O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:21 pm

O PASSADO NÃO IMPORTA
ELISA MASSELLI

PRÓLOGO
Um carro corria veloz pela estrada.
- Não corra muito.
Gosto de apreciar a paisagem...
- Realmente, essas montanhas são lindas!
- Também acho.
Adoro passar o fim de semana na fazenda.
Seu avô, embora com mais de oitenta anos, ainda está lúcido.
O que achou daquela história que nos contou sobre o facto de o avô dele ter nascido em um acampamento cigano e de a mãe dele ser negra e de haver se matado?
- Não sei, mas não é só ele quem conta.
Meus primos também ouviram essa mesma história dos pais deles.
Vai ver, foi verdade mesmo!
- Não sei se foi verdade, mas é uma linda história.
E este colar que ele me deu hoje! É lindo.
Disse que a avó dele ganhou da tal cigana.
Como era mesmo o nome dela?
- Acho que Zara... um bonito nome...
- Já sabe. Este colar não pode ser vendido, tem de permanecer na família para sempre.
- Sei disso.
Espere! Pare o carro!
Quando puder, dê marcha à ré!
- O que aconteceu?
- Olhe lá atrás aquele casal.
Parece que está em dificuldades!
Acho que a moça desmaiou.
- Está bem, doutora!
A senhora manda.
Assim que pôde, ele deu marcha à ré.
Parou o carro perto de um moço alto e bonito, mas com ar triste e sofrido.
Estava com uma criança no colo e tentava reanimar a esposa.
- O que está acontecendo?
- Ela está muito cansada e fraca!
Desmaiou.
Ela tirou a criança dos braços da moça que estava desmaiada.
Enquanto seu marido a reanimava, o rapaz pedia:
- Por favor, senhor, me ajude.
Estamos tentando chegar à cidade para levar nosso menino ao hospital, mas ela não vai aguentar...
- Luana, pegue minha maleta...
- Pois não...
Luana entregou a maleta para o marido, que abriu o cobertor onde o menino estava enrolado.
Viram uma criança deformada, com as perninhas tortas e precisando de ajuda.
Luana, ao ver aquela criança, sentiu um misto de horror e ternura.
A moça acordou.
Era loira de olhos azuis:
- Onde está meu filho?
Oh! Meu Deus!
O que fiz de tão errado nesta vida para sofrer tanto?
Não aguento mais...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:21 pm

Prefiro morrer!
Luana olhou para a moça, que chorava desesperadamente.
Aqueles olhos se encontravam.
Aqueles olhos se conheciam.
Uma sentiu muita ternura... muito amor pela outra.
- Seu filho está aqui... não se preocupe mais.
Agora, ele está comigo... você também ficará.
Não vai precisar morrer!
Sua vida mudará ao nosso lado.
Felipe, o que acha?
- Somos médicos.
Temos um hospital na capital.
Rodolfo, meu irmão, cuida exactamente de doenças como a de seu filho.
Vamos levá-los e cuidar dele.
- Não temos dinheiro.
Nem sequer um emprego...
- O hospital é grande.
Precisamos de funcionários.
Ficarão morando e trabalhando lá.
Assim, ajudarão a cuidar de seu filho e de outros que precisam.
- Muito obrigado, doutor!
O senhor caiu do céu.
Deus vai abençoar toda essa bondade!
- Já me abençoou.
Deu-me um corpo perfeito e a mulher que amo.
Não preciso de mais nada.
Não é, meu amor?
- De mais nada.
Só de ajudar este menino!
Vamos embora!
A moça olhou para o céu, agradecendo a Deus em pensamento.
Depois, perguntou:
- Estão sentindo esse perfume de rosas?
Os outros tentaram sentir o perfume, mas não conseguiram.
- Não estou sentindo!
E vocês?
Balançaram a cabeça, dizendo que não...
Não sentiam, mas, se pudessem, veriam que pétalas de rosas caíam sobre eles, jogadas por amigos do céu que estavam torcendo e festejando aquele reencontro.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:21 pm

O REENCONTRO
Felipe, ao examinar a criança, percebeu que não estava bem, mas não quis preocupar os pais mais do que já estavam.
Encarou Luana de modo significativo.
Ela entendeu e, com os olhos, pediu que fosse rápido.
Ele, então, acelerou o carro para que pudessem chegar ao hospital o mais rápido possível.
Ele dirigia, quando, de repente, ouviu um grito:
- Meu filho está morrendo!
Ele olhou pelo retrovisor e viu que a moça, enquanto gritava, sacudia a criança, que estava pálida.
Luana também ficou desesperada:
- Pare o carro, Felipe!
Pare o carro!
Felipe notou que na estrada não havia acostamento e que estavam próximos a uma curva.
Assim que a passaram, pôde perceber que havia uma recta.
Mesmo arriscando-se, ele parou o carro em um canto da estrada, que não era muito movimentada.
Rapidamente, ele e Luana abriram as portas do carro e desceram.
Felipe abriu a porta traseira, com a mão fez um sinal para a mãe, pedindo que saísse.
Ela obedeceu imediatamente.
Felipe tirou o menino do colo da mãe e colocou-o sobre o banco traseiro.
Começou a fazer massagem em seu peitinho e respiração boca a boca.
Enquanto isso, Luana abriu a maleta e, de dentro dela, tirou uma seringa e uma ampola.
Colocou o conteúdo da ampola na seringa e aplicou no menino que, após alguns segundos, começou a chorar.
Entreolharam-se e sorriram.
Felipe devolveu o menino para a mãe e disse:
- Agora ele está bem.
Mesmo assim, precisamos chegar logo ao hospital.
Ele precisa de atendimento.
Meu irmão Rodolfo fará isso.
A moça, ao mesmo tempo em que chorava, ria também.
Com o menino no colo e, após beijá-lo, emocionada, disse:
- Obrigada, doutor.
Ainda bem que os encontramos, foi Deus quem os mandou.
Ele sorriu e, instintivamente, olhou para o pai que, pálido, continuava no mesmo lugar, com os olhos parados, parecendo que ia desmaiar.
Percebendo a situação, Luana, que havia dado a volta para guardar a seringa, pegou-o pela camisa e começou a sacudi-lo e a chamá-lo:
- Moço! Moço!
Poucos segundos depois, ele respirou fundo e, parecendo voltar de outro lugar, olhou para a mulher.
Vendo que o menino estava bem, começou a chorar e a gritar:
- Luísa! Não suporto mais isso!
Até quando vai continuar?
Ela, vendo o estado dele, estranhou:
- O que está acontecendo, Tobias.
Nunca vi você dessa maneira.
Ele, chorando, saiu do carro e abraçou-a, dizendo:
- Perdão, perdão, mas sabe que, sempre que isso acontece, fico muito assustado... penso que ele vai morrer...
Em seguida, pegou o menino de seu colo e o beijou carinhosamente.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:22 pm

