NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 06, 2017 8:02 pm

Marlene sentou-se, falando:
- Está feito! Tudo está bem.
Por meio do perdão, conseguiram combater e vencer o mal.
Perderam um inimigo, salvaram um irmão e ganharam muitos amigos.
Agora, vocês estarão livres para continuar suas jornadas.
Os três abriram os olhos.
Dona Sílvia sorria enquanto os outros dois se olhavam sem nada entender.
Clarice disse:
- O que está dizendo, Marlene?
Estamos livres do mal?
Tudo terminou? Mas como?
A mesa não foi preparada, a louça está ainda sobre ela.
Estávamos apenas conversando e ouvindo seus ensinamentos.
Não abrimos os trabalhos.
Não fizemos oração.
Não lemos o Evangelho nem o comentamos, como sempre.
Marlene, tomando um pouco de água que estava em cima da mesa, falou:
- Todo esse ritual é importante e deve ser feito sempre que possível, mas a falta dele não faz com que os objectivos não sejam alcançados.
Deus não entra em nossas casas por elas estarem arrumadas ou não, por serem ricas ou pobres.
O que interessa a Ele são nossos corações, a fé que sentimos
Nele e em seu julgamento.
Por isso nossos corações é que devem estar sempre limpos do ódio, da mágoa e cheios de muita fé.
Só assim Deus poderá entrar neles a qualquer momento.
Dona Sílvia, sorrindo com o espanto do filho, falou:
- Marlene é vidente e assim que aqui chegou deve ter visto algo.
Enquanto falava connosco, dando respostas e nos esclarecendo, na verdade estava falando com um outro espírito que nós não víamos.
Marlene, não foi isso que aconteceu?
- Foi isso mesmo, mas agora estou com muita vontade de tomar um café.
Posso ir até a cozinha preparar?
Clarice levantou-se e a acompanhou.
Gostava de seu próprio café, mas sempre achou o de Marlene melhor.
Osvaldo e a mãe permaneceram na sala, conversando.
- Mamãe, a senhora acredita mesmo que todo o mal foi embora?
Acredita que estamos livres de tudo aquilo?
- Acredito meu filho.
Conheço Marlene há muito tempo, já vi coisas que ela fez que você não acreditasse.
Por isso pode estar certo de que tudo agora está bem.
- Mamãe, se isso for verdade, essa mulher é uma santa.
Por que tem uma vida tão miserável e com tanto sofrimento?
Por que ela não usa esses poderes para ganhar dinheiro?
- Já perguntei isso a ela algumas vezes, e ela sempre responde que está aqui resgatando dívidas imensas contraídas no passado e que não possui poder algum, apenas uma fé muito grande no amor de Deus.
- Se for verdade mesmo, se eu e Clarice ficarmos livres daquele tormento, não existe dinheiro que pague; darei a ela o que for preciso.
- Meu filho querido, se quiser perder uma amiga e ouvir um palavrão muito grande, fale com ela que quer pagar.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 06, 2017 8:03 pm

- Ela fala palavrões?
Dona Sílvia soltou uma gargalhada.
- Fala muitos!
Ela mesma diz não ser santa.
Clarice e Marlene voltaram da cozinha, Clarice estava com uma bandeja na mão.
Sentaram-se e tomaram o café.
Osvaldo, disse:
- Marlene, tem certeza que tudo terminou?
Pode nos dizer como aconteceu?
- Podem ficar tranquilos: tudo está terminado.
Mas, neste momento, não quero falar a esse respeito.
Talvez em outra hora eu conte toda a maravilha que presenciei aqui.
Por enquanto, vamos, somente, agradecer as graças recebidas nesta noite.
Ela não quis comentar o que havia presenciado porque sabia que a viagem que os espíritos estavam fazendo agora seria longa.
Eles precisavam só de pensamentos de amor.
Pouco depois, Marlene se despediu de Clarice.
- Preciso ir para minha casa.
Fique tranquila, que agora está tudo bem, mas lembre-se de que o amor de Deus é infinito e Ele nunca abandona Seus filhos, pecadores ou não.
Continue amando seu marido e seus filhos e nada de mal pode atingir vocês.
- Obrigada por tudo, obrigada por seus ensinamentos.
Não sei como poderei pagar por tudo que fez.
- Não tem de agradecer e muito menos pagar.
Foi Deus quem fez tudo.
Vocês são Seus filhos e têm muito amor no coração. Boa-noite.
Osvaldo acompanhou Sílvia e Marlene até suas casas.
Deixou primeiro sua mãe e, depois, seguiu com Marlene.
Enquanto dirigia, disse:
- Marlene, preciso te agradecer por tudo o que fez em nossas vidas.
- Não tem de agradecer, não fiz nada.
Tudo que conseguiram foi por que mereciam.
Deus nunca permite que uma injustiça seja feita.
O mal só e permitido quando a pessoa que o faz encontra outra que, se tivesse oportunidade, faria o mesmo.
- Não estou entendendo...
- Vou dar um exemplo bem fácil.
Uma vela acesa com má intenção só encontrará lugar no coração da pessoa que também acende velas com más intenções.
Se o coração for livre de maldade, nada o atingirá.
- Mas a maldade nos atingiu.
Sofremos por causa dela, muitos dias!
- Você estava desviado de seus deveres de esposo e pai.
Dividido, sem saber o que fazer com a sua vida, não estava dando o valor devido a tudo que havia conseguido.
Foi preciso tudo isso acontecer para que desse valor a sua esposa e filhos e escolhesse um caminho.
Graças a Deus, você escolheu o caminho certo.
Osvaldo ficou calado, pensando.
A imagem de Márcia surgiu em seu pensamento.
- Marlene, vou confessar um segredo: sei quem fez essa maldade.
O que faremos com ela?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 06, 2017 8:03 pm

- Vamos, em nossas orações, agradecer a Deus a graça recebida, e pedir-lhe que a ilumine e a tire do caminho da perdição.
Com seu acto, embora tenha sido cheio de má intenção, ela fez com que o amor entre você e Clarice ficasse mais forte, fez com que vocês procurassem entender mais sobre a vida daqui e após a morte.
Deu a oportunidade para que um espírito que estava desgarrado, perdido e sofrendo muito se aproximasse de nós e encontrasse o caminho de volta para o Pai.
No final, aquilo que teria sido para o mal se transformou em um bem para muitos.
Devemos pedir muito por ela e aprendermos que nada neste mundo acontece sem a permissão e a vontade de Deus.
Osvaldo ficou calado.
Os argumentos de Marlene eram irrefutáveis.
Hoje se sentia um homem realizado ao lado da esposa e dos filhos.
Só podia agradecer mesmo.
Ao chegar à casa de Marlene, pensou:
Este lugar é tão pobre!
Como ela pode ser uma pessoa tão tranquila e sem revolta?
Como pode só pensar no bem?
Como, em sua pobreza, pode ainda encontrar meios para ser feliz?
Estacionou o carro e, antes que ela descesse, beijou-a na testa, num profundo reconhecimento por tudo o que ela havia feito por ele e por sua família.
Ela apenas sorriu.
Enquanto descia do carro, falou:
- Juízo, menino.
Deus lhe deu mais uma oportunidade.
Não a deixe escapar.
Ele sorriu, ligou o carro e partiu em direcção à sua casa.
Estava leve, feliz e tranquilo.
Em casa, Clarice o esperava.
Sentia vontade de ficar abraçada ao marido, sentir sua presença fiel e verdadeira.
Quando ele retornou, as crianças já estavam dormindo.
Ela o esperava na cama, lendo.
Ele se aproximou, beijou-a com suavidade e muito carinho, como se fosse à primeira vez.
Em poucos minutos estavam se amando, sem problema algum, com muito amor e felicidade.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 06, 2017 8:04 pm

