NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:25 pm

Isso tudo deve ser uma máfia. Vou embora.
Saiu dali sem olhar para trás.
Não vou fazer nada que ela mandou.
Farias...
Imagine se eu tenho alguma coisa a ver com sua morte!
Ele era um fraco, não soube lutar.
Farias, ao ouvir aquilo, ficou preso de muito mais raiva do que já tinha.
Diante do caboclo, ele quase a perdoara:
- Gervásio, não adianta:
não posso perdoar.
Ela é ruim mesmo.
Aproximou-se de Márcia e falou em seu ouvido:
- Você não tem jeito.
Até pensei em ir embora, seguir meu caminho e te deixar em paz, mas não vou.
Agora, você vai saber o que fez.
Vai se lembrar a todo instante.
Não vou permitir que esqueça.
A justiça vai ser cumprida!
Márcia entrou furiosa em seu carro.
Falou alto:
- Estou me deixando levar por crendices!
Eu, que sempre fui independente, que nunca precisei de nada nem de ninguém!
Ogum? Oxum?
Isso tudo é conversa para levar meu dinheiro!
Ligou o carro e saiu em disparada.
Farias, a seu lado, dizia:
- Vai perder tudo o que conquistou e usurpou.
Você vai ver!
Não está com vontade de beber? Eu estou!
Márcia dirigia sem prestar muita atenção ao trânsito.
Estava com muita raiva e ao mesmo tempo com muito medo de perder Ronaldo para sempre.
Não, não vou perder Ronaldo!
Deve haver e sei que vou encontrar uma solução.
Deve existir.
Ainda bem que me lembrei:
o bar lá em casa está quase vazio.
Vou comprar algumas bebidas.
Entrou em um supermercado, comprou várias garrafas de todo tipo de bebida.
Saiu carregando os pacotes.
Agora, meu bar estará novamente com as bebidas para qualquer gosto.
Quem quiser poderá me visitar, não passarei vergonha.
Mas quem viria me visitar?
Estas bebidas vão durar muito tempo.
Farias e Gervásio seguiam com ela.
Farias olhou para o amigo e, sorrindo, disse:
- Ela não sabe, mas essas bebidas vão durar muito menos do que pensa.
Vou convidar alguns amigos.
Hoje, naquele apartamento, vai haver uma festança!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:25 pm

A CAMINHO DO FIM
Assim que entrou no apartamento, Márcia foi para a cozinha ver se havia algo para comer.
Encontrou uma caixa com biscoitos.
Pegou alguns e foi para o quarto.
Tentou ler, mas não conseguiu.
Foi até a sala e, no bar, pegou a garrafa de um vinho da marca que, às vezes, gostava de tomar.
Encheu um copo e voltou para o quarto.
Não estava bem, algo estava faltando em sua vida.
Claro que não estou bem.
Como vou viver sem Ronaldo?
Farias, em suas costas, dizia, baixinho, em seu ouvido:
- Não pode mesmo viver sem ele.
A vida não vale mais nada para você.
É fácil: basta se matar!
Sempre foi sozinha, nunca confiou em ninguém.
Nunca gostou de alguém.
Não fará falta alguma.
Ela andava de um lado para o outro com o copo na mão.
Esticava os braços para cima, como se quisesse tirar um peso de suas costas.
Nada adiantava.
Tomou todo o vinho que havia no copo, foi para a sala e encheu outro.
À medida que bebia mais peso sentia em suas costas.
Lembrou-se de Farias e do que o índio tinha dito.
Não pode ser... Ele não se matou.
Mesmo que tenha se matado, a culpa não foi minha.
Eu, em seu lugar, teria enfrentado a família e teria dado uma surra em quem me estivesse chantageando.
Ele era mesmo um fraco. Um covarde!
Ao ouvir seu pensamento, Farias ficou furioso.
Saiu e foi procurar alguns amigos para a festa.
Gervásio tentou evitar, mas foi em vão.
- Vou destruir essa mulher.
Ela não presta.
Não tem um pingo de sentimento.
É má e calculista!
Saiu e voltou em seguida com outros espíritos.
Alguns já estavam embriagados, outros sentiam muita vontade de beber.
Começaram a rodopiar em volta de Márcia e sorviam o aroma de álcool que saía do copo e das garrafas.
Ela, desprotegida, cedeu a seus desejos e começou a beber sem parar.
Bebeu um copo atrás do outro.
A garrafa terminou, ela abriu outra, e agora já não bebia mais no copo, bebia no gargalo da garrafa.
Completamente embriagada, caiu sobre o tapete da sala.
Tudo rodava à sua volta.
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Via à sua frente Osvaldo, dona Durvalina, o caboclo e Farias.
Deste é que não conseguia se esquecer.
Ele, a seu ouvido, dizia, muito nervoso:
- Não vai me esquecer nunca mais.
Vou ser sua sombra!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:25 pm

Vai pagar muito caro por tudo o que me fez passar na vida e naquele vale infernal!
Só fui para lá por sua culpa.
É para lá que te levarei, para sentir tudo de horrível que senti!
Você vai se matar!
Vou lutar para que isso aconteça!
Está sozinha.
Continuará assim.
Não existe ninguém neste mundo para se preocupar com você ou que venha te ajudar.
Foi sempre tão egoísta que nunca conseguiu ter um amigo.
Está sozinha comigo.
Assim ficará até que eu consiga te levar ao suicídio!
Ele falava e ria como um alucinado.
Ela, meio adormecida, chegava quase a escutá-lo.
Não percebeu a noite passar.
Pela manhã, ao abrir a porta, Marluce assustou-se.
- Meu Deus do céu!
Que aconteceu aqui? Dona Márcia!
A sala estava toda revirada.
Em sua embriaguez, Márcia derrubara as coisas pelo caminho.
Marluce viu a patroa deitada no chão da sala e correu para socorrê-la.
Ao chegar mais perto, sentiu o odor de vinho.
Olhou tudo e viu as garrafas e copos espalhados por toda a sala.
O tapete, de um tom creme bem claro, estava agora todo manchado de vermelho.
Marluce tentou acordar Márcia, mas não conseguiu.
Decidiu levá-la ao banheiro.
Com muito esforço, conseguiu, colocou-a embaixo do chuveiro e abriu a torneira.
Conforme a água caía, Márcia ia despertando.
Chorava e falava coisas sem nexo para Marluce.
- Marluce, preciso te contar: eu não o matei.
Ele morreu de acidente.
E eu também não quis fazer mal para Osvaldo, só queria que ele não me abandonasse.
Quero Ronaldo de volta.
- Fique calma, dona Márcia.
Logo a senhora vai ficar boa.
Esse banho vai fazer bem.
- Não adianta. Nunca vou ficar bem.
Quero morrer. Não aguento mais esta vida!
- Que é isso, dona Márcia?
A senhora tem tudo:
este apartamento, um lindo carro, seu trabalho, todas aquelas roupas.
Que mais pode desejar?
- Nada disso adianta.
Perdi a única razão de minha vida.
Perdi o homem mais maravilhoso do mundo.
Quero morrer.
Marluce tem algum veneno aqui no apartamento?
- Claro que não!
Para que a gente ia ter veneno?
- Não faz mal.
Vou para a rua e vou comprar.
Vou tomar tudo de uma vez.
Assim, a morte vem depressa.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:25 pm

