DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:38 am

- Você também o viu? - indagou Roberto.
Você também pôde vê-lo?
- Como assim... "pôde vê-lo?"
- Não é a primeira vez que vejo esse cara e tenho pesadelos com ele, só não consigo ver direito o seu rosto.
- Ele queria matar você!
- Ele não pode me matar.
- Ele apertou o seu pescoço.
Estava estrangulando você, Beto! Eu vi!
- Na verdade, ele só coloca as mãos no meu pescoço, não é um apertão e eu sinto-me fraco, não consigo reagir.
Às vezes grito e acordo assustado.
É uma mistura de pesadelo com realidade.
Eu o vejo por alguns segundos, depois ele some.
Você o viu também, não foi?
Márcia, olhando para Roberto fixamente, sentiu medo de reafirmar o que presenciou.
Acreditou que estava ficando desequilibrada.
Roberto, então, foi mais firme:
- Você o viu, Márcia!
Testemunhou que ele estava me estrangulando, não vai negar.
Como poderia saber isso se não o tivesse visto?
Desatando a chorar, entre as lágrimas confirmou:
- Eu vi sim. Não estou ficando louca!
Eu vi o cara e depois que acendi a luz ele sumiu.
Após a confissão, ela caiu num choro compulsivo.
Depois de confortá-la, Roberto se levantou e fez um chá para a irmã se acalmar.
Passaram o restante da noite ali, ambos no mesmo sofá, com a televisão ligada e todas as luzes acesas.
Márcia parecia uma criança, estava com medo do escuro ou do que poderia acontecer a qualquer momento.
Roberto, mais controlado, adormeceu sem problemas.
Ela, porém, ora cochilava ora colocava-se atenta.
E assim foi por toda a madrugada.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:38 am

8 - UM AMIGO PARA OUVIR

Na manhã seguinte, Márcia foi para o trabalho bem cedo.
Tinha planos de adiantar bem o serviço.
Saiu de casa um pouco desorientada.
Fazia tudo automaticamente, sem prestar muita atenção nas coisas.
Havia dormido pouco e durante a madrugada ficou muito perturbada com todo o ocorrido.
Sentia-se ainda nervosa.
Mil coisas passavam velozmente pelos seus pensamentos.
Chegando ao luxuoso edifício onde trabalhava, Márcia entrou pelas portas de vidros escuros e largos que se abriram automaticamente.
E, após dar uns dois ou três passos, parou atordoada.
Estarrecida, vagarosamente passou os olhos pelo gigantesco e luxuoso saguão, todo em granito, de tecto muito alto, suas colunas sustentadoras pareciam majestosas.
Observou as plantas lindas e impecáveis que adornavam o ambiente, além do vai e vem dos elegantes executivos que por ali passavam.
Seus sentimentos eram uma mistura de preocupação, ansiedade, angústia e tristeza.
Quando começou a questionarem pensamento se a vida valia a pena, foi chamada à realidade pela voz baixa e tranquila de um segurança que se aproximou calmamente e perguntou:
- A senhora está bem?
Após um suspiro e com os olhos nublados pelas lágrimas que quase rolaram em sua face, ela voltou-se e disse:
- Sim, estou.
Eu trabalho no quarto andar, sou coordenadora de sistemas.
- Sim, senhora.
Eu a conheço de vista.
Só perguntei porque a senhora parou de repente como se estivesse com algum problema.
Perdoe-me, mas poderia estar passando mal.
- Obrigada. Estou bem - afirmou com leve sorriso forçado.
Depois disso, ela se dirigiu automaticamente à recepção, pegou o crachá de funcionária e subiu para sua sala.
Seus pensamentos eram avalanches de problemas sem solução.
Preocupava-se com sua irmã Paula e o cunhado João Vítor, com a pobre Bárbara, como é que ela estaria no meio de tanta confusão?
Seu irmão Roberto e seu pai... eles se davam tão bem e agora passaram a se desentender sem motivo algum; ainda, como se não bastasse, tinha o problema de saúde de sua mãe, que estava com uma doença grave e talvez até com mais complicações do que imaginava.
Como se não fosse o suficiente, o Roberto "de caso" com a Júlia.
Não, isso tudo era demais.
Não podia acreditar.
O único que parecia estar bem era Ciro com a esposa e as meninas.
Apesar de acreditar que ele poderia ter errado no diagnóstico ou os exames não serem de boa qualidade.
Como é que Ciro, tão experiente, deixava-se influenciar por poucos exames?
Para pensar em uma doença grave como aquela, deveria ter solicitado mais, consultado outros especialistas.
Ela precisava falar com ele, para obter mais informações, só que isso poderia complicar Rose, que pediu segredo.
Márcia não se conformava, como é que tantas coisas aconteceram em sua família e ela só se dava conta agora?
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:38 am

Roberto tinha razão, ela se ausentou, sentimentalmente, de todos eles.
Em meio a tantas dúvidas, Márcia agia maquinalmente.
Ligou o computador, a impressora, folheava, sem ver alguns documentos e os colocava ora ali ora acolá.
Sentia-se perdida, confusa, desorganizada, sem conseguir produzir.
Não se concentrava, muito menos colocava em prática qualquer tarefa.
Levantava-se, caminhava alguns passos, olhava através da janela, mas não conseguia se tranquilizar.
Seus planos de adiantar o trabalho deram errado.
O dia foi passando e ela nem mesmo saiu para almoçar.
No fim do expediente, quando a maioria dos funcionários já havia ido embora, Fábio entrou em sua sala, avisando com ar de brincadeira:
- Hora de ir, moça!
- O quê? Como?... - perguntou Márcia atrapalhada, sem sequer ter ouvido o que o colega disse.
Já passou das dezoito, faz tempo.
Não acha que trabalhou muito por hoje?
Nem mesmo foi almoçar - observou sorridente.
- Puxa! Já é essa hora!
Nem vi o tempo passar.
Márcia parecia exausta.
Fábio, bem observador, notou as preocupações estampadas na face pálida da amiga e em suas atitudes.
Aproximando-se da poltrona, que ficava frente à mesa, sentou-se, olhou-a bem nos olhos e comentou brandamente:
- Não estou querendo cuidar da vida de ninguém, porém sou bom observador.
Desde que cheguei pela manhã, e pelo facto da porta de sua sala ficar aberta o dia inteiro, eu só a vi sentando e levantando, fazendo tudo sem fazer nada.
Você não é assim, aconteceu alguma coisa?
Caso queira contar "sou todo ouvidos", mas se quiser calar, tem todo o direito e eu respeito.
Só acredito que ficando horas a mais aqui, só pode piorar a situação, seja ela qual for.
Márcia, estática, olhou para Fábio e não disse nada, mas estava prestes a chorar.
Então ele comentou:
- Sei que sou seu subordinado agora - sorriu brincando - e talvez não devesse falar com você dessa maneira, mas a respeito muito e a considero demais.
Por isso me acho no direito de aconselhá-la como amigo e não como funcionário.
Vá para casa, Márcia - recomendou com meiguice no tom de voz.
Tome um banho quente e demorado, ouça músicas e relaxe.
Amanhã é outro dia e...
Subitamente ela o interrompeu, educada:
- Amanhã pode ser outro dia, meu amigo, mas os meus problemas e preocupações serão os mesmos ou até piores.
- Ficando mais exausta do que já está, não conseguirá pensar em soluções para os problemas.
Aqui não há condições de descansar e relaxar para que as ideias surjam.
Márcia deu um leve sorriso, admirou a observação afável de Fábio e sua disposição para ouvi-la.
Agora entendeu o que seu irmão Roberto quis dizer com:
"saber ouvir é melhor do que falar bem".
De repente Márcia passou a fazer algo que nunca havia feito antes com alguém.
Apesar do coração apertado, começou a desabafar com Fábio.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:38 am

Contou-lhe, em breve relato, todos os seus vinte e sete anos de vida, enfatizando e destacando seus últimos dias, repletos de dúvidas, inseguranças e lamentações.
Ela que nunca se queixava de nada que a vida lhe oferecia e sempre procurou condições melhores em meio a qualquer situação difícil.
Agora, entretanto, sentia-se sem alternativas perante tanta insegurança, preocupações e tantos problemas.
Fábio mantinha-se tranquilo, com a fisionomia inalterável.
Ouvia toda a história sem preocupar-se com horário.
Trazia o semblante sereno e olhar atento.
Observava todo o sentimentalismo e despreparo espiritual de Márcia para com os acontecimentos.
Em alguns momentos, ela chorou compulsivamente.
Agora com os olhos transbordando de lágrimas, perguntou com voz embargada:
- O que é que eu posso fazer, Fábio?
Ele respirou profundamente.
Ergueu o tronco ajeitando-se na poltrona e olhando firme para Márcia, com a fisionomia séria, argumentou:
- Vamos dividir a situação em partes.
Referente à doença de sua mãe, se o seu irmão é médico e após a opinião de um colega acredita que ela está com um câncer no intestino, como ele não é especialista dessa área, o melhor é aguardar o parecer de um oncologista depois dos demais exames.
Você só poderá se preparar, emocionalmente e fisicamente, para prestar toda ajuda à sua mãe, pois ela vai precisar.
Descontrolar-se, Márcia, é o pior a fazer nesse momento.
O desespero, a ansiedade, o descontrole e a depressão nunca trouxeram soluções, somente desgaste e mais problemas.
Márcia ouvia atentamente.
As palavras de Fábio pareciam penetrar em sua mente de alguma forma.
Agora o entendia, conseguia controlar as emoções.
E ele continuou:
- Quanto ao caso de sua irmã brigar com seu cunhado, seu pai com seu irmão e você não aceitar a nova namorada dele, isso me parece ter ligação.
- Como assim?! Não entendi.
- Você me contou, de forma muito superficial e rápida, sobre a sua sobrinha que morreu, há cerca de dois anos, junto com o namorado.
Você estava emocionada quando relatou e eu não quis interrompê-la.
Mas, pelo que entendi, o namorado de sua sobrinha era irmão dessa nova namorada do seu irmão, a Júlia, certo?
- É isso mesmo.
- Se não se incomoda, por favor, conte-me novamente essa parte da história, com mais particularidades, caso não seja inconveniente para você.
Márcia então detalhou com mais informações e menos emoção:
- Minha irmã mais velha, a Paula, teve duas filhas, a Melissa, que morreu aos dezoito anos, e a Bárbara, que hoje tem dezasseis.
A vida da Paula sempre foi difícil, porém ela nunca se queixou, ao contrário, sentia-se feliz e realizada quando vencia qualquer obstáculo.
O tempo foi passando e Melissa, que sempre foi uma menina rebelde, começou a apresentar um comportamento que não condizia com a educação que Paula e João Vítor deram a ela.
Nós sempre a orientávamos, dávamos conselhos e Melissa atendia aos nossos apelos por algum tempo, depois voltava a ser rebelde e mal educada.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:39 am