A FESTA
Fazia já quase três meses que Márcia estava namorando Ronaldo.
Todos os dias recebia maços de rosas, sempre acompanhadas de um cartão com frases apaixonadas.
Ronaldo continuava sendo maravilhoso, como no primeiro encontro.
Todas as noites ele ia até sua casa.
Depois de se amarem e conversarem um pouco, ele ia embora, cheio de amor e paixão.
Nos fins de semana, iam ao parque, e ela agora já estava até correndo um pouco a seu lado.
Quando se cansava, ficava olhando-o correr, acenando com a mão ou jogando beijos quando passava por ela, que não cabia em si de tanta felicidade.
Márcia esqueceu completamente Osvaldo e mais ainda ter um dia mandado fazer aquele trabalho.
Nos primeiros dias, percebeu que ele nunca mais a procurou.
Deduziu que tudo não passara de uma exploração e pensava:
Aquela mulher me enganou:
pegou meu dinheiro e não fez nada.
Mas não tem importância, foi até bom.
Imagine se hoje eu tivesse Osvaldo atrás de mim?
O que faria com Ronaldo?
Como sempre ocorre em minha vida, tudo acabou dando certo.
Faltava uma semana para os três meses combinados.
Em uma sexta-feira, Ronaldo quis ir a um restaurante.
- Vai fazer três meses que estamos juntos.
Quero comemorar com muito requinte.
Vamos jantar em um restaurante.
O lugar será uma surpresa, tenho certeza de que vai adorar.
É muito bem frequentado, por isso quero que vá muito bonita.
Sabe do imenso orgulho que tenho de seu porte e beleza.
O que acha de minha ideia?
Márcia ouvia tudo com o coração disparando de tanta felicidade.
- Pode ficar tranquilo:
vou usar uma roupa especial.
Estarei muito bonita.
Sabe que também gosto de desfilar com um homem elegante e bonito como você.
Ela se preparou com todo o requinte.
Na hora marcada, ele chegou também muito bem vestido.
Ao vê-la, falou:
- Você está deslumbrante.
Eu te amo cada vez mais.
Beijaram-se e saíram. Foram a um restaurante de luxo, onde ela nunca havia ido.
Todas as mesas estavam tomadas, com classe e requinte nunca vistos por ela.
No centro havia uma pista de dança e um pequeno palco, onde violinos tocavam músicas suaves.
Após terminarem o jantar, uma doce melodia começou a ser tocada.
Ronaldo levantou-se e convidou-a para dançar.
Ela o acompanhou deslumbrada com tudo o que estava acontecendo.
Começaram a dançar.
Enquanto tocava, o maestro, ao microfone, anunciou o nome de Ronaldo, pedindo-lhe que fosse até o palco acompanhado por sua noiva.
Pararam de dançar.
Márcia estranhou, não sabia que ele era reconhecido naquele lugar.
Ronaldo pegou sua mão e a conduziu até o palco.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 06, 2017 8:04 pm

Todos os frequentadores os acompanhavam com os olhos.
Assim que chegaram ao palco, uma nova música começou a tocar, exactamente a que Márcia mais gostava.
Do alto do palco e sobre suas cabeças, pétalas de rosas começaram a cair.
Ronaldo, emocionado, tirou do bolso uma caixinha que continha um lindo anel de brilhante e, enquanto o colocava no dedo dela, falava:
- Quero agradecer a presença de todos os meus familiares e amigos que aceitaram meu convite e gostaria de apresentar minha adorável noiva.
Quero também comunicar que dentro de um mês realizaremos nosso casamento.
Todos se levantaram e começaram a aplaudir.
Márcia, deslumbrada com aquela surpresa, começou a tremer, sem ter palavras para exprimir seus sentimentos.
Ronaldo colocou a mão em sua cintura e a conduziu até o centro da pista, onde recomeçaram a dançar.
Ela se deixava levar em seus braços ao ritmo daquela música.
Sua cabeça rodava entre lágrimas e sorrisos.
Beijou e foi beijada ardentemente por Ronaldo, que feliz disse:
- Isto não é nada em comparação a tudo que lhe darei durante toda a vida que passaremos juntos.
- Meu amor, você não existe!
Eu te amo muito, muito, muito!
Os convidados, após o término daquela primeira música, aproximaram-se, cumprimentaram o casal e começaram a dançar.
Foi uma noite inesquecível para todos que ali compareceram.
Márcia foi apresentada aos pais de Ronaldo, depois aos irmãos e sobrinhos, e no final a toda a família.
Ela, gentil, sorria para todos.
Quem visse aquele rosto angelical jamais poderia imaginar toda a maldade que era capaz de fazer.
No final da festa, antes que os convidados fossem embora, Ronaldo e Márcia saíram escondidos.
As despedidas seriam demoradas e eles não queriam esperar mais para se amar.
Ele a levou a um hotel onde uma suíte os esperava.
Vendo tudo aquilo, ela disse:
- Hoje está parecendo nossa noite de lua-de-mel.
Depois de tudo isso, não posso imaginar o que fará quando ela chegar realmente.
- Isso você vai conferir em Paris.
- Paris? Está dizendo que vamos passar nossa lua-de-mel em Paris?
- E em toda a Europa.
Teremos dois meses só para nos amarmos e conhecermos lugares.
O que acha? Só não iremos se você não quiser.
- Claro que quero!
Sempre quis conhecer Paris, mas, embora tivesse dinheiro, faltava-me tempo e companhia.
Sempre foi o sonho de minha vida!
- Então esse sonho será realizado. Gostou da surpresa que te preparei no restaurante?
- Adorei. Nunca poderia imaginar que algum dia eu fosse à protagonista de um conto de fadas.
- Como quis te fazer uma surpresa, não convidei ninguém de sua família.
Nunca comentou nada sobre eles, por isso não sei onde estão e não quis te perguntar, mas para nosso casamento faço questão de que todos compareçam.
Uma nuvem passou pelo rosto dela ao lembrar-se da família.
Fez força para que uma lágrima caísse de seus olhos.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:24 pm

Vagarosamente e baixinho, falou:
- Não tenho ninguém.
Meus pais morreram em um acidente quando eu tinha apenas seis meses.
Fui criada por minha avó, que me deu tudo, e já faz dez anos que morreu.
Sou sozinha no mundo.
Ao ouvi-la dizer aquelas palavras, um vulto iluminado que estivera a seu lado durante toda a noite balançou a cabeça e, demonstrando tristeza, disse:
- Não, meu amor, não faça isso.
Diga a verdade...
Ela parou de falar, parecendo ouvir algo.
Imediatamente, lembrou-se de Lenita e de sua mãe.
Não, não posso dizer a ele que minha família é pobre e vive naquele lugar miserável.
Ele não entenderia.
Ronaldo, muito triste, abraçou-a e disse:
- Sinto muito.
Deve ser muito triste não ter ninguém.
Minha família é muito unida e agradeço todos os dias por ter todos ao meu lado.
Mas agora você não ficará mais sozinha.
De agora em diante, todos nós seremos sua família.
Poderá nos amar e ser amada.
Ela, abraçando-o, falou:
- Não se preocupe: já me acostumei.
Mas sei que de agora em diante nunca mais ficarei sozinha.
Hoje tenho você, que é maravilhoso e é tudo para mim.
Farei com que sua família me aceite.
E daqui a algum tempo teremos nossos filhos.
A nuvem agora passou pelo rosto dele.
Afastou-se dela, colocou as mãos em seus ombros e perguntou desesperado:
- Você está esperando uma criança?
Ela se assustou com sua atitude.
Nunca o vira daquela maneira.
- Não. Mas pretendo, um dia, ter vários filhos.
Como se um peso fosse tirado de sua cabeça, ele a abraçou novamente.
- Ainda bem.
Eu morreria se soubesse que você está esperando um filho.
Isso nunca irá acontecer.
- Não estou entendendo...
Como, nunca vai acontecer?
Igual a toda mulher, quero ter meus filhos.
- Poderá adoptar quantos quiser.
Darei a eles todo o amor deste mundo, mas nunca vou querer ver você esperando um filho.
Tenho medo de te perder.
Só naquele momento ela se lembrou do trágico fim da primeira esposa de Ronaldo.
Falou baixinho em seu ouvido:
- É isso, meu amor?
Acredita que possa acontecer novamente?
Não se preocupe:
não vai acontecer.
Nosso amor é perfeito demais para que algo de mal possa acontecer.
Nunca ouviu aquele ditado:
Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?
Esqueça tudo isso, vamos viver nossa noite de amor.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:25 pm