Dormirei para nunca mais acordar.
Marluce estava cada vez mais assustada.
A patroa parecia outra mulher.
Ficou com medo de que ela cumprisse aquilo que estava dizendo.
Ajudou Márcia a sair do banho, colocou-a na cama e foi para a cozinha preparar um café bem forte, que sabia ser bom para curar bebedeira.
Na cozinha, pensava:
Meu Deus, o que vou fazer se essa louca resolver mesmo se matar?
Preciso pedir ajuda, mas a quem?
Ela nunca falou de sua família.
Nunca ninguém a procurou.
Não tem amigos. Não tem ninguém.
Terminou de preparar o café, colocou-o em uma xícara e voltou para o quarto onde havia deixado Márcia.
Ela não estava mais na cama.
Marluce largou a xícara e saiu correndo em direcção à sala.
Márcia estava ali com uma garrafa nas mãos, bebendo no gargalo.
Marluce correu para ela.
Quis tirar a garrafa de suas mãos, mas não conseguiu.
Márcia empurrou-a com tanta violência que a fez cair no chão.
Ela se levantou chorando e olhou para um canto da sala, onde havia uma agenda de telefones.
Pegou a agenda e abriu-a.
Estava quase vazia, os poucos números anotados eram de pizzarias, supermercados e bancos.
Folheou desolada as páginas, até que viu um nome: Luciana.
Pegou o telefone e ligou.
Do outro lado, uma mulher atendeu:
- Quem é?
- Quero falar com dona Luciana.
- Sou eu mesma, pode falar.
- Desculpe eu estar telefonando.
Meu nome é Marluce e trabalho pra dona Márcia.
Ela não está bem.
Preciso de ajuda, mas a agenda de telefones não tem o número de ninguém da família, só o seu.
Lembrei que a senhora às vezes telefona para ela, por isso estou telefonando.
- Fez bem. Márcia não está bem?
O que ela tem?
- Não sei. Acho que precisa ir a um médico.
Daria para a senhora vir até aqui?
- Não se preocupe: já estou indo.
Fique ao lado dela e, se piorar, na agenda deve haver o telefone de algum pronto-socorro.
Dentro de meia hora estarei aí.
Desligou o telefone.
Marluce, também, largou o aparelho, olhando para Márcia, que, com a garrafa na mão, continuava andando de um lugar para outro, falando com alguém que só ela podia ver:
- Você tem razão: preciso morrer.
Não adianta mais ficar nesta Terra.
Quarenta minutos depois o porteiro chamou pelo interfone.
Estava avisando que dona Luciana acabara de chegar.
Marluce pediu que ela subisse.
Ao entrar no apartamento, Luciana ficou atónita.
Não conseguia acreditar que aquela que estava em sua frente era a mesma Márcia que conhecia.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:26 pm

Estava toda descabelada, andando cambaleante de um lado para o outro e falando coisas que não se conseguia entender.
Aproximou-se, segurou no braço de Márcia e disse:
- Márcia, que está acontecendo?
Por que está bebendo dessa maneira?
Márcia olhou para ela e começou a chorar:
- Luciana? Que está fazendo aqui?
Quem te chamou?
Vá embora, não quero te ver!
Não preciso de ninguém.
Só quero morrer...
Luciana tentou abraçá-la, mas não conseguiu.
Márcia se afastou, gritando:
- Não adianta! Não vou mais viver.
Quero morrer.
A vida é minha, faço com ela o que quiser!
Luciana, preocupada, sentou-se em um sofá e ficou olhando para a amiga.
O que estará acontecendo com ela?
Sempre foi muito fechada e reservada.
Todas as vezes que conversamos, sempre me pareceu estar muito bem.
Que vou fazer? Parece que ela não tem qualquer doença.
Está apenas embriagada.
- Marluce, não posso ficar aqui agora, preciso apanhar as crianças na escola.
Fique com ela, não a deixe sozinha.
No ritmo em que está bebendo, vai dormir logo.
Assim que eu deixar as crianças em casa, voltarei e veremos o que se pode fazer, mas não a deixe sozinha.
- Está bem, dona Luciana.
Vou ficar aqui de longe, só olhando.
Márcia, alheia à presença das duas, continuou bebendo sem parar.
Luciana saiu e Marluce, assustada, manteve-se distante.
Depois que fora jogada no chão, ficou com medo de se aproximar.
Como Luciana previra, em pouco tempo Márcia estava deitada no chão, dormindo profundamente.
Só então Marluce se levantou e foi até a cozinha preparar algo para as duas comerem, caso Márcia acordasse com fome.
Às duas da tarde, Luciana voltou.
Teria a tarde toda para tentar resolver o problema da amiga.
Jamais em sua vida pôde imaginar que algum dia a veria assim.
No trajecto entre sua casa e a de Márcia, lembrou-se dela na faculdade:
Que terá acontecido com ela?
Sempre foi uma menina extrovertida e brincalhona.
Estou me lembrando agora do dia em que a conheci e me aproximei dela na biblioteca.
Eu estava perdida, precisando de alguém para conversar.
Naquele tempo ela foi indispensável em minha vida.
Nós nos tornamos amigas e, quando Márcia precisou de um emprego, não pensei duas vezes para apresentá-la a meu pai.
Durante todo esse tempo, nos encontramos poucas vezes, mas sempre ouvi elogios a respeito de seu trabalho.
O que aconteceu para que ficasse nesse estado?
Quando Luciana entrou no apartamento, Marluce a recebeu com olhar preocupado e disse:
- Ela dormiu, acordou e agora está revirando todas as gavetas da casa procurando um revólver.
Disse que precisa morrer...
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:26 pm

- Ela tem algum revólver em casa?
- Não. Eu nunca vi.
- Assim é melhor.
Precisamos fazer algo para ajudá-la.
Não pode ficar sozinha.
Você pode dormir aqui?
- Não, meu marido trabalha de noite e não tenho com quem deixar as crianças.
- Também não posso.
Que vamos fazer?
- A senhora não acha que era melhor ela ir pro hospital?
- Não. Ela tem um cargo importante na empresa, ninguém pode saber que está se embriagando.
Temos de encontrar outra solução...
Já sei! Vou dar um telefonema.
Pegou o aparelho e discou.
- Sílvia, sou eu, Luciana.
Está tudo bem?
- Luciana! Há quanto tempo...
Comigo está tudo bem, mas sou eu que pergunto: o que te deu para me telefonar?
- Sei que hoje é dia de Marlene trabalhar em sua casa.
Ela ainda está aí?
- Está, sim, mas por quê?
Ela não vai à sua casa na sexta-feira?
- Sim, mas preciso da ajuda dela hoje.
Quero ver se ela pode fazer companhia a uma amiga minha que está doente e não tem ninguém para ficar com ela à noite.
- Vou chamá-la.
Marlene atendeu em seguida.
- Dona Luciana, sou eu.
Que está acontecendo?
- Tenho uma amiga que não está muito bem e precisa de alguém para ficar com ela durante a noite.
Pensei que talvez você aceitasse esse trabalho.
Sei que costuma fazer isso às vezes.
- Sabe como é trabalho nunca é demais.
Mas sabe que tem um problema...
- Sei qual é, mas não se preocupe, pode vir.
Ela está precisando de sua ajuda e acredito não ser só de companhia.
Estou desconfiada de que algo mais esteja acontecendo aqui.
- Está bem. Vou terminar meu serviço aqui e vou em seguida.
Qual é o endereço?
Luciana passou o endereço e o telefone.
Depois disse:
- Faça o seguinte:
apanhe um táxi e, assim que chegar aqui, eu pago o motorista.
- Está bem. Vou o mais rápido possível.
Luciana desligou, aliviada.
Olhou para Marluce, que acompanhou toda a conversa e estava aliviada também.
Márcia continuava bebendo e mexendo nas gavetas, em busca do tal revólver que graças a Deus não existia.
As duas a acompanhavam de longe, sem nada dizer.
Eram quase cinco da tarde quando Marlene chegou.
O porteiro interfonou avisando, e Marluce desceu com o dinheiro que Luciana lhe deu para pagar o táxi.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:26 pm

O porteiro estranhou todo aquele movimento no apartamento de Márcia.
Ela nunca recebia ninguém e, agora, aquele entra-e-sai.
Marluce conduziu Marlene até o apartamento.
Assim que entrou, Luciana veio recebê-la.
- Marlene, que bom que chegou.
Sei que vai poder ajudar muito.
Marlene notou que o bairro e o apartamento eram luxuosos.
Já na porta, parou e ficou olhando, calada. Luciana apressou-se:
- Está admirada com a beleza desta sala?
É porque não viu o resto.
A dona tem muito bom gosto.
Marlene, ainda parada perto da porta, não respondeu.
Olhava para a sala e via muitos vultos dançando e rodopiando em uma algazarra profunda.
Fechou os olhos e dali mesmo onde estava começou a orar:
- Senhor, meu Pai, proteja a pessoa que mora nesta casa.
Ela deve estar sofrendo muito mesmo.
Dê a oportunidade de se libertar dessas visitas.
Que Sua luz divina possa entrar e clarear toda a casa, principalmente a moradora.
Permita Senhor, que meu mentor possa estar aqui comigo para me intuir.
Imediatamente, ela foi envolvida por muita luz.
A seu lado, o vulto de um senhor sorridente pegou sua mão.
Ela sentiu sua presença e sorriu confiante.
Ao sentirem a luz e a presença, os vultos, assustados, pararam de rodopiar e desapareceram rapidamente.
Somente Gervásio e Farias permaneceram, parados e encostados em um canto da sala.
Farias nervoso, falou:
- Gervásio, não vou embora.
Estou aqui para exercer meu direito de vingança, direito esse que ganhei quando pedi justiça, direito esse que pela Lei não me pode ser negado.
Não vou aceitar essa intromissão.
Quem é essa mulher?
Quem é esse que a está acompanhando?
Que luz é essa?
Eles é que não podem continuar aqui.
Eles têm de ir embora.
Principalmente essa luz, que está me fazendo mal!
- Acalme-se.
- Como me acalmar?
Márcia é minha!
Tem de pagar por tudo.
Eles têm de ir embora.
Onde está a Lei?
- A Lei está aqui mesmo.
Até para os encarnados existe sempre um julgamento justo.
Se essa luz está aqui, é porque também, em nome da Lei, pediu permissão.
Não podemos exigir que vá embora.
- Que julgamento?
O que ela fez comigo não tem perdão!
Ela me destruiu!
- Acalme-se. Vamos esperar.
Farias ficou olhando para Marlene.
Ela continuava parada em oração e cercada de luz.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:26 pm

