O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 22, 2017 8:49 pm

Quando chegaram ao jardim, o homem olhou para a casa onde Luísa e Tobias estavam.
Perguntou:
- Quem mora naquela casa?
- Nosso motorista, a esposa e o filho deles.
Voltou a olhar para os homens:
- Vamos até lá!
Ao ouvir aquilo, Luana, muito nervosa, disse, também gritando:
- Não podem fazer isso!
- Não posso, por quê?
- Eles devem estar dormindo e têm uma criança muito doente, esteve internada no hospital até hoje.
- A senhora deve ter um motivo para não querer que revistemos a casa.
- Já disse ao senhor que eles nada têm a ver com isso e que têm uma criança doente!
- Não acredito no que está dizendo e, se não se importar, vamos verificar se está dizendo a verdade.
Antes que Luana ou Felipe dissesse alguma coisa, caminharam em direcção à casa e, assim que chegaram, um deles bateu com muita força e os outros se colocaram em posição de tiro com as armas nas mãos.
Tobias e Luísa, ao ouvirem aquelas batidas, nervosos, levantaram-se.
Quando abriram a porta, assustaram-se ao ver aqueles homens armados.
Tobias olhou para os homens e, antes que dissesse qualquer coisa, o homem afastou-o com força e, depois, fez o mesmo com Luísa que, assustada, começou a chorar e olhou para Luana que, com a mão, fez sinal para que ficasse calma.
Os homens entraram no pequeno quarto, olharam embaixo da cama e dentro do guarda-roupa.
Perceberam que naquele espaço não havia como um homem se esconder.
O menino, com o barulho das batidas, acordou e começou a chorar.
Os homens olharam para ele e, ao verem que se tratava de uma criança deficiente, não se importaram e saíram do quarto.
Luísa, assim que eles saíram, correu para o menino, pegou-o no colo e começou a embalá-lo.
Os homens, acompanhados por Luana, Felipe e Jerusa, se afastaram e caminharam em direcção aos carros.
Antes de sair, aquele que foi o único que sempre falou, disse:
- O carro não está aqui, isso significa que ele ou eles fugiram de carro.
Vamos dar um alerta para a Polícia Rodoviária.
Tenho certeza de que serão presos.
Luana, num último apelo, disse:
- O senhor está enganado, meu filho não é um subversivo!
O homem, fingindo não entender, se afastou juntamente com os outros.
Saíram, entraram no carro e foram embora.
Luana respirou fundo e caminhou em direcção à casa de Luísa.
A porta ainda estava aberta.
Bateu de leve.
Luísa estava com o menino no colo e ainda chorando.
Luana disse:
- Espero que estejam bem.
Desculpem, mas eles vieram aqui contra nossa vontade.
- Não tem problema, senhora.
Claro que nos assustamos, mas agora está tudo bem.
O que está acontecendo?
- Eles estão acusando meu filho de ser subversivo.
- O que é um subversivo?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 22, 2017 8:49 pm

- Todo aquele que é contra o Governo Federal.
- Seu filho é contra o Governo?
- É, mas não é subversivo.
Ele acredita nas leis.
- É contra, por quê?
Parece que este governo fez muita coisa para o povo...
- Tem razão, mas tirou as liberdades individuais.
- O que é isso?
- O que você acabou de ver.
Se alguém discordar do que fazem, agem da maneira como agiram aqui, prendem, torturam e até matam.
Luísa olhou para Tobias que, assim como ela, estivera o tempo todo preocupado com sua situação e em como cuidar do filho doente.
Por isso, nunca se preocupara com a política ou com o Governo.
Sem saber o que dizer, ficou calado.
Luana, ao perceber que eles estavam bem, disse:
- Agora, parece que tudo ficará bem, vamos nos deitar e tentar dormir.
Caminhou em direcção a sua casa.
Jerusa, antes de acompanhar os pais, olhou com muito carinho para Tobias, olhar que foi notado por Luísa.
Dentro da casa, o menino estava assustado:
- O que está acontecendo, Matilde?
- Nada que não estivesse previsto.
- Quem são aqueles homens?
- Fazem parte da polícia do governo.
Estão aqui para prender Danilo.
- Por quê?
- Ele e quase todos desta casa são espíritos guerreiros que se dedicaram sempre a lutar contra aqueles que oprimem o povo.
Você não se lembra do que eles fizeram contra a escravidão e para que a República fosse proclamada?
- Embora na época eu estivesse doente, lembro muito bem.
- A República foi proclamada, a escravidão terminou, mas a luta pela liberdade ainda continua e eles também continuam lutando em favor dela.
- O que vai acontecer com eles, principalmente com o meu Felipinho?
- Não sei, precisamos acompanhar os acontecimentos.
Mas, sabendo que eles estão sob a protecção espiritual, precisamos acreditar que conseguirão sobreviver a tudo isso.
- Espero que sim...
- Todos esperamos agora você precisa dormir.
Sua mãe e seu pai estão muito preocupados.
- Está bem...
Com um sorriso, o menino adormeceu.
Ao verem que o menino parecia dormir tranquilo, Luísa disse:
- Parece que ele está bem.
Fiquei com medo que se assustasse.
- Ele se assustou, Luísa, você não viu como chorou?
- Tem razão, mas agora parece que está bem.
Vamos nos deitar e tentar dormir.
- Vamos, sim.
Às dez horas, vou ter de levar a moça à biblioteca.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 22, 2017 8:49 pm

- Não gosto da maneira como ela olha para você...
- Por quê?
Que maneira?
- Não sei explicar, mas não gosto.
- Ora, não se preocupe.
Você está exagerando.
Ela me olha da mesma maneira que olha para você e a todos os empregados da casa.
- Não sei, não... ela olha diferente para você.
- Diferente, como?
- Não sei explicar, acho que ela gosta de você.
- Está maluca?
Ela não gosta de mim! Ao contrário, deixa sempre bem clara a diferença que existe entre nós.
- Não sei não...
- Mesmo que isso fosse verdade, o que não é não faria diferença alguma.
Gosto de você desde sempre e do nosso filho também.
- Preciso continuar acreditando nisso, pois ela, além de ser rica, é também uma moça muito bonita.
Já lhe disse várias vezes que, se um dia me trair, eu mato você!
Sabe disso!
Tobias, rindo, abraçou-a:
- Você não é capaz de matar uma mosca... e, além do mais, também é muito bonita e a única que me interessa.
Agora, vamos dormir.
Deitaram-se.
Ela aconchegou-se nos braços dele, adormeceram.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 22, 2017 8:49 pm

A FUGA
Enquanto tudo aquilo acontecia na casa de Luana, Danilo e os outros, como o planeado por Felipe, deixaram o carro em uma rua distante da estação ferroviária.
Caminharam por algumas quadras, tomaram um táxi que os levou até a estação.
Durante o caminho, para não levantarem suspeitas, conversaram sobre assuntos normais de estudantes.
O motorista do táxi nem por um minuto desconfiou de que se tratava de fugitivos.
Tomaram cuidado, pois não o conheciam e, em, tempos de ditadura, não se podia confiar em ninguém nem mesmo naquele que se dizia amigo.
Para disfarçar, desceram do táxi algumas quadras antes de chegarem a estação e caminharam até ela.
Logo que entraram, foram até o guiché e, para sorte deles, o trem sairia às seis horas da manhã.
Faltava pouco mais de uma hora.
Ao tomarem conhecimento daquilo, compraram as passagens e foram para a plataforma.
Caminharam displicentes, falando e rindo muito.
Quem os visse, jamais imaginaria quem eram e o que estavam fazendo ali.
Assim que chegaram, Diva começou a sentir-se mal.
A cor de seu rosto desapareceu, começou a suar e a tremer.
Segurou-se no braço de Danilo que estava mais perto.
Ele, ao perceber que ela não estava bem, perguntou assustado:
- O que está acontecendo, Diva?
- Como sempre acontece quando estou em uma estação de trem, estou muito nervosa e sentindo-me muito fraca.
Tenho medo de desmaiar.
Júlio, também assustado, disse:
- Vamos nos sentar.
Você deve estar precisando comer alguma coisa.
Danilo fique com ela, vou providenciar um lanche para todos nós.
- Faça isso, Júlio.
Também estou com fome.
Júlio afastou-se.
Danilo, abraçando Diva, perguntou:
- O que acha que está acontecendo com você, Diva?
- Você nos alertou sobre seu problema com trens, mas nunca pensei que fosse tão grave assim.
Infelizmente, terá de suportar.
Não há outra maneira.
Não temos outro lugar aonde ir nem outro meio de transporte.
Fique tranquila, estou aqui ao seu lado.
- Tem razão, sei disso.
Achei que já houvesse passado, mas como estamos vendo, não passou... estou me sentindo muito mal... não sei se vou conseguir fazer esta viagem...
- Precisa tentar!
Sabe como é importante, pois, se formos presos, não podemos nem imaginar o que nos acontecerá!
- Tem razão, vou tentar me controlar, mas, está sendo muito difícil.
Pode me abraçar?
- Claro que sim.
Tente se acalmar.
Logo mais, Júlio vai trazer o lanche.
Tomara que, comendo, sinta-se melhor.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 22, 2017 8:49 pm

