapidamente.
Entretanto, poderá haver uma reencarnação compulsória, isto é, sem que ele seja consultado, caso continue com o coração endurecido, e essas costumam ser experiências reencarnatórias bem difíceis.
Mas vejamos esse seu exemplo.
Se a pessoa rica que você simulou, não praticou o mal nem o bem, e devido suas condições financeiras poderia tê-lo feito, mas não o fez.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:51 am

Então ao desencarnar, se não estiver apegada ao corpo físico ou aos seus bens materiais, óptimo.
- Por quê? - perguntou Márcia.
- Porque as pessoas que são excessivamente apegadas ao corpo, à beleza, à forma física, como por exemplo, as pessoas que só pensam em sua beleza, e em primeiro plano sempre está o cuidado e a preocupação com sua aparência, ao desencarnarem podem ficar próximas ao corpo ou presas nele lamentando sua morte.
Existem casos em que o apego era tão intenso que o espírito não saia de perto do corpo, ficando ligado a ele tentando reanimá-lo à vida novamente.
- E daí?! - indagou Márcia, assustada.
- Daí que o espírito passa a sentir todo o processo de putrefacção pelo qual o corpo passa, como se estivesse vivo.
Ele sente as dores da necrose, da decomposição, parte por parte.
Márcia, levou a mão à boca, franzindo a face com gesto enojado, dizendo:
- Que horror!
- É sim. Existem vários e vários casos desse tipo e o espírito ainda fica nessas condições por anos e anos.
Precisamos cuidar do corpo, protegê-lo e ter em mente ele é um invólucro, uma embalagem do espírito.
Por esta razão, devemos dar mais atenção ao espírito, pois o corpo vai acabar um dia.
Quanto aos bens materiais, há espírito que fica rodeando-os, não querendo que ninguém se aposse do que foi dele, irrita-se e quer brigar com aqueles que mexem em suas coisas, não tem sossego nem paz, não procura ou aceita ajuda dos socorristas espirituais que aparecem, por isso não evolui.
Ele tortura-se por anos e anos, lamentando sua morte e não aceita a nova condição.
Voltando à pessoa que você simulou, ela será orientada no plano espiritual, sobretudo do que poderia ter feito e sobre as oportunidades que perdeu quando encarnada.
Receberá instruções, poderá trabalhar se estiver pronta para tal, auxiliará outras pessoas e aguardará a sua próxima reencarnação na qual terá a oportunidade de agir melhor.
Repentinamente, Márcia começou a sentir-se inquieta, quase arrependida de ter começado o assunto.
Mesmo assim ela insistiu:
- O que o Espiritismo explica sobre vidência?
- No Espiritismo, vidência é uma das manifestações mediúnicas que alguém pode ter.
A mediunidade é um fenómeno bem importante e que necessita de muito estudo.
Alguns médiuns são pessoas dotadas de elevada capacidade de percepção extra-sensorial, ou seja, elas são sensíveis para receberem ou perceberem sensações sem o uso de qualquer um dos cinco sentidos humanos, que são dependentes dos órgãos destes.
A mediunidade é uma faculdade que, através dela, o médium manifesta seus mais diversos dotes como a clarividência, a vidência, clariaudiência, telecinesia, que é a movimentação de objectos sem tocá-los, a levitação, a psicografia, curas etc.
- Espere aí, eu não entendi, tem vidência e clarividência?
- Sim. Porém é difícil saber quando é uma e outra, mas isso pouco importa quando a integridade do médium é fiel.
Podemos dizer que a vidência é a percepção das coisas que já ocorreram ou que vão ocorrer.
O vidente pode ver através de uma cena mental, sentir ou pressentir, de modo superficial ou total, algumas coisas que acontecem e até as que acontecerão com você sem conhecê-la, e sequer saber seu nome.
Isso ocorre com o auxílio da espiritualidade presente que pode ser de espíritos elevados ou mesmo levianos.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:52 am

Podendo ser interrompida quando agredidas as Leis Naturais.
Já, a clarividência é a percepção que a pessoa tem para ver, tal qual o vidente, sem o auxílio dos olhos, ou até sem que a espiritualidade interfira.
É um atributo pessoal que ela conquistou como espírito e não uma faculdade que lhe foi atribuída para a actual experiência de vida.
Por isso essa pessoa pode ter essa percepção sem o auxílio da espiritualidade, e também pode usar tal atributo para o bem ou para o mal, porém arcará com a responsabilidade de tudo o que fizer.
Suas percepções podem ser algo, como que imagens embaralhadas ou nítidas, mas não acontecem quando se quer, sendo interrompidas a qualquer momento por espíritos superiores, conforme o caso. Entende?
Márcia demorou um pouco para responder.
Por fim manifestou-se:
- Entendo sim.
E... todo clarividente é médium?
- Sim. O médium é a pessoa dotada de uma faculdade a mais além dos cinco sentidos humanos que, como você sabe, são:
o olfacto, o paladar, a audição, a visão e o tato.
A capacidade, o dom mediúnico é inato, ou seja, nasce com o indivíduo; essa disposição mediúnica pode ser uma ou mais. Há casos de médiuns bem perceptivos e sensíveis que dispõem de duas ou mais faculdades mediúnicas.
Podemos dizer que no âmbito, no espaço da actividade mediúnica, o mais comum são os médiuns capacitados para a comunicação, que são a fala e a escrita, ou seja, médiuns de psicofonia e psicografia.
Esses dons são simples, rápidos, cómodos e permitem mais esclarecimentos e registros, inclusive para se avaliar o espírito que atua na comunicação.
Entretanto, independente do tipo de mediunidade, a pessoa com tal faculdade deve sempre estudar a Codificação Espírita só e também em grupo, em um bom centro Espírita, a fim de que tire dúvidas, não ostente orgulho, vaidade, desequilibrando-se.
E também para que seu trabalho seja analisado e ela orientada com a finalidade de não se deixar enganar por um espírito sem instrução induzindo-a a grandes enganos, e, o que é pior, que tais mensagens ou orientações não iludam pessoas leigas, trazendo irremediáveis problemas para esse médium.
O médium sempre é testado em sua vaidade e orgulho pela espiritualidade mais elevada.
No caso da psicografia, por exemplo, existem médiuns que só escrevem usando o nome de espíritos famosos que anteriormente, por intermédio de outro médium, tais espíritos já alcançaram créditos valorosos; ou então só usam nomes de pessoas que, quando encarnadas, foram grandes personalidades.
Que absurdo!
Será que outros espíritos não são capacitados de oferecerem bons ensinamentos?
Será que o médium não desconfia de que ele só recebe psicografias de "espíritos famosos" e pode ser enganado por um espírito brincalhão que está se valendo desses nomes?
Será que esse médium não desconfia de que ele pode ser uma pessoa orgulhosa e vaidosa a ponto de admitir esses nomes sem questionar?
Que falta de humildade.
Nos estudos da Codificação Espírita somos alertados, várias vezes, que o nome do espírito pouco importa.
Se a mensagem de um livro, por exemplo, agregar entendimento, elevação, consolo para quem a recebe, estarão, médium e espírito, trabalhando com verdadeiro amor, sendo humildes, "ofertando com a mão direita sem que a esquerda saiba" , não estarão sendo objectos de falsidade, de fingimento, da afectação de virtude que não se tem, e como também Jesus disse:
"Não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas para serem glorificados pelos homens.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:52 am