Luana e Felipe acompanharam toda a cena.
Ela disse:
- Fique calmo, pois, um dia, como todos nós, ele vai morrer, mas não será hoje.
Agora está bem.
Tobias sorriu.
Maria Luísa, rindo, disse:
- Não me conformo, como que um homem desse tamanho pode ser tão medroso!
Tobias também riu.
Felipe, parecendo ofendido, disse:
- Espere aí! Não é bem assim, o homem não é diferente da mulher!
Também temos sentimentos!
- E você mais do que todos, não é, meu amor...
- Não brinque, Luana!
Este momento foi muito difícil, ele teve razão de ficar assustado.
Até eu, que sou médico, me assustei!
- Tem razão, Felipe, agora, vamos embora?
Entraram no carro.
Enquanto Felipe dirigia, Luana disse:
- Foi sorte estarmos com a maleta de emergência, Felipe, se não fosse isso, receio que o pior teria acontecido.
- Tem razão, Luana.
Ainda bem que, quando vamos à fazenda, sempre a levamos, caso o vovô precise.
Sabe que ele não está bem...
- Não se preocupe, Felipe.
Ele ainda vai durar muito tempo... sabe que as pessoas doentes são as que duram mais.
Se não fosse a artrite que o impede de andar com segurança, estaria muito bem, sem nada sentir.
Sua cabeça está boa como sempre.
Felipe começou a rir:
- Tem razão.
Ele vive, somente, para nos contar a história da família.
Quer que conheçamos todos os nossos antepassados, diz que eles foram muito importantes.
- Chame-o pelo interfone e peça para que vá me encontrar na emergência.
A moça sorriu e atendeu aos pedidos de Luana.
Ela, voltando-se para os pais do menino, disse:
- Coitado, mal sabe ele que nós não estamos interessados, muito menos nossos filhos.
O passado não importa.
Estamos vivendo no presente e este, sim, importa.
- Sim, Luana, mas não nos custa dar atenção a ele, quando nos conta suas histórias.
- Deixamos o vovô bem.
Ele está aos cuidados da Severina, sabe como é dedicada.
Trata-o como se fosse uma criança.
Por isso, não precisamos nos preocupar, pois, se acontecer alguma coisa, ela nos comunicará.
Agora, precisamos nos preocupar com esse menino.
Levá-lo para o hospital.
Após algumas horas de viagem, finalmente, chegaram a uma rua arborizada, com poucas casas.
As que existiam ali eram enormes.
O menino dormia.
Seus pais, admirados, olhavam tudo.
Nunca haviam estado na cidade, muito menos em uma rua como aquela.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:22 pm

Felipe entrou por um portão grande e seguiram por uma alameda.
Estacionou o carro em frente a uma porta e disse:
- Luana, entre com eles.
Leve o menino para a emergência, ele precisa de cuidados.
Aproveite e veja se Rodolfo está aí.
Enquanto isso, vou estacionar o carro e irei em seguida até vocês.
Luana, sabendo da gravidade da situação, disse:
- Está bem, vamos fazer isso.
Olhou para a moça que estava com o menino, que ainda dormia, no colo.
Ela parecia tranquila e confiante.
Luana disse:
- Venha, vamos cuidar do seu filho.
Não precisa se preocupar, ele está um pouco desidratado por causa da febre, mas logo ficará bem.
Pode ter certeza de que seu filho está em boas mãos, eu diria até que nas melhores.
A moça sorriu e, abraçando o filho com carinho, todos entraram rapidamente.
Assim que chegaram até o balcão onde estava uma recepcionista, Luana disse, tentando esconder o seu nervosismo:
- Por favor, chame uma enfermeira e leve este menino para a sala de emergência.
- Pois não, doutora.
- O Rodolfo está trabalhando hoje?
- Está sim.
- Chame-o pelo interfone e peça para que vá me encontrar na emergência.
A moça sorriu e atendeu aos pedidos de Luana.
Ela, voltando-se para os pais do menino, disse:
- Vou me encontrar com o meu cunhado, ele é neurocirurgião e vai examinar o menino.
Esperem aqui, por favor.
Voltarei em seguida.
Eles sorriram e, confiantes, acenando com a cabeça, disseram que sim. Luana se afastou.
Estava chegando à sala de emergência, quando encontrou Rodolfo que vinha apressado.
Ao vê-la, perguntou:
- O que está fazendo aqui, Luana?
Pensei que estivessem na fazenda e que só voltariam amanhã...
- Tem razão, Rodolfo, mas embora não tenha entendido a razão, de repente, senti uma vontade enorme de voltar.
- Também não entendo, aquele lugar é maravilhoso.
Só não vou lá mais vezes, por falta de tempo.
Disse que não entendeu e agora entende?
- Sim, acredito que foi para socorrer um casal e sua criança doente.
Se não estivéssemos lá, naquela hora, a criança teria morrido.
- Acredita que foi por isso que quis voltar?
- Tenho quase certeza, pois jamais teríamos vindo embora se não houvesse um motivo maior.
Sabe como é difícil tirarmos um fim de semana de folga.
- Está certa.
Estou há muito tempo tentando.
Talvez tenha razão: estar lá naquele momento pode ter sido obra de Deus.
Luana deu uma gargalhada e perguntou:
- Falando em Deus, Rodolfo? Você?
Parece que Marília está conseguindo virar sua cabeça!
Temos conversado muito.
Portanto, acho que, se não for coincidência, tudo o que ela fala só pode ser coisa de Deus mesmo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:22 pm

Fui chamado na emergência, não sei para que, todos sabem que não atendo emergência.
- Fui eu quem pediu que o chamasse.
- Você? Para quê?
- Quero que examine uma criança que está muito mal.
- Onde ela está?
- Na sala de emergência.
- Então, já deve estar sendo atendida.
Por que precisa de mim?
- Assim que a vir, entenderá.
- Está bem, vamos rápido.
Chegaram à sala, entraram.
Luana aproximou-se de um médico que atendia o menino e perguntou:
- Como ele está, Caio?
- Está muito fraco e desidratado, já pedi que fosse colocado no soro.
- Obrigada.
Rodolfo aproximou-se, olhou o menino que estava com os olhos fechados e sem roupas, deitado sobre a mesa.
Quando se aproximou, percebeu que ele sofria de paralisia cerebral.
Olhou para Luana e perguntou:
- Qual é a idade dele, Luana?
- Não sei, encontramos os pais na estrada e não perguntei.
- Preciso saber.
O menino abriu os olhos e olhou para ele.
Rodolfo, ao olhar nos olhos do menino, sentiu um arrepio percorrer seu corpo e empalideceu.
Luana percebeu e perguntou, aflita.
- Que aconteceu, Rodolfo?
Está sentindo alguma coisa?
- Não sei, de repente me senti mal.
- Foi depois que olhou para o menino, não foi?
- Sim, mas não entendo.
Sabe que me dedico a cuidar de doenças cerebrais há muito tempo.
Nada mais me surpreende, mas, ao olhar para os olhos desse menino, senti algo que não sei explicar.
- Entendo o que está querendo dizer, também tive essa mesma sensação quando o vi na estrada.
- Estranho.
Por que será que isso aconteceu?
- Não sei, mas acha que pode fazer alguma coisa por ele?
- Você sabe que, em casos como esse, pouco pode se feito, Luana.
Onde estão os pais?
- Na sala de espera.
- Vamos até lá, preciso saber a idade dele.
Caio disse:
- Por enquanto, ele vai ficar em observação.
Vamos ver como reage aos medicamentos.
Enquanto isso, Felipe estacionava o carro.
Estava saindo, quando viu Danilo, seu filho, que também estacionava o carro e que, ao vê-lo, perguntou:
- Papai! O que está fazendo aqui?
Não estava na fazenda?
- Olá, meu filho.
Sim, estávamos na fazenda, mas sua mãe, de repente, quis porque quis vir embora.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:22 pm