Teremos muito tempo para pensar em filhos.
Ele foi até o bar, onde havia uma garrafa de champanhe, encheu duas taças e ofereceu uma a ela, fazendo um brinde:
- Que nosso amor seja feliz e eterno.
Tomaram a champanhe.
Ele colocou uma música para tocar e começaram a dançar.
Embalados pela champanhe e pela música, em poucos minutos estavam deitados sobre a cama, acariciando-se.
Em dado momento, ela segurou sua cabeça, colocou seus olhos bem perto dos dele e falou:
- Eu o amo... Eu te amo muito...
Assim que abriu a boca para falar, um terrível mau cheiro saiu por ela ao mesmo tempo em que Ronaldo sentia uma dor profunda.
Ele, desesperado, afastou-se dela e levantou-se.
O mau cheiro era tão forte que Ronaldo saiu correndo para o banheiro, fechou a porta e começou a vomitar.
Ela, desesperada, correu atrás dele e começou a chorar e gritar:
- Meu amor, o que está acontecendo?
Que cheiro é esse?
Ele cheirava seu corpo para ver se havia algum lugar em que o cheiro não estivesse.
- Não sei. Saiu de sua boca!
Você deve estar doente!
- Por favor, abra a porta!
Precisamos conversar.
Precisamos entender o que está acontecendo!
- Já vou sair...
Espere um pouco...
Ela voltou para a cama.
Ficou sentada olhando para a porta do banheiro.
Depois de quinze minutos, a porta se abriu.
Ele estava abatido, com o rosto de quem estava nitidamente passando muito mal.
Assim que o viu ela disse:
- Está vendo?
O cheiro foi embora...
Bastou ela abrir a boca para o mau cheiro voltar e envolver todo o ambiente.
Ele se vestiu rapidamente e começou a sair, quando ela, desesperada e chorando muito, o segurou pelas pernas.
- Não vá embora! Não me deixe!
Eu te amo. Você me ama!
Ele tentou ficar, mas, a cada palavra que ela falava, parecia que o mau cheiro aumentava.
Ele saiu quase correndo, batendo a porta violentamente e dizendo:
- Preciso respirar um pouco de ar puro.
Se ficar aqui, acho que vou morrer.
Ela se viu sozinha no quarto.
Chorava sem parar.
Vultos negros, gargalhando, rodopiavam em volta do quarto todo e sobre ela.
Ela continuava chorando, procurando entender o que havia acontecido dos vultos, que agora eram muitos, passou perto de seu nariz a figura de dois bonecos amarrados um ao outro.
Como por encanto, no mesmo instante, ela se lembrou de dona Durvalina e do trabalho que havia encomendado.
Preocupada, pensou: Não pode ser.
O trabalho não deu certo.
Osvaldo nunca mais me procurou.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:25 pm

Olhou para o relógio que estava sobre o criado-mudo.
Duas horas da manhã.
Não vou encontrar aquele lugar durante a noite, mas amanhã, assim que clarear vou até lá.
Ela vai ter de me explicar o que está acontecendo.
Logo hoje? Estava tudo tão perfeito.
Eu amo Ronaldo! Não posso perdê-lo.
Pagarei o que for preciso para que esse feitiço saia de minha vida!
Lembrou que não estava em seu apartamento.
Ligou para a recepção e pediu um táxi.
O recepcionista não entendeu o que havia acontecido.
Ronaldo havia pedido o que de mais luxuoso existia no hotel.
Quando o viu sair correndo, quase alucinado, ainda vestindo o paletó, ficou apenas olhando e querendo entender, pensou:
Agora ela pediu um táxi...
Que será que aconteceu?
Infelizmente acho que não vou saber.
Preciso mesmo é chamar o táxi.
O mau cheiro do quarto desapareceu.
Enquanto esperava o táxi, Márcia ia se lembrando de suas idas e vindas à casa de dona Durvalina.
Lembrou-se do encontro que teve com sua mãe e com Lenita.
Lembrou-se de Farias e da maldade que havia feito com ele.
Enquanto ela relembrava o passado, os vultos negros ficavam à sua volta, rindo e rodopiando em uma dança infernal.
O táxi chegou, ela desceu do quarto e, sem olhar para o recepcionista, foi embora.
Chorou durante todo o caminho.
O motorista tentou iniciar uma conversa, mas logo percebeu ser inútil.
Ela estava com o pensamento distante e deixou claro que não queria conversar.
Entrou em casa.
Olhou todo aquele luxo à sua frente, que agora não tinha o menor valor.
A única coisa que queria era ter Ronaldo de volta.
Quando, finalmente, encontrei o amor de minha vida, ele simplesmente escapou por entre meus dedos.
Não posso mais viver sem ele. Eu o amo...
Voltou a chorar.
Foi para seu quarto, voltou para a sala, entrou pelos demais quartos, foi para o banheiro.
Não havia lugar em que se sentisse bem.
Sofria muito. Tentou ligar para Ronaldo.
Precisava falar com ele, nem que fosse à distância, mas o telefone tocou várias vezes e ele não atendeu.
Via em sua frente o rosto de nojo com que ele a olhara.
Não conseguia dormir.
Era sábado, mas dona Durvalina a atenderia de qualquer maneira.
Sabia que bastava oferecer o dobro do preço cobrado.
Não queria nada, só queria que o feitiço fosse quebrado.
Se dona Durvalina fez, ela terá de desmanchar.
Finalmente, adormeceu no sofá em que estava sentada, de frente para a porta de vidro que dava para a piscina.
Acordava, olhava para o céu, voltava a dormir.
Assim ficou durante toda a noite.
Dormindo e acordando, esperando o amanhecer.
Acordou com a claridade do sol batendo em seu rosto.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:25 pm

Abriu os olhos, lembrou-se de tudo o que havia acontecido.
Parecia que o dia seria bonito.
Ronaldo, como todos os sábados em que não tinha uma viagem programada, iria até o parque correr.
Ela resolveu:
Vou até lá. Talvez o encontre e poderemos conversar.
Não posso lhe contar o que fiz, mas, como sempre, arrumarei um modo de levá-lo a pensar sobre o assunto, a esperar até que eu encontre uma solução.
Só de pensar que poderia perdê-lo, sentiu um aperto no coração.
Sabia que, se o perdesse, seria a mulher mais infeliz do mundo.
Começou a chorar novamente.
Foi ao banheiro, tomou um banho, cheirou seu corpo, e nada:
não havia cheiro algum.
- Decididamente, foi feitiço mesmo.
Vestiu-se e foi para o parque.
Ainda era cedo.
Ronaldo costumava chegar mais tarde.
Enquanto esperava, ficou observando as crianças brincando e as pessoas andando.
Lembrou-se de seus planos de ter muitos filhos.
Lembrou-se da festa maravilhosa que teve, da viagem programada para Paris e toda a Europa, seu maior sonho.
Começou a andar em volta do lago, pensando:
Este lago é tão bonito...
O lugar ideal para morrer...
Se não conseguir trazer Ronaldo de volta, se não conseguir viver do lado dele pelo resto de minha vida, esse será meu destino...
Virei aqui à noite, quando não houver ninguém, e simplesmente mergulharei.
Sem ele, não quero mais viver.
O suicídio será o único caminho que terei para seguir.
A seu lado, caminhando junto e soprando esses pensamentos para ela, iam vários vultos negros.
Ela esperou quase até o meio-dia.
Ronaldo não apareceu.
Ligou para sua casa.
A empregada informou que ele havia viajado e não disse para onde.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
Definitivamente, eu o perdi para sempre.
Como vou viver sem ele?
Minha única esperança é dona Durvalina, só ela poderá me ajudar...
Voltou para seu carro e seguiu em direcção à casa de dona Durvalina.
Passou pela casa em que sua mãe morava com Lenita.
Pensou nas duas, mas sua urgência no momento era trazer Ronaldo de volta.
Bateu palmas, e a mesma senhora do quarto da frente atendeu:
- Pois não. Ah, é a senhora?
Pode entrar.
Márcia entrou e bateu à porta do quarto.
Dona Durvalina abriu e perguntou:
- A moça, aqui?
Depois de tanto tempo.
Não pensei que um dia ia voltar.
O trabalho deu certo? Está feliz?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:26 pm