Esses já receberam seu galardão", a recompensa e "não tereis mais galardão junto ao Pai, que está nos céus".
Tudo tem que ser muito bem analisado, e para isso precisamos de estudo, orientações e de ensinamentos dos companheiros de tarefa com o mesmo ideal, bem experientes e com discernimento.
Fábio silenciou por alguns instantes percebendo que Márcia escondia alguma pergunta, algo mais profundo que não queria detalhar, mas ele era paciente, aguardaria.
Observou também a inquietude da amiga, notou que era espiritual, como se alguma entidade não quisesse que aquela conversa fosse adiante.
- Fábio, só mais uma coisa... uma pessoa que nunca foi médium, repentinamente, pode ver "coisas"?
- É comum a mediunidade em crianças, principalmente com idade inferior aos sete anos, pois a criança é muito sensível.
Algumas continuam mantendo a sensibilidade após essa faixa de idade e pela vida afora.
Agora, existem os que manifestam a mediunidade na idade adulta ou em qualquer fase da vida.
Isso pode acontecer sim.
- De repente, qualquer um pode ser clarividente? - insistiu ela.
- Não é bem "qualquer um", os que possuem certo tipo de mediunidade como:
clarividente, vidente, clariaudiente, médiuns de efeitos físicos, escreventes ou de psicografia, de fala ou psicofonia, músicos, poetas, poliglotas, sensitivos, desenhistas etc., podem manifestá-la em algum momento da vida ou não.
Essa manifestação pode ser passageira como se fosse um chamado para a sua busca de instrução sobre o plano espiritual, um alerta ou para uma tarefa mais longa, depende do caso.
Mas seja qual for, a pessoa precisa se instruir e muito.
Por que pergunta isso, você teve alguma visão?
- Pode ser que sim... não tenho certeza.
Eu estava meio dormindo, às vezes acho que foi um sonho... não acredito muito nisso e...
Márcia deteve as palavras.
Sentia vontade de contar o que aconteceu, mas algo a impedia.
Fábio, por sua vez, quase perguntou:
qual, então, o motivo de ficarem ali por horas falando sobre um assunto em que ela não acreditava?
Mas calou-se.
Mesmo se questionasse só por brincadeira, poderia ofendê-la.
Ele percebia nitidamente que ali havia alguma influência negativa, pois sentiu que Márcia estava passando por um período difícil, e que futuramente a situação de sua vida poderia piorar.
Acreditava na necessidade de orientá-la a fim de evitar experiências funestas.
- Está certo, Fábio, entendi.
Obrigada por suas explicações.
- Então vamos.
- Vamos...?!
- O expediente terminou e faz tempo.
Quer uma carona?
Vou para a casa da Bete e é caminho, aceita?
Márcia não hesitou.
- Sim, claro! Vamos lá.
- Deixe-me só fazer um telefonema para a Bete e dizer que estou a caminho, tá?
Fábio deixou-a na portaria do prédio.
Ao entrar no apartamento, ela sentiu-se só e desanimada.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:52 am

Pensou em telefonar para sua mãe... mas de que adiantaria?!
Não poderia contar o que sentia, sua mãe se preocuparia.
Márcia olhou em volta e atirou-se no sofá.
Contemplou o apartamento, que agora já não lhe parecia o mesmo, não era tão bonito como antes e não estava sendo tão agradável ficar ali.
Morar sozinha agora não tinha nenhuma graça.
Mas se voltasse para a casa de seus pais, não seria a mesma coisa.
Além do que, seu pai passava por uma fase agressiva, talvez não a aceitasse mais e lhe diria muitas coisas que não gostaria de ouvir.
Sem mencionar as dificuldades que enfrentaria para ir trabalhar e fazer qualquer curso que surgisse.
Márcia não tinha muitas opções.
Além de tudo, sentia-se deprimida, triste, sem razão nenhuma para tais sentimentos.
Uma angústia indefinida roubava-lhe a tranquilidade.
Mesmo assim lutava, em pensamentos, para descobrir a origem e encontrar alguma solução.
Por isso reflectia demais.
Apesar dos conceitos espíritas que Fábio havia explicado, serem diferentes do que acreditava, sentiu-se bem ao lado dele, algo a confortava.
No seu conceito, Fábio era uma pessoa firme.
"Ele diz o que pensa", admitia Márcia em suas reflexões.
"Fala de forma tão categórica sem agredir a opinião alheia".
Muito ao contrário, o Fábio é amável e educado.
Pena que acredita nessa história de Espiritismo e espíritos.
Se bem que não posso reclamar, Fábio não é nenhum fanático, só toca no assunto quando perguntam seu parecer a respeito de filosofia ou religião.
Mesmo assim, ele se manifesta sem obrigar que aceitem sua opinião.
Que interessante!
Em meio a tantas dúvidas, achou melhor tomar um banho já que nem seus próprios pensamentos ela conseguia organizar.
Comeria alguma coisa e iria dormir.
O dia seguinte seria cheio.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:52 am

6 - MÁRCIA É PROMOVIDA

Na manhã seguinte, Márcia teve que fazer um grande esforço para se levantar.
Após o banho, sentia-se desanimada, não sabia o que vestir.
Tudo o que pegava para usar, não lhe caía bem, não combinava, e em meio a tanta roupa que possuía.
Isso era estranho.
Nunca foi assim antes!
Justo ela, dona de tanta praticidade e bom gosto para escolher o que vestir, estava com aquela dificuldade.
Lembrou-se, então, de uma roupa que havia colocado e recebido muitos elogios.
Procurou-a e vestiu-se rápido.
Era engraçado, não parecia ajustar-se tão bem ao seu corpo agora.
Mas decidiu que seria aquela mesma, não havia mais tempo.
Seu cabelo estava difícil de arrumar naquela manhã.
Não conseguia achar uma maneira de deixá-lo no mínimo bom.
Ele estava rebelde.
Márcia começou a ficar nervosa e de repente atirou a escova de cabelos com muita raiva, xingando no acto.
- Que droga!
Logo cedo essa porcaria!
Querendo descarregar sua ira, chutou a escova que foi parar na sala.
Apanhou uma outra na gaveta da penteadeira.
Alinhou os cabelos para trás com um pouco de gel e fez um simples rabo de cavalo.
Estava enfurecida, perdeu muito tempo se arrumando e agora estava em cima da hora.
Como previu, chegou atrasada no serviço.
Assim que saiu do elevador, encontrou uma colega que brincou sem pretensões:
- Atrasadinha hoje, querida?!
Márcia não gostou e respondeu mal-humorada:
- O que você acha?!
Se desse para eu chegar mais cedo, já estaria aqui.
Além do que, só devo satisfação à minha encarregada.
- Credo Márcia, que horror! - surpreendeu-se a outra.
Márcia caminhou para seu departamento sem se importar em se desculpar com a colega, aliás, não devia satisfação mesmo, pensava irritada.
Chegando à sua sala, mal cumprimentou os colegas.
Estava preocupada em adiantar seu serviço, pois teria que sair mais cedo para ir ao dentista conforme agendou no dia anterior.
Pouco depois, Ana, a encarregada da secção, aproximou-se de Márcia e disse:
- Bom dia, Márcia! Tudo bem?
- Bom dia, Ana!
Tudo bem - respondeu, forçando-se parecer tranquila.
- Quando puder, venha até minha sala, por favor.
- Sim, claro! - tornou Márcia prestativa e preocupada.
- Assim que organizar esses relatórios irei lá.
- Óptimo, eu aguardo - afirmou Ana, retirando-se.
As horas passaram ligeiras e Márcia se atrapalhou com o que fazia quase esquecendo a solicitação da encarregada para ir à sua sala.
Somente uma hora e meia após lembrou-se.
- Com licença, Ana? - entrou afoita.
- Entre. Você demorou, hein!
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:53 am

- É que eu estava ocupada demais - encabulou-se.
Estou empenhada com aqueles tipos de serviço que não se podem deixar para depois - desculpou-se.
- Tudo bem - aceitou a encarregada, parecendo compreender a situação.
Eu a chamei aqui pelo seguinte, Márcia.
Desculpe-me, por favor.
Esqueci de pedir que sentasse, esteja à vontade... - embaraçou-se, por não ser gentil, deixando-a em pé.
Ana era bem educada e tratava muitíssimo bem seus subordinados.
Márcia sorriu, acomodou-se na espaçosa poltrona frente à mesa de Ana, e esta prosseguiu:
- Márcia, eu a chamei aqui porque estou para deixar a seção.
Serei promovida e transferida para outro departamento.
Acredito que será bem melhor para mim e para o meu currículo, diga-se de passagem - sorriu.
Quanto a essa seção, não é segredo para ninguém, principalmente para você, que a pessoa mais capacitada para ocupar o meu lugar é você, certo?
Márcia enrubesceu, sentiu o rosto queimar.
Acreditava em sua competência e capacidade, mas às vezes achava que se tratava de pura vaidade.
Porém, naquele instante, escutar o reconhecimento de suas qualidades era estranho, então respondeu encabulada:
- O que é isso, Ana? Eu...
- Sem modéstias, não é, Márcia? - interrompeu educada e sorridente.
Inclusive eu já comentei com o director Rodrigo, ou melhor, já a indiquei para ser coordenadora desta seção.
Para você, não haverá nenhum mistério no serviço pelo facto de trabalhar aqui há anos e conhecer tudo.
Para a empresa não haverá perda de tempo nem de dinheiro com o treinamento de um novo funcionário.
Márcia ficou sem saber o que dizer.
De certa forma, aquilo era uma surpresa, pois só havia tomado conhecimento de certas mudanças através de alguns boatos, nada tão concreto como até aquele instante.
- Não vai me decepcionar, não é Márcia? - perguntou Ana sorrindo, pois percebeu que Márcia verdadeiramente havia se surpreendido com a notícia.
- Claro!
Ao perceber a resposta errada, corrigiu a tempo e um pouco atrapalhada:
- Não. Quero dizer... não vou decepcioná-la - e sorriu também.
- Márcia, tenho total confiança em sua capacidade e em seu profissionalismo.
Particularmente gosto muito de você como pessoa.
Aprovo e admiro sua educação, sua postura e seu comportamento.
A equipe com a qual trabalhamos hoje é muito boa, você os conhece bem.
Merece chefiá-los e tenho certeza de que eles corresponderão à altura e vão cooperar.
Percebo que a respeitam e gostam de você.
Márcia só sorria.
Pela primeira vez, não conseguia palavras para se expressar.
- Hoje à tarde teremos uma reunião com o director - continuou Ana.
Gostaria de que trouxesse os relatórios e os organogramas para demonstrarmos a ele.
Eu acredito que o doutor Rodrigo deva falar com você a respeito do seu novo cargo, por isso esteja preparada.
- Hoje à tarde?! - exclamou surpresa, lembrando-se da consulta odontológica.
- Sim. Algum problema? - questionou Ana.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:53 am

