O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 8:47 pm

Sei que gostarão muito mais do almoço.
Marcela cozinha muito bem.
Eu só sei fazer doces.
A comida fica por conta dela.
- Estou curioso para que a hora do almoço chegue.
Danilo olhou outra vez em direcção ao morro e perguntou.
- Como poderemos ir até o morro das cruzes, vovô, parece ser longe para se ir a pé?
- Aqui na fazenda nenhum lugar é longe.
Todos andam a pé, mas, se quiserem, podem ir de charrete ou no Trovador.
- Quem é Trovador?
- Um cavalo negro, forte e imponente que também faz parte da história da família.
- Por que está dizendo isso?
- Meus avós tinham um cavalo chamado Trovador.
Antes de morrer, deixou um potrinho que cresceu e teve outro Trovador.
Assim foi até aqui.
Todos eles tiveram sempre o mesmo nome.
- Gostaria de conhecer esse cavalo, mas não posso montá-lo, vovô.
- Por que não, Danilo?
- Nunca aprendi a cavalgar e só vejo cavalos no cinema ou na televisão.
- Agora vai ter a oportunidade de aprender.
Sei que, depois que aprender, nunca mais vai querer andar de carro.
- Será, vovô? - Danilo perguntou, rindo.
O avô também riu.
Danilo voltou a olhar para o morro e perguntou:
- Por que existem tantas cruzes lá no morro?
Naquele tempo não havia cemitério?
- Havia na cidade, mas os meios de locomoção eram precários, por isso os fazendeiros enterravam seus mortos na própria fazenda.
- Todos foram enterrados aqui?
- Sim, todos, até os escravos.
- Havia escravos aqui na fazenda?
- Sim, muitos.
Algumas famílias que ainda moram aqui são descendentes deles.
Você ainda vai conhecer toda a história.
Minha mãe foi a única que morreu no Rio de Janeiro.
Os outros morreram aqui mesmo.
- Sua mãe morreu no Rio de Janeiro?
- Sim, e foi trazida para cá, mas agora não é hora para isso.
Olhou para Júlio e Diva, que acompanhavam a conversa e perguntou:
- Algum de vocês sabe andar a cavalo?
Os dois, com a cabeça, disseram que não.
Ele sorriu e disse:
- Sendo assim, acho que terão de ir mesmo, na charrete.
- Receio que sim, vovô, mas não faz mal, outra hora, aprenderemos a andar a cavalo.
Quero conhecer esse Trovador.
Vamos aproveitar para ir olhando a fazenda.
Ontem, quando chegamos, estava escuro e não deu para apreciar as belezas daqui.
- Façam isso.
A charrete está em frente ao estábulo.
Sigam por esse caminho e chegarão lá.
Trovador também está, poderão vê-lo.
Desceram os degraus e caminharam em direcção ao estábulo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:51 pm

Marcela, depois que serviu o café, entrou na cozinha.
Estava tremendo e seu coração batia acelerado.
Enquanto lavava a louça do café, pensava:
O que é isso que estou sentindo?
Por que fiquei tão nervosa quando vi aquele moço?
Ele é lindo.
Acho que estou apaixonada...
Estava tão distraída pensando que não viu quando Severina entrou e perguntou:
- Está tudo bem, Marcela?
Ela se voltou e respondeu:
- Sim, está tudo bem.
Por que está perguntando isso?
- Você está parecendo distraída.
Está pensando naquelas bobagens que sempre fala?
Que não pertence a este lugar, que vai ser rica porque já foi um dia?
Que merece se vestir com roupas bonitas e morar em uma mansão?
- No momento, não estou pensando isso, mas sabe que tenho certeza de que já fui rica.
A senhora é a única pessoa que não pode duvidar disso! - disse nervosa.
- Por que está dizendo isso?
- Não é a senhora que vive falando em reencarnação?
Se for verdade, eu posso ter sido rica em outra vida.
Já lhe contei várias vezes os sonhos que tenho.
Vejo-me com um vestido lindo, dançando em um salão muito iluminado e decorado com flores.
- Já me contou, sim.
Pode também ter sido rica, branca e bonita, mas se isso for verdade, para ter nascido negra e na situação em que nasceu, deve ter feito muito mal a algum negro ou negra.
Deve ter feito muita maldade, Marcela.
- Por que está dizendo isso?
- De acordo com o que aprendi, somos nos quem escolhemos como renasceremos.
Você nasceu negra.
- Não sou negra!
Sou mulata!
- Está bem, nasceu mulata e pobre, aqui nesta fazenda.
Embora isso tenha acontecido, nunca aceitou essa situação.
- Como posso aceitar viver nesta vida de pobreza e com esta cor?
Queria ser branca, linda, desfilar pelos salões com lindos vestidos.
- Isso que disse já nos mostra que, em outra vida, deve sim ter sido branca, rica e bonita.
Diz também que deve ter usado essas qualidades para prejudicar uma ou mais pessoas.
Deve ter usado sua posição para cometer algum crime.
Escolheu nascer assim, para sentir na pele o que fez outros sentirem.
- Não consigo aceitar que tenha escolhido esta vida!
Não posso ter feito isso!
- Mas fez.
Todos nós, antes de renascer, escolhemos a vida que julgamos ser melhor para a nossa evolução.
Depois, muitas vezes, quando isso acontece, não aceitamos e culpamos a Deus por nossos infortúnios.
É exactamente isso que aconteceu com você.
Um dia escolheu e hoje não aceita.
- É por isso que não consigo aceitar a sua religião.
Jamais teria escolhido esta vida!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:51 pm

- Não precisa aceitar apenas viva sua vida da maneira como ela é e procure ser feliz.
- Como posso ser feliz vivendo nesta miséria?
- Depende de como vai aceitar a vida, pois ela está aí e não adianta ficar sofrendo.
Ao contrário, deve lutar para melhorar através do estudo e da vontade de vencer.
Ficar reclamando do jeito que está fazendo não vai adiantar e não vai mudar.
- Acha que não quero mudar?
- Sei que quer, mas sei, também, que nada faz para que isso aconteça.
Fica o tempo todo pelos cantos, reclamando, sem se interessar em estudar e ter uma profissão e, assim, conseguir uma vida melhor.
- Acha que vou perder meu tempo estudando?
Quero me casar com um homem rico!
- É isso que toda mulher quer, mas nem sempre acontece.
- Pois, comigo, vai acontecer!
Você vai ver Severina!
Vou ser rica e ter tudo com o que sempre sonhei!
Severina riu e saiu da cozinha.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:51 pm

A CAMINHO DO MORRO DAS CRUZES
Danilo e os amigos saíram e seguiram pelo caminho que o bisavô havia lhes mostrado.
Estavam encantados com a beleza do lugar.
Olharam no horizonte e viram as montanhas com um matiz de verde que pintor algum seria capaz de reproduzir.
Passaram por várias casas dos empregados da fazenda.
Estavam nos mesmos lugares, só que, agora, não eram mais de madeira.
Foram reformadas e trocadas por alvenaria.
Chegaram ao estábulo.
A charrete estava em frente.
Aproximaram-se e um senhor negro, sorridente, disse:
- Bom dia, moços, estão bem?
- Estamos, sim, bom dia.
Sou Danilo, bisneto do senhor Felipe.
Queríamos ir até o morro das cruzes com a charrete.
Qual é o seu nome?
- Celestino. Nasci aqui nesta fazenda.
- Muito prazer, Celestino.
O homem sorriu e disse:
- Espere um pouco, vou atrelar o cavalo.
- Qual, o Trovador?
- Não, ele é só para montaria.
- Onde está?
Estou curioso para conhecê-lo.
Pelo que meu bisavô disse, os antepassados dele também fazem parte da história da família.
- É verdade, moço.
Todos os que vieram antes dele deixaram um potrinho.
Este aqui já tem um.
- Então a fazenda já tem dois herdeiros?
- Tem sim.
O moço quer ver o Trovador?
- Quero.
- Olhe lá no pasto, ele está correndo.
Olharam para o pasto e viram um cavalo imponente, lindo, que corria.
Todos ficaram encantados com o porte dele.
- Como eu gostaria de saber cavalgar.
- O moço não sabe?
- Não, nasci na cidade.
- Se o moço quiser, eu posso ensinar.
- O senhor faria isso?
- É só o moço querer.
- Quero, sim, mas agora vamos até o morro das cruzes.
O homem atrelou a charrete e ficou olhando para eles, que ficaram parados.
Um olhou para o outro.
O homem entendeu e perguntou:
- Ninguém sabe dirigir a charrete?
- Infelizmente, não. Poderia nos ensinar?
- Claro que sim, não é difícil.
Com paciência, ele deu as instruções.
Danilo ficou encarregado de dirigir a charrete.
Subiram e seguiram as instruções do homem para que pudessem chegar ao morro.
A estrada que seguiram era estreita, mas a charrete seguiu sem problema.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:51 pm