Márcia, furiosa, respondeu:
- O trabalho não deu certo!
Vim aqui para que o desmanche.
Pagarei em dobro sua consulta, mas preciso falar com a senhora hoje, sem falta!
A mulher, calmamente, respondeu:
- Não precisa ficar nervosa.
Vou atender a senhora.
Pode me esperar lá no fundo, a porta está aberta.
Márcia, agora, já conhecia o caminho e dirigiu-se para lá.
Empurrou a porta e viu novamente o altar cheio de santos, flores e velas.
Uma imagem de Jesus com os braços estendidos parecia sorrir para ela.
Seus olhos, embora de vidro, pareciam ter vida.
Ela ficou olhando-o e pensando:
Nunca em minha vida parei para saber mais sobre sua história.
Nunca tive tempo para isso.
Aproximou-se e viu-o de mais perto.
Em sua alucinação, pareceu que ele sorria.
Devo estar louca.
É apenas uma imagem, nada mais.
Estava ainda diante dele quando dona Durvalina chegou e perguntou:
- Está falando com Ele?
Às vezes, é a melhor coisa que tem para se fazer.
É o melhor caminho a seguir.
Márcia se voltou violentamente ao ouvir a voz da mulher e respondeu muito nervosa:
- Não vim aqui para falar com uma imagem de gesso!
Vim aqui para falar com a senhora, que é de carne e osso!
- A moça parece que não entendeu.
Nunca falou ou tratou alguma coisa comigo.
Sempre falou com um espírito.
- Com a senhora ou com o espírito, não importa!
Preciso que desmanche o que fez!
- A moça vai esperar um pouco.
Daqui a pouco vai falar com quem de direito.
Disse isso e novamente puxou a cortina negra.
Colocou no chão uma garrafa de cachaça e alguns charutos.
Fez um tipo de oração.
Seu corpo começou a tremer e, em seguida, ela soltou uma gargalhada.
Sentou-se no chão e olhou para Márcia, perguntando:
- Que a moça veio procurar aqui?
Márcia percebeu que a mulher falava diferentemente da última vez em que lá esteve.
Parecia estar conversando com outro espírito.
- Vim aqui pedir para desmanchar o trabalho que fez.
- Não fiz trabalho algum pra moça.
- Como não?
Paguei tudo o que foi pedido!
O trabalho, além de não ter dado resultado, ainda se voltou contra mim!
Quero que seja desmanchado.
Pagarei o que for preciso!
- Espere um pouco, moça.
Não fiz trabalho algum pra moça.
- Como não?
Disse que ia amarrar uns bonecos, deu o preço e eu paguei!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:26 pm

- A moça nunca falou comigo, não.
A moça falou com o outro, que se debandou pró outro lado, o que deixou o chefe muito bravo.
Estou aqui no lugar dele. Só isso.
- Não estou entendendo.
Está agora querendo se fazer passar por outra pessoa só para não devolver o dinheiro ou desmanchar o trabalho?
- A moça está entendendo muito bem.
A moça veio aqui, pediu um trabalho, e a moça pagou.
O trabalho foi feito...
- Até pode ser, mas só deu resultado por uma noite.
Não sei se ainda está acontecendo com a outra pessoa aquilo que me foi prometido.
Só sei que agora está acontecendo comigo.
Eu não quero! Eu não quero!
Márcia gritava e chorava tudo ao mesmo tempo.
Seu corpo tremia ao lembrar-se da cena ao lado de Ronaldo, do mau cheiro e do rosto dele quando se afastou dela.
Continuou:
- Isso não é justo.
O homem que mais amo fugiu de mim, de meu amor.
Não importa quem tenha feito.
Quero que desmanchem...
- Moça, esse negócio de justiça é muito complicado.
Tem sempre dois lados.
Não foi avisada que tinha um preço?
Não foi perguntado se a moça estava disposta a pagar?
- Foi. Eu disse que queria e que estava disposta a pagar.
Mas agora não quero mais.
Quero que seja desmanchado.
Pagarei o dobro; se for preciso, até mais.
Pagarei tudo o que for preciso.
Só quero ficar livre dessa maldição.
- Não foi dito que cinquenta por cento ia voltar pra moça?
Ou mesmo até cem por cento?
Márcia parou, olhando para aquele homem com quem agora ela tinha certeza que estava conversando.
O rosto da mulher estava vincado, parecia mais forte e másculo.
Na vez anterior, a mulher bebia e fumava charuto sem parar.
Hoje ela não estava bebendo e fumava um cachimbo.
A garrafa de cachaça e os charutos estavam lá, mas ela não tocou neles.
- Cinquenta por cento?
Cem por cento? Do quê?
O trabalho não deu certo.
Osvaldo procurou-me só uma vez.
Depois, nunca mais.
Se não me procurou mais, é porque deve estar muito feliz.
Se não deu certo, por que terei de pagar?
- O trabalho pode não ter dado certo, mas foi feito.
Não foi dito pra moça que, mesmo que não desse certo, ia ser cobrado?
Que o que valia era a intenção?
A moça teve intenção, não teve?
A moça quis afastar aquele homem da mulher, não quis?
Márcia ficou relembrando o primeiro dia em que ali estivera e em tudo que lhe fora dito.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:26 pm

- Naquele dia eu tive intenção porque estava com muita raiva, com muito ódio, mas hoje não.
Só quero ser feliz.
Quero que seja desmanchado para que eu possa ter minha vida de volta, ter o homem que tanto amo novamente me amando.
Quero ser feliz.
- Não foi dito para a moça que depois de feito, ia ser muito difícil desmanchar o trabalho?
- Foi. Mas foi dito difícil, e não impossível.
Deve haver um meio.
Preciso saber qual é.
Tem de me dizer.
Pago o que for preciso.
Dinheiro não é importante.
Quero minha vida de volta.
Quero ser feliz!
- Não dá, não, moça.
Eu não posso fazer nada.
Não fui eu quem fez o trabalho.
- Como não pode fazer nada?
Como não foi você quem fez o trabalho?
É muito fácil dizer isso.
Recebeu o dinheiro, conforme combinado.
Paguei minha parte do modo que pediu.
Agora, simplesmente, me diz que não pode fazer nada?
Não vou aceitar isso.
Não posso aceitar.
Se aceitar, sei que nunca mais terei meu amor de volta.
Preciso dele.
Nunca conheci a felicidade e, agora que a consegui, não posso simplesmente perdê-la!
- A moça não tem de aceitar nada.
A moça é livre pra procurar uma saída.
Eu não sei como fazer.
A moça foi avisada de que o que ela estava fazendo podia voltar pra ela mesma, não foi?
Não posso fazer nada...
- Por sua culpa estou perdendo, se já não perdi o único homem que amei na vida!
O homem que poderia me dar a felicidade maior deste mundo!
- Por minha culpa?
Acredita mesmo que foi por minha culpa?
A moça veio aqui querendo um homem.
Não se preocupou com o que ele queria.
Agora quer um outro.
A moça não sabe o que quer?
Márcia agora estava furiosa.
- Como não sei o que quero?
Consegui tudo na vida exactamente porque sempre soube o que queria!
Se você fez, outro vai desmanchar e eu vou encontrar!
Exactamente porque sei o que quero.
Quero aquele homem de volta.
Ele voltará, nem que para isso eu tenha de gastar até meu último centavo!
- A moça é quem sabe.
Eu não posso fazer nada.
Só posso dizer uma coisa pra moça:
não gaste seu dinheiro à toa.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:27 pm

