O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:50 pm

Diva sorriu e voltou-se para uma prateleira, onde havia tecidos de várias cores e qualidade.
Queria um estampado para que Marcela lhe fizesse uma saia bem rodada, igual à das ciganas.
Olhou, olhou e escolheu um bem colorido com a cor azul sobressaindo, depois, escolheu outro em um azul mais claro para que fosse feita também uma blusa igual à que as ciganas usavam.
Ficou feliz com sua escolha.
Perguntou:
- Marcela, acha que vai ficar bom?
- Claro que vai, o azul fica bem para a cor da sua pele.
Vamos levar senhor Salomão.
- Pode levar quanto quiser, vou marcar aqui na caderneta e, quando a dona Luana vier, ela paga, não é?
Pegaram os tecidos e saíram da loja.
Quando estavam na rua, enquanto caminhavam em direcção à charrete que havia ficado do outro lado da rua, Marcela pensou:
Aqui é o lugar ideal para que aconteça um acidente, mas como?
Precisa ser de uma maneira que não reste dúvida alguma e que eu não seja responsabilizada.
Pensou, pensou e disse:
- Diva, antes de irmos embora, vamos até a estação de trem.
Lá há um bar que vende doces maravilhosos!
- Não estou com fome, Marcela.
Estou ansiosa para chegarmos a casa a fim de que você faça o meu vestido.
- Também não estou com fome, só com vontade de comer um doce.
Vamos, alguns minutos não farão diferença!
Caminharam em direcção à estação de trem.
Caminhando, Marcela continuou pensando:
Não tenho certeza, mas acho que há esta hora passam vários trens levando mercadorias para a Capital, se isso acontecer eu, sem que ninguém veja, empurro-a.
Ela morre e ninguém ficará sabendo que fui eu.
Quando me perguntarem, direi que não sei o que aconteceu.
Claro que preciso ficar desesperada e chorar sem parar.
Tudo vai dar certo, sei que, depois de algum tempo, Danilo vai me querer e me levará embora deste lugar que odeio!
Chegaram à estação e Marcela ficou preocupada, pois havia várias pessoas.
Umas com malas, outras sentadas, parecendo esperar alguém.
Caminharam até o bar.
Entraram e ela pediu um dos vários doces que estavam expostos.
Diva fez o mesmo.
Sentaram-se e começaram a comer.
Marcela comia bem devagar.
Perguntou ao garçom:
- Passa algum trem neste horário?
- Sim, vários.
Está para chegar um que vem da Capital.
Esse pára aqui, outros passam directo.
Diva, não imaginando o porquê daquela pergunta, comia com gosto o seu doce.
Marcela sorriu, agradecendo, e pensou:
Quando o trem que não pára passar eu darei um jeito de empurrá-la.
Continuaram comendo.
Marcela comeu um e pediu outro.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:50 pm

Levantou-se e, comendo, foi até a plataforma e olhou para verificar se vinha algum trem.
Ao longe viu um que se aproximava.
Voltou para o bar e perguntou:
- Esse trem que está chegando vai parar aqui?
- Vai, sim, é de passageiros.
Logo em seguida, assim que este partir vem o outro, só que esse não vai parar.
Ele vai directo para a Capital, pois só carrega café para descarregar lá.
Diva, que continuava comendo, não entendia, mas também não estava preocupada com os trens que chegavam ou passavam, apenas apreciava o doce.
O trem parou. Algumas pessoas desceram, outras entraram.
Marcela acompanhava os passos de todas.
Após algum tempo, o trem foi embora e as pessoas, após cumprimentarem os que chegaram, foram se afastando.
Em poucos minutos, a estação estava vazia.
Marcela sorriu:
Quando o próximo trem estiver se aproximando, preciso encontrar uma maneira de atraí-la para cá e ficará fácil empurrá-la.
Como a estação está vazia, ninguém perceberá.
Só preciso ficar ao lado do bar para que o garçom não veja.
Quando ela cair, começarei a gritar e direi que ela se jogou.
Ninguém vai desconfiar...
Viu ao longe o trem se aproximando.
Ainda parada junto à plataforma, chamou:
- Diva, venha ver o trem chegando, olhe como é grande e como está rápido!
Diva, sem imaginar qual era a sua intenção, disse:
- Não posso ir até aí, Marcela, sinto muito medo de trens e de estações.
Foi muito difícil chegar até aqui de trem...
- Mas chegou bem, não foi?
Viu que não há problema algum.
Esse trem que está se aproximando é diferente de todos que já viu.
É moderno, acabou de ser comprado...
- Não sei... tenho medo...
- Deixe disso!
Não tem perigo algum!
Você mesma disse que viajou várias horas e que foi tudo bem.
Precisa se livrar desse medo...
Diva, querendo se livrar do medo que sentia, levantou-se do banco em que estava sentada e aproximou-se.
O trem estava chegando rapidamente e Marcela se preparava para colocar em prática o seu plano.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:51 pm