Em dado momento, o cavalo que puxava a charrete parou.
Eles estranharam.
Danilo fez tudo o que Celestino havia ensinado, mas não teve jeito, o cavalo não saía do lugar.
Desceram da charrete.
Enquanto Danilo tentava fazer o cavalo andar, Diva andou alguns passos e percebeu que logo abaixo de onde estavam tinha um riacho.
Eufórica, disse:
- Olhem, lá embaixo tem um rio!
Os outros, ao ouvi-la, ficaram curiosos e foram ao seu encontro.
Júlio, ao ver o riacho, disse:
- Isso não é um rio, Diva, é um riacho!
- Será que tem peixe?
- Só saberemos se formos até lá.
- Mas e as cruzes, Danilo?
- Não sabemos por quanto tempo teremos de ficar aqui, iremos outra hora até o morro das cruzes.
Agora, quero ver de perto o riacho.
Concordaram e desceram o morro, chegando ao riacho.
Ficaram encantados com a água, muito limpa, que corria mansa. Diva gritou:
- Tem peixe, sim!
Eles também viram pequenos peixes que nadavam despreocupados.
- Vou conversar com o Celestino, ele deve ter varas.
Depois, poderemos vir até aqui e pescar.
Tenho certeza de que Severina não vai se importar de preparar para que possamos comer.
Sentaram-se à margem do rio e colocaram os pés dentro da água.
Danilo perguntou:
- O que estão achando da vida no campo?
Diva suspirou fundo e respondeu:
- Tudo aqui respira tranquilidade e saudade.
- Saudade, Diva? Do quê?
- Não sei Júlio.
Parece que aqui o tempo não passou.
É tudo tão diferente e, ao mesmo tempo, parece tão conhecido.
Olhando para este pequeno rio, sinto que já estive aqui e que já me banhei nas suas águas.
- De onde tirou essa ideia?
- Não sei explicar, apenas sinto.
Júlio levantou-se e começou a caminhar na margem.
De repente, parou e disse:
- Sabem o que estou com vontade de fazer?
- Não, o quê?
- Fazer barquinhos de papel e colocá-los aqui na água.
Danilo começou a rir:
- O que é isso, Júlio, voltou a ser criança?
- Não sei Danilo, mas não seria legal ver os barquinhos deslizando na água?
- Não adianta negar, você está triste por não ter entrado na marinha, pois sabe que o seu maior desejo é ser marinheiro.
- Não posso negar, mas me recuso a pertencer às Forças Armadas enquanto continuarem com essa Ditadura sem propósito.
- Está bem, depois voltaremos com jornais e faremos barquinhos.
Sabe que também estou com vontade de fazer isso?
Podemos até apostar corridas, o que acha?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:52 pm

- Acho legal, mas garanto que vou ganhar Danilo!
- Isso, vamos ver!
Estavam conversando descontraídos, quem os visse, não imaginariam o que estava acontecendo e por que estavam lá.
De onde estavam, podiam ver o morro.
Danilo olhou para o alto e disse:
- Estive conversando com meu avô, ele disse que aquelas cruzes pertencem aos meus antepassados.
Disse também que vai me contar a história.
- Você tem curiosidade, Danilo?
- Nunca tive, mas agora tenho.
Só de pensar que pessoas viveram aqui antes de mim e tiveram suas histórias.
- A história da família é importante, mas o mais importante é sabermos por quanto tempo teremos de ficar aqui.
Será que não seremos encontrados?
- Acho difícil alguém nos encontrar aqui, mas tem razão, Júlio, não podemos ficar por muito tempo, precisamos assistir às aulas.
- Que aulas, Danilo?
- Não estou entendendo você, Júlio!
Não podemos ficar afastados por muito tempo das aulas.
- Nunca mais vai voltar à Faculdade, Danilo.
- Como não?
- Você ainda não entendeu o que se passou, não é, Danilo?
Hoje, você é procurado e, se tentar voltar para a Faculdade, será preso.
Ao ouvir aquilo, Danilo se desesperou:
- Isso não pode estar acontecendo comigo!
Nunca quis fazer parte de grupo algum!
Quero continuar meus estudos, quero ser advogado!
- Sei disso, mas até provar, terá de ficar escondido aqui ou em qualquer outro lugar.
- O que está acontecendo com você não é justo, Danilo.
Eu e o Júlio escolhemos o nosso caminho, mas você, não...
- Não vou ficar aqui sem nada fazer!
Preciso voltar e provar que não tenho nada a ver com tudo isso!
- Se quiser, pode voltar, mas garanto que ninguém da Ditadura vai querer saber das suas verdades.
Assim que o encontrarem, será preso e nada do que disser será ouvido.
- Isso não pode estar acontecendo, não pode!
- Danilo, lembra-se do que seu bisavô disse?
- O quê, Diva?
- Ele não disse que estava esperando a nossa chegada?
- Sim, mas o que tem a ver com o que estamos falando?
- Se o que ele disse é verdade, deve existir uma razão para estarmos aqui e tudo o que aconteceu foi somente para que viéssemos.
- Meu avô está velho e vive do passado.
Quero conhecer a história da minha família, mas isso não quer dizer que vou ficar aqui, parado, sem nada fazer!
- Se levarmos em conta o que sua tia e ele disseram e se já tivemos outra vida, não poderíamos arriscar e dizer que já vivemos aqui?
- Pelo amor de Deus, Diva!
Não venha com essa conversa!
Estou preocupado demais para ficar pensando nessas bobagens!
Preciso voltar, não só à Faculdade, mas a minha vida também!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:52 pm

Não quero me preocupar com vidas passadas, se é que realmente existem, preciso me preocupar com o aqui e o agora que, da maneira como está, não pode continuar!
Preciso viver o presente, não o passado!
- Tem razão, Danilo, mas, por enquanto, não temos o que fazer.
Por isso, sugiro que aproveitemos as nossas férias.
Não vale a pena desperdiçar um lugar bonito como este com discussões.
Danilo, que estava muito nervoso, olhou para Júlio e rindo, disse:
- Você é mesmo um palhaço.
- Palhaço, por quê?
- Para você, parece que nada está acontecendo.
Está encarando toda essa situação como se fosse normal!
Não está normal, Júlio!
Estamos perdendo a nossa vida!
- Está bem, mas o que pode fazer a respeito?
Danilo pensou um pouco e disse:
- Nada... não temos o que fazer...
- Está vendo.
Eu e meu pai, apesar de agora termos nossas diferenças, quando eu era criança, conversávamos muito.
Ele sempre me dizia que uma das estratégias militares é:
quando a situação está difícil ou nos encontrarmos perdidos em uma floresta ou na vida, devemos parar e ficar esperando, pois a solução, de um momento para outro, surgirá.
Portanto, vamos voltar ao nosso plano original, também estou curioso para ver as cruzes de perto.
Tudo isso é tão diferente, jamais imaginei que existisse um lugar onde as pessoas foram enterradas em suas próprias terras.
- Tem razão, Júlio, vamos até o morro.
Voltaram para o alto, subiram na charrete e seguiram em direcção ao morro.
Danilo e os amigos, finalmente, chegaram ao alto do morro.
Desceram da charrete e se aproximaram das cruzes.
Embora a fazenda estivesse um tanto abandonada, as cruzes estavam pintadas de azul, com os nomes em branco.
Danilo olhou e disse:
- Parece que o meu avô não se preocupa com a fazenda, mas com as cruzes, sim.
- É mesmo. Elas foram pintadas há pouco tempo.
- É isso que estou querendo dizer, Diva.
Começaram a olhar uma por uma.
Júlio parou diante da cruz em que estava escrito o nome Manequinho.
Sem entender por que, seu corpo estremeceu.
Ficou olhando por um tempo, depois, disse:
- Esse túmulo é pequeno, deve ser de criança.
Os outros olharam e confirmaram.
Júlio continuou:
- Quem terá sido esta criança?
- Não sei, mas o bisavô disse que vai nos contar.
Olharam todos os nomes e cada um ficou imaginando como seriam as pessoas que estavam enterradas lá.
Diva, ao olhar para o túmulo de Divina, estremeceu, sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo.
Assustada, disse:
- Nossa, estou toda arrepiada! Por que será?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:52 pm