Quando terminou de rezar pedindo ajuda, ela abriu os olhos e percebeu que o ambiente estava praticamente limpo.
Viu Farias e Gervásio encostados na parede e sentiu o olhar de ódio que Farias lhe lançava.
Não demonstrou nenhuma emoção no rosto.
Entrou decidida e disse:
- Dona Luciana, onde está à moça que mora aqui?
- Agora está em seu quarto, revirando tudo para encontrar um revólver.
Estou muito assustada.
Receio que, embora fosse à última coisa que quisesse fazer, teremos de levá-la para um hospital.
Isso seria o fim de sua carreira na empresa.
Ela ocupa um cargo muito alto, não pode ser ligada à bebida.
Eles não aceitariam.
Marlene não disse nada, apenas acompanhou Luciana até o quarto de Márcia.
Ao chegar à porta, novamente parou.
Seu coração disparou ao ver a situação em que Márcia se encontrava.
Quis dizer algo, mas não conseguia tamanho foi o espanto que sentiu.
- Meu Deus, Pai todo-poderoso!
É ela?! Como pode estar nesse estado?
Márcia, seguida por Farias e Gervásio, que se anteciparam a Marlene, andava de um lado para o outro, com o cabelo todo despenteado, as roupas sujas de bebida.
Como se fosse um ímã, o olhar de Marlene atraiu-a.
Ela parou bem de frente a Marlene, falando-lhe:
- Mamãe?!
Que está fazendo aqui? Quem te chamou?
Não disse que nunca mais queria te ver?
Marlene, sem poder evitar as lágrimas, respondeu:
- Márcia! Márcia, minha filha.
Não se preocupe.
Logo mais vou embora.
- Vá embora agora mesmo.
Não quero a senhora aqui em minha casa!
Eu odeio a senhora!
Quantas vezes vou ter de repetir isso?
Tenho ódio! Ódio!
- Deve ter motivos para isso, mas neste momento precisa de minha ajuda, e eu não vou embora.
Márcia lançou-se sobre ela com muita fúria.
- Vá embora! Não quero a senhora aqui.
Não preciso da senhora!
Nunca precisei. Odeio-te!
Farias percebeu que nem tudo estava perdido.
Falava ao ouvido de Márcia:
- Isso mesmo: você a odeia.
Ela não presta. Mande-a embora.
- Vá embora! Não a quero mais aqui.
Eu odeio a senhora!
- Não se preocupe.
Vou embora, mas só depois que você ficar bem.
Deus é nosso Pai de bondade infinita, nunca nos deixa sem ajuda.
- Deus? Que Deus?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:27 pm

- O mesmo Deus que te deu a vida.
Que te dá todos os dias o sol e a lua.
Que te deu inteligência e um corpo perfeito.
Que agora me encaminhou até aqui.
- Tudo isso é besteira.
Esse Deus não existe.
Vá embora. Não quero ver a senhora nunca mais.
Saia daqui!
- Márcia. Sou sua mãe.
Eu te amo. Quero te ajudar.
- Não preciso de sua ajuda, nem de ninguém. Vá embora!
Marlene, enquanto falava, acompanhava com os olhos Farias que rodopiava em volta de Márcia, falando a seu ouvido:
- Não ligue para ela!
Você agora é minha.
Ninguém vai poder ajudar!
Márcia olhava com ódio e rancor para Marlene, que, envolvida pela situação, por um momento sentiu-se impotente.
De seus olhos, lágrimas desciam.
Sabia que, se aquele vulto estava tomando conta de sua filha, era porque ela mesma havia permitido.
Mais uma vez elevou seu pensamento a Deus.
Em voz alta, falou:
- Meu Deus de infinita bondade, sei que foi essa mesma bondade que me encaminhou até aqui.
Permita meu Pai, que eu consiga ajudar a esta minha filha, que um dia foi colocada em meus braços como uma criança.
Não consegui fazer com que ela entendesse o valor da vida que estava nos dando, porque eu mesma não entendia.
Mas hoje sei que, se estamos juntas nesta vida, é só por Sua vontade, meu pai.
Se ela atraiu sobre si um irmão vingador, é porque deve ter cometido um erro muito grande.
Senhor nos dê a chance de nos perdoarmos mutuamente e assim reencontrarmos Seu caminho.
Farias tentou se lançar sobre ela, mas não conseguiu, e a luz que a envolvia o arremessou para longe.
Encostado à parede, ele gritava:
- Não pode fazer isso!
Tenho autorização para estar aqui!
Ela é minha! Você não pode evitar!
Olhando firmemente para ele, Marlene respondeu:
- Sei meu irmão, que deve ter permissão para estar aqui, mas essa permissão não seria para ajudar Márcia?
Não seria para que ela retornasse ao caminho de nosso Pai?
Ao perceber que ela o via e ouvia, ele, assustado, falou:
- O que é isso? Que está falando?
Que está tentando fazer?
Não vim aqui para ajudar essa traidora!
Vim para levá-la comigo, para o mesmo lugar em que ela, com sua maldade, me lançou.
Não vou sair daqui!
Você não vai conseguir me afastar daqui!
Tenho permissão!
Estou exigindo a minha justiça!
Tenho esse direito! Essa é a Lei!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 08, 2017 7:27 pm

- A única Lei que conheço é a do amor e do perdão.
E é em busca dela que estou aqui neste momento.
Em nome de nosso Pai, peço-lhe que a busque também.
- Nunca! Não vou perdoar nunca!
Ela me destruiu, me lançou no pior inferno que possa existir.
Vou fazer o mesmo com ela.
Vai conhecer todos os horrores por que me fez passar!
- Que Deus te ilumine.
É só o que posso te desejar...
Márcia acompanhava aquelas palavras que sua mãe dizia para alguém que ela não via.
Marluce e Luciana também acompanhavam, impressionadas.
Ao vê-las ali, paradas, Márcia pegou uma almofada e atirou sobre elas, gritando:
- Saiam daqui, todas vocês.
Saiam daqui!
Marlene olhou para elas e fez um sinal para que saíssem.
Elas entenderam.
Luciana abraçou Marluce, saiu e fechou a porta.
Já fora do quarto, Marluce, tremendo, falou:
- Dona Luciana, o que é aquilo?
Com quem aquela mulher estava falando?
Ela é mais louca que dona Márcia.
A gente não pode deixar as duas sozinhas.
Não pode, não.
Ela disse que dona Márcia é filha dela?
Foi isso que entendi?
Ela é mãe de dona Márcia?
Não pode ser. Dona Márcia não tem família.
- Como você, também estou abismada com tudo isso.
Conheço Márcia há muito tempo e nunca soube que tinha mãe ou família, mas não devemos nos preocupar com isso agora.
O importante é que precisamos ajudá-la.
Se existe alguém que pode fazer isso, esse alguém é Marlene.
Ela sabe o que está fazendo.
Vamos ficar aqui fora.
Só então se lembraram da menina que veio acompanhando Marlene.
Ela estava sentada em um sofá.
Luciana aproximou-se:
- Lenita, sua avó está lá dentro cuidando de uma moça que está muito doente.
Vá com Marluce até a cozinha, ela vai te dar um lanche.
Lenita, com os olhos presos à escada que levava para o andar de cima, e ao quarto de Márcia, parecia não a ouvir.
Levantou-se do sofá e dirigiu-se em direcção à escada e ao quarto.
Luciana tentou evitar, mas ela a olhou de uma maneira firme, que a fez parar.
Enquanto isso, Marlene, dentro do quarto, continuava em oração pedindo ajuda para aqueles dois irmãos que estavam ali, em luta.
- Meu Pai, sei que tudo acontece por Sua vontade, mas, neste momento, estou pedindo ao Senhor que, se houver uma chance para ajudar os dois, que essa chance seja dada.
Enquanto ela pedia, a porta se abria.
Lenita entrou e dirigiu-se à cama onde Márcia se debatia.
Colocou sua pequena mão nos cabelos de Márcia, que, ao vê-la, parou e ficou olhando como se estivesse vendo um anjo.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:31 pm

