NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:13 pm

Márcia, pegando a menina no colo, desesperada, disse:
- Faça isso.
Vá chamar sua mãe.
Vou levá-la a um hospital.
O menino saiu correndo.
Márcia lembrou que o carro estava distante.
Embora a menina fosse muito magrinha, não conseguiria chegar ao carro com ela nos braços.
Tornou a deitá-la no chão, falando para as outras crianças:
- Fiquem com ela, mas não muito perto, ela precisa ter ar para respirar.
Vou buscar meu carro e volto logo.
As crianças, assustadas, acenaram com a cabeça para ela ver que entenderam e afastaram-se um pouco.
Depois de colocar a menina novamente no chão, Márcia saiu correndo em direcção ao carro.
Quando voltou, a mãe do menino já estava agachada junto à Lenita, que continuava desacordada.
Márcia parou o carro, falando:
- Vou levá-la a um hospital.
Seria bom se a senhora viesse comigo.
A mulher começou a levantar a menina.
Márcia ajudou-a e as duas a colocaram no banco traseiro.
A senhora entrou também e foi segurando a cabeça de Lenita.
Márcia acelerou o carro, ligou as luzes de emergência e saiu em disparada.
Perguntou:
- Onde é o hospital mais perto daqui?
- O hospital público fica distante, mas logo ali na outra esquina há um hospital particular.
Só que a avó dela é pobre e não pode pagar um tratamento.
- Isso não é problema.
Para onde devo ir?
Onde fica esse hospital?
A mulher foi ensinando o caminho.
Em pouco tempo, estavam em frente a um grande hospital.
Márcia viu uma placa com a inscrição Emergência. Estacionou.
Apressada, saiu do carro e entrou correndo no hospital.
Voltou acompanhada por duas enfermeiras que traziam uma maca.
Pegaram à menina e entraram apressadamente.
Márcia e a outra mulher as acompanharam.
Lá dentro, as enfermeiras seguiram com a menina por uma porta.
Márcia e a senhora ficaram esperando, sentadas em uma poltrona.
O porteiro entrou e dirigiu-se a Márcia:
- Desculpe, mas a senhora deixou seu carro em um lugar proibido, reservado para as ambulâncias.
Também deixou as chaves no contacto.
Márcia, muito nervosa, só naquele momento percebeu que havia esquecido as chaves.
Tremia muito, e disse:
- Por favor, será que poderia tirá-lo de lá para mim?
Estou muito nervosa.
O porteiro, sorrindo, saiu.
Logo depois voltou, entregando-lhe as chaves.
Márcia agradeceu.
A recepcionista fez um sinal para que ela se aproximasse.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:13 pm

Márcia não percebeu.
Nervosa com tudo que estava acontecendo, não tirava os olhos da porta por onde Lenita entrara.
Seu coração batia rápido.
Pensava: Ela não pode morrer.
Sinto que me é muito importante.
Precisa viver.
A recepcionista tornou a fazer o sinal.
Márcia, sem entender muito bem o que a mulher desejava, aproximou-se do balcão.
- Chamei-a porque percebi, pelas roupas que a menina está vestindo que ela não é sua parente.
Preciso abrir uma ficha, mas para isso necessito os dados pessoais.
A senhora os tem?
- Não, não tenho.
Apenas a socorri.
- Há algo mais:
este é um hospital particular, por isso só daremos a ela o primeiro atendimento.
Se tiver de ficar internada, terá de ir para um hospital público.
Márcia não acreditou no que estava ouvindo.
- Está me dizendo que por não ter dinheiro ela não terá um atendimento adequado?
Poderá morrer?
- Não, não é isso.
Só terá de ir para um hospital público.
- Quero... quero, não!
Exijo que ela tenha todo o atendimento que precisar!
Não sei os dados dela, mas aquela senhora deve saber.
Depois que ela for atendida quero falar com o médico para saber sua real situação.
Voltou para a poltrona, perguntando para a senhora:
- Sabe o nome da menina? Onde estão seus pais?
- Não sei o nome todo.
Sei que se chama Lenita, mas não sei o resto.
Ela não tem pais:
a mãe morreu quando ela nasceu, e o pai dois anos depois.
Desde que nasceu vive com a avó, que é minha amiga.
São muito pobres.
A avó acabou de perder o barraco onde morava numa favela, e está em minha casa até conseguir um lugar.
Ao ouvir aquilo, Márcia sentiu novamente aquele aperto no coração.
Relembrou o rosto de Ricardo, seu irmão.
Embora não gostasse de sua mãe, às vezes sentia saudades de seu irmão.
Agora ficou sabendo que ele não vivia mais.
Com um nó na garganta e a voz embargada, disse:
- Sinto muito por tudo isso.
Vá, por favor, até o balcão e dê as respostas que souber.
Vamos esperar e ver o que o médico tem para dizer a respeito do tratamento que a menina terá de fazer.
A mulher levantou-se e foi até o balcão.
Márcia ficou relembrando seu tempo de infância e seu irmão, as brincadeiras que faziam.
Estava presa em seus pensamentos quando um médico entrou na sala e falou com a recepcionista.
Ele olhou para Márcia, que seguia todos os movimentos que eles faziam.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:13 pm

Ele se dirigiu até ela, dizendo:
- Soube que queria falar comigo.
Acredito ser a respeito do estado da menina.
Quero dizer-lhe que ela agora está muito bem e fora de perigo, só que a doença que tem precisa de acompanhamento, e ela está muito desnutrida.
Infelizmente não poderá continuar neste hospital, mas o ideal seria que tivesse um tratamento contínuo, aqui ou em outro lugar.
Gostaria muito que ficasse connosco e que eu pudesse continuar tratando-a, mas não sei quais são as condições da família.
Este é um hospital particular, e eu infelizmente não sou dono, apenas trabalho aqui.
- Entendo doutor.
Só lamento que tenha de ser assim.
Mas não se preocupe: ela ficará aqui o tempo que for necessário.
Deixe tudo por minha conta.
Faça o que for preciso.
O médico sorriu e disse:
- Obrigado.
Sei que apenas socorreu a menina, que não a conhece, por isso, estou muito agradecido em seu nome.
Falarei com a família e continuarei tratando dela em meu consultório sem cobrar.
É tudo que posso fazer.
Quem sabe, juntos, poderemos fazer com que ela tenha uma boa qualidade de vida.
- Farei o possível para que ela tenha tudo que precisar doutor.
Essa menina precisa de auxílio e eu tenho como ajudar.
Não se preocupe, faça tudo que estiver a seu alcance.
O médico cumprimentou-a com a cabeça e voltou pela mesma porta de onde tinha saído.
Precisava ficar atento ao estado de Lenita.
A senhora voltou e disse:
- Dei as informações que sabia.
Preciso avisar a avó da menina para que venha até aqui e complete as informações.
Márcia voltou a lembrar-se de sua mãe e disse:
- A menina ficará aqui por alguns dias.
A avó deve estar preocupada e não sabe para que hospital viemos.
Providenciarei tudo com a recepcionista, depois levarei a senhora de volta para que comunique todo o acontecido a ela.
Foi até o balcão.
- Que preciso fazer para que ela tenha todo o atendimento necessário?
- Deixe um cheque com esta quantia.
Quando a menina tiver alta, devolveremos o que sobrar, ou cobraremos o excedente.
Márcia verificou o valor, tirou da bolsa um talão de cheques, preencheu uma das folhas e entregou-a a moça, dizendo:
- Vou deixar este cheque e meu telefone.
Se precisar de mais, basta me telefonar.
- Está bem.
Assim que a família chegar, darei seu telefone para que possam agradecer.
Ao ouvir aquilo, Márcia estremeceu.
Disse com uma firmeza que assustou a moça:
- Nem pensar!
Não se atreva a fazer isso.
Estou ajudando a menina, mas não quero ser mais incomodada por sua família.
Portanto, este telefone não pode ser dado a ninguém.
A ninguém, entendeu?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:13 pm