- Está impressionada por ver tantos túmulos em lugar que não é costumeiro.
Todos fazem parte da minha família, viveram antes de nós e tiveram suas histórias.
Estou curioso para saber.
- Eles viveram no século passado, não foi, Danilo?
- Nunca me interessei em saber da história deles, mas o que sei foi meu pai quem contou.
Meu tataravô veio de Portugal com a mulher, um filho, uma filha e uma amiga da família.
Construiu esta fazenda e mandou vir móveis e decoração da Europa.
Como eles terão sido? Olhe este aqui é de Rosa Maria, meu bisavô disse que foi sua avó e, que junto com os outros, sempre lutou contra o preconceito e as injustiças.
Estou arrependido por nunca ter me interessado por essa história.
- Agora terá todo o tempo do mundo para conhecer a história de sua família.
- Tem razão, Diva.
Jamais imaginei que isso pudesse acontecer.
Tinha tantos planos e, agora, de um momento para outro, tudo terminou.
Não sei por quanto tempo teremos de ficar aqui, sem que eu possa terminar meus estudos e continuar com os meus planos.
Por que isso tinha de acontecer?
Por que eu tive de ser envolvido em algo que nunca quis?
- Não sei, mas lembra-se do que sua tia disse Danilo?
Não será coisa de reencarnação?
- Lá vem você com essa conversa outra vez, Diva?
- Por que é tão incrédulo Júlio?
Você não ouviu o que ela disse e da maneira como falou, se tivesse ouvido, pensaria diferente, ou ao menos pensaria sobre o assunto.
Ela foi muito convincente.
- Não consigo entender o que está acontecendo.
Com tantos problemas, você vem com essas ideias malucas!
- Podem ser malucas, mas, como não temos o que fazer, por que não pensarmos a respeito do espírito e da vida eterna?
- Estou estranhando você, Diva.
Sabe muito bem que essa história de religião não passa da esperteza de alguns que, com ela, dominam e oprimem um povo.
Toda e qualquer religião não passa de enganação!
Uma maneira de enganar os pobres com um céu depois da morte, para que eles não lutem pelo presente!
A religião domina aqueles que menos deveriam deixar-se dominar!
- Não precisa ficar nervoso, Júlio!
Ela está só conversando.
- Essa conversa burguesa me deixa nervoso!
Com tudo o que está acontecendo, com o Brasil sendo dominado pela direita, como você, Diva, pode desviar o pensamento e ficar dando bola para esse tipo de conversa?
- Pois eu acho que essa conversa de esquerda e direita é que não nos leva a nada! Olhe onde estamos por acreditar em uma luta inglória!
- Inglória, por quê?
- Com muita luta, talvez, eu disse talvez, consigamos vencer a Ditadura e trazer a democracia de volta.
Quem nos garante que, assim como aconteceu no passado, aqueles que vierem depois de nós não se deixarão dominar pela ganância, pelo poder e queiram promover outra Ditadura?
- Está louca, Diva!
Acha que qualquer um dos nossos companheiros seria capaz de cometer uma traição como essa?
- Não sei o porquê desse espanto.
Sabe que já aconteceu.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:52 pm

Quando terminou a Ditadura Vargas, muitos daqueles que lutaram contra ela aproximaram-se dos poderosos, tomaram parte de corrupção, desviaram o dinheiro público e fizeram de tudo para continuar no poder.
- Não aceito uma coisa como essa, Diva!
Você sabe quantos de nossos amigos têm sido presos!
Não acredito que outros poderiam querer o mal para o Brasil!
- Eu acredito, por isso, estou repensando o que fiz até aqui.
Por causa dessa luta, estou longe da minha família, não vou poder terminar meus estudos.
Não sei se valeu a pena, Júlio...
- Prefere ser dominada por uma religião qualquer?
- Você disse que a religião é pregada por alguns que querem dominar o povo, o que me diz dos governantes, sejam de esquerda ou de direita, o que eles fazem?
Dominam o povo e cada um procura ter sempre mais dinheiro e poder, não é mesmo?
- Existem aqueles que pensam, realmente, no bem-estar do povo.
- Pode ser, mas não me deixo mais iludir, Júlio.
Quero que tudo isso termine para que eu possa retomar minha vida, sem me preocupar com quem está governando o país.
Só quero ser feliz...
- Viemos aqui para ver as cruzes.
Este lugar é sagrado, aqui estão enterradas pessoas que foram meus antepassados.
Não deveríamos discutir aqui.
Este lugar é de paz. Vamos embora?
- Sim, tem razão, Danilo.
Este não é o lugar nem a hora.
Vamos embora.
- Vamos. Estou preocupado.
Precisamos pensar em uma maneira de avisar aos meus pais que chegamos e estamos bem.
- Como vamos fazer isso?
- Não sei, mas precisamos descobrir uma maneira.
Tornaram a subir na charrete e foram para a casa grande.
Enquanto a charrete andava, eles iam olhando tudo.
Ao passarem pela lavoura, Danilo viu como estava abandonada e poucas eram as casas ocupadas por trabalhadores.
A maioria estava abandonada.
Ao passarem pelo galpão onde funcionou a escola, Júlio disse:
- Pare Danilo, vamos descer.
Danilo estranhou aquele pedido, mas parou a charrete.
Desceram. Júlio foi o primeiro a entrar.
Ficou olhando para todos os lados, depois disse:
- Que coisa estranha, parece que já estive neste lugar...
Danilo e Diva ficaram espantados.
Júlio estava transfigurado.
Branco como papel teve de se encostar em uma parede para não cair.
- O que está acontecendo, Júlio?
- Não sei, estou tonto.
- Deve ser fome, vamos para casa, o almoço deve estar pronto.
- Deve ser isso... Diva...
Voltaram para a charrete e foram em direcção a casa.
Júlio seguiu calado.
Ele não entendia aquela sensação que teve.
Podia jurar que já estivera naquela escola, mas isso seria impossível.
Realmente, quando estavam se aproximando, sentiram um cheiro muito bom de comida.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:53 pm