- Que está fazendo aqui?
Você é uma criança, não pode me ver neste estado.
Vá embora!
- Não vou embora, gosto muito da senhora.
Sempre a achei a moça mais bonita do mundo.
Não quero ver a senhora tão feia assim...
Márcia olhou para Marlene e para a menina.
Parou de gritar e abriu os braços para Marlene, falando em lágrimas:
- Mamãe! Mamãe!
Perdoe-me por tudo que fiz e me ajude...
Ajude-me, mamãe...
Preciso da senhora, me ajude.
Preciso de seu Deus...
- Estou aqui e vou ficar até que fique completamente boa e encontre seu caminho.
O meu Deus, que é também o seu, vai ajudar a gente, sim.
Pode acreditar:
Ele não abandona nunca seus filhos e não vai abandonar a gente agora...
Marlene, chorando muito, a abraçou e puxou Lenita.
As três ficaram abraçadas.
Marlene disse:
- Obrigada, meu Deus, por este momento e por esta nova chance.
Ajude-nos a encontrar o caminho do perdão e do amor.
No mesmo momento, uma luz muito forte tomou conta de todo o quarto.
Do meio dela, surgiu a figura de Damião.
Aproximou-se das três e, sorrindo, lançou sobre elas mais luz.
Farias, que a tudo assistia, gritou:
- Damião! Damião!
Que bom que chegou.
Essa mulher está tentando evitar que a justiça seja feita!
Está tentando evitar que a Lei seja cumprida!
Ela não pode fazer isso, pode?
Damião olhou para ele e, sorrindo, disse:
- Não, meu irmão, ela não pode.
O único que pode é você, dando seu perdão.
- Perdão? Nunca!
Quero e exijo meu direito de justiça!
Você disse que era a Lei.
Quero ver essa mulher comigo, lá no inferno que me lançou!
Não vou perdoar nunca!
- Tem certeza do que está falando?
Quer mesmo a justiça?
Não vai aproveitar este momento para perdoar?
- Não vou perdoar nunca!
Quero a justiça!
Tenho esse direito!
- Sendo assim, nada posso fazer.
Tem razão, A justiça tem de ser feita.
Venha comigo.
Marlene, emocionada e envolvida pelo abraço de Márcia e Lenita, não percebeu a presença de Damião.
Damião partiu, acompanhado por Gervásio e Farias.
Chegaram à frente de um enorme prédio.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:31 pm

Farias ficou encantado com tão grande beleza.
- Que lugar é esse?
- Preciso presidir um julgamento.
Você vai me ajudar e aprender como é que se realiza.
Vamos entrar?
- Não estou entendendo, mas, se for para que possa fazer justiça, irei a qualquer lugar.
Entraram. Dentro, havia uma sala e um corredor comprido, onde havia várias portas, parecendo um grande hospital.
Um jovem aproximou-se para recebê-los:
- Olá, Damião, novamente aqui?
- Olá, Duarte.
Sim, estou mais uma vez aqui.
Este é Farias nosso irmão.
Ele quer que a Lei seja cumprida.
Está aqui para exercer seu direito de justiça.
Antes, porém, tenho de presidir, julgar e decidir o destino de alguns irmãos.
Trouxe Farias para que me ajude nesta missão.
- Seja bem-vindo, Farias.
Nada mais agrada a nosso Deus do que a justiça cumprida.
Venha comigo.
Damião olhou para Gervásio, dizendo:
- Meu irmão, quero lhe agradecer por tudo que fez, mas agora pode deixar por nossa conta.
Farias poderá me ajudar a dar a sentença para nossos irmãos e depois fazer com que sua justiça seja cumprida.
Você pode voltar ao vale.
Lá deve haver outro irmão precisando de sua ajuda.
- Está bem, vou agora mesmo.
Farias meu amigo, que Deus te ilumine e te dê o que realmente precisa para ser feliz.
- Tenho certeza de que agora serei feliz.
Vou fazer cumprir a justiça e aquela mulher vai ter o que merece.
Gervásio olhou para Damião e Duarte, sorriu e foi embora.
Duarte, acompanhado por Damião e Farias, entrou em uma sala.
Parecia um cinema, com uma imensa tela e poltronas confortáveis.
Sentaram-se.
Damião disse:
- Bem, meu irmão, vamos agora assistir a um filme.
- Não quero assistir a filme algum.
Quero saber o que tenho de fazer para que a Lei seja cumprida.
- O que acha que deve fazer para que a Lei seja cumprida?
- Quero que aquela traidora perca tudo o que conseguiu.
Quero que seja desmoralizada.
Quero que se mate para ir morar naquele vale infernal!
- A justiça está em suas mãos.
Mas, antes, preciso presidir esse julgamento.
É no momento a minha prioridade.
Após assistirmos a este filme e você me ajudar na sentença, cuidaremos de seu caso.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:31 pm

O FILME
A tela se iluminou, e uma longa estrada apareceu.
Por ela, em disparada, vinha um cavalo branco.
Montado sobre ele, um cavaleiro.
O cavalo parou, o rosto do cavaleiro ficou em evidência na tela.
Do alto do morro, o cavaleiro olhava para uma casa grande que ficava no sentido contrário.
Olhou para a estrada e para o vale que o separava da casa e pensou:
Preciso me apressar para poder chegar e dar meu consolo.
Elas devem estar desesperadas.
Continuou cavalgando.
Olhava tudo: a enorme lavoura onde o verde do café se fazia notar, as imensas terras.
Ela deve estar sofrendo muito, preciso ficar a seu lado.
Cavalgando, desceu o vale e começou a subir o morro que o levaria até a casa.
Quando chegou ao topo, pegou uma estrada que se estendia até a casa.
Parou com o cavalo em frente a uma escadaria próxima à porta de entrada da casa.
Desmontou, olhou para cima, avistou duas mulheres vestidas de preto e subiu os degraus rapidamente.
A mais nova, sorrindo timidamente, estendeu a mão para que ele a beijasse, dizendo:
- Cássio! Seja mais uma vez bem-vindo à nossa casa.
Infelizmente, hoje o dia é de muita tristeza.
Mas eu sabia que em uma hora como esta você não nos deixaria sozinhas.
Enquanto beijava a mão que lhe fora estendida, Cássio respondeu:
- Boa-tarde, Virgínia. Como está?
E você, querida Elvira?
Posso imaginar como está se sentindo.
Não consigo acreditar que isso realmente aconteceu.
- Menino, que bom que veio! - disse Elvira.
Estou muito triste mesmo.
Sabe o quanto gostava dele.
Assim como a todos vocês também considerava Renato um filho.
- Sei disso.
E eu o considerava um irmão.
Ontem, pela manhã fomos eu e meu pai, até a cidade.
Quando terminamos de fazer as compras, encontramos um amigo, e ele nos levou para sua casa.
Ficamos ali conversando e, quando percebemos, já era muito tarde para voltar.
Ele nos convenceu de que não deveríamos viajar durante a noite.
Então, resolvemos pernoitar ali.
Hoje pela manhã, terminamos de fazer as compras e voltamos.
Assim que chegamos, recebemos a notícia.
Soubemos que André esteve ontem lá em casa, mas não nos encontrou.
Vim imediatamente, nem troquei a roupa com que viajei.
Ainda não acredito no que ocorreu.
Se soubesse que Renato também iria até a cidade, iríamos juntos e isso não teria acontecido.
Não me perdoo por não estar com ele.
Elvira, emocionada, disse:
- Não pense assim. Nada poderia evitar esse infeliz acontecimento.
Tudo o que acontece tem sempre à vontade e a permissão de Deus.
- Como a invejo querida Elvira.
Gostaria de poder sentir essa fé que você possui nesse Deus.
Se Ele realmente existe, é muito cruel.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:31 pm