A moça, assustada, respondeu:
- Não entendo por que quer se manter anónima.
O acto que está fazendo é muito bonito.
Mas, se é assim que deseja, manterei o sigilo.
Vou anotar aqui na ficha que seu telefone não deve ser dado a ninguém.
Está bem assim?
- É isso mesmo o que desejo.
Márcia voltou para junto da mulher que a acompanhava.
- A menina está bem e já providenciei para que fique aqui o tempo que for necessário.
Agora, podemos ir.
Mais tarde, traga a avó dela até aqui; acredito que esteja desesperada para saber o que aconteceu com a menina.
- Não precisa me levar:
moro aqui perto e vou a pé.
Não sei quem é a senhora, mas apareceu do céu.
Obrigada por tudo.
Pode me dizer seu nome?
A avó de Lenita vai querer saber para agradecer.
- Meu nome não importa.
O importante é que ela continue cuidando bem da menina.
Diga a ela que mantenha o tratamento com o médico.
Providenciarei os remédios que precisar.
- Ela adora essa menina e faz tudo que pode por ela.
Trabalha muito.
- Assim espero.
Bem, vou embora, mas antes tenho de fazer algo.
Voltou para o balcão e falou para a recepcionista:
- Será que podia chamar o médico novamente?
Preciso falar com ele.
A moça chamou pelo interfone:
- Doutor, aquela mulher que ajudou a menina deseja falar com o senhor.
- Está bem, irei em seguida.
Após alguns minutos, ele voltou.
Olhando para Márcia, disse:
- Está querendo perguntar-me algo mais?
- Não, sua explicação sobre a doença e o tratamento foi completa, mas o senhor disse que vai continuar tratando da menina em seu consultório.
Ela vai precisar ser medicada, por isso vou deixar meu telefone com o senhor.
Dê a ela toda a medicação que precisar, em seguida me telefone, e eu lhe mandarei o dinheiro dos remédios para sua conta bancária.
Por favor, dê-me o número da conta e da agência.
Não se preocupe:
basta me telefonar e dizer o valor.
No mesmo dia eu farei o depósito.
Não economize, gaste o que for necessário.
O médico ficou olhando para ela sem entender todo aquele interesse, mas considerou que aquilo não era de sua conta.
A menina seria tratada e para ele isso era o que importava.
- Não estou preocupado, sei que cumprirá com o prometido.
Não se preocupe; ela terá todo o tratamento necessário.
- Sei disso, doutor.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:14 pm

Telefonarei mais tarde para saber como ela está.
Será que poderia vê-la antes de sair?
- Claro que pode.
Ela agora está dormindo, mas seu estado é muito bom.
Está tudo sob controle. Venha comigo.
Ela o acompanhou, entrando por aquela mesma porta.
Foi levada até o quarto.
Lenita dormia tranquilamente.
Sua cor natural já voltara.
Márcia, emocionada, ficou olhando para aquele rostinho e pensando:
Você é tão bonita!
Não se preocupe: farei tudo que for possível para ajudar você a crescer e a se tornar uma linda moça. Você é muito querida.
Não sei qual o motivo, porém sinto que te amo muito.
Vou embora, mas, daqui para frente, acompanharei sua vida.
Deu um beijo na testa da menina e saiu.
Não percebeu, mas um vulto luminoso aproximou-se sorrindo e também beijou sua testa.
Márcia foi para o seu carro e partiu.
A imagem de Lenita não saía de sua cabeça:
Queria cuidar dela para sempre, mas sei que minha mãe não permitirá, parece que é muito apegada à menina.
Só de pensar que para tê-la comigo terei de aceitar minha mãe também, sinto um frio correr pela minha espinha.
Que sentimentos estranhos são esses?
Como posso gostar tanto de uma e odiar tanto a outra!
Estava distraída com seus pensamentos.
Só quando chegou à rua de seu prédio lembrou-se de dona Durvalina.
Com tudo o que aconteceu, acabei esquecendo-me dela, mas talvez tenha sido melhor.
Lenita precisa muito de minha ajuda.
Farei tudo o que puder, farei com que meus pensamentos sejam todos para ela.
Preciso encontrar uma forma.
Não sei ainda, mas com certeza pensarei em algo.
Sempre penso! Entrou em casa.
Pela primeira vez sentiu que o apartamento era muito grande para ela sozinha.
Olhou através da porta de vidro para a piscina.
Este apartamento é tão grande... a piscina quase nunca é usada.
Para Lenita, ela seria muito boa.
Aqui há muito espaço para brincar.
Sentia o coração leve.
Encontrara um motivo para viver, além de seu trabalho.
Encontrou alguém em quem sentia que podia confiar e que podia amar.
Embora Gervásio e Farias permanecessem a seu lado o tempo todo, não conseguiam se aproximar, muito menos intuir maus pensamentos.
Desde que Márcia encontrara Lenita e se preocupara com ela, e durante todo o tempo em que esteve no hospital, ela ficou como que protegida por uma aura de luz que brotava de seu coração.
Durante a viagem de volta, no carro, seu pensamento foi só para Lenita e pelo grande amor que sentia por ela.
Gervásio e Farias entraram em seu apartamento, mas ela os afastava com o pensamento de amor.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:14 pm

Farias ficou nervoso:
- Que está acontecendo?
Por que não posso mais chegar perto dela?
- Você ouviu o que Damião disse:
se ela não praticar aquela maldade, se deixar o coração só com o sentimento de amor, você não poderá se aproximar.
- Não é justo!
Ela não pode ter mudado tanto.
- Sempre podemos mudar. As chances que Deus nos dá são imensas.
- Não consigo acreditar.
Ela logo vai mostrar quem é na realidade.
- Vamos esperar, Farias... vamos esperar...
Márcia voltou-se.
Estava se encaminhando para o quarto, quando olhou para o lugar onde pela última vez vira Osvaldo.
Tornou a vê-lo indo embora, com aquele sorriso sarcástico.
Imediatamente todo o orgulho ferido e o ódio voltaram e ela pensou com muito ódio:
Como fui me esquecer dele? Aquele idiota!
Livrou-se por causa de Lenita, mas amanhã vou voltar até a casa de dona Durvalina e mandar fazer o trabalho.
No mesmo instante em que sua faixa de pensamento mudou, Farias e Gervásio perceberam que ela agora podia ser atacada.
Farias foi para junto dela e começou a falar:
- Isso mesmo. Ele não presta.
Ele humilhou você.
Precisa se vingar!
Se beber, vai se sentir melhor.
Como se o estivesse ouvindo, ela olhou para o bar e, imediatamente, a vontade de beber voltou.
Deixando-se novamente influenciar por Farias, encheu um copo.
Ele bebia junto a ela por meio do vapor do álcool.
Ela, envolvida por ele, encheu um copo atrás do outro.
O ódio por Osvaldo era muito grande.
Quanto mais pensava nele, mais bebia.
Logo percebeu que estava completamente embriagada.
Deitou-se em um sofá na sala e caiu em sono profundo.
Farias também embriagado, adormeceu a seu lado.
Naquela noite, Márcia novamente teve um sono agitado e sem descanso.
Pela manhã, acordou sentindo-se muito mal e com dor de cabeça.
Acompanhada por Farias, foi para o chuveiro.
Enquanto tomava banho, ia pensando:
O Osvaldo, como estará em sua nova vida?
Aquele idiota!
Ontem se livrou por causa de Lenita...
Lenita? Lenita?
Como será que ela está?
Saiu do chuveiro, pegou o telefone e telefonou para o hospital.
Informaram-na de que a menina estava bem e que a avó a acompanhava.
Enquanto falava sobre Lenita, novamente se deixou envolver por uma profunda ternura.
O vulto luminoso aproximou-se, o que obrigou Farias a se afastar.
O espírito envolveu-a em sua luz e assim fez com que ela ficasse mais tranquila.
Com aquele sentimento de ternura e amor, Márcia dirigiu-se para a sala, o vulto acompanhando-a.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:14 pm