Não é com dinheiro que vai conseguir desmanchar o que mandou fazer.
Não é não...
- Se não for com dinheiro, será com o quê?
Pode me explicar?
- Não posso, não.
A moça mesma é que vai ter de descobrir.
- Seja o que for, descobrirei.
Pode estar certo.
Márcia levantou-se e, sem se despedir, saiu.
Estava com muita raiva, muito nervosa e com muito ódio.
Antes de entrar no carro, olhou para a casa que sabia ser de sua mãe e de Lenita.
Pensou em ir até lá.
Elas estão aí.
Poderia levá-las para viver em minha companhia.
Quem sabe, fazendo uma boa acção, possa reverter o trabalho?
Não. Não e não!
Como posso me dedicar a elas?
Estou com muitos problemas!
Preciso encontrar uma forma de reverter tudo isso.
Em algum lugar deve haver resposta.
Vou encontrar esse lugar, nem que tenha de revirar o mundo.
Elas que fiquem por aí!
Viveram até hoje muito bem, poderão continuar vivendo.
Não quero me envolver em suas vidas.
Elas só me dariam mais problemas.
Acelerou o carro e saiu em disparada, sem olhar novamente para a casa, chegando até a virar o rosto para o outro lado.
Só me faltava agora encontrar aquela mulher, que se diz minha mãe, com suas lágrimas.
Não quero vê-la nunca mais.
Preciso encontrar um meio de me livrar dessa maldição.
Não posso perder Ronaldo. Eu o amo.
Ele também me ama.
Vou encontrar alguém que possa me ajudar...
Antes de ir para casa, passou mais uma vez pelo parque, na esperança de ver Ronaldo correndo.
Mas foi inútil:
ele não estava ali.
Sentada no banco, ficou relembrando os dias felizes que viveu com ele.
Chorava como criança.
Chorou muito e, de repente, parou.
Não posso ficar chorando.
Não sou mulher de chorar.
Tenho de fazer algo.
Deve existir alguém que possa me ajudar.
Triste, voltou para casa.
No dia seguinte, pegou o jornal e começou a folheá-lo, na intenção de se distrair.
Após ler alguns artigos financeiros e políticos, chegou aos classificados.
Sem interesse, começou a lê-los.
Notou que havia vários anúncios de videntes e pessoas que faziam consultas espirituais e desmanchavam trabalhos.
Seleccionou alguns números de telefone e começou a ligar.
Marcou consultas nocturnas, uma para cada dia da semana, com pessoas diferentes.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:27 pm

Uma delas vai me ajudar.
É impossível que não exista neste mundo alguém que consiga desmanchar o mal que aquela mulher fez.
Ficou andando pelo apartamento.
Cada pedaço a fazia lembrar-se de Ronaldo.
Ela o amava desesperadamente, não podia perdê-lo.
Isso não! Vou encontrar uma maneira.
Sem que ela soubesse, à sua volta, rodopiando, feliz, estava Farias sempre acompanhado por Gervásio.
Farias chegou junto a ela, falando em seu ouvido:
- Não está com vontade de beber?
Um vinho agora seria muito bom...
Vá até o bar, vai ver como vai se sentir melhor...
Pegue um copo e beba...
Eu lhe farei companhia...
Como se estivesse hipnotizada, ela se dirigiu ao bar, pegou um copo, encheu-o de vinho e começou a beber.
Farias, sentado a seu lado, aspirava ao álcool com ela.
Márcia bebeu um copo após o outro.
Completamente embriagada, dormiu no sofá da sala, sem forças para ir até seu quarto.
Durante a noite, teve horríveis pesadelos.
Farias, a seu lado, falava coisas que faziam com que acordasse e dormisse logo em seguida.
Farias apertava sua cabeça, causando dores violentas.
Ela acordava, mas o efeito do álcool era mais forte, e voltava a dormir.
Quase pela manhã, viu em seu sonho o corpo dele entre as ferragens, com sangue por todo lado, apontando-lhe o dedo e dizendo:
- Você me matou! Você me matou!
Assassina! Assassina!
Ela deu um pulo e acordou, ainda vendo-o e ouvindo sua voz.
Olhou em volta e percebeu que estava em seu apartamento.
Ainda bem que foi um sonho.
Por que ele disse que eu o matei?
A morte dele foi um acidente.
Por que não estou em meu quarto?
Ai, que dor de cabeça!
Por que tive de beber tanto?
Levantou-se, mas ainda sentia uma pequena tontura.
No dia anterior, não comera nada, apenas bebera.
Estou fraca, preciso me alimentar.
Que dia é hoje?
Nossa! É dia de trabalho!
Deitou-se novamente na cama.
Seu corpo estava pesado.
Farias subiu em seus ombros, dando a ela a impressão de estar com um peso enorme nas costas.
Ele ria, enquanto pulava e falava:
- Você não presta.
Quis subir a qualquer preço.
Agora, perdeu o que mais queria e vai perder todo o resto.
Vou me vingar.
Foi sempre tão egoísta que não tem um amigo sequer para te ajudar.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:27 pm

Você não presta!
Ela absorvia, sem saber, tudo o que ele dizia.
Sentia uma Profunda solidão.
Lembrava-se de tudo o que havia feito contra muitas pessoas.
Via Lenita, pálida, desmaiada em seus braços, e sua mãe, sorrindo e chorando, quando a encontrou.
Em seguida, a figura de Farias preso nas ferragens.
Sua cabeça rodava, mas ela precisava se levantar e ir trabalhar.
Preciso me levantar...
Tenho compromissos importantes marcados na empresa...
Nunca deixei de cumprir compromisso algum.
Tentou levantar-se novamente.
Vou tomar um banho e ficarei melhor.
Não posso ficar deitada, preciso ir para a empresa.
Levantou-se. Voltou a se lembrar de Ronaldo.
Não posso perdê-lo. Não posso!
Meu amor, onde você está?
Volte, por favor.
Não saberei viver sem você.
Tornou a se deitar.
Seu corpo estava fraco, sua vontade estava dividida entre a obrigação do trabalho e a imensa dor que sentia por se ver ameaçada por algo que não sabia como enfrentar.
Ficou deitada por mais algum tempo.
Com muito esforço, levantou-se novamente e conseguiu chegar ao banheiro.
Tomou um banho demorado e realmente se sentiu melhor.
Vestiu-se e, ainda com um pouco de dor de cabeça, foi para a empresa.
Levou com ela a folha de papel em que havia marcado os endereços das pessoas que visitaria para encontrar uma solução para seu problema.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:27 pm

OPORTUNIDADE DE PERDÃO
O dia se arrastou e, por muitas vezes, ela se distraiu com o trabalho.
Quando alguém perguntava algo a respeito de um assunto qualquer, por várias vezes não soube responder.
Sua cabeça e suas costas doíam muito.
Farias continuava em cima dela e não parava de falar:
- Não adianta você agora é minha.
Nunca mais vou sair daqui! Nunca mais.
Vou te levar à loucura.
Quero te ver lá no vale, naquele inferno.
Não vou te deixar em paz, nunca mais. Nunca mais!
Naquele dia, pela primeira vez desde que começara a trabalhar na empresa, olhava a todo instante no relógio.
Deixou seu trabalho para o dia seguinte.
Sentia que não estava em condições de tomar qualquer decisão.
Tinha consciência de que, para voltar a ser a funcionária exemplar que sempre fora, teria de resolver seu próprio problema.
Pela primeira vez, também, não estava conseguindo separar sua vida particular da profissional.
Seus superiores perceberam que ela não estava bem.
Às três horas da tarde, doutor Fernando chamou-a em sua sala.
- Márcia, estou notando que hoje você não está bem.
Está acontecendo alguma coisa?
Está com algum problema?
- Desculpe senhor, estou com uma terrível dor de cabeça.
Mas tenho certeza de que logo estarei bem.
- É melhor que vá para casa ou a um médico.
Estou preocupado.
Sabe que temos decisões importantes para tomar e sempre contei com sua ajuda, mas hoje me parece que não podemos decidir nada.
Vá para casa, cuide-se e volte amanhã.
Márcia não gostou do que estava ouvindo.
Ela sempre fora elogiada e agora sentia que o chefe a estava recriminando.
Perdeu o controle:
- Que está querendo dizer?
Que não sou uma boa profissional?
Que estou deixando meus problemas particulares interferirem em meu trabalho?
Ele estranhou a pessoa que estava à sua frente.
Nunca antes a vira descontrolada dessa maneira.
- Que é isso?
Só estou preocupado com sua saúde.
Sei que é uma boa profissional, nunca poderia duvidar disso.
Vejo, agora, que realmente não está bem e que precisa se tratar.
Vá procurar um médico.
Pode ficar em casa quantos dias forem necessários.
Só volte quando realmente se sentir bem.
Ela percebeu que havia perdido o controle.
Farias rodopiava à sua volta, gargalhando e muito feliz.
- Agora, sim.
É isso mesmo o que quero ver!
Fernando precisa te conhecer como é na realidade!
Vai perder tudo o que conseguiu, mentindo e enganando.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:28 pm