- Não! - respondeu cinicamente.
É que eu preciso imprimir os relatórios.
- Está bem, imprima-os e deixe tudo arrumado, pronto para que na hora certa não nos embaracemos nas explicações.
Se puder estudá-los antes para a apresentação ao director, será óptimo.
- Sim, certo.
Vou providenciar tudo - Márcia levantou-se sorridente.
Ao ver a mão estendida, retribuiu o cumprimento que se transformou em troca de beijos e abraços pela emoção, a encarregada a parabenizou.
Depois agradeceu:
- Obrigada Ana, muito obrigada por tudo.
O que sei aprendi com você que não se recusou a me ensinar.
Se mereço esse cargo hoje, devo repartir o mérito com você.
Eu tenho certeza de que será muito feliz na sua nova função.
Deus a abençoará por você nunca se negar a ensinar e ajudar alguém - argumentou com olhos lacrimejando.
- Você é quem merece o cargo porque não se opôs a aprender.
Nunca mediu esforços ou dificuldades para ganhar conhecimento.
Lembre-se disso, Márcia.
Nunca se negue a aprender, por mais fútil que pareça a lição.
Boa sorte! - desejou ao abraçá-la novamente.
- A você também. Sucesso! - retribuiu emocionada.
Márcia não se continha.
Retornou à sua mesa com a alma saciada de satisfação, feliz por sua capacidade reconhecida, por sua luta ter valido a pena.
Não conseguia tirar o sorriso do rosto.
"Eu, coordenadora de seção em uma empresa tão importante como essa?!", pensava.
"Quem diria!". Mesmo não querendo alarido, não se conteve.
Pegou o telefone e ligou para o ramal da mesa de Fábio a qual ficava somente alguns metros da sua.
- Não olhe para mim - pediu Márcia sussurrando ao telefone.
- O quê? - perguntou Fábio sem entender e ameaçando virar-se para vê-la.
- Não olhe para mim! - sussurrou novamente.
Vamos almoçar juntos?
Tenho muito para contar, só que quero sigilo, tá?
- Tudo bem. Vamos ficar por último na seção.
Depois que todos saírem, nós iremos.
- Não! Não posso perder tempo, tenho uma reunião importante após o almoço.
Almoçarei rapidinho para voltar logo.
Sabe aquele restaurante que fomos semana passada, aonde quase ninguém daqui vai?
- Sei - afirmou o amigo paciente.
- Iremos lá, ao meio dia em ponto, está bem?
- Certo. Quem chegar primeiro, espera. Tchau.
- Tchau.
Márcia estava feliz, só lamentava não ter se vestido melhor.
Afinal, a aparência no ambiente de trabalho é muito importante.
Teria que ligar para sua cunhada e desmarcar a consulta.
Não poderia faltar àquela reunião por nada desse mundo.
Durante o almoço, contou a novidade a Fábio que ficou feliz com a notícia.
Almoçaram às pressas, pois ela queria se preparar para a reunião.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:53 am

Teria que ler os relatórios a fim de informar-se bem.
Durante a reunião, que aconteceu tranquilamente, Márcia saiu-se bem.
Ana só a observava.
Queria que Márcia, sozinha, fizesse toda a apresentação para que a directoria pudesse confirmar as competências profissionais indicadas por ela.
No final, o director a parabenizou pela apresentação e a também Ana por tê-la indicado para substituí-la, mencionando com pompas e excessiva formalidade no tratamento:
- Senhorita Márcia, cremos que no máximo daqui a duas semanas a senhora Ana ocupará sua nova função e a senhorita ficará definitivamente em seu lugar.
Esperamos contar ao máximo com o seu apoio e desempenho profissional.
- Sem dúvida, doutor Rodrigo - respondeu Márcia firme.
Ana interrompeu:
- Eu só estava aguardando a aprovação definitiva do senhor, sobre a senhorita Márcia assumir a seção, para informar a todos sobre a nova liderança.
Além de providenciar sua transferência imediata para minha sala a fim de passar-lhe todos os detalhes do serviço antes de minha mudança.
- O que a senhora fizer, será aprovado - respondeu o director.
Despediram-se e retornaram à seção.
No caminho Ana orientou:
- Márcia, tome providências imediatas para que sua mesa, seu microcomputador sejam levados e instalados em minha sala.
Após minha transferência, você decide se ficará com meu micro e minha mesa ou com suas coisas.
Terei tudo novo na nova gerência.
- Está bem! - exclamou concordando, sorridente.
Ao chegarem à seção, Ana chamou todos para uma pequena reunião, anunciando a nova coordenadora, solicitando que colaborassem com Márcia assim como fizeram com ela.
Apesar de já estarem sabendo, não oficialmente, do novo cargo de Márcia, alguns ficaram contentes, outros a invejaram e não lhe desejaram boa sorte, mesmo reconhecendo sua capacidade profissional.
Mas essas opiniões negativas passaram despercebidas diante da grande felicidade de Márcia.
Já à noite, em sua casa, Márcia imediatamente telefonou para sua mãe dando a notícia.
Depois ligou para Rose, mas foi Ciro quem atendeu:
- Oi, Má, tudo jóia?
- Tudo bem, Ciro.
Dê-me os parabéns, fui promovida! - anunciou eufórica.
- De cargo ou de salário? - brincou Ciro.
- De ambos.
Sou a nova coordenadora da minha seção e automaticamente isso aumenta meu salário também.
- Então parabéns!
Desejo-lhe muito sucesso.
- Obrigada. Escuta, a Rose está?
Quase não consegui falar com ela hoje quando desmarquei a consulta.
- Ela está chegando. Fala com ela.
Um beijo e felicidades, hein!
- Outro. Obrigada.
Depois de uma breve pausa, pois Ciro contou rapidamente a sua mulher sobre o novo cargo de Márcia, Rose atendeu:
- Márcia?!
- Oi, Rose, desculpe-me por não ter ido hoje e desmarcado a consulta na última hora.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 9:54 am

- O que é isso, Márcia!
Não tem motivo para se desculpar.
Olha, parabéns! Ciro acabou de me contar.
- Obrigada! Puxa você nem imagina como eu estou contente.
- Imagino sim. Sua mãe já sabe?
- Acabei de ligar para ela.
- Dona Mariana deve ter ficado muito feliz e orgulhosa.
Acredito que mais feliz do que você.
- Só falta eu contar para a Paula, ela também vai gostar.
- Falando em Paula... - interrompeu Rose - eu preciso falar com a Bárbara.
- Com a Bárbara?
- É sim. Tenho um livro que quero dar a ela.
Vou esperar você ligar para lá, depois telefono para falar com a Bárbara.
- Está bem, Rose.
Qualquer dia eu ligo para agendar outro horário, pois nessa semana e na outra não quero me ausentar.
Desejo ter tudo em ordem lá no serviço.
- Vamos fazer o seguinte - sugeriu Rose - sei que estará muito ocupada e entendo o quanto é importante um novo cargo, por isso vá no sábado de manhã e cuidaremos do seu dente, já fizemos isso antes.
Como não trabalho aos sábados, ficaremos a sós.
- Ah... esse sábado não, deixa pro outro - pediu Márcia com modos dengosos.
- Você é quem sabe, o dente é seu - riu a cunhada.
- Lembre-se de que não atendo de madrugada, nem se for para o Ciro!
Elas riram juntas.
Após conversarem mais um pouco, despediram-se.
Rose sentiu um leve mal-estar após conversar com Márcia.
Não entendeu bem o que era.
Não havia motivo para se sentir perturbada.
Após tomar um banho, Rose ligou para Bárbara, avisando sobre o livro.
- Bárbara, tenho certeza de que você vai gostar.
- Sobre o que fala o livro? - perguntou Bárbara.
- É um romance espírita, é uma história linda!
- Já leu? - perguntou Bárbara.
- Já, e adorei.
Fala sobre a morte de uma jovem...
Rose calou-se antes que contasse todo o livro.
- Ah, não! Você é quem terá de ler.
Sei que vai adorar.
- Domingo vamos à casa da vó e a senhora me entrega.
- Claro.
- Estou ansiosa para ler esse livro, tia.
- Pode ficar, valerá a pena.
A propósito, sente-se melhor, Bárbara?
- Melhor?! - perguntou Bárbara.
- Fiquei preocupada quando conversamos da última vez.
Você parecia um tanto triste e me disse que o problema era a sua idade.
- Não, tia. O problema não é só a minha idade, é que com a idade que tenho não consigo resolver o que está acontecendo aqui em casa.
De uns tempos para cá, o ambiente aqui está cada dia pior.
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Ave sem Ninho