Farias também a seguiu só que agora à distância.
Ela, sentada em seu sofá preferido, pensava:
Preciso ajudar a menina, só não sei como.
Posso aparecer para minha mãe e pedir a ela que não conte a ninguém quem sou.
Ela pode dizer que sou uma pessoa que a está ajudando por causa da menina.
Não... Não posso fazer isso.
Ela é minha mãe.
Na realidade não tenho motivos para odiá-la tanto.
Ela me deu tudo que podia, me ensinou o que sabia.
Quando me mandou para a casa de dona Leonor, foi pensando em meu bem, e acertou.
Preciso ajudar Lenita, não posso deixar que ela fique desamparada.
O vulto luminoso a seu lado a olhava com muito carinho.
Com um sorriso radiante em seu rosto, a envolveu novamente em sua luz.
Ela continuou pensando:
Isso mesmo: tomarei um banho e irei ao hospital.
Se minha mãe me reconhecer, conto a ela minhas intenções de trazê-las para morar comigo.
É isso mesmo que tenho de fazer.
Hoje, sou uma mulher realizada.
Se pensar bem, devo isso a ela.
Foi ela quem, pensando em meu futuro, me encaminhou.
O vulto sorria.
Ele sabia que só estava ali porque ela trazia agora em seu coração pensamentos de amor e gratidão.
Enquanto tomava banho, Márcia pensava em Lenita e no tratamento de que precisava.
Sinto que, se não a ajudar, ela fatalmente morrerá, o médico foi bem claro.
Minha mãe está em situação ruim, mas, por mais que eu queira, não sei por que não consigo sentir pena dela, ela me é completamente estranha, não consigo confiar.
A única de minha família por quem sinto algo é Lenita.
Por ela, serei capaz de tentar viver com minha mãe.
Ao pensar em Lenita, seus olhos se iluminavam e a sua aura também.
O vulto a seu lado sorria e dizia:
- Meu amor, você tem de conseguir.
Precisa esquecer e perdoar o passado.
Só assim poderemos ser felizes novamente. Você tem de conseguir.
Ela sentiu um suave perfume, que não era do sabonete que estava usando.
Com o perfume, sentiu novamente saudade, mas não sabia do quê.
Está decidido: irei ao hospital e, depois que Lenita tiver alta, vou trazê-la para cá.
Se o preço será ter de trazer também minha mãe, é o que farei.
Pagarei. Enquanto se vestia, via a menina sorrindo para ela e correndo por aquele apartamento enorme.
Farias percebeu que a faixa de ondas dela havia mudado novamente.
Começou a sacudir Gervásio, que dormia tranquilamente:
- Gervásio! Gervásio, acorde!
Ela vai sair e parece que está disposta a trazer a menina e sua mãe aqui para casa. Acorde!
Gervásio abriu os olhos e falou um pouco atordoado:
- Por que está gritando?
- Ela vai sair e parece estranha.
Acho que vai buscar a menina!
- Será mesmo? Que quer fazer?
- Precisamos impedir.
Ela não pode fazer isso.
Precisamos fazer com que ela volte a pensar em Osvaldo.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:14 pm

Antes que Gervásio falasse algo, Farias lançou-se sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la.
Uma luz a protegia como se fosse um escudo.
Ele foi jogado para longe.
Ficou desesperado, sem saber o que fazer, e começou a gritar:
- Gervásio, que aconteceu?
Por que não consigo me aproximar?
- Por que ela está tendo pensamentos bons e firmes, por isso um daqueles lá de cima a está protegendo.
Enquanto ela continuar assim, não poderemos nos aproximar.
- Não pode ser!
Ela é lá de ter bons pensamentos?
Ela é muito má, cínica e calculista!
- Sempre há uma hora para se arrepender e conseguir o perdão e o amor de Deus.
Se ela continuar assim, tudo para você estará perdido.
Não conseguirá se aproximar.
Farias não se conformou.
Jogou-se várias vezes sobre ela e várias vezes foi repelido e atirado longe.
Márcia só via diante dela o rosto de Lenita, e aquele sentimento de ternura tomou conta de todo o seu ser.
Não posso permitir que ela morra por falta de assistência ou por má alimentação.
Tenho muito dinheiro e posso dar tudo de que ela precisa.
Irei até lá e contarei a ela que, quando sair do hospital, virá aqui para minha casa e será muito feliz.
O vulto de branco sorria e deu-lhe um beijo no rosto.
Ela sentiu uma brisa suave passando por seu corpo.
Estou me sentindo muito bem.
Parece que encontrei um novo sentido para minha vida.
Sinto que agora serei realmente feliz, podendo dividir com Lenita tudo o que possuo.
Farias continuava se jogando sobre ela.
Não se conformava com o fracasso e gritava:
- Não é justo, Gervásio!
Depois de tudo que ela me fez, ser protegida dessa maneira.
Ela não presta!
Merece castigo e não perdão!
- Meu amigo, se ela continuar assim, não poderemos fazer nada.
Torça para que você tenha razão e que ela volte a ter sentimentos de ódio e vingança.
Só assim você poderá se aproximar e tentar fazê-la ser novamente o que sempre foi: má, calculista e mesquinha.
Se conseguir isso, ela será toda sua, mas, se ela não voltar a ser como antes, você terá de ir embora e esquecer.
- Esquecer? Nunca!
O que ela me fez não tem perdão!
Como vou esquecer que por causa dela fui atirado naquele vale horrível?
Por causa dela estou aqui nesta situação!
Não vou esquecer nem perdoar. Nunca!
- Não adianta ficar assim.
Tem de ter paciência e esperar.
O perdão é muito bom.
Tente perdoar e verá como se sentirá muito bem.
Acredite na Lei, ela é justa e sábia.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:15 pm

ORGULHO FERIDO
Márcia terminou de almoçar, pegou o carro novamente e saiu rumo ao hospital.
Não conhecia muito bem o caminho, nunca antes estivera por aquele lado da cidade.
Ao sair da marginal, perdeu-se.
Não sabia onde estava e que caminho deveria tomar.
Parou em um posto de gasolina e pediu informação ao frentista.
Ele lhe ensinou o caminho, e ela continuou procurando.
Estava passando por uma rua quando viu o carro de Osvaldo estacionado em frente a um portão.
Seu corpo todo estremeceu e seu coração começou a disparar.
Diminuiu a velocidade.
Estava se aproximando, quando viu de dentro da casa algumas pessoas saindo.
Osvaldo vinha abraçado à esposa, as crianças corriam à sua frente.
Junto vinha um outro casal, mais velho, que Márcia deduziu serem os pais dele.
Ele conversava distraído e não viu seu carro.
Ela acelerou justamente para que ele não a visse.
Estacionou mais à frente e pelo retrovisor ficou observando.
Todos se abraçaram.
Osvaldo ficou o tempo todo com as mãos no ombro da esposa.
Sorrindo, entraram no carro e saíram no sentido contrário ao dela.
Novamente, o ódio voltou.
Márcia falou alto:
- Ele está feliz com a esposa, não está nem um pouco preocupado comigo!
Não está se importando se estou só e carente!
Não está se lembrando nem que um dia eu existi.
Isso não vai ficar assim!
Não vou a hospital algum!
Vou para a casa de dona Durvalina mandá-la fazer o que tem de ser feito!
Continuou dirigindo.
Passou em frente ao hospital.
Dali para frente sabia como chegar a seu destino.
Dirigiu, por mais alguns minutos, e finalmente chegou.
Dessa vez, parou o carro em frente à casa.
Não estava com disposição de andar.
Bateu palmas e a mesma senhora que morava no quarto da frente atendeu:
- Pois não.
- Preciso falar com dona Durvalina.
Ela está?
- Não sei.
Ela mora na terceira porta.
Pode entrar.
Márcia entrou e caminhou até a porta.
Bateu e dona Durvalina atendeu.
- Pois não.
Posso ajudar em alguma coisa?
Ela estranhou aquela figura.
Uma mulher alta, com cabelos negros, com os olhos brilhantes, podia-se dizer que era bonita, não tinha nem trinta anos.
Márcia ficou olhando, pensando estar diante de outra pessoa.
Àquela que estava à sua frente em nada se parecia com a outra com quem havia conversado.
Meio sem jeito falou:
- A senhora é dona Durvalina?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 03, 2017 7:15 pm