FINALMENTE, NOTÍCIAS
Naquele mesmo instante, Luana estava no hospital.
Apesar de muito nervosa e de não ter conseguido dormir bem, resolveu que não poderia deixar de trabalhar, mas percebeu que não conseguiria.
Foi até o consultório de Felipe e lhe disse:
- Felipe, não estou em condições de trabalhar, não consigo parar de pensar em Danilo e, por isso, não posso me concentrar no trabalho.
- Está bem, vá para casa.
Muita coisa tem acontecido em tão pouco tempo.
Não se preocupe se houver alguma emergência, eu lhe telefono.
Tente se acalmar e acreditar que eles estão bem.
Devem estar na fazenda, aproveitando toda aquela beleza.
- Tomara que isso seja verdade.
Preciso ter alguma notícia, Felipe.
Não posso continuar assim, nessa incerteza...
- Sabe que eles não devem e nem podem se comunicar.
Precisamos ter paciência e esperar.
- Não entendo como você pode ser assim.
Ficar tão tranquilo, quando não sabemos o que aconteceu com nosso filho...
- Nada mais podemos fazer Luana.
Ele e muito menos nós queríamos estar nesta situação, mas já que fomos envolvidos, precisamos ter paciência e esperar que tudo se esclareça e que nossa vida volte a ser como era antes de toda essa loucura.
O importante é saber que nos amamos e que estamos juntos.
Ela sorriu, abraçou-o e disse:
- Você é mesmo um homem maravilhoso, por isso amo-o tanto...
Ele também a abraçou e beijou com carinho.
Chegou a casa e foi falar com Tobias e Luísa.
- Agora que tudo passou vocês podem descansar alguns dias.
Sei que estão precisando disso.
Depois, conversaremos.
Agora, estou nervosa e preocupada, vou tentar me acalmar.
- Não, doutora, não quero descansar, pois sei que não vou conseguir, prefiro trabalhar e ocupar o meu tempo para não ficar pensando.
- Tem certeza disso, Luísa?
- Tenho e acho que o Tobias também.
O que acha Tobias?
- Você tem razão, Luísa, quanto mais tempo ficarmos sem ter o que fazer, pior será.
- Está bem, se é assim que querem não me oporei.
Voltem ao trabalho.
Sorriu e entrou em casa.
Luísa e Tobias fizeram o mesmo.
Entraram no pequeno quarto e, chorando, abraçaram-se.
Tobias, lembrando-se de Jerusa e de sua obsessão, perguntou:
- O que vamos fazer agora, Luísa?
- Continuarmos aqui e trabalharmos na casa da doutora enquanto ela quiser.
- Preferia que fôssemos embora.
- Embora para onde, Tobias?
Estamos muito bem aqui.
Pela primeira vez, estou me sentindo segura.
- Não sei Luísa, queria ir para um lugar bem longe daqui...
- Por que esse desejo?
Não estou entendendo. Estamos bem...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:51 pm

Ele, sabendo que não poderia contar o verdadeiro motivo, respondeu:
- Enquanto vivermos aqui, não conseguiremos esquecer nosso menino.
Vai ser um sofrimento constante. Vamos embora.
Podemos voltar para a nossa cidade.
- Não importa o lugar em que estivermos nunca conseguiremos esquecer o nosso menino.
Ele seguirá para sempre no nosso pensamento.
Quer voltar para nossa cidade e vai fazer o que lá, Tobias?
Aqui, temos salário e moradia.
Sem despesa alguma, podemos guardar dinheiro para, um dia, comprarmos a nossa casa.
Sem mais argumentos, Tobias disse:
- Está bem, só quero que, aconteça o que acontecer, nunca esqueça que eu a amo muito e que você é a única mulher em minha vida.
- Não entendo por que está dizendo isso, sei que me ama, assim como também amo você.
Agora, vamos ao trabalho.
Vou ajudar a fazer o almoço e você vai preparar o carro para levar a moça para a Faculdade.
Coitada, teve de ir de táxi.
Como ela está tratando você, Tobias.
Melhorou?
Novamente, ele sentiu vontade de lhe contar o que estava acontecendo, mas não teve coragem.
Temia que ela interpretasse mal e julgasse que ele estivesse mentindo.
Disse:
- Está me tratando bem.
Agora, vou tirar o carro da garagem.
Saíram.
Ela entrou na casa e ele foi para a garagem tirar o carro.
Precisava lavá-lo.
Meia hora depois, um táxi parou em frente a casa e dele desceu Jerusa.
Assim que entrou, viu Tobias junto ao carro, terminando de secá-lo.
Aproximou-se, dizendo:
- Está tudo bem com você, Tobias?
- Está senhorita.
- Hoje, após o almoço, ainda terei de ir para a faculdade de táxi, não é?
- Não, senhorita, Luísa achou melhor voltarmos ao trabalho.
Quando quiser, estarei a seu dispor.
Ela sorriu e, com ironia na voz, disse:
- Isso é óptimo.
Já estava com saudade da sua companhia...
Ele estremeceu, sabia o significado daquelas palavras, mas não tinha o que fazer somente evitar ao máximo a sua aproximação.
Jerusa entrou em casa e ele continuou secando o carro.
Após o almoço, Luana, que continuava ansiosa e preocupada, foi para o seu quarto.
Há dias não dormia bem.
Embora seu corpo estivesse cansado, sua mente não conseguia parar de pensar em Danilo e na sua possível prisão.
Apesar de saber que não conseguiria dormir, deitou-se.
O telefone tocou, mas ela não atendeu, não queria conversar com ninguém, só queria saber se o filho estava bem.
Alda atendeu o telefone e, alguns minutos depois, bateu de leve à porta do quarto de Luana.
- Entre.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:51 pm