- Desculpe - ela disse ao seu chefe - é que realmente não estou bem.
Estou me sentindo muito fraca.
- Por isso mesmo, deve consultar um médico.
Fique em casa todo o tempo de que precisar.
- Mas tenho muito trabalho para concluir...
- Não se preocupe, vá procurar ajuda e se trate.
Ele falou com tal impostação de voz que ela não teve como argumentar.
Sentia-se realmente muito mal, tentou sorrir e retirou-se da sala.
Já em sua sala, pegou a bolsa e saiu.
Farias e Gervásio a acompanharam.
Pegou o carro.
Na rua, respirou fundo.
Sentia que o ar lhe faltava.
Não posso ir para casa.
Lá me sinto sufocar.
Mas aqui também.
Não sei o que fazer.
Essa dor que sinto pela perda de Ronaldo é imensa.
Vou dirigir um pouco.
Melhor ainda: vou até sua casa.
Ele não pode ter viajado assim de repente.
Deve estar em casa ou em algumas de suas agências.
Vou procurá-lo e pedir que volte.
Se for preciso, contarei a ele tudo o que fiz.
Não... Isso não poderei fazer nunca.
Ele não entenderia e, com certeza, não me perdoaria!
Continuou dirigindo.
Ronaldo morava em uma mansão localizada em um bairro nobre da cidade.
Parou o carro em frente a um enorme portão de ferro.
Desceu e ficou parada, olhando para dentro do jardim.
Um homem, ao vê-la ali parada, veio em sua direcção.
- Pois não, senhorita, deseja alguma coisa?
- Preciso falar com o senhor Ronaldo.
Ele está em casa?
- Sinto senhorita, mas ele viajou no sábado pela manhã e não disse quando voltaria.
- O senhor sabe aonde ele foi?
- O patrão não costuma dizer aonde vai.
- Obrigada. Se ele voltar, por favor, avise que Márcia esteve aqui.
Vou deixar meu cartão.
Poderia me telefonar assim que ele voltar?
- Poderei dizer para ele que a senhorita esteve aqui, mas telefonar, não.
Não se preocupe: ele mesmo vai ligar.
A senhorita é muito bonita...
Márcia percebeu que não adiantava ficar ali.
- Obrigada, o senhor foi muito gentil. Até logo.
Voltou para o carro e continuou dirigindo.
Foi a todas as agências de carro que sabia serem dele, mas nada.
Em todos os lugares, recebia a mesma resposta:
- Ele foi viajar.
Cansada, resolveu ir para casa.
Estava escurecendo, e ela teria tempo de tomar um banho, trocar de roupa e ir ao encontro da primeira mulher com quem havia marcado consulta.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:28 pm

Vou, hoje, nesta.
Se não der certo, vou a todas as outras; uma delas vai ter de me ajudar.
Preciso de ajuda.
Sempre soube lidar com meu trabalho.
Sempre soube afastar de meu caminho quem me incomodasse, mas, com essas coisas, não sei lidar.
Não sei como fazer, mas alguém deve saber, e vou encontrar esse alguém.
No apartamento, como sempre, tudo estava em ordem.
Entrou e se sentiu sozinha.
Precisava ter alguém para conversar.
Precisava ter uma amiga, mas não tenho ninguém.
Passei minha vida toda apenas querendo ganhar dinheiro e prestígio na empresa.
Para quê? Para quê?
Foi para o banheiro.
Tinha tempo de tomar um banho de imersão, que sempre lhe fazia muito bem quando chegava do trabalho tensa e cansada.
Foi o que fez.
Ficou deitada na banheira por mais ou menos meia hora.
Depois disso, trocou-se, pegou as chaves do carro e se preparou para sair.
Quando estava saindo, olhou para o bar, no canto da sala.
Percebeu que já não havia ali muitas garrafas.
Embora quase nunca bebesse, quando decorou o apartamento, colocou no bar algumas bebidas de todos os tipos, que fariam parte da decoração e que estariam lá para o dia em que fosse receber alguns amigos.
Todavia, esses amigos nunca vieram.
As garrafas ali permaneceram por longo tempo.
Agora, faltavam algumas, que ela mesma havia tomado.
Vou comprar as que estão faltando.
Não quero meu bar vazio.
Saiu em direcção ao endereço que havia anotado.
À rua ficava em um bairro bom, com belas moradias.
Estacionou o carro em frente a um prédio e subiu ao terceiro andar.
Foi recebida por uma senhora bem vestida e sorridente.
- Boa-noite.
Pode-se ver que é uma pessoa educada:
chegou na hora marcada.
- Boa-noite, dona Neide.
Tenho urgência em resolver um problema e penso que talvez possa me ajudar.
- Vamos ver. Entre, por favor.
Márcia entrou.
O ambiente ali era bem diferente daquele que encontrou na casa de dona Durvalina.
Aquele apartamento revelava que a pessoa que ali vivia era de posses.
Márcia perguntava-se:
Por que uma pessoa como essa se dedica a um trabalho desses?
Deve cobrar um preço alto, mas não faz mal:
pagarei o que for preciso.
Só quero Ronaldo de volta.
Dona Neide percebeu sua curiosidade, enquanto a encaminhava a uma sala nos fundos do apartamento, e disse:
- Parece não entender por que me dedico a um trabalho como este?
- Por favor, a senhora tem de me desculpar.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:28 pm

É que não entendo muito bem dessas coisas.
Nunca dei muita atenção, por isso estou surpresa.
- Não precisa se preocupar com isso.
Dedico-me a este trabalho já há muito tempo, há quase vinte anos.
Estou cumprindo minha missão aqui na Terra.
- Missão? Que missão?
- A de ajudar as pessoas que se encontram perdidas, sem um caminho para seguir.
- Consegue realmente isso?
- Na maioria das vezes, sim, mas depende muito da pessoa que me procura.
Ao ouvir aquilo, Márcia pensou:
Estou novamente falando com uma pessoa que vai querer me enganar.
Quando não conseguir me ajudar, vai dizer como dona Durvalina, que a culpa é minha.
Agora, não tenho como escapar.
Já que estou aqui, vou até o fim.
Vamos ver no que vai dar, mas desta vez, só darei dinheiro se houver garantia.
Chegaram a uma porta.
Dona Neide abriu-a e convidou Márcia para entrar.
Lá dentro, encontrou um ambiente acolhedor.
Ela, rapidamente, olhou tudo.
Havia uma mesa forrada com cetim branco.
Um incenso queimava sobre a estátua de alguém que Márcia não conhecia.
O incenso soltava um aroma suave e bom.
Sobre a mesa, cartas de baralho.
Flores e velas acesas de várias cores.
Márcia se impressionou com a paz que sentiu ali dentro.
Dona Neide percebeu seu espanto:
- Nunca esteve em um lugar como este?
Nunca consultou as cartas?
- Não, é a primeira vez.
Nunca me interessei pelo futuro, porque sempre soube como conduzir minha vida para que o futuro fosse do modo que quisesse.
Dona Neide apenas sorriu.
Mostrou a ela uma cadeira que estava em frente a ela e se sentou em outra que estava do outro lado.
As duas ficaram frente a frente.
A vidente fechou os olhos e com o baralho nas mãos fez uma espécie de oração.
Depois, embaralhou as cartas e pediu para Márcia que cortasse três vezes com a mão esquerda.
Márcia obedeceu.
A mulher pegou de volta as cartas e perguntou seu nome.
Márcia respondeu.
Dona Neide começou a colocar as cartas sobre a mesa.
Márcia acompanhava, em silêncio, todos os seus movimentos.
Depois de colocar as cartas, a mulher ficou apenas olhando, sem nada dizer.
Examinou, examinou e, finalmente, disse:
- A senhorita está com energias muito pesadas a seu lado.
Aqui não diz o que fez só mostra que mexeu com forças poderosas.
Essas forças agora estão cobrando sua parte.
Elas estão querendo que a senhorita pague tudo, perdendo aquilo que mais ama neste mundo.
O que você fez?
Márcia ficou impressionada.
Não falara a respeito de sua vida e aquela mulher não a conhecia.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 07, 2017 7:29 pm