- Sou eu mesma. Posso ajudar em alguma coisa?
- Estive aqui outro dia e falei com a senhora.
Disse que faria um trabalho para mim, disse também que eu poderia vir a qualquer hora.
Como trabalho, será muito difícil eu vir durante a semana, por isso vim hoje.
A senhora pode me atender?
- Sinto muito, mas dia de domingo eu não trabalho.
- Imaginei isso, mas é muito urgente.
Sei que o preço da consulta é cinquenta.
Pagarei cem.
A mulher pensou por um instante e falou:
- Está bem.
Vai precisar esperar um pouco, tenho de me preparar.
Pode ir lá para o fundo.
A porta está só encostada.
Entre e irei em seguida.
Márcia, com um sorriso vitorioso, dirigiu-se à porta.
Abriu, entrou. Ficou impressionada.
O quarto parecia bem maior.
O ambiente estava claro, iluminado por uma luz lilás.
No fundo, um altar com flores e alguns santos.
Velas acesas de várias cores.
Olhando aquilo, pensou:
Definitivamente, este não é o mesmo lugar em que estive naquele dia.
Será que estou ficando louca?
Estava ali olhando, quando dona Durvalina entrou:
- Está estranhando alguma coisa?
- Estou. No outro dia, isto aqui parecia escuro e feio.
Hoje parece iluminado e bonito.
- Bem se vê que a moça não entende nada de minha religião.
Durante a semana, para atender as pessoas, eu trabalho com a esquerda, mas também trabalho com a direita.
Tenho meus santos e protectores.
Dependendo da consulta, eu uso um lado ou o outro.
Enquanto falava, puxou uma cortina preta, separando os dois ambientes.
Acendeu algumas velas pretas, pegou charutos e a garrafa de cachaça, ficou em pé com os olhos fechados.
Seu corpo começou a tremer e de repente soltou uma gargalhada estridente.
Márcia, assustada, viu a transformação da mulher à sua frente.
Novamente não lembrava nem por um instante a dona Durvalina que acabara de conhecer.
A mulher sentou-se no chão, acendeu um charuto e tomou um pouco da cachaça.
Márcia agora já sabia o que tinha de fazer e ajoelhou-se à sua frente.
Como da outra vez, a mulher pegou suas mãos.
Deu uma gargalhada e falou:
- Então a moça voltou?
Resolveu mesmo fazer o trabalho?
- Sim, e precisa ser hoje.
- A moça pensou bem no que vai ter de pagar?
- Pensei. Não me incomodo, pagarei o que for preciso.
- Já que é assim, só me resta atender seu pedido.
Vou fazer o trabalho.
Espero que a moça não se arrependa.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:05 pm

- Não vou me arrepender.
Resolvi hoje.
Não tenho tempo e não sei comprar o material necessário, por isso vou deixar o dinheiro com a senhora para comprar tudo.
- Está certo, moça, mas antes preciso lhe falar mais uma coisa.
Esse trabalho que vou fazer pode dar certo, mas também, dependendo da pessoa que for receber, ele pode não funcionar.
Se ela for uma pessoa boa, com bom sentimento, vai ter protecção e nada vai acontecer.
A moça está entendendo?
- Quer dizer que pode não acontecer nada?
Quer dizer que estarei gastando meu dinheiro em algo que pode não acontecer?
- Isso mesmo.
Se a pessoa pra quem o trabalho for feito é protegida, não vou conseguir realizar.
Estou avisando para depois, se não der certo, a moça não volte pra reclamar.
- Ele não é uma boa pessoa!
Ele não tem bons sentimentos, é um canalha.
Eu o odeio!
Vou arriscar, sei que dará certo!
- A moça é quem sabe.
Há outra coisa que preciso avisar.
Se o trabalho der certo ou se não der, isso não importa; o que importa é a intenção da moça.
Se fizer, vai ter de pagar o preço, dando certo ou não.
- Já disse que não me preocupo com isso.
Só vamos saber se dará certo, fazendo o trabalho.
- Moça, depois que eu fizer, vai ser difícil desfazer.
Pense bem...
Márcia irritou-se com toda aquela conversa.
Ela já havia pensado muito e era exactamente aquilo o que queria.
Falou quase gritando:
- Já pensei bem.
Não voltarei atrás.
Vou pagar o que for preciso.
A senhora não quer receber o pagamento?
- A moça não está falando com senhora nenhuma, a moça está falando com um Exu.
Márcia se assustou com o olhar que a mulher lhe dirigiu, disse:
- Está bem, desculpe.
É que estou muito nervosa.
Mas mesmo assim volto a perguntar:
o senhor não quer receber?
- Está bem, moça, se quer assim, vamos fazer.
A moça dá o nome de todas as pessoas, deixa o dinheiro do meu cavalo e outro tanto pra comprar tudo que precisar, e amanhã meu cavalo compra tudo.
Eu preparo e ela faz a entrega.
Vai demorar sete dias pra a moça ver se deu resultado.
Está bem assim?
- Está. É só o que quero:
ver o resultado.
- Está bem. Agora a moça pode ir embora e esperar até a semana que vem.
Se der certo, a moça não precisa mais voltar, só se quiser fazer outro trabalho.
Enquanto falava, bebia e soltava baforadas de charuto sobre Márcia.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:05 pm

Márcia levantou-se, tirou da bolsa os cem da consulta, os cinco mil do trabalho e mais duzentos para que o material fosse comprado.
Entregou à mulher e saiu.
Já no carro, sorria satisfeita com o resultado que teria.
Estava feito.
Ela veria Osvaldo a seus pés, pedindo perdão.
Era tudo que queria.
A seu lado, sentados no banco de trás, Gervásio e Farias também sorriam alegres.
Gervásio falou:
- Agora ela é toda sua.
Pode fazer cumprir sua justiça.
Essa é a Lei.
Temos de voltar e falar com Damião.
Ele vai dizer o que pode ser feito.
- Como pode dizer o que deve ser feito?
Ele já disse que eu poderia fazer cumprir minha justiça.
- Ele disse e é verdade, mas para tudo existe uma ordem.
Precisamos voltar e falar com ele.
- Está bem.
Já que é assim, que seja, mas estou feliz, porque vou poder me vingar!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:06 pm