Alda abriu a porta e, com a voz baixa, disse:
- Desculpe por incomodá-la, senhora, mas um homem está no telefone e disse que precisa falar com a senhora, urgente.
- Um homem? Que homem?
- Não sei, ele não quis dar o nome.
O coração de Luana começou a disparar:
- Meu Deus, será a polícia?
Será que querem me avisar que Danilo está preso?
Pegou o telefone e, com a voz trémula, disse:
- Alô!
- Alô, doutora Luana?
- Sim, quem é o senhor?
- Coronel Alberto.
Preciso falar urgente com a senhora.
- O que aconteceu?
Meu filho está preso?
- Não, por isso estou lhe telefonando.
Um dos nossos agentes infiltrados na Faculdade confirmou-me o que a senhora havia me dito.
Seu filho nunca participou de grupo algum de resistência.
Ele é um bom estudante e sempre diz que quer nos vencer através das leis.
- Foi o que lhe disse.
- Porém eu precisava ter certeza.
Pode dizer a ele que já pode voltar para não perder mais dias de aulas.
Tudo, agora, está bem.
- E o Júlio?
- Infelizmente, nada poderei fazer por ele.
Está muito envolvido.
Ele e a moça que está com eles.
Assim que forem encontrados, serão presos.
- Ele é seu filho!
Pertence a sua família!
- Sim, é meu filho, mas também um subversivo.
Ele escolheu o caminho que queria seguir, nada poderei fazer.
- É um jovem idealista como todos nós já fomos.
Acredita que pode mudar não só o Brasil como o mundo inteiro!
Com o tempo, quando tiver sua família, verá que não pode mudar o mundo, pois ele é composto de seres humanos que são distintos.
Alguns são bons, outros se deixam levar pela ganância não só por dinheiro, como também pelo poder.
- A senhora pode ter razão, mas, no momento, faço parte do sistema e nada posso fazer.
Além disso, preciso dar exemplo aos meus comandados.
Não aceito que meu filho seja ou pense diferente do que é certo.
- Certo para o senhor, mas para ele e outros tantos, o que os senhores fazem é errado.
Estão lhes tirando a liberdade de pensamento e de escolha.
- Não vamos discutir isso, agora.
Seu filho foi envolvido e está sendo prejudicado.
Faça com que volte e continue seus estudos e, depois, que lute com as armas em que acredita as leis, sem guerrilhas ou violência.
- Foram os senhores que provocaram a violência quando tiraram da população os seus direitos.
- Por favor, doutora, não vamos discutir sobre isso.
O Brasil está caminhando bem, a população está tendo uma vida como nunca teve.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:41 pm

Deve se importar somente com o seu filho.
- Vai mesmo mandar prender o seu filho?
- Esse não é um problema seu.
Seu único problema deve ser o bem-estar do seu filho.
Sabe onde eles estão?
- Não sei e isso está me matando...
- Sei que a senhora sabe.
Não precisa se preocupar, seu filho não será preso.
- Mas o seu, sim.
Se a liberdade dele depender de mim, nunca será preso.
Por isso, não sei, mas, mesmo que soubesse onde eles estão não lhe diria.
Como posso ter certeza de que não está mentindo, querendo que eu tente me comunicar com eles somente para prendê-los?
- Se eu quisesse que seu filho fosse preso, já estaria, sei que eles estão na fazenda da sua família.
Ela estremeceu.
- O que está dizendo?
- Que sei onde estão.
Ninguém fica escondido da nossa inteligência.
Por isso, não faça mais com que seu filho perca tempo e aulas. Ele pode voltar.
Quanto ao Júlio, é diferente, ele sempre esteve envolvido e será preso.
Antes que Luana pudesse dizer qualquer coisa, ele desligou o telefone.
Ela, ainda com o telefone na mão, pensou:
Como um homem pode pensar dessa maneira?
Como pode permitir que seu próprio filho seja preso, torturado e, talvez, até morto?
Preciso telefonar para o Felipe e o Rodolfo.
Não, acho melhor ir até o hospital e hoje mesmo partirmos para a fazenda!
É isso mesmo que vou fazer!
Levantou-se, entrou no banheiro para tomar um banho.
Desceu, ia sair, mas Alda parou na sua frente, dizendo:
- A senhora não vai sair sem almoçar.
Já está há alguns dias sem se alimentar e isso não é bom.
Ninguém, melhor do que a senhora, sabe disso.
- Tem razão, mas não estou com fome.
Estou preocupada com Danilo.
- Sei disso, mas se ficar fraca e doente, não poderá ajudá-lo.
Coma nem que seja só um pouco.
- Está bem. Vou tentar.
Sentou-se e foi servida por Luísa.
Assim que terminou, apressada saiu.
Jerusa também desceu e almoçou.
Enquanto Luísa lavava a louça do almoço, Tobias pensava no que faria se Jerusa voltasse a lhe fazer aquelas propostas.
Enquanto ela não chegava, ele pensava:
Se ela insistir, vou ter de contar toda a verdade para Luísa, só assim ela vai concordar em irmos embora.
Não quero fazer isso, mas sinto que serei obrigado.
Tomara que Luísa entenda e acredite em mim.
Poucos minutos depois, Jerusa saiu da casa e foi ao encontro dele.
Assim que a viu se aproximando, ele abriu a porta traseira do carro, mas ela, sorrindo, fez com que fechasse, entrou na da frente e sentou-se ao lado dele.
Ele, tremendo, ligou o carro e saíram.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:41 pm

Quando chegaram a dois quarteirões da casa, ela disse:
- Pare o carro, Tobias.
- Não podemos senhorita, estamos atrasados...
- Pare o carro, precisamos conversar!
- Não temos o que conversar, só preciso levar a senhorita até a faculdade...
- Eu disse para parar o carro! - ela gritou.
Vendo que não havia alternativa, ele parou o carro.
Ela voltou-se para ele e disse:
- Sabe quais são as minhas intenções com você.
Desde que o vi, senti que você é o homem da minha vida e que vou ficar com você custe o que custar...
- Sabe que não pode ser eu sou casado e amo a minha mulher...
- Não quero me casar com você e, mesmo que quisesse, não poderia ser minha família nunca consentiria além de você ser casado, somos de classes diferentes.
- Está vendo como não pode ser...
- Não precisamos nos casar, basta nos encontrarmos e você ser meu e eu ser sua.
Ninguém precisa saber.
- A senhorita não sabe o que está dizendo.
É uma moça direita, como pode pensar e falar assim?
Sem que ele esperasse, ela abraçou-o e beijou-o com loucura.
Ele tentou desviar o rosto, mas ela não permitiu.
Depois de beijá-lo, ela disse:
- Agora preciso ir para a faculdade, tenho prova.
Daqui a duas horas, vá me pegar e iremos para o apartamento da minha amiga.
Ele ficou calado.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:46 pm