Apressaram-se.
O bisavô continuava sentado na varanda e os recebeu com um sorriso:
- Demoraram. Conheceram alguns lugares da fazenda?
- Sim, vovô.
Apesar de faltar muito ainda.
Ela é imensa!
- É sim e já produziu muito café.
- Notei que há várias casas de empregados. Existiam muitos?
- Sim, muitos, só que não eram empregados e, sim, escravos.
A plantação de café era enorme e precisava de muitos braços.
- Por que está tudo tão abandonado?
- Depois que meu pai morreu, fiquei aqui na fazenda.
Conheci a Eulália, filha de um fazendeiro vizinho, nos casamos.
Éramos muito jovens.
Eu tinha dezoito anos e ela dezasseis, fomos muito felizes.
Tivemos dois filhos.
Cresceram e foram para a cidade.
A ideia era que estudassem e voltassem para cá.
Mas isso não aconteceu, deixaram-se seduzir pelo conforto da cidade e continuaram lá.
No princípio, vinham sempre, mas com o tempo as visitas foram rareando.
Eulália também morreu muito cedo, com quarenta e cinco anos, depois, meus filhos também morreram.
Mesmo assim, continuei aqui.
Veio a crise do café e perdi tudo o que havia plantado.
Só não precisei vender a fazenda, porque a nossa fortuna era antiga e tinha dinheiro guardado.
Esta fazenda é a minha vida.
Enquanto eu conseguia montar o Trovador, corria tudo por aí e cuidava, mas depois, com a idade, foi ficando muito difícil e, hoje, embora minha cabeça esteja boa e sei o que falo meu corpo e, principalmente minha pernas, não acompanham o meu pensamento.
Só saio desta casa algumas vezes e sempre na charrete.
Depois vieram seus pais, e agora, você é o único descendente homem que leva o nosso nome.
Sei que, dificilmente, virá a cuidar de tudo por aqui.
Sei que meus netos estão esperando que eu morra para venderem a minha fazenda.
Só posso agradecer por terem permitido que eu vivesse aqui.
Quando penso nisso, fico triste por saber que ela vai mudar de dono, que deixará de pertencer a nossa família.
Danilo lembrou-se da conversa que tivera com Rodolfo e Felipe.
Sabia que intenção do pai e do tio era de vender a fazenda, assim que o bisavô morresse, mas mentiu:
- Não, vovô, ela será sempre nossa, nem que, para isso, tenhamos de contratar um bom capataz.
O velho sorriu.
- Obrigado por tentar me confortar, mas o tempo passa, a vida e os costumes mudam.
Depois que eu morrer não terá mais importância.
Vou morar em outra fazenda lá no céu.
Só posso agradecer por terem me deixado aqui até o fim.
Agora está na hora de almoçar.
Vocês são jovens, devem estar com fome.
Danilo, intimamente, agradeceu o bisavô por haver mudado de assunto.
- Estamos, sim, e o cheiro está muito bom.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:53 pm

- Entrem, a Severina vai servir vocês.
Desculpem, mas eu já almocei.
Sabe como é velho tem de se alimentar na hora certa.
- Não se preocupe com isso, vovô.
Nós nos distraímos lá no morro e, depois, no galpão que serviu de escola.
- Sim, era uma escola, minha avó não se conformava com o facto de os escravos não saberem ler e mandou construir a escola.
Nela, todos aprenderam a ler inclusive o meu pai e o Manequinho, seu amiguinho escravo, que está enterrado lá no morro.
- Seu pai tinha um amigo escravo?
- Sim e eram muito amigos.
Sempre que meu pai me falava sobre ele, seus olhos enchiam-se de lágrimas.
Júlio, calado, prestava atenção na conversa que Danilo estava tendo com o bisavô e pensava:
O que está acontecendo comigo?
Que sensação foi aquela que senti.
Por que ao ouvir o que ele está contando me parece tão conhecida?
Sem que percebesse o que Júlio pensava, o velho disse:
- Agora, entrem.
A comida está muito boa.
Depois, conversaremos mais.
Entraram. A mesa estava colocada com pratos de porcelana fina.
Eles se admiraram.
Diva pegou um dos pratos na mão e disse, entusiasmada:
- Estes pratos são lindos!
Parece que são muito antigos!
- São, sim, vieram de Portugal.
Faz muito tempo.
Foram usados muito pouco, pois isso só acontecia em grandes festas ou comemorações.
Depois eram embalados e guardados.
- Está dizendo que são do tempo do Império, quando meus antepassados viveram aqui, Severina?
- Sim, a avó do senhor Felipe foi para Portugal visitar sua família e trouxe.
Ia ser usado no seu casamento.
- Ia? Por que ela não se casou?
- Essa é uma longa história, mais tarde seu bisavô deve lhe contar.
Agora está na hora de comerem.
Eles, desconfiando que nada mais seria dito, foram lavar as mãos e sentaram-se à mesa.
Ficaram esperando que a comida fosse servida.
Severina saiu e voltou logo depois acompanhada por Marcela, que trazia uma travessa com frango assado.
Colocou sobre a mesa e saiu, sob os olhos espantados de todos.
Não era para menos.
Marcela estava linda.
Com um vestido amarelo, diferente do que usava pela manhã, os cabelos presos por um laço de fita, também amarelo e os lábios pintados em tom levemente vermelho.
Parecia uma pintura.
Danilo ficou olhando sem saber o que dizer.
Ela, percebendo o seu olhar de admiração, sorriu e saiu andando altiva e sensual.
Voltou várias vezes trazendo o restante da comida.
Sempre olhava para Danilo e sorria.
Diva estranhou a reacção de Danilo, mas se calou.
Júlio, ainda preocupado com o que tinha sentido na escola, não percebeu.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:53 pm

Terminaram de almoçar e foram para a varanda.
O bisavô, pensando no passado, olhava para o horizonte.
Danilo se aproximou e sentou-se ao seu lado:
- O senhor tinha razão, a comida estava maravilhosa.
Obrigado, vovô.
- Não lhe disse?
Não existe comida igual à preparada no campo.
Aqui os alimentos são puros.
- Severina disse que os pratos onde comemos só são usados em ocasiões especiais.
A nossa vinda aqui é uma ocasião especial?
- Claro que sim!
Esperei muito por este dia!
- O senhor, realmente, sabia que um dia nós viríamos?
- Sim, por isso não morri até agora.
Esta fazenda é nossa, Danilo, não pode passar para mãos estranhas.
- Já lhe disse que ela não vai ser vendida nunca!
Não se preocupe, vovô.
- Agora, acredito nisso.
Você está aqui e vai cuidar dela.
A fazenda Maria Luísa voltará a ser esplendorosa como um dia foi.
- Espere aí, vovô, meu lugar é na cidade, vou ser um advogado!
Nunca me imaginei sendo um fazendeiro.
Só estou aqui por um motivo muito forte que ainda não lhe contei, mas espero que seja por pouco tempo.
Preciso retomar a minha vida.
- Nosso espírito sabe o que necessita para evoluir.
Por isso, embora muitas vezes não entendamos a vida nos leva por caminhos nunca pensados.
Portanto, não importa qual seja o motivo que nos conduz ao nosso caminho.
Apesar de não acreditar nem aceitar, seu lugar é aqui.
Esta fazenda é sua por direito e deve mantê-la.
Eu sempre soube disso, desde o dia em que você nasceu.
- Minha não, vovô!
Ela pertence à família!
- Sim, mas você é quem vai fazer com que ela volte a brilhar.
Ela é sua.
- Não, vovô! Não posso!
Não era para eu estar aqui!
Só estou porque aconteceu algo que me obrigou a fugir, mas minha vida não é aqui!
Estou passando por um momento muito difícil!
- Está fugindo de quem?
- Da polícia.
- O que fez, matou, roubou?
- Não, vovô, não se trata disso, o problema é político.
Estou sendo acusado de ser subversivo.
- Você é?
- Não! Estudo Direito!
Quero ser advogado, para assim, sim, lutar contra essa Ditadura que tanto mal faz!
- Sendo assim, não se preocupe.
Já vivi muito, nesse tempo todo, muitos governantes passaram pelo Brasil.
Alguns bons, outros ruins que quiseram e transformaram o Brasil em Ditadura.
Os governantes passaram.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:53 pm