UMA FAMÍLIA FELIZ
Enquanto isso, Osvaldo passeava por um parque de diversões, onde, após o almoço, levou as crianças.
Enquanto elas brincavam, ele e Clarice passeavam abraçados.
Ela não acreditava na felicidade que estava sentindo. Disse:
- Estou tão feliz, Osvaldo!
Você voltou a ser o homem que conheci e com quem me casei, voltou a ser amoroso comigo e com as crianças.
- É mesmo, meu amor, tenho de reconhecer que a fiz sofrer muito.
Sua partida me fez perceber o quanto amo você e as crianças, e me fez compreender que só poderei ser feliz ao lado de vocês.
Clarice deu um beijo em seu rosto, dizendo:
- Agradeça à sua mãe e a Marlene.
Foram elas que me deram à ideia de jogar uma última cartada.
- Que está dizendo?
Minha mãe? Marlene? - perguntou, admirado.
- Sim, foram elas.
Sua mãe estava cansada de ver você naquela vida desvairada, esquecendo-se de mim e das crianças, e Marlene você conhece: é só bondade.
As duas me convenceram de que a melhor coisa que eu teria de fazer seria abandonar você.
Sabíamos que seria uma cartada difícil e definitiva, mas sua mãe dizia sempre:
- Filha, você precisa fazer isso.
Sei que meu filho ama você e as crianças.
Ele só não se deu conta disso, ainda.
Por isso tem de fazer com que ele sinta a falta de vocês.
Não conhece o ditado?
Para dar valor, é necessário perder.
- E se ele não sentir nossa falta?
Se ele não se preocupar e não for me procurar?
- É um risco que você precisa correr.
De que adianta ficar ao lado de um homem que não a respeita, que está sempre ausente na educação dos filhos?
Você é muito boa, não merece isso.
- Minha mãe te disse isso, Clarice?
- Disse muitas vezes, Osvaldo.
Marlene ajudava muito, sempre dizendo:
- Sua sogra tem razão, Clarice.
Vocês merecem muito mais.
Você tem de confiar na bondade de Deus e ter certeza de que Ele nunca abandona Seus filhos.
Vocês se casaram e ele abençoou seu lar com duas crianças.
Se assim fez, foi para que tudo desse certo.
Deus é pai.
Às vezes Ele nos manda alguma dificuldade, por nossa própria culpa, para nos ensinar ou porque temos alguma dívida para resgatar.
- Marlene é uma mulher maravilhosa, Clarice.
Trabalha para minha mãe, nem sei há quanto tempo.
Está sempre em dificuldades, mas não reclama nunca. Como pode?
- Não sei. Ela sempre diz que se sofre é porque se merece.
São coisas lá de sua religião... acredita na vida após a morte, reencarnação e tudo mais.
- Você acredita em reencarnação?
- Não sei. Às vezes penso: por que existem tantas diferenças aqui na Terra?
Dizem que Deus é Pai de todos... então por que a muitos Ele dá tudo e a outros não dá nada?
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:06 pm

Será que Ele tem filhos preferidos?
Osvaldo ficou ouvindo Clarice e pensando.
Quando ela terminou de falar, ele continuou:
- Pensando dessa forma, a gente chega à conclusão de que, se existe um Deus, tem de haver reencarnação.
Só isso poderia realmente explicar as diferenças que existem.
Deve existir algum motivo para que as pessoas tenham vidas tão diferentes:
uns sofrem tanto e outros, nada...
- Estive pensando muito sobre isso.
Marlene mesma... desde que a conheço, sempre sofreu todo tipo de desgosto.
Por quê? Uma mulher tão boa e prestativa, sempre disposta a dividir o que tem... ela tem sempre uma palavra de consolo, e em sua pobreza ainda encontra meios para ajudar aqueles que mais precisam.
Não dá para entender.
- É muito complicado mesmo.
Bem, mas isso não importa.
Estou feliz de voltar a encontrá-la e amá-la.
Elas duas tinham razão: amo muito você e as crianças.
Ficaremos sempre juntos e nada vai nos separar novamente.
Clarice correspondeu o beijo suave que ele deu em seus lábios, falando:
- Não sei se reencarnação existe, nem se essa história de almas gémeas é verdadeira, mas, se isso tudo for verdade, com certeza estivemos juntos nos amando em outra encarnação e somos almas gémeas, porque eu o adoro.
As crianças saíram de um brinquedo e vieram correndo ao encontro dos dois, pedindo sorvete.
Ainda abraçados, foram até um carrinho e compraram o preferido de cada um.
Os quatro, cada um com seu sorvete, continuaram andando pelo parque.
As crianças praticamente engoliram de uma vez o sorvete para poderem brincar novamente.
Quem os visse, com certeza, diria:
- Essa é uma família feliz.
E, realmente, era.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:06 pm

OPORTUNIDADE DE REPENSAR
Márcia acordou e foi trabalhar.
Naquela semana, por ser a última do mês, ela teve muito trabalho e precisou ficar todos os dias até mais tarde no escritório.
Osvaldo não telefonou, mas ela quase não teve tempo de pensar nele e, quando pensava, contava nos dedos os dias que faltavam para o domingo.
Sabia que teria de esperar até lá.
Dedicou todo o seu tempo ao trabalho, quase não pensou em Lenita também.
Na terça-feira, a recepcionista do hospital ligou:
- Dona Márcia, sou Regina, aqui do hospital.
- Hospital?!
Ah, sim... Lenita!
Como ela está?
- Está bem, vai receber alta hoje, após o almoço.
É por isso mesmo que estou ligando.
O cheque que a senhora deixou é superior aos gastos e teremos de devolver o restante.
Estou ligando para saber se a senhora vem até aqui ou se prefere que o dinheiro seja depositado em uma conta de banco.
- Nem uma coisa nem outra.
Esse dinheiro foi reservado para Lenita.
Desconte do cheque as despesas e dê o troco à avó da menina para comprar alimentos e tudo o que for necessário para atender às necessidades de Lenita.
- Farei isso.
A senhora é mesmo uma santa.
Agradeço em nome da menina e de sua avó. Obrigada.
Desligou o telefone.
Márcia, ainda com o aparelho na mão, pensou:
Uma santa? Eu?
Ainda bem que a menina está bem.
Mas Precisa de tratamento.
Vou arrumar um meio de ajudá-la.
No hospital, a recepcionista colocou o telefone no gancho.
Pelo interfone, pediu à enfermeira do andar que enviasse a avó de Lenita até a recepção.
Pouco depois, ela chegou, perguntando:
- A senhorita mandou me chamar?
- Sim. Sua neta vai receber alta, e a moça que deixou cheque pediu para darmos o troco à senhora, para comprar toda alimentação de que a menina precisar.
- Quem é essa moça?
- Ela pediu que seu nome e endereço não fossem fornecido quer continuar anónima.
- Preciso saber quem é.
Preciso agradecer tudo que fez por minha menina.
- Sinto muito, mas ela impôs essa condição.
Não podemos quebrar o prometido.
- Moça, por favor, preciso saber quem é ela.
- Só posso lhe dizer que o nome dela é Márcia e que é uma mulher muito rica.
- Márcia?! Márcia?
Você disse Márcia?
- Foi exactamente isso que disse.
O nome dela é Márcia.
Mas por que o espanto?
É um nome como outro qualquer.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:06 pm

- Moça, por favor, preciso saber o endereço dela.
Preciso disso mais do que nunca!
- Minha senhora, desculpe, mas não posso.
- Por favor, moça, preciso agradecer.
Se ela não tivesse socorrido minha neta, ela agora poderia estar morta.
O mínimo que posso fazer é agradecer do fundo do meu coração.
Regina ficou pensando por alguns segundos, olhando para a ficha de Lenita que estava em suas mãos.
Voltou a olhar para a velha senhora:
- Pensando bem, não vejo inconveniente algum em lhe dar o endereço.
O gesto dela foi muito bonito, não deve ser ignorado.
Ela não quis que a senhora soubesse quem era porque agiu com boa vontade, apenas querendo ajudar a menina, não para receber agradecimento.
Vou lhe dar o telefone que ela deixou, é de seu escritório.
A senhora pode telefonar e agradecer, mas, por favor, não diga a ninguém que fiz isso... posso perder meu emprego.
- Não vou dizer, pode ficar tranquila.
Regina anotou o número do telefone, o nome e o endereço da empresa em que Márcia trabalhava e entregou o papel à avó de Lenita, que o dobrou e guardou na bolsa.
Agradeceu e voltou para o quarto.
Precisava preparar Lenita para irem embora.
Márcia voltou ao trabalho.
Aquela semana era mesmo puxada.
O trabalho como sempre, foi entregue e elogiado.
Todos os seus auxiliares também trabalharam muito.
Não gostavam dela, mas eram obrigados a admirá-la como profissional.
Possuía um grande conhecimento sobre tudo que fazia.
No sábado de manhã, saiu e foi fazer algumas compras.
Sabia que, na semana seguinte, Osvaldo voltaria, e queria que ele a encontrasse em uma camisola deslumbrante.
Fez compras, depois foi ao cabeleireiro, voltou para casa, arrumou-se e foi ao teatro.
No domingo, acordou cedo e voltou àquele parque em que esteve observando as pessoas.
Sentou-se no mesmo banco e ficou pensando:
Ele voltará, e desta vez exigirei que abandone a esposa e que se case comigo.
Está na hora de ter meus filhos.
Só agora estou percebendo como sou sozinha.
Não tenho ninguém a meu lado a quem possa me dedicar e dividir tudo o que tenho.
Preciso mudar esse estado de coisas.
Vou formar minha família, está mais do que na hora.
Continuou olhando as pessoas correndo, andando e os pais brincando com as crianças.
Um homem de corpo atlético e bonito passou por ela, lançou-lhe um olhar e, sorrindo, continuou correndo.
Ela o acompanhou com os olhos.
Ele era realmente bonito e seu sorriso também.
Ele sumiu, para logo depois passar correndo por ela e sorrir novamente.
Ela não se conteve e sorriu também.
Ele continuou correndo e, cada vez que passava por ela, sorria.
Em uma das voltas, acenou com a mão e foi correspondido.
Ele sumia de um lado, ela ficava olhando para o outro, esperando sua chegada.
Em uma das vezes que apareceu, ele parou e sentou-se a seu lado.
Suava muito, mas mesmo assim era bonito.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:07 pm