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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 9:59 am

- Como assim, Bárbara?
- Se eu parar de contar ou desviar o assunto, tia, é porque minha mãe chegou, está bem? - pediu Bárbara.
- Sim, claro. O que é?
- Aqui em casa cada dia está pior.
Meus pais têm brigado, coisa que nunca fizeram antes, e, quando eu tento apaziguar a situação, eles se viram contra mim e passam a brigar comigo.
- Que estranho, Bárbara! - admirou-se Rose.
Eu não sabia disso.
Eles sempre viveram tão bem.
- Pois é tia.
Mesmo quando a Melissa era viva e arrumava todos aqueles problemas, a nossa família era mais unida, mais calma, tínhamos mais harmonia.
Bárbara calou-se por um instante.
Depois prosseguiu:
- Não somos mais felizes como antes.
Quando a Melissa morreu, pensei que os problemas tinham se acabado.
Eu gostaria de saber se o espírito de alguém pode rondar nossa casa, nossas vidas e perturbar os outros?
Acho que a Melissa não foi para o céu e deve estar irritando a todos aqui, infernizando nossas vidas.
Sabe tia, às vezes me dá uma tristeza, uma vontade de chorar e quando isso acontece, a lembrança de Melissa fica viva em minha mente!
Parece que eu posso senti-la a meu lado!
Rose admirou-se da sensibilidade de Bárbara, tão nova e sem conhecer nada sobre a vida espiritual, sentia que a irmã poderia estar ali em um estado de perturbação.
Rose censurou-se rapidamente, ela não poderia julgar.
Quem era ela para saber se Melissa estava provocando toda aquela situação, aquelas brigas?
De repente o espírito Melissa estaria em um bom lugar, instruindo-se, preparando-se para a reparação.
Ela não poderia julgá-la.
Então, tentando amenizar os sentimentos da sobrinha, Rose aconselhou:
- Calma, Bárbara.
Na vida nós sempre enfrentamos algumas fases ruins, são períodos e acabam passando.
Isso é uma fase, meu bem.
Não faz muito tempo que Melissa morreu.
- Já faz sim, tia. Já tem dois anos.
- Mas para os pais, isso são dois dias.
Eles estão sentidos com a morte dela e com tudo o que aconteceu.
Ela era muito jovem, só tinha dezoito anos... e morreu de forma violenta.
É natural que seus pais não aceitem e se revoltem.
- Mas aí, tia, está certo eles descarregarem a raiva em cima de mim?!
Não fui eu quem matou Melissa.
Ela fez muita besteira para quem viveu tão pouco aqui na Terra.
Se meus pais querem desabafar, que não seja em cima de mim!
Eu não fiz nada, só tento acalmá-los quando a situação está excessiva, daí sobra para mim!
Bárbara falava não como uma adolescente revoltada, mas como uma adulta experiente e com conhecimento de causa.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 9:59 am

E prosseguiu:
- Se a Melissa morreu, Deus que me desculpe por falar assim, mas foi ela mesma quem procurou a própria morte.
Se ela foi assassinada pelo namorado, poderíamos até dizer que a culpa foi dela por ter deixado as coisas caminharem daquela maneira.
- Não diga isso, Bárbara! - interrompeu Rose, alterando-se, pois percebeu que Bárbara, apesar de dizer a verdade, estava passando dos limites em seu julgamento.
- Digo sim, tia.
A Melissa sempre teve tudo do bom e do melhor.
Recebeu muitos conselhos, foi sempre orientada, mimada e deu nisso aí!
Por causa da sua rebeldia, por se achar sempre com toda razão, não ouviu ninguém, acabou com a própria vida e agora quer acabar com a nossa.
- Calma, Bárbara, calma.
Primeiro não sabemos quais as condições dela como espírito hoje; segundo, nada acontece por acaso e...
De repente, Bárbara interrompeu:
- Minha mãe já saiu do banho, tia, quer falar com ela agora?
Rose atrapalhou-se, não tinha telefonado para falar com a cunhada, mas conversou com Paula por entender que a sobrinha não queria detalhar à sua mãe a conversa que estavam tendo.
Então usou como desculpa o assunto da promoção de Márcia e o quanto ela era dedicada.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:00 am

7 - ÉRAMOS UNIDOS, FELIZES

Algumas semanas se passaram e Márcia estava bem atarefada, devido à sua nova função.
A expectativa de se destacar no serviço e não cometer falhas era grande, ela não queria decepcionar-se, não iria se permitir nenhum deslize pessoal ou profissional.
Até mesmo aos seus familiares estava dando pouca atenção, pois além de não haver tempo, sua empolgação era constante com o novo cargo, que a mantinha concentrada no trabalho a fazer.
Acordava bem mais cedo.
Ficava horas na frente do espelho a fim de apresentar-se melhor.
Aumentou o número de roupas novas e queria que tudo estivesse impecável.
Só havia um problema:
agora quase não tinha tempo para conversar com os colegas de trabalho como antes.
Talvez eles a julgassem orgulhosa, mas não era verdade.
O problema era a falta de tempo para conversar.
Isso a fazia sentir-se mais só.
Naquela noite chegando a seu apartamento, antes de entrar, ouviu o telefone tocando muito.
Abriu a porta às pressas e correu para atendê-lo:
- Roberto! Oi!
Pela voz de Roberto, Márcia percebeu que nada estava bem.
- Oi, Má.
Eu pensei que não conseguiria mais falar com você!
Caramba! Ninguém te encontra! - reclamou zangado.
- O que foi, Beto?
- Nada - respondeu o irmão friamente.
- Nada, não!! Aconteceu alguma coisa?
Por que me ligou?
- É o pai, Má.
Cada dia o velho está pior.
- Já falei, isso é fase...
- Fase nada, Márcia!!! - quase gritou o irmão ao interrompê-la.
Cada dia o homem tá piorando e você nem liga para isso, não sei por que estou telefonando!
Você não dá a mínima importância pra a gente, não sabe o que está acontecendo lá em casa ou o que deixou de acontecer.
Roberto passou a falar enfurecido e descontrolado:
- Sei que está morando longe, mas, além disso, você está muito distante sentimentalmente de sua família.
Reparou?! Aí, quando a gente te procura para fazê-la participar de alguma coisa, você vem com a mesma frase pronta:
"Isso é fase!" "Vai passar".
Nem sei pra que estou ligando...
- Desculpe-me, Beto. Você tem razão.
Mas estão acontecendo tantas coisas lá no meu serviço agora, depois dessa promoção.
Nem pode imaginar.
Percebendo que a voz do irmão não estava normal, ela perguntou:
- Beto, você bebeu?
- Vai pro inferno, Márcia!!! - gritou desligando imediatamente.
- Alô?! Roberto!...
Márcia, na mesma hora, ligou para a casa de seus pais.
- Mãe? Sou eu.
- Oi, filha!
- Chama o Roberto para mim!
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:00 am