Porém, o Brasil, apesar deles, continua caminhando e nada impedirá que o desenvolvimento chegue.
A Ditadura também passará e outros virão.
Esperemos que sejam melhores e que não se deixem envolver nem por ganância nem por poder.
- Não imaginei que o senhor entendesse de política.
- Além de entender, em outros tempos, desejei participar, mas, ao ver como o mundo político é não aceitei, me afastei e só acompanhei pelo noticiário.
- Mesmo assim, vovô, não entendo por que isso aconteceu.
Nunca acreditei em guerrilha, ou qualquer outra luta que não fosse através da lei!
- Como já havia dito, não importa o motivo, você, agora, está no caminho certo.
- Caminho certo?
Como pode dizer isso, vovô?
Posso ser preso a qualquer momento!
- Não se preocupe, não será preso.
- Como pode dizer isso?
- Eu sei. Sempre que nos acontece algo ruim, pensamos ser o fim do mundo e que não há um caminho a seguir, mas, na realidade, isso não é verdade.
O caminho sempre surgirá e, na maioria das vezes, é o verdadeiro para o bem do nosso espírito.
Tudo está sempre certo.
Nada acontece que não tenha sido programado...
Severina, que ouvia a conversa e vendo o olhar atónito de Danilo, disse:
- Não fique preocupado, meu filho.
Ele, depois que passou a ler os livros da Doutrina que estudo, começou a acreditar em reencarnação e acha que você é a reencarnação do pai dele.
Por isso, disse que estava esperando por você e que a fazenda lhe pertence.
Isso é coisa de velho.
- Velho não, Severina!
Sabe que estou dizendo a verdade.
Pegue a fotografia do meu pai e verão que ele é o retrato vivo dele.
- Está bem, mas vai ficar para outra hora, agora, o senhor precisa se deitar.
São ordens médicas.
Logo mais o doutor Francisco vai estar aqui e se souber que não seguiu o que ele disse, vai ficar muito brabo.
- Tem razão, só estava esperando os meninos almoçarem.
Agora, se me derem licença, vou dormir por algumas horas.
Levantou-se e, amparado por Severina, foi para o seu quarto.
Eles ficaram sentados na varanda por algum tempo, depois Danilo disse:
- Não vamos ficar sentados aqui como se fôssemos o vovô.
Por que não vamos pescar?
Foram até Celestino que lhes deu varas, iscas e os acompanhou.
Sentaram-se à margem e, seguindo instruções de Celestino, jogaram as iscas e ficaram esperando pelos peixes.
A água corria mansa e límpida.
Em dado momento, Danilo disse:
- Vendo esta água correr assim tão devagar, tenho vontade de fazer uma coisa.
- O quê, Danilo?
- Aquilo que você falou Júlio!
Fazer barquinhos de jornal e colocá-los na água.
Eu fazia isso na piscina lá de casa.
- Que boa ideia, Danilo!
Também, quando criança, gostava muito de colocar os barquinhos na piscina, mas lá não tinha graça, porque a água é parada.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:54 pm

Aqui vai ser melhor e podemos apostar corrida!
O que acha!
- Vamos fazer isso.
Hoje, à noite, faremos uma porção de barquinhos e, amanhã, vamos apostar corrida.
Garanto que vou ganhar!
- Fique esperando, Danilo!
Fique esperando!
- Estão parecendo duas crianças! - Diva disse, rindo.
- Por que não?
Já que estamos presos aqui, vamos aproveitar o que de bom existe.
- Tem razão, Danilo.
Vamos aproveitar e eu vou ganhar a corrida!
Ficaram lá a tarde toda.
Pescaram alguns peixes e, felizes, voltaram para casa.
A ideia era pedir a Severina que fritasse os peixes para que eles pudessem comer.
Quando chegaram a casa, estavam descontraídos e felizes.
Danilo contou ao avô e à Severina sobre a bela tarde que haviam passado e da ideia de fazerem os barquinhos de jornal.
O avô olhou para Severina e sorriu.
- Não lhe disse que ele é o meu pai?
Severina ficou calada, mas pensativa.
- Por que está dizendo isso, vovô?
- Brincar com barquinhos de jornal era o brinquedo preferido do meu pai.
Muitas vezes, eu e ele apostamos corrida. Ele brincava com as crianças escravas da fazenda, inclusive com Manequinho.
- Todas as crianças gostam de fazer barquinhos de jornal.
Isso não quer dizer que eu seja a reencarnação do seu pai.
- Acho bom pararem com essa conversa.
Está na hora de prepararmos o jantar.
Danilo é melhor você me dar esses peixes para que eu possa fritá-los.
Danilo deu os peixes a Severina que entrou na casa.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 8:54 pm

A descoberta
Danilo, Júlio, Diva e o avô terminavam de comer os peixes que haviam sido pescados.
Apesar de tudo o que acontecia, estavam tranquilos.
Após o jantar, foram para a varanda.
Os jovens sentaram-se nos degraus da escada e o bisavô em sua poltrona.
A lua estava na fase crescente, o que tornava a noite clara e com muitas estrelas.
Tantas que Diva se admirou:
- Nunca vi tantas estrelas em minha vida nem imaginei que houvesse tantas!
- Tem razão, Diva, também nunca havia visto.
Essa é a desvantagem de se ter nascido na cidade.
Júlio, desde a visita ao galpão, estava pensativo e quase não conversava.
Danilo percebeu:
- O que você tem Júlio?
- Nada, por que está perguntando?
- Você está estranho, muito calado e não é assim.
- Só estou pensando em algumas coisas.
- Já sei, está preocupado com a nossa situação, mas acho que não precisa se preocupar, só quem sabe que estamos aqui são os meus pais e eles não contarão a ninguém.
Enquanto estivermos aqui, estaremos seguros.
- Quanto a isso não estou preocupado.
E outra coisa...
- Pode nos contar?
- Agora não.
Outra hora conversaremos.
Preciso pensar...
Calaram-se e continuaram apreciando aquele belo espectáculo da Natureza.
Alguns minutos depois, começaram a ouvir uma linda melodia tocada em um violino.
Todos se admiraram, Danilo perguntou:
- De onde vem essa música, vovô?
- São os ciganos.
- Ciganos? Aqui na fazenda?
- Sim, eles também fazem parte da história da família.
Chegaram hoje à tarde, quando estavam pescando.
Podem se preparar para participarem de uma linda festa.
- Os ciganos fazem parte da nossa história?
- Sim, meu pai nasceu em um acampamento cigano e minha avó ficou muito amiga deles.
Dali para frente, eles sempre aparecem por aqui e, quase sempre, neste mês. Naquele tempo, faziam festas grandiosas onde todos se misturavam ciganos e negros.
Comiam, bebiam e dançavam por vários dias.
Até hoje, todas as noites, comem, dançam e tocam ao redor da fogueira, fazem essas festas.
O bom mesmo é a grande festa que sempre fazem quando chegam.
Por isso, deixo alguns leitões e uma novilha para que sejam assados em uma espécie de forquilha, presos por um ferro, sobre uma fogueira.
Vocês vão adorar a festa.
Garanto que nunca viram igual.
- Está nos deixando ansiosos e curiosos, não, é?
- Tem razão, Danilo.
Estou ansiosa para conhecer os ciganos.
Sempre ouvi falar deles, mas nunca conversei ou ao menos estive perto de algum.
- E você, Júlio, não está curioso?
Júlio, que não prestava atenção à conversa, perguntou:
- Sobre o que estão falando?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:48 pm

- Sobre os ciganos, não está curioso para conhecê-los?
- Estou...
Danilo olhou para Diva, que também não estava entendendo o que estava se passando.
Perguntou:
- Seu pai nasceu em um acampamento cigano?
Como foi essa história, vovô?
- Não sei muito bem o que aconteceu.
Só sei que a mãe do meu pai, minha avó, não sei por qual motivo, foi parar em um acampamento cigano, onde ele nasceu.
Está quase na hora de eu me deitar.
Outro dia conversaremos sobre isso.
Voltaram a se calar e a ouvir a bela melodia.
Depois de algum tempo, Danilo perguntou:
- Será que podemos ir até o acampamento?
Nunca estivemos em um e não temos a menor ideia de como seja.
- Claro que podem.
Eles ficarão felizes.
São muito alegres e amigos.
- Tem certeza de que quer ir até lá, Danilo?
Sempre ouvi coisas horríveis sobre ciganos, dizem que eles mentem e roubam as pessoas, e também as crianças.
O avô, ao ouvir aquilo que Diva dizia, deu uma estrondosa gargalhada.
- Tudo isso é mentira, Diva!
Puro preconceito.
Embora não podemos negar que, como em toda sociedade, existem os bons e os maus.
Entretanto, a maioria deles são pessoas maravilhosas.
Vocês poderão constatar.
Sei que muitos, também, como aconteceu com meus filhos, se deixaram envolver pela modernidade, mas estes que estão aqui não.
Continuam como eram naquele tempo e seguem suas tradições.
Recusam-se a mudar.
Sei que se encantarão, não só com as danças e músicas, como também com eles.
Podem ir. Tenho a certeza de que gostarão.
Basta seguir o som do violino e chegarão lá.
- Então, vamos?
Júlio, ainda preocupado, respondeu:
- Eu não vou, Danilo, estou cansado.
- Cansado do que, Júlio?
- Não sei, acho que de nada fazer.
Começaram a rir.
Danilo perguntou:
- Como alguém pode ficar cansado de nada fazer?
- Não sei, estou com vontade de me deitar.
- Está bem.
Nós iremos, não é Diva?
- Sim. Estou muito curiosa.
- Eu vou acompanhar Júlio, também está na hora de me deitar.
Ajudado por Severina, o bisavô, entrou em casa.
Júlio seguiu atrás.
Danilo e Diva começaram a caminhar em direcção à música.
Marcela, que havia terminado de lavar a louça, viu quando eles saíram caminhando.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:48 pm