Nós sempre nos reunimos, em todos os finais de semana, na casa de meus pais.
Acontece que na segunda casa ao lado, para ser mais precisa, mora uma vizinha, amiga de minha mãe há muitos anos; ela se chama dona Cleide e seu marido, senhor Osvaldo.
Eles sempre foram daqueles vizinhos dos tempos antigos, bem prestativos, isto é, quando um de nós ficava doente, a dona Cleide ia lá em casa e cuidava das coisas, ajudava no banho e nas tarefas da casa.
Às vezes até fazia uma sopa na casa dela e trazia para nós, para ajudar minha mãe, pois o tempo era curto para cuidar de quatro filhos porque, quando um ficava doente, se fosse doença contagiosa, os outros acabavam se contagiando também.
Certa vez, numa epidemia de sarampo, eu e meus três irmãos nos contagiamos e ficamos de cama.
A dona Cleide não se importou e foi lá em casa ajudar minha mãe.
Assim que nós saramos, seus dois filhos, a Júlia e o Jonas, acabaram pegando a doença, e minha mãe foi lá na casa dela para ajudá-la também.
Sempre houve uma troca de favores entre as duas.
A dona Cleide e o senhor Osvaldo, como eu falei, tinham só dois filhos, a Júlia e o Jonas.
Os dois nunca foram grande coisa, não sei qual deles era o pior.
O Jonas sempre foi revoltado com Deus e o mundo.
A dona Cleide o mimou, sempre lhe perdoou, compreendeu seus erros, dava-lhe de tudo nas mãos.
Para ela, o filho era o garoto prodígio, mesmo com tudo de errado que ele fazia.
Com o passar dos anos, Jonas acabou por se envolver em pequenas confusões, brigas de rua, gangues, pichações; até o muro da nossa casa ele pichou!
Não parava em emprego algum por mais de um mês.
E a dona Cleide, sabendo que meu pai tinha a gráfica, pediu um emprego para Jonas.
Foi aí que tudo começou...
O Roberto tinha que chamar o Jonas todos os dias para ir trabalhar, do contrário ele não dava as caras no serviço, e ainda por cima, tinha que dar carona.
Durante o horário de serviço, o Jonas saía da firma sem avisar a ninguém.
Muitas vezes nem voltava e nunca fazia o que lhe era pedido.
Um dia o Roberto achou que Jonas estava usando drogas e ficou "de olho nele".
Diante disso tudo, meu pai e minha irmã Paula acharam por bem que a Melissa arrumasse alguma ocupação para não ser tão rebelde, para dar valor ao dinheiro e respeitar mais as pessoas.
Então meu pai colocou-a para trabalhar na gráfica, só para atender aos telefonemas na recepção.
Junto com a Melissa, na recepção, trabalhavam duas outras moças, uma espécie de secretárias para cuidarem de outros serviços.
A Melissa tinha salário e todos os direitos dos demais funcionários e ainda algumas regalias, pois meu pai, no final do expediente, levava-a de carro até a porta do colégio onde ela estudava.
Depois que Jonas foi trabalhar na gráfica, a Melissa passou a ser pior do que antes, seu génio era insuportável.
O que nós não poderíamos imaginar era que minha sobrinha Melissa, nessa época com uns dezasseis anos, mais ou menos, começou a namorar o Jonas às escondidas.
Minha irmã Paula era directora de escola, estava acostumada a lidar com adolescentes.
A Paula era paciente e tinha muito jeito para lidar com crianças e jovens.
Mas um dia ela não aguentou, a Melissa quebrou tudo o que havia dentro do seu quarto e até a televisão da sala jogou no chão; minha irmã perdeu a cabeça e deu dois tapas no rosto da filha para ver se ela tomava consciência do que estava fazendo.
Paula não é alta como eu.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:39 am

É franzina, de estatura pequena, ao contrário de Melissa que tinha mais ou menos minha altura e o corpo bem mais avantajado do que o meu.
Em outras palavras, bem mais forte do que a Paula.
Melissa aproveitou-se de seu porte e de sua menor idade e começou a bater na mãe.
A Bárbara era pequena nessa época, ela entrou no meio da briga para defender a mãe.
Melissa estava enlouquecida, atirou a irmã contra a escada e Bárbara bateu com a cabeça no degrau, sofreu um corte levando cinco pontos e ficou internada dois dias em observação.
Melissa saiu de casa pela primeira vez e foi procurar Jonas.
Só então soubemos do namoro deles.
A situação foi difícil.
Meu irmão, o Roberto, não chamou mais o Jonas para ir trabalhar e ele não apareceu na gráfica.
Melissa voltou para casa, mas durante o dia ficava com Jonas, chegava a passar algumas noites na rua com ele, bebendo e fumando.
Meu cunhado, João Vítor, pagou psicólogos, levou Melissa à igreja, fez um monte de coisas para tirá-la da companhia de Jonas, porém nada adiantou.
Nesse meio tempo, até furtar a Melissa furtou.
O Roberto deixou um valor em dinheiro e alguns cheques para a secretária depositar em sua conta, o office-boy não foi trabalhar naquele dia, as moças estavam com muito serviço, então Melissa se ofereceu para ir ao banco.
Quando ela voltou, disse para as secretárias que já havia entregado o comprovante do depósito bancário ao Roberto e as moças confiaram em sua palavra.
Mas que nada, Melissa deu todo o dinheiro e os cheques para o Jonas.
Roberto, quando descobriu, contou tudo para a dona Cleide, mãe do Jonas, que foi directo falar tudo para sua filha, Júlia.
A Júlia foi lá em casa, invadiu a nossa sala e aos berros começou a defender seu irmão.
Dizia que ele era um pobre coitado, ninguém lhe dava uma oportunidade e só porque Roberto e meu pai tinham aquela porcaria de gráfica é que o estavam difamando e prejudicando o rapaz.
Minha mãe começou a passar mal, e Roberto não pensou duas vezes, pegou a Júlia, deu-lhe um chacoalhão, apertou-a pelo braço e a colocou na rua.
Ela ainda ficou lá na calçada, fazendo o maior escândalo.
Xingou o Roberto e toda nossa família dos piores palavrões possíveis.
Melissa já tinha de dezassete para dezoito anos e começou a se envolver com Jonas em pequenos furtos e até roubos.
Voltava para casa cheirando bebida alcoólica, quebrava tudo... seu linguajar era chulo e seu palavreado pobre.
Largou os estudos e começou a furtar coisas de dentro da própria casa para vender e sustentar seus vícios e os de Jonas.
Fábio, como bom ouvinte, estava atento.
Pela primeira vez interrompeu, perguntando:
- Seu cunhado, o João Vítor, não conseguia tirar Melissa da rua ou da companhia de Jonas?
Não tinha uma autoridade paterna sobre ela?
- Foi o que muitos nos perguntaram.
Mas me diga:
como é que se prende dentro de casa, e por muitos dias, uma garota com seus dezassete anos?
Se você bate nela, ela o agride.
Acaba virando briga de tapas, socos e mordidas como chegou a acontecer por duas ou três vezes entre Melissa e Paula.
Meu cunhado e minha irmã tinham que trabalhar para sustentar a casa.
Eles moram de aluguel, não podiam ficar o dia inteiro em casa vigiando-a.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:39 am