MOMENTO DECISIVO
Na fazenda, quase uma hora depois de Marcela e Diva saírem, Danilo acordou, ao mesmo tempo em que estava feliz por ter encontrado Diva, estava preocupado com Marcela e sua atitude.
Sabia que uma mulher apaixonada e rejeitada era perigosa.
Levantou-se, olhou no espelho e sorriu, pensando:
Não vou me preocupar com isso, ela não passa de uma menina.
O importante é que estou feliz e só espero poder sair dessa confusão em que me colocaram para poder retomar minha vida, me casar com Diva e ser feliz para o resto da minha vida.
Assim que tomarmos o café e se o Júlio quiser, iremos até o acampamento cigano, eles são maravilhosos.
Estava saindo do quarto, quando encontrou Júlio, que também saía do seu:
- Bom dia, Júlio? Está melhor?
- Eu não estava doente, Danilo, só preocupado.
- Preocupado com o quê?
- Com tudo o que nos está acontecendo, pois não sabemos se não seremos encontrados aqui.
Ele mentiu, pois não queria que o amigo soubesse que o motivo real de sua preocupação era o que sentiu no galpão.
Chegaram à sala de refeições.
Danilo estranhou que a mesa estivesse servida somente para duas pessoas.
Severina não estava lá.
Ele, preocupado, foi para a varanda onde seu bisavô cochilava.
Vendo que Diva não estava lá conversando com o avô, foi para a cozinha procurar por Severina.
Júlio, sem entender o que estava acontecendo com o amigo, calado, acompanhava seus passos.
Realmente, Severina estava junto ao fogão de lenha, completamente aceso.
Danilo se aproximou, dizendo:
- Bom dia, Severina.
- Bom dia, está tudo bem com você?
- Sim, só um pouco preocupado, a Diva já se levantou?
- Já faz algum tempo.
Ela e a Marcela foram até a cidade.
A Diva queria um vestido para a festa dos ciganos.
Como Marcela costura muito bem, foram comprar o tecido.
Danilo lembrou-se da noite anterior e, ainda mais preocupado, perguntou:
- Como elas foram?
- Na charrete.
A Marcela conduz muito bem.
Desesperado, ele disse:
- Preciso ir ao encontro delas!
- Por que, Danilo? - ela perguntou assustada.
- Não sei, mas preciso ir ao encontro delas!
- Não tem como ir, Danilo, elas foram na charrete e não temos outra condução.
- Severina, não me diga isso!
Preciso ir!
- Só se for no Trovador, mas disse que nunca montou um cavalo.
- Nunca montei, mas preciso aprender, tenho de ir o mais rápido possível!
- Então, vá falar com o Celestino.
Ele o ensinará, só não sei se o suficiente para que possa ir até a cidade.
- E isso mesmo que vou fazer!
Preciso ir rápido!
Saiu da cozinha, foi para a varanda e desceu a escada rapidamente.
Correu em direcção ao estábulo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:46 pm

Com o barulho dos seus passos, o avô, que cochilava, acordou e, assustado, perguntou para Severina que, ao lado de Júlio, perplexo, acompanhara Danilo:
- O que aconteceu com ele, Severina?
- Não sei, disse que precisa ir até a cidade encontrar Diva e Marcela que foram logo cedo.
- Sei que foram eu estava aqui.
Mas por que tanta pressa e por que ele precisa ir?
- Não sei, ele não disse.
Danilo chegou ao estábulo.
Celestino estava escovando um dos cavalos.
Ao vê-lo daquela maneira, assustado, perguntou:
- O que aconteceu, moço?
Parece que está muito apressado.
- Estou, sim, preciso ir até a cidade e só restou o Trovador.
- O moço não disse que nunca montou?
- Disse, mas agora preciso aprender, é muito urgente!
- Está bem, vou pegar o Trovador e colocar a sela.
Depois, vou tentar ensinar o moço, não sei se vai conseguir, embora ele seja um cavalo muito manso.
Entrou e, poucos minutos depois, voltou trazendo Trovador.
Com paciência, ensinou como Danilo deveria fazer.
Terminou dizendo:
- Acho que o moço vai conseguir.
Converse com ele.
Pode não acreditar, mas ele entende.
Danilo, passando a mão na cabeça do cavalo, disse:
- Trovador, preciso da sua ajuda.
Permita que eu monte em você e me leve o mais rápido que puder.
Tudo depende de você.
Tomara que já não seja tarde.
Trovador, parecendo entender o que ele dizia, relinchou.
- Está vendo, moço, ele entendeu.
Pode montar e vá com Deus.
Danilo montou no cavalo que, após uns primeiros ensaios, saiu galopando.
Passou pela varanda onde estavam Severina, Júlio e o avô.
Acenou com a mão e seguiu.
Na estação, o trem se aproximava, Marcela estava ao lado de Diva que tremia muito.
Com a voz calma, ela disse:
- Não fique assim, Diva.
Não há perigo algum.
Deixe que eu a abrace, assim, se sentirá melhor.
Depois que o trem passar, verá que não havia motivo algum para ter medo.
Precisa se livrar desse medo. Isso é psicológico...
- Será que vou conseguir me livrar, Marcela?
Confesso que não entendo o porquê disso e, realmente, quero ficar livre, ser como todas as outras pessoas...
- Vai ficar bem, pode ter certeza disso que estou dizendo.
Deixe-me abraçá-la.
Colocou o braço nas costas de Diva e esperou o trem se aproximar.
Sabia que ele não ia parar, por isso deveria ser rápida.
O trem estava chegando, ela ia empurrar Diva, quando ouviu:
- É você mesma Marcela?
Ela se voltou e viu um rapaz que sorria e que tinha feito a pergunta.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:50 pm