- Preciso ficar melhor.
O momento pelo qual estamos passando exige isso.
Ele abraçou-a e fez com que colocasse a cabeça em seu ombro.
Ela aconchegou-se, fechando os olhos, evitando, assim, olhar para os trilhos e, aos poucos, foi sentindo-se melhor.
Júlio retornou com três lanches e três copos com leite e café.
Tomaram o lanche e sentiram-se melhor.
Mesmo assim, após comerem, Diva continuou abraçada em Danilo, que, sem perceber, acariciava seus longos cabelos.
Diva disse:
- Parece que faz um século que estamos aqui, não é?
- Tem razão Diva.
Talvez seja a vontade que estamos de entrar logo nesse trem e ir embora.
Sinto que, dentro dele, estaremos seguros.
- Será que fomos seguidos, Júlio?
- Acredito que não.
Saímos de sua casa antes de eles chegarem.
Neste momento, se já não estiverem lá, estão para chegar.
Tomara que seus pais consigam disfarçar e enganá-los.
Danilo começou a rir:
- Não se preocupe com isso, Júlio.
Está assim porque não conhece a dona Luana.
Meu pai é mais tranquilo, mas, mesmo assim, eles saberão enganá-los.
- Tem razão, sua mãe sempre me pareceu uma mulher determinada.
- É sim, tanto que tenho certeza de que encontrará uma maneira de nos ajudar.
- Que maneira poderia ser essa?
- Não sei, mas ela encontrará.
- Esperamos que sim.
A todo o momento, olhavam para o relógio suspenso, mas parecia que ele não se movia.
Diva, ainda evitando olhar para os trilhos, continuou com a cabeça deitada no ombro de Danilo que de vez em quando acariciava seu rosto.
Júlio acompanhava aquele gesto, mas permaneceu calado, estava muito preocupado e com medo de tudo o que estava acontecendo.
Em dado momento, disse:
- Danilo, sinto por tudo o que está passando.
Eu e Diva temos motivo para fugir, pois, realmente, participamos de reuniões e podemos ser chamados de subversivos, mas você, não... sempre se recusou a participar de qualquer ato que julgasse ilícito e nunca deixou de confiar nas leis.
- Tem razão, Júlio, mas, já que estou envolvido, só nos resta ficar juntos.
- Por quanto tempo, Danilo?
- Não sei Diva, pelo tempo que for necessário.
Ela, embora estivesse sentindo-se melhor, ainda tremia um pouco, Júlio, olhando para ela e vendo seu estado, perguntou:
- Por que será que você fica assim sempre que está em uma estação de trem, Diva?
- Não sei, mas, desde que aconteceu aquilo comigo, quando era pequena, sempre evitei chegar perto de uma estação e de um trem.
- Deve ter alguma explicação, acho que deveria procurar ajuda.
Danilo começou a rir.
Júlio e Diva não entenderam.
Ele perguntou:
- Do que está rindo, Danilo?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:57 pm

- Estou me lembrando daquilo que minha tia disse, Diva.
Diva, relembrando-se do que Marília havia dito, também riu e perguntou:
- Acredita mesmo naquilo que ela disse Danilo?
- No momento em que ela falava, não, mas, diante do que está acontecendo com você, desse medo inexplicável, chego a pensar que pode ser verdade que poder haver reencarnação.
- Reencarnação? Do que estão falando? - Júlio perguntou, quase gritando.
Danilo, olhando para ele e ainda rindo, respondeu:
- Minha tia veio com essa conversa, confesso que, a princípio, não acreditei, mas, diante do que está acontecendo com Diva, pode ser verdade.
Do contrário, qual seria o motivo de ela sentir-se assim em uma estação de trem?
- Não sei qual é o motivo, mas garanto que não se trata de reencarnação.
Isso não existe, Danilo!
- Pode ser que não exista, mas se existir?
Poderíamos imaginar que Diva possa ter morrido em uma estação de trem e por ele, ou que algo de muito grave tenha acontecido.
Só isso responderia a esta situação.
- Sabe que pode ter razão, Danilo?
Se aquilo que sua tia disse for verdade, teríamos a resposta.
Será que foi isso que aconteceu?
Será que fui atropelada e morta por um trem, ou teria acontecido algo muito grave?
- Não sei... não sei...
- Vocês estão loucos mesmo...
Danilo e Diva riram.
Ela se aconchegou mais a ele, que, sorrindo, acariciou seu rosto.
Finalmente o trem chegou. Eles entraram.
Sentaram-se e, ansiosos, esperaram que ele partisse.
Só assim teriam certeza de que estariam fora de perigo.
Lentamente, após o apito, o trem começou a andar e a se afastar da estação.
Os três respiravam fundo, aliviados.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:57 pm

CONVERSANDO COM RODOLFO
Depois que os homens foram embora, Luana se deitou, tentou dormir, mas não conseguiu.
Pensava:
Será que eles conseguiram pegar o trem?
Eu fiquei apavorada quando ouvi Júlio dizer que a polícia estava vindo para prender Danilo.
Fiquei muito mais, depois de conhecer aqueles homens.
Eles são frios e cruéis, se os prender, não imagino o que poderão fazer.
Preciso encontrar uma maneira de esclarecer esse engano.
Mas o que posso fazer?
Não conheço ninguém que possa me ajudar.
Durante todo esse tempo da Ditadura, nunca me preocupei com política, somente em cuidar dos meus pacientes.
Meu Deus preciso de uma luz, de um caminho para seguir.
Queira Deus que eles, neste momento, estejam dentro do trem.
Lá na fazenda, estarão protegidos.
Naquele mesmo instante, Alda chegou e estranhou ao ver que ninguém havia se levantado.
O que será que aconteceu?
Por que ninguém se levantou?
Desde que trabalho nesta casa, isso nunca aconteceu.
Não sei o que fazer.
Será que devo subir para saber o que aconteceu?
Não, o melhor a fazer é pedir a Carlita que prepare o café e esperar que eles se levantem.
Foi até a cozinha.
Carlita estava junto ao fogão preparando o café.
Ao vê-la entrar, perguntou aflita:
- O que aconteceu nesta casa, dona Alda?
Por que ninguém acordou ainda?
- Não sei Carlita.
Vamos terminar de preparar o café e esperar.
Em algum momento, um deles acordará e saberemos.
Prepararam o café.
Esperaram, mas, apesar de ter se passado mais de uma hora, a casa continuava em silêncio.
Preocupada, saiu para o jardim e viu Tobias que lavava o carro.
Aproximou-se:
- Bom dia, Tobias.
- Bom dia, dona Alda.
- Tobias, estou preocupada, os patrões e os meninos ainda não acordaram.
Eles já perderam a hora para o trabalho e os meninos a da escola.
Nunca vi isso acontecer.
- Não precisa ficar preocupada, esta noite aconteceu muita coisa e eles devem estar dormindo.
Luísa também ainda está dormindo.
O menino ficou muito assustado, chorou muito e demorou para dormir.
Luísa também estava muito assustada e não quis acordá-la.
Sei que a doutora entenderá.
- O que aconteceu, Tobias?
Ele, sem saber se podia comentar, respondeu:
- Acho melhor a senhora esperar os patrões acordarem, eles poderão contar.
Ela, percebendo que ele não queria comentar o que havia acontecido e muito curiosa, insistiu:
- O que foi que aconteceu, Tobias?
Você está me deixando preocupada!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:57 pm