Sabe como ela é, quando quer uma coisa, ninguém faz com que mude de ideia.
- Ela não quis continuar na fazenda?
- Não, de repente disse que precisava vir embora.
Só me restou obedecer.
- Como sempre, não é, papai? - perguntou, rindo com ironia e fazendo uma careta.
Felipe sorriu e respondeu:
- Sim, como sempre.
Você sabe que ela manda em mim... - disse, também rindo, com ironia.
- Sei sim, mas ela sabe como mandar. Felipe deu uma gargalhada, dizendo:
- Você sabe que ela é a mulher da minha vida!
- É mesmo.
Como também sei que o senhor é o homem da vida dela.
Formam o casal perfeito.
- Tem razão, acredito que, como dizem os antigos, nosso casamento foi talhado no céu.
- Isso é difícil de acontecer, não é?
Felipe, abraçando o filho, disse:
- Tem razão, meu filho, acho que nascemos um para o outro, mas, o que está fazendo aqui?
Sei que detesta hospitais!
- Detesto mesmo, mas esta noite não consegui dormir bem.
Senti muita dor no estômago.
Assim que acordei, fui para a Faculdade, mas a dor continuou, resolvi vir até aqui para me consultar.
- Ainda está doendo?
- Sim, é uma dor constante.
- O que você comeu ontem?
- Nada diferente.
Comi o que todos lá em casa comeram.
- Vamos entrar e o examinarei.
Entraram. Foram avisados pela recepcionista de que Luana e Rodolfo ainda estavam na emergência.
Foram para lá.
Quando Felipe passou pelos pais do menino, sorriu e, calado, continuou andando.
Danilo não estava bem, por isso não notou o olhar do pai.
Assim que chegaram e se aproximaram, ele olhou para o menino que estava sendo medicado.
O menino, parecendo sentir sua presença, também olhou.
Os olhos se encontraram.
Duas lágrimas correram pelo rosto do menino.
Danilo aproximou-se mais e perguntou:
- Quem é essa criança, mamãe?
- Não sei, nós encontramos seus pais na estrada.
Estavam precisando de ajuda e os trouxemos até aqui.
Danilo, com carinho, passou a mão pela cabeça e pelo rosto do menino e disse:
- Ele é tão bonito.
Não sei o que está acontecendo, mas estou sentindo profunda ternura por ele.
Vai ficar bem, tio Rodolfo?
- Estamos fazendo o possível para que isso aconteça.
O menino, assim que olhou para Danilo, pensou:
Rosa Maria, Rodolfo e você Felipe, meu neto, estão juntos e aqui!
Quanta saudade...
- Estão, sim, meu velho...
- Matilde! Você também está aqui?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:22 pm

- Sim, estou ao seu lado desde que renasceu, mas só agora você pôde me ver.
- Estou muito feliz em ver todos reunidos, só não entendo o porquê...
- Voltaram para colocar algumas coisas no lugar.
Rosa Maria e Felipe não precisariam ter voltado, mas escolheram fazer isso para ajudar aqueles que ficaram para trás.
- A mim?
- Não só a você, mas a Jerusa e Marcela também.
Sabe o que elas fizeram?
- Sei, sim.
Assim como está acontecendo comigo, elas terão outra chance?
- Todos sempre têm, mas nem sempre aproveitam...
- Por que estou com este corpo, Matilde?
Por que tenho de depender de outras pessoas?
- Você não lembra ainda, mas, aos poucos, irá lembrar.
Quando estava para renascer, pediu um corpo fraco a fim de que dependesse de outras pessoas para sobreviver.
- Por que pedi isso?
- Porque, quando tinha um corpo perfeito, usou do poder e da maldade para destruir muitas vidas.
- Estou começando a lembrar.
Fui mesmo um canalha...
- Infelizmente, meu velho, mas Deus, que é um Pai amoroso, perdoa sempre e nos dá, a cada momento, a chance de repararmos o mal que fizemos.
Você está tendo essa chance.
- Como posso reparar alguma coisa em um corpo como este?
- Com o tempo descobrirá.
- Reconheci Rosa Maria, Rodolfo e Felipe.
Quem são as pessoas que estão cuidando de mim, até agora?
- Essas pessoas de quem está falando são Maria Luísa e Tobias.
Eles concordaram, também, em recebê-lo como filho.
Embora ela tenha passado muito tempo no vale, ainda tem sobre si o suicídio e o assassinato e precisa resgatar os dois.
Ele, assim como acontece com Rosa Maria e Rodolfo, não precisaria ter voltado, mas insistiu.
Não quis deixar Maria Luísa sozinha.
Sabe que ele nunca a abandonou nem mesmo quando ela estava no vale.
- Ele a ama de verdade.
Mas você sabe que ela não teve culpa, o culpado fui eu...
- Sim, você ajudou, mas ela, já há muitas encarnações, não tem conseguido fugir do apelo para o suicídio e sempre termina se matando.
Nesta, terá outra chance.
- E você, por que está aqui? Também fiz com que sofresse muito...
- Fui sua esposa e, assim como acontece com Tobias em relação a Maria Luísa, também estive sempre ao seu lado, mesmo não renascendo, como está acontecendo agora.
- Embora não tenha renascido, está aqui?
- Sim e ficarei até que possa acompanhá-lo, vitorioso, de volta para casa.
- Com este corpo, que mal poderei fazer?
- Poderá colocar à prova o amor entre Maria Luísa e Tobias.
- Por que está dizendo isso?
Não acabou de dizer que eles sempre se amaram?
- Disse, é verdade, mas, muitas vezes, quando renascidos, os espíritos se esquecem dos planos feitos e, na hora em que seus desejos não são realizados, fogem dos compromissos assumidos.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:23 pm

- O que está querendo dizer?
- Que, muitas vezes, homens, ao terem filhos com o corpo que você tem agora, não suportam e se afastam, ou melhor, fogem da responsabilidade e a mulher toma para si o encargo de criar seu filho, sozinha.
E quase sempre consegue.
- Está dizendo que Tobias pode nos abandonar?
- Não só ele, como Maria Luísa também.
- Tomara que isso não aconteça...
- Tomara, meu velho, tomara..
- Será que, desta vez, vou conseguir?
- Esperamos que sim.
Tudo está se encaminhando muito bem.
- Por quanto tempo vou permanecer neste corpo?
- Pelo tempo que for necessário.
- Está bem, sei que, depois de tudo o que fiz, preciso me resignar...
- É isso mesmo, meu velho... é isso mesmo..
O quarto todo se iluminou.
Matilde e o menino olharam em direcção à luz.
Pai Joaquim surgiu e, sorrindo, disse:
- Tão tudo juntu di novu... que Deus bençoe ocêis.
- Vai ficar ao nosso lado?
- Não vai sê perciso, Sinhá.
Ocêis tão bem e sei qui dessa veiz, com a judá de Jesuis, Nosso Sinhô, o sinhô vai consegui... vim aqui só pra dizê isso.
Perciso ir embora.
Tenho otras coisa pra fazê, mais, se percisa, eu vorto.
Jesuis bençoe ocêis.
Sorrindo, desapareceu.
Danilo, alheio ao que estava acontecendo, enternecido e passando a mão sobre a cabeça do menino, disse:
- Mamãe, tio Rodolfo, cuidem bem dele, sei que precisa e merece.
- Como sabe, Danilo?
Você não o conhece...
- Tem razão, não o conheço e nem sei o motivo, mas quero muito que ele fique bem.
- Estamos tentando, Danilo.
Sabe que não precisava nos pedir isso.
Sempre fazemos o possível para ajudar nossos pacientes, seja quem for.
- Desculpem, mas sinto tanta ternura por ele...
Rodolfo e Luana, admirados, olharam-se, mas ficaram calados.
Danilo continuou olhando para o menino.
Luana e Rodolfo não estavam entendendo aquela reacção tão diferente da que eles tiveram.
Eles, assim que olharam para os olhos do menino, sentiram um certo mal-estar.
Danilo, ao contrário, se enterneceu.
Como poderia ser?
Qual seria a explicação?
Ficaram ali por mais um tempo, depois saíram.
Não podiam imaginar, mas, assim que saíram, o menino, com lágrimas a cair de seus olhos, disse:
- Felipe, meu neto, ainda gosta de mim, Matilde...
- Sim, Carlos, ele ainda gosta, apesar de tudo o que você fez.
Além do mais, sabe que ele não foi seu neto...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:23 pm