Pensou:
Será que eles estão namorando?
Acho que não, parece que são só amigos.
Mas se estiverem namorando, preciso tirar essa mulher do meu caminho.
Ele é a única maneira que tenho para sair deste lugar e viver onde mereço!
Sem que ninguém percebesse, ela foi atrás deles.
Continuaram caminhando, ouvindo a música.
Diva disse:
- Sabe Danilo, estou tão tranquila aqui.
Há momentos em que chego a pensar que ficaria nesta fazenda para o resto da minha vida.
- Aqui?
- Sim. Nunca pensei que pudesse me sentir tão bem.
Apesar de tudo o que estamos passando, estou feliz e tranquila.
Há muito tempo, não me sentia assim.
- E a sua luta, como fica?
- Estive pensando nisso também.
Não sei se valeu a pena eu ter lutado, me envolvido em algo que não terá fim.
- O que está dizendo?
Está arrependida de ter participado na luta?
- Acho que você tem razão quando diz que não adianta querer ganhar através das armas ou de mortes, que a luta deve ser através das leis.
Depois de tudo o que fiz, estou sendo procurada e, se for encontrada, poderei ser torturada e até perder a minha vida a troco do quê?
O Brasil sempre foi dominado pela corrupção.
O que nos leva a crer que, se o governo for outro, não acontecerá a mesma coisa?
Será que vale a pena eu perder minha vida?
Minha juventude?
- E eu, como acha que estou me sentindo?
Nunca acreditei em luta armada e fui envolvido, poderei, também, ser torturado e até morto por algo que nunca fiz e em que não acredito.
Mas acho que não temos com o que nos preocupar, aqui ninguém nos encontrará.
Enquanto estivermos na fazenda, estaremos protegidos.
Agora, vamos esquecer tudo isso e aproveitar este tempo de paz e só nos preocuparmos quando chegar a hora.
- Tem razão.
Vamos aproveitar esta paz que existe aqui.
Chegaram ao acampamento.
Como o bisavô havia dito, realmente havia uma fogueira e os ciganos estavam em volta dela, tomando algo que parecia ser sopa.
Aproximaram-se.
Um homem que tocava o violino, ao vê-los, parou de tocar e se aproximou:
- Boa noite. Vieram nos visitar?
- Sim, meu nome é Danilo, sou bisneto do senhor Felipe e ele disse que poderíamos vir, pois seríamos bem recebidos.
Esta é Diva, minha amiga.
- Muito prazer!
Meu nome é Sergei!
- Estou feliz que estejam aqui.
Meu avô nos disse que a sua família fez parte da história da família.
Conhece a história?
- Sim, ela foi passada de geração a geração.
Sempre nos foi dito que, enquanto esta fazenda pertencesse a sua família, deveríamos vir aqui, nem que fosse uma vez por ano.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:48 pm

Sentem-se aqui ao redor da fogueira e tomem uma sopa connosco.
- Vamos nos sentar, mas terminamos de jantar.
Comeremos na festa que meu bisavô disse que farão.
Ele disse que gostam muito de festas.
- Sim, ele tem razão, gostamos de festas.
- Viemos atraídos pela música que estava tocando.
- Ela também faz parte da história e também foi passada por gerações.
Meu bisavô, que também se chamava Sergei, foi quem a compôs.
Dizem que foi para uma moça que, embora morasse aqui na fazenda, viveu muito tempo com eles e eram muito amigos.
- Não conheço a história, mas gostaria de conhecer.
- Não faltará ocasião.
Agora, preciso voltar ao meu violino. Podem apreciar.
Uma moça se aproximou.
Sergei disse:
- Esta é Zara, minha esposa.
Aquela que está junto a fogueira é Samara, minha filha.
- Muito prazer, senhora.
Desculpe meu atrevimento, mas é uma mulher muito bonita.
- Obrigada e desculpo seu atrevimento. - disse, rindo.
Agora, vamos ouvir a música do Sergei e dançar.
Olhou para Diva e perguntou:
- Você sabe dançar?
- Não! Nunca dancei, não tive tempo para aprender.
Estive envolvida em outras coisas.
- Que pena, perdeu muito nessa vida.
Agora vai nos ver dançar e sei que aprenderá e, antes de irmos embora, estará dançando como uma cigana.
- Não acredito nisso!
- Pois pode acreditar!
Basta deixar que a música a envolva e dançará sem perceber.
Sergei apresentou todos os ciganos e recomeçou a tocar. Logo, estavam dançando.
As mulheres trajavam vestidos longos e coloridos; os homens, calças apertadas, com uma fita que saía da cintura e caía pelo corpo.
Sem perceber, Danilo e Diva começaram a balançar o corpo ao som da música.
Marcela, sem que fosse vista, escondida, acompanhava tudo.
Uma das ciganas, chamada Zoraide, puxou Diva pela mão e começou a ensiná-la a dançar.
A princípio, ela não conseguiu e só dava alguns passos trémulos, mas, aos poucos, foi deixando se envolver e começou a dançar.
Danilo acompanhava a dança e ficou encantado.
O sorriso de Diva fez com que seu coração começasse a bater com mais força.
Após a dança, tomaram um chá oferecido por Sergei.
Depois, despediram-se e voltaram para casa.
Caminhavam conversando sobre os ciganos. Diva disse:
- Nunca me imaginei dançando, ainda mais em uma situação como esta Danilo.
Desde os meus quinze anos, comecei a me rebelar contra a Ditadura e, praticamente, não vivi a minha adolescência.
- Estou tendo a impressão de que você está arrependida do que fez.
- Não sei se estou arrependida, mas, com certeza, estou pensando muito a respeito.
Sinto que agora seja tarde, pois, se for presa, não conseguirei convencer os outros de que mudei de opinião.
- O jovem é fácil de ser envolvido.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 pm