- Ele não está filha, ele ainda não chegou.
Liga pro celular.
Márcia sentiu uma amargura na voz de sua mãe que parecia querer disfarçar.
- Eu falei com ele agora, mãe.
Não me pareceu que estivesse usando o celular, pensei que estivesse aí.
- Devia estar falando de outro lugar, Márcia.
O Roberto não vem para casa desde ontem.
- O que está acontecendo, mãe?
- O Roberto e seu pai se desentenderam, não é nada demais, não se preocupe, filha.
- Como não é nada demais, mãe?
O Roberto e o pai não vêm se entendendo já há algum tempo e a senhora sempre colocando "pano quente" para acalmar; sendo que a realidade não é essa.
Márcia foi grosseira com sua mãe, mas não se desculpou, acreditando ter toda razão.
- A senhora não sabe onde Roberto está, mesmo?
- Não, Márcia. Eu não sei, filha.
- Tá bom. Ligo para a senhora mais tarde.
Vou tentar encontrá-lo em outro lugar.
Márcia ligou imediatamente para o celular, que era atendido pela caixa postal.
Desligou o telefone e ligou para a gráfica, apesar de estar fora do horário de expediente, pensou em encontrá-lo lá.
Mas o vigia que atendeu, negou a presença de Roberto na firma.
Em seguida telefonou para a casa de sua irmã Paula, acreditando que Roberto pudesse estar lá.
O telefone tocou várias vezes sem que ninguém atendesse.
Por fim quando ia desistindo:
- Alô...
- Bárbara! É a tia Márcia.
- Oi, tia...
Márcia percebeu que Bárbara estava com voz de quem havia chorado.
A menina falava entre soluços e respirava descompassadamente.
Podia também ouvir, ao fundo, os gritos de Paula com João Vítor e vice-versa.
De repente, escutou uma forte batida de porta se fechando e alguns palavrões ditos por sua irmã.
- Bárbara?! - perguntou Márcia assustada.
O que está acontecendo aí?!
- Nada, tia... é... que... não é nada...
- O que é isso?! Como nada?!
Eu estou ouvindo seus pais gritando e xingando! - diante do silêncio, Márcia perguntou agora de modo mais brando e amoroso, induzindo a sobrinha:
- Bárbara, meu bem, me responda, o que está acontecendo?
A tia precisa saber.
Estou preocupada, querida.
- São meus pais, tia - respondeu chorosa.
Quase todos os dias... é isso, acontece isso o que a senhora está ouvindo.
Eles estão a ponto de se pegarem aos tapas.
Eu não aguento mais... - chorou.
- Chama sua mãe pra mim, meu bem.
E vê se fica tranquila, isso não faz bem a você.
Eu vou falar com a Paula para ver em que posso ajudar.
Toma uma água com açúcar e tente se acalmar.
Está bem? - foi gentil, escondendo sua inquietude e nervosismo.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:00 am

- É fácil dizer para alguém ficar calmo, tia Márcia.
Principalmente quando não se está no meio de um problema ou de uma briga.
Márcia não tinha argumentos para responder.
Mas não houve tempo para pensar em algumas palavras a fim de consolar a sobrinha, porque Paula aproximou-se da filha e pegou o telefone para atender sua irmã, pois ouvira o nome pronunciado por Bárbara.
- Paula! O que está acontecendo?!
Paula, completamente descontrolada, respondeu áspera:
- É isso aí, Márcia!
O seu cunhado todo dia dá motivo pra gente brigar.
Hoje é porque não foi trabalhar.
É o segundo dia nesta semana que ele falta ao serviço sem motivo, sem justificativa.
E por quê?! Sabe por quê?!
Para ficar no bar!
- No bar?! - surpreendeu-se Márcia, quase não acreditando no que ouvia.
João Vítor não fumava nem bebia.
"Como ele pode agir assim de um momento para o outro?", questionava-se em rápido pensamento.
Depois de mais de vinte anos de casados - concluía Paula, ainda alterada -, descobri que seu cunhado deu pra jogar, beber e ficar no bar até tarde.
No dia seguinte falta ao serviço por que está cansado, de ressaca, ou até por que jogou com o dinheiro da condução, e perdeu tudo.
Ele fica sem nada!
Não tem dinheiro nem para pagar um ônibus.
- Eu não acredito, Paula... - murmurou Márcia que estava assombrada com o que ouvia de sua irmã.
Sabia que seu cunhado sempre foi esforçado, trabalhador, excelente pai, marido exemplar.
Não conseguia entender a mudança.
- Pois acredite, minha irmã.
Cada dia está ficando pior.
Sem contar quando ele chega bêbado em casa, isto é, quando chega.
Algumas vezes a idiota da Bárbara sai para buscá-lo caído e totalmente embriagado na rua, na sarjeta.
- Por que não me contou?
Domingo passado conversamos tanto.
Vocês não pareciam ter problema algum.
- É que ele só resolve ser cafajeste durante a semana, aos sábados e domingos o João Vítor vira santo.
Além disso, eu não quero levar mais preocupações lá pra casa de nossos pais.
Eles já têm problemas demais.
"Problemas demais?!", questionou-se Márcia em pensamento.
"Que problemas são esses?
Será que está acontecendo algo mais que eu não sei?"
Procurando mostrar-se tranquila, Márcia foi conversando com Paula que, no decorrer do tempo, acalmou-se e passou a se expressar de modo equilibrado.
Passados minutos, Márcia perguntou:
- As preocupações as quais você se refere, lá na casa de nossos pais, são com o pai e o Roberto, não é?
- Não é só isso, não, Má - respondeu Paula convicta.
- O pai deu pra brigar com a mãe e quebrar as coisas que acha pela frente, principalmente na hora das refeições.
Você não está sabendo?! - admirou-se.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:01 am

O pai resolve jogar as louças e a comida no chão, mais ou menos como o João Vítor faz aqui em casa quando está sem dinheiro para beber e jogar.
O Roberto interfere sempre a favor da mãe, claro!
E por causa disso, essa semana o pai bateu nele.
- Bateu nele?!
O pai bateu no Beto?!!! - exclamou Márcia horrorizada, seu pai nunca bateu em nenhum de seus filhos.
- O pai deu um soco no rosto do Beto! - afirmou Paula também escandalizada.
- E o Beto?!!!
- Empurrou o pai e saiu.
Voltou pra casa no dia seguinte, saiu novamente e não voltou mais nem ligou.
Assim me disse a mãe.
- A mãe não me contou nada, Paula!
Falei com ela agora mesmo.
O que será que está acontecendo com a nossa família?!
- A mãe quer poupá-la, Má!
Vê se desperta para o que está acontecendo à sua volta!
A mãe acha que se te contar tudo isso, você pode se afastar ainda mais para não ter tantos problemas, além dos que tem em seu "magnífico serviço!" - desfechou com certa ironia na voz.
Em seguida, continuou:
- Quanto a nossa família, pelo que estou vendo, somos um bando de hipócritas, que se reúnem, obrigatoriamente, todos os finais de semana para dizer que tudo está bem.
Na verdade, somos piores do que muitos por aí, que brigam e se apresentam com autenticidade, mostrando-se realmente como são.
- Mas antes nunca foi assim, Paula.
Éramos unidos, felizes!
- Felizes?! - riu, exprimindo-se depreciativa.
Eu sempre tive problemas, Márcia.
Minha vida nunca foi fácil, venturosa e repleta de satisfação como a sua.
Primeiro foram as dificuldades no começo de casada com a faculdade que quase abandonei; depois para criar as meninas e trabalhar, isso foi um sufoco; o João Vítor, por umas duas vezes, ficou sem emprego e eu tive que "segurar as pontas", sozinha.
Como se não bastasse, na adolescência de Melissa tivemos todas aquelas preocupações, problemas e mais problemas, além daquela tragédia que envolveu a família toda.
Agora é o João Vítor de novo...
Eu sou uma infeliz mesmo, minha irmã! - desatou a chorar.
- Calma Paula, não diga isso - aconselhou, mesmo sentindo que Paula a ofendia de certa forma.
- Infeliz! É isso o que eu sou, uma infeliz!
Mas eu peço todos os dias para minha filha Melissa me ajudar, me dar forças e consertar o pai dela.
- Você deve manter a calma, para tudo há um jeito e...
- Tenho que desligar, aquele canalha chegou! - disse Paula interrompendo-a repentinamente.
Vou falar com ele e vai ser agora!!! - irritada, desligou sem se despedir da irmã.
Márcia estava incrédula, pasmada com a velocidade dos acontecimentos.
Apesar de terem passado por sérios problemas, a família de Paula era bem equilibrada, até então.
João Vítor, sempre foi responsável, Paula nunca falou mal de seu marido, ao contrário, sempre elogiava sua firmeza, sua personalidade, seus esforços.
Márcia ouviu a irmã dizer que não viveria sem ele.
O que estaria acontecendo?
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:01 am