Se assim não fosse, não teria afastado Renato de nossa presença de uma maneira tão estúpida.
- Não fale assim, menino.
Deus sempre sabe o que faz.
- Acredito ser bom que pense assim.
Com certeza, aceitará e entenderá com muito mais facilidade do que eu.
Por mais que queira aceitar, não consigo me conformar.
Ele era tão jovem, tinha uma vida inteira pela frente.
Tinha Juliana e Helena.
Foi uma grande perda.
Não tenho palavras.
Estou muito preocupado com Juliana.
Como ela está?
Virgínia recolheu a mão que havia estendido.
- Pode imaginar.
Como todos nós, recusa-se a acreditar.
Está lá dentro.
Não diz nada, apenas chora baixinho, mas quem a conhece percebe o quanto está sofrendo.
Muito obrigada por ter vindo.
Acompanhe-me, estão todos na sala.
Juliana gostará muito de vê-lo.
Ele, abraçado a Elvira, a seguiu.
Seus olhos percorriam tudo.
Chegaram a uma grande sala, no centro da qual havia uma mesa com uma urna funerária.
Ao lado da urna, encontrava-se uma bela moça, que chorava baixinho.
Cássio aproximou-se e tocou em seu ombro, fazendo com que ela se voltasse.
- Sinto muito, Juliana.
Estou aqui para ajudar no que for preciso.
Sabe que poderá contar sempre com minha presença e ajuda.
Amo-a como se fosse minha irmã e queria muito bem a Renato.
Estou muito triste e nem sei o que dizer.
- Cássio, meu querido amigo.
Muito obrigada por sua presença.
Sempre tive a certeza de sua amizade, mas não sei explicar o que estou sentindo hoje.
Um sentimento de perda muito grande.
Sabe o quanto eu e Renato éramos unidos e o quanto nos amávamos.
- Sei o quanto está sofrendo, mas tudo na vida passa, e essa dor passará também.
Elvira diz que Deus é que sabe das coisas.
Virgínia aproximou-se e abraçou Juliana.
- Juliana, minha irmã, você está aí em pé há muito tempo.
Acredito que seja melhor ir descansar um pouco.
Não se preocupe, atenderei a todos que chegarem.
- Tem razão, estou cansada mesmo.
Não sei como estaria neste momento se não fosse à amizade de vocês.
Vou tomar um banho e ver se consigo descansar um pouco.
- Isso mesmo, minha irmã, vá e fique tranquila, não se preocupe com nada.
Juliana, com um sorriso forçado, se afastou.
Cumprimentou algumas pessoas e se dirigiu a seus aposentos.
Antes, passou pelo quarto de sua filha, que dormia tranquilamente.
Helena, minha filha, em sua inocência, não está percebendo a grande perda que sofremos neste dia.
Não sei como conseguirei continuar vivendo daqui para frente.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:32 pm

Nossa vida será muito triste.
Gostaria de ir com ele, mas preciso continuar vivendo por você.
Helena abriu os olhos.
Ainda meio adormecida, viu sua mãe a seu lado e sorriu:
- Mamãe, sonhei que papai está lá no céu.
É verdade?
- É, sim, minha filha.
Ele está no céu.
Olhando por nós.
A menina voltou a dormir.
Juliana cobriu-a, beijou sua testa e foi para seu quarto.
Dentro do quarto, olhou para sua cama, arrumada como sempre.
Tudo está igual:
os móveis, as cortinas...
Mas estou sentindo este enorme vazio.
Como nossa vida pode mudar tão de repente?
Ontem mesmo nos amamos aqui, nesta cama, e fizemos promessas de amor eterno.
Oh, meu Deus, o que acontecerá comigo e com minha filha?
Como poderemos viver sem ele?
Renato era nossa fortaleza, nosso porto seguro.
Deitou-se na cama.
Seus olhos estavam vermelhos do muito que havia chorado, mas agora não havia mais lágrimas.
Sentia um aperto muito grande no coração.
Seu pensamento voltou ao passado:
Estou lembrando-me o dia em que o conheci.
Veio acompanhado por Cássio, nosso bom vizinho e amigo de infância.
Cássio tem dois anos a mais do que eu, e Virgínia, minha irmã, tem um.
Crescemos juntos.
Quando pequenos, estudamos com os professores que papai e o pai de Cássio contrataram.
Sempre fomos muito unidos.
Estou me lembrando, agora, o dia em que Cássio chegou triste em casa, quando havia completado dezoito anos:
- Não sei o que fazer, estou muito triste.
Eu e Virgínia não entendemos, porque ele era sempre muito alegre e espontâneo.
Perguntei:
- Que aconteceu?
Por que está assim?
- Papai comunicou-me que chegou à hora de ir estudar na França.
Ele quer que eu tome conta da fazenda e acredita que para isso preciso estudar fora.
Insisti para ficar aqui, mas ele está inflexível.
Eu e Virgínia ficamos muito tristes.
Lembro que disse:
- Vamos sentir sua falta, mas seu pai deve ter razão.
Para ele também deve estar sendo difícil ficar sem sua presença.
- Não sei, não.
Às vezes, penso que ele não gosta de me ver.
Acredito que me culpe pela morte de mamãe.
Por isso quer que eu vá embora para bem longe.
- Cássio! Pelo amor de Deus, nem pense nisso!
Seu pai sabe que você não teve culpa, sabe que sua mãe morreu porque tinha uma doença que contraiu antes de engravidar.
Sabe que ela, mesmo sabendo que morreria e, breve, quis deixar para ele um filho.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:32 pm

Por isso, todos sabemos que ele é louco por você.
Tenho certeza de que ele só está querendo seu bem.
- Juliana, você, às vezes, me parece tão ingénua.
Acredita que o mundo é feito só de pessoas boas.
Meu pai não me tem nenhum afecto, tenho certeza.
Por isso, preciso mostrar a ele que saberei cuidar de tudo que nos pertence.
Nunca lhe darei um desgosto.
- Não posso acreditar nisso.
Ele é um homem muito bom, só está querendo seu bem e está mandando-o estudar fora para que realmente se instrua.
Se não gostasse de você, ele o deixaria por aí, trabalhando no arado, sem se preocupar com seu futuro.
Após alguns dias, ele foi embora.
Um dia antes de viajar, veio para se despedir de mim e de Virgínia.
Saímos andando pelo campo.
Em um dado momento, ele parou e pegou em nossas mãos, dizendo:
- Vou embora, mas não quero que me esqueçam.
Vou estudar muito para poder voltar logo.
Ele chorava, e nós duas o acompanhamos no pranto.
Eu e Virgínia continuamos aqui, aprendendo o que era necessário a uma mulher:
costurar, pintar, bordar e tocar piano.
Quando ele foi embora, sentimos muito sua falta.
Durante todo o tempo em que esteve fora, nós nos correspondíamos frequentemente.
Ele nos contava como era a faculdade, seus amigos.
A princípio foi difícil, mas com o tempo ele se acostumou.
Quatro anos se passaram até recebermos a notícia de que ele estava voltando.
Como eu e Virgínia ficamos felizes!
Nosso melhor amigo estava retornando!
Preparamos uma pequena festa de boas-vindas.
Ele retornou e veio a nossa casa, acompanhado por Renato.
Conheceram-se na França, onde haviam estudado juntos.
Os dois desceram dos cavalos, e Cássio foi o primeiro a falar:
- Bom dia, meninas.
Finalmente, voltei.
Podem imaginar como estou feliz.
Este é Renato, meu amigo.
Está aqui passando férias.
Renato, estas são Juliana e Virgínia, minhas amigas de infância e moradoras desta bela fazenda.
- Lembro quando nossos olhos se encontraram...
Eu tinha vinte anos e nunca havia me apaixonado.
Não sei explicar o que senti naquele momento.
Meu coração começou a bater descompassado.
Por mais que quisesse, não conseguia desviar meus olhos dos dele.
Era como se um ímã nos atraísse.
Ele também, mais tarde, me confessou que sentira o mesmo.
Aproximou-se, eu, timidamente, estendi minha mão.
Ele a segurou levemente e a beijou.
Senti como se um fogo imenso atingisse todo o meu corpo.
Retirei a mão bruscamente.
Não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo muito forte se iniciara naquele momento.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:32 pm