- Você não foi Danilo.
Sei que também recebeu convites.
- Realmente aconteceu, mas nunca me deixei envolver.
Sempre achei inútil essa luta praticada por você e seus companheiros.
Não é assim que vamos conseguir trazer de volta a democracia.
Caminhavam por aquela pequena estrada de terra.
A lua estava alta e sua luz iluminava o caminho.
Em determinado momento, distraída, Diva pisou em um buraco, torceu o pé e quase caiu.
Danilo, instintivamente, segurou-a.
Constrangida, segurou-se nele.
Abraçados, ela levantou a cabeça, ia começar a rir, mas quando os olhos se encontraram, houve um momento mágico e, sem que percebessem, começaram a se beijar.
Quando se soltaram, olharam-se estupefactos.
Danilo perguntou:
- O que aconteceu aqui, Diva?
- Não sei, foi um impulso de momento.
- Acredita que foi só isso?
- Não sei o que dizer Danilo.
Somente que estou feliz por ter acontecido.
- Por mais que não entenda, não posso dizer o contrário.
Também estou feliz.
Desde a primeira vez que a vi lá em casa, percebi que algo diferente estava acontecendo.
Quando ia me deitar, mesmo durante o dia, não conseguia me esquecer dos seus olhos, do seu sorriso.
Depois, quando vínhamos para cá, no trem, sabendo o medo que sentia, para protegê-la, permanecemos muito tempo abraçados.
Esse sentimento ficou mais forte.
Acho que estou apaixonado por você.
- Está dizendo a verdade, Danilo?
- Sim, por que está duvidando, Diva?
- Não estou duvidando, somente não acredito que realmente está acontecendo.
Também, assim que o vi, fiquei encantada, mas nunca pensei que o mesmo acontecesse com você.
- Está dizendo que também gosta de mim?
- Sim e muito... mas...
- Mas, o quê, Diva?
- Não podemos pensar no futuro...
- Por que não?
- Embora estejamos vivendo neste paraíso, esqueceu-se de que estamos sendo procurados e que a qualquer momento poderemos ser presos...
- Não esqueci, mas, neste momento, estou muito feliz para pensar nisso.
Disse que estamos vivendo neste paraíso, vamos aproveitar e deixar as preocupações para quando chegar a hora.
Abraçaram-se e beijaram-se novamente, só que, desta vez, com vontade e amor.
Depois, seguiram caminhando pela pequena estrada, olhando o céu, a lua e aquela imensidão de estrelas.
Ouviram, ainda, a música que Sergei continuava a tocar.
Marcela, tomada de ódio e, ainda escondida, viu tudo e pensou:
Eles estão namorando, sim!
Isso não pode acontecer!
Preciso tirar essa mulher do meu caminho!
Ele é a única maneira que tenho de sair daqui e ocupar, neste mundo, o lugar que mereço!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 pm

Não posso permitir que ela me atrapalhe!
Danilo e Diva, felizes por terem, finalmente, assumido o amor que sentiam e alheios ao que pensava Marcela, chegaram a casa e, após mais um beijo, foram para seus quartos dormir.
Severina, que estava na janela de seu quarto ouvindo a melodia tocada no violino por Sergei, viu quando eles chegaram abraçados.
Sorriu e pensou:
Sabia que esses dois se gostavam... tomara que sejam felizes...
Antes de terminar de pensar, viu que Marcela se esgueirava e os seguia.
Preocupada, pensou:
O que essa menina está fazendo?
Por que está seguindo-os?
Sei que boa coisa ela não está pensando.
Preciso conversar com ela...
Preocupada, foi para sua cama e deitou-se.
Percebeu que seu quarto se enchia de luz.
Sorriu, pois sabia de quem se tratava.
Em poucos instantes, pai Joaquim apareceu e, sorrindo, disse:
- Boa noite, Severina.
Está tudo bem com você?
- Está, pai.
Ao que devo a sua visita?
- Estava com saudades. - disse rindo.
- Também estava, pois fazia muito tempo que o senhor não vinha me visitar.
- Estou com muito trabalho.
Faço parte de uma equipe de cura.
Tirei um tempinho para ir ver o sinhô, a Maria Luísa e o Tobias.
Aproveitei para dar uma passadinha por aqui e visitar você.
- Como eles estão?
- O sinhô terminou sua missão e voltou para casa, a Luísa e o Tobias estão passando por um momento muito difícil.
- É fácil de entender... perderam o filho...
- Sim, como é difícil a morte ser encarada de outra maneira, não é, Severina?
O dia em que todos aprenderem que a morte é somente um até logo e que um dia todos voltarão a se encontrar, o sofrimento será tão menor, não é?
- Tem razão, pai, mas isso ainda vai demorar muito para acontecer.
Para a maioria das pessoas, a morte é um fim.
Mas não foi para me dizer isso que veio até aqui.
O que está acontecendo, pai Joaquim?
- Você me conhece muito bem, não é, Severina?
- Sim, há quanto tempo estamos juntos na mesma jornada?
- Não sei Severina, perdi as contas.
Só sei que ainda temos um longo caminho a percorrer.
Ela riu e disse:
- Sei disso, ainda restam alguns do nosso grupo para resgatarmos...
- É por isso mesmo que estou aqui.
- O que está acontecendo?
- Está chegando a hora de passarem pelas mesmas provas de sempre.
Jerusa quer porque quer Tobias para ela.
Como sempre, não é?
- Sim, pai, e a Marcela também, acabei de vê-la seguindo Danilo e Diva quando voltavam abraçados do acampamento dos ciganos.
Acho que ela está tramando alguma coisa...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 pm

- Como disse, está chegando a hora.
- O que podemos fazer para impedir que tudo se repita pai?
- Sabe que não podemos fazer quase nada a não ser tentar conversar com elas.
- Quando vi a Marcela seguindo os dois, resolvi que amanhã vou conversar com ela.
Não sei se vai adiantar, mas vou tentar.
- Faça isso, Severina.
Precisamos tentar tudo o que estiver ao nosso alcance.
Enquanto fizer isso, voltarei para junto da Luísa e do Tobias.
A Matilde está ao lado deles, mas estão precisando de muita ajuda.
Por isso, ficarei ao lado deles, até que tudo termine.
Queira Deus que consigamos evitar que um mal maior aconteça e que tanto Jerusa como Marcela percam mais uma encarnação.
- Vamos tentar, pai Joaquim, vamos tentar...
Ele sorriu mais uma vez e desapareceu.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 pm

PLANO PERFEITO
Danilo se deitou.
Estava feliz por ter assumido seu amor por Diva.
Aos poucos e pensando nela, adormeceu.
A madrugada ia alta, quando, ao se voltar, sentiu que alguém estava deitado ao seu lado.
Julgando que fosse Diva, voltou-se, um pouco adormecido e com os olhos fechados, abraçou aquele corpo que se aconchegou a ele.
Beijaram-se com ardor.
Ao abrir os olhos, viu que quem estava ali era Marcela.
Levantou-se, nervoso:
- O que está fazendo aqui, Marcela?
Ela retirou o lençol que a cobria e, mostrando o corpo nu, disse, com ternura na voz:
- Estou aqui porque amo você e quero ser sua.
- Está maluca?
Saía daqui agora!
- Não vou sair, sei que, embora disfarçado, também me notou... acha que não percebi a maneira como me olhou?
- Claro que a olhei!
Você, além de ser muito bonita, se insinuou, mas isso não quer dizer que esteja interessado em você.
Amo outra!
- Não quero saber disso!
Você é meu e será para sempre!
Danilo se assustou com a expressão do rosto dela.
Disse:
- Não sabe o que está dizendo.
Está confundindo as coisas, é ainda uma criança.
Pensa que está apaixonada, mas na realidade não está.
Outros homens aparecerão na sua vida e você rirá deste tempo.
Vá embora, durma, que tudo isso passará.
Farei de conta que nada aconteceu.
Gosto da Diva e pretendo me casar com ela.
Para que isso aconteça, só falta resolvermos alguns problemas pelos quais estamos passando no momento, mas sei que tudo passará e poderemos ser felizes.
Vista-se e saía Marcela, vá dormir, esqueça-se do que se passou aqui, prometo que também esquecerei.
- Não quero outro homem, quero você!
Será que não entende isso?
- Não entendo e não quero entender, só quero que se vista e saia do meu quarto! - ele disse nervoso e fazendo um esforço tremendo para não gritar, pois não queria que ninguém da casa, muito menos Diva, a visse ali.
Ela continuou deitada, fazendo gestos insinuantes.
Ele, tomado de muita raiva, levantou-a, pegou o vestido que estava sobre a cama, jogou-o sobre ela e empurrou-a para a porta.
Precisou usar de muita força, mas, finalmente, conseguiu.
Assim que conseguiu colocá-la para fora, fechou a porta e respirou fundo.
- Nossa, o que foi isso que aconteceu aqui?
Essa moça está completamente louca!
Ela, do lado de fora, nua e tremendo de ódio, colocou o vestido e pensou:
Você vai me pagar por isso!
Pode não ficar comigo, mas também não ficará com ela nem que para isso seja preciso que eu a mate!
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 pm