- Desculpe senhora, mas não posso comentar, são coisas de família.
Ela, nervosa e curiosa, ia voltando para a casa, quando, olhando para a garagem que estava com a porta aberta, viu que o carro de Danilo não estava ali.
Mais preocupada ainda, perguntou:
- Tobias, onde está o carro do Danilo?
- O senhor Danilo saiu com o carro de madrugada.
- De madrugada, por quê?
- Desculpe, mas não posso dizer.
Logo mais os patrões vão acordar e a senhora poderá perguntar.
Percebendo que ele não ia dizer nada, ela se afastou e caminhou em direcção da casa.
Entrou. Carlita, assim como ela, também estava preocupada.
Conversavam, quando Luísa entrou.
Assim que a viram, Alda perguntou:
- Luísa, sabe alguma coisa sobre o que aconteceu esta noite?
- Por que está perguntando?
A senhora parece tão preocupada, dona Alda?
- Ninguém se levantou até agora e você mesma só chegou agora.
O que aconteceu, Luísa?
Perguntei ao Tobias, mas ele não quis me contar.
Estou muito nervosa!
Luísa, vendo o desespero delas, disse:
- Não sei se devia.
Talvez Tobias fique bravo comigo, mas a senhora está muito aflita.
Vou contar.
Em poucos minutos, contou o que havia acontecido.
Alda e Carlita ficaram apavoradas.
Alda disse:
- Isso não podia ter acontecido com Danilo, ele é um bom moço, só quer estudar e ser um bom advogado.
- Embora não o conheça há muito tempo, também penso assim.
Luísa falou visivelmente preocupada.
- O que vamos fazer dona Alda?
- Nada podemos fazer Carlita, a não ser esperar e pedir a Deus que tudo seja esclarecido.
O telefone tocou, Alda atendeu:
- Alô. Alda, bom dia, sou eu, o Rodolfo.
- Bom dia, doutor Rodolfo.
Que bom que telefonou.
- Por quê? O que está acontecendo?
- Aconteceu muita coisa e até agora ninguém acordou.
Estou preocupada, são quase dez horas...
- Foi por isso mesmo que telefonei.
Estou preocupado, pois nem Felipe nem Luana vieram para o hospital.
Eles têm pacientes para atender.
O que aconteceu?
- Não sei direito.
Parece que a polícia veio para prender o Danilo.
- O quê? A polícia veio prender o Danilo?
Por quê?
- Não sei doutor.
A moça, mãe do menino, também não sabe muito.
Ela não entendeu o que aconteceu e só contou o que entendeu.
- Faça-me um favor.
Vá até o quarto de Felipe e acorde-o, estou muito preocupado.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:57 pm

- Farei isso, mas o senhor não acha melhor esperarmos mais um pouco?
- Não precisa Alda, estou acordado.
Com quem está falando ao telefone?
Alda voltou-se e viu Felipe aproximando-se.
Passando o telefone para ele, respondeu:
- É o doutor Rodolfo.
Ele está preocupado.
- Está bem, Alda, obrigado, falarei com ele.
Pegou o telefone, Alda se afastou.
- Alô, Rodolfo.
- O que aconteceu, Felipe?
- Muita coisa, mas não podemos falar por telefone.
Luana está terminando de se vestir.
Iremos para aí e lhe contaremos tudo o que aconteceu esta noite.
- O que foi que aconteceu, Felipe? - perguntou nervoso e gritando.
- Não posso lhe dizer por telefone, Rodolfo.
Tenha um pouco de paciência, já estamos chegando.
- Está bem. Estou aguardando vocês e direi aos pacientes que tiveram um problema e que irão se atrasar.
- Faça isso, por favor, e obrigado.
- Quem era ao telefone, Felipe?
Quem perguntava era Luana que acabava de descer a escada e se aproximou de Felipe.
- Rodolfo está preocupado por não termos ido ao hospital.
- O que disse a ele?
- Nada, Luana, apenas que depois lhe contaremos tudo o que aconteceu.
- Melhor assim, não sabemos se nosso telefone está grampeado.
- Foi por isso que me limitei a dizer o estritamente necessário.
- Agora, vamos para o hospital.
Precisamos manter a nossa rotina.
Tomara que os meninos tenham conseguido pegar o trem e já estejam viajando.
- Devem estar Luana.
O meu plano vai dar certo.
O problema é que não teremos como saber até que consigam nos mandar notícias ou consigamos enviar alguém até lá.
- Preciso conversar com Alda.
Por sua expressão, percebi que está preocupada e não entendeu o que aconteceu.
- Faça isso, vou terminar de me arrumar e iremos para o hospital.
Luana foi para a cozinha, Felipe voltou para a escada.
Estava subindo, quando encontrou Jerusa, que descia apressada.
- Bom dia, papai.
Estou atrasada.
Preciso ir para a biblioteca.
- Bom dia, filha.
Não se esqueça de que não deve comentar com ninguém o que se passou esta noite.
Precisamos ser discretos.
- Fique tranquilo, não comentarei com ninguém.
Desceu correndo e foi para a sala de refeições.
Apressada, pegou um copo, colocou suco, tomou rapidamente e saiu.
Luana, na cozinha, conversava com Alda:
- Sei que está preocupada, Alda, mas não precisa ficar, está indo bem.
- Como tudo bem, senhora?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:57 pm

A Luísa me contou o que aconteceu.
Foi algo muito grave.
O carro do Danilo nem ele estão em casa.
O que aconteceu, senhora?
Para onde ele foi?
Diva foi com ele também, por quê?
- Diva foi com ele, assim como o Júlio.
Eles estão bem, assim espero, e para o seu bem, é melhor que não saiba o que aconteceu.
Continue sua rotina como se nada tivesse acontecido.
Precisamos manter a calma.
Disso depende o bem estar deles.
- Está bem, senhora.
Já que está tão calma, o que aconteceu não deve ser grave mesmo.
Luana sorriu:
- Preciso lhe pedir uma coisa.
- O que, senhora?
- Não comente com ninguém o acontecido e se alguém vier procurar pelo Danilo, diga que ele foi viajar.
Somente isso.
- Está bem.
A senhora e o doutor vão tomar café?
- Não, vamos terminar de nos aprontar e iremos para o hospital.
Lá, comeremos alguma coisa.
Alda, embora preocupada, mas vendo no rosto de Luana total tranquilidade, sorriu.
Luana saiu da cozinha e foi para seu quarto terminar de se arrumar.
Embora, para não alarmar os empregados da casa, demonstrara tranquilidade e despreocupação, seu coração estava apertado.
Temia pelo filho, principalmente por saber que ele nunca quis se envolver em lutas contra a Ditadura, mas vencê-la através das leis.
Porém, sabia que, naquele momento, nada mais poderia ser feito.
Só desejava que ele chegasse bem à fazenda, pois, embora não soubesse a razão, sentia que ali ele estaria protegido.
Depois de terminarem de se arrumar, saíram e chegaram ao hospital.
Rodolfo os esperava ansioso.
Sabia que algo de grave havia acontecido, mas não podia precisar o quê.
Assim que eles se aproximaram, ele, aflito, perguntou:
- O que aconteceu, Felipe?
Por que não quis me dizer ao telefone?
- Não precisa ficar aflito dessa maneira, Rodolfo.
Agora está tudo bem, ao menos por um tempo.
- Pelo amor de Deus, me conte o que está acontecendo, Felipe!
- Não tivemos tempo para tomar o café da manhã, vamos para a lanchonete e lá conversaremos.
Foram para a lanchonete, sentaram-se e pediram café e um lanche.
Enquanto o lanche estava sendo preparado, Felipe começou a contar tudo o que havia acontecido.
Terminou, dizendo:
- Como pode ver, agora está tudo sob controle.
Eles estão indo para a fazenda e, enquanto ficarem lá, não correrão perigo.
Rodolfo não tinha tanta certeza. Disse:
- Como pode ter certeza de que eles chegarão à fazenda?
- Se tivessem sido presos, já saberíamos.
A polícia teria nos avisado.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:58 pm