Ela estava, mesmo, vendo as coisas?
- Não fiz nada.
Vim aqui porque preciso de ajuda.
O homem que mais amo está fugindo de mim!
- Qual é o nome dele?
- Ronaldo.
Dona Neide embaralhou novamente e pediu a Márcia que cortasse.
Em seguida, lançou as cartas sobre a mesa e, depois de analisá-las demoradamente, falou:
- Esse homem te ama sinceramente.
Encontraram-se porque precisam continuar algo que foi interrompido em outra vida.
Mas ele foi afastado por sua culpa.
Ele está distante, foi para outro país, mas, volto a dizer te ama muito.
Só sente medo, muito medo.
Está sofrendo demais.
- Algo que foi interrompido?
Outra vida? O que está dizendo?
- Vocês, em uma vida passada, tinham um compromisso, que foi interrompido contra a vontade dos dois.
Nesta vida presente, deveriam se encontrar e recomeçar de onde pararam só que você impediu que isso acontecesse por se deixar envolver por energias perigosas.
- Não estou entendendo nada do que está dizendo.
Preciso que ele volte.
Não poderei continuar vivendo sem ele.
- Que fez de mau?
Com que forças mexeu?
Que trato fez com essas forças?
Preciso saber para ver se posso ajudar.
Não se preocupe:
o que disser ficará só entre nós, não sairá deste quarto.
Ao perceber a indecisão de Márcia em contar, ela continuou:
- Preciso saber o que fez para ver se posso te ajudar.
Precisa confiar.
Foi para isso que veio até aqui.
Márcia começou a chorar e contou tudo sobre dona Durvalina.
Neide ouviu em silêncio.
Quando Márcia terminou, ela fechou os olhos e permaneceu orando.
Depois de algum tempo, abriu os olhos e disse:
- Quando desejamos o mal para alguém, não é necessário nem praticar, porque nosso pensamento tem uma força muito grande.
Com ele, podemos construir ou destruir.
Ao nosso lado, existem energias do bem e do mal e, infelizmente, você se envolveu com as do mal.
- Não sabia o que estava fazendo.
- No universo, existe uma Lei que comanda a tudo e a todos.
Essa Lei tem de ser obedecida e cumprida.
Desde que nascemos, aprendemos o que é certo e errado; por isso, quando fazemos o mal para alguém, sabemos o que estamos fazendo.
Foi avisada que pagaria cinquenta por cento, mas, mesmo assim, insistiu em continuar.
Agora, a cobrança chegou.
- Eu não sabia o que estava fazendo.
Não imaginei que a cobrança seria dessa forma.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:23 pm

Além disso, o trabalho não deu certo:
Osvaldo não voltou.
Não é justo pagar por algo que não consegui.
- Justo? O que é justiça para você?
Não deu certo, mas poderia ter dado.
Como estaria aquela família hoje?
Não deu certo, mas você teve a intenção de fazer o mal.
E isso foi o bastante.
Não precisaria de mais nada.
- Não posso pagar com aquilo que mais amo e de que mais preciso.
Deve existir um meio de tudo ser contornado.
Osvaldo deve estar feliz com sua família.
Eu quero ser feliz com Ronaldo.
Deve existir um meio.
Sinto que a senhora sabe como me ajudar.
Não se preocupe com dinheiro:
tenho muito e usarei até o último centavo se for preciso.
- Infelizmente, eu não faço trabalhos, só atendo à curiosidade das pessoas em relação ao passado, presente e futuro.
Dou conselhos, ensino simpatias, nada, além disso.
Não posso te ajudar.
E há mais uma coisa que preciso lhe dizer.
Do modo que está, será presa fácil para pessoas mal intencionadas.
Poderá gastar todo o seu dinheiro e não conseguir nada.
- Que está querendo dizer?
Não estou entendendo.
- Aprenda algo muito importante.
A mediunidade é um dom que nos é dado quando nascemos.
A todos. Entendeu bem? A todos.
Por isso, ela não deve ser usada para ganharmos dinheiro.
Em qualquer lugar a que for, preste atenção: se houver cobrança, saia de lá o mais rápido possível.
- Estou entendendo e aprendendo.
Da próxima vez, tomarei mais cuidado.
Mas a senhora deve conhecer alguém que possa me ajudar.
- Tenho uma amiga que possui um terreiro de umbanda.
Talvez os caboclos e pretos velhos possam te ajudar.
- Onde fica?
Preciso ir a qualquer lugar onde haja uma esperança de ajuda.
- Amanhã é terça-feira, o dia em que ela trabalha com os caboclos.
Vou te dar o endereço.
O trabalho começa às três da tarde.
Vá até lá.
Posso lhe garantir que, se existe alguém que pode te ajudar, é ela.
Não deixe de ir.
Está precisando, e muito.
Essas forças que estão com você são muito perigosas.
- Obrigada. Irei com certeza.
Quanto lhe devo?
- Não me deve nada.
Cobro, sim, das pessoas que aqui vêm por curiosidade, para saber do presente, passado e futuro, mas seu caso é diferente.
Precisa de uma ajuda muito forte.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:24 pm

As forças que estão ao seu lado, já lhe disse, são perigosas; não quero ter envolvimento algum com elas.
Márcia despediu-se da mulher.
Tinha de continuar procurando ajuda.
Nunca em sua vida pensou que existissem essas coisas e que elas pudessem fazer tanto mal.
Farias e Gervásio a esperavam à porta do apartamento de dona Neide, do lado de fora.
Tentaram entrar, mas alguma coisa os impediu.
Não sabiam o que era.
Não conseguiam ver a faixa de luz que estava na porta, impedindo-os de entrar.
Assim que Márcia abriu a porta e saiu, eles novamente a seguiram.
Ela sentia muita vontade de encontrar a cura para seus males.
Preciso encontrar um modo de me livrar de tudo isso.
Mas nem por um instante estou arrependida do que fiz contra Osvaldo.
Ele mereceu. Só sinto não ter dado certo.
Não posso aceitar o que está acontecendo comigo porque sinto que fui enganada, por isso não aceito ter de pagar e ele continuar feliz ao lado da esposinha.
Não posso aceitar e nem aceitarei nunca!
Naquela noite, também não dormiu bem.
Sentia algo que a sufocava, seu corpo não encontrava posição na cama.
Pela manhã, novamente acordou com dor por todo o corpo.
Levantou-se, e, enquanto tomava banho, pensava:
Já que o doutor Fernando me ofereceu alguns dias de folga, vou aproveitar.
Nunca tirei férias na empresa.
Sempre me preocupei demais com meu trabalho, mas agora preciso me preocupar com minha vida.
Não vou trabalhar a semana toda.
Até o fim da semana, tenho certeza de que estarei com tudo resolvido e com Ronaldo de volta.
Estava com a sensação de que havia sonhado muito, mas não lembrava o que fora.
Marluce, ao chegar para o trabalho, espantou-se em vê-la em casa.
- Bom-dia.
A senhora está doente?
- Não. Por que essa pergunta?
- Durante todo esse tempo que aqui trabalho, nunca vi a senhora pela manhã.
- Esta semana não vou trabalhar, tenho alguns problemas para resolver.
Durante a manhã, ficou andando de um lado para o outro.
Olhava no relógio a todo instante, estava ansiosa para ir até o tal terreiro.
Vou para ver como é.
Se lá houver alguma ajuda, vou buscar.
Sinto que encontrarei minha paz.
Às três horas em ponto, parou o carro em frente a uma casa.
O terreiro ficava em uma vila nos arredores da cidade.
Do lado de fora, a casa parecia ser grande.
Márcia notou que muitos carros estavam parados na rua.
Pelo grande número de carros aqui parados, parece que o lugar é muito bem frequentado.
Entrou um pouco desconfiada.
Farias e Gervásio a seguiram.
Foi encaminhada para os fundos da casa.
Lá havia um galpão enorme.
Na porta, antes de entrar, recebeu um pequeno cartão com um número.
Entrou. Várias pessoas estavam sentadas e outras separadas por uma pequena cerca de madeira pintada de branco.
No meio, havia uma espécie de portão.
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Ave sem Ninho