Em uma das brigas entre minha irmã e a filha, os vizinhos chamaram a polícia.
Todos foram parar na delegacia.
Minha sobrinha apresentava alguns hematomas e arranhões de brigas que teve na rua com sua turma e outra gangue em dias anteriores a esse acontecimento, e acabou dizendo que foi a mãe que havia feito aquilo nela.
Resultado:
minha irmã foi indiciada por agressão a menor e quase perdeu o emprego.
Algumas vezes depois disso, minha irmã e meu cunhado compareceram a delegacias para se responsabilizarem por ela, pois havia sido presa por roubos ou uso de drogas e era menor de idade.
Acabou parando em reformatórios, FEBEM, mas conseguia sair com facilidade desses lugares.
Soubemos que Jonas passou não só a fazer uso, mas também tráfico de entorpecentes e levava a Melissa para ajudá-lo.
Afinal, eles precisavam pagar os traficantes.
Até prostituição, para arrumar dinheiro, praticou.
A situação estava crítica.
Melissa sumia de casa por longos períodos, até por alguns meses, e depois retornava.
Ficávamos com pena.
Nós a recebíamos com carinho, pois parecia querer sair daquela vida.
Cuidávamos dela, dávamos roupas, remédios, tratamento odontológico, mas ela não se aguentava.
Dois ou três meses depois desaparecia outra vez de casa e voltava para aquela vida infeliz ao lado de Jonas e outras más companhias.
Soubemos que ficou grávida.
Tínhamos a esperança de que isso mudasse o seu jeito de pensar e de agir, talvez amadurecesse e se corrigisse.
Mais uma vez voltou.
Ficou na casa dos meus pais porque minha irmã e meu cunhado trabalhavam o dia inteiro e a Melissa estava tão fraca, tão doente que precisaria de muitos cuidados e de alguém que tomasse conta dela, então, minha mãe se ofereceu.
Para o meu pai essa gravidez foi um escândalo!
Você nem imagina.
Ele é daqueles homens "antigos", mas acabou aceitando a neta grávida, porém era rigoroso com ela.
Meu irmão Ciro, que é médico, mais uma vez começou a cuidar da sobrinha.
A Rose, sua esposa, é dentista e fez o tratamento de seus dentes.
Todos oferecemos atenção, carinho e orientação à Melissa.
Comprávamos coisas para ela e para o bebé, tudo o que se pode imaginar de roupas a enfeites infantis.
Nós a tratávamos com muito amor.
Contou-nos que Jonas havia sido preso por tráfico de drogas numa cidade do interior de São Paulo, e ela conseguiu escapar antes de ser presa também.
Agora tinha dezoito anos e não seria tão fácil sair da cadeia como acontece nos reformatórios para os menores infractores.
Jonas fugiu da cadeia e foi directo para a casa dos seus pais.
Ele soube, por sua irmã Júlia, que Melissa estava grávida e que estava na casa dos avós.
Júlia inventou que nós não queríamos admitir que o filho fosse dele e pretendíamos separá-los.
Na verdade, nem Melissa podia afirmar quem era o pai do bebé que esperava.
Para nós era indiferente.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:39 am

Somente meu pai repudiava aquela situação.
Mas nós não, gostávamos da Melissa, do bebé e desejávamos ver Jonas longe deles.
Jonas, entretanto, esperou um dia em que minha mãe e Melissa ficaram sozinhas, então entrou lá em casa, bateu em minha mãe que caiu desacordada.
Agrediu Melissa a socos e pontapés arrastando-a para fora.
Todos os vizinhos puderam ver, pois o "espectáculo" foi na rua.
Jonas deveria estar drogado, era dono de uma força inacreditável.
Segundo as testemunhas, ele trocou socos com os que tentaram impedi-lo, e, por fim, conseguiu colocar Melissa dentro de um carro e sumiu com ela.
Minha mãe, durante a confusão, despertou e desesperada telefonou para mim.
Eu liguei imediatamente para Paula; depois para o Roberto.
Enquanto eu conversava com o Roberto, ele me disse que o Jonas estava chegando lá na gráfica.
Desliguei o telefone e na mesma hora fui para lá.
Assim que cheguei, observei Jonas, Roberto e Melissa dentro do escritório.
Meu pai ficou nervoso.
Disseram que ele havia discutido muito com Jonas.
Contaram também que Jonas o maltratou demais.
Meu pai não deixou por menos e começou a agredi-lo.
Foi quando Roberto, que sempre foi calmo, interferiu e conseguiu com que entrassem no escritório deixando meu pai do lado de fora.
Os funcionários tiveram que levar meu pai ao hospital, ele tem problemas de pressão alta.
Jonas berrava, gritava, queria dinheiro para fugir.
O escritório da gráfica tem a porta e as divisórias com a metade da parte de cima fechada com vidros foscos, dá para ver e reconhecer o vulto das pessoas que estiverem lá dentro, mas não com nitidez.
De fora eu pude ver que Jonas estava impaciente, andava de um lado para outro igual a uma fera enjaulada.
Melissa estava sentada em uma cadeira e chorava muito.
Jonas tinha uma arma e exibia-a constantemente.
Em dado momento, bateu em Melissa porque ela chorava, e Roberto investiu contra ele.
Jonas sacou o revólver e ameaçou minha sobrinha caso Roberto tentasse algo.
Exigia dinheiro para fugir e queria levar Melissa junto.
Eu telefonei para a polícia e enquanto não chegavam, o Roberto tentava ganhar tempo conversando com ele.
Quando a polícia chegou, Jonas se viu desesperado.
Verdadeiramente insano, começou a atirar dentro do escritório.
Um dos tiros atravessou Roberto de lado a lado na altura do ombro.
Meu irmão teve sorte, não acertou nenhum órgão nem comprometeu sua saúde, mas na hora ele caiu, ficou inerte e Jonas pensou que estivesse morto.
Jonas pegou Melissa como refém, segurando-a brutalmente pelos cabelos.
A cena era horrível! Jonas gritava, urrava, quase não entendíamos o que falava.
Não soubemos na hora, só tomamos conhecimento depois.
Que ele estava com algumas cápsulas ou cartuchos, sei lá como chamam, talvez alguns pacotinhos pequenos de cocaína que ele iria traficar; não sabemos também se foi ali, ou antes de armar toda aquela confusão que ele engoliu essas cápsulas.
Só que em meio a toda essa agitação, Jonas começou a passar mal, um dos invólucros da droga rompeu e estourou em seu estômago ou intestino.
Parecia ter percebido o que aconteceu e começou a gritar:
"Eu vou morrer! Eu vou morrer!
Mas jamais darei sossego pra vocês!
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:40 am

Vocês não me ajudaram a fugir!
Eu só queria ir embora!".
Eu pude ver, por um dos buracos do vidro quebrado pelos tiros, quando Jonas encostou o revólver na cabeça de Melissa e disse:
"Você vai comigo".
Antes que eu gritasse, ele atirou... - Márcia calou-se por alguns segundos quando a emoção aflorou-se em lágrimas.
Secando-as com as mãos, confessou em meio ao choro e a voz trémula:
- Foi uma cena horrível.
Ele não precisava fazer aquilo... que crueldade... jamais esquecerei.
Acordo com pesadelos por causa disso... parece que vejo tudo de novo...
Depois de alguns segundos se recompondo, continuou:
- Fiquei desesperada na hora.
Eu estava escondida com a secretária atrás de um balcão, um dos policiais me agarrou e levou-me para fora.
Os policiais invadiram o escritório, lutaram com Jonas que acabou sendo socorrido e morrendo no hospital.
Melissa morreu grávida de cinco meses, não puderam fazer nada nem pelo bebé.
O Roberto se recuperou rapidamente e meu pai também.
Tudo isso foi uma grande tragédia em nossas vidas.
Meu pai e o Roberto, semanas depois, mudaram a gráfica para um novo lugar, no mesmo bairro, pois ninguém conseguia trabalhar direito ali devido às lembranças amargas e inesquecíveis.
A Júlia, julgando-nos culpados pela morte de seu irmão, xingou-nos, fez escândalos e até tentou me agredir.
Depois de algum tempo, ela sossegou.
A dona Cleide e minha mãe ficaram sem conversar por alguns dias, depois voltaram a ser amigas novamente como se nada houvesse acontecido e assim estão até hoje.
Nenhuma delas toca no assunto.
Agora me diga, Fábio, depois disso tudo, não é insano o Roberto arrumar um "caso" com aquela mulherzinha?
Fábio, espírita experiente, entendeu o que estava acontecendo, porém não seria fácil fazer Márcia aceitar que aquelas brigas e desentendimentos poderiam ser provocados por Jonas e até mesmo por Melissa.
- Márcia, eu gostaria que você acreditasse em mim - pediu Fábio firme e convicto.
E, principalmente, gostaria que você confiasse em Deus.
- Por quê? - perguntou ela.
- Eu já conversei com você sobre os meus conceitos espíritas.
Márcia ficou atenta, pois estava sem alternativas e precisava de sugestões.
- Sim, Fábio, você já me falou que os espíritas acreditam na vida após a morte e outras coisas mais.
O que isso tem a ver com as brigas e intrigas de minha família?
Se há vida após a morte, então Melissa e Jonas estão vivendo em outro mundo.
Eles já morreram e depois que tudo isso aconteceu, nossas vidas se acalmaram, não tivemos mais problemas.
As dificuldades agora são outras, diferentes de antes, não envolvem mais o Jonas ou a Melissa.
Fábio balançou a cabeça negativamente e questionou:
- Será?!
- Como, será?! - intrigou-se Márcia.
- Eu sei que você não crê piamente no Espiritismo, Márcia.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:40 am

Entretanto, percebi que durante nossas conversas aceitou as opiniões espíritas, tendo em vista que seriam as únicas explicações plausíveis e cabíveis para as questões tão antigas quanto o próprio homem, que são:
"De onde viemos? Para onde vamos? Por que estamos aqui?"
Na verdade, os conceitos espíritas foram os únicos que você admitiu como respostas para muitas de suas dúvidas, e compatíveis com a realidade, certo?
- Você está certo.
Eu não posso dizer que acredito piamente no Espiritismo, mas você me contou algumas coisas, digamos, convincentes, nas quais eu acredito serem possíveis e compatíveis, pois nunca ouvi explicações tão de acordo com a realidade.
Jogando-se para trás na poltrona, Fábio levantou os braços e apertou as mãos agitando-as erguidas, e sorrindo enfatizou:
- Isso é uma vitória!
Eu não esperava tanto sucesso em tão pouco tempo assim, pessoal!
Para Márcia, passou despercebido esse "pessoal" que Fábio pronunciou, mas ele se referiu ao "pessoal do plano espiritual", espíritos de luz que sabia estarem ali, auxiliando-o e amparando Márcia.
- O que é isso, Fábio? - perguntou sem entender.
- É que quando eu comecei a falar com você sobre Espiritismo, você pareceu tão apática e insensível ao assunto que eu cheguei a acreditar que seria difícil o Espiritismo receber de você um único voto de confiança, pelo menos nesta encarnação - sorriu com gosto.
Márcia sorriu também, e instintivamente olhou no relógio.
- Nossa! Já passam das vinte e trinta!
- Vamos embora.
Eu pago o jantar e nós conversaremos melhor, no serviço não é lugar para resolver problemas pessoais ou comentar sobre eles.
- Não, obrigada.
É que estou cansada... - decidiu Márcia.
- Você precisa comer algo e precisamos continuar nosso assunto.
- Se importa de irmos para meu apartamento?
Só que não tenho nada pronto em casa.
Vamos comprar uns lanches para comermos lá?
Rindo avisou:
- Só não posso esquecer de levar dois a mais pro Roberto, ele come bem e acho que já está chegando por lá.
Ele não está dormindo na casa dos meus pais, por enquanto está na minha casa.
Seria bom que ele contasse sobre as visões e os pesadelos que anda tendo.
- Então, vamos.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:40 am