- Sei, mas prefiro esquecer o que fiz e só me lembrar dos bons momentos que passei ao lado dele.
Ela, sorrindo, disse:
- Está bem, faça isso...
Chegaram à recepção.
Luana foi ao encontro dos pais do menino que continuavam ali.
Assim que a viram se aproximando, levantaram-se.
Luana disse:
- Ele está sendo atendido, embora sua situação seja grave.
Temos esperança de que poderá ficar bem.
- A senhora acha, mesmo, que ele vai ficar bem?
- Esperamos que sim.
Este é o meu cunhado, Rodolfo, ele é especialista em doenças como a do seu filho e fará tudo o que estiver ao seu alcance, não é, Rodolfo?
Rodolfo aproximou-se, pegou a mão que a moça lhe oferecia.
Assim que ela tocou em sua mãe e levantou os olhos, ele estremeceu, sentiu um frio correr por sua espinha e um desejo imenso de abraçar aquela desconhecida.
Não entendia o que estava acontecendo, mas estava feliz por estar diante dela.
Emocionado, disse:
- A senhora pode ficar tranquila, vamos fazer tudo o que for possível para que seu filho fique bem.
Ela também sentiu o mesmo que ele e, olhando firme em seus olhos, disse:
- Acredito nisso, o senhor me parece ser, além de competente, um bom homem.
Rodolfo apertou sua mão e, um pouco constrangido por não entender o que estava acontecendo, disse:
- Obrigado, mas agora preciso voltar para os meus pacientes.
Espero que tudo caminhe como desejamos.
Saiu apressado.
Luana acompanhou aquela cena e percebeu que alguma coisa havia acontecido.
Pensou:
Parece que ele, assim como eu, ficou feliz em ver essa moça, mas por quê?
Não a conhecemos...
Felipe e Danilo nada perceberam.
Felipe disse:
- Danilo, vamos até o meu consultório e tentar descobrir o motivo desta sua dor de estômago.
- Dor de estômago, Danilo?
Não sabia que estava doente.
- Passei muito mal durante a noite, mas, agora, a dor sumiu, mamãe.
Estou bem. A dor passou.
- Mesmo assim, eu disse-lhe que vamos fazer alguns exames.
Precisamos descobrir de onde surgiu essa dor que lhe causou tanto desconforto.
- Não acho que seja preciso, papai.
A dor, assim como veio, foi embora.
- Seu pai tem razão, Danilo.
Faça os exames que ele julgar necessário.
Nenhuma dor surge do nada.
- Está bem, mamãe, quem mandou eu nascer em uma família com tantos médicos... - disse, rindo e debochando.
- Que você, infelizmente, não quis ser.
- A senhora sabe que tentei, mas não consegui.
Não nasci para ser médico.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:23 pm

Não suporto ver sangue.
Prefiro ser advogado.
- Já discutimos sobre isso e, embora não tenhamos ficado felizes com sua decisão, a aceitamos.
Agora, preciso ir para casa. As malas ainda estão no carro.
À noite, conversaremos.
Estava saindo, quando olhou para o casal que a encarava.
Bateu com a mão na testa e disse:
- Desculpe, esqueci que vocês não têm onde ficar.
- É verdade, doutora, não conhecemos ninguém aqui na Capital e não temos dinheiro.
- Sim, vocês disseram isso.
Vamos para minha casa e arranjaremos um lugar para que fiquem bem.
Danilo e Felipe, assustados, olharam para ela, que, sorrindo, disse:
- Temos uma casa nos fundos.
Ela foi feita para que os empregados morassem nela, mas todos eles são casados e moram em suas casas.
Ela está vazia e poderão ficar ali, até que seu filho receba alta.
- Não podemos aceitar, só se a senhora nos arranjar um emprego.
- Sabem que não têm para onde ir, mas, está bem, o que você sabe fazer? - perguntou, olhando para o rapaz.
- Não sei fazer muita coisa, sempre trabalhei na roça.
- E você? - perguntou para a moça, que respondeu:
- Antes do meu menino nascer, só trabalhei como doméstica.
- Então, está resolvido o nosso problema.
Felipe e Danilo, ainda surpresos e confusos, continuavam olhando e acompanhando a conversa.
Sabiam que Luana tinha aquela tendência de ajudar as pessoas, só queriam saber qual seria a solução encontrada por ela.
Ficaram calados, somente esperando.
Ela, sorrindo, disse:
- Felipe, o nosso jardim está precisando de uma limpeza e as flores precisam ser replantadas, não é mesmo?
Felipe, tomado de surpresa, mas entendendo qual era a vontade dela, respondeu:
- Tem razão, também notei.
- Está vendo como para tudo há solução?
Vocês vão lá para casa.
Você, como é mesmo o seu nome?
- Tobias, doutora.
- Tobias, você tem carta de motorista?
- Tenho, e é profissional.
- Óptimo, você, além de cuidar do jardim, poderá ser o motorista da casa.
O nosso se aposentou.
- Vi que o doutor e seu filho têm carro.
Para que precisa de um motorista?
- Jerusa, minha filha, não gosta de dirigir e nunca quis um carro.
Tínhamos um motorista que trabalhou muito tempo em casa.
Há dois meses ele se aposentou e ficamos sem motorista.
Muitos já ficaram em experiência, mas Jerusa não gostou de nenhum deles.
Quem sabe ela goste de você.
Além do mais, somos muito ocupados e não temos tempo de fazer as compras da casa.
Você ficará à disposição da Alda, da é quem faz as compras.
Nas horas de folga, poderá cuidar do nosso jardim.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:23 pm

- Está bem, senhora.
Vou me esforçar para que fique satisfeita com o meu trabalho.
Luana sorriu e, olhando para a moça, perguntou:
- Como é o seu nome?
- Luísa.
- Sabe passar roupa?
Não se esqueça de que todos lá em casa, menos Danilo, usam roupas brancas.
- Sei passar, sim, senhora.
- Pronto, está tudo resolvido.
Vocês ficarão em casa o tempo que for necessário.
Depois que o menino receber alta do hospital, veremos o que fazer.
- Obrigada, doutora... não sabemos como agradecer...
- Não precisam agradecer, basta que trabalhem direito.
Agora, podemos ir embora, estou cansada da viagem.
Felipe e Danilo beijaram seu rosto e ela, acompanhada por Tobias e Luísa, saíram.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:23 pm

UMA NOVA VIDA
Tobias sentou ao lado de Luana que dirigia o carro.
Luísa sentou-se no banco traseiro.
Pelo retrovisor, Luana, de vez em quando, olhava para ela e pensava:
Por que será que tive tanta vontade de ajudar a esses dois?
Assim que os vi, senti um carinho muito grande.
Parece até que já nos conhecemos, mas isso é Impossível... não estou entendendo... parece que o mesmo aconteceu com Rodolfo.
Ele também teve uma reacção muito estranha ao ver a moça.
Mais tarde vou conversar com ele e saber se minhas suspeitas são verdadeiras.
Assim que chegou em frente a casa, parou o carro, dizendo:
- Tobias, por favor, pode me ajudar com as malas?
- Sim, senhora.
Ela desceu, abriu o porta-malas e ele retirou todas.
Entraram em casa.
Alda, uma das empregadas, os recebeu com um sorriso e surpresa:
- A senhora já chegou?
Pensei que só viesse amanhã.
- Essa era a ideia, mas senti vontade de voltar antes.
Está tudo bem aqui em casa?
- Sim. A Jerusa veio almoçar com uma amiga e foi para a faculdade.
- Uma amiga? Que amiga?
- Não a conheço, mas, pelo que ouvi, parece que a moça veio do interior para estudar aqui.
- Estranho. Jerusa aparecer com uma amiga...
- Por que está dizendo isso, senhora?
- Você a conhece melhor do que eu, Alda, sabe como é difícil ela fazer amizade.
Parece que tem medo de tudo.
Já tentei conversar, mas não consegui.
Ela é muito fechada, calada, desconfiada e diferente de Danilo, que fala até demais.
- Tem razão, senhora.
Realmente, é muito fechada.
Também não entendo por que é assim.
Tem uma casa e uma família maravilhosa e tudo o que quer.
- Também não entendo, depois vou conversar com Jerusa e descobrir quem é essa amiga.
- Ela estava muito nervosa.
- Por quê?
- Disse que a senhora precisa contratar um motorista, pois está cansada de ir para a Faculdade e voltar de lá, de táxi.
- Depois que o Sebastião se aposentou, já tentei contratar alguns, mas ela não aceitou nenhum, também não entendo por que ela não quer tirar carta de motorista.
Se ela fizesse isso, teria o seu próprio carro!
- Já falei com ela sobre isso, mas diz que não gosta de dirigir, que tem medo.
- Medo do quê, Alda?
Não entendo esse medo...
- Também não entendo, senhora, mas ela é assim.
Vamos fazer o que, não é?
- Tem razão.
É difícil entender a Jerusa.
- Senhora, Danilo disse que estava com dor de estômago e foi para o hospital.
- Sei disso, nós o encontramos lá.
- Ele está bem?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:24 pm