Ficou parada sem saber o que responder. Ele insistiu:
- É você, mesma, Marcela?
- Samuel? Você está aqui?
- Não sei por que a surpresa, não lhe disse que ia embora estudar, mas que voltaria para buscá-la?
- Disse, mas não pensei que estivesse dizendo a verdade... nunca mais me escreveu ou mandou notícias...
- Pois estava dizendo a verdade e só não escrevi porque tive muito que estudar e não me sobrou tempo.
Além do mais, sabia que você estaria aqui quando eu voltasse.
Estou aqui e vim buscá-la para que possamos nos casar e ir morar na Capital.
- Está mesmo dizendo a verdade?
- Claro que estou.
Qual seria o motivo de estar aqui?
Quando desci do trem, com aquela confusão de pessoas entrando e saindo, passei por você, mas não a vi.
Depois, já lá fora, foi como se alguém me dissesse que estava aqui, voltei para ver e não é que você está mesmo?
O que está fazendo aqui? Vai viajar?
Marcela olhou os últimos vagões que passavam, rapidamente.
Respondeu:
- Não, eu e a minha amiga viemos comer doce no bar do Zezão.
- Os doces dele são conhecidos, mas, vamos, preciso ir até a fazenda conversar com seus pais, isto é, se você ainda me quiser.
Comprei a nossa casa, ela é imensa, sei que vamos ser felizes.
Ela, abismada com tudo aquilo e sem saber o que dizer, olhou para Diva que, feliz, acompanhava a conversa.
Sentiu um aperto no coração e só naquele momento pôde avaliar o que pretendia fazer.
Começou a chorar e abraçando-a, disse:
- Perdão, Diva... perdão... perdão, meu Deus...
Diva, sem saber o verdadeiro motivo daquelas lágrimas, abraçou-a com carinho e disse:
- Não chore.
Por que está pedindo perdão, Marcela?
A felicidade sempre chega.
Espero que seja muito feliz ao lado do Samuel.
Ele parece ser um bom moço e já provou que gosta realmente de você.
De hoje em diante, sei que será feliz.
- Isso mesmo, não chore, pois se já teve motivo, hoje não tem mais.
Só preciso agradecer por ter tido aquele impulso de voltar aqui e encontrar você.
Pai Joaquim, que a tudo acompanhava, sorriu.
- Como vocês vieram da fazenda?
- De charrete.
- Será que podemos voltar nela, assim não perderei tempo e falarei logo com os seus pais.
- Podemos, sim, só que terá de ir atrás, não seria justo uma de nós ir ali.
Ele riu e, com felicidade na voz, disse:
- Claro que vou atrás, as damas sempre têm preferência.
Já do lado de fora da estação, viram Danilo que chegava no cavalo que corria muito.
Admirada, Diva perguntou:
- Aquele não é o Danilo no cavalo preto?
Marcela viu e, entendendo todo o desespero dele, respondeu:
- E ele, sim, não pode ficar um minuto longe de você, Diva.
Diva sorriu.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:50 pm

Ele se aproximou e, descendo do cavalo, correu para ela.
Abraçou-a, perguntando:
- Você está bem?
- Estou, mas por que a preocupação?
Ele olhou para Marcela que sorrindo, disse:
- Ela está bem, Danilo.
Essa atitude dele, Diva, demonstra o quanto ele gosta de você.
Voltando a cabeça para Samuel, continuou:
- Este é o Samuel, meu antigo namorado que foi embora e voltou para nos casarmos.
- Você sabia que ele viria, Marcela?
Veio aqui na estação para encontrá-lo?
- Não, foi coisa do destino, Danilo, mas estou feliz que tenha vindo, pois sua presença evitou que eu cometesse uma loucura.
Sorriu e piscou um olho.
Danilo entendeu a mensagem, abraçou Diva e disse:
- Não sei o que seria de mim se algo tivesse acontecido com você...
- Por que está dizendo isso?
Nada aconteceu nem acontecerá, só viemos comprar um tecido para que a Marcela costure um vestido bem bonito para eu ir à festa dos ciganos.
- Os ciganos estão aqui?
- Sim, Samuel, chegaram ontem e já estão preparando a festa.
Você conhece muito bem as festas dos ciganos, não é?
- Sim e como.
Foi em uma delas que nos apaixonamos e que descobri que você era a mulher da minha vida.
Chegaram perto de onde estava a charrete e de onde Danilo havia deixado Trovador.
Ele disse:
- Diva, aprendi a montar, não quer voltar sentada ao meu lado?
- Não sei, nunca montei um cavalo, não será perigoso?
- Não, não é.
O Trovador é manso e obedece aos comandos.
Venha, sei que vai gostar.
Ele ajudou-a a montar.
Ela, embora receosa, mas confiando nele, montou.
Seguiram viagem.
Ele envolveu-a com carinho e protecção.
Ela sentiu-se a mulher mais feliz do mundo.
Na charrete, seguiram Samuel e Marcela que também estava feliz por ter sido impedida pelo destino de cometer um acto do qual se arrependeria pelo resto da vida.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:50 pm