9 - APRENDENDO A CAMINHAR

Durante todo o trajecto, até seu apartamento, Márcia confiou a Fábio relatos sobre as visões que teve.
Primeiro do rosto que viu sobreposto ao de seu irmão e a voz de Roberto alterada falando grosseira e rudemente.
Contou-lhe também sobre o acontecido na noite anterior, quando Roberto acordou gritando e ela, na penumbra, viu um homem perto de seu irmão como que querendo estrangulá-lo, detalhou tudo exactamente como aconteceu.
Fábio ouviu atento.
Só desejava que quando fosse esclarecer Márcia sobre o estado de Jonas e Melissa, ela aceitasse.
Já no apartamento, viram que Roberto não havia chegado.
Márcia guardou os lanches que trouxe para seu irmão e foi arrumando a mesa para ela e Fábio comerem, pois agora já não se aguentava mais de fome, havia ficado sem almoço e se sustentou somente com café e alguns biscoitos.
- Eu pensei que estivesse brincando, quando disse que iria trazer dois lanches desse tamanho para o Roberto.
- Não! Eu não brinquei - riu.
Era verdade, ele come muito bem.
Venha, sente-se aqui, Fábio.
Durante o lanche, Márcia relatou ao amigo mais detalhes sobre as visões que Roberto tinha quando criança e, voltando aos dias atuais, lembrou-se e perguntou:
- Eu disse a você que as brigas e os problemas de hoje nada tinham a ver com Jonas e Melissa, e você respondeu:
"Será?". Por que duvida?
Quando eu expliquei o que é Espiritismo, comentei sobre as colónias espirituais e o umbral, ou estado intermediário de perturbação e algo mais.
Apesar de ter falado muito, fiz somente um breve relato, curto e grosso das condições em que um desencarnado pode permanecer.
Há espíritos que após o desencarne ficam ligados, pela própria vontade, ao plano terreno.
Eles sabem que estão desencarnados, mas às vezes não aceitam a nova condição, não querem ir para as colónias nem receber tratamentos, podendo ficar vagando por anos e anos entre os encarnados.
Sentem-se tão vivos, pois é isso realmente o que se experimenta, não admitem o desencarne e não querem sair daqui deste plano.
Eles acabam ficando e acompanhando os seus parentes encarnados, amigos e desafectos também.
Sabe, Márcia, existem também os espíritos vingativos que passam a perseguir e perturbar todos com quem não se deram bem quando encarnados.
Eles se acham injustiçados e querem se vingar daqueles que crêem tê-los prejudicado de alguma forma.
Então, agora desencarnados, não podem ser vistos e ouvidos, normalmente, como antes.
Diante do silêncio atencioso da amiga, Fábio prosseguiu após breve pausa:
- Para esses espíritos não há muito limites, eles entram e saem de qualquer ambiente que lhes sejam propícios, ou de lugares e lares compatíveis com a índole, a moral e o grau de evolução espiritual que têm.
Veja bem, Márcia, será de acordo com as suas práticas, com o seu nível moral que poderão acompanhá-la em todos os lugares e com o tempo se familiarizarem com você, dizer-lhe coisas que não pode ouvir normalmente, mas acaba registrando como um subtil desejo ou pensamento acreditando que são seus.
A princípio você pode não aceitar uma ideia absurda e afastá-la.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:41 am

Entretanto, com o passar dos dias, de acordo com a sua firmeza e fé, acabará ou não, se deixando levar por uma ou outra sugestão, sempre acreditando que aquele pensamento é seu.
Tudo é tão subtil, tão suave que nem perceberá e, quando se der conta da situação, terá adquirido uma quantidade de problemas, que por si mesmo, normalmente não os teriam provocado.
- Eu entendi, Fábio, mas não compreendi.
Como eu posso aceitar um pensamento que não é meu?
Jamais eu faria isso ciente de que seria prejudicada.
- Primeiro, Márcia, nunca saberá que os pensamentos não são seus, eles vêm como ideias, sugestões.
Vou dar um exemplo:
Beber demasiadamente é prejudicial e vicia mesmo quando não se é alcoólatra.
Sabendo disso, hoje decide não beber, mas talvez aceite um aperitivo em uma festa ou finais de semana.
Você está consciente de seu limite, haverá um momento em que dirá: chega!
E chega mesmo. E não beberá mais.
Daí aproxima-se um espírito que não gosta de você, que vamos denominar "obsessor" e lhe diz:
"Márcia, esta cerveja está uma delícia.
Toma só mais um copo.
Amanhã é segunda-feira e você não vai beber pelo resto da semana.
Vai, toma só mais um pouco".
Você não ouviu as palavras dele, mais sente um leve desejo de beber mais um copo.
Por ser de personalidade firme não bebe.
Isso acontece um dia, outro e outro dia, só que você não cede.
Chegando ao seu limite de bebida, para mesmo e não aceita mais nada.
Mas sabe, Márcia, nem sempre somos tão firmes, principalmente quando não temos orientação.
O obsessor tem todo o tempo do mundo, pois não tem nada para fazer a não ser planejar meios de vingança.
Ele ficará, dias e dias, tentando-a, não perderá uma única oportunidade até que, por um motivo qualquer, principalmente quando se está chateado, angustiado, sem disposição e o obsessor já está bem familiarizado, será nesse dia que você aceitará mais um pouquinho de bebida.
Num outro dia qualquer, resolverá só tomar um vinho, sozinha e sem motivo nenhum, acreditando que o desejo é seu, pois as frases do obsessor ficam tão familiares que parecerão com as suas ao soarem em seus pensamentos como uma vontade.
Quando se der conta, já se tornou uma alcoólatra e pior, não vai admitir isso e dirá que bebe por que tem vontade e poderá parar na hora que quiser.
Só que você não vai parar.
Não sem a ajuda de alguém ou de uma instituição, de um centro espírita e de muita força de vontade, pois o obsessor não vai deixá-la, ele já tomou conta de você, de seus desejos e já terá feito de você, digamos, uma escrava.
Márcia ouvia tudo atentamente, mal piscava.
Lembrou-se de que tempos atrás, observou que Roberto passou a beber mais e João Vítor, que não bebia nem jogava, começou a fazê-lo.
Ela agora entendia o que Fábio queria lhe dizer.
Então perguntou:
- No Espiritismo há cura para isso?
- A cura está em cada um de nós.
O Espiritismo orienta.
Deus nos criou igualmente com as mesmas virtudes e força de vontade.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:41 am

O Espiritismo somente tira o véu de muitos mistérios e mitos como o de que ninguém é escravo de alguém ou de alguma coisa se não quiser.
Sempre haverá pessoas dispostas a ajudar aqueles que desejam se libertar.
E é lógico que, quando se quer, os nossos amigos espirituais, nosso anjo guardião, protege-nos, sustenta-nos e ampara.
Assim como os espíritos ainda sem entendimento podem nos influenciar de acordo com o que queremos, os espíritos superiores também o fazem conforme nossos desejos e força de vontade.
Fábio sentiu-se feliz, pois Márcia passou a aceitar o que explicava sem aquele ar arrogante e irónico de quem duvida de tudo.
Ela estava mais calma e absorvia palavra por palavra do que o amigo dizia e vagarosamente sentia-se cada vez melhor.
Eles não podiam ver, mas um amigo espiritual de Fábio passou a envolver a moça com energias calmantes e revigorantes, pois, no início da conversa, enquanto Márcia falava, Fábio fez, em pensamento, uma oração solicitando auxílio espiritual para que ela se acalmasse e ele também fosse guiado a falar com lucidez e sabedoria.
Márcia respirou aliviada e comentando:
- Outro dia eu vi minha cunhada Rose conversando com minha sobrinha Bárbara sobre Espiritismo, eu não prestei muita atenção no que falavam, mas ouvi a Rose dizer que visitou um centro espírita.
Para ir a um centro espírita, é necessário algum convite?
Quanto se paga pelo atendimento?
Fábio não esperava por aquilo e caiu na gargalhada antes de explicar:
- Desculpe-me, Márcia - pediu ainda rindo -, eu não contava com essa dúvida.
Bem se vê que você nunca ouviu falar de Espiritismo.
O atendimento no centro espírita que segue os preceitos da Doutrina Espírita, que foi codificada por Allan Kardec, motivo pelo qual alguns chegam a falar:
"espírita Kardecista", é total e completamente gratuito, não se paga nada.
- Nada?! Que interessante!
O que fazemos então?
Levamos velas, flores ou comidas?
- Não, não! - disse Fábio ainda sobre o efeito de um riso gostoso.
Não se usa nada disso.
- E como são feitos os trabalhos?
Há trabalhos, não há?
- Nos trabalhos usamos o Evangelho, os ensinamentos do Cristo, orientação através da palavra, muita fé e orações a Deus e ao Mestre Jesus.
Acreditamos que Eles sabem do que precisamos e enviarão seus emissários a fim de nos sustentar de acordo com a nossa fé.
Márcia surpreendeu-se, nunca soube de alguém receber benefícios gratuitamente.
- Você está interessada em conhecer um centro espírita, Márcia?
- O que vou encontrar lá e como é que funciona?
Nem sei onde existe um!
- Posso levá-la.
Chegando lá, iremos para uma sala grande, cheia de cadeiras como uma sala de aula com o corredor no meio.
Na frente há uma mesa ou uma espécie de tribuna somente para servir de apoio aos papéis do palestrante, ao Evangelho e a água, caso o orador necessite.
Normalmente, uma pessoa, provavelmente um dirigente, nos cumprimentará de uma forma geral, em seguida haverá uma oração inicial, a leitura ou citação do Evangelho, as explicações do palestrante sobre o que for lido sob uma visão puramente Cristã, breves vibrações desejando paz ao mundo e auxílio aos necessitados e outra oração para terminar.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:41 am