- Não sei, Felipe o está consultando, mas não deve ser grave.
Alda, este casal vai ficar aqui em casa.
Prepare a casa dos fundos.
Alda, que já havia notado a presença dos dois, estava curiosa, mas não quis perguntar.
Luana continuou:
- Só depois que você falou em almoço foi que me lembrei de que não comemos durante a viagem.
Vocês, assim como eu, devem estar com fome, não estão?
Tobias olhou para Luísa, que respondeu:
- Estamos sim, mas não precisa se preocupar, estamos acostumados a ficar sem comer.
- Vocês podem estar, mas eu não. Alda, tem almoço?
- Pensei que a senhora não viesse e pedi para Carlita preparar pouca comida, só restou um pouco.
- Acha que dá para nós três?
- Receio que não, senhora, mas posso preparar num instante.
- Prepare somente um lanche e arrume a mesa na sala de refeições.
Vamos comer ali.
Luísa olhou para Tobias e disse:
- Senhora, preferimos que não...
- Não o quê? Não querem comer?
Não estão com fome?
- Estamos, mas...
- Mas o quê?
Já sei, não querem comer na sala de refeições, não é?
Luísa sorriu. Luana continuou:
- Preferem comer na cozinha?
Luísa voltou a sorrir.
- Está bem. Alda, prepare os três lugares na mesa da cozinha.
Também adoro comer ali, só como na sala de refeições por causa do Felipe.
Alda sorriu.
Ela sabia que Luana não estava dizendo a verdade, mas conhecia desde pequena e entendia perfeitamente o que estava querendo fazer: ajudar aquele casal.
- Está bem, senhora, vou pedir para a Carlita preparar o lanche.
E depois os levarei até a casa dos fundos para que a conheçam.
- Faça isso.
Enquanto os encaminha para a casa dos fundos, vou trocar esta roupa.
Começou a se afastar, mas voltou-se:
- Quando os encontramos, não vi malas.
Vocês não trouxeram roupas?
- Não, senhora.
O menino começou a passar mal e saímos correndo, nem pensamos em pegar roupas.
- Venham comigo!
Luísa ficou parada sem saber o que fazer.
Luana pegou em sua mão e a puxou, fazendo com que a acompanhasse.
Tobias ficou parado, só olhando.
Do meio da escada, Luana se voltou e disse:
- Você também, Tobias. Venha!
Ele, sem jeito, continuou parado.
Ela gritou:
- Venha! Não pode continuar com essas roupas que está usando.
Vou pegar alguma coisa do Felipe para que possa usar.
Vocês têm o mesmo corpo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 16, 2017 7:24 pm

As roupas dele vão servir muito bem em você.
Luísa, vendo que ele estava nervoso e com vergonha, disse:
- Venha, Tobias.
Ele, devagar, as acompanhou.
Luana abriu uma porta e fez com que entrassem na sua frente.
Dentro do quarto, abriu um guarda-roupas e começou a tirar e a jogar sobre a cama saias, blusas e vestidos.
Luísa e Tobias, com os olhos, acompanhavam seus movimentos.
Depois de tirar alguns, Luana disse:
- Pode levar tudo com você.
- Para mim?
- Sim, para você.
- Mas são lindos!
Não pode fazer isso, senhora...
- Eu não uso essas roupas.
Sabe que todos aqui somos médicos, somente Danilo, para nossa tristeza, resolveu ser advogado.
Com excepção dele, todos usamos, na maior parte do tempo, roupas brancas.
Pode ficar com elas.
Luísa pegou as roupas.
Seus olhos começaram a brilhar de uma maneira que Tobias nunca havia visto.
Enquanto ela colocava as roupas na frente do corpo e se olhava em um espelho que havia no guarda-roupas, Luana pensou:
Engraçado, parece que já vi esta cena... como pode ser?
Por que gostei tanto desses dois assim que os vi?
Luísa, com um dos vestidos na frente do corpo, ficou com os olhos parados, perdidos no tempo.
Depois de alguns segundos, olhou para Luana e disse:
- Não sei, senhora, mas parece que já vivi algo parecido com isto.
- Que está querendo dizer?
- Não sei como explicar, mas sinto que já nos encontramos em uma situação como esta...
- Também sinto isso, mas, como sabe, é impossível.
Acabamos de nos conhecer.
- Tem razão, devo ter sonhado ou desejado haver conhecido a senhora, que é um anjo que Deus colocou nas nossas vidas.
Luana sorriu, abriu a porta de um outro guarda-roupa e tirou algumas calças e camisas, dizendo:
- Estas roupas podem ficar para você, Tobias.
- Não pode, senhora.
Seu marido vai ficar brabo...
- Não vai, não.
Ele já não as usa há muito tempo.
Pode pegar.
Depois, abriu algumas gavetas e tirou roupas íntimas dela e de Felipe e deu a eles que, sem saber o que falar, ficaram calados, embora os olhos brilhassem de felicidade.
Luísa foi dobrando as roupas e colocando sobre a cama.
Quando estava tudo dobrado, Luana disse:
- Agora já podemos ir, a Alda vai providenciar toalhas.
Vamos descer?
Com as roupas nas mãos, Luísa e Tobias a acompanharam.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:22 pm

Assim que se aproximaram de Alda, Luana perguntou:
- O lanche está pronto, Alda?
- Ainda não, senhora.
A Carlita precisa de mais alguns minutos.
- Está bem. Enquanto isso, acompanhe Luísa e Tobias e mostre-lhe onde vão ficar.
Não se esqueça de providenciar tudo o que precisarem, eles vão ficar algum tempo morando aqui.
Luísa e Tobias, embora não entendessem o que estava acontecendo, em pensamento, agradeciam a Deus por haver colocado aquela mulher em suas vidas.
Saíram acompanhando Alda que lhes mostrou a casa onde iriam ficar.
A casa, embora pequena, era confortável.
Tinha apenas um quarto e um banheiro.
Assim que Alda os acomodou e providenciou roupas de cama e toalhas, saiu, deixando-os sozinhos.
Luísa olhava tudo e seus olhos brilhavam de contentamento.
Subiu na cama e começou a pular e a dizer:
- É macia, Tobias!
Nunca dormimos em uma cama como esta!
Tobias permaneceu calado, só que, dessa vez, sorriu.
Estava pulando, feliz, e não percebeu Luana que, da porta, ria da felicidade dela.
Assim que a viu, Luísa desceu da cama e, sem graça, disse:
- Desculpe, doutora, mas nunca tivemos uma cama como esta. Estou muito feliz...
- Não se preocupe, só vim ver se gostaram, da acomodação.
- Nossa, doutora! Nem sabemos como agradecer.
- Não precisa agradecer, a casa estava vazia mesmo.
Podem ficar o tempo que quiserem.
Luana disse aquilo com sinceridade e, outra vez, achou já ter visto aquela cena. Sorrindo, afastou-se.
Assim que ela foi embora, Luísa olhou para Tobias e, abraçando-se a ele, perguntou:
- Tobias, o que acha de tudo o que está acontecendo?
- Não sei, só sei que ela e o marido foram dois anjos que Deus colocou no nosso caminho.
- Será que foi Deus mesmo?
- Claro que sim, Luísa.
Você não viu como eles apareceram do nada naquela estrada?
- Do nada, não.
Eles estavam voltando de uma viagem.
- Sei disso, mas quantos carros passaram por nós e não pararam?
Qualquer um que passasse poderia ver que estávamos com problema, mas só eles viram e pararam.
Foi Deus, mesmo!
- Tem razão...
- Tem uma coisa que não consigo tirar da cabeça.
- O quê?
- Quando ela abriu o guarda-roupa e me mostrou toda aquela roupa, dizendo que eu podia escolher a que quisesse, não sei, mas senti que já tinha vivido aquela cena, Tobias...
- Que cena?
- De ver um guarda-roupa cheio de vestidos.
E nós duas estarmos juntas.
- Não pode ser, Luísa, só se for em sonhos.
A gente só a conheceu agora.
- Tem razão, mas foi o que senti, por isso disse que achava estranho.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:23 pm

