NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 8:21 pm

Almoçamos juntos.
Desde aquele dia, passamos a nos encontrar sempre na hora do almoço, começando assim uma amizade.
Essa amizade foi crescendo e em uma tarde ele me acompanhou até minha casa e ali naquele ambiente acolhedor começamos a nos beijar e acabamos na cama.
Desse dia em diante, nasceu algo entre nós e até agora estamos juntos, cada um respeitando o espaço do outro.
Nunca tivemos problemas.
Sempre soube que ele era casado, mas, como eu não queria um marido, aquilo não me incomodava.
Almoçávamos juntos todos os dias.
Algumas vezes na semana, após o trabalho, ele ia até minha casa, ficava algumas horas e ia embora.
Mas às quartas-feiras era sagrado: saíamos, jantávamos fora e ele ficava até a madrugada.
Assim já se passaram quase sete anos.
Por todo esse tempo que estamos juntos, sempre sendo amigos e confidentes, é que estou estranhando sua atitude.
Afastou os pensamentos e resolveu que não iria para casa.
No dia anterior, não se sentiu muito bem ali.
Ver sua mãe no televisor fez com que se lembrasse de seu passado e não gostava de fazê-lo.
Jantaria fora, só depois iria embora.
Precisava pensar em tudo o que estava acontecendo.
Por mais que quisesse, não conseguia esquecer a figura de sua mãe em toda aquela miséria.
Preciso descobrir uma maneira de ajudá-la sem que para isso seja preciso aparecer e compartilhar de sua companhia.
Não entendo por que sinto essa rejeição por ela. Não é normal.
Se contasse a alguém, com certeza me recriminariam, porém esse sentimento é mais forte que eu.
Nunca senti nada por ela.
Convivi o tempo que fui obrigada, mas agora não!
Ela que fique bem longe da minha vida!
Parou o carro em frente a um restaurante famoso por sua boa comida.
O manobrista aproximou-se, ela lhe entregou o carro e entrou.
O gerente veio recebê-la na porta e mostrou-lhe vários lugares que estavam vagos.
Ela escolheu uma mesa que ficava em um canto um pouco isolado.
Sempre que estava sozinha, preferia um lugar mais discreto, assim evitava olhares de homens também desacompanhados.
Sentou-se, folheou o menu e fez seu pedido.
Ficou esperando enquanto bebericava um refrigerante.
Olhou à sua volta e pela primeira vez não se sentiu bem por estar sozinha.
Vários casais com crianças também frequentavam o local.
Olhando um jovem casal sentado à sua frente, notou o esforço que a moça fazia para alimentar um bebé sentado em uma cadeira alta.
O marido, a seu lado, carinhosamente a ajudava.
Os dois riam de cada gracinha que a criança fazia.
Olhando aquela cena, pensou:
Tenho hoje tudo que desejei e posso ter tudo que desejar, mas terá valido a pena?
Estou aqui neste restaurante de luxo, sozinha, com trinta e quatro anos, não tenho marido nem filhos... será que agi certo?
Claro que agi.
De que me adiantaria ter um homem a meu lado e um bando de crianças para me dar trabalho?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 8:22 pm

Devo estar carente nestes dias.
Estou pensando em coisas que nunca foram alvo de minhas preocupações.
Minha mãe tinha um marido e dois filhos e uma vida infeliz.
Pior ainda está hoje.
De que adiantou tanto sacrifício?
De que adiantou ter tido filhos?
Não! Recuso-me a continuar pensando nisso!
Minha vida está muito boa da maneira como está!
Pensava assim, quando olhou para a porta e viu um casal entrando com duas crianças.
Sentiu um aperto no coração, ao mesmo tempo em que ficava vermelha de ódio.
Era Osvaldo, acompanhado da esposa, que ela conhecia por foto e as crianças, uma de oito anos e outra de mais ou menos quatro anos.
Nervosa, pensou: Que estou vendo aqui?
A primeira é a menina, que eu sabia de sua existência, mas e o menino?
Ele nunca disse que tinha outro filho.
Ao contrário:
dizia sempre que seu casamento era só de aparência, que não tocava na mulher havia muito tempo e que entre eles não havia mais nada.
Disse que o desinteresse aconteceu logo após o nascimento da menina.
Por que ele mentiu?
Por que está me evitando!
Osvaldo, sorrindo para a esposa, puxou a cadeira para que ela se sentasse.
Assim que ela se sentou, beijou seus cabelos e foi ajudar as crianças.
Márcia acompanhava tudo sem acreditar no que estava vendo.
Ele sempre mentiu?
Parece muito apaixonado.
Não existe desinteresse.
Ao contrário... em seus rostos pode-se ver muita felicidade.
Sentiu o sangue subir.
A raiva estava estampada em seu rosto.
Assim que ele se sentou, ficou de frente para ela, que o estava matando com os olhos.
O olhar foi tão forte e penetrante que ele, sem saber por que, olhou em sua direcção.
Ao vê-la, ficou branco como cera.
Não sabia o que fazer.
Sua esposa nada percebeu, pois estava atendendo ao filho menor, perguntando-lhe o que queria beber.
Márcia, completamente descontrolada, levantou-se.
Ele, com medo de que ela fizesse um escândalo, começou a tremer.
Ela passou por ele e saiu sem nada dizer ou fazer.
Ele, finalmente, serenou e começou a conversar com a esposa.
Sabia que a situação era grave, mas naquele momento era a única coisa que poderia fazer.
Do lado de fora, Márcia pediu seu carro.
O garçom que havia tirado o pedido veio atrás dela.
- Senhorita, aconteceu algum problema?
Foi feita alguma coisa que a desagradou?
- Não... desculpe... não estou me sentindo muito bem.
Tirou uma nota da carteira e deu a ele, que agradeceu e voltou para dentro.
O manobrista trouxe seu carro, ela entrou e saiu em disparada.
Seu corpo todo tremia de raiva e ódio.
Falava em voz alta:
- Ele está me evitando.
Eu, tola, pensando que estava com algum problema.
Problema nada!
Está é muito feliz com a esposinha e aquelas crianças idiotas.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 8:22 pm

FORÇAS DESCONHECIDAS
Chegou ao prédio e estacionou o carro.
Subiu até seu apartamento, abriu a porta e entrou correndo sem olhar para nada, só querendo arrumar um modo de se vingar.
Seu corpo tremia.
Não o amo, mas ele nunca poderia ter feito isso comigo.
Quem pensa que é para me tratar assim?
Não me conhece.
Se conhecesse, não se atreveria.
Mentiroso! Canalha!
Verá do que sou capaz!
Nunca em sua vida havia sido tão humilhada.
Ela, a poderosa, que conseguiu tudo que sempre quis, estava ali sendo enganada.
Nunca poderia admitir.
Com raiva, foi até o bar, pegou uma garrafa de vinho e começou a beber sem parar.
Não estava acostumada a bebidas alcoólicas e logo sentiu que suas pernas estavam amolecendo e sua cabeça ficando vazia.
Só via em sua frente à figura dele, todo carinhoso com a esposa e os filhos.
Falava em voz alta:
- Canalha! Não tinha intimidades com a esposa. Não a amava.
Ele só tinha a menina, como foi que aquele menino nasceu?
Tomou quase toda a garrafa.
Com muita dificuldade, foi até o quarto e deitou-se vestida do modo que chegara.
Ao deitar-se, sentiu a cama balançar como se estivesse em um navio.
Começou a rir daquele movimento e segurou-se com medo de cair.
Nunca havia bebido tanto e tão depressa, por isso para ela, aquela situação era estranha.
Ria e chorava de raiva.
Lembrou-se novamente de sua mãe, e aí, sim, chorou muito.
Adormeceu sem perceber.
Sonhou com coisas boas e ruins misturadas.
Estava em um lugar muito escuro e frio e ao mesmo tempo em outro quente e com muita luz.
Encontrou no sonho muitas pessoas que não conhecia.
Quando acordou, pela manhã, já passava das onze horas.
Pela primeira vez estava muito atrasada e chegaria tarde ao trabalho.
O telefone tocou e ela sentiu uma forte dor de cabeça com o barulho.
Com muito custo, atendeu.
Era sua secretária.
- Bom-dia, dona Márcia, sou eu.
Liguei para saber se aconteceu alguma coisa.
A senhora não chegou para a reunião e estamos todos preocupados.
Ela se sentou melhor na cama e pensou:
A reunião? Como fui me esquecer!
Respirou fundo e disse:
- Não passei bem à noite e acordei só agora.
Estou com muita dor de cabeça, não vou trabalhar hoje.
Vou até o médico ver o que está acontecendo.
Avise a todos, por favor.
- Está bem.
Não precisa se preocupar.
Cuide-se.
Espero que não seja nada sério.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 8:22 pm