Não encontrará nada de extraordinário.
Somente para que as pessoas possam se tranquilizar do dia agitado que tiveram e se harmonizarem com as vibrações e energias salutares, é comum colocar uma música suave antes do início da palestra.
Ou então, quando existe no centro voluntários que formam um coral de vozes angelicais, somos recebidos com a alegria de lindos cantos.
O centro espírita é um lugar muito calmo, equilibrado e bem tranquilo.
Existem os passes que são apenas a imposição de mãos a fim de lhe passar energias, vibrações boas, salutares e de recomposição.
Ninguém vai tocá-la.
- Indo lá, eu vou conseguir resolver os meus problemas?
- Márcia, não vá ao centro querendo um milagre! - ressaltou ele.
Você não pode acreditar que indo lá, no dia seguinte ou na próxima semana a sua vida estará um "mar de rosas".
Frequentando o centro espírita, estudando a Doutrina Espírita, receberá orientações do que é Espiritismo, pois o que eu contei, é apenas uma pequena parte do que pode e vai aprender ao longo do tempo.
Não pense, como algumas pessoas, que lendo um ou dois livros espíritas, conhecerá tudo sobre o Espiritismo, acreditando ser suficiente para sair por aí divulgando como se fosse um catedrático no assunto.
Não existe catedrático no Espiritismo, pois sabemos que cada dia é uma lição e acabamos enxergando nossas milhares de fraquezas.
Além das orientações, receberá uma assistência espiritual, o que alguns denominam "tratamento espiritual".
Os mentores e amigos de luz vão envolvê-la em energias restauradoras através dos passes magnéticos.
Manter tais energias ou fluidos em você a fim de trazer-lhe regeneração, força para as dificuldades, saúde e outros benefícios, dependerá somente de sua conduta, de seus pensamentos o que chamamos de "reforma íntima".
- Vou conseguir expulsar Jonas, suas acções e tudo o que ele está causando?
- A princípio não julgue.
Não sabemos se é o Jonas o causador de tudo, ou melhor, não sabemos se é ele quem está incentivando essas pessoas, seus parentes ao erro, ou se são elas próprias que querem ficar como estão por que gostam do que fazem.
Por exemplo, o seu cunhado está bebendo demais, Jonas pode tê-lo incentivado a beber, mas quem encheu o copo e colocou-o na própria boca embriagando-se foi o seu cunhado.
Ele foi fraco o suficiente para aceitar incentivos de quem quer que seja para embriagar-se.
Ao perceber que a embriaguez e o jogo o prejudicaram, em todos os sentidos, principalmente na vida familiar, ele teve o poder de decidir afastar-se disso tudo, só que não o fez.
Então ele gosta do que faz.
- Eu acho que vou conhecer um centro espírita.
Você me leva?
- Sim, é claro! - animou-se disposto.
Fábio sentiu-se bem, Márcia começaria a caminhar sozinha, com seus próprios passos.
- Você tem tanto conhecimento e paciência, Fábio, suas palavras são tão nítidas.
- Calmo, paciente e nítido é o Espiritismo.
Não há nada no Espiritismo que você não possa saber, que fique trancado ou escondido a "sete chaves".
Todas as informações estão lá, à sua disposição, basta querer aprender e até fazer parte de grupos de estudo no próprio centro.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 8:41 am

E a propósito, o conhecimento que eu tenho é bem pouco, almejo mais para que possa transmiti-lo às pessoas que não tiveram ainda a oportunidade de conhecê-lo.
Por isso interesso-me profundamente em fazer os cursos espíritas.
- Os cursos espíritas são pagos, não são?
- Não! São totalmente gratuitos.
- Como não são pagos?!
E os instrutores?
- Eles são todos voluntários.
São pessoas que receberam de graça e agora, por livre e espontânea vontade, estão lá, passando o que aprenderam gratuitamente.
- Você já fez muitos cursos?
- Não todos os que pretendo fazer e, às vezes, refazer.
- Fábio, como você conheceu o Espiritismo?
- Eu tive a grande "sorte" ou bênção de nascer em uma família que já era espírita.
Meus pais sempre foram tarefeiros nos centros espíritas que frequentaram.
- Tarefeiros?
- Tarefeiro é aquele que auxilia de alguma forma no centro.
É o que tira o pó das cadeiras e varre o chão, que é uma tarefa tão importante quanto à do dirigente, diga-se de passagem.
É aquele que aplica passes, que se oferece para fazer uma leitura e muitas outras coisas.
Essas pessoas doam o seu trabalho para outras receberem.
Se eu levá-la a um centro espírita, não vai querer se sentar em um lugar sujo, não é?
Alguém tem que limpar aquela cadeira e o chão.
É curioso, sempre há voluntários, sempre há pessoas que querem ajudar as outras.
- Sua noiva, a Bete, é espírita?
- Sim, é.
Aliás, nós nos conhecemos no centro espírita há muito tempo.
Nossos pais eram e são amigos, só depois de muitos anos, como colegas, é que começamos a namorar.
- Vocês trabalham no centro?
- Sim. Eu e a Bete auxiliamos com as leituras e às vezes nos passes.
Eu também sou voluntário para outras tarefas, que depois eu explico direito o que é.
- Que legal! - admirou-se Márcia.
Você é médium, Fábio?
- Todos nós somos médiuns, com maior ou menor intensidade.
- Como assim?
- Todas as pessoas são médiuns, umas têm pouca sensibilidade; já outras, são bem mais sensíveis e perceptivas, são os médiuns de tarefas.
Esses precisam de muito estudo num centro espírita sério além de humildade e disciplina.
Algumas pessoas conseguem ver ou ouvir com facilidade, outras "acham" que viram um vulto ou que ouviram algo, umas tiveram um pressentimento ou um sonho que acabou acontecendo posteriormente, isso é mediunidade.
Existem aqueles, como é o meu caso, que são sensitivos e recebem facilmente as vibrações de um ambiente, podendo registrar as impressões de uma situação ou de uma pessoa e até ter premonições de algo que vai acontecer e que muitas vezes nem se sabe o que é.
Vou contar uma coisa:
tudo o que se passa comigo eu comento com a Bete.
Além de noivos, nós somos muito amigos.
Teve um dia que eu cheguei para ela e falei:
"Bete, eu soube que a Márcia vai ficar alguns dias no Rio de Janeiro, é coisa da rotina do serviço.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:10 am

Ela foi convocada para instalar alguns sistemas, coisa simples, mas quando eu soube, não gostei nada.
Senti uma apreensão, uma angústia.
Não quero que a Márcia vá".
- Eu me lembro!!! - interrompeu Márcia eufórica.
Nas vésperas de eu ir viajar, você ficou me rodeando, perguntava sobre a viagem, onde eu ia ficar.
Eu cheguei a pensar que você queria ir em meu lugar.
Que quisesse viajar para o Rio.
- Eu estava sentindo que alguma coisa poderia acontecer com você.
Não conseguia identificar o que seria e cheguei a pensar em roubo, pois a onda de criminalidade é muito grande.
Lembra-se de como eu me despedi de você?
- Claro! Você me disse:
"Boa sorte, tome cuidado, tome muito cuidado!
Qualquer coisa me liga."
Eu pensei que você estava se referindo ao sistema, cuidado na instalação ou coisa assim.
- Não, eu me referia ao cuidado pessoal mesmo.
Quando fomos avisados do acidente, a Bete me disse:
"Era isso o que você estava prevendo!"
Aí, soubemos que você estava passando bem e ficamos mais calmos.
- Por isso que, quando você e a Bete foram me visitar, lá na casa dos meus pais, ela perguntou se você havia me contado?
E você respondeu que depois conversariam.
Eu fiquei tão curiosa!
- Isso, foi por isso mesmo - sorriu agora.
Eu não contei porque você não acreditaria.
Outro facto curioso que aconteceu, foi aquele dia aqui no seu apartamento, quando eu fui trocar a lâmpada e passei mal, lembra-se?
- Você me disse que era problema com a queda da pressão.
- Mas não foi.
Eu senti alguém, ou melhor, um desencarnado aqui no apartamento, e esse espírito tentou me atingir.
Não era do interesse dele que tivéssemos amizade, eu começaria a instruí-la sobre Espiritismo, você ganharia conhecimento e, consequentemente, não iria se deixar influenciar por ele nem iria lhe dar atenção.
A coisa mais importante para um obsessor é a ignorância de sua vítima referente aos assuntos espirituais, junto com o despreparo emocional e espiritual.
Agora tudo fazia mais sentido para Márcia.
Provavelmente, Jonas teria armado, provocado e induzido todos para aquelas confusões que a cada dia se agravavam; as pequenas tragédias diárias estavam tomando vulto e poderiam seguir por um caminho sem retorno.
Enquanto Fábio e Márcia conversavam, dois mentores do plano espiritual estavam ali presentes e Jonas também.
Jonas não podia vê-los, estava inquieto e impaciente demais, ficava muito atento na conversa que se estendia.
Jonas andava de um lado para outro, desesperava-se em alguns momentos, atacando Fábio para que parasse com aquelas instruções.
Fábio, porém podia percebê-lo, mas não era atingido, não sentia nada.
Das vezes em que atacou Márcia, ela estava sob energias protectoras e nada pôde perceber devido ao grande bem estar daquela conversa.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:10 am