Tobias ficou com o olhar distante. Luísa perguntou:
- No que está pensando, Tobias?
- Na minha tia Isaura.
- Na tia Isaura, por quê?
- Ela tem aquela religião que você sabe.
- Sim, ela diz que fala com os mortos, mas sabe que nunca acreditei nisso.
- Eu também não, mas agora, estou pensando.
Ela me disse, uma porção de vezes, que a gente nasce e renasce muitas vezes, nunca acreditei e sempre achei que fosse uma bobagem, mas depois do que você me disse, estou pensando, será que você e a doutora não viveram juntas em outra vida?
- Está louco, Tobias?
Acredita mesmo nessas coisas?
- Não sei. Eu não queria lhe contar, também, assim que vi a doutora, achei que já a conhecia e que era nossa amiga...
- Será, Tobias?
Será que essa coisa de nascer de novo existe mesmo?
- Não sei, Luísa, mas essa seria a única explicação para isso que estamos sentindo.
Ela está nos recebendo como se fôssemos da família.
- Não só ela, mas toda a família.
Você viu o cunhado dela, como é mesmo o nome dele?
- Acho que é Rodolfo.
Não sei muito bem, eu estava muito nervoso e assustado com tudo o que estava acontecendo.
- É Rodolfo mesmo.
Ele me olhou de uma maneira.
- Que maneira, Luísa?
- Não sei explicar, mas foi muito estranho.
- Estranho como?
- Não sei, estranho.
Ela olhou para o marido e viu que ele estava preocupado, deu uma gargalhada e disse:
- Não é dessa maneira que está pensando, Tobias.
Ele me olhou como um irmão, como alguém que não se via há muito tempo.
- Não estou pensando nada...
- Está sim.
Eu o conheço muito bem.
Não pode ver um homem me olhando que já pensa uma porção de bobagem.
- Não pensei Luísa! - disse nervoso.
Ela deu outra gargalhada, olhou bem para ele e, levantando-se da cama, o abraçou.
- Sei que você morre de ciúmes, só não entendo por quê.
Sabe que, desde que éramos crianças e vivíamos na fazenda, só tive olhos para você, para mais ninguém.
Gosto muito de você, Tobias.
- Sei disso, também gosto muito de você.
Só que...
- Só que... - ela disse imitando o tom de voz dele.
- Você é tão bonita e eu sou tão feio.
- Feio? Coisa nenhuma!
Você é o homem mais bonito que conheço e, mesmo que não fosse, é o homem que escolhi para meu marido e de quem gosto muito!
- Está falando a verdade?
- Claro que estou.
Gosto muito de você, Tobias, e isso acontece desde quando a gente brincava de esconde com as outras crianças.
Você lembra?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:23 pm

- Claro que lembro.
Éramos ainda uns pirralhos e nos escondíamos no mato só para ficar pegando um na mão do outro.
Com os olhos saudosos, Luísa começou a rir.
- Naquele tempo, a gente nem imaginava tudo o que ia passar na vida...
- É verdade, mas, mesmo depois de tudo, estou feliz por estar casado com você, Luísa.
Acho que a gente foi feito um para o outro.
Ela se abraçou mais forte a ele e começou a chorar.
- Por que está chorando, Luísa?
- Por que o nosso menino teve de nascer doente, Tobias?
Eu não entendo...
- Também não entendo, mas não importa o porquê.
O que importa é que ele nasceu e a gente gosta muito dele, não gosta?
- Claro que sim e ainda tenho esperança de que um dia ele vai ficar bom.
- Ele vai ficar bom, Luísa!
Você não ouviu o que a doutora disse?
Ele só está muito fraco, mas vai ficar bom!
- Não estou falando de hoje, do ataque que teve, estou falando de ficar bom mesmo, poder andar e me chamar de mãe...
- Isso você sabe que não vai acontecer.
Quando ele nasceu, o médico disse que ele teve um problema, não sei muito bem o que aconteceu, parece que faltou oxigénio e ele ficou desse jeito e para essa doença não tem cura.
- Não posso aceitar isso, Tobias!
Por que isso foi acontecer com a gente?
Por que o nosso menino tinha de nascer assim?
Por que a gente foi escolhido?
Não é justo!
- Sei como se sente, Luísa.
Também penso muito a esse respeito.
Quando vejo as crianças brincando, rindo e correndo, fico triste porque sei que isso nunca vai acontecer com o nosso menino.
Ele vai ficar para o resto da sua vida assim, sem fazer nada e nem sei se conhece a gente.
- Ele conhece, Tobias!
Claro que conhece!
- Ele sabe que a gente cuida dele, só isso, Luísa.
Acho que todo pai só quer ver os filhos crescerem, se tornarem adultos, se casarem e terem suas famílias.
Isso nunca vai acontecer com ele e isso me apavora.
- Apavora por quê, Tobias?
- Já pensou se a gente morrer?
Quem vai cuidar dele?
Luísa ficou pensativa.
De seus olhos, lágrimas começaram a correr.
- Nunca havia pensado a esse respeito, Tobias... nunca imaginei que gente poderia morrer.
Agora estou com medo, se isso acontecer o que vai ser dele?
Quem vai cuidar?
Vendo o desespero dela, ele tentou consertar:
- A gente não vai morrer Luísa.
Não temos doença alguma e ainda somos jovens.
A gente vai conseguir criar o nosso menino.
Sei que vai.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:23 pm

- Criar para quê, Tobias?
Ele vai ser sempre assim, sempre vai depender de alguém... não sei o que pensar.
Nem sei se quero que ele sobreviva.
Será que não seria melhor que ele morresse?
- Não fale assim, Luísa!
Ele é nosso filho!
Não importa como tenha nascido, o que importa é que é nosso filho e eu o amo de coração!
- Também o amo, Tobias, mas sabemos que nossa vida não vai ser fácil.
A gente não tem dinheiro para dar um bom tratamento para ele e, mesmo que tivesse, não adiantaria.
Ele vai ser sempre assim...
- Também já pensei muito a esse respeito, mas não adianta pensar.
Ele está vivo e vai continuar assim e, enquanto a gente puder, ele vai receber todos os cuidados.
Deve ter algum motivo que a gente não conhece para ele ter nascido assim e ser nosso.
- Que motivo, Tobias?
Por que ele nasceu assim? Por que foi ser nosso filho?
Por que logo a gente?
- Não sei o motivo, Luísa.
Só sei que ele está aqui e que a gente vai cuidar dele.
Luísa, com as mãos, secou as lágrimas que corriam por seu rosto e disse:
- Você tem razão, Tobias. Nada pode ser feito, além de cuidarmos dele.
Talvez, algum dia, a gente descubra o porquê de ele ter nascido nosso filho.
- Isso mesmo, é assim que a gente tem de pensar, do contrário vamos ficar loucos.
Agora, acho melhor a gente ir para a casa da doutora.
Eu não quis falar, mas estou morrendo de fome.
Ela sorriu e, abraçando-o, disse:
- Eu também saí cedo de casa e nem tomamos café.
Saíram e caminharam em direcção à cozinha da casa de Luana.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:23 pm