- Em que país você pensa que está vivendo, Felipe?
- Não estou entendendo.
- Pelo que está dizendo, pode-se ver que não entende o que está acontecendo no Brasil, Felipe!
Este país está sem leis!
A polícia prende e faz o que quer sem dar satisfação a ninguém!
Pessoas desaparecem sem que famílias sejam avisadas e muitas não estão voltando para casa.
Precisamos encontrar uma maneira de saber se eles estão bem, mesmo!
Hoje mesmo, vou para a fazenda!
- Não pode fazer isso, Rodolfo!
- Por que não, Luana?
- A polícia deve estar seguindo os nossos passos.
Se algum de nós for até a fazenda, com certeza nos seguirão e os três serão presos!
- Ela tem razão, Rodolfo.
Precisamos pensar em um meio para termos notícias, mas não podemos nos precipitar.
Precisamos acreditar que eles estão bem.
- Isso que está acontecendo com Danilo não é justo!
Embora eu tenha tentado convencê-lo do contrário, pois acho que esse governo deve ser derrubado, ele, não!
Nunca quis participar de movimento algum para derrubar o governo!
- Nós sabemos disso, Rodolfo, mas parece que a polícia não está interessada em saber a verdade.
Ele foi denunciado e isso basta para ela.
Por isso, precisamos tomar cuidado!
- Tem razão, Felipe, estou muito nervoso e, por isso, não estou raciocinando direito.
Vamos encontrar uma solução.
- Isso mesmo, meu irmão.
Agora, precisamos acreditar que estão bem e que encontrarão uma maneira de nos contactar.
Vamos trabalhar, temos pacientes nos esperando.
Tomaram o café que a garçonete já havia servido e foram para seus consultórios.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:58 pm

HORA DE ESCOLHA
Enquanto Luana conversava com Alda, Jerusa saiu da casa e viu Tobias que terminava de lavar o carro.
Aproximou-se:
- Bom dia, Tobias, está pronto para me levar à biblioteca?
- Sim, senhorita. Bom dia.
Encaminhou-se para abrir a porta de trás para que ela entrasse.
Antes de colocar a mão na maçaneta, ela disse:
- Não vou atrás, Tobias.
Quero ir na frente com você?
- Na frente, senhorita?
- Sim, na frente.
Não gosto de viajar atrás, meus pais me obrigam, porém hoje eles estão preocupados com o meu irmão e não perceberão.
Ele, sem entender o que estava acontecendo ou quais eram as intenções dela, ficou parado.
Ela, alterando a voz, disse:
- Vamos, Tobias, abra a porta!
Ele, como se voltasse a si, deu a volta, abriu a porta da frente, por onde ela entrou e sentou-se.
Ele, pelo outro lado, entrou no carro, ligou, acelerou e foram embora.
Da porta da casa, Luísa acompanhou toda a cena.
No carro, enquanto dirigia, Tobias lembrou-se do que Luísa havia dito.
Estava nervoso, mas fazia o possível para demonstrar calma.
Jerusa percebeu e, divertindo-se, perguntou:
- O dia está lindo, não é, Tobias?
- Está sim, senhorita...
- Quando estivermos a sós, não precisa me chamar de senhorita.
Pode me chamar de Jerusa.
- Desculpe senhorita, não entendi.
- Entendeu muito bem, eu disse que pode me chamar de Jerusa.
- Não posso senhorita, sou seu empregado.
- Isso precisa ficar claro quando estivermos ao lado de outras pessoas, mas, quando sozinhos, não há necessidade.
Ao mesmo tempo em que dizia isso, ela colocou sua mão na perna dele, que, embora quisesse afastá-la, não podia, pois estava com o pé no acelerador.
Ela, sorrindo por dentro, começou a acariciar sua perna.
Ele, desesperado, disse:
- Por favor, não faça isso, senhorita.
Além de ser seu empregado, sou casado e amo a minha esposa e meu filho.
- Não quero me casar com você, somente ficar algum tempo ao seu lado.
Assim que o vi, senti que o conhecia há muito tempo e que queria ser sua.
Tentei afastar o pensamento, mas não consegui.
Sinto que algo mais forte nos une.
Ele, encostando o carro no meio-fio, disse, assustado:
- Está louca!
- Estou, sim, por você!
- Não pode ser!
- Claro que pode.
Agora mesmo, poderemos ir para um hotel e ninguém ficaria sabendo.
A nossa felicidade só depende de você.
Vamos para um hotel?
- Não! A senhorita disse que ia para a biblioteca!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:58 pm

- Eu menti... queria ficar sozinha com você...
- Não pode ser senhorita.
Já lhe disse que tenho mulher e um filho e amo aos dois...
- Como pode amar um filho como o seu?
Doente e que nunca será nada na vida?
E aquela mulherzinha sem graça?
- Embora sabendo que meu filho não tem futuro como qualquer outra criança, eu o amo e a minha mulher também, jamais os trairia!
- Vamos deixar de conversa e, agora, iremos para um hotel.
- Não, senhorita, desculpe, mas não posso.
- Claro que pode!
- Não, senhorita, por favor...
- Não venha com essa conversa!
Como pode negar que assim que me viu se interessou e só não demonstrou por medo!
Sei que gosta de mim.
- Não, amo minha mulher e estou agradecido aos seus pais por nos terem acolhido e ajudado.
Jamais poderia trair a confiança deles...
- Pois não me importo com aquilo que pensa ou deseja fazer!
Quero você e conseguirei ter de uma maneira ou de outra! Vamos!
- Por favor, senhorita, não faça isso...
- Está bem, pode não ser hoje, mas será em outro dia qualquer.
Você ainda será meu!
Vamos para a biblioteca! - ela disse isso, irritada e gritando.
Nervoso, ele tornou a ligar o carro e saíram.
Jerusa, embora não entendesse o que estava acontecendo e por que sentia amor e desejo por aquele desconhecido, seguiu em silêncio.
Ele, desesperado por aquilo que estava acontecendo, enquanto dirigia, pensava:
Essa moça está completamente louca!
Meu Deus acho que vamos ser obrigados a ir embora.
Logo agora que na nossa vida estava tudo bem.
Para onde poderemos ir?
Luísa tinha razão, ela, antes de mim, percebeu as intenções dessa moça.
O que vou fazer?
Jerusa também seguiu em silêncio, mas pensava:
O que está acontecendo comigo?
Como posso estar agindo assim?
Ele não passa de um serviçal!
Como pude me apaixonar dessa maneira?
Quero esse homem e, para tê-lo, farei o que for preciso!
O que for preciso!
Nervoso, Tobias dirigiu o carro.
Sabia que, embora naquele momento, ele e Luísa estivessem vivendo tranquilos, tudo estava para terminar.
Precisava tomar uma atitude, mas qual?
Parou o carro em frente à biblioteca, estava descendo para abrir a porta, quando Jerusa, nervosa, disse:
- Não precisa abrir a porta, não sou aleijada!
Ele ficou em silêncio, entendia que aquele momento era difícil.
Ela desceu, ele voltou a ligar o carro e a sair.
Tobias dirigia de volta a casa.
Estava nervoso, pois sentia que toda aquela segurança em que se encontravam poderia terminar.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:58 pm