Cansado, Jonas foi para um canto se corroendo de ódio por não poder fazer nada para impedir Fábio com os seus esclarecimentos.
Começou a praguejar, foi aí que um dos amigos espirituais de Fábio aproximou-se do espírito Jonas e se fez perceber.
A luz daquele espírito esclarecido ofuscou Jonas, pois este colocou as mãos nos olhos e virava o rosto, ora para um lado ora para o outro, aquele brilho o incomodava intensamente.
Por fim, baixando a luminescência, o mentor disse amável e serenamente:
- Filho, por favor, ouça-me.
- Eu não sou seu filho!!! - berrou Jonas.
Deixe-me em paz! Some daqui!
- Se eu o deixar, acha que terá paz? - questionou o mentor afável.
Você chama de paz esta situação em que se encontra?
Só está piorando as coisas ainda mais.
Jonas, revoltado, falou cuspinhando enquanto respondia:
- Quando eu morri, eu fui parar naquele lugar nojento, lá fede, é sujo, tem lama, lodo, detritos, coisa podre.
Só tem gente apodrecendo, cheirando mal, carniça.
É um vale onde um monte de gente geme, grita, se arrasta.
Os barulhos e as lamentações eram insuportáveis.
Não foi fácil, mas eu fugi.
Veja só como sou poderoso! - Jonas gritava e esbravejava produzindo uma sensação aflitiva.
Eu saí de lá!
E agora, nunca mais vão me fazer voltar.
Quanto a essa aí - apontou para Márcia -, tudo o que ela e sua família fizeram, vão pagar, vão sofrer, um por um será punido por mim!
Por mim, entendeu?!
- Venha comigo, Jonas.
Poderá receber orientação e amenizar seu sofrimento.
Veja seu estado.
- Um monte de gente como você, assim todo limpinho, perfumado, falando manso, já veio me procurar, veio falar comigo, mas nenhum deles prometeu me livrar daquele lugar nojento.
Acho que nem devem saber que aquele lugar existe!
Nunca devem ter ido lá nem pra saber como é, pois então eu digo:
é um lugar sujo!
Sabe o que tem lá?
Pessoas apodrecendo, necrosando, podem encontrar pedaços de gente no chão por onde você pisa e cheios de pus.
E mais, quando esses caras se encostam na gente aqueles pedaços grudam, sujam e deixam a gente nojento e fedendo.
Todos que estão lá gemem, gritam, urram, só há sofrimento, só há dor.
Além disso, ainda encontramos com aqueles que brigamos.
Sabe, eles nos chicoteiam e dão gargalhadas do nosso sofrimento, além de nos queimarem, de nos fazerem comer porcaria, sujeira mesmo, entende?
Eles podem nos fazer comer detritos humanos!
Você come fezes mesmo, cara!
Além de te esfregarem nelas.
O tempo todo, só se sente cheiro de podre.
Aquele lodo grudando em você, aquela nojeira.
Senti muita dor, frio, fome, calor, medo.
Se é queimado vivo.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:11 am

Você sangra e ninguém ajuda, ninguém socorre.
Sabe, as feridas não cicatrizam e se sente dor o tempo todo.
Ninguém tem dó.
E agora vem você com esse papo furado!
Na verdade, só quer jogar na minha cara algumas coisinhas que eu fiz de errado e depois me levar pra lá!2
- Coisinhas erradas, Jonas? - interveio o mentor educadamente, porém firme.
Chama tudo o que fez, durante toda sua vida, terrena de coisinhas erradas?!
Você agrediu, furtou, roubou, torturou, estuprou, feriu, maltratou pessoas inocentes e principalmente indefesas.
Você matou por isso é um homicida, um assassino, e não foi só, você é um suicida.
Maltratou seu próprio corpo que era perfeito, a começar por sua pele, invicta na saúde e na aparência, a deformou com tatuagens, alterando assim, a criação da Divina Natureza.
Ingeriu, excessivamente, bebidas alcoólicas, provocando, em si mesmo, doenças em órgãos perfeitos.
Consumiu drogas, alterando, deformando, deturpando e anormalizando sua mente, seu corpo e seu comportamento.
Sob o efeito desses deformáveis psíquicos, maltratou a muitos, desde sua própria família até àqueles que quiseram ajudá-lo.
E como se não bastasse ter feito tudo isso consigo mesmo, por livre arbítrio, isto é, por livre e espontânea vontade, você foi cruel, Jonas, fornecendo a outros a oportunidade de cometer todas as anormalidades físicas, mentais e espirituais que você já havia cometido consigo mesmo, fornecendo-lhes elementos químicos, drogas e equipamentos com que eles pudessem se alterar, se deformar, se normalizar, tanto quanto você.
Além de tudo, maltratou algumas moças e até aquela que realmente chegou a gostar de você, fez com que se vendesse, se prostituísse para pagar suas dívidas, para arrumar dinheiro e sustentá-lo em seus vícios.
Lembra-se de tudo isso que eu acabei de falar, Jonas?
Por acaso não é capaz de ter remorso, por um só instante, por seus actos inconsequentes?
Você não é capaz de arrepender-se de uma única coisa que tenha feito, praticado ou obrigado que outros o fizessem?
E ainda quer fugir das consequências e das punições de tudo o que praticou?
Jonas, você quer exigir o perdão dos seus actos, quer respeito, não quer voltar para aquele vale e passar por aquelas humilhações.
Agora está exigindo algo como o perdão e o respeito, sendo que nunca teve tais sentimentos para com ninguém.
Jonas manifestou-se furioso:
- E Deus, onde está esse "cara"?!
Todo mundo vive dizendo que Ele perdoa, não é?!
- Jonas, Deus não perdoa.
Quero deixar bem claro que Deus não poderia perdoar as faltas de ninguém.
Deus é pai e seria injusto Ele perdoar um filho em meio a tantos que agem correctamente.
Através do seu arrependimento verdadeiro, Jonas, do amor fraterno para com os seus irmãos, através da sua vontade de melhorar, de evoluir e corrigir todos os seus erros cometidos na Terra, você terá a oportunidade de saldar suas dívidas para com aqueles a quem deve.
Somente com esses desejos, com essa vontade verdadeira, poderá livrar-se daquelas condições do vale, pois, enquanto não se arrepender realmente, lá é o único lugar cabível a você.
Esse desejo de vingança e esse ódio no seu coração só irão retardar a sua melhora e a sua evolução.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:11 am

Jonas exaltou-se, levantou do chão onde estava encolhido e gritou:
- Eu não sou suicida como você disse!
Eu não me matei!
Pro inferno você e esse seu papo!
- O inferno é o que você viveu e está vivendo, Jonas.
Eu só gostaria de pedir uma coisa, deixe a Melissa livre.
- Não! Ela fica comigo!
Quero ver quem vai tirá-la de mim?!
Jonas saiu correndo do apartamento, atravessou a parede e não pôde ouvir o mentor dizer:
- Não ficará por muito tempo, Jonas.
O assunto sobre Espiritismo estava animado entre Fábio e Márcia, mas, de repente, a porta da sala se abriu, era Roberto que entrou comentando:
- A porta está aberta outra vez, hein, Márcia!
- Oi, Beto! Nossa eu nem reparei que havia fechado a porta sem passar a chave.
Voltando-se para Fábio, ela apresentou:
- Esse é o Fábio, lembra-se dele, não é?
- Sim, claro que sim!
Como vai, Fábio?! - cumprimentou animado.
- Tudo na santa paz! E você?
- Estou levando.
E a sua noiva, a...
- Bete! - avisou livrando-o do embaraço.
- Sim, a Bete! Ela está bem?
Já se casaram?
- Não. Ainda não.
Estamos comprando alguns móveis e utensílios, pretendemos nos casar depois que comprarmos uma casa ou apartamento.
Estamos também juntando algum dinheiro, não queremos morar de aluguel.
Além disso, a Bete tem que terminar a faculdade.
- Isso é óptimo! - concordou Roberto.
É bom se ter o mínimo de dívidas quando se casa.
Com a oportunidade de uma casa própria, é melhor ainda.
É importante pensar assim.
Márcia, ouvindo agora aquela conversa, começou a sentir ciúmes de Fábio e certa inveja de Bete.
Por alguns segundos, gostaria de estar no lugar de Bete, a noiva de Fábio.
"Como a Bete deve se sentir orgulhosa por ter a seu lado alguém como Fábio!
Ele é seguro em tudo o que faz.
Calmo, paciente, compreensivo", pensava enquanto o admirava, silenciosamente, contemplando-o com os olhos.
"Além de bonito e educado, Fábio tem inúmeras qualidades que nem eu saberia dizer..."
Subitamente corrigiu-se assim que percebeu o caminhar de suas ideias, afastando-as.
De imediato interrompeu a conversa desviando o assunto:
- Beto, eu estava contando ao Fábio todos os problemas que tivemos ultimamente, as visões e os pesadelos.
Ele é espírita e conforme foi-me explicando sobre o que é Espiritismo e como funciona o plano espiritual, eu acreditei que nossas inúmeras dificuldades familiares sejam de origem espiritual.
- Você é espírita, Fábio? - perguntou Roberto surpreso.
- Sim. Eu sou.
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Ave sem Ninho