Por que tanta mudança?
Sem respostas, decidiu telefonar para Ciro e ver se Roberto estava lá ou se sabia onde poderia encontrá-lo.
Rose atendeu.
- Oi, Rose! Tudo bem?
- Tudo, Márcia, e você?
E o novo cargo?
- Estou indo.
Não é fácil se adaptar em algo novo, mesmo conhecendo os procedimentos.
A teoria é diferente da prática.
Mas em breve vou dominar tudo - riu.
Depois perguntou:
- Escuta, Rose, você tem visto o Roberto?
- Não, Márcia.
Só fiquei sabendo o que aconteceu com ele e seu pai... puxa... - entristeceu a voz e não soube o que dizer.
- Eu só soube agora, quando liguei para a Paula e ela me contou.
Ela também não está passando por bons momentos com o João Vítor.
- É, estou sabendo - afirmou Rose.
- Quem te contou? - perguntou Márcia.
- A Bárbara. Estive conversando com ela ontem, foi quando me falou sobre a briga entre o Roberto e seu pai.
Semanas atrás, a Bárbara desabafou um pouco, detalhando os problemas que Paula e João Vítor vêm enfrentando há algum tempo.
- Eu não sabia!
Só descobri essa história porque liguei para lá no meio de uma briga e a Bárbara atendeu ao telefone com voz de quem estava chorando.
- Infelizmente, há alguns meses isso vem ocorrendo e se agravando a cada dia - lamentou Rose.
- Eu não podia imaginar... - entristeceu-se Márcia ainda descrente da situação.
Por favor, Rose, se souber de mais alguma coisa, me avisa sim?
- Pode deixar, Má.
Eu ligo pra você.
- Vou desligar, pois de repente o Roberto pode me telefonar e estará ocupado.
Nós discutimos e... Ai, que droga!
Não consigo falar com ele agora e nem sei onde encontrá-lo.
- Márcia?
- Fala, Rose.
- Não quero parecer fofoqueira, é que eu acredito que você também não saiba.
- Do quê?
- O Roberto arrumou uma garota, uma namorada.
- Que bom! Eu não sabia mesmo - respondeu ingénua.
- Que bom, nada!
Faça de contas que você não está sabendo.
Foi o Ciro quem me contou.
- O que está acontecendo? - perguntou Márcia muito curiosa.
Fala logo! Quem é?!
- É a Júlia.
Márcia emudeceu, não acreditou no que ouviu.
Pediu para Rose repetir, mas não queria aceitar.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:01 am

Então Rose confirmou:
- A Júlia sim. A irmã do Jonas.
Márcia empalideceu, largou o corpo no sofá e até sentiu-se mal.
- Márcia? Márcia?! - insistiu Rose quando não ouviu resposta alguma.
Você está bem?
- Não!!! Eu não acredito!!! - enfureceu-se gritando.
O Roberto poderia arrumar qualquer mulher do mundo, menos essa aí!
Ele poderia casar-se amanhã com uma mulher "da vida", mas que, no mínimo, o respeitasse, eu daria o maior apoio!
Mas essa daí, não!
Ela não gosta de nós, é uma sem vergonha e nos odeia!
Além disso, essa safada não presta!
É interesseira, anda com um e com outro.
Eu não acredito!
O Roberto não poderia fazer isso!
Ele enlouqueceu?!
Márcia perdeu completamente o controle e Rose tentou acalmá-la.
- Não fique assim, Márcia.
Eu achei por bem contar porque sei que você e o Roberto são muito amigos.
Ele costuma ouvir os seus conselhos e sempre pede a sua opinião em tudo.
Acredito que, já ciente, você não vai perder a estabilidade emocional, e, assim, poderá ajudá-lo e orientá-lo para sair desse envolvimento.
- Eu vou matar essa Júlia!!! - gritava Márcia revoltada.
- Calma, Márcia, não é assim.
De cabeça quente não se consegue nada.
Faça o seguinte:
não diga nada ao Roberto que já sabe.
Deixe que ele conte e não reaja.
Nós duas precisamos conversar primeiro, mas não por telefone.
Como você está mesmo precisando daquela consulta dentária que vive adiando, neste sábado, às nove horas, eu a vejo no meu consultório.
Preciso muito falar com você sobre outro assunto e aproveitaremos para conversarmos sobre o Roberto também.
Márcia concordou sem questionar.
Depois de se despedir desligou o telefone, porém continuou com os pensamentos fervilhando.
Não acreditava no que estava vivenciando.
Tanta coisa acontecendo com sua família e ela ali, em contacto com todos, mas sem saber de nada.
As aparências de harmonia, humor e bem-estar que apresentavam eram superficiais.
Muitas situações lhe passaram despercebidas.
Como foi acontecer tudo isso?!
Enquanto Márcia pensava em como agir com Roberto, o espírito Jonas estava em sua sala, bem próximo dela e gargalhando, deliciando-se com a reacção que ela tivera, encolerizada com as descobertas desagradáveis.
Logo, andando de um lado para outro, ele dizia:
- Tá vendo, Márcia, esse mundo dá voltas!
Viu o que eu posso fazer? Sua desgraçada!
Você me humilhou, me entregou pra polícia, se meteu onde não foi chamada.
Agora é a hora da virada, que só começou!
Seu sofrimento, sua angústia apenas estão começando.
O espírito Jonas gargalhava em meio ao sentimento de vingança.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:01 am

Maravilhava-se com os sentimentos de impotência e desapontamento da moça, além da situação que provocou em toda a família.
Por isso, dizia batendo no peito:
- Eu sou forte, Márcia!!!
Agora eu sou poderoso, vem me pegar!
Manda a polícia vir me prender!
Ninguém pode me prender agora!
Farei miséria com você e seus queridinhos!
Eu odeio todos vocês!!!
Márcia não podia ouvir Jonas, mas captava sentimentos aflitivos e angustiantes.
Passou a sentir-se mal, amargurada e deprimida.
Não sabia o que era, entretanto acreditou ser consequência das últimas notícias sobre sua família.
- Viu, Márcia? - insistiu Jonas, comprazendo-se em fazer o mal com predilecção desumana.
Com suas vibrações pesarosas e atormentadoras, envolveu-a, como que num abraço sob sua aura sombria, repleta de sofrimento e crueldade afirmava com forte emoção deprimente:
- Isso é só o começo, vocês todos vão me pagar. Seus desgraçados!
Afastando-se, porém ainda bem próximo do ombro de Márcia, falando-lhe ao ouvido ele disse:
- Eles fazem tudo o que eu mando, jogam, fumam, agridem, brigam muito.
Eles são meus escravos, fazem tudo o que eu quero.
E você também, aos poucos, vai me obedecer e será minha serva. Sua vadia!
Márcia não estava nada bem, sentia uma forte angústia, um sofrimento indefinível e muita solidão.
Estava incrédula, desgostosa com a vida.
Não via a hora de falar com Roberto para lembrá-lo de todo o passado.
Certamente o irmão não poderia ter esquecido tudo o que aconteceu.
Mas ela não conseguia telefonar, provavelmente ele havia desligado o celular.
Durante os dias que se seguiram, Márcia insistiu em falar com Roberto, porém ele não ia ao trabalho, não atendia aos seus telefonemas, nem retornava seus recados, além de não ser visto por ninguém.
O sábado chegou.
No consultório odontológico, Rose esperava por Márcia preparando os equipamentos e instrumentos a serem utilizados.
Quando sua cunhada chegou Márcia estava abatida, não conseguia dormir direito há dias.
Assim que o fazia era um sono perturbado, quase asfixiante.
Era o espírito Jonas que, por sua vez, não a deixava em paz, interferindo quase que ininterruptamente em seus pensamentos.
- Bom dia, Márcia! - exclamou Rose sempre bem humorada.
- Bom dia, Rose. Como vai?
- Estou bem.
- E minhas sobrinhas?
- Ah! Muito bem!
Como sempre, estão "cheias de arte".
- É bom ter barulho e alegria em casa.
Às vezes me sinto muito só no apartamento, principalmente à noite.
Aí eu tenho que ligar para minha mãe e pedir um "pouquinho de colo" - riu forçadamente.
Rose sorriu com delicadeza, mas foi ficando séria e não conseguiu disfarçar.
Márcia também perdeu o pouco humor que tinha ao ver a preocupação estampada no rosto angelical da cunhada.
Sem demora, foi perguntando:
- Rose, o que mais aconteceu?
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:02 am