Sabia que não seria fácil deixar de atender aos apelos de Jerusa.
Pensava:
Ela é muito bonita e envolvente.
Sinto que, se não formos embora, não resistirei à tentação.
Não! Não posso nem pensar nisso!
Amo Luísa e jamais poderei trair esse amor.
Assim que estacionou o carro em frente a casa, desceu e foi para o quarto, onde Luísa passava roupas.
Para que ela pudesse cuidar do menino, Alda levou a tábua de passar para lá.
Assim que o viu entrar, ela percebeu que ele não estava bem, perguntou:
- O que aconteceu, Tobias?
Você está nervoso.
Ele, sem coragem de dizer o que estava acontecendo, respondeu:
- Nada está acontecendo, Luísa!
Não sei por que está perguntando isso!
- Por que está gritando comigo?
Só lhe fiz uma pergunta.
- Desculpe, mas não estou bem.
Desde que me levantei, estou com muita dor de cabeça.
- Dor de cabeça?
Você nunca teve dor alguma...
- Também não estou entendendo, por nunca ter sentindo dor alguma, sei que ela vai passar.
Vou perguntar a dona Alda se vai precisar do meu trabalho, se não precisar, vou me deitar e tentar dormir um pouco.
- Deve fazer isso.
Deite-se que eu vou falar com ela.
Explicarei sobre sua dor, ela vai entender.
Nunca, em nossa vida, estivemos em uma situação de segurança como esta, não é Tobias?
Agora, estamos protegidos.
A doutora parece gostar muito da gente.
Estranho isso, não acha?
- Estranho, por quê?
- Ela nunca nos viu e, mesmo assim, nos trouxe para sua casa e está nos dando toda assistência, não só a nós, mas ao nosso menino também.
Tenho medo de que tudo isso acabe.
Ao ouvir aquilo, ele estremeceu.
Lembrou-se da situação em que estava, mas ficou calado.
Precisava esperar para ver o que ia acontecer daquele dia para frente.
Luísa viu quando Jerusa sentou no banco da frente do carro.
Ficou preocupada, pois sabia que ela, além de ser bonita, tinha dinheiro, o que poderia levar Tobias a pensar muito, caso ela se interessasse por ele.
Ao vê-lo voltar daquela maneira, sua desconfiança aumentou.
Enquanto se dirigia para casa, onde pretendia conversar com Alda, pensava:
O que será que aconteceu?
Por que ele está tão nervoso?
Será que ela lhe disse alguma coisa?
Será que ela o ofendeu?
Ele está estranho.
Apesar de tudo o que já passamos, nunca o vi dessa maneira.
Parece que está descontrolado...
Entrou em casa.
Alda estava na sala, mostrando para a empregada como deveria limpá-la.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:58 pm

Luísa se aproximou:
- Dona Alda, preciso conversar com a senhora.
- Pois não, Luísa, o que aconteceu?
- Meu marido está com muita dor de cabeça, pediu que eu viesse até aqui para saber se a senhora vai precisar dele.
- Não, hoje, não pretendo sair.
Diga a ele que pode tomar um comprimido e descansar.
Quando os doutores chegarem e, se essa dor não passar, é melhor que converse com um deles.
- Obrigada, dona Alda, vou conversar com ele.
Estava saindo quando ouviu o telefone tocar.
Alda atendeu.
Ouviu alguma coisa do outro lado da linha e desligou o telefone.
Voltou-se para Luísa e disse:
- Infelizmente, seu marido vai ter de esperar para tomar o comprimido.
Jerusa acabou de telefonar e pediu que ele fosse buscá-la na biblioteca.
Luísa não gostou, mas sabia que nada poderia fazer, pois seu marido era o motorista da casa e precisava cumprir seu dever.
Disse:
- Está bem, vou falar com ele.
Obrigada, dona Alda.
Saiu da casa e, enquanto voltava para seu quarto, pensou:
Alguma coisa está acontecendo, nunca vi o Tobias tão preocupado... não entendo, logo agora que estamos tão bem nesta casa.
Temos trabalho e tratamento para o nosso filho, o que mais alguém poderia querer?
Entrou em casa.
Encontrou Tobias que, sentado na cama, olhava para o menino que dormia tranquilo.
Perguntou:
- O que está fazendo, Tobias?
- Olhando para o nosso filho e agradecendo a Deus por termos encontrado esta casa, onde ele está tendo toda assistência.
- Agradeço a Deus todos os dias.
Ele nos enviou esses anjos e só podemos agradecer, mesmo.
- Também acho e, por isso, farei qualquer sacrifício para que tudo continue assim.
Nada posso fazer que coloque nossa estabilidade em risco.
- Por que está dizendo isso, Tobias?
Estamos seguros, protegidos e em paz, aqui nesta casa.
Não precisa se preocupar, a doutora não vai nos abandonar.
Estamos bem, Tobias...
- Sei disso, mas temo que alguma coisa possa acontecer para que essa paz termine.
- Nada vai acontecer.
Conversei com dona Alda, ela disse que, depois que for buscar a moça na biblioteca, poderá tomar o comprimido e descansar. Estranho.
- O que é estranho?
- Você acabou de deixá-la na biblioteca, se sabia que seria por tão pouco tempo, poderia ter ficado e esperado.
Essa moça é estranha...
- Não sei se é estranha, só sei que é a patroa, ela manda, eu faço!
Ela percebeu que ele não estava normal.
Perguntou:
- O que está acontecendo, Tobias?
Por que está tão nervoso.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:59 pm

Ele gritou:
- Quantas vezes vou ter de lhe dizer que nada está acontecendo!
Será que não pode me deixar em paz?
Vou buscar a moça, depois, vou tomar um comprimido, descansar e essa dor vai passar.
Percebendo que Tobias estava descontrolado, Luísa se calou.
Ele se levantou, pegou seu boné de motorista, aproximou-se de Luísa, deu-lhe um beijo na testa e saiu.
Ela ficou olhando-o se afastar e, por conhecer seu marido muito bem, sabia que alguma coisa estava acontecendo, mas não podia precisar o quê.
Tobias estacionou o carro em frente à biblioteca.
Embora tentasse disfarçar, estava preocupado e pensava:
O que vou fazer?
Logo agora que tudo parecia estar tão bem... o que essa moça viu em mim para que ficasse dessa maneira?
Meu Deus, por favor, me ajude.
Amo minha mulher e meu filho, não quero cometer uma traição... o que vou fazer se ela continuar insistindo?
Estava pensando, quando viu Jerusa se aproximando.
Saiu do carro, abriu a porta traseira para que ela entrasse, mas ela, ao se aproximar, fechou a porta, abriu a da frente e entrou.
Tobias deu a volta, entrou, sentou-se e ligou o carro.
Estava saindo quando Jerusa, colocando a mão em sua perna, fez com que parasse.
Olhou bem nos olhos dele e perguntou:
- Por que você não quer aceitar o meu amor?
Ele é verdadeiro.
Sinto que, se você quiser, poderemos ser felizes...
Ele, nervoso e sem saber o que responder, permaneceu calado.
Ela continuou:
- Sabe que, ao meu lado, poderá ter tudo com o que sonhou e até muito mais.
Nervoso e tremendo, ele respondeu:
- A senhorita está enganada.
Não pode gostar de um homem como eu.
Por saber a minha situação, está apenas querendo se divertir.
Além do mais, já lhe disse que amo minha mulher e meu filho, não quero e não posso cometer uma traição.
- O que sua mulher tem que eu não tenho?
Ela é bonita? Também sou!
Ela tem dinheiro para lhe dar tudo do que precisar?
Não! Eu tenho e posso fazê-lo muito feliz!
- Apesar da pobreza em que sempre vivemos, somos felizes.
- Como podem ser felizes sem dinheiro e com um filho sem futuro como o seu?
Sabe que aquela criança é um estorvo!
Ele nunca vai ter uma vida normal, será sempre um peso na sua vida!
Pense bem no que está fazendo!
Estou lhe dando uma oportunidade que muitos queriam ter!
- Não fale assim do meu filho!
Eu o amo da maneira como é!
Sei que, se tiver condições de frequentar uma escola especializada, poderá ser útil para a sociedade!
- Está tentando enganar a quem?
Mesmo que tivesse dinheiro para matricular seu filho em uma escola especializada, na situação dele, não adiantaria, sabe que, para sempre, ele ficará preso a uma cama!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:59 pm