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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:11 am

- Isso é muito bom, as pessoas espíritas, que realmente entendem, seguem e praticam o Espiritismo, são pessoas calmas, não são impulsivas, são de temperamento e personalidade maleável, não é?
- Roberto, eu creio que não se pode generalizar.
As pessoas já nascem com suas personalidades.
- Mas a maioria das pessoas espíritas se encaixa no que descrevi - insistiu Roberto.
- Eu creio que essas pessoas - continuou Fábio -, nas quais está se baseando para tal afirmação, já possuíam um temperamento tranquilo ou entenderam muito bem os ensinamentos Cristãos da Doutrina Espírita; assim se reeducaram ao falar e ao agir em qualquer situação, mantendo um bom comportamento e o equilíbrio de suas emoções.
O Espiritismo, não muda a personalidade de ninguém.
Quem faz a mudança das atitudes é a própria pessoa.
- Você conhece algo sobre Espiritismo, Beto? - perguntou Márcia curiosa.
- Lá na gráfica, há vários funcionários espíritas, incluindo as duas secretárias.
Esses funcionários são os mais calmos, compreensivos, são os que mais colaboram.
Tem um senhor lá, que me disse ser espírita há mais de trinta anos, ele tem mais tempo de espiritismo do que eu de vida e, particularmente, eu adoro ouvir as histórias, os exemplos, os contos e os romances espíritas que ele nos conta.
- E você nunca teve vontade de conhecer pessoalmente o que é Espiritismo, nunca quis ir a um centro? - perguntou Fábio.
- Primeiro é que o tempo é curto, segundo é a preguiça mesmo.
Esse senhor, do qual falei, já me convidou algumas vezes e até me deu livros espíritas.
Eu cheguei a comentar sobre as minhas visões e ele disse para eu ir assistir a algumas palestras, que seria bom fazer cursos para entender melhor, mas eu não senti necessidade.
Fábio lamentou, mas não disse nada.
Só lembrou-se de uma frase que escutou no centro:
"Quem não vai por amor, acaba indo pela dor".
Márcia comentou imediata:
- Eu não sabia que você conhecia algo sobre Espiritismo, Beto, nunca me disse nada.
Só o que eu conheci até hoje que falasse sobre espíritos, foi o que algumas colegas me disseram, mas não era sobre Espiritismo.
Elas iam a centros onde se fumavam charutos e bebiam pinga e champanhe, levavam oferendas e tinham que fazer despachos em encruzilhadas e no mar.
Eu nunca quis ir ou me aprofundar em detalhes com elas.
Sabe, Fábio, nós fomos criados no catolicismo e qualquer coisa que se afastasse da igreja era considerada "coisa do demónio" para meus pais - riu debochando -, por isso sempre tive medo e nunca quis ir nesses lugares ou procurar por essas coisas como minhas colegas.
- Talvez esse medo a tenha protegido muito - esclareceu Fábio.
Às vezes num centro espírita, não haverá atractivos, a princípio, para os jovens e adolescentes, porque lá, não encontrarão danças, exibicionismo de "coisas extraordinárias", oferendas ou qualquer outra coisa.
Existem trabalhos de auxílio ao próximo como confecção de cestas básicas, roupas aos necessitados, enxovais para gestantes carentes.
Mas ajuda quem pode e quem quer.
Ninguém em um centro espírita, dirá que você vai comprar um carro novo ou que vai ter uma promoção se lhes der dinheiro ou outros agrados.
No centro espírita conseguirá orientação e com essa orientação entenderá por que você está passando por determinado problema ou ansiedade.
Daí você, e somente você, vai crescer espiritualmente, evoluir, solucionar seus problemas e acertar a sua vida com harmonia e amor agindo melhor diante dos factos, com fé em Deus que sempre estará amparando.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:11 am

Assim sendo, viverá de bem com você mesmo e com os outros à sua volta.
- Agora pouco, você me falou sobre os mentores espirituais, que eles nos ajudam! - exclamou Márcia.
Fábio sorriu e completou:
- Ajudam, é claro que ajudam.
Da mesma forma como eu exemplifiquei há pouco que o obsessor "fala" coisas que mesmo você não o ouvindo começa a ter pensamentos e desejos estranhos; que com o tempo, e aos poucos de acordo com a sua aceitação, ele vai se afinando, familiarizando-se com você que acaba por aceitar as ideias dele como se fossem suas; os espíritos mais elevados, amigos, podem sugestioná-la também.
Só que com uma grande diferença, eles, os espíritos esclarecidos, vão influenciá-la a ter atitudes positivas, pensamentos bons, nunca, jamais dirão para tomar mais um gole ou fumar mais um cigarro, ao contrário.
- Como assim? - perguntou Roberto interessado.
- Veja só esse exemplo:
Uma turminha vai sair para dar um passeio e alguém o convida, dizendo que vai ser legal, vão se divertir, tomar uma cerveja ou coisa assim.
Nem você nem ninguém está sabendo, mas alguém daquele grupo tem um obsessor que o está atormentando e que pretende colocar essa pessoa em alguma situação difícil.
Como eu disse, você não sabe e é só mais um convidado e tem vontade de ir, a princípio, mas, sem razão aparente, perde essa vontade e sem mais nem menos diz que não vai, deixa para outro dia.
Nesse caso, você já está tão familiarizado com o seu mentor que ele conseguiu inspirá-lo a não ir, e que ficar em casa seria melhor.
Mais tarde, você fica sabendo que no bar houve uma briga ou bateram com o carro, ou qualquer coisa desastrosa aconteceu com a turminha que o convidou.
De repente, pode até não ter acontecido nada, mas e se você tivesse ido, quem garante?
Será que a briga ou algum problema não teria ocorrido com você?
Se você é do tipo que sempre faz orações, pede a protecção Divina, reconhece seus erros e tenta repará-los, certamente estará afinado com o seu mentor ao ponto de se livrar de situações como essa que exemplifiquei.
- O Espiritismo é bem interessante! - observou Roberto.
Eu gostaria de ter mais interesse por esta filosofia.
- Há tempo para tudo, nunca é tarde - aconselhou Fábio.
Olhando o relógio, comentou:
- Bem pessoal, o papo está óptimo, mas já é muito tarde, preciso ir.
Ligeira, Márcia voltou-se para ele e pediu novamente:
- Qualquer dia você me leva ao centro espírita, Fábio?
- É claro que sim! - confirmou satisfeito.
- Você vai comigo, Roberto?
Roberto ficou pensativo e por fim disse:
- Vamos ver.
Fábio, sorrindo para Márcia, sugeriu:
- Não insista.
Quando ele sentir vontade, fará como você.
Não adie. Iremos na próxima quarta, está bem, Márcia?
- Claro, Fábio! - respondeu ela animada.
Despediram-se e Fábio se foi.
Márcia sentia-se bem melhor após conversar com Fábio e receber aquelas orientações.
Apesar de não ter resolvido nenhum de seus problemas, sentiu-se mais confiante, mais forte para encará-los.
Seu bom humor e felicidade acabaram contagiando seu irmão Roberto que antes, ao chegar, não se sentia espiritualmente bem.

2 - Como já dissemos, só a fim de relembrarmos, em O Livro dos Médiuns, Capítulo VII, entendemos que todas as propriedades manifestas, apresentadas, no invólucro semi-material do espírito, ou seja, no perispírito, dependem de suas práticas e pensamentos quando encarnado.
Em O Livro dos Espíritos, Capítulo VI, questões de 254 a 256, explica-nos que a inferioridade de um espírito o faz sentir frio calor, fadiga, dores.
Quanto maior a inferioridade do espírito, maior a impressão, as angústias e dores "tão penosa quanto a própria realidade".
Por essa razão eles se vêem, após o desencarne, experimentando o mesmo que sofreram durante a vida. (N. A. E)
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:12 am

10 - CONFLITO SENTIMENTAL

A quarta-feira chegou.
E conforme o combinado, Fábio levaria Márcia ao centro espírita.
Por sua vez ela estava muito ansiosa, não via a hora de deixarem o serviço.
Comentou com Fábio que estava animada e até pensava em saírem mais cedo, mas ele avisou que só começaria às oito horas da noite, não tinham necessidade de saírem antes.
Mais tarde, quando faltavam quinze minutos para encerrarem o expediente, o telefone da mesa de Márcia tocou.
Ela quase não atendeu, mas por fim decidiu:
- Alô?
- Senhorita Márcia? - perguntou o director sempre formal
- Sim, sou eu - afirmou reconhecendo a voz.
- Queira vir até a minha sala, por gentileza.
Márcia não acreditou!
Justo naquele dia, naquela hora!
Até sentiu vontade de chorar de tanta raiva.
Mesmo contrariada, teve que ir.
Controlando-se, bateu a porta entreaberta da directoria, pedindo:
- Com licença?
- Pode entrar! - avisou o director de dentro da sala.
O homem conversava com alguém ao telefone, parecia ser algum amigo particular.
Assim que Márcia entrou na grande sala, que era forrada por um carpete vermelho, com belas cortinas e quadros harmoniosos, o director fez um gesto para que se sentasse em uma das duas poltronas que ficavam frente à sua mesa.
Ela aproximou-se e sentou.
Depois de alguns minutos, a conversa ao telefone foi irritando Márcia que começou a ficar impaciente.
O diálogo parecia não ter fim.
Às vezes ele gargalhava e se lembrava de alguma outra história para contar ao amigo.
O assunto parecia ir longe demais.
O director, para ficar um pouco mais à vontade em sua conversa ao telefone, virou a sua cadeira giratória, ficando quase de costas para Márcia que passou a ser insignificante naquele momento.
Márcia não aguentava mais esperar.
Estava furiosa.
"Por que será que ele me chamou?
Para ficar aqui plantada feito uma flor?
Ouvindo esse 'papo furado!'
Não posso acreditar!", pensava irritada.
"Eu tenho um compromisso, não posso ficar aqui tanto tempo!!! Droga!!!"
Impaciente, ela se levantou e ficou andando pela sala, como quem admirasse a vista pela imensa janela.
Observou mais de perto os quadros pendurados e às vezes olhava para o director que parecia não vê-la.
Por fim, passados mais de quarenta minutos, ele desligou.
Deu-lhe ligeira satisfação dizendo ser um colega e que há muito não conversavam.
Márcia, séria e inquieta, devido ao tempo que perdeu, pôs-se elegante a sentar-se novamente a frente do director.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:12 am