Estava de short e podia-se ver suas pernas grossas de puro músculo.
Devia ter uns trinta e poucos anos.
Os cabelos castanhos, um pouco grisalhos nos lados, davam a ele uma aparência magnífica.
Aquela beleza viril a encantou.
Enxugando o rosto com uma toalha que carregava no pescoço, ele falou:
- Meu nome é Ronaldo.
Muito prazer.
Ela, meio sem jeito por não estar acostumada a ser assediada, respondeu:
- O meu é Márcia.
Muito prazer.
- Você não costuma vir aqui, não é?
Venho quase todos os domingos e nunca a vi antes.
- É verdade. Esta é a segunda vez que venho.
Gosto de admirar a natureza e ver as pessoas felizes e despreocupadas.
- Não pratica desportivo?
- Não. Sempre trabalhei e estudei muito, nunca me sobrou tempo.
- Tempo a gente sempre arruma.
O desporto não faz bem só para o corpo, mas para a mente também.
- Acredito. Só que nunca senti vontade.
Quem sabe agora eu passe a me interessar.
Ele deu um largo sorriso:
- Espero, sinceramente, que se interesse Márcia, porque assim poderemos nos ver mais vezes e, quem sabe, nos tornar amigos.
Preciso ir embora.
Foi um prazer conhecer você e espero vê-la mais vezes por aqui. Até logo...
- Você me verá, com certeza. Até logo...
Ele foi embora.
Márcia ficou olhando até que ele desaparecesse, pensando:
Ele é realmente muito bem apessoado e simpático.
Seu sorriso é franco e bonito.
Seus olhos... que olhos eram aqueles?
Meu Deus, que homem!
Sorriu por estar tão impressionada e sentindo algo que nunca sentira antes.
Os olhos dele possuíam algo que a atraía e muito.
Foi para casa resolvida a voltar no próximo domingo na mesma hora.
Precisava vê-lo novamente.
Passou o resto do domingo tranquila.
Leu, tirou uma soneca, assistiu à televisão.
Cada vez mais constatava que era uma pessoa só, completamente só.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:07 pm

TRISTEZA E ACEITAÇÃO
Na segunda-feira, levantou-se e foi para o escritório.
Aquele era o dia.
Com certeza, Osvaldo telefonaria louco de vontade de vê-la.
Chegou à empresa, estacionou o carro na garagem e subiu pelo elevador.
Aquela era sua rotina diária.
Ao entrar no saguão, a recepcionista, ao vê-la, disse:
- Dona Márcia, esta senhora a está esperando por muito tempo.
Disse que precisa conversar com a senhora e que é urgente.
Márcia voltou-se e viu em sua frente sua mãe. Estremeceu.
Ela estava vestida de maneira simples, com roupas que denotavam sua origem.
Márcia ficou calada, sem conseguir se expressar.
O sangue sumiu de seu rosto.
Agindo como se não a conhecesse, a mulher falou:
- Vim até aqui para agradecer o bem que fez à minha neta e para lhe dizer que agora ela está muito bem.
Márcia, ainda confusa, acreditando que mais uma vez ela não a havia reconhecido, disse:
- Não precisava fazer isso.
Qualquer pessoa na mesma situação teria feito o que eu fiz.
- Precisava agradecer, sim.
Com o dinheiro que sobrou, vou poder tratar dela por um bom tempo.
Muito obrigada mesmo.
Enquanto falava, a mulher ia olhando para ela profundamente.
De repente, parou de falar e ficou só olhando.
Por seu rosto correram duas lágrimas.
Márcia percebeu que ela a havia reconhecido.
Percebeu também que a recepcionista da empresa acompanhava toda a conversa.
Ficou com medo de que a mãe falasse algo comprometedor na frente dela.
Num instante, disse:
- Por favor, entre aqui em minha sala, quero que me fale mais a respeito da menina.
Entrou na sala e a mãe a acompanhou.
A funcionária da recepção ficou encantada e admirada pelo facto de a Bruxa (era assim que a chamavam) ter feito uma boa acção.
Correu para contar aos outros empregados.
Márcia, depois que fechou a porta, falou:
- A senhora tem mais alguma coisa para me dizer?
- Márcia! É você mesma!
A minha Márcia, que tenho procurado há tanto tempo.
Márcia... Por que se afastou da gente?
Por que nunca mais deu uma notícia sequer?
Não pensou que eu ia morrer de preocupação?
- Não sou a Márcia que a senhora está pensando!
A Márcia que conheceu fugiu um dia de toda aquela pobreza, miséria e tristeza, do meio de pessoas pobres e infelizes!
Sou outra pessoa, venci na vida, graças a meu trabalho e boa vontade.
Não pertenço, aliás, nunca pertenci, a seu mundo!
Sempre odiei todos vocês, nasci em sua casa por engano!
- Não fale assim.
Somos sua família, sou sua mãe...
- Não tenho família, não tenho mãe, não me importo como estão vivendo e onde!
Estive esse tempo todo isolada porque não queria ter contacto algum com vocês.
Quero continuar assim!
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:07 pm

- Márcia, minha filha, não pode imaginar o quanto tenho sofrido sem notícias suas...
- Agora com certeza vai sofrer ainda mais, pois descobriu que sou rica e poderosa, enquanto a senhora continua na miséria de sempre!
Quanto quer para esquecer que me viu?
Quanto quer para não contar a ninguém que sou sua filha?
Posso pagar o que quiser, tenho muito!
Ao ouvir aquilo, a velha senhora limpou as lágrimas com as mãos e olhou firme para Márcia, respondendo:
- Como você é mesquinha!
Não quero e não preciso de nada.
Sou sua mãe e continuarei sendo para sempre.
Não vou dizer a ninguém e não precisa pagar por meu silêncio.
Dinheiro algum pagaria a vergonha e a tristeza que estou sentindo neste momento por ter gerado um monstro como você.
Peço a Deus que tenha pena de sua alma, que lhe mostre o caminho do bem e do amor, que a proteja.
Deus a abençoe, minha filha...
Seu coração estava despedaçado.
Enxugando as lágrimas que insistiam em cair, saiu da sala, passando pela moça que a havia atendido e que percebeu que ela estava chorando.
Preocupada, perguntou:
- Por que está chorando?
Aconteceu alguma coisa?
Quer um pouco de água?
A mulher estava com muita raiva.
Pensou em dizer o que havia acontecido, dizer que aquela que estava dentro daquela sala, posando como uma grande senhora era sua filha.
Pensou, mas não disse.
Enxugou as lágrimas, respondendo:
- Estou bem.
Só um pouco emocionada, nada mais.
Até outro dia.
A moça, intrigada, insistiu:
- Está bem mesmo?
A velha senhora fez sim com a cabeça e saiu.
Enquanto descia sozinha no elevador, muito magoada com a atitude daquela filha que havia criado com todo o amor, deixou as lágrimas correrem sem se preocupar em disfarçar.
Chorando, pensava:
Não consigo acreditar que esta é a mesma menina que gerei dentro de mim.
Meu Deus! Depois que desapareceu, quantas noites fiquei sem dormir, preocupada com ela.
Sempre me preocupei muito.
Nunca entendi por que simplesmente desapareceu de minha vida.
Fiquei tão feliz quando, no hospital, suspeitei que ela poderia ser minha filha tão procurada e amada.
Agora que tive a confirmação, só posso lamentar e chorar muito.
Já na rua, andando meio perdida, parou na calçada, fechando os olhos.
Pensou: Esta deve ser mais uma prova pela qual terei de passar.
Meu Deus preciso de forças para não fraquejar.
Estou velha e cansada, minha vida toda tem sido de provas e sacrifícios, não sei se suportarei mais esta.
Por favor, ajude-me a não me revoltar e bradar contra Sua justiça.
Estou cansada.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:07 pm