- Não deve ser.
Talvez uma gripe, estou com um pouco de febre.
Mas não se preocupe.
Cuide de tudo em minha ausência.
Desligou o telefone.
Sua cabeça parecia que ia estourar.
Foi até o banheiro, colocou a banheira para encher.
Enquanto a banheira enchia, desceu.
Queria ir para fora, ver como estava o dia, a piscina e também olhar a cidade.
Quando voltava para o quarto, ouviu vozes que vinham da cozinha.
Dirigiu-se até lá.
Era sua empregada, que conversava com outra pessoa.
- Pois é, menina.
A mulher é boa mesmo.
Ela fala tudo que está se passando com a gente.
Depende do trabalho.
Ela faz o bem, mas se precisar faz o mal, também.
- Tem certeza de que é verdade, Francisca?
- Claro que tenho.
Ela me falou tudo de Valtinho:
o jeito que ele é e por que não consegue emprego.
Ela é boa mesmo.
Rita foi lá e conseguiu separar Rui da mulher dele, e ele está com ela agora.
- Não acredito!
É verdade mesmo?
Ao ouvir aquilo, Márcia entrou na cozinha.
- Bom-dia. Posso saber do que estão falando?
Sua empregada, ao vê-la em casa, ficou desconcertada, não sabia como se desculpar por estar com uma pessoa estranha acompanhando-a.
Sabia que Márcia não gostava disso.
- Dona Márcia, a senhora não foi trabalhar?
Esta é minha amiga, Francisca.
Ela veio me ajudar, porque preciso ir ao médico.
Sabe como é: médico público, não se pode perder a hora.
- Está bem, Marluce, não se preocupe.
Ouvi alguma coisa sobre uma mulher que faz trabalhos para ajudar em nossos problemas.
Que mulher é essa?
Onde ela mora?
- Não liga, não, dona Márcia.
Isso é história de Francisca.
Não tem o que falar e fica falando bestagem.
Francisca, recém-chegada do Nordeste, era humilde, mas muito falante.
Retrucou:
- Bestagem, nada, dona.
A mulher é boa mesmo.
Descobre tudo, até o que a gente está pensando.
- Tudo isso que ouvi que ela fez é verdade mesmo?
- Claro que é dona.
Ela faz qualquer coisa que a gente quiser.
- Onde ela mora?
- Mora lá pelos lados de São Miguel.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 01, 2017 8:22 pm

- Como faço para falar com ela?
- Tem de marcar hora.
Ela atende muita gente.
- Como faço para marcar hora?
Francisca olhou para Marluce, que fez um sinal com a cabeça dizendo que não, mas ela se fez de desentendida e continuou:
- Quer saber mesmo a verdade, dona?
Hoje a gente não vai a nenhum médico, não.
A gente vai é até a casa da mulher.
A gente marcou hora com ela já faz um tempão.
Se a dona quiser, pode ir junto.
Quem sabe ela atende à senhora também!
Marluce empalideceu.
Ficou com medo da reacção de Márcia.
- Está bem, vou com vocês.
A que horas precisam estar lá?
- Às quatro da tarde.
Por isso vim ajudar Marluce.
Senão, não ia dar tempo.
- Vou sair um pouco e lá pelas duas horas estarei de volta.
Retirou-se da cozinha.
Foi para o banheiro, tomou um banho, vestiu-se e saiu sem rumo.
Não tinha para onde ir.
Não estava acostumada a ter os dias livres.
Andou por várias ruas.
Resolveu ir até uma loja comprar algumas roupas.
Precisava fazer algo para que o tempo passasse.
Almoçou no restaurante aonde ia sempre com Osvaldo.
Ele, naquele dia, não estava lá, o que a deixou mais nervosa ainda.
Se o encontrasse, talvez me desse uma explicação.
Quem sabe aconteceu algo que o fez tomar essa atitude.
Preciso encontrar um modo para falar com ele.
Mas como farei?
Ele não me telefona, nem atende os meus telefonemas.
Estava ansiosa para conhecer a tal vidente.
Enquanto dirigia rumo a seu apartamento, ia pensando:
Como será essa mulher?
Nunca fui a um lugar como esse.
Aliás, nunca fui a lugares voltados a coisas espirituais, nem mesmo segui uma religião.
Não acredito em religião, qualquer que seja.
Às vezes chego a pensar:
será que existe realmente um Deus?
Às duas da tarde, voltou, abriu a porta e entrou na sala.
Tudo, como sempre, estava em ordem. Foi até a cozinha e lá estavam as duas terminando de preparar o jantar.
Francisca acabara de colocar verduras e legumes em uma travessa.
Quando Márcia chegasse, à noite, teria só de temperar.
Marluce estava terminando de lavar a louça. Márcia perguntou:
- Já terminaram?
- Quase tudo, dona Márcia.
- Está bem, Marluce.
Vou tomar um banho e trocar de roupa.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:10 pm

Logo estarei pronta e poderemos ir.
Tomou um banho rápido.
Colocou uma roupa simples.
Enquanto se trocava, ia pensando:
Devo estar louca, para ir a um lugar como esse.
Bem, não custa nada. Será só por curiosidade.
Quem sabe eu consiga descobrir o que realmente está acontecendo?
Preciso ir bem simples.
Ouvi dizer que essas pessoas cobram muito caro por qualquer serviço.
Se ela descobrir que tenho dinheiro, vai querer me explorar.
Foi até a cozinha.
As duas estavam prontas e esperando.
Foram juntas para a garagem.
Márcia, querendo evitar constrangimento no elevador, pois empregados não podiam descer pelo social, pediu a elas que fossem na frente.
Ela desceria em seguida.
Quando chegou à garagem, as duas estavam encostadas no carro, esperando.
Embora Márcia usasse um carro da empresa, de último tipo, possuía um veículo próprio, um modelo desportivo, muito bonito.
Ela trocava de carro todos os anos.
Com o antigo como entrada e uma pequena diferença, estava sempre com o carro do ano.
Olhando para as duas, falou:
- Vamos ao carro pequeno.
O da empresa não pode ser usado para assuntos particulares.
Elas não entendiam aquelas coisas.
O que queriam mesmo era andar naquele carro, o que nunca pensaram que um dia poderia acontecer.
Entraram e Márcia saiu dirigindo.
Pegaram a Marginal e, assim que apareceu a placa de São Miguel, Francisca disse:
- A senhora pode entrar aí.
E seguir sempre em frente.
Márcia não falou nada durante o trajecto.
As duas iam conversando, apreciando a paisagem que todos os dias viam, mas de dentro de um ônibus.
Para elas, agora, de dentro do carro tudo parecia diferente.
Márcia dirigiu muito tempo por uma estrada recta, não prestou atenção ao nome.
Em determinado momento, Francisca falou:
- A senhora pode entrar à esquerda no próximo farol.
Márcia foi seguindo as instruções.
Desde que saíram da Marginal, ela percebeu que o bairro começou a mudar de aparência, mas agora a mudança era maior:
as casas e pessoas eram muito pobres.
Sentiu um arrepio no corpo, enquanto pensava:
Não posso acreditar que um dia morei em um bairro como este, com tanta pobreza, tanta sujeira...
Quanto mais andavam, mais pobre o bairro ia ficando.
Havia muitas crianças brincando nas calçadas, alheias à pobreza em que viviam.
Em certo momento, Francisca falou:
- A casa dela fica no fim desta rua.
Márcia parou o carro, falando:
- Então vamos a pé.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:11 pm