Entramos em casa.
Percebi que os olhos de Virgínia brilharam ao vê-lo.
Ela providenciou um lanche, que foi servido na varanda para nós quatro.
Cássio estava entusiasmado com as mudanças encontradas na fazenda.
Alegremente, nos contou sobre o tempo em que esteve estudando.
Renato apenas sorria, concordando, e não desviava seus olhos dos meus.
Um pouco embaraçada, eu respondia às perguntas de Cássio:
- Juliana, seu pai não se encontra aqui?
- Não, ele foi até a cidade fazer algumas compras. É uma pena.
Ele teve urgência de ir, mas voltará ainda hoje.
Tenho certeza de que gostaria muito de conhecê-lo.
- Não faltará oportunidade; já que estamos em férias, poderemos vir todos os dias para passear.
O que acham?
Virgínia respondeu:
- Creio ser uma óptima ideia.
Somos sozinhas, e, embora nos demos muito bem, é sempre bom termos companhias diferentes para nos distrairmos.
Daquele dia em diante, começamos a nos ver todos os dias.
Pela manhã, Cássio e Renato chegavam cedo, tomávamos café e saíamos para cavalgar pelos arredores da fazenda.
Às vezes, íamos até a fazenda de Cássio e conversávamos com seu pai.
Embora eu quisesse lutar contra, o que sentia por Renato era mais forte.
Uma tarde, quando Virgínia e Cássio saíram para ver um bezerro que havia nascido, Renato falou:
- Juliana, preciso falhar-lhe.
Não sei qual será sua reacção, mas não posso mais evitar.
Desde que a vi, senti que é a mulher que amo e quero para minha esposa.
O que me responde?
Quer se casar comigo?
Comecei a tremer.
Embora eu também sentisse algo muito forte por ele, não pensei que seria daquela maneira.
Fiquei sem saber o que responder, apenas olhei em seus olhos por alguns minutos e desviei meu olhar em seguida, sem nada dizer.
Ele falou com tristeza:
- Vou interpretar o seu silêncio como uma negativa.
Perde-me, pensei que também sentisse algo por mim.
- Eu sinto! Eu sinto...
Só que não pensei que você sentisse o mesmo que eu.
Você me pegou de surpresa.
Não estou negando seu pedido, só estou surpresa.
- Então, quer dizer que aceita ser minha esposa?
- Acredito que sim...
Também sinto algo muito forte entre nós.
Só penso em você, o dia inteiro e, à noite, sonho que estamos juntos.
Acredito que isso seja o amor.
Só que precisamos falar com meu pai.
Não sei qual será sua reacção.
- Não se preocupe com isso:
falarei com ele e farei com que entenda.
Falarei do amor que sentimos um pelo outro e, com certeza, ele entenderá.
Quando terminou de falar, beijou-me suavemente nos lábios.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:32 pm

Senti como se estivesse voando.
Senti vontade de sair mostrando para o mundo como estava feliz.
Estávamos sorrindo um para o outro, quando Virgínia e Cássio voltaram.
Ao nos ver daquela maneira, Cássio perguntou:
- Posso saber o que está acontecendo aqui?
- Nada está acontecendo, meu amigo.
Apenas pedi Juliana em casamento e ela aceitou.
- Em casamento?
Não sabia de seu interesse por ela.
- Acredito ter me apaixonado desde o primeiro momento em que a vi.
Não comentei antes porque precisava saber se ela também sentia o mesmo por mim.
Agora que tive a resposta, estou muito feliz.
O mais importante é que ela me aceitou, porque me ama também.
Agora, só preciso pedir permissão a seu pai.
Virgínia aproximou-se, me beijou e disse:
- Embora, assim como Cássio, eu esteja surpresa, quero cumprimentá-la.
Espero que seja muito feliz.
- Obrigada, minha irmã.
Sempre soube que podia contar com você.
Cássio ainda insistiu:
- Conhecendo o pai de Juliana muito bem, acredito que não vai se opor.
Ele já está velho e quer ver a filha protegida, de preferência por um casamento.
Só exigirá que ela permaneça aqui a seu lado.
Mas... E seu pai, Renato?
Acredita que ele aceitará?
Sabe muito bem que o mandou estudar para que continuasse à frente das empresas.
Ele aceitará sua mudança para a fazenda, abandonando tudo que planejou para sua vida?
- Cássio, realmente isso será um problema, mas sei também que nada poderá me separar de Juliana.
Quanto a viver nesta fazenda, se essa for à vontade do pai dela, eu aceitarei.
Nada entendo de fazendas, mas sei que aprenderei.
A única coisa que quero é permanecer ao lado de Juliana para sempre.
- Sendo assim, só posso desejar aos dois muitas felicidades.
E torcer para que tudo dê certo.
- Obrigada, meu amigo, sei que dará certo.
O amor que sentimos será mais forte que tudo.
Virgínia disse:
- Vamos selar este feliz acontecimento com um jantar.
Assim, Renato poderá fazer o pedido oficialmente.
Aplaudimos a ideia de Virgínia.
Ela mandou preparar um jantar bem do gosto de papai.
Cássio e Renato chegaram juntos.
Vieram muito bem vestidos e Renato não conseguia esconder sua felicidade.
Quando terminamos de jantar, passamos para a sala onde o café seria servido.
Assim que nos sentamos, Renato disse:
- Senhor Olavo, sei que não me conhece muito bem, mas, desde que aqui cheguei me apaixonei por sua filha Juliana.
Hoje, tomei conhecimento de que ela sente o mesmo por mim.
Por isso, queria pedir sua permissão para que possamos nos casar.
Papai olhou para mim.
Eu somente sorri e abaixei os olhos.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:33 pm

Ele perguntou:
- Minha filha, é isso mesmo que deseja? Quer se casar?
- É isso o que desejo. Também amo Renato.
Ele prometeu que, se for sua vontade, após o casamento continuaremos vivendo aqui.
- Sendo assim, se pretendem continuar vivendo aqui, só posso abençoar essa união e que Deus lhes dê muita felicidade.
Renato agradeceu a meu pai e beijou minha mão.
Virgínia e Cássio nos cumprimentaram, já planeando a festa de nosso casamento.
Eu estava feliz como nunca estivera antes.
Amava Renato e sabia que seríamos felizes.
Naquela noite, ele se despediu, dizendo que iria para sua casa falar com seus pais.
Fiquei ansiosa, esperando.
No fundo, tinha medo de que eles não aceitassem.
- Irei até lá e conversarei, contando tudo o que aconteceu.
Sei que será difícil, porque meu pai tinha planos diferentes para meu futuro, mas direi que a amo e que minha vida não terá sentido sem você a meu lado.
Ele era de uma família rica da capital.
Não conhecia a vida do campo.
Seu pai, um industrial famoso, possuía várias tecelagens.
Mandou-o estudar na França para que tomasse conta de suas empresas.
Meu pai, quando veio da Itália, instalou-se aqui, onde nasci e fui criada.
Amo tudo neste lugar, mas, se fosse preciso, embora meu pai ficasse triste, eu acompanharia Renato para qualquer lugar.
Uma semana depois do pedido de casamento, Renato voltou.
Trazia o rosto abatido.
Chegou, beijou minha mão, cumprimentou meu pai e disse:
- Infelizmente, não consegui convencer meu pai.
Ele não aceita meu casamento com outra moça que não seja aquela que ele próprio escolheu.
Além disso, está me cobrando por tudo que gastou em meus estudos para que eu continuasse cuidando de suas empresas.
Senti que a terra faltava sob meus pés.
Não conseguia falar, meu pai foi quem me socorreu:
- Bem, preciso saber como ficaram as coisas.
Veio até aqui para dizer que não vai mais se casar com minha filha?
- Não, senhor.
Ao contrário:
disse a meu pai que a amava e que me casaria com ela, com ou sem seu consentimento.
Ele não aceitou, dizendo aos gritos:
- Se é isso o que quer, assim seja, mas vou ter de fazer algo que jamais imaginei que um dia faria.
A partir de hoje, não o considero mais meu filho, por isso não me chame mais de pai e deserdo-o de todos os meus bens!
- Ele saiu da sala em que conversávamos e não me dirigiu mais a palavra, não me deixando alternativa alguma.
Renato nos contava tudo com a voz embargada, quase chorando.
Olhei para meu pai, que assentiu com a cabeça.
Aproximei-me de Renato e, segurando suas mãos, beijei-o no rosto, dizendo:
- Como ele pôde fazer isso?
Não sabe o quanto você o ama e respeita?
- Ele lutou muito para ter tudo que tem por isso nada justifica que eu lhe desobedeça.
Meu casamento foi um tipo de contrato feito com um seu amigo; queriam os dois que nossas famílias se unissem para que as fortunas aumentassem.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:33 pm