Imediatamente um vulto se aproximou, abraçou-a e carinhosamente falou em seu ouvido:
- Minha filha, não se desespere.
Tudo um dia vai terminar.
Sua filha precisa muito de seu amor e de sua ajuda.
Deus está e estará sempre com você, enquanto acreditar em seu amor e em sua justiça.
Reaja contra esse sentimento de ódio, mágoa e desilusão que agora está sentindo.
Confie no amor, na justiça e na Lei.
Ela não ouviu, mas sentiu dentro de si um consolo muito grande.
Lembrou-se de Lenita, que estava em casa e que precisava de sua protecção.
Lembrou-se de Márcia quando criança, correndo para que ela a abraçasse.
Lembrou-se de seu marido, que já havia partido para Deus, e de seu outro filho, que como ela teve também uma vida triste.
Com o olhar distante, continuou pensando:
Márcia ao menos está feliz.
Do que estou reclamando?
Indo embora, encontrou seu caminho. Ela tem razão:
se tivesse continuado connosco, teria tido um destino igual.
Que Deus a abençoe.
Que Deus me perdoe por este momento de fraqueza, me perdoe se, por um instante, duvidei de Sua sabedoria, justiça e amor.
Continuou andando.
Precisava ir depressa, porque tinha um longo dia de trabalho pela frente.
Havia telefonado no dia anterior, avisando sua patroa que chegaria um pouco mais tarde, mas não podia abusar.
Já trabalhava havia muito tempo para ela, eram na realidade amigas, mas sua obrigação teria de ser cumprida.
Acelerou o passo e tomou um ônibus, calma e tranquila.
Pelo menos um de seus filhos estava feliz.
Enquanto o ônibus andava, ela pensava em seu passado, no filho que tão cedo foi embora:
Ricardo era tão bonito, me amava e se preocupava comigo.
Queria muito encontrar a irmã desaparecida.
Lembro o dia em que pela primeira vez trouxe Cinira para me conhecer; era ainda uma menina:
- Mamãe, esta é Cinira, ela trabalha lá na fábrica.
- Muito prazer.
Fique à vontade.
Notei que era uma menina simples, mas muito bonita.
Começaram um namoro.
Fiquei um pouco preocupada porque eram muito crianças, mas não fiz nada.
Ricardo estava muito feliz, aquilo era o suficiente para que eu a aceitasse.
Namoraram por quase um ano.
Numa tarde de domingo, os dois chegaram juntos.
Ricardo, com o rosto um tanto preocupado, disse:
- Mamãe, estamos com um problema e a gente não sabe como resolver.
A gente precisa de sua ajuda.
Senti que algo muito grave estava acontecendo.
Comecei a ficar preocupada:
- O que está acontecendo?
Fale logo, estou ficando nervosa, Ricardo!
- Cinira está esperando uma criança.
Ela está grávida.
- Oh, meu Deus!
Vocês ainda são crianças...
Você só tem dezassete anos, e ela quinze, meu filho...
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:08 pm

- A gente sabe disso.
Os pais dela são muito severos, não vão aceitar.
Quando souberem, vão colocá-la para fora de casa.
Por isso a gente precisa da sua ajuda, mamãe.
- Vou fazer o que puder para ajudar vocês.
O que querem?
- A gente precisa de dinheiro para que ela possa fazer um aborto.
- Aborto?! Aborto? Não!
Não posso fazer isso.
Sabe que não tenho dinheiro.
Ganho o suficiente para nosso sustento, mas, mesmo que tivesse não lhe daria para um aborto.
É um crime. Essa criança é um espírito de Deus, não podem matar!
- A gente não tem condição de criar uma criança, mamãe... que vamos fazer?
Não tem outro caminho...
- Sempre tem um caminho, e esse não é o melhor.
Talvez, o mais fácil, mas não o melhor.
- A gente não sabe o que fazer.
- Você gosta realmente dela?
Lembro que olhei para aquela menina que mantinha os olhos baixos e chorava.
Ele respondeu:
- Claro que gosto!
Eu a amo, por isso não quero que sofra.
O pai dela não vai aceitar.
- Se gosta mesmo, vai assumir essa criança e a ela também.
Vocês vão se casar, e virá morar aqui.
- Aqui? Esta casa é só um quarto-e-sala.
- A gente dá um jeito.
Qualquer coisa é melhor que um aborto.
Só então Cinira levantou os olhos, que brilhavam mostrando a felicidade que sentia.
- A senhora vai fazer isso, mesmo? - disse ela.
Vai deixar a gente vir morar aqui?
- Claro que sim, minha filha.
Antes de te conhecer, meu filho era triste e calado.
Hoje está feliz, mudou completamente.
Sei que se amam como não iria ajudar?
Naquele mesmo dia, fomos até o cartório.
Mas a gente não imaginava como seria difícil realizar aquele casamento.
Os dois eram menores de idade, por isso não poderiam se casar sem o consentimento do juiz.
Depois de muita luta, eles conseguiram convencer o juiz de que se amavam e que queriam realmente aquela criança.
Na festa de casamento só havia um pequeno bolo, mas muitos amigos.
Seis meses depois, nasceu Lenita.
Quando a vi no berçário, senti uma ternura enorme.
Eu a amei desde o primeiro instante.
A meu lado, olhando a criança através do vidro, Ricardo também estava feliz e orgulhoso:
- Mamãe, ela não é linda?
- É, sim, meu filho.
É a menina mais linda do mundo.
Vamos fazer o possível para que seja muito feliz.
Cinira ficaria no hospital por dois dias.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:08 pm

Lenita nasceu às duas da tarde.
À noite, Cinira começou a ter uma hemorragia.
Os médicos não conseguiram explicar o motivo, só disseram que fizeram o possível, mas não adiantou a hemorragia não foi estancada.
Uma semana após o nascimento de Lenita, Cinira morreu.
Ainda pensando, olhou pela janela do ônibus.
Lá fora o sol brilhava.
Lágrimas começaram a correr por seu rosto, e ela as enxugou com as mãos.
Não queria relembrar tudo que havia passado, mas a lembrança do desespero em que seu filho ficou fazia-a sofrer muito.
Como Ricardo ficou desesperado ao saber que a esposa havia morrido...
Eu tentava consolar meu filho, mas, mesmo já conhecendo algo sobre a vida espiritual, eu mesma não conseguia aceitar.
Dizia:
- Por que, meu Deus?
Eles se amavam tanto...
Essa criança, apesar de tudo, foi muito bem-vinda.
Não é justo.
Meu filho é tão bom, o que será dele agora?
Levamos Lenita pra casa.
Ela realmente era muito bonitinha.
Ricardo entrou em uma depressão profunda.
O facto de eu trabalhar há muito tempo nas mesmas casas facilitou que minhas patroas permitissem que eu trabalhasse tendo de levar a menina comigo.
Aos poucos, todas se apaixonaram por ela.
Dois anos atrás, Lenita estava com quase dois anos e parecia ser uma criança saudável.
Em uma noite, percebi que ela estava tendo dificuldades para respirar.
Eu e Ricardo a levamos a um pronto-socorro.
Depois de examiná-la, o médico disse:
- Ela tem um problema de coração, vai precisar ficar internada para que sejam feitos vários exames.
Assustados, eu e Ricardo nos olhamos.
No mesmo instante nos lembramos de Cinira morrendo em um hospital.
Ele não queria deixar a menina, mas eu o convenci de que seria o melhor.
Com o coração apertado, a gente deixou Lenita ali.
No dia seguinte, na hora da visita, fomos até o hospital.
Ela estava com uma boa aparência.
Ao ver a gente, a enfermeira disse:
- O doutor Tavares pediu que fossem até seu consultório.
Precisam conversar.
Preocupados, fomos até ele, que nos recebeu com o rosto sério:
- Fizemos os exames e descobrimos que ela tem um problema sério no coração.
Talvez, quando crescer um pouco mais, tenhamos de fazer uma cirurgia.
- Cirurgia?
O senhor tem certeza?
- Sim, mas vamos iniciar um tratamento.
Ela terá de tomar este remédio todos os dias.
Veremos como vai reagir.
A gente levou Lenita pra casa.
Ricardo permaneceu calado durante todo o trajecto.
Eu não sabia em que ele pensava, mas não me atrevi a perguntar.
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Ave sem Ninho