Sim... porque, pelo jeito, eu sempre sou a última a saber das coisas.
Por favor, me diz o que foi?
Rose olhou-a firmemente nos olhos, respirou fundo e falou:
- Sabe Márcia, o Ciro me pediu para não contar nada por enquanto, mas... bem, a nossa amizade...
Rose fazia algumas pausas tentando arranjar coragem para prosseguir.
- Diga o que é?
Por favor - pediu parecendo implorar.
- Eu confio em você, Márcia.
Creio que você é muito forte e...
Rose estremeceu.
Não conseguia continuar, sua voz embargou.
Percebendo o seu nervosismo, Márcia, com voz agora firme, perguntou novamente:
- O que aconteceu? Fala logo!
Ou eu acabo tendo "uma coisa" de tanto suspense!
- Sabe os exames que sua mãe foi fazer?
- Sim - lembrou-se.
Mas exclamou em seguida:
- Nossa! Eu tinha até me esquecido que minha mãe iria fazer alguns exames que Ciro pediu e nem perguntei quais foram os resultados.
E isso já faz tempo.
O que tem esses exames?
- Os resultados saíram - informou Rose bem séria.
Diante de sua fisionomia, Márcia sentiu um frio correr-lhe pelo corpo e um grande aperto no peito.
Retorcendo as mãos, que umedeceu pelo suor frio, e com a voz embargada, ela perguntou temerosa, quase sussurrando:
- É muito grave, Rose?
- Ciro acredita que sim - informou Rose com verdadeira piedade.
Só o cancerologista poderá diagnosticar exactamente a gravidade depois de uma biópsia.
Ciro não é especialista nessa área, mas... um amigo dele deu uma olhada e...
É um resultado bem sério, sim.
Existe uma grande região afectada.
Há outros exames para serem realizados a pedido do especialista na área...
- ...câncer no intestino?!
Pode ser isso?! Minha mãe...?!
Márcia começou a chorar compulsivamente.
Amargurada, Rose calou-se, chorando junto.
- Ela não sabe, não é? - perguntou Márcia ainda entre os soluços.
Rose balançou a cabeça negativamente enquanto enxugava as lágrimas.
- Não vamos dizer nada a ela, não é? - pediu Márcia com a voz embargada.
De repente é algo simples, coisa boba.
Vamos esperar um diagnóstico mais preciso.
Pode ser que o Ciro e esse amigo erraram.
Rose percebeu que Márcia desejava se iludir, entendeu que era grave, mas não queria admitir.
Foi então que a cunhada concordou, tentando dissimular:
- Sim. Claro, Márcia.
Não vamos dizer nada a ninguém.
O resultado pode ser outro.
Um grande silêncio se fez durante o tratamento.
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Ave sem Ninho

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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:02 am

Rose sabia que os filhos da dona Mariana eram muito apegados à mãe, que era bem carinhosa e os tratava com muito mimo.
Quando terminou, Rose quase se arrependeu por ter contado à Márcia.
- Sinto muito, Márcia, estou muito triste.
Dona Mariana é como uma mãe para mim e seu pai como o meu pai.
Eu os estimo demais, uma vez que perdi meus pais há muito tempo.
- Eu sempre soube que você os quer bem, Rose.
Agradeço por estimá-los tanto.
Eu só não sei o que fazer... É minha mãe!
É tudo o que tenho de mais importante em minha vida!
Nunca pensei em vê-la doente...
Ela sempre foi disposta, activa, nunca se queixou de nada e de repente isso... - deteve-se pelo choro.
- Seremos fortes e daremos muita força para ela, está bem?
- Sim, Rose. Mas acontece que turbilhões de problemas resolveram acontecer de uma única vez.
É a Paula brigando com o João Vítor, que deu para beber e jogar; a coitada da Bárbara no meio sem que possamos fazer nada; meu pai deu para ser agressivo...
Não há explicações ou motivos para isso tudo.
Como se não bastasse, o Roberto com aquela... não dá para acreditar!!!
- Vamos orar - orientou Rose, calma e equilibrada, apesar da tristeza.
- O quê?! - estranhou Márcia.
- É isso mesmo.
Quando não podemos interferir ou ajudar, oramos.
Deus sabe do que necessitamos e o quanto somos fortes para suportarmos essa ou aquela situação, Ele nunca nos desampara, mas nos deixa passar pelas dificuldades de que precisamos para crescermos e evoluirmos moral e espiritualmente.
Márcia estranhou as palavras de Rose, mas não comentou nada.
Estava muito preocupada, nervosa e achou que se tratava de emoções momentâneas, só para acalmá-la.
- Preciso falar com o Roberto - argumentou Márcia.
- Fale com ele com muita calma e paciência.
Não tente interferir na decisão que ele tomou.
Faça-o entender a situação, que talvez essa afinidade de Júlia para com ele seja um golpe.
Vamos tentar entendê-lo e respeitar sua opinião.
Márcia estava atordoada, quase não ouvia o que Rose falava e não conseguia pensar.
Em alguns sábados, Márcia costumava ir bem cedo para a casa de seus pais e só voltava para seu apartamento no domingo à noite, porém naquele dia não desejava ir até lá.
Ao sair do consultório de Rose, voltou para seu apartamento.
Lá tentou alguns telefonemas para encontrar seu irmão Roberto.
Por fim o vigia da gráfica informou que encontrou com ele no bar, perto da gráfica, quando ia entrar em serviço.
Márcia pediu ao vigia que o chamasse, precisava muito falar com ele.
Avisou que se tratava de um assunto muito importante.
O vigia assim o fez e foi chamar Roberto.
Márcia ficou ansiosa aguardando o telefonema do irmão, que só ocorreu horas depois.
- Alô! Márcia?!
- Roberto! Estou precisando muito falar com você!
Por favor... - implorou melancólica.
- Ora, ora! Você precisa ser ouvida, irmãzinha? - ironizou Roberto, que já havia bebido um pouco e estava sob o forte efeito do álcool.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:02 am

- Desculpe-me, Beto.
Eu não deveria ter falado com você daquele jeito.
Eu te entendo. Errei por ter ficado tão ausente dos problemas da família.
Preciso conversar com você.
Vem até aqui, vem?
Roberto vacilou na resposta, porém concordou:
- Está bem. Já estou indo.
Márcia o aguardou com certa insegurança.
Ele parecia diferente no falar.
O que será que ela deveria dizer?
Por onde começar?
Enquanto isso preparou um café e arrumou a mesa.
Só mais tarde a campainha tocou. Era seu irmão.
- Oi, Beto! - exclamou Márcia correndo e o abraçando.
Mal foi correspondida, porém não se importou.
Sentiu cheiro de bebida alcoólica ao envolvê-lo, mas não disse nada.
- O que você quer? - perguntou ele friamente.
- Eu não fui legal com você naquele dia por telefone e queria me desculpar.
Você sempre me deu a maior força, sempre foi meu amigo... - falou amável.
- Poderia ter pedido desculpas há pouco, quando conversamos por telefone, por que não o fez?
- Porque eu queria vê-lo - confessou humilde.
Senta aqui. Vamos conversar, vai?
Márcia acomodou-se num sofá e Roberto em outro.
Ele parecia realmente diferente, não era mais o mesmo.
- Eu fiquei sabendo, só há pouco tempo, que o pai te deu um soco.
Eu não sabia que ele estava tão agressivo assim.
- Não soube só agora, não, Márcia!
Faz tempo que eu venho falando e contando que o pai está mudado, agressivo, mal educado.
Não é de hoje, não.
E você sempre dizia que "Isso é fase, Beto. Vai passar!" - arremedou-a.
- Tudo bem, Roberto, eu errei.
Pensei que fosse somente uma fase, que ele iria se reconciliar com você, tratar melhor a mãe, mas eu errei, tá bom! Desculpe-me!
- Você não errou, Márcia.
Aliás você nunca erra! - falava com ironia, encarando-a firme.
Você só não quer ouvir.
Sabe, Márcia, ouvir as pessoas é muito mais importante do que falar.
Deixar uma pessoa falar é consentir que ela jogue para fora tudo aquilo que a sufoca, que machuca, que magoa...
Agora se você não a ouve com atenção, e fica dizendo qualquer coisa do tipo "Calma, isso não é nada. Vai passar".
Você a está sufocando ainda mais, além do problema que ela tem.
É preferível que se cale, porque dizendo "isso não é nada", estará afirmando que a pessoa é tão medíocre que está fazendo uma tempestade com um copo d 'água, que ela é tão incapaz que não está vendo que seus problemas são inferiores ou insignificantes.
Porém agora pense, se alguém a procurou para contar algo que não seja uma fofoca, é porque, por mais medíocre que pareça, aquele problema é muito sério para ela, muito sério mesmo, e ela confia em você.
Márcia ouvia calada.
Mudou-se para o sofá onde estava Roberto e encostou-se nele, colocando a cabeça em seu ombro, abraçou-o.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:03 am