Ele sabia que o que ela falava era verdade.
Seu menino nunca poderia ter uma vida normal como outra criança qualquer.
Em seus olhos, lágrimas se formaram.
Ela percebeu.
Abraçou-o e começou a beijar seu rosto, procurando seus lábios.
Ele tentou se afastar, mas foi impossível.
O contacto daqueles lábios e o perfume que ela exalava fizeram com que seu corpo reagisse.
Ela percebeu e continuou com as carícias.
Depois de algum tempo em que ele se deixou levar, reagiu com violência e afastou-a.
- Deixe-me em paz! Por favor!
Antes que ela tivesse qualquer reacção, ligou o carro e saiu em disparada.
Ela, feliz por sua reacção, por um tempo, seguiu em silêncio.
Depois, ainda acariciando sua perna, disse:
- Não precisa ficar nervoso, Tobias.
Sei que, assim como eu gosto de você, está gostando de mim também.
Ninguém precisará saber.
Podemos nos encontrar escondido.
- Não posso fazer isso!
Amo a minha mulher e não quero enganá-la!
- Ela não precisa saber... sei que teremos momentos felizes...
- Por favor, senhorita, não faça isso... é uma moça muito bonita, tem dinheiro e poderá ter o homem que quiser, por favor, me esqueça...
- Como posso esquecê-lo?
Acredita que eu queria que esse amor acontecesse?
Acredita que não sei quem sou e quem você é?
Claro que sei de tudo isso, mas não consigo controlar esse desejo que estou sentindo.
- Por favor, senhorita.
Seus pais confiaram em mim, deram abrigo para mim e minha família.
Jamais poderia enganá-los dessa maneira.
- Já lhe disse que ninguém precisará saber.
- Eu saberei e nunca mais poderei olhar nos olhos da Luísa.
Ela me ama e confia em mim...
- Vocês estão vivendo bem?
- Sim, depois de muito tempo, estamos nos sentindo seguros e protegidos.
Por favor, senhorita, não faça com que tudo isso acabe.
- Você acabou de dizer que meus pais confiam em você, o que acha que fariam se eu lhes dissesse que você tentou me agarrar no carro?
- Não fiz isso, senhorita!
- Não fez, mas se eu disser que fez, tenho certeza de que acreditarão na minha palavra mais do que na sua... - disse com ironia na voz e rindo com o canto da boca.
Ele, desesperado e sem saber o que fazer, ficou calado.
Ela, percebendo que estava ganhando terreno, disse:
- Tenho uma amiga que ficou órfã.
Seus pais morreram em um acidente de carro.
Eles deixaram como herança vários imóveis, entre eles muitos apartamentos.
Ela reservou um deles para que servissem de encontros para si e para suas colegas.
Sei que, se conversar com ela, nos emprestará o apartamento, poderemos nos encontrar lá e ninguém precisará saber.
- Não posso fazer isso, senhorita... trairia não só a minha mulher como aos seus pais também.
Eles não merecem isso...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:59 pm

- Já que está tão preocupado com meus pais, se não fizer o que quero, hoje mesmo direi a eles que tentou me agarrar e vocês estarão no olho da rua!
Pense bem!
- Não faça isso, senhorita, por favor...
Ela, ao ouvir aquilo, ficou mais nervosa do que já estava.
Disse, gritando:
- Claro que farei!
Está em suas mãos e pare de me chamar de senhorita.
Meu nome é Jerusa!
Entendeu Jerusa!
Ele percebeu que não havia mais argumentos e que precisava tomar uma decisão.
Aceitar o que ela lhe propunha ou pegar Luísa e o menino e sair daquela casa, onde havia encontrado tanto carinho.
Sem saber o que fazer, permaneceu calado.
Em casa, Tobias estacionou o carro e, antes de descer, Jerusa, disse:
- Lembre-se do que lhe disse!
Agora, vamos almoçar, depois do almoço, ao invés de irmos para a faculdade, iremos para o apartamento da minha amiga!
Entendeu? Espero que sim, pois, se não aceitar a minha proposta, hoje mesmo sairá desta casa!
Ele, em silêncio, desceu do carro e ia abrir a porta para que ela descesse, mas antes que chegasse, ela abriu a porta e, furiosa, desceu.
Luísa que, ao ouvir o barulho do carro, saiu para esperar Tobias, viu aquela cena e ficou intrigada:
O que será que está acontecendo?
Por que ela está no banco da frente?
Por que está tão nervosa e ele também?
Está acontecendo alguma coisa, mas o quê? Tobias se aproximou.
Ela percebeu que ele estava nervoso, foi beijá-lo como sempre fazia, mas ele afastou o rosto e entrou em casa.
Foi até o quarto, onde o menino parecia dormir sossegado.
Nervoso, sentou-se na cama e, olhando para o menino, começou a chorar.
O menino abriu os olhos e o viu chorando.
Olhou para o lado.
Matilde continuava ali.
Curioso, perguntou:
- O que aconteceu, Matilde?
Por que ele está chorando?
- Na vida tudo sempre se repete.
Jerusa está de volta e querendo novamente o amor de Tobias, mas, como da outra vez, agora também não vai ser correspondida.
Esperemos que, tanto ela como Maria Luísa consigam superar o erro de outros tempos.
Só assim, poderão seguir adiante.
- Por que tudo tem que se repetir Matilde?
- Para que o espírito possa vencer suas fraquezas.
Jerusa sofreu muito com aquilo que fez, mas, mesmo assim, precisa passar por tudo novamente e superar.
Só assim, seu espírito estará livre para prosseguir no caminho da evolução.
O mesmo está acontecendo com Maria Luísa.
Ela vai ter a oportunidade de cometer o mesmo erro da vida passada, mas terá também a oportunidade de exercer o perdão, ficar livre e poder continuar.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:59 pm

- Será que elas vão conseguir?
- Não sei, esperamos que sim.
Embora estejam sendo intuídas por bons amigos espirituais, nem sempre são ouvidos.
- Quando não são ouvidos, o que acontece?
- Seguirão nesta vida até o último instante e, depois, em outra encarnação, terão outra oportunidade.
- As oportunidades nunca terminam?
- Não, Deus é um Pai amoroso e nos dá todo o tempo de que precisamos para resgatarmos os nossos erros e encontrarmos o nosso caminho.
Luísa, preocupada, também entrou no quarto e, ao ver Tobias chorando, perguntou:
- Por que está chorando, Tobias?
O que aconteceu?
Ele, sem responder, olhou para ela, levantou-se, abraçou-a com muito força e disse:
- Não posso lhe contar, só precisa saber que, aconteça o que acontecer, eu amo muito você e nosso filho e, se eu fizer alguma coisa que possa lhe parecer errado, saiba que fiz porque não havia outra saída.
- Está me assustando, Tobias, o que aconteceu?
O que vai precisar fazer que possa parecer errado?
O que pode acontecer, logo agora que tudo está dando tão certo e que temos toda segurança do mundo?
- Não se preocupe essa segurança não estará em perigo.
Sei que precisamos continuar aqui, pois, além de termos trabalho e tratamento para o nosso menino, não temos para onde ir.
Não se preocupe, está tudo bem.
Agora, preciso almoçar.
Depois do almoço, tenho de levar a moça para a faculdade.
- Essa sua preocupação tem a ver com ela?
Ele, admirado, respondeu:
- Claro que não! De onde tirou essa ideia?
- Não sei, estou estranhando sua atitude e a dela sentada ao seu lado no carro, quando deveria ir no banco de trás.
Afinal, ela é a patroa.
- Ela não gosta de viajar atrás, é somente isso, nada mais!
Não pode se esquecer de que sou só o motorista, mas quem dá as ordens são os patrões.
Ela gosta de ir no banco da frente, o que posso fazer?
- Está bem, sei que me ama, por isso não fico preocupada.
Além do mais...
Ela parou de falar, ele nervoso e preocupado, perguntou:
- Além do quê, Luísa?
O que está querendo dizer?
- Nada, Tobias, nada...
- Nada, não!
Você quis dizer alguma coisa, preciso saber o que é!
- Tobias, você está gritando comigo?
Nunca fez isso!
Ele percebeu que havia gritado.
Tentando demonstrar uma calma que não sentia, abraçou-a, dizendo:
- Estou mesmo muito nervoso, mas não sei qual é o motivo.
Fique calma que logo tudo isso vai passar.
- Está bem, vou até a casa pegar o seu prato.
Sei que não gosta de comer lá na cozinha.
Ele sorriu e, abraçando-a, disse:
- Viu por que eu amo você?
Estamos há tanto tempo juntos que você me conhece mais do que eu mesmo.
Ela também sorriu e saiu.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 23, 2017 7:59 pm