CONVERSANDO SOBRE O PAÍS
Enquanto isso, no hospital, Felipe terminou de examinar o filho e disse:
- Aparentemente, está tudo bem, talvez a dor tenha sido provocada pelo fato de você haver comido algo que não lhe fez bem, mas, mesmo assim, acho prudente você fazer uma endoscopia para que possamos ver como está esse estômago.
- Endoscopia?
Aquele cano que é enfiado pela garganta? Nem pensar, doutor!
Felipe sorriu:
- Você é mesmo um covarde, Danilo!
É um exame como outro qualquer.
É feito rapidamente e não vai doer.
Deixe de ser criança!
- Não vai mesmo, eu não vou fazer!
- Está bem, vou lhe receitar um remédio, mas se a dor voltar vai fazer, sim, é sempre bom se prevenir.
Um diagnóstico feito no começo de uma doença é a melhor coisa que pode acontecer.
- Também não entendi o motivo dessa dor que senti.
Acho que era saudade que estava sentindo do senhor e queria vir até o hospital.
- Se fosse saudade, não precisaria vir até aqui.
Sabia que eu e sua mãe estávamos viajando e que iríamos para casa, só estamos aqui porque encontramos aquele casal com a criança que passava mal.
- Que menino lindo, não, papai?
- Você achou?
- Sim, por que está me fazendo essa pergunta?
- Porque, na maioria das vezes, as pessoas desviam o olhar de uma criança como aquela ou, ao contrário, a encaram com curiosidade.
- Por que isso acontece, papai?
- Por que ela é diferente das outras.
- Por que existem crianças que nascem assim como ele?
- Os motivos são muitos.
Pode faltar oxigenação ao nascer, o que prejudica algumas áreas do cérebro.
Pode, também, haver, problemas sanguíneos por parte dos pais.
- Não tem cura?
- Ainda não.
- Será que elas pensam ou reconhecem as pessoas?
- Sim, pensam e reconhecem as pessoas, só não conseguem se comunicar.
Em alguns casos, dependendo de onde o cérebro foi atingido, conseguem ter uma vida quase normal.
- Esse menino pode ter uma vida normal?
- Infelizmente, não.
Ele será dependente por toda a vida.
- Que pena... ainda não entendo por que Deus permite que isso aconteça...
- Também não sei responder.
Estou estranhando...
- Estranhando o quê, papai?
- Parece que você gostou muito desse menino, não foi?
- Sim, não sei como explicar, mas assim que olhei em seus olhos, tive a impressão de conhecê-lo.
- Sabe que isso é impossível.
Nunca o viu antes.
Seus pais moram no interior, perto da fazenda, e você não vai lá faz muito tempo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:24 pm

- Tem razão, mas eu tive essa sensação assim que o vi.
Como isso pode acontecer?
- Outra resposta que não sei dar.
- Como, não?
O senhor não é aquele que sabe tudo? - Danilo perguntou, rindo e fazendo aquela careta que todos conheciam.
- Espere aí!
Nunca disse que sabia tudo!
- Nem precisa dizer, sempre teve respostas para tudo e quando não tem, faz como está fazendo agora, diz que não sabe.
- Está vendo? Como pode dizer que me considero o sabedor de tudo?
- Falei isso só para irritá-lo.
Gosto de vê-lo nervoso, papai.
- Você gosta, mesmo, é de brincar, especialmente comigo.
Os culpados somos nós, eu e sua mãe, que lhe damos toda essa liberdade.
- Acho muito bom que seja assim.
Quando digo a meus amigos que conversamos e brincamos, eles não acreditam.
Dizem que não conseguem conversar com os pais e muito menos com as mães.
A educação deles é muito rígida.
- Sei que acha bom, Danilo, conheço essa educação e gostaria que meu pai tivesse sido igual a mim, mas não era.
Sempre foi muito rígido, bastava um olhar para eu e Rodolfo entendermos o que ele queria e ficarmos calados.
- E, sua mãe?
- Ela era diferente dele.
Gostava de falar e estava sempre disposta ouvir, mesmo assim, não era sobre qualquer assunto que podíamos conversar.
Além disso, não fazia nada sem consultar meu pai.
Era dependente dele em tudo.
- Não, mamãe é diferente.
Ela gosta de ouvir e está sempre pronta para ajudar, mas, se for preciso tomar uma decisão, toma sem demora e, se erramos, nos faz pensar no assunto.
Sei que, se precisar, ela daria a vida por mim e por Jerusa.
Ela é quem fala pouco.
Parece sempre desconfiada.
Por que ela é assim, papai?
- Também não entendo.
Jerusa é assim desde pequena.
Sempre foi de falar pouco e também gostava de ficar em um canto, quieta.
Não brincava com crianças da sua idade.
Como sabe, não tem amigas até hoje.
Passa a maior parte do tempo no seu quarto.
- Sabe que sinto pena dela.
- Por quê?
- Uma pessoa assim só pode ser infeliz, papai.
Guardar tudo só para si e não confiar em ninguém.
- Concordo com você.
Nunca entendi o motivo de sua irmã ser assim, mas o que se pode fazer.
Desde muito cedo, aprendi que precisamos aceitar as pessoas como são.
Talvez a vida faça com que ela mude, mas, mesmo que não mude, nunca deixará de ser sua irmã e nossa filha.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:24 pm

Eu e sua mãe, pode ter certeza, amamos os dois da mesma maneira.
Claro que, com você, o nosso diálogo é mais fácil, mas isso não significa que a amamos menos.
Tenho a certeza de que você também a ama.
- Claro que sim, papai.
Embora, algumas vezes, ela torne isso muito difícil.
Felipe começou a rir.
Danilo não entendeu e perguntou:
- Do que está rindo, papai?
- De nada, meu filho.
Não entendo como começamos a falar da sua dor de estômago e terminamos falando de sua irmã.
Danilo também riu.
- Tem razão, papai.
Também não sei.
A não ser o fato de que gostaria que ela fosse diferente.
Mas, diante do que disse, não há como mudarmos alguém.
Só mesmo a própria vida.
- É isso que devemos fazer.
Continuar amando-a e aceitá-la como é.
Voltando a sua dor de estômago, sabe que existem estudos que dizem que o estômago reflecte o estado emocional da pessoa?
- É mesmo?
- Sim, você está tendo algum problema, Danilo?
- Não chega a ser um problema, mas tem algo me incomodando.
- Posso saber o que é?
- É na Faculdade.
- Na Faculdade?
Está tendo algum problema com os estudos?
Se for preciso, podemos contratar um professor particular para ajudá-lo.
- Não se trata disso, papai.
Sabe que amo Direito, talvez por isso não encontre muita dificuldade.
- O que é então?
- Estamos vivendo em uma tensão permanente.
- Por quê?
- Devido às perseguições políticas, nunca se sabe quem é amigo ou não.
- Parece que está muito grave mesmo, não é?
- Muitos de meus amigos estão presos ou exilados.
O regime militar está sendo muito duro com aqueles que não estão a seu favor.
Dizem que as pessoas estão sendo torturadas.
No princípio, não sabíamos como elas eram encontradas e presas.
Agora, sabemos que os militares colocaram espiões disfarçados como estudantes.
Por isso, a desconfiança é total.
- Sabe que nunca gostei de me envolver em política.
Nasci para cuidar da saúde das pessoas.
Desde que eu tenha condições de atendê-las, não tenho, nem quero me preocupar.
- Alguns não pensam assim e acham que o melhor caminho é a resistência, a luta armada.
Felipe, assustado, perguntou:
- Você está envolvido em algum movimento de resistência, de luta armada, Danilo?
- Não, papai.
Eu acredito na lei, por isso estou estudando Direito, pois sem a lei nunca haverá uma sociedade livre.
Não acredito que a democracia possa ser conseguida através das armas, como muitos propõem.
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:24 pm