Não quero que ela veja meu carro.
Marluce e Francisca não entenderam o porquê daquilo, mas ela era a patroa, devia saber o que estava fazendo.
Desceram e as três caminharam a pé.
Andaram dois quarteirões.
Durante a caminhada, Márcia sentiu um mau cheiro terrível.
Vinha de um pequeno córrego que passava por ali.
Pela rua, corria uma água de aparência muito feia.
Márcia ia pensando:
Este cheiro é característico de pobreza.
Esse esgoto correndo pela rua... não sei como as crianças não ficam doentes.
Quantas vezes, como elas estão fazendo agora, também não brinquei com os pés descalços, pisando em águas como essa?
Ainda bem que, um dia, consegui me livrar de tudo isso...
Pararam em frente a uma casa.
Francisca bateu palmas ao portão.
Uma senhora saiu à janela:
- Pois não.
- Viemos falar com dona Durvalina.
- É lá nos fundos, podem entrar.
Francisca entrou na frente e as duas a seguiram por um corredor muito comprido.
Havia muitas portas e janelas.
Nas portas havia números, dando a impressão de que ali moravam muitas famílias.
Márcia fazia um esforço enorme para não sair dali correndo.
Tudo aquilo fazia com que se lembrasse de sua infância, que ela há muito tempo fazia questão de esquecer.
Finalmente, chegaram ao fundo do quintal.
Havia ali mais uma porta e uma janela.
Francisca bateu à porta.
Uma voz respondeu:
- Pode entrar.
Entraram. Márcia sentiu um mal-estar terrível.
Um quarto escuro, apenas iluminado por algumas velas.
Em um canto, estava uma mulher fumando charuto e sentada no chão.
Ao lado dela, uma garrafa de cachaça.
Márcia entrou e, ao ver aquilo, deu um passo para trás.
Seu primeiro impulso foi de fugir.
Nunca estivera em um lugar como aquele.
Sentiu muito medo.
Segurou Marluce pelo braço e, sem nada dizer, começou a sair.
A mulher deu uma gargalhada estridente e falou:
- Para onde a moça vai?
Está fugindo do quê?
Não precisa ter medo.
Não faço mal a ninguém.
A não ser que me peça e pague.
Não trabalho de graça.
Márcia estancou.
Não sabia se entrava de vez ou se saía.
Seu coração batia forte. Falou:
- Desculpe, mas não estou acostumada.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:11 pm

Nunca vim a um lugar como este, nem nada parecido.
Estou com medo.
A mulher soltou outra gargalhada, falando:
- Medo de mim? Já lhe disse que não precisa ter medo.
Se veio até aqui, é porque precisa de ajuda, e vejo que posso ajudar.
Chegue mais perto e fique de joelhos para que eu possa ver seu rosto.
Um pouco receosa, mas puxada por Francisca, Márcia aproximou-se e ajoelhou-se.
A mulher pegou suas mãos, que tremiam muito, olhou bem dentro de seus olhos e falou:
- A moça precisa mesmo de minha ajuda... muito mais do que imagina.
Vou pedir para as outras duas moças esperarem lá fora.
O que tenho para falar é só com a moça aqui.
As duas entenderam e saíram.
Márcia tentou se levantar, queria sair dali também, mas a mulher segurou-a forte, não permitindo.
Uma força estranha fez com que ficasse ali parada, sem poder se mexer.
O medo e o horror tomaram conta dela.
Depois que as duas saíram, a mulher, olhando bem nos olhos de Márcia, continuou:
- A moça veio até aqui porque quer prender um homem do seu lado pra sempre...
Ao ouvir aquilo, Márcia estremeceu e perguntou:
- Como sabe?
Quem lhe contou?
- Sei isso e muito mais.
Sei que esse homem já tem família e está muito feliz agora.
- Não pode ser ele não pode estar feliz.
Ele não pode me abandonar.
Foi por isso mesmo que vim até aqui.
O que pode fazer para me ajudar?
- Pra ajudar a moça?
Pra ajudar mesmo?
- É para me ajudar.
Para isso estou aqui.
- Se for pra ajudar a moça, só posso dizer:
se levante e vá embora.
Pense na sua vida, em tudo que conseguiu até hoje, nas pessoas que prejudicou e nas que abandonou.
Também posso dizer que fique, vamos fazer um trabalho pra esse homem não querer outra mulher que não seja a moça.
Mas assim não sei se vou ajudar.
Ao ouvir aquilo, Márcia viu sua vida toda passar por sua cabeça em questão de segundos.
Ficou mais impressionada ainda.
- Não sei como descobriu e se descobriu alguma coisa a meu respeito, mas a única coisa que me interessa é ter esse homem para mim e para sempre.
Pode mesmo fazer isso?
- Sim, mas tudo tem um preço.
A moça está disposta a pagar?
Márcia lembrou-se das histórias que ouvira a respeito de exploração por pessoas como aquela e respondeu:
- Não tenho muito dinheiro, mas se estiver a meu alcance, eu pago.
Quanto é? O que vai fazer?
- Vou fazer quatro bonecos.
Em dois deles vou colocar o nome do homem; em outro, o nome da moça; e, no último, o nome da mulher dele.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:11 pm

A moça vai me trazer três metros de fita preta e três metros de fita branca.
Com a fita preta vou amarrar o boneco com o nome dele junto com o boneco da mulher dele.
No meio dos dois, nas partes de baixo, vou colocar uma agulha; e na parte de cima, no lugar da cara, um pedaço de carne podre.
Cada vez que os dois quiserem fazer amor, as partes de baixo vão doer e o cheiro das bocas vai ser muito ruim, e eles nunca mais vão conseguir.
Márcia acompanhava cada palavra da mulher e, em seu pensamento, ia visualizando a cena.
Delirava de alegria ao ver os dois tentando se amar, sem, contudo, conseguir.
Com os olhos faiscando, perguntou:
- Tem certeza de que dará certo?
Tudo isso acontecerá mesmo?
Ele vai sentir nojo dela?
- Vai, sim, moça.
Ele não vai conseguir chegar perto dela.
- E com os outros bonecos?
O que vai fazer?
- Vou amarrar com a fita branca.
Nas partes de baixo vou colocar uma pimenta e nas partes de cima vou colocar um perfume.
Cada vez que ele pensar na moça, as partes de baixo vão deixar ele louco de vontade de ficar com a moça.
Quando estiverem juntos, o perfume vai deixar ele completamente louco de amor e de desejo.
Márcia continuava antevendo a cena em seu pensamento.
Sentia todo o amor dele, amor para o qual ela nunca deu muita importância, mas que agora ela queria e precisava.
- É só isso que quero.
Foi para isso que vim até aqui.
Quero ele assim, me desejando e me querendo cada vez mais.
Quero que ele deteste e sinta nojo da mulher.
Mas é só o que preciso fazer? Tão fácil assim?
Eu mesma posso amarrar os bonecos.
Eu mesma posso fazer isso.
- Não pode, não, moça.
Além de tudo isso, existe muita reza que a moça não sabe fazer.
- Está bem.
Sei que preciso pagar. Quanto é?
- Pra meu cavalo são cinco mil.
Para mim são sete garrafas de marafo, sete charutos e sete velas pretas, que a moça tem de levar na encruzilhada.
- Cinco mil? É muito dinheiro!
- Sei que pra moça o dinheiro vale muito, mas sei também que a moça tem como pagar, por isso à moça é que vai escolher.
Márcia pensou um pouco:
Cinco mil é muito dinheiro.
Mas, realmente, eu tenho e não vai me fazer falta.
Se ela conseguir mesmo, vai valer a pena.
- Está bem, eu pago.
Pode fazer e, se der certo, dou outro tanto.
- Moça, isso não pode ser feito assim.
Eu dei o preço de meu cavalo e o meu, mas não falei ainda do preço que vai ser cobrado lá de cima.
Não falei porque não sei qual vai ser.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:11 pm