O PAPEL DA DITADURA
Luana fez sua ronda e atendeu suas pacientes.
Embora procurasse reagir calmamente, estava nervosa e impaciente por não saber o que havia acontecido com Danilo.
Será que eles conseguirão chegar à fazenda?
E se estiverem presos e sendo torturados?
Preciso saber, mas como?
Tenho quase certeza de que estamos sendo vigiados.
Pensou por algum tempo, depois se lembrou de Horácio, um amigo de Danilo, filho de uma sua amiga.
Telefonou.
Assim que uma voz de mulher atendeu do outro lado, ela disse:
- Bom dia, Selma, preciso conversar com Horácio, ele está em casa?
- Não, Luana, está na faculdade.
- É mesmo, estou tão aflita que esqueci.
- O que está acontecendo?
Luana, antes de responder, pensou um pouco e respondeu:
- Nada, só preciso conversar com ele a respeito de Danilo.
Estou preocupada com ele.
- Por que, Luana?
Ele sempre me pareceu um bom moço...
- Ele é, mas estou preocupada, outro dia lhe conto.
Até mais.
Desligou o telefone.
Selma, sem entender o que estava acontecendo, ficou esperando a volta do filho.
Luana, assim que desligou o telefone, agoniada e sem saber o que fazer, foi conversar com Felipe, que também havia terminado de fazer sua ronda.
Entrou em seu consultório, dizendo:
- Felipe, estou desesperada sem saber o que aconteceu.
Será que eles conseguirão chegar à fazenda?
- Fique calma.
Devem estar viajando.
Sabe que só chegarão quase a noitinha.
- Também quero acreditar nisso, mas e se não chegaram?
E se estiverem presos, sendo torturados?
- Também estou preocupado, mas sabe que nada podemos fazer.
Provavelmente, estamos sendo vigiados e se formos até a fazenda, com certeza seremos seguidos e eles serão presos mesmo.
Precisamos esperar alguns dias e pensar em uma maneira de nos comunicarmos com a fazenda.
- Não vou aguentar esperar, Felipe... só de pensar que eles podem estar sendo torturados e até mortos...
- Nem pense nisso, Luana!
Fazendo assim está me deixando mais nervoso do que já estou! - disse apreensivo.
- Felipe... o pai do Júlio não é militar?
Será que ele sabe o que aconteceu com o filho?
- Sei que é militar, mas não o conhecemos.
O que está pensando, Luana?
- Em ir falar com ele.
Sendo militar, terá facilidade em descobrir se eles estão presos.
- Não sei, não...
Danilo não nos disse que ele e o filho estão brigados.
Talvez nem se interesse em saber do paradeiro do filho.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 24, 2017 8:51 pm

- Preciso tentar Felipe... não posso continuar nessa agonia...
- Sabe o endereço dele?
- Não, mas acho que o Horácio sabe.
Vou até a faculdade tentar encontrá-lo.
- Não pode ir sozinha, vou também.
- Não, não podemos ficar ausentes do hospital.
Um de nós já é o suficiente.
Irei e, se conseguir o endereço, telefono para você.
- Está bem, faça isso.
Naquele mesmo instante, Luana tirou o jaleco com o qual estava vestida e, beijando Felipe no rosto, saiu.
Assim que chegou à Faculdade, foi para a secretaria.
Perguntou:
- Estou procurando por Horácio Silva Jardim.
Preciso conversar urgente, com ele.
- Ele está em aula e não pode ser perturbado.
- Sei disso, mas trata-se de um assunto muito urgente.
- Sinto muito, mas se eu entrar na sala de aula, não atrapalharei só a ele, mas aos outros alunos também.
- Por favor, senhora, é muito urgente.
Caso de vida ou morte...
- Luana disse, quase chorando.
A mulher olhou no relógio e respondeu:
- Está quase na hora de terminar a última aula e ele estará saindo.
Vou lhe dizer qual é a sala em que ele está e a senhora poderá ficar no corredor esperando.
- Muito obrigada, senhora.
Não pode imaginar o favor que me está fazendo.
- Não tem de quê.
A senhora deve ir por este corredor, virar no fim dele e seguir em frente.
A sala dele é a última. Pode ficar esperando ali.
- Mais uma vez, obrigada.
Com passos firmes, Luana seguiu a indicação da mulher e chegou em frente à sala.
Encostou-se na parede e ficou esperando.
Alguns minutos depois, viu que os alunos começaram a sair.
Como eram muitos, ficou olhando com atenção, mas nem precisaria, pois eles também estranharam a presença daquela mulher no corredor e todos, ao passarem por ela, olhavam.
Não demorou muito para que Horácio a visse.
Aproximou-se, perguntando:
- Dona Luana, o que está fazendo aqui?
A sala do Danilo é no outro corredor.
- Estou esperando por você, precisamos conversar.
Os outros alunos, assim que viram Horácio parar, continuaram andando.
Horácio, aflito, perguntou:
- Está bem, pode falar, aconteceu alguma coisa com o Danilo?
- Aconteceu, sim, mas não quero falar a respeito, preciso saber se você tem o endereço ou telefone do pai do Júlio.
- Do pai do Júlio, para quê?
- Não posso lhe contar, mas, por favor, preciso de sua ajuda.
- Está bem, não sei o nome da rua, mas fica aqui perto, posso acompanhá-la.
- Obrigada, Horácio.
Não pode imaginar o bem que está fazendo a mim e ao Danilo...
- Não precisa agradecer, o Danilo é meu amigo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 24, 2017 8:51 pm

Para a senhora estar tão preocupada e querendo ir à casa do Júlio, posso adivinhar o que aconteceu.
Fiquei sabendo que, ontem, aqui na faculdade, muitos dos nossos colegas foram presos.
Danilo e Júlio também?
- Sim, mas, por favor, não comente com ninguém.
- O que a senhora está pretendendo ao ir à casa do Júlio?
- O pai dele é militar, talvez possa me dizer onde eles estão.
- A senhora pode ir, mas acredito que esteja perdendo tempo, pois o pai e ele estão rompidos.
- Sei disso, mas, mesmo assim, quero tentar.
- Está bem, vamos.
Saíram e, em poucos minutos, Luana parou o carro em frente a uma casa pintada de azul e com um enorme jardim na frente.
Horácio disse:
- É aqui. Tem certeza de que quer mesmo falar com o pai do Júlio?
- Quero sim.
Só não sei se ele está em casa.
- Está sim.
Esse carro preto que está no jardim é dele.
A senhora tem certeza de que quer falar com ele?
- Tenho, não existe alternativa.
- Está bem, mas vou embora.
Ele não gosta de mim.
Acha que fui eu quem desviou seu filho.
Mesmo muito nervosa Luana não pôde deixar de rir e dizer:
- É mais fácil jogar a culpa nos outros.
Os filhos, para os pais, sempre serão inocentes.
Horácio também riu e disse:
- Tem razão, a senhora está aqui porque acredita que Danilo seja inocente, não é?
- Nisso você está certo, mas tenho a certeza de que ele nunca esteve envolvido em subversão.
- A senhora está certa.
Assim como eu, Danilo nunca quis se envolver.
Acreditamos que a ditadura só será vencida através das leis e não importa o tempo que demore, um dia, ela terminará.
- Esperamos que sim.
Nunca me preocupei com ela, pois não me atingia, mas agora, é diferente.
Ela bateu à minha porta e desejo ardentemente que termine e que volte a haver democracia no Brasil.
- Esse também é o meu desejo e o de muitos.
- Obrigada, Horácio, por ter me trazido até aqui.
Agora, pode ir embora.
Não quero que a família de Júlio me veja ao seu lado, poderia complicar sua vida.
- Tem razão.
Até mais e espero que tenha sorte.
- Obrigada mais uma vez.
Horácio se afastou.
Luana, receosa, tocou a campainha.
Uma senhora abriu a porta e se aproximou.
- Pois, não.
- Bom dia, senhora.
Meu nome é Luana e sou mãe do Danilo, colega e amigo do Júlio.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 24, 2017 8:52 pm