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:24 pm

As pessoas que estavam dentro do cercado, vestidas de branco, dançavam e cantavam ao som de um tambor.
As pessoas dançavam e rodopiavam, dando voltas.
Márcia acompanhava tudo.
Em frente ao altar, havia uma mulher vestida de branco, portando na cabeça um cocar de índio, feito com penas brancas.
Ela fumava charuto e começava a cantar as músicas, que eram seguidas pelos demais.
O som era envolvente.
Márcia estava se sentindo muito bem.
Farias e Gervásio também acompanhavam tudo com curiosidade.
Viram que a volta toda estava cercada por outros índios que não eram vistos pelas pessoas da plateia.
Na porta do cercado, havia dois que impediam que alguns espíritos entrassem.
Poderiam ser considerados os porteiros.
Farias nunca havia visto coisa igual.
Assustado, perguntou para Gervásio:
- Que lugar é este?
Quem são esses índios?
Que ela veio fazer aqui?
- Esta é mais uma das religiões que existem na Terra.
Chegou aqui por meio dos negros.
Hoje, é frequentada por pessoas de todas as classes sociais.
Márcia deve ter vindo aqui procurar ajuda.
- Eu era e sou católico.
Nunca quis saber de outra religião.
- Toda religião é boa, Farias, porque todas falam de Deus.
E todas pretendem que aqueles que as seguem encontrem o verdadeiro caminho.
As pessoas que se encontravam dentro do cercado cantavam e dançavam muito.
Uma a uma, deitavam-se em frente a um altar com muitos santos, velas e flores.
Batiam à cabeça, levantavam-se, deitavam-se em frente à mulher de cocar e batiam a cabeça novamente.
Ela os abençoava, fazendo o sinal da cruz em suas costas.
Márcia nunca havia visto algo igual, mas estava gostando daquele ritual, achando-o muito bonito.
Prestava atenção em tudo e percebeu que, conforme a música mudava de ritmo, as pessoas dançavam diferentemente.
As mulheres, com saias brancas e muito armadas, dançavam e rodavam sem parar.
Se não fosse uma religião, poderia ser um óptimo espectáculo para assistir.
Quase uma hora se passara e as pessoas continuavam dançando e cantando.
Márcia não estava cansada, ao contrário:
cada vez gostava mais de tudo que estava vendo.
De repente, a música parou.
A mulher com o cocar branco sentou-se em uma espécie de poltrona colocada em frente ao altar.
Uma das pessoas de branco chegou ao pequeno portão e chamou um número.
Uma senhora que estava sentada do lado de Márcia levantou-se e entrou, foi para junto da mulher de cocar e ajoelhou-se à sua frente.
Outros números foram sendo chamados, e as pessoas eram encaminhadas a outras pessoas que estavam vestidas de branco.
Chegou, então, a vez de Márcia.
Ela havia observado tudo e fez exactamente o que as outras pessoas fizeram antes dela.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:24 pm

Entrou e ajoelhou-se em frente à mulher do cocar, que soltou, sobre Márcia, uma baforada de charuto e perguntou:
- Que é que a fia veio fazer aqui?
Ela falava com um sotaque estranho, e Márcia sentiu alguma dificuldade para entender.
Uma moça que estava ao lado dela, percebendo sua dificuldade, repetiu:
- O pai quer saber o que a moça veio fazer aqui.
- Estou precisando de ajuda e me disseram que aqui eu encontraria o que procuro.
O caboclo falava e a moça repetia:
- A moça veio busca ajuda ou veio ajudar?
Márcia estranhou a pergunta:
- Não entendi...
Preciso de ajuda, vim buscar sua ajuda.
- Sabe, o dia que a fia deixa de pensa só nela, a vida da fia vai muda.
- Não estou entendendo o que está querendo dizer, só sei que hoje preciso de ajuda.
- Ta bem, fia.
Ocê sempre deixa tudo pra amanhã.
Há fia ta muito escura.
O anjo da guarda ta quase apagado e distante.
A fia afasto ele.
A fia faz muita maldade e ele num pode mais chega perto.
A fia agora ta sozinha, acompanhada só por aqueles qui quê vingança.
Márcia ouvia novamente quase as mesmas coisas.
Sentiu que ali também não encontraria ajuda.
- Sei o que fiz, mas preciso de ajuda.
Será que não vou encontrar em lugar algum?
- Fia, assim como as água do rio um dia chega ao mar; assim como há semente um dia nasce, cresce e leva as planta sempre pró alto; assim como o sol dorme pra lua acorda...
Assim também um dia o mal encontra o bem.
- Não estou entendendo.
- A fia tem que pedi Agô prós pai da fia.
Eles tão triste e distante.
Já ajudara muito a fia, mas ela num soube reconhece.
- Agô? O que é isso?
- Agô, fia, é perdão.
A fia tem que pedi perdão prós seus pai.
- Meus pais? Perdão?
Não posso fazer isso.
Meu pai já morreu e não sei onde está minha mãe.
- Pra esses também a fia tem que pedi perdão.
O pai já volto pra junto de Nosso Sinhô, mas a mãe a fia sabe sim onde ta.
To falando é dos outros pai da fia: Ogum e Oxum.
- Não estou entendendo nada mesmo.
Ogum? Oxum?
- Seu pai, fia, é Ogum.
Guerreiro e lutado.
Ele sempre ajudo a fia, abrindo todos os seus caminho.
Oxum é a mãe da fia.
Ela é Dona dos rio.
Ela deu pra fia muito ouro e beleza.
Agora tão triste e num vão ajuda mais.
Por isso, se a fia quisé di novo a protecção deles, tem que pedi Agô.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:24 pm

- Como faço isso?
- A fia vai pega um inhame, assa ele na brasa.
Quando tive bem mole, vai abri, o rega com bastante mel.
Vai numa istrada i oferece pra Ogum, pedindo Agô.
Depois vai pega um peixe bem grande, vai assa na foia da bananeira, enfeita com gema de ovo, vai à marge dum rio oferece pra Oxum, pedindo Agô.
- Não sei como fazer isso.
- Meu cavalo faíz.
É só traze tudo. Ela faíz.
- Quanto vou ter de pagar por esse trabalho?
- Meu cavalo num cobra nada.
Ela sabe que, se um dia cobra alguma coisa, eu me afasto e num volto nunca mais.
A fia só tem que traze as coisa.
- Se eu fizer isso, minha vida vai voltar a ser como antes?
- O caboclo num sabe.
Isso quem vai decidi é Ogum e Oxum.
A fia sabe que tem uma morte nas costa, num sabe?
Farias que acompanhava tudo à distância, porque um índio que estava na porta não o deixara entrar, levantou-se e falou, gritando:
- Ele vai contar Gervásio?
Ela agora vai ficar sabendo o que fez comigo?
Gervásio colocou a mão em seu ombro e fez com que voltasse a se sentar novamente.
Márcia assustou-se com aquilo:
- Morte? Eu?
Nunca matei ninguém!
- Pra mata num é preciso usa uma arma.
A fia mato e vai se alembrá agora.
A mulher olhou para Farias e jogou uma baforada em direcção à plateia.
A fumaça bateu em Farias e jogou-o ao lado dela e de Márcia, que, assustada com tudo o que ouvira, no mesmo instante pensou:
Farias? Será que ele está falando de Farias?
- O senhor está falando de Farias?
Eu não o matei.
Ele sofreu um acidente.
- Fia, a arma que se usa pra mata pode sé a boca.
Fia, pensa! Pensa muito!
Agora pode i fala com meu cavalo, e ela vai faze a comida de santo que eu pedi.
Márcia levantou-se e saiu dali, acompanhada por Farias.
Ela se lembrava da última vez que falou com ele.
- Será que ele não sofreu um acidente?
Será que ele se matou?
Falou com a pessoa que estava na porta:
- Ela mandou que eu falasse com seu cavalo.
Onde posso encontrá-lo?
- O cavalo é aquela com quem a senhora estava conversando.
Assim que o caboclo for embora, a senhora conversa com ela.
Márcia voltou para seu lugar e sentou-se novamente.
Farias também voltou.
Ela estava intrigada:
Como ele soube que eu mandei fazer aquele trabalho para Osvaldo?
E de Farias?
A mulher que fui visitar ontem à noite deve ter contado.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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