Isso é lá com eles... mas posso dizer que vai ser bem alto.
Márcia entendeu o que ela quis dizer, mas para ela, naquele momento, nada importava a não ser ter Osvaldo para sempre.
Na realidade, não era tê-lo para sempre, mas não permitir que ele a trocasse por outra, mesmo essa outra sendo sua verdadeira esposa.
Olhou para a mulher e falou:
- Não me importa o que tenha de pagar.
Quero que tudo o que me prometeu aconteça.
Se conseguir realmente fazer isso acontecer, não tem preço.
Pagarei o que pedir.
- A moça sabe com quem está falando?
- Sei. Com a senhora, dona Durvalina.
- Não, ela é meu cavalo.
A moça está falando com um Exu.
A moça sabe o que é um Exu?
- Não, não sei.
- Sei que a moça não sabe.
Sei também que não está pensando bem naquilo que está pedindo.
Por isso vou contar o que é um Exu.
Márcia estava sendo sincera:
ela realmente nada sabia sobre aquilo.
Durante toda a sua vida, só pensou em estudar e trabalhar, nunca se interessou por outros assuntos que não fossem esses.
Por isso, sentiu até uma pequena curiosidade.
- Gostaria de saber algo sobre isso.
Nunca me preocupei, mas agora estou um pouco curiosa.
- Por causa da curiosidade e vingança é que muita maldade é feita.
Moça deixa isso tudo pra lá.
Volte para sua vida.
Ela tem sido muito boa pra moça.
Márcia não entendia por que aquela mulher, ao mesmo tempo em que lhe pedia dinheiro por um trabalho que ela nem sabia o que era, lhe dizia aquelas coisas.
- Estou mesmo curiosa.
Se vou pagar, preciso saber do que se trata.
A mulher bebeu um pouco de cachaça na própria garrafa e jogou uma baforada de charuto sobre Márcia.
Pausada e calmamente, continuou falando:
- Exu é um espírito escravo, tem de fazer tudo que mandam pra ele fazer.
Ele pode fazer o bem e o mal; pra ele não tem escolha.
Todo Exu sabe que, em um lugar que ele não sabe onde é, existe uma escada que ele pode subir ou descer.
Se a moça vem e pede pra fazer o bem pra alguém ou pra moça mesma, sei que subo um degrau dessa escada; mas, se a moça pede pra fazer o mal, desço dez degraus.
A moça está pedindo pra fazer o mal para uma família inteira.
Se a moça quiser mesmo, vou ter de fazer e vou descer dez degraus.
Por isso, vou ficar muito triste com a moça.
Ainda por isso tenho de avisar:
todo bem e todo mal têm sempre cinquenta por cento de volta.
A moça faz o que quiser, mas tem de saber que cinquenta por cento vão voltar pra ela mesma de bem ou de mal.
Se a moça esquecer tudo isso que está querendo e for embora, vai fazer um bem pra moça mesma e vai receber cinquenta por cento de bem; mas, se quiser fazer o mal para essa família, vai receber cinquenta por cento de mal, que fez, de volta.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:12 pm

E mais cinquenta por cento por me ter feito descer dez degraus da escada.
No final de tudo, a moça vai receber de volta cem por cento.
Márcia ficou impressionada pelo modo como aquela mulher falava.
Só agora, acostumada com a escuridão, podia ver melhor seu rosto.
Era uma mulher jovem ainda, mas seu rosto estava crispado, dando a ela a impressão de ser muito velha.
Sua voz, embora não chegasse a ser, parecia de homem.
Pensou um pouco e falou:
- Se tudo o que está falando é verdade, não estou entendendo muito bem, mas sinto que estou correndo um grande risco.
Acho melhor esquecer e ir embora.
Não vale a pena arriscar.
- A moça é que sabe.
Estou aqui pra fazer o que a moça quiser.
Só falei essas coisas porque sei que a moça ia fazer inocente, mas se a moça quiser, pode voltar.
Eu faço. A moça tem uma nota de dinheiro aí?
Não precisa ser de valor grande... uma nota qualquer.
Márcia, desconfiada, abriu a bolsa e tirou a nota de menor valor que possuía e entregou-a para a mulher.
Esta pegou a nota, enrolou-a e abriu-a várias vezes, soltando sobre ela baforadas de seu charuto.
Depois a dobrou e a devolveu a Márcia, dizendo:
- A moça vai andar pela rua e vai encontrar uma pessoa muito pobre.
Dê essa nota para ela e se puder dê mais alguma coisa.
Estou fazendo isso para mostrar que tudo que falei é verdade.
Ainda um pouco desconfiada, Márcia pegou a nota e colocou a na bolsa, pensando:
Seria uma prova se este lugar não fosse tão pobre, mas, aqui por perto, deve haver muitas pessoas pobres, mesmo assim, vou ver.
A mulher deu uma gargalhada e jogou mais uma baforada de charuto na direcção de Márcia.
- Agora a moça pode ir embora.
Pense bem em tudo que falei.
Se quiser, pode voltar.
Vou ficar aqui até que um dia encontre a tal escada.
Não precisa marcar consulta, viu moça?
Márcia levantou-se e deixou perto de dona Durvalina uma nota de cinquenta, que sabia ser o preço da consulta.
Saiu. Lá fora as duas a esperavam ansiosas.
Márcia saiu com o rosto crispado; aquelas últimas palavras da mulher realmente tinham tocado fundo em seu coração.
Francisca levantou-se e entrou no quarto escuro.
Márcia sentou-se no banco que ficou vago.
Marluce quis perguntar alguma coisa, mas não se atreveu, apenas ficou olhando a expressão da patroa.
Francisca ficou com dona Durvalina por meia hora, depois Marluce entrou.
Márcia nada dizia.
Francisca sentou-se ao lado dela.
Ficou calada por um tempo, mas não aguentou muito:
- Então, o que achou? Gostou?
Ela sabe tudo mesmo, não é?
Márcia apenas respondeu com a cabeça, confirmando, não queria falar.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:12 pm

Não respondeu à pergunta por que estava pensando:
Não entendo até agora como ela conseguiu descobrir tudo.
Não foram Francisca ou Marluce...
Elas mesmas não sabiam, nem poderiam imaginar que eu viria aqui.
Preciso me informar mais a respeito de Exu e dessa religião.
Finalmente, Marluce saiu, e elas foram embora.
O carro estava distante da casa; tiveram de fazer o caminho de volta andando.
Quando atravessaram a rua, na primeira quadra, encontraram uma menina que por sua aparência parecia ser muito pobre e tinha seis ou sete anos.
Ela se aproximou de Márcia, falando:
- Moça, a senhora tem um trocado?
Márcia olhou para ela, seus olhos se encontraram e ela sentiu uma ternura inexplicável por aquela menina desconhecida.
Automaticamente, lembrou-se de dona Durvalina, dizendo que ela encontraria uma pessoa pobre, mas aquela menina tinha algo mais que ela não sabia explicar.
Abriu a bolsa e estava tirando a nota quando ouviu em suas costas alguém dizendo:
- Lenita! Pedindo dinheiro de novo?
Já falei que não quero que faça isso!
Márcia deu a nota para a menina e voltou-se para olhar quem estava falando.
Era uma mulher que, sem olhar para ela, balançava o braço da menina, enquanto dizia:
- Devolva esse dinheiro pra moça!
A gente é pobre, mas não precisa pedir!
Trabalho muito pra lhe dar tudo o que precisa!
Márcia ficou parada, branca como cera... diante dela estava sua mãe.
Estava mais velha, tinha os cabelos brancos, mas era a mesma que havia visto no noticiário da televisão.
Ficou olhando sem saber o que fazer ou falar.
O que mais desejava naquele momento era sumir dali.
Enquanto a mulher falava com a menina, ela pensava:
Não sei o que fazer.
Como vim parar neste lugar? E agora?
Vou ter de falar com ela.
Nunca quis isso, e não quero agora.
A mulher olhou para ela e devolveu o dinheiro:
- Obrigada, moça, por sua bondade, mas a gente não precisa, não.
Márcia percebeu que ela não a tinha reconhecido.
A última vez que a vira foi quando dona Leonor morreu, já fazia mais de dez anos.
Naquele tempo, Márcia era magra e franzina, tinha os cabelos curtos e negros.
Hoje, mulher feita havia mudado muito, e sua mãe não prestara muita atenção nela, só queria desculpar-se pela menina.
Deu um sorriso amarelo para a mãe e saiu rapidamente.
Foi muito bom ela não ter me reconhecido.
Seria embaraçoso, principalmente na presença de Marluce e de sua amiga.
Chegaram ao carro.
Ela deixou as duas em um ponto de ônibus, porque elas moravam longe dali.
Voltou para seu apartamento.
Já eram mais de sete horas.
Entrou, sentou-se em sua poltrona preferida, ficou pensando em tudo que havia acontecido naquele dia.
Sentiu um forte cheiro de charuto.
Cheirou suas roupas e seus cabelos.
Não sinto cheiro algum.
Deve ser porque fiquei muito tempo dentro daquele quarto.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:12 pm