ENCONTRO INESPERADO
Júlio não entendeu o porquê de Danilo estar nervoso daquela maneira.
Assim que o amigo se afastou, despediu-se do bisavô e saiu andando pela fazenda. Estava preocupado com a sensação que teve, quando passou pelo galpão.
Andava olhando tudo à sua volta.
Quanto mais andava, mais tinha a sensação de já ter estado ali naquele lugar.
Não pode ser.
Nunca estive em uma fazenda, muito menos aqui.
Sendo assim, o que é isso que estou sentindo?
Por que parece que já conheço tudo?
Chegou ao galpão, entrou.
Imaginou que ele estivesse com muitas crianças.
Seu corpo estremeceu e se arrepiou.
Não resta dúvida, conheço este lugar, já estive aqui.
Não sei qual é a explicação, mas não posso mais negar.
Saiu dali, olhou para o morro com as cruzes e continuou andando.
Chegou ao ponto de onde poderia descer até o riacho.
Do alto, viu uma moça que estava com os pés dentro da água.
Ficou olhando por alguns minutos e resolveu:
- Vou descer e ver quem é essa moça.
Desceu.
Ela estava de costas e não viu quando ele se aproximou:
- Bom dia.
Ela, assustada, se voltou e ao vê-lo, disse:
- Bom dia. Quem é você?
- Meu nome é Júlio.
Sou amigo da família e estou passando férias aqui na fazenda.
E você, quem é?
- Meu nome é Samara.
Sou cigana e estamos visitando a fazenda como fazemos todos os anos.
- Cigana?
- Sim, não percebeu por minhas roupas?
- Desculpe, mas não notei.
Posso me sentar ao seu lado?
- Claro que sim.
Sempre que voltamos a esta fazenda, gosto de vir até aqui e ficar apreciando esta água límpida que corre tranquila e os pequenos peixes que deslizam por ela.
Aproveito, também, para molhar os pés.
Não sei você, mas eu estou com calor.
- Está calor, sim e ainda é cedo.
Imagine como vai ficar mais tarde.
Ele tirou os sapatos, levantou a barra da calça, sentou-se e também colocou os pés dentro da água.
Teve uma sensação agradável. Sorriu, dizendo:
- Tem razão, esta água está bem fresca.
Nunca estive ao lado de uma cigana, nada conheço a respeito.
Vivem, realmente, andando sem destino?
Ela sorriu e respondeu:
- Sim. Nossa casa é o mundo.
Vivemos assim desde sempre.
- Essa vida não é muito triste e sacrificada?
- Não. Somos livres.
Não temos governo, portanto, não temos a quem obedecer.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:50 pm

- Se não têm governo e não obedecem, como conseguem viver sem lei?
- Temos nossas próprias leis, todos as conhecem e as seguem.
- Não existe um líder?
- Sim. Temos um rei. O nosso chama-se Sergei, é meu pai.
Ele nos orienta em todos os momentos.
- Acho interessante o que está me dizendo.
Jamais imaginei uma sociedade assim.
Embora saiba que isso só é possível em comunidades pequenas como a de vocês.
Em uma sociedade complexa como a nossa, isso seria impossível.
- Por quê? Cada um não conhece seus deveres e direitos?
- Deveriam conhecer, mas, infelizmente, isso não acontece.
As obrigações são muitas e os direitos, poucos.
Existe muita desigualdade.
- Pois, entre nós, não.
Somos todos iguais.
Seguimos nossas leis e somos felizes assim.
- Sabe que você é muito bonita?
Ela corou:
- Obrigada. Está sendo gentil.
- Não! Você, realmente, é muito bonita!
Talvez não acredite, mas, muito cedo, me envolvi com alguns problemas e nunca tive tempo para olhar uma moça da maneira como estou olhando você.
- Não sei se posso acreditar nisso que está dizendo.
- Pode acreditar.
- Tem namorado, é casada?
- Vá com calma!
Não, não tenho namorado nem sou casada, mas sou cigana.
- E o que tem isso?
Não tenho preconceitos.
- Ainda bem que não é preconceituoso.
Meu povo já sofreu muito com a discriminação e ainda sofre.
As pessoas não nos conhecem e inventam muitas coisas que, na realidade, nunca existiram.
- Confesso que o pouco que conheço não é muito bom.
- Sei disso.
Já ouviu dizer que os ciganos roubam as pessoas e até crianças. - ela deu uma gargalhada e mostrou seus dentes lindos.
- Do que está rindo?
- Do que as pessoas pensam.
Não roubamos muito menos crianças.
Vivemos nossas vidas em paz.
Cantamos e dançamos muito.
Hoje à noite, teremos uma festa linda.
Verá como somos felizes e conseguimos fazer feliz todo aquele que estiver ao nosso lado.
- De onde surgiram esses boatos?
- As ciganas lêem as mãos ou as cartas e cobram por isso.
Muitos inventam que elas roubam, mas é mentira.
Elas cobram pela curiosidade, somente isso.
- Interessante.
Gostaria de passar um tempo com vocês para conhecer seus costumes.
- Isso é impossível.
- Por quê?
- Uma das nossas leis é não nos misturarmos com os gajis.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:50 pm

- O que é isso?
- Vocês. Todos os que não são ciganos.
- E se uma cigana se apaixonar por um gaji, o que acontece?
- Nada acontece.
Precisam se afastar.
- Nunca houve um que ficou entre vocês?
- Na nossa tribo, não, e acho que seria muito difícil.
Embora existam tribos que vivem em sociedade, nós somos conservadores.
Vivemos da maneira como sempre foi.
- Gostaria de conhecer a história de vocês.
- Não há muito que conhecer.
Vivemos em uma sociedade, dentro das nossas leis e, assim, somos felizes.
- Pois eu não estou feliz com a sociedade em que vivemos.
Existe falta de democracia.
Não podemos falar nem a imprensa.
Os estudantes estão revoltados e tentam derrubar o governo que transformou este país em uma Ditadura.
- Você também luta contra isso?
- Sim, por isso estou aqui.
Estamos fugindo da polícia, pois fomos denunciados.
- Acredita que vão conseguir vencer?
- Não sei, mas se não tentarmos, não saberemos.
- Admiro aqueles que se dedicam a um bem maior, mas acho essa luta inglória.
- Pode ser, mas agora não há mais volta.
Preciso ir até o fim.
Sei que, um dia, o Brasil voltará a ser um país democrático, onde as pessoas, livremente, poderão escolher seus governantes.
- Quem lhe garante que estes não serão iguais ou piores dos que os que aí estão?
- Não posso, sequer, admitir uma ideia como essa!
Estamos lutando e, se um dia, chegarmos ao poder, será diferente.
Pensaremos só no bem-estar do povo brasileiro.
- Espero que esteja certo e que não tenha perdido sua liberdade e até a vida a troco de nada.
Júlio, calado, ficou com o olhar perdido na água que corria mansamente.
Samara começou a rir.
Ele, sem entender, perguntou:
- Por que está rindo?
- Acabamos de nos conhecer e já contamos a nossa vida.
Não acha isso estranho?
Ele também riu.
- Tem razão.
Mas, embora só tenhamos nos conhecido agora, parece que a conheço há muito tempo.
- Tenho esse mesmo sentimento.
- Acredita em amor à primeira vista, Samara?
Ela ficou olhando sem responder.
Ele insistiu:
- Acredita em amor à primeira vista?
- Não sei... nunca pensei a respeito...
- Pois eu, embora também nunca tenha pensado a respeito, estou acreditando que pode ser verdade.
- Por que está dizendo isso?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:51 pm