- E a moça, o que pensa a respeito disso?
- Ela apenas aceitou o que o pai lhe impôs, mas na realidade, também não me ama.
Acredito que esteja feliz por minha recusa, assim ficará livre de um compromisso não desejado.
Em tudo isto só existe um problema: para ficar com você, Juliana, ficarei sem dinheiro.
Meu pai me deserdará e não me dará mais um centavo.
Nada entendo a respeito da vida no campo, mas, se me aceitar como seu esposo e o senhor como seu genro, garanto que aprenderei.
Meu pai olhou para mim e para ele, sorriu e disse:
- Aqui existe muito trabalho, e tenho o necessário para vivermos muito bem.
Se o que querem é casar e construir uma família, eu aceito.
Só quero a felicidade de minha filha.
Casamos um mês depois.
A cerimónia foi simples, mas eu era a mulher mais feliz do mundo.
Virgínia e Cássio foram nossos padrinhos.
Embora, no começo, Renato nada entendesse do campo, assim que casamos começou a se dedicar e a amar tudo aqui.
Nunca mais quis voltar para a cidade.
Seu pai não lhe perdoou por haver casado e abandonado tudo.
Por isso o deserdou e nunca mais quis sua presença diante dele, nem mesmo quando Helena nasceu.
Mesmo assim, fomos sempre muito felizes.
Papai morreu quando Helena estava com dois anos.
Foi a primeira grande perda que senti, mas Virgínia, Cássio e Renato estiveram sempre a meu lado.
Hoje, sei que papai está no céu e, com certeza, recebendo meu Renato.
Não entendo como esse acidente pôde ter acontecido.
Ontem pela manhã, Renato, despediu-se.
Iria até a cidade próxima fazer umas compras para a fazenda.
Abraçou-me, dizendo:
- Meu amor, preciso ir, mas volto à noitinha.
Sabe que não gosto de deixá-la sozinha.
- Vá com Deus, e não se esqueça de trazer um presente para Helena.
Sabe como ela fica sempre ansiosa por sua volta.
- Claro que não esquecerei e trarei algo para você também.
Vocês são os tesouros de minha vida...
Ele foi sozinho.
Sempre que fazia essa viagem, levava um empregado da fazenda com ele, mas, nesse dia, resolveu ir só.
Havia muito trabalho com a colheita do café.
Por isso, todos os empregados eram necessários.
O dia passou normalmente.
Fiquei cuidando de meus afazeres.
Após o almoço, li uma história para Helena, em seguida ela dormiu e fui pintar minha tela.
Depois da família, o que mais adoro são minhas telas.
Adoro pintar paisagens do campo e da natureza.
Assim relembrando, Juliana sentiu um aperto no coração e a vontade de chorar voltou.
Enxugou as lágrimas, sabia que precisava ser forte.
Foi até uma penteadeira, na qual havia um espelho.
Olhou para seu rosto e percebeu que seus olhos estavam vermelhos.
Reflectido no espelho, viu um quadro na parede, uma pintura feita por um artista local:
ela e Renato sorriam felizes.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:33 pm

Sorriu ao lembrar do dia que os dois posaram para o artista.
E pensou: Éramos tão felizes.
Não consigo aceitar que tudo terminou.
Ontem, quando Renato não voltou fiquei apreensiva e disse para Elvira:
- Elvira, estou nervosa.
Renato não voltou até agora, e ele não costuma demorar tanto.
- Também estou preocupada, menina.
Não será melhor mandar alguém refazer o caminho que ele costuma seguir?
- Creio que sim.
Chame André, ele conhece o caminho como ninguém.
Peça a ele que leve dois ou três homens junto.
Estou com um pressentimento muito ruim.
- Farei isso agora mesmo.
Mas não se preocupe:
se Deus quiser, nada aconteceu.
Vamos confiar. Volto já.
Saiu apressada da sala e voltou em seguida, acompanhada por André:
- Pois não, senhora.
Estou aqui, o que quer que eu faça?
- Quero que percorra o caminho que o senhor Renato costuma fazer.
Vá com mais alguns homens, olhem tudo.
Ele não chegou até agora, estou preocupada.
- Pode deixar senhora.
Vou encontrá-lo, nem que para isso tenha de ir até a cidade.
André saiu e fiquei mais calma, pois sabia da dedicação dele para com Renato.
Fiquei esperando com a certeza de que ele encontraria meu marido.
Duas horas mais tarde, ele voltou.
Vinha montado em seu cavalo e, em um outro, Renato estava deitado sobre a sela.
Eu vi pela janela quando chegaram.
Corri para fora, gritando:
- Que aconteceu, André?
Por que o está trazendo assim deitado sobre o cavalo?
- Sinto muito, senhora.
Ele está morto...
- Morto? Como morto?
Que aconteceu?
- Não sei. Nós o encontramos deitado no meio da estrada.
Quando cheguei perto, notei que estava morto.
Examinando, percebi que sua mão estava preta e que nela havia uma marca.
Acredito que tenha sido picado por uma cobra.
- Cobra? Picado por uma cobra?
Ele nunca se deixaria picar por uma cobra!
- Não sei como aconteceu, senhora, mas, pelo estado de sua mão, só pode ter sido uma cobra.
Será melhor mandar chamar o doutor João Pedro, ele poderá dizer se é picada de cobra ou não.
Doutor João Pedro, o médico de nossa família, foi chamado.
Após examinar o corpo de Renato, principalmente sua mão, declarou:
- Juliana, a marca que ele tem em sua mão é mesmo uma picada de cobra, e das mais venenosas.
Sua morte foi quase instantânea.
Foi um terrível acidente.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:33 pm

- Não pode ser...
Ele não se deixaria picar por uma cobra.
- Mas foi o que aconteceu.
Não resta a menor dúvida.
Fiquei intrigada, sem poder acreditar.
No começo, Renato nada entendia da vida no campo, mas, após alguns anos, tornou-se um especialista, apaixonou-se por tudo.
Depois da morte de papai, passou a comandar tudo na fazenda.
Agora também isso não importa mais.
O certo é que ele está morto e que seu corpo logo mais será levado para o cemitério.
E eu vou ficar sozinha.
Não sei como vai ser minha vida.
Ainda bem que tenho Virgínia e Cássio para me consolar.
Eles me ajudarão a tocar minha vida para frente.
Helena é ainda muito pequena, será difícil explicar a ausência do pai, mas Deus me ajudará.
- Juliana posso entrar?
- Claro que pode minha irmã, estou apenas recostada.
- Já está quase na hora do enterro, você precisa voltar para a sala.
- Para ser sincera, não gostaria de ir.
Não suporto a ideia de vê-lo partir para sempre, mas sei que tenho de cumprir todas as formalidades.
- Também estou sentindo muito, mas não há outra maneira.
Tudo tem de ser feito dentro dos conformes.
É tudo muito triste, mas Deus é quem sabe de nossas vidas.
- Às vezes, penso que Deus não é justo.
Por que levar meu marido, tão belo e forte?
Por que nos deixar aqui sozinhas, eu e Helena?
- Nunca vamos entender os propósitos de Deus, mas vocês não estão sozinhas.
Estou e estarei sempre com você.
Vou ajudá-la a criar Helena.
Ela é muito pequena ainda, mas, com o tempo, tudo passará e ela será uma linda moça, você verá.
- Obrigada, Virgínia.
Nunca duvidei disso.
Mas vamos, não podemos retardar o inevitável.
Por favor, fique a meu lado.
- Claro que ficarei, mas procure ficar calma.
Vamos acordar Helena? Antes de vir para cá, passei por seu quarto e ela estava dormindo profundamente.
- Acredito ser melhor não a acordarmos, Virgínia.
Ela não precisa presenciar um momento tão doloroso para todos nós.
- Tem razão.
Vamos, sei o quanto está sofrendo, mas não esqueça nunca que sempre estarei por perto.
Juliana levantou-se e de seus olhos lágrimas insistiam em cair.
Não podia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo.
Seu marido, seu amor, estava indo embora para sempre.
Com lágrimas correndo pelo rosto, falou:
- Virgínia, nunca pensei que isto pudesse acontecer.
Pensei que envelheceria ao lado de Renato.
O que vai ser de minha vida?
Não estou me sentindo com toda essa força.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:33 pm