É melhor eu tomar um banho... só assim conseguirei livrar-me deste cheiro.
Entrou no chuveiro.
Enquanto se banhava, pensava:
Tudo o que aquela mulher disse me pareceu muito sério.
Fez questão de que eu soubesse o que pretendia fazer.
Disse também que poderei receber de volta o que fizer.
Não acredito em nada disso, mas Francisca disse que ela afastou alguém da esposa.
Vou deixar isso para lá.
Estou agora pensando naquela menina.
Minha mãe na televisão disse que não sabia onde estava sua neta.
Seria aquela menina?
Será que é filha de meu irmão?
Aqueles olhos... por que senti que já a conhecia?
Por que senti que ela é alguém que amo?
Não pode ser... Nunca a vi antes...
Saiu do banho.
Em frente ao espelho, admirou seu rosto.
Deu um sorriso.
Sabia que era uma mulher bonita.
Seus longos cabelos negros, lindos e brilhantes...
Sempre os tratou com os melhores produtos.
Sua pele clara e olhos de um castanho claro davam a ela uma aparência realmente formosa.
Não sei por que fiquei tão brava com Osvaldo.
Sou bonita, posso ter o homem que quiser.
Ele que continue ao lado daquela mulherzinha insossa.
Vou escolher agora um homem para mim, mas será perfeito.
Tem de ser perfeito, porque vai ser o pai de meu filho!
Novamente sentiu o cheiro de charuto.
Devem ser estas roupas; vou levá-las para a lavandaria.
Passava pela sala quando escutou o interfone tocando.
Atendeu:
- Pois não.
- O senhor Osvaldo está aqui para falar com a senhora. Posso deixar subir?
Ela reflectiu por um momento.
Estava vestida só com um roupão.
Sorriu, falando:
- Pode mandar subir, obrigado.
Voltou a sentir muita raiva.
Queria saber qual a mentira que ele diria agora.
Foi para seu quarto e passou pelo corpo o perfume preferido de Osvaldo.
- Vou provocá-lo e, quando estiver pronto, eu o mandarei embora, para que nunca mais volte.
A campainha tocou e ela foi abrir a porta.
Ele estava ali em sua frente, com o rosto preocupado. Ela sorriu.
- Pensei que nunca mais voltaria a vê-lo.
Foi bom que veio. Precisamos conversar.
Abraçou-o, e procurou sua boca.
Ele se afastou, dando um beijo em seu rosto.
Ela sorriu, pensando:
Veremos até quando resistirá.
Entraram. Ela ofereceu uma bebida, ele aceitou.
Preparou uma para cada um e sentaram-se.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:13 pm

Um pouco desajeitado, Osvaldo disse:
- Estou aqui para que possamos ter uma conversa definitiva.
Clarice, depois de muito tempo, não suportou mais a solidão e o desprezo que eu lhe fazia passar e resolveu me abandonar.
Foi para o Paraná viver com seus pais.
- Não foi isso que vi no restaurante.
Parecia que estavam muito felizes.
- Estávamos mesmo... E estamos.
Não suportando sua ausência e a de meus filhos, fui atrás dela e a convenci de que a amava e a queria de volta.
- Você fez isso, Osvaldo?
Por quê? Essa seria a oportunidade de ficarmos juntos...
- Você nunca deixou transparecer que queria isso, Márcia.
Disse sempre que era uma mulher independente e que não queria um compromisso sério.
- Nunca quis mesmo, mas agora estou pensando seriamente nisso.
Estou com trinta e quatro anos e está na hora de ter um marido e filhos.
Hoje, sei que você é o homem que quero para ser meu companheiro e pai de meus filhos.
- Para isso estou aqui.
Preciso te contar tudo.
Descobri que amo minha esposa, que não posso viver sem ela, por isso tudo entre nós está acabado.
Quero ser de agora em diante o marido e pai que nunca fui.
Vou me dedicar inteiramente a eles.
Estou aqui para colocarmos um ponto final em nosso relacionamento.
Vamos recomeçar nossas vidas.
Tenho por você um imenso carinho, mas é a ela que amo.
Agora que descobri isso, não posso mais traí-la, não conseguiria.
Márcia sentiu uma onda de ódio invadir seu corpo.
Mas, sendo sempre muito controlada, manteve-se impassível, como se nada que ele estivesse falando a atingisse.
Olhou para ele amorosamente, fixou bem seus olhos e o abraçou com muito amor.
Seu roupão soltou-se de um lado e suas pernas bonitas ficaram transparecendo.
Enquanto beijava seu rosto e pescoço, dizia:
- Você não pode estar dizendo a verdade.
Sei que me ama do mesmo modo que eu o amo.
Se não fosse assim, não teríamos ficado tanto tempo juntos.
Sinta meu perfume...
Coloquei-o só para lhe agradar, vamos continuar como sempre, não precisamos nos casar.
Apenas ficaremos como antes, nos vendo e nos amando...
Você não precisa se separar só não me deixe... não sei como viverei sem você... te amo muito...
Ele, com os olhos fechados, sentindo aqueles lábios tocando-o, por um minuto se entregou, mas voltou à realidade, afastou-se dos braços dela e disse:
- Não adianta!
Resolvi que vou ser feliz ao lado da mulher que verdadeiramente amo.
Não farei mais nada que possa fazê-la sofrer.
Márcia não desistiu.
Voltou a abraçá-lo.
- Não sabe o que está dizendo.
Nós nos amamos, por sete anos vivemos felizes.
Você não pode simplesmente jogar tudo para o alto. Eu te amo...
Tentou beijá-lo novamente, mas ele, agora de forma brusca, se afastou.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:13 pm

Levantou-se e, em pé, a certa distância, disse:
- Sinto muito, mas não posso.
Tenho uma família que amo.
Por muito tempo estive afastado deles, mas agora usarei todos os momentos disponíveis para lhes proporcionar felicidade.
Você é uma mulher bonita, independente, tem dinheiro e cultura, poderá ter o homem que quiser.
Esqueça-me e procure refazer sua vida, como estou fazendo com a minha.
Em uma última tentativa, ela deixou o roupão cair e estendeu os braços para ele, num convite sedutor, mas ele olhou para ela, mandou-lhe um beijo com a ponta dos dedos e foi embora.
Márcia ficou ali parada, nua e sentindo muito ódio.
Pegou o roupão e jogou-o sobre as costas.
Seu corpo tremia num misto de frio e de ódio.
Não consigo acreditar que isto esteja acontecendo!
Quem ele pensa que é desprezando-me dessa maneira?
Ele tem razão: sou independente e bonita!
Posso ter o homem que quiser, quando quiser!
Acontece que eu quero só ele.
Nem que seja para depois desprezá-lo, mas agora, neste momento, eu o quero com todas as forças de meu ser!
E ninguém, ninguém mesmo, vai impedir que eu o consiga de volta!
Foi para seu quarto e deitou-se.
Na posição fetal, começou a chorar, não sabia se de dor ou de ódio.
Chorou muito.
Adormeceu sem perceber.
Sonhou com um campo muito verde, onde havia uma alameda.
Olhou para o horizonte e viu uma silhueta correndo em sua direcção.
Quando a figura se aproximou, ela percebeu que era a menina que havia conhecido, Lenita, que, naquele momento, corria para ela abrindo os bracinhos e sorrindo.
Márcia, muito feliz, abriu os braços para recebê-la, mas a menina desapareceu.
Acordou tremendo e suando.
Abriu os olhos e notou que estava em seu quarto.
Sentiu frio, estava com o corpo descoberto.
O roupão, que estava apenas em suas costas, caíra.
Cobriu-se com o cobertor e ficou pensando:
Que sonho estranho... aquele lugar era muito bonito.
A menina, com certeza, era Lenita; talvez um pouco menor, mas era ela.
Que felicidade senti quando a vi correndo e que desespero senti quando ela desapareceu.
Quem será essa menina que me faz tão bem?
Recolocou o roupão, que estava nos pés da cama.
Levantou-se e foi até a cozinha.
A mesa, como sempre, estava posta e seu jantar deveria estar no forno.
Marluce era dedicada e tratava-a muito bem.
Abriu o forno e olhou para a comida.
Na geladeira, havia uma travessa com salada, bastaria a ela temperar.
Mas estava sem fome, não queria comer nada.
Sentia como se em sua garganta houvesse um caroço que não deixava passar alimento algum.
Pegou um copo com leite e voltou para seu quarto.
Olhou o relógio: era meia-noite e quarenta.
Vestiu seu pijama e voltou para a cama.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:13 pm