- Não me leve a mal, mas estou sentindo por você algo que nunca senti.
Acho que estou apaixonado.
Ela voltou a rir.
- Não posso negar que também estou impressionada com você, mas isso que disse, mesmo que fosse verdade, jamais poderia acontecer.
- Por quê?
- Como lhe disse, sou cigana e nunca poderia me apaixonar por alguém que não fosse cigano.
- Isso não é justo!
Se gostar de alguém, não poderá se casar?
- Não e não me importo...
- Estou lutando pela liberdade e você não se importa?
- Até agora, não, Júlio.
- Não entendi... o que está querendo dizer?
- Nada... nem sei por que disse isso...
Juntos, foram colocar as mãos na água.
Sem que quisessem, as mãos se tocaram e os olhos se encontraram.
Ela, constrangida, começou a se levantar, mas sem que esperasse, ele a segurou pela mão puxou-a para si e deu-lhe um beijo.
A princípio ela quis se afastar, mas, aos poucos, se entregou àquele beijo e àquele amor.
Depois que se afastaram, saiu correndo e subiu o morro.
Ele ficou olhando-a se afastar.
Já no alto, Samara não conseguia parar de correr.
Lágrimas corriam por seu rosto.
Isso não poderia ter acontecido... jamais poderemos ficar juntos...
Júlio voltou a se sentar e a olhar a água que corria mansamente.
Sem perceber, seu olhar voltou-se para o morro das cruzes.
O que está acontecendo aqui?
Por que tive de vir para cá e conhecer essa moça que sinto ser a mulher da minha vida e a qual nunca terei.
Levantou-se e começou a subir o morro.
Samara chegou ao acampamento e correu para sua tenda.
Zara, sua mãe, viu quando ela chegou e percebeu que não estava bem.
Esperou algum tempo, depois foi até a tenda.
Assim que entrou, percebeu que a filha estava chorando.
Estranhou, pois nunca havia visto aquilo. Perguntou:
- Que aconteceu, Samara, por que está chorando?
- Nada aconteceu.
Só estou triste.
- Triste, por quê?
- Não sei... por nada, mãe... por nada...
- Como nada?
Pela manhã, quando saiu para ir até o rio, estava bem.
O que aconteceu para que voltasse assim?
- Já disse que nada aconteceu!
- Algo deve ter acontecido.
Pensei que confiasse na sua mãe.
- Eu confio mãe, só estou confusa...
- Confusa, por quê?
O que aconteceu?
- Por que não posso escolher o homem com quem desejo me casar?
- O quê? Por que está perguntando isso?
Conhece as nossas leis.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:51 pm

- Conheço, mas não acho justo.
Se eu me apaixonar por um homem que não seja cigano, precisarei me afastar dele e ser infeliz para o resto da minha vida?
- Conheceu algum homem?
- Não!
- Como não?
Quando saiu estava bem, agora, volta chorando e com essas perguntas estranhas...
- Não se preocupe mãe.
Logo vou ficar bem.
- Não, preciso saber o que aconteceu.
Você conheceu um homem e está apaixonada?
- Está bem, sei que não vai sossegar enquanto eu não lhe contar o que aconteceu.
Conheci um moço.
Conversamos muito.
Sinto que gosto dele e que queria ficar ao seu lado para sempre.
- O que está dizendo?
Acabou de conhecer um rapaz e acha que está apaixonada?
Isso não pode ser por dois motivos.
Primeiro ninguém se apaixona assim, de repente.
Segundo, se ele não for cigano, não pode nem pensar.
Sabe que isso nunca será possível.
- Sei disso que está dizendo, por isso estou confusa e com vontade de chorar.
Não entendo como isso pôde acontecer.
- Ainda bem que entende.
Tire isso de sua cabeça.
Logo mais iremos embora e você se esquecerá de tudo isso.
- Sei que isso vai acontecer.
Fique tranquila, mãe.
- Está bem.
Pense bem em tudo o que está acontecendo.
Como disse, está confusa e questionando a nossa vida, mas sei que vai encontrar o seu caminho.
É cigana e, sendo assim, sujeita às leis.
Pense bem nisso.
Não nos obrigue a afastá-la.
Sabe que, se isso acontecer, embora eu sofra muito, terei de aceitar.
Sou cigana...
- Não se preocupe.
Sei quem sou.
Isto tudo vai passar.
Não entendo como teve de acontecer.
Por que fui encontrar aquele moço?
- Também não entendo, mas espero que não cometa uma loucura.
- Não se preocupe mãe.
Tudo isso vai passar.
Zara beijou a filha e saiu dizendo:
- Espero que passe... espero que passe...
Saiu dali e foi conversar com Sergei, seu marido e rei da tribo.
Samara ficou deitada, lembrando-se de Júlio e do beijo.
Júlio, andando devagar, voltou para a casa grande da fazenda.
Chegou no exacto momento em que Danilo e Diva chegavam, montados em Trovador.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:51 pm