Embora saiba que, através das armas, ela possa nos ser tirada.
- Também penso assim, filho.
A violência só gera violência.
Embora para mim, a ditadura não cause problema algum.
Apesar de não poder falar contra, tenho meu trabalho e condições de exercê-lo bem.
O querer falar, discutir e lutar, faz parte da mentalidade dos advogados, não dos médicos.
Estes precisam apenas preocupar-se com seus doentes.
- Muitos não pensam assim e acreditam que a Ditadura nos faz muito mal.
- Sabe o que não aceito?
- Não.
- Que jovens, assim como você, sejam envolvidos por adultos experientes e mandados para frente de batalha.
- Não estou entendendo.
- Adultos descontentes, sem coragem de enfrentar suas próprias lutas, envolvem jovens estudantes, mas na hora da luta, propriamente dita, eles não se apresentam, apenas ficam organizando.
São os jovens que lutam e, por esse motivo, são obrigados a se esconder, fugir e, consequentemente, largar seus estudos.
Assim, deixam de ajudar a Pátria da maneira correta.
Você não está vendo quantos de seus amigos estão indo presos e obrigados a deixar o país sem saber se um dia poderão Voltar?
- Sim, conheço muito e todos são estudantes brilhantes.
- Está vendo o que vai acontecer com eles, se nunca mais puderem voltar para o país, para seus pais?
Onde estarão os adultos que os envolveram quando eles e seus pais choraram de saudade e preocupação, pois perderam seus filhos por uma luta inglória?
- Por que diz que a luta é inglória, papai?
- Porque essa Ditadura que está aí só vai terminar no dia em que desejarem aqueles que a promoveram, Danilo.
- Não estou entendendo...
- Estou dizendo que, no dia em que os militares quiserem, a Ditadura terminará e o país voltará para as mãos dos civis.
- Acredita mesmo nisso, papai?
- Sim, não só acredito como tenho certeza.
A história nos conta.
- Muitos não pensam assim.
Dizem que, se o povo quiser e se unir, eles serão obrigados a se afastar.
- Isso é ilusão, o povo só conseguirá se unir, quando eles permitirem.
Antes disso, nada poderá fazer.
- Será, papai?
- Sim, pode esperar para ver, Danilo.
- Às vezes, penso que o senhor tem razão.
- Por que está dizendo isso, Danilo?
- Parece que o povo não está se dando conta do que está acontecendo.
Parece que a ditadura não atinge a população.
- Você tinha só treze anos e não lembra, mas, no princípio, diante de tanto desmando e corrupção da maioria dos deputados e senadores, o povo ficou feliz pelos militares terem tomado o poder.
A felicidade foi tanta que, quando houve a campanha "Ouro para o Brasil", muitos tiraram até a aliança do dedo para doar.
A campanha teve uma repercussão enorme, todos queriam ajudar o Brasil.
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:24 pm

Depois, no Governo Militar, foi criado o Banco Nacional de Habitação e muitos conseguiram sua casa própria.
Além disso, construíram hospitais e escolas.
Com todo esse desenvolvimento, não faltou trabalho e isso é tudo do que o povo precisa.
Trabalho...
- Acha que o povo não se importa de não poder falar, reivindicar?
- Um homem que se levanta às cinco ou seis horas da manhã, após trabalhar o dia inteiro, quando chega a casa só quer relaxar, assistir à televisão, por isso não se importa com quem o está governando.
O homem comum acha que não tem o que falar, só quer ter comida, moradia, saúde e escola para os filhos.
Além do mais, acredita que nada possa fazer contra os poderosos.
Eu mesmo, após passar longas horas aqui no hospital vendo muita dor e sofrimento, quando chego a casa só quero descansar e esquecer tudo o que vi.
Não tenho ânimo algum para me revoltar.
- O senhor deve ter razão.
Acredito que é isso mesmo o que acontece com o homem comum.
Mas, mesmo assim, a liberdade é importante e, para que isso aconteça, é necessário que haja eleições e o povo possa escolher quem quer que o governe.
- Sim, esse é um sonho e seria ideal se...
- Se o quê, papai?
- Os estudantes são os únicos que podem brigar e se entregar a essa luta.
A maioria deles tem os pais que pagam seus estudos e não precisam se preocupar com casa e comida.
Eles têm e precisam ter o ideal de liberdade, de democracia.
Não se esqueça de que a maioria do povo brasileiro tem pouca instrução e que aqueles que votam são os mesmos que levantam de madrugada para ir trabalhar e voltam à noite, cansados.
Não sabem e não estão interessados em saber a quantas anda a política e os políticos.
Na hora de votar, votam em alguém por ouvir dizer ou por receber alguma compensação e aqueles que se candidatam, na maioria das vezes o fazem pensando exclusivamente no seu próprio bem.
Sem educação académica, pouco se conhece e se pode exigir...
Infelizmente, a maioria dos políticos brasileiros não tem esse perfil.
- Para o senhor não existe político bom?
- Claro que existe, mas é uma minoria que, sozinha, nada poderá fazer.
- Foi por isso que o senhor disse que, no princípio, o povo ficou feliz.
Parece que os militares se preocuparam mesmo com o Brasil.
O que acha que aconteceu para que mudassem, se tornassem violentos e provocassem toda essa repressão?
- O poder, meu filho... o poder... ele cega as pessoas, não importando a que classe pertençam.
- O poder?
- Sim, as pessoas fazem de tudo para exercer o poder sobre as outras.
Quer saber de uma coisa, acho que todo político é contra a democracia.
Danilo riu e perguntou curioso:
- Por que está dizendo isso, papai?
- Todo homem, quando atinge um cargo político, começa a perceber a mudança que ocorre em sua vida.
É sempre bem recebido em qualquer lugar em que se apresenta.
As pessoas o bajulam, fazendo com que se sinta especial.
Essa situação o envaidece, o que faz com que tema perdê-la.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:25 pm

Com a democracia, existe a alternância de poder e isso o assusta.
Ele teme perder o lugar que conquistou.
Com as ditaduras, esse perigo é afastado e ele pode continuar no poder por um tempo bem mais longo que a democracia permitiria.
Danilo ficou olhando para o pai.
Ele não imaginava que o pai pensasse daquela maneira.
Disse:
- O senhor parece conhecer muito bem os problemas. Por que não se envolve na luta?
- Como já lhe disse, nasci para ajudar as pessoas na sua doença, nasci para salvar vidas.
Deixo a política para os advogados. - disse isso, rindo e passando, com carinho, a mão pelos cabelos do filho.
- Uma coisa está me preocupando, Danilo.
- O quê, papai?
- Você disse que não está envolvido em qualquer movimento de resistência, por que está tão preocupado com os espiões que diz existirem na faculdade?
- Não estou envolvido, mas o Júlio está, temo por ele.
Sabe que é meu amigo.
- Ele não é filho de um coronel da marinha?
- Sim. Desde pequeno, quis seguir a carreira do pai, mas foi impedido.
- Impedido por quê?
- O pai lhe disse que a vida de um militar não é fácil, precisa mudar constantemente e sua família o acompanha.
Isso faz com que seus filhos não tenham tempo para se acostumarem a uma nova escola nem mantenham amizades, o que julga prejudicial para a formação das crianças.
Por isso, deseja que o Júlio tenha uma profissão diferente da dele.
Quer que ele seja advogado.
- Pensando assim, ele até que tem razão.
O Júlio aceitou sem discutir?
- O pai, por ser militar, exerce em sua casa uma posição de comando e hierarquia.
Júlio não teve como discutir.
- Ele não gosta de estudar Direito?
- Até que gosta, mas, da marinha, gosta muito mais.
Desde pequeno, sonhou em ser marinheiro.
Quem sabe ele ainda poderá ser.
Só não entendo uma coisa.
Se ele gosta tanto da vida militar, por que está envolvido em um movimento de resistência contra os militares?
- Também lhe fiz essa pergunta e me admirei com sua resposta.
- O que ele respondeu?
- Disse que, por admirar as forças armadas e os militares, não pode aceitar no que eles se transformaram.
Disse que os militares têm uma boa formação académica e sua maior missão é defender o Brasil e seu povo de qualquer ataque, por isso, nunca poderiam tornar o Brasil uma ditadura.
Ele não é revoltado contra as forças armadas, mas, sim, contra alguns militares que as transformaram em ditadores e, segundo alguns, torturadores.
- Conheço o Júlio por muito tempo e sei que é um bom rapaz.
Agora, você me diz que está lutando por algo em que acredita.
Embora não acredite na sua luta, respeito-o por sua determinação.
- Nisso o senhor tem razão.
Ele luta por aquilo em que acredita, é um bom rapaz e amigo leal.
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