Amanhã é sexta-feira, não posso faltar ao trabalho, mas no sábado pela manhã voltarei à casa de dona Durvalina e mandarei fazer o tal trabalho.
Não importa o preço que terei de pagar.
Quero esse homem a meus pés.
Eu o terei com certeza.
Nem que para isso tenha de vender minha alma para o diabo!
Sentiu novamente o cheiro de charuto.
Cheirou suas roupas e nada.
Pensou:
Esse cheiro deve estar impregnado em minha pele.
Ela não podia ver com os olhos físicos, mas, se pudesse, veria vultos negros que a envolviam em uma dança macabra.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:13 pm

DIREITO À JUSTIÇA
No dia seguinte, Márcia acordou na hora certa.
Cumpriu sua rotina de se preparar para o trabalho.
Enquanto se vestia, não conseguia esquecer Osvaldo falando-lhe aquelas coisas horríveis e indo embora, apenas mandando um beijo com a ponta dos dedos.
Seu ódio aumentou e pensou com muita raiva:
Além de tudo, ainda saiu me humilhando com aquela atitude.
Eu o odeio! Vou me vingar!
Se ele pensa que vai me usar e depois jogar fora, está muito enganado!
Se tudo que dona Durvalina disse for verdade, eu o verei aqui rastejando a meus pés!
Trabalhou o dia inteiro.
Por mais que tivesse problemas particulares, seu trabalho era sagrado.
Ainda mais agora, com o doutor Fernando doente, ela teria de mostrar ao presidente que era uma pessoa eficiente.
Quando, à tarde, todos foram embora, ela sozinha, no escritório, lembrou-se de Osvaldo.
Tornou a vê-lo mandando-lhe o beijo com a ponta dos dedos e saindo sem nada dizer.
Seu ódio aumentava cada vez mais.
Nunca aceitarei isso!
Eu, que sempre consegui tudo na vida!
Não importa o que tenha de fazer, terei aquele homem de volta!
Quando voltar implorando meu amor, conhecerá uma nova Márcia, que ele nunca pensou existir!
Farei com que sofra muito!
Após tê-lo de volta, vou abandoná-lo.
Eu quero abandonar!
Não aceito ser abandonada.
Nunca. Nunca!
Sobre sua mesa havia uma foto com todos os funcionários, tirada em uma festa de fim de ano.
Olhou um por um e pousou os olhos no rosto de Farias.
Sorrindo, pensou:
Ele também se julgou melhor que eu.
E viu o que lhe aconteceu...
Lembrou-se de tudo novamente:
como conseguiu que ele se afastasse da empresa depois de tantos anos.
Sorriu novamente. Sou mesmo sensacional!
Lembro como se fosse agora.
Naquele dia, ele, desesperado, implorava:
- Márcia, por favor, você não pode fazer isso.
Vai destruir minha família!
- Claro que posso!
Não tenho nada a ver com sua família.
Você é quem deve se preocupar com ela.
Mantê-la bem é sua responsabilidade...
- Não posso sair da empresa.
Estou aqui há muito tempo e estou velho para conseguir outro emprego como este.
- O problema não é meu, é seu.
Sou jovem e preciso pensar em meu futuro, e ele neste momento está em suas mãos.
- Por ser jovem, você poderá conseguir uma clientela própria, como eu fiz.
Eu é que não tenho mais energia para isso.
- Por que me dar a todo esse trabalho?
Sua clientela já está conquistada e pode ser minha.
Vou lhe dar três dias e, se não pedir demissão, mandarei as fotos para a presidência e para sua mulher.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:14 pm

- Não teria coragem de fazer isso.
Meus filhos estão casados e nunca me perdoariam.
Sabe como esta empresa é conservadora, eu seria demitido na mesma hora...
- Por isso mesmo estou te avisando.
É melhor pedir a demissão e sair com dignidade.
Do contrário, perderá o emprego da mesma maneira e ainda será humilhado.
Márcia relembrou que, no dia seguinte, chegara à notícia de que ele se havia envolvido em um acidente na estrada com mais quinze carros e que havia morrido.
Seu carro ficou totalmente destruído no meio dos outros.
Muitas pessoas se feriram, mas só ele morreu.
As pessoas envolvidas no acidente não conseguiram dizer como tudo acontecera.
Estava uma noite fria e com muita neblina.
De repente, os carros foram batendo uns nos outros, não se podendo dizer qual havia sido o culpado.
O carro de Farias estava voltado para trás, no sentido contrário ao tráfico.
Deduziu-se que, com a batida, ele foi virado pelos demais.
Márcia e os outros funcionários ficaram consternados.
Durante o velório, a empresa, por meio de um de seus directores, prestou homenagem a ele pelos serviços prestados.
Todos os funcionários gostavam muito dele e por isso compareceram também.
Márcia mostrava-se triste como os demais.
Após o funeral, ela foi para casa e ficou imaginando o que diria quando fosse chamada para ocupar o lugar que antes pertencera a ele.
No dia seguinte, quando voltou ao trabalho, foi chamada à sala de seu superior.
Assim que entrou, ele disse:
- Márcia, infelizmente Farias se foi de nosso lado.
Estamos tristes, porque ele era amado por todos, inclusive por minha família, pois ele era nosso amigo particular, mas a empresa e nossas vidas devem continuar.
Ele sempre falou muito bem de você, sempre disse que era uma moça capaz e com grandes chances de crescimento.
Por isso estou lhe pedindo que continue trabalhando com os clientes que eram dele.
Tenho certeza de que fará o possível para que tudo caminhe bem.
Sei que, de onde ele está neste momento, está aprovando minha atitude.
Márcia, agora relembrando tudo, abriu um sorriso:
Enquanto ele dizia aquilo, eu, fazendo um enorme esforço, deixei que algumas lágrimas caíssem pelo meu rosto.
Com a voz embargada, respondi:
- Eu também sentirei muito sua falta, pois devo tudo que sou e que sei a ele.
Ensinou-me tudo como se fosse meu pai, ou um amigo sincero.
A melhor maneira para homenageá-lo será fazer com que seu trabalho continue sem solução de continuidade.
Sei que estará feliz por me ver fazendo tudo àquilo que me ensinou.
Não o envergonharei nunca...
- Tenho certeza de que assim será.
Saí daquela sala e voltei para a minha, onde pude secar as lágrimas e comemorar:
Consegui! Consegui!
Ninguém jamais desconfiará que eu fiz aquelas ameaças!
Se soubesse que ele logo morreria, teria esperado mais um pouco.
Agora, tenho de mostrar minha capacidade.
Obrigada, Farias.
Pegou a fotografia que estava sobre a mesa, olhou para o rosto de Farias, sorriu e recolocou a foto no lugar.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:14 pm

Naquele mesmo instante, como se tivesse sido atingido por um raio, Farias abriu os olhos:
continuava ainda naquele lugar horrível.
Ao relembrar tudo o que havia acontecido, começou a gritar:
- Onde estou?
Que lugar é este?
O lugar era realmente horrível:
escuro, lamacento e malcheiroso.
Ele ouvia gritos.
Assustado, pensou:
Esses gritos estão me deixando louco.
Estou escondido nesta espécie de caverna, fugindo de figuras horrendas que me perseguem o tempo todo.
Sei que, a qualquer momento, elas me encontrarão e terei de fugir novamente.
Não entendo o que está acontecendo, mas, só de me lembrar das figuras, sei que preciso ficar quieto o mais que puder.
Já estou cansado de procurar uma saída e não encontrar.
Por mais que ande e me esconda, essas figuras sempre me encontram.
Que lugar é este?
Como vim parar aqui?
Estou sujo, com as roupas rasgadas e sinto muito frio e fome, mas o medo que estou sentindo me faz ficar escondido, sem coragem para nada.
Estava assim, desesperado, com as mãos tapando seus olhos, quando sentiu uma mão em seu ombro.
Assustou-se e pulou para o lado, tentando livrar-se daquela mão.
Um homem, também sujo e com a vestimenta rasgada, disse:
- Não precisa ficar com medo.
Estou aqui para te ajudar.
Meu nome é Gervásio.
Há muito tempo estou te observando e creio que agora chegou à hora de falar com você.
Farias não entendia por que, mas acreditou naquele homem.
Perguntou:
- Que lugar é este?
Por que não encontro uma saída?
Que figuras são essas que querem me pegar?
- Vejo que o amigo tem muitas perguntas.
Vou tentar responder a todas.
- Por favor, faça isso.
Estou desesperado, sem entender nada.
- Este lugar é chamado de Vale dos Suicidas.
- Suicidas? Está louco!
Não estou morto.
Estou vivo, e muito vivo.
Muito menos me suicidei.
Que estou fazendo aqui?
- Se está aqui, é porque deve ter se suicidado.
Você nunca ouviu falar da vida após a morte?
- Claro que ouvi, mas nunca dei muita atenção para essas coisas de religião; precisava trabalhar.
Mas não consigo acreditar que eu esteja morto. Não consigo!
- Está, sim, meu amigo, assim como eu e todos os moradores deste vale.
A morte, assim como a vida, não passa de ilusão.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 02, 2017 8:14 pm