Foi então que ele começou:
- Senhorita Márcia, eu a chamei aqui para lhe perguntar como está se saindo na sua nova função e como está a aceitação de sua equipe?
Márcia não acreditou e apesar de manter as aparências seus pensamentos correram céleres e ferozes.
"Todo esse tempo esperando, tanta demora, para ele me perguntar isso?!
Que desgraçado!", irritava-se ao pensar.
"Eu marquei um compromisso importante!
Será que esse idiota não percebeu que o expediente já acabou?!"
Mantendo toda classe, apesar da indignação e revolta, ela passou a responder às perguntas de maneira prática e objectiva, sem dar oportunidade para que a conversa se prolongasse.
Mas não adiantou, o director conseguia alongar o assunto cada vez mais.
O relógio não parava, ao contrário, parecia que os ponteiros corriam mais do que o normal.
Por fim o homem concluiu:
- Muito bem, senhorita Márcia.
Eu gostaria de informá-la de que estou muito satisfeito com o seu trabalho, seu profissionalismo e seu brilhantismo para contornar e resolver assuntos que pareciam bem complexos.
Acreditei ser interessante à senhorita saber que sua actuação foi admirada pela presidência, que ficou muito satisfeita com os resultados.
A directoria se coloca a disposição da senhorita para qualquer problema que possa surgir.
- Obrigada, senhor - respondeu séria e friamente.
Sinto-me lisonjeada.
Muito obrigada.
Para finalizar a conversa o director levantou-se e estendeu a mão à Márcia, cumprimentando-a.
Imediatamente ela se levantou e retribuiu.
Despediu-se e foi embora.
Ao sair da sala da directoria, Márcia olhou o relógio, faltavam dez minutos para as oito horas.
Desceu correndo para sua sala e ao chegar à seção, Fábio estava sozinho.
Calmo e paciente a esperava enquanto lia um livro.
Quando viu Márcia, entrando correndo, afoita, disse sorrindo:
- Calma, calma.
Não precisa correr.
Não dá mais tempo.
- Que droga! - reclamou enfurecida.
O homem foi me chamar justo hoje, justo naquela hora! - exclamou agora com lágrimas empoçadas nos olhos.
Fábio, sorrindo da situação, admitiu:
- Eu sabia.
Eu tinha certeza que aconteceria alguma coisa que nos impediria de chegarmos a tempo no centro.
- Como assim, você sabia? - perguntou ainda zangada.
- Parece que é sempre assim, principalmente nas primeiras vezes.
A pessoa que necessita ir ao centro para tratamento de assistência espiritual, orientação e desobsessão, sempre é impedida por algo ou alguém.
- Por que isso tinha de acontecer?
- Acalme-se, Márcia.
Não tem importância, iremos na próxima semana e sairemos mais cedo para evitar imprevistos.
Está certo?
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:12 am

Fábio não parecia incomodado com o que acontecera, porém Márcia deixava transparecer sua insatisfação visivelmente.
- Enquanto você conversava com o director, eu liguei para a Bete e avisei que não iríamos ao centro.
Vamos sair daqui agora, pegá-la e nós três comeremos alguma coisa, certo?
- Não estou com fome - respondeu Márcia chateada.
- Vamos - insistiu.
Você não está com fome agora, daqui a pouco ela virá.
Vamos, vai! - convidou afável.
Márcia acabou, pela gentileza do convite, concordando.
Pegaram Bete e saíram os três juntos.
Mais tarde, Fábio e Bete deixaram Márcia em frente ao prédio onde morava.
Bete a presenteou com um livro espírita, acreditando que aquela leitura lhe faria bem.
Márcia os convidou para subir, mas o casal desculpou-se, pois era tarde e disse que na manhã seguinte teria que entrar mais cedo no trabalho para adiantar seu serviço.
Márcia subiu.
Ao chegar ao apartamento, percebeu que Roberto não estava.
Ela sentiu-se muito só e começou a experimentar uma angústia, o coração oprimido e apreensão inexplicável.
Pensou em telefonar para sua mãe, mas era bem tarde.
Lembrou-se de Fábio e Bete:
"Como eles devem ser felizes!
Talvez minha mãe esteja certa, eu preciso de uma companhia, preciso de alguém.
Talvez se me casasse...?
Bete deve se sentir realizada!
Um homem como Fábio... tão amoroso, atencioso... não fuma, não bebe, não é do tipo de ficar dando cantadas em outras mulheres só para se auto-afirmar como homem.
Nunca vi o Fábio falando gracejos para ninguém.
Além de tudo ele é muito bonito, simpático...
Quantas vezes eu vi outras mulheres o assediando?
Nossa! Já perdi as contas.
Mas ele é do tipo que respeita as pessoas e, principalmente, respeita o compromisso que tem com a Bete.
Um homem fiel, que raridade!"
Márcia sentiu que poderia estar gostando de Fábio.
"Não!", repreendeu a ideia.
"Isso não pode acontecer!
O Fábio ama e respeita sua noiva que parece corresponder.
Ele vive falando nela".
Márcia percebeu que não poderia ficar pensando naquilo, afinal, considerava o amigo e gostava muito de Bete que, como ele, estava tentando ajudá-la naquele momento tão difícil.
Viu-se confusa e perturbada.
Não conseguia mudar os pensamentos e desejava Fábio perto dela, só para si naquele instante.
Em meio a tanto conflito de ideias, preparou-se para dormir, tomou um banho e quando ia se deitar, Roberto chegou.
Ele havia bebido.
Jogou as chaves do carro sobre um móvel e deixou-se cair no sofá como estava, largado de qualquer jeito.
Márcia foi vê-lo.
- Roberto? Roberto!
Não dorme, não.
Vai tomar um banho.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 10:13 am

- Deixa, Má! - falava grogue.
Deixe-me aqui, assim mesmo está bom - respondeu com voz mole e tropeçando em suas próprias palavras devido ao efeito da bebida.
- Levante-se Roberto.
Vai logo tomar um banho. Dormirá melhor.
Você está suado, sua roupa está suja, levante-se!
- Marcinha, ô ô ô, Marcinha, me deixa aqui, tá?
Márcia percebeu que ele havia bebido demais, nem sabe como é que dirigiu daquele jeito.
Então foi mais severa:
- Se você não for, eu mesma vou acabar te dando um banho, Beto!
Levante-se agora daí, e vai pro banheiro!
Puxando-o pelo braço levou-o até o banheiro enquanto o irmão resmungava.
Deixando-o com o chuveiro ligado, avisou veemente:
- Se não tirar essas roupas e tomar um banho, voltarei aqui e eu mesma vou fazer isso.
Entendeu?! - gritou.
Não duvide que eu seja capaz disso!!!
Vou arrumar o sofá para você dormir, fazer um café, mas já volto!
Rapidamente ela fez um café bem forte depois de ajeitar o sofá, viu Roberto saindo do banho.
Um pouco mais lúcido, porém sentindo tudo girar.
Seu estômago estava péssimo e sua cabeça parecia explodir.
- Venha Roberto, toma esse café amargo.
Vai sentir-se melhor.
- Não. Nem me mostre esse café.
Quero um sal de frutas e um analgésico, pelo amor de Deus.
Minha cabeça vai estourar! - sussurrou agora.
Márcia foi até o seu quarto, pegou o medicamento e voltou dizendo:
- Você vai tomar sal de frutas com tónica, não vou dar analgésico nenhum.
Dizem que não é bom tomar remédios com bebidas alcoólicas.
Tome isso e vai deitar - ordenou com rispidez.
Roberto não questionou.
Não tinha argumentos nem condições para isso.
Na manhã seguinte e na semana que se passou, Márcia sentia-se desanimada, toda aquela força e aquela vontade que tivera anteriormente, esvaíra-se.
Quando estava no serviço não podia olhar para Fábio, pois rapidamente seus sentimentos começavam a brotar parecendo queimar-lhe o peito, queria-o perto, desejava abraçá-lo.
Mas ele não poderia saber de seus pensamentos, desejos e de sua paixão.
Aquilo apertava seu coração.
Por outro lado, havia os problemas de sua família.
Seu pai estava com o temperamento cada vez pior, a irmã e o cunhado estavam a ponto de se separarem, a sobrinha Bárbara depressiva, seu irmão Roberto compromissado com Júlia, sua mãe havia marcado uma internação para exames mais rigorosos.
Somente seu irmão Ciro, Rose e as meninas pareciam estar bem.
Tudo estava péssimo, pois até ela sentia-se sem rumo, sem propósito e sem objectivo na vida.
A única coisa que, por enquanto, parecia estar bem para ela, era o seu trabalho.
Mas de que adiantava somente trabalhar, guardar algum dinheiro, sustentar-se, decorar sua casa como queria, pagar por seu luxo, caprichos pessoais e pelo carro que escolheu se ela se sentia tão só, tão abandonada?
Por que será que isso estava acontecendo?
Nenhum rapaz se aproximava para um compromisso sério?
Jovem, bonita, elegante, sabia conversar, era inteligente.
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Re: DESPERTAR PARA A VIDA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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