Preciso conversar com o pai dele.
- Sou a mãe do Júlio.
A senhora sabe se aconteceu alguma coisa com ele? Estou preocupada, ontem, não voltou para casa.
- É justamente sobre isso que quero conversar com seu marido.
- Ele não quer saber do filho... diz que foi traído por ele.
Eu sofro muito por isso...
- Também estou sofrendo.
Meu filho foi envolvido em algo que não tem culpa.
Por favor, deixe-me falar com o seu marido.
- Pode tentar, se quiser, mas acho que não vai adiantar.
Ele não quer saber do filho.
- Por favor...
- Está bem, mas quero lhe pedir desculpas antecipadas pela maneira com que ele possa tratá-la.
- Não se preocupe com isso.
Meu filho está em perigo e farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo.
- Queria ter essa mesma força, mas não tenho.
Meu marido controla a todos nesta casa.
Luana sorriu ao ver aquela mulher tão frágil.
Disse:
- A senhora tem força, só não a encontrou ainda.
Fique calma, depois de conversar com seu marido, conversarei com a senhora.
A senhora sorriu e abriu o portão. Luana entrou.
Já na sala, notou que os móveis eram escuros, o que tornava o ambiente sombrio.
A senhora pediu que ela esperasse e entrou por uma porta.
Minutos depois, voltou:
- Pode entrar, ele concordou em atendê-la.
- Obrigada.
Luana, receosa, entrou pela porta por onde a mulher havia saído.
Assim que entrou, percebeu que se tratava de um escritório.
Atrás de uma mesa, estava sentado um senhor de aparência rígida, que ao vê-la entrar, levantou-se e estendeu a mão que ela apertou, tentando sorrir e dizendo:
- Bom dia, senhor.
Desculpe meu atrevimento, meu nome é Luana, sou mãe de Danilo, amigo do seu filho Júlio.
Enquanto apertava sua mão, ele disse:
- Sente-se, por favor, mas devo-lhe adiantar que nenhum assunto referente a meu filho me diz respeito.
Ela, sentando-se e não se deixando abater por sua frieza, falou:
- Mas eu tenho muita preocupação em relação ao meu filho.
- O que deseja de mim?
Luana contou o que havia acontecido lógico que omitindo a fuga e a provável ida deles para a fazenda.
Enquanto ela falava, o homem ouviu em silêncio.
Quando ela terminou, ele disse:
- Ainda não entendi o que a senhora está pretendendo.
- Preciso saber se eles foram presos, onde estão e o que posso fazer para libertá-los.
- Não sei se foram presos, mas espero que sim e que meu filho tenha um bom correctivo para deixar de ser subversivo! - ele disse visivelmente nervoso.
- Embora não entenda o que acontece entre o senhor e seu filho, estou aqui para ajudar o meu.
O homem, ainda com o rosto crispado, olhando bem em seus olhos, disse:
- Se ele está sendo procurado, deve pertencer a algum grupo subversivo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 24, 2017 8:52 pm

- O senhor está enganado.
Ele nunca quis pertencer a grupo algum.
- Ele, como a senhora disse, é amigo do meu filho, portanto deve também estar fazendo Direito, não é?
- Sim.
- Os estudantes de Direito são os mais actuantes e aqueles que querem lutar contra a Ditadura.
Como pode me fazer crer que seu filho não é um subversivo?
- Embora meu filho não faça parte de grupo algum de resistência, pois ele acredita nas leis, quer vencer a Ditadura, sim, mas através delas.
Acredito que o jovem tem o direito de lutar pelo bem do país.
- Bem do país?
O que acha que estamos fazendo?
- Desculpe senhor, mas não sei como responder.
Minha família toda, com excepção do meu filho, é formada por médicos e nos dedicamos a salvar vidas, nunca nos preocupamos com política.
- Pois deviam.
Se soubessem o que acontecia no Brasil antes da revolução, veriam que ele estava dominado pela corrupção e pelos desmandos.
Com a revolução, não, ao contrário, temos um projecto para o país.
Estamos construindo estradas para unir o Norte e o Nordeste ao resto do país.
Estamos construindo hidroeléctricas que trarão a soberania em energia.
A senhora sabe quantos analfabetos existem no Brasil?
- Não.
- Pois são muitos, milhares.
Pessoas que não tiveram a oportunidade de ter em suas mãos uma cartilha, muito menos um professor.
Pensando nisso, instituímos o Mobral e, agora, em centenas de salas espalhadas por todo o país, estão dando a oportunidade para que essas pessoas possam aprender a ler.
A senhora sabe quantos tiveram de abandonar os estudos por vários motivos?
- Não.
- São milhares. Por isso, criamos o Madureza, que permite às pessoas retornarem aos estudos e se formarem.
Estamos criando centenas de escolas e hospitais.
Como pode ver, a Revolução está fazendo tudo isso e vai fazer muito mais:
na reforma agrária dando terras e trabalho para os agricultores; moradias que estão sendo compradas por um sistema de habitação.
O mais importante: ninguém poderá dizer, jamais, que houve ou há corrupção ou desvio do bem público, pois o militar tem formação cívica e moral.
Ele sabe que o roubo não deve constar de seu dicionário.
A senhora talvez não se lembre, mas, quando tomamos o poder, a inflação estava galopante e o Presidente se aproximava cada vez mais, dos comunistas.
Se não tivéssemos tido aquela atitude, o Brasil seria uma Ditadura, sim, mas comunista e aí sim, a senhora saberia o que é repressão.
Como pode ver, estamos no caminho certo para colocar o Brasil, com toda sua grandeza, no caminho adequado.
- Porém, não temos liberdade.
- A senhora viu alguém do povo reclamando?
Claro que não!
Hoje eles têm trabalho, escola e bom atendimento na saúde e comida em sua mesa! O povo está feliz!
Somente estão descontentes aqueles que querem transformar este país em uma ditadura comunista! Eles, sim, são bandidos!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 24, 2017 8:52 pm

Assaltam bancos, cometem sequestros, matam nossos soldados e atiram bombas em nossos quartéis!
São bandidos, denominando-se de salvadores da pátria.
Salvadores somos nós e não se preocupe, pois, na hora certa, devolveremos o país aos civis.
Tomara que eles não coloquem a perder tudo o que conquistamos!
- Nunca parei para pensar a esse respeito, pois, como já lhe disse, me preocupo em salvar vidas, mas, diante de tudo o que disse, vou começar a prestar atenção.
Porém, não estou aqui para discutir política, estou aqui por causa dos nossos filhos.
Preciso saber se estão bem.
Não posso acreditar que o senhor não se preocupa com o Júlio! Ele é seu filho!
- Quando criança, ele dizia que, ao crescer, seria marinheiro.
Para mim, aquilo era motivo de orgulho, pois assim como sua família é composta por médicos, a minha sempre foi formada por militares.
Por esse motivo, sempre que podia eu o levava comigo.
Ele ficava encantado dentro de um navio.
Depois, quando cresceu e chegou a hora de ir para a marinha, negou-se e disse-me que queria ser advogado para poder me derrotar e à Revolução.
O que a senhora queria que eu fizesse?
Ele, assim como todos os outros subversivos, se transformou em um bandido!
Não posso nem quero aceitar.
Hoje, por causa da sua mãe, ele continua morando na minha casa, comendo da minha comida e frequentando a Faculdade, apoiado por mim.
Porém é só isso!
Não quero chamá-lo de filho nem quero que me chame de pai!
- Preciso ajudar o meu filho!
Por isso, imploro-lhe que me ajude a descobrir onde ele está e como posso ajudá-lo!
Por favor...
- Já que a senhora me garante que seu filho não faz parte de grupo algum, vou tentar descobrir.
Espere um momento, por favor.
Voltou-se para um telefone que estava sobre a mesa e perguntou:
- Como é o nome do seu filho e da moça que está com eles?
- Danilo de Albuquerque e Souza.
Sei que o nome da moça é Diva, mas não sei o seu sobrenome.
- Assim será difícil encontrá-la, caso esteja presa, mas tentarei saber se seu filho está preso em alguma dependência do SNI.
Discou um número, depois outro e assim fez por seis vezes perguntando por Danilo, Júlio e Diva.
Depois que terminou de falar, sob os olhos atentos de Luana, desligou o telefone e disse:
- Eles não estão em lugar algum, posso lhe garantir que eles não foram presos.
Por enquanto, a senhora pode ficar tranquila.
Luana respirou fundo.
Em seu semblante, ele pôde notar que ela estava em paz.
Sabia que eles deveriam estar a caminho da fazenda.
- Obrigada, senhor.
Não pode imaginar como essa notícia me deixa feliz.
- A senhora sabe de algum lugar onde eles possam estar?
- Não, senhor, mas deve convir que, mesmo que soubesse, eu não diria.
Estamos falando dos nossos filhos.
- A senhora tem razão, mas devo lhe dizer que, se não estão presos, estão escondidos em algum lugar e que continuarão sendo procurados.
Não importa onde se encontram, serão achados.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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