- Se o que está dizendo for verdade, então realmente posso estar morto.
Mas com certeza não me suicidei.
Eu não tive culpa.
Fui obrigado por aquela mulher.
Ela é um monstro.
- Ninguém tem o poder de nos obrigar a nada.
Só fazemos o que queremos.
Se você se suicidou, a culpa foi só sua.
- Está dizendo isso porque não a conhece.
Ela me obrigou.
- Quer me contar o que aconteceu?
- Vou contar tudo como aconteceu e verá que a culpa foi toda dela.
Márcia entrou bem jovem na empresa em que eu já trabalhava havia muito tempo.
Era graciosa e sorridente e, com o passar do tempo, conquistou minha amizade.
Aos poucos, fui passando a ela toda a minha experiência.
Ensinei-lhe todo o ofício que levei anos para aprender.
Ela, muito inteligente, tornou-se uma óptima vendedora, só que não se deu por satisfeita, e quis meu lugar, a clientela que levei tanto tempo para conseguir.
Ela se mostrava amiga e confidente, por isso revelei a ela algumas particularidades de minha vida.
Era casado havia muitos anos, tinha quatro filhos, todos adultos e bem posicionados na vida.
Mas havia muito tempo eu possuía uma outra mulher.
Conseguia manter uma vida dupla.
Essa outra mulher me era muito importante.
Sabia que eu era casado, mas aceitou-me assim mesmo, por me amar muito.
A empresa e minha família eram muito conservadoras e jamais aceitariam essa situação.
Márcia, após eu ter lhe contado tudo, contratou um investigador particular para me seguir.
Um dia me chamou, dizendo:
- Farias, creio que é hora de você pedir demissão da empresa.
- Por que eu faria isso?
Estou aqui há muito tempo e pretendo ficar por muito mais.
Mas por que está dizendo isso?
- Porque quero e preciso de sua clientela.
E só posso consegui-la se você pedir demissão.
- O que a leva a crer que farei isso?
- Ela tirou da bolsa um envelope e me entregou.
Eu o abri, e dentro havia várias fotos minhas com a outra mulher.
Em algumas, estávamos abraçados no supermercado, em outras nos beijando no portão de sua casa, quando eu me despedia.
Todas eram comprometedoras.
Com as fotos nas mãos, perguntei:
- Que pretende fazer com estas fotos?
- Mandarei cópias para sua esposa e para os directores da empresa.
Sabe como são conservadores...
Além de perder o emprego, perderá também a família.
- Comecei a tremer.
Sabia que ela tinha razão.
Pedi, implorei, mas ela se mostrou insensível.
Cinicamente, disse:
- Se pedir demissão, poderá obter a aposentadoria.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:11 pm

Diga à sua família que está doente.
Se não pedir, mostrarei a todos estas fotografias e darei o endereço de sua outra casa.
Será desprezado. Você é quem sabe...
Vou te dar três dias para pensar no que vai fazer.
Depois disso, sabe que não hesitarei em mandar as fotos.
- Ela saiu e eu fiquei ali com as fotos nas mãos, sem saber o que fazer.
Eu não poderia pedir demissão.
O dinheiro que ganharia com a minha aposentadoria não daria para manter minha família com o mesmo padrão de vida.
Pensei muito, mas não encontrava saída, Gervásio.
- Se tivesse pensado um pouco mais, Farias, veria que sempre há uma saída.
Mas o que fez em seguida?
- Saí dali completamente transtornado, Gervásio!
Já na estrada, dirigindo meu carro, ia vendo o rosto dela me dizendo todas aquelas coisas.
Via também o rosto de minha mulher, de meus filhos e dos directores da empresa.
Fiquei cada vez mais desesperado.
A noite estava fria e havia um pouco de neblina.
Em meu desespero, pensei que a única solução seria morrer, mas não poderia me suicidar, porque assim minha família não receberia o seguro.
Se eu morresse, tinha certeza de que a empresa não os abandonaria.
Não sei como tive aquela ideia.
Em uma manobra, virei o carro no sentido contrário em que estava.
Só senti a primeira batida.
Depois não vi mais nada.
Quando recuperei os sentidos, estava aqui neste lugar, sem entender o que estava havendo.
Não sei o que aconteceu com minha família nem com minha amante, a quem tanto amo.
Só sei que, se cometi suicídio, a culpa não foi minha, foi da Márcia! Eu a odeio!
- Você não precisava ter feito isso.
Poderia ter encontrado outra solução.
- Não existia outra solução! Não existia!
- Existia, sim, Farias:
você poderia ter enfrentado Márcia, ter acreditado no amor de sua família e no quanto era admirado por seu trabalho.
Poderia contar a todos aquilo que acreditava ser um erro.
Quem lhe garante que eles não entenderiam a situação?
- Não. Eles não entenderiam.
Eu os conheço. Mas Márcia foi à culpada.
É uma injustiça eu estar aqui.
Se não fosse por ela, ainda estaria vivo.
É uma injustiça!
- Posso afirmar que sempre existe uma solução para tudo, mas, se insiste em dizer que sofreu uma injustiça, vou levar você para que converse com alguém que vai ajudar.
Venha comigo.
- Não posso sair daqui.
Os monstros vão me pegar.
- Não se preocupe nem tenha medo:
Vou levá-lo em segurança. Venha.
Farias continuava assustado, mas sabia que não poderia continuar ali.
Sentiu que aquele homem poderia ajudá-lo.
Olhando para os lados e segurando no braço de Gervásio, foi caminhando.
Gervásio entrou por vários corredores.
Andava parecendo conhecer muito bem o caminho.
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Ave sem Ninho

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:11 pm

Aos poucos, Farias foi ficando confiante.
Embora o caminho fosse muito escuro e lamacento, as figuras feias não os atacavam.
Depois de andarem por muitos lugares, finalmente chegaram a um corredor iluminado.
Entraram em uma sala onde havia uma mesa.
Um homem que estava sentado, assim que entraram, levantou-se e, sorrindo, disse:
- Gervásio, novamente aqui!
Por quem está acompanhado?
- Sim, Damião, estou aqui novamente.
Trago comigo Farias.
Ele quer lhe falar; diz que sofreu uma injustiça.
- Seja bem-vindo, meu irmão.
A Lei de Deus é sempre justa e perfeita, mas, se eu puder ajudá-lo, estou aqui para isso.
Quer me contar o que aconteceu?
Farias sentiu um profundo respeito por aquele homem que lhe transmitia muita paz.
Contou tudo o que acontecera.
Damião o ouviu sem interromper.
Quando Farias terminou de falar, olhou para Damião.
Este, também o olhando, disse:
- Sinto que já terminou de contar.
Preciso saber: o que quer que eu faça?
- Quero justiça.
Márcia é a única culpada.
- A Lei é justa.
Ela serve para nos ajudar a encontrar nosso caminho.
Você diz que sofreu uma injustiça... se isso realmente aconteceu, terá o direito de exigir que a Lei seja cumprida.
Mas pode também usar a maior lei que existe.
Essa lei é a lei do amor, que a tudo perdoa.
- Perdoar? Nunca!
Não posso perdoar.
Ela me destruiu!
- O perdão sempre foi e será o único caminho para se chegar a Deus.
Sem ele, nos afastamos da felicidade e da perfeição para sempre.
- Não! Não vou perdoar!
Se essa Lei existe, se é para todos, exijo, como direito, que ela seja usada a meu favor!
- Está bem. Se é isso que deseja, assim será.
Gervásio pode acompanhá-lo.
Ele tem o direito de usar a Lei.
- Sim, farei isso, Damião.
Farias, vamos?
Farias estava encantado com a oportunidade de poder se vingar daquela mulher que foi a causa de todo o seu sofrimento.
Voltou-se para Gervásio, que estava um pouco atrás dele.
- Claro que vamos!
Senhor Damião, estou muito agradecido por esta oportunidade.
Damião, com o rosto triste, respondeu:
- Não precisa agradecer.
Infelizmente, sei que ela está prestes a cometer algo muito ruim.
Gostaria de poder intervir, mas não posso.
Porém tenho esperança de que, como todo espírito, ela tenha dentro de si e saiba encontrar a bondade e o amor de Deus.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:12 pm