Ele retribuiu o carinho e disse:
- Gosto muito de você, Márcia.
Mas você está muito arrogante ultimamente.
- Eu?! - perguntou exclamando, surpresa.
- É sim. Você está arrogante.
- Beto, estou com inúmeras preocupações, no meu trabalho sou cobrada diariamente de muitas tarefas que quase não estou dando conta.
Até serviço para casa já tive que trazer, coisa que nunca aprovei.
Estou com a cabeça cheia.
Às vezes... Não é só isso.
Ultimamente estou me sentindo só, amargurada, já disse isso antes.
Sinto uma agonia... - quase chorou, por isso calou-se.
- Todos nós temos problemas, Márcia - afirmou.
- Eu soube que a Paula e o João Vítor também estão passando por uma situação difícil.
Você sabia disso, Beto?
- Claro que sim! - respondeu.
E voltando-se para a irmã, perguntou zangado:
- Escuta, Márcia, por onde você andou nas últimas semanas ou nos últimos meses?
Parece ter vindo ontem do espaço sideral!
- Eu mesma já me perguntei:
Como tanta coisa aconteceu sem que eu soubesse ou prestasse atenção?
E não sei responder - defendeu-se humilde e constrangida.
Não estou dando conta de tudo o que está acontecendo em minha vida.
Márcia suspirou, lamentando sua ignorância e, depois de algum tempo onde o silêncio reinou, propôs gentil:
- Vamos tomar um café?
Eu fiz agora pouco, antes de você chegar.
- Prefiro um refrigerante, você tem?
- Claro, vamos lá para a cozinha.
Ao sentar-se Roberto observou:
- Faz algum tempo que não sei o que é sentar à mesa lá de casa para fazer uma refeição.
- O pai ainda está brigando muito, não é?
- Cada dia mais.
O Ciro tentou falar com ele, mas parece que ficou pior.
Eu pensei em sair de casa, sou homem, me arranjo facilmente por aí, mas fico pensando em deixar a mãe sozinha e por muitas vezes eu cheguei e encontrei o pai brigando com ela.
Se eu sair de lá, tenho medo de que as coisas piorem.
- Pensei em voltar lá pra casa - ela confessou.
Mas para mim fica difícil, é longe do meu serviço.
Voltarei a enfrentar problemas com a condução, e agora com o novo cargo, repleta de serviço... nem quero pensar!
A propósito, e a gráfica?
- O pai não quer nem saber, ele manda e desmanda agora.
Eu estou saindo de lá.
- Você está deixando à gráfica?!
- Estou vendo se arrumo outro lugar para trabalhar, no mesmo ramo, claro.
Já que lá não tenho paz nem trabalho... - argumentou fazendo um gesto com os ombros demonstrando desdém.
Além do que, o pai fez com que perdêssemos muitos clientes.
- A gráfica é a sua paixão, Beto!
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:03 am

O pai tinha orgulho de você pelas mudanças que fez lá, pelo trabalho que vem desenvolvendo!
Ele mesmo disse isso para mim!
- Você disse certo:
Tinha! Tinha orgulho de mim.
Ele não me dá mais sossego nem autonomia agora.
Sempre fui honesto, trabalhei direito, dei o melhor de mim para ele me humilhar e fazer o que já fez!
Não, chega! Só vou ficar lá por um tempo, para cumprir com alguns compromissos já assumidos, pois quero acompanhar de perto para que eu não fique mal visto pelos clientes.
- Você tem alguma coisa em vista?
- Ainda não.
Mas sei que vai aparecer, tenho muitos contactos.
Márcia ficou pensativa, não sabia que a situação estava naquele ponto.
Depois de alguns minutos, Roberto perguntou:
- O que você acha do perdão?
- Do perdão?! - perguntou desconfiada.
- É! Perdão... esquecermos os erros de alguém, não levar mais o passado em consideração...
Márcia lembrou-se de Júlia.
Tentou ser delicada, fingiu não saber de nada e respondeu:
- Depende de quem.
Há pessoas que merecem ter inúmeras chances; outras não merecem uma única sequer.
- Você acha isso mesmo?
- Eu acho.
- E como saber se a pessoa merece ou não uma nova oportunidade?
- Depende do carácter.
Quem você quer avaliar?
- Lembra-se daquele dia da greve dos metroviários?
- Acho que lembro.
- A dona Cleide foi lá em casa e pediu, pelo amor de Deus, pra eu dar uma carona para a Júlia, a filha dela.
Eu fiquei indeciso, mas dona Cleide disse, quase implorando, que aquele emprego era novo e a Júlia estava precisando dele.
A mãe ficou cheia de pena dela, como sempre, e também insistiu para que eu a levasse, afinal, era caminho da gráfica.
Acabei concordando e dei uma carona para a Júlia.
Márcia se corroía por dentro.
Já sabia de tudo, mas tinha que se controlar e respondeu calmamente:
- Só por isso perguntou sobre o perdão?
Dar uma carona, não significa perdoar.
- Nos dias que seguiram também a levei.
Daí que, passamos a conversar novamente e a trocar ideias.
Sabe ela é uma pessoa legal, está diferente de antes.
Márcia mal podia se conter, a muito custo controlou o que pensava, mas advertiu:
- Roberto, você se lembra do passado?
Lembra de tudo o que aconteceu?
Nem sei por que a mãe ainda tem amizade com essa dona Cleide, essa gente não presta.
A mãe é boba e fica "dando corda" para esse pessoal.
Não devíamos nem olhar para eles.
- Puxa, Márcia! Como você é preconceituosa!
A Júlia é legal.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 10:03 am

A mãe se dá bem com a dona Cleide, pois é uma das poucas vizinhas que tem tempo para a mãe; as outras trabalham, são mais novas, não têm tempo a perder. Quanto à Júlia...
Márcia começou deixar sua revolta aflorar, interrompendo-o irritada:
- Que Júlia que nada!
Você mesmo, um dia, pegou-a pelo braço e a colocou para fora de nossa casa!
- Isso é passado, Márcia! - atalhou-a, nervoso.
Olha, vamos mudar de assunto, tá? Ou eu vou embora.
Não vim aqui para ouvir sermões, nem para me aborrecer. Chega de discussão.
Márcia percebeu que Roberto irritou-se.
Não querendo afastá-lo novamente, calou-se.
Mudaram de assunto.
Conversaram mais sobre serviço, o novo cargo de Márcia e outras coisas.
Roberto dormiu lá naquela noite e, no domingo cedo, eles foram para a casa dos pais num único carro.
Ele queria experimentar o carro novo de Márcia.
Aquele domingo estava demasiadamente triste.
Uma névoa de angústia pairava sobre todos.
Márcia não conseguia parar de pensar na doença de sua mãe e, cada vez que olhava para ela, sentia vontade de chorar.
Pouco se falaram.
Nem os irmãos estavam tão unidos como antes.
Cada qual se recolhia a um canto.
À noite, Roberto voltou com Márcia para o apartamento dela, pois seu pai irritou-se outra vez e foi bem grosseiro com o filho.
Entrando no apartamento, o irmão escolheu:
- Fico com esse sofá!
- Não quer ir dormir lá dentro?
- Não. Fico aqui mesmo.
Conversaram um pouco e só mais tarde foram dormir.
No meio da madrugada.
Márcia acordou com os gritos de Roberto:
- Fora! Fora daqui!
Deixe-nos em paz! - vociferava ele.
Ela se levantou assustada, correu para vê-lo.
No corredor, entre a sala e o quarto, sempre havia uma arandela acesa cuja luz, bem fraca, só servia para clarear durante a noite, iluminando levemente a sala.
Ao chegar perto de onde o irmão dormia, ela pôde ver um homem em pé curvando-se e apertando o pescoço de Roberto, enquanto esse dava socos, que passavam pelo homem, sem atingi-lo.
Márcia correu até o interruptor e acendeu as luzes do lustre central, que iluminou tudo, neste momento passou a gritar:
- Quem é você?! Saia daqui!
Vou chamar a polícia!
De repente Márcia assombrou-se.
Segundos após ela acender as luzes, enquanto gritava, como que por encanto, o homem sumiu no ar.
Um frio correu-lhe pela espinha e mesmo com o corpo todo arrepiado, correu para o sofá onde estava seu irmão e o abraçou, chorando ao perguntar:
- O que é isso? O que aconteceu, Beto?
Roberto esfregava o pescoço e mal podia falar.
Sentou-se no sofá e abraçou a irmã que insistia assustada:
- Quem é ele, Roberto?! O que queria?!
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