Tenho vontade de me deitar e dormir para depois acordar e ver que tudo foi um sonho ruim, nada mais que um sonho ruim...
- Infelizmente, a realidade é outra.
Não é um sonho. Vamos...
Entraram na sala.
Juliana olhou para a mesa onde estava o corpo de Renato e sentiu um aperto muito grande no coração.
As lágrimas corriam soltas.
Olhou à sua volta e falou para Virgínia:
- Embora tenham sido avisados, ninguém da família dele compareceu.
Será que nem na hora de sua morte conseguiu ser perdoado por ter me amado?
Será que seu pai nem agora lhe perdoará?
Meu Deus, como isso pode acontecer?
- Agora não é hora de se preocupar com isso.
Esqueça todos. Simplesmente, despeça-se de seu marido.
- Tem razão, Virgínia.
Nada agora é mais importante que isso.
Dirigiu-se para o centro da sala.
Olhou para o rosto de Renato, que estava tranquilo.
Olhou para seus cabelos.
Passou a mão por seu rosto e chorava baixinho, enquanto pensava:
Meu amor, não sei como conseguirei viver sem você, mas que Deus leve sua alma para o céu, onde deve ser seu lugar.
Continuarei vivendo para terminar de criar nossa filha.
Sei que um dia estarei a seu lado.
Adeus, meu amor.
Cássio, que se encontrava ao lado da urna mortuária, abraçou Juliana, dizendo:
- Minha amiga, está tudo terminado.
Agora temos de levá-lo.
Depois que tudo isto terminar, você tem de descansar e recomeçar sua vida.
Estou e estarei sempre com você.
- Sei disso, Cássio.
Sei que você e Virgínia estarão sempre a meu lado.
- Pode ter sempre esta certeza.
Agora, afaste-se para que a urna possa ser fechada.
Juliana beijou o rosto de Renato e, chorando, se afastou.
A urna foi levada para o cemitério que havia dentro da própria fazenda.
Renato foi enterrado ao lado do pai e da mãe de Juliana.
Após as cerimónias finais, as pessoas foram se despedindo.
Todos os amigos presentes podiam notar nos olhos de Juliana a enorme dor que estava sentindo naquele momento.
Virgínia permanecia a seu lado, abraçando-a e consolando-a.
Aquele gesto era admirado por todas as pessoas que ali se encontravam.
Depois que todos foram embora, Juliana dirigiu-se até a sepultura, dando um último adeus a seu marido, que fora tão querido e que a fizera tão feliz.
Cássio e Virgínia permaneceram olhando à distância.
Após algum tempo, Juliana retornou, e os três voltaram juntos para casa.
Ao chegarem, encontraram Helena brincando com uma boneca.
A babá estava com ela.
A menina alheia a todo o sofrimento que os demais sentiam ao ver a mãe, correu para seus braços.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:34 pm

Juliana recebeu-a de braços abertos e cobriu-a de beijos.
Cássio, logo depois, se despediu.
Virgínia dirigiu-se a seus aposentos.
Juliana, com a menina no colo, embalava-a com todo o amor que podia dar.
Seu coração doía ao imaginar que aquela pequena não conseguia perceber a grande perda que havia tido.
- Mamãe, onde estão todas aquelas pessoas que estavam aqui?
Onde está papai?
Juliana sentiu um enorme desejo de chorar, mas sabia que não podia.
Agora, só lhe restava à filha, que era ainda muito pequena e não entenderia.
Respondeu:
- Todas as pessoas foram embora.
Papai foi fazer uma viagem muito longa, mas nós duas nunca o esqueceremos, está bem?
- Uma viagem?
Por que ele não se despediu de mim?
Sempre que ele viaja, despede-se.
E na volta sempre me traz um presente.
Desta vez ele também vai me trazer um presente?
Juliana não suportou.
Abraçou-a e, com o rosto banhado de lágrimas, mas escondido por trás da cabeça da menina para que ela não notasse, falou:
- Quando ele voltar, trará um lindo presente, não se preocupe.
A menina percebeu que a voz da mãe estava diferente.
Colocou seu rostinho bem em frente ao de Juliana e disse:
- Mamãe, por que está chorando?
Está com dor de cabeça?
Juliana sorriu, enquanto respondia:
- É, filhinha, estou com dor de cabeça, mas logo vai passar.
Agora, vamos tomar um lanche?
- Não estou com fome, não.
Elvira me deu um lanche, mas se a mamãe me quiser vou junto tomar um pouco de leite, assim a mamãe come também.
Juliana abraçou e beijou a filha, pegou-a no colo e as duas foram para a cozinha.
Ela mesma queria preparar o lanche.
Embora não estivesse com fome, sabia que precisava de algum alimento, mesmo que fosse só uma fruta ou um copo de leite.
Depois daquele dia, Juliana continuou sua rotina, embora sentindo um profundo vazio dentro de si.
As pessoas que a conheciam puderam notar um profundo abatimento em seu rosto, mas todos sabiam se tratar do enorme sofrimento que estava sentindo pela falta do marido, morto tão jovem e de uma maneira tão inesperada.
Em uma manhã, Cássio estranhou o facto de seu pai não levantar.
Foi até seu quarto e encontrou-o deitado aos pés da cama.
Mandou chamar o médico, mas não adiantou: seu pai partira.
Cássio ficou arrasado.
Blasfemou contra Deus:
- Se é que existe mesmo, por que é tão mau?
Por que nos tira sempre as pessoas que mais amamos?
Eu o odeio!
Juliana aproximou-se:
- Não fale assim.
Seu pai foi um excelente homem.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 09, 2017 7:34 pm

Conseguiu tudo o que quis na vida.
Você deve continuar de onde ele parou.
Ele a abraçou e chorou muito.
O tempo passou. Fazia já mais de um ano que Renato morrera.
Cássio chegou quando Juliana estava na sala arrumando as flores de um vaso.
Ela estendeu a mão para que ele beijasse, enquanto falava:
- O que o traz aqui tão cedo, Cássio?
- Preciso falar com você.
É um assunto sério, mas não posso mais protelar.
Tem de ser hoje.
Juliana sorriu, falando:
- Meu Deus! Por sua expressão, o assunto é sério mesmo!
Pode falar, estou ouvindo.
- Bem... Não sei como começar...
Juliana, ainda sorrindo, disse:
- Que tal pelo começo?
- Bem... Faz mais de um ano que Renato partiu, agora acredito poder contar a você algo que guardo há muito tempo.
Quando voltei do exterior, meu desejo era chegar aqui e contar-lhe tudo, mas você se apaixonou por Renato e se casaram.
Senti que minhas esperanças haviam terminado.
- Que está querendo dizer?
Não estou entendendo.
- Agora que tomei coragem, não me interrompa, por favor.
Vou falar tudo de uma vez.
Juliana ficou calada, olhando para o amigo de tantos anos.
Ele continuou:
- Desde criança, sempre fui apaixonado por você.
Quando adulto, sabia do interesse que havia por parte de nossos pais para que nosso casamento fosse realizado.
Quando fui estudar fora, não deixei de pensar em você um momento sequer.
Minha intenção era voltar e pedir-lhe em casamento, porém foi tarde.
Perdi-a para Renato, mas agora ele não está mais aqui e posso novamente acalentar esse sonho.
Quer se casar comigo?
Juliana, assustada com aquela declaração, arregalou os olhos para ele, perguntando:
- O que é isso, Cássio?
Nunca pensei que sentisse por mim algo que não fosse amizade.
- Sei disso, mas sempre senti.
Sempre a amei desde que éramos crianças.
Quero me casar com você. O que responde?
Ela, sem jeito, meio sem saber o que fazer, respondeu:
- Não sei, nunca esperei ouvir de você algo como isso.
Não posso me casar com você e com ninguém, principalmente com você, que sempre considerei um irmão.
A amizade que sinto por você é maior que qualquer coisa e não gostaria de estragar algo tão bonito.
Sinto muito, mas não posso me casar, não por enquanto.
Trago ainda, dentro de mim, muita saudade de Renato.
Não sei se algum dia isso passará, mas sei que nunca poderei me casar com você.
É meu amigo. Por favor, esqueça que me falou isso.
Também esquecerei.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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