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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:08 pm

Três dias depois, ele chegou a casa com uma motocicleta:
- Mamãe, sabe bem que Lenita vai precisar de um tratamento.
A gente não pode continuar morando aqui nesta favela.
Por isso resolvi mudar de emprego.
O que ganhava na fábrica era muito pouco.
Trabalhando com esta moto, poderei ganhar muito mais e em breve a gente vai poder mudar.
Senti um aperto no coração, mas sabia que não podia fazer nada.
Apenas disse:
- Tem certeza de que essa é a melhor coisa a fazer, meu filho?
- Tenho mamãe, sim.
Preciso ganhar mais, e essa é uma óptima maneira.
Além do mais, com a moto, se Lenita passar mal durante a noite, vai ser muito mais fácil levar ela para o pronto-socorro.
- Está bem, Ricardo.
Se acreditar ser o melhor, que seja.
Ele começou a trabalhar para uma empresa.
No final do primeiro mês de trabalho, chegou à casa muito feliz:
- Olhe aqui, mamãe: recebi meu primeiro salário, e é mais que o dobro daquele que recebia na fábrica.
Se continuar assim, logo a gente vai poder mudar.
- Fico feliz por você.
Será muito bom mudarmos para um lugar melhor.
Seis meses depois, em uma noite, ele começou a sentir uma dor de cabeça muito forte.
Dei a ele um comprimido com chá, dizendo:
- Deve ser o começo de uma gripe.
A dor passou, e ele voltou a dormir.
Duas horas depois, acordou gritando:
- Mamãe, não estou aguentando a dor.
Está muito forte.
Preocupada, perguntei:
- Quer ir até um hospital?
- Não, vou tomar outro comprimido e, se amanhã não passar, eu vou.
Dei para ele outro comprimido.
Ele dormiu mais um pouco, mas pela manhã a dor ainda continuava agora mais forte.
Ele não tinha condições de dirigir a moto.
Pegamos um táxi e fomos a um hospital.
Após o exame, o médico disse:
- Terá de ficar internado.
Estou suspeitando de que esteja com meningite.
O chão sumiu de meus pés.
Senti que ia desmaiar, mas o médico me amparou.
Sem deixar transparecer meu desespero, me despedi de Ricardo.
Naquela mesma noite, ele morreu.
Era meningite da mais letal, não houve uma maneira de ser salvo.
Ainda pensando, Marlene olhou novamente para fora, enquanto o ônibus seguia seu caminho.
Está faltando pouco, preciso prestar atenção.
Estou tão envolvida em meus pensamentos que posso até perder meu ponto.
Ela, no entanto, não conseguia parar de pensar:
Como me revoltei contra Deus!
Quando recebi a notícia da morte de Ricardo, comecei a gritar:
- Deus, como pôde fazer isso comigo?
Sou uma pessoa boa.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:09 pm

Não faço nada de mal para ninguém.
Tenho vivido uma vida inteira de sofrimento e miséria.
Perdi meu marido, minha nora tenho uma filha que não sei por onde anda.
E agora meu filho?
Não é justo. Não é justo!
Eu chorava muito.
A enfermeira, vendo que eu estava sozinha, me deu uma injecção e fiquei dormindo no hospital por algumas horas.
Quando acordei, estava mais calma, mas não conseguia perdoar Deus por me tratar daquela maneira.
Precisava providenciar o sepultamento de meu filho.
Sabia que precisava voltar para casa e continuar vivendo, pois havia deixado Lenita com uma vizinha.
Lenita... Ah, minha Lenita...
Foi por ela que suportei tudo.
Eu não podia morrer.
Ela precisava de minha protecção e afecto, não podia deixar que ficasse sozinha neste mundo.
Quanto a Márcia, não posso fazer nada.
Estou há muito tempo vivendo sem ela.
Agora sei que ela está bem, e isso me basta.
Meu ponto de ônibus está chegando, preciso descer.
Levantou-se, tocou a campainha e desceu.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 04, 2017 7:09 pm

RESULTADO DO TRABALHO
Depois que a mãe saiu, Márcia sentou-se em sua cadeira.
Tremia, não sabia se de emoção ou de raiva.
Por que ela teve de me encontrar?
Por que eu tive de dizer todas aquelas coisas?
Por que eu a odeio tanto?
Por que nunca consegui nem consigo agora acreditar em seu amor, ou pelo menos confiar nela?
Ficou assim sem trabalhar por algum tempo.
O interfone tocou.
Era o doutor Fernando, que havia se recuperado e voltado, querendo que ela fosse à sua sala.
Ela se levantou, foi até o banheiro, retocou a maquiagem, passou as mãos pelos cabelos e foi até ele.
Recebeu suas orientações e voltou para sua sala.
Como sempre, o trabalho para ela era o melhor remédio.
Enquanto trabalhava, esquecia-se de tudo, até de Osvaldo.
O dia passou rapidamente.
Osvaldo não ligara, mas ela nem se deu conta disso.
Nos momentos de folga, só pensou em Lenita, em sua mãe e no ódio que viu em seus olhos quando esta disse sentir vergonha de tê-la gerado.
Quando o expediente terminou, foi para sua casa.
Só quando lá chegou foi que lembrou ser segunda-feira, o fim do prazo estabelecido por dona Durvalina fora no domingo.
Ele não telefonou.
Será que o trabalho não vai dar certo?
Foi até a cozinha.
Seu jantar estava preparado, mas ela novamente estava sem fome.
Ficou por ali, andando de um lado para outro, sentindo um imenso vazio que tomava conta de todo o seu ser.
Foi se deitar.
Estava dormindo quando o telefone tocou.
Meio adormecida, atendeu:
- Alô... Quem é?
- Sou eu, Osvaldo.
Sei que já é muito tarde, mas preciso te ver agora!
Ela deu um pulo, sentou-se na cama.
- Osvaldo? Mas é muito tarde.
Onde você está?
- Estou aqui embaixo, em um telefone público.
Preciso subir e te ver agora.
Ela sorriu e pensou:
Sim! O trabalho deu certo!
- Pode subir. Estou esperando.
Enquanto ele subia, ela foi até o banheiro, escovou os dentes, passou seu perfume preferido e colocou a camisola nova que havia comprado especialmente para aquele dia.
Olhou o relógio: era mais de uma hora da manhã.
A campainha tocou, ela foi abrir a porta.
Assim que se encontraram, uma onda de desejo os envolveu.
Começaram a se beijar sem nada dizer, ali mesmo na porta.
Ele parecia alucinado, e ela também. Entraram.
O amor foi violento e selvagem.
Não foi dita palavra alguma.
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Re: NADA FICA SEM RESPOSTA / Elisa Masselli

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