Em silêncio, foi para casa.
Na manhã seguinte, Severina estava na cozinha, quando Marcela entrou para ajudá-la a preparar o café.
Assim que a viu, Severina percebeu que ela estava com os olhos vermelhos.
Perguntou:
- O que aconteceu, Marcela, esteve chorando?
Ela, procurando disfarçar, olhando para outro lado, respondeu:
- Não, ontem, um insecto entrou no meu olho e eu esfreguei e ficou assim.
- Está bem, Marcela.
Você mudou o pensamento em relação ao Danilo?
- Não estou entendendo o que está querendo dizer, Severina.
- Não se faça de boba, menina!
Sei que está interessada nele!
- Se sabe, por que está perguntando?
- Para que tire essa ideia de sua cabeça.
Ele gosta da Diva.
Vi quando voltavam abraçados do acampamento e vi você também.
O que estava fazendo seguindo-os?
O que pretendia?
- Não viu coisa alguma, deve ter sonhado Severina!
- Tomara que eu esteja sonhando.
Sabe que eles se gostam e que, quando isso acontece, ninguém consegue separar duas almas.
- Você é que pensa!
Ele vai se casar comigo e me levar embora deste lugar!
Pode ter certeza disso, Severina!
- Não vai, não, Marcela.
Ele pertence a outro mundo.
Além do mais, cuidado com o que está pretendendo fazer.
Já lhe disse muitas vezes que tudo o que fizermos de bem ou de mal sempre tem volta na mesma proporção.
Deixe que a vida se encarregue do seu destino, não queira tomá-lo em suas mãos.
- Não me venha com essa conversa!
Sei o que pensa e não me importo com aquilo que poderá me acontecer depois de morrer, quero viver o aqui e o agora!
Quero ser feliz e minha felicidade está nas mãos do Danilo!
- Ele não quer você, Marcela, ele quer a Diva!
- Não me importo, eu o quero e para mim, basta!
Vou ficar com ele nem que, para isso, tenha de cometer um crime!
- O que está dizendo?
- Isso que ouviu, mas vou repetir!
Vou ficar com ele nem que para isso tenha de cometer um crime, mas vou tirar essa mulher do meu caminho!
- Não pense assim, Marcela!
Não tem esse direito!
- Claro que tenho esse direito, não pertenço a este lugar e se o que diz for verdade, já fui muito rica e pertenci a um mundo diferente deste!
Quero voltar para ele!
Quero voltar a usar lindos vestidos e dançar em grandes salões!
Sei que já fiz isso e quero fazer novamente!
- Pense bem no que vai fazer Marcela.
Deus sempre nos dá novas chances para repararmos erros praticados.
Talvez, neste momento, ele esteja lhe dando uma nova chance.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:50 pm

Aproveite, não perca, novamente, uma encarnação.
- Não venha com essas besteiras, Severina!
Não quero viver em outra encarnação, quero viver e ser feliz nesta!
Diva acordou e estava feliz.
Olhou para o relógio que marcava seis horas e dez minutos.
Ainda na cama, pensou:
É muito cedo, mas estou feliz... gostei dele assim que o vi, mas não pensei que fosse correspondida... pena que não podemos pensar no futuro.
Por que fui me envolver em algo tão perigoso e em um sonho de liberdade tão difícil de ser alcançado?
O que será que vai nos acontecer?
Será que não seremos, mesmo, encontrados aqui?
Levantou-se, saiu e foi para a cozinha.
Encontrou Severina que, ao lado de Marcela, preparava o café.
Entrou, dizendo:
- Bom dia.
Elas se voltaram e, sorrindo, Severina respondeu:
- Bom dia. Dormiu bem?
- Sim, estou muito feliz!
- Isso é muito bom.
Existe algum motivo especial para isso?
Diva sorriu:
- Tem sim, descobri o amor...
Agora foi a vez de Severina sorrir:
- Isso é muito bom, o amor é a coisa mais importante da vida.
Marcela, que ouvia a conversa, embora estivesse com muita raiva, com a voz macia, disse:
- Também acho e estou feliz por você.
- Obrigada, Marcela.
Severina sabia que ela mentia, mas ficou calada.
Marcela, tentando disfarçar seu ódio, perguntou:
- Conheceram os ciganos?
- Sim, eles são adoráveis, Marcela.
- Tem razão, estão sempre felizes.
- É mesmo, Severina.
Por serem livres, não se preocupam com o governo.
Eles próprios se governam.
- É isso mesmo, Diva, é um povo livre.
Eles falaram da festa?
- Sim e parece que estão muito animados.
- Pode ter certeza que sim.
Eles gostam de festas e, aqui, são feitas com muita alegria.
- Apesar de estar feliz, estou preocupada, Severina.
- Preocupada com o quê, Diva?
- Amanhã, vai ter a festa dos ciganos, gostaria de ter um vestido bonito, mas com a pressa que saímos, não trouxe nenhum.
Ao ouvir aquilo, Marcela pensou rápido em algo e disse:
- Não precisa se preocupar com isso, Diva.
Tenho muitos vestidos, mas, se preferir, poderemos ir até a cidade para comprar um tecido.
À tarde, eu costurarei um para você.
- Você costura?
- Sim, e muito bem, não é, Severina?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:50 pm

- É verdade, Diva.
Ela costura todas as suas roupas, as minhas e as das mulheres dos empregados da fazenda.
Tem mãos de fada.
Marcela sorriu.
- Posso lhe fazer um vestido do tecido e do modelo que quiser.
- Acha que consegue aprontar para a festa?
- Sim, se sairmos agora cedo para comprarmos o tecido, amanhã a tarde estará pronto.
Diva pensou por um tempo e disse:
- Não vai dar...
- Não vai dar por que, Diva?
- Trouxemos pouco dinheiro e não posso gastar com o tecido.
- Não se preocupe com isso, Diva.
Dona Luana tem uma conta com senhor Salomão.
Pode ir até lá, compre o tecido, depois, quando ela vier, ela paga.
- Ela faz compras aqui?
- Sim e autorizou o senhor Salomão para que nos vendesse tudo do que precisássemos.
Ele vende e não se preocupa com o tempo que ela vai demorar para voltar.
Claro que não compramos à toa, mas o dia de hoje é especial.
Sei que ela não vai ficar brava.
- Será, Severina?
Não conheço muito bem a dona Luana.
- Por isso é que está preocupada.
Pode ir com a Marcela, compre o tecido que quiser e não se preocupe.
Os olhos de Diva brilharam.
Queria ficar muito bonita, naquela noite, para Danilo.
- Está bem, vou com você, Marcela.
Não será melhor esperarmos o Danilo se levantar, assim ele pode nos acompanhar.
- Não, Diva, se fizermos isso, vai demorar muito.
Não se preocupe, conduzo a charrete como ninguém, não é Severina?
Severina, preocupada com a conversa que havia tido com pai Joaquim e com Marcela, respondeu:
- Sei que conduz, sim, mas, como a Diva disse, acho melhor esperarem o Danilo se levantar.
Ele poderá acompanhá-las.
Se fizerem isso, ficarei mais tranquila.
- Não tem com o que se preocupar, Severina.
Se formos agora, voltaremos antes do almoço e terei tempo de costurar o vestido.
Sei que vai ficar lindo, Diva!
- Está bem, assim que terminar de tomar o café, iremos.
Diva sentou-se, tomou rapidamente o café, subiram na charrete e foram.
Ela, alegre por ter um vestido novo para a festa; Marcela, imaginando como faria para tirar aquela mulher da sua vida.
Severina viu-as desaparecer no fim da pequena estrada, preocupada com o tom de amizade de Marcela, que sabia ser mentira.
Essa menina não está pensando coisa boa, não está não...
Chegaram à cidade e foram para a loja do senhor Salomão que, assim que as viu, abriu um sorriso:
- Marcela, há quanto tempo você não vem aqui!
Está precisando de alguma coisa?
- Sim. Os ciganos chegaram e, como sempre, vai ter a festa deles.
A minha amiga precisa de um tecido para fazer um vestido.
- Pode escolher o tecido que quiser moça.
Aqui tem para todos os gostos.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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