Tenho esperança de que, por isso, vai se libertar desses pensamentos.
Se assim fizer, conseguirá se afastar do mal.
Portanto também estará protegida e poderá encontrar a paz.
Se isso acontecer, meu irmão, se ela persistir no bem, você também não poderá fazer nada.
Esta é a Lei. Gervásio, você vai acompanhá-lo.
Deixe que faça tudo que quiser.
Ele tem esse direito, já que julga ter sofrido uma injustiça.
Mas preciso dizer-lhe algo mais, Farias:
tente usar esse direito para perdoar e amar.
Só ganhará com isso.
- Ela é má e gananciosa!
Vai fazer essa ruindade que o senhor está dizendo, sim.
Para ela não existe ninguém além dela mesma.
É ruim, não vai pensar um minuto para prejudicar outra pessoa. Tenho certeza!
- Se assim for, se ela fizer o mal, será toda sua.
Gervásio olhou para Farias e disse:
- Meu amigo, vou lhe pedir mais uma vez:
abandone essa ideia de vingança, acredite que a Lei é justa.
Será muito melhor para você.
- Nunca! Por culpa dela estou aqui neste lugar horrível.
Ela não pode ficar impune!
Usarei todas as armas que possuir para destruí-la!
Damião fez um sinal com a mão.
Gervásio entendeu, segurou o braço de Farias e puxou-o.
Farias fez uma reverência para Damião, este os abençoou com um sorriso e saíram.
Enquanto os dois saíam, Farias impressionado com aquela figura, perguntou:
- Gervásio, quem é esse homem?
É um santo?
Gervásio sorriu e respondeu:
- Não, ele não é um santo.
É um espírito de luz e, como todos, está nos encaminhando para o aperfeiçoamento.
Ele está e estará sempre aqui para nos ajudar.
Agora, vamos para onde você quer, para junto dela.
Feche os olhos...
Farias confiava em Gervásio, pois ele o estava ajudando.
Quanto a Damião, não entendia bem o que sentia, pensou:
Ao mesmo tempo em que o respeito, sinto medo de sua presença.
Assim pensando, acompanhou Gervásio.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:12 pm

A FORÇA DO AMOR
Quando abriu os olhos, Farias estava dentro do carro de Márcia, que voltava para casa.
Ela, enquanto dirigia, ouvia música e ia pensando nele.
Ele foi um covarde!
Se eu estivesse no lugar dele, teria contado tudo para a minha família.
Não teria me curvado perante uma chantagem.
Só sinto que tenha morrido tão rápido.
Se soubesse que seria assim, não teria feito nada, bastaria só esperar.
Ao ouvir aquilo, Farias tomado de ódio, quis se jogar sobre ela, mas foi impedido por Gervásio.
- Não deve fazer isso.
- Ela não está nem um pouco preocupada com meu destino.
- Estou vendo, mas ela está agora dirigindo um carro.
Se a atacar, poderá causar um acidente e prejudicar não só ela como outras pessoas.
Se isso acontecer, será sua culpa e você será o responsável.
A Lei se voltará contra você.
- Eu serei o responsável?
Nunca fiz mal a ninguém.
Ao contrário: sempre procurei ajudar.
A ela mesma, ajudei, ensinei tudo o que sabia.
Ela é quem é má.
- Está certo, mas você está aqui para vingar-se dela, não para pôr em risco a vida de outras pessoas.
Tenha calma.
Vai poder usar sua força, mas só contra ela.
Enquanto isso, Márcia, alheia à presença deles, chegou à garagem do prédio.
Tomou o elevador e entrou em seu apartamento, acompanhada por Farias e Gervásio.
Abriu a porta. Foi directo para seu quarto.
Havia trabalhado muito, estava cansada.
Tirou a roupa e dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho.
Farias seguiu-a, dizendo:
- Você vai agora conhecer meu ódio.
Vou destruí-la.
Já sei como farei.
Está com vontade de beber, Márcia?
Beba. Vai se sentir melhor.
Ela, parecendo ouvir, foi até a sala, pegou um copo, encheu de vinho e começou a beber.
Farias continuou:
- Isso! Beba muito!
Vou fazer com que perca tudo que conseguiu com sua maldade.
Ela continuou bebendo.
Lembrou-se de Osvaldo, e o ódio voltou:
- Quem ele pensa que é?
Nunca conseguirei esquecer o gesto que fez, mandando-me aquele beijo com a ponta dos dedos e deixando-me ali sozinha.
Nua. Não perdoarei nunca!
Vou tê-lo de volta!
Farei qualquer coisa.
Amanhã bem cedo irei novamente à casa de dona Durvalina, levarei o dinheiro e mandarei fazer o tal trabalho.
Ninguém impedirá minha vingança.
Por estar cansada e embriagada, dormiu logo, mas foi um sono agitado.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:12 pm

Sonhava e acordava, não conseguindo dormir tranquilamente.
Pela manhã, acordou, sentindo dores pelo corpo, a cabeça doendo muito.
Não entendia por que não havia dormido bem.
Pensou: Não dormi a noite toda.
Deve ser o ódio que estou sentindo por Osvaldo.
Vou até a casa de dona Durvalina mandar fazer o trabalho.
Ele tem de voltar.
Eu o quero arrastando-se a meus pés, e depois, o abandonarei para nunca mais voltar a vê-lo!
Era muito cedo, mas mesmo assim pegou o carro e saiu dirigindo sem destino.
Foi fazer algumas compras para esperar o tempo passar.
Quando acreditou ser a hora certa, foi em direcção à Marginal e à casa de dona Durvalina.
Teve alguns problemas, pois não conhecia muito bem o caminho, mas finalmente encontrou a rua.
Deixou o carro no mesmo lugar que deixara da outra vez, longe da casa, e foi caminhando.
Havia muitas crianças brincando.
Pensou: Como é bom ser criança...
Elas brincam sem entender sua real situação.
Eu também fui assim, brincava sem entender a pobreza em que vivia, mas assim mesmo eu era feliz.
Só quando cresci foi que realmente entendi minha situação.
Umas dez casas antes da de dona Durvalina, algumas crianças haviam desenhado no chão uma amarelinha.
Ela se lembrava muito bem dessa brincadeira. Sorriu.
Viu Lenita, que, sentada em um degrau, olhava as crianças brincando.
Márcia notou que ela estava com o rosto triste.
Sem saber por que, aproximou-se, perguntando:
- Por que não está brincando?
- Não posso. Sou doente e não posso pular muito.
- Doente? Que doença?
- Não sei. Parece que é do coração.
O médico disse que não posso fazer esforço, por isso fico só olhando.
Márcia sentiu um grande aperto no coração.
Aquela menina, não sabia por que, representava muito para ela.
Sentiu muita vontade de abraçá-la, mas novamente se lembrou de quem era e não podia misturar-se com aquelas pessoas, embora fossem parte de sua família.
Apenas sorriu e continuou andando.
Seu coração pedia que voltasse, abraçasse e ajudasse aquela menina, mas sua mente a impedia de fazê-lo.
Estava quase chegando à casa de dona Durvalina, quando ouviu gritos desesperados das crianças.
Voltou-se e viu Lenita deitada no chão e as outras crianças gritando.
Correndo, foi até elas:
- Que aconteceu?
- Não sei dona.
Ela caiu e ficou assim.
Márcia viu Lenita muito branca e respirando com dificuldade.
- Onde ela mora?
Onde está sua mãe?
- Ela está morando na minha casa e não tem mãe, mora com a avó e ela está trabalhando.
Vou chamar minha mãe.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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