SITUAÇÃO QUE SE REPETE
Na casa de Luana, Luísa lavava a louça do almoço Alda se aproximou:
- Luísa, quero fazer um bolo para o jantar, mas olhei na dispensa e não tem farinha.
Será que não dá para você ir até a padaria e comprar?
- Claro que vou, só preciso terminar de lavar a louça.
- Pode deixar para quando voltar.
Se eu não fizer o bolo agora, não ficará pronto para a noite.
- Está bem, estou indo.
Tirou o avental e saiu da casa.
Estava caminhando, pensando no seu menino que fora embora e que a deixara sozinha, quando viu o carro da família parado.
Estranhou, aproximou-se e, estarrecida, viu Tobias beijando Jerusa.
O sangue de todo o seu corpo subiu para a cabeça.
Ficou parada por algum tempo.
Depois, saiu correndo feito louca.
Chorava sem parar.
Por sua cabeça passavam pensamentos desencontrados:
Como ele pôde fazer uma coisa como essa?
Nosso filho acabou de ser enterrado!
Vou matá-lo e a ela também, depois me matarei, não tenho mais nada nesta vida!
Estava desorientada.
Corria sem parar.
Seu único pensamento era de ódio e desespero.
Embora tenha visto, não consigo acreditar que ele tenha me enganado dessa maneira!
Também ela é uma moça muito bonita e tem dinheiro!
Eu, quem sou?
Uma bronca, assim como ele!
Deve estar completamente louco!
Mas nunca vou aceitar essa traição!
Já passamos tantas coisas juntos, como ele pôde esquecer e se deixar envolver por ela?
E ela, o que pode querer com um homem como ele?
Vou matar os dois e, depois, me matarei, é a única coisa que posso fazer!
Continuou correndo. Luana pegou as escovas de dente e saiu do banheiro.
Apressada, desceu a escada e foi para a cozinha falar com Alda.
Assim que entrou, notou que Luísa não estava ali.
Perguntou:
- Alda, onde está a Luísa?
- Foi até a padaria, preciso de farinha para fazer um bolo.
- Se for para o jantar, não se preocupe, pois estamos indo viajar.
- Viajar?
- Sim, mas voltaremos o mais tardar, depois de amanhã.
Cuide de tudo e não deixe que Jerusa fique sem se alimentar, sabe como ela gosta de comer besteiras.
- Não se preocupe senhora.
Cuidarei de tudo.
Vou acompanhá-la até o carro.
- Não precisa.
Sei que cuidará de tudo.
Até a volta.
- Até a volta, senhora.
Vá tranquila.
Luana saiu, foi até o carro, abriu o porta-malas e colocou a maleta dentro dele.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:51 pm

Entrou no carro, acelerou e saiu.
Estava dirigindo tranquila, quando viu Luísa que corria e parecia chorar.
Parou o carro e perguntou:
- Por que está correndo assim, Luísa, e chorando?
Luísa se assustou ao vê-la ali.
Respondeu:
- Minha vida terminou!
Só quero morrer!
- Por que está dizendo isso, o que aconteceu?
- Desculpe doutora, mas, agora, não tenho como conversar... preciso ir para casa e resolver o que vou fazer!
Assim dizendo, continuou correndo.
Luana ficou sem saber o que fazer.
Olhou para frente e viu o carro que Tobias dirigia.
Estranhou. Voltou a acelerar o seu carro e foi até lá.
Assim que se aproximou, viu Jerusa abraçada a ele.
Levou um choque e, por alguns minutos, ficou parada, apenas olhando.
Percebeu que ele se esquivava, mas que Jerusa insistia.
Desceu do carro e, tomada de raiva, bateu no vidro do carro que estava fechado.
Jerusa e Tobias se assustaram.
Ela, assim que viu a mãe, afastou-se e começou a gritar:
- Ele está tentando me agarrar, mamãe não tive culpa!
Ele não me dá sossego!
- Não faça isso, moça, a senhorita sabe que tentei evitar ao máximo!
A senhorita não me deu opção. - Tobias disse, apavorado.
- Foi por isso que encontrei Luísa chorando e correndo desesperada!
- A Luísa nos viu?
- Sim, Tobias, mas aqui não é lugar para conversarmos, vamos para casa!
Luana, tremendo de raiva e decepção, fez com que Jerusa descesse do carro e entrasse no seu.
Depois de ela ter entrado aos trancos, Luana também entrou, manobrou e foi para casa.
Tobias, desesperado, fez o mesmo.
Jerusa, fingindo estar desesperada, chorava e dizia:
- Não tive culpa, mamãe, foi ele que me atacou!
Eu disse que a senhora não deveria ter trazido desconhecidos para a nossa casa!
Está vendo o que aconteceu?
Trouxe para nossa casa um bandido!
- Cale-se, Jerusa!
Eu vi que era você quem estava sobre Tobias que queria se afastar, mas você não deixava.
Como pôde fazer isso? Logo agora que estamos tão preocupados com seu irmão!
- A senhora sempre esteve preocupada só com o Danilo!
Nunca teve tempo para mim!
- O que está dizendo?
Tenho a mesma preocupação com os dois!
Nunca fiz diferença alguma.
Você, sim, foi quem sempre se comportou de uma maneira que me afastava!
- Eu sou assim por sua causa!
- Não venha querer se defender me atacando, pois tenho consciência de que sempre tentei ser uma boa mãe.
Dei a vocês a educação que sabia!
Não poderia dar além!
Você sempre foi assim, distante, reservada, mas não sabia que tinha tão mau carácter.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:52 pm

Posso até adivinhar as artimanhas que usou para convencer e intimidar esse rapaz!
- A senhora está vendo como age comigo?
Por que não acredita quando digo que foi ele quem me atacou?
- Porque eu vi a cena!
Vi que você estava sobre ele!
Agora, precisamos voltar para casa e fazer com que Luísa acredite nele.
Jerusa, que tentava disfarçar o que sentia e procurava dizer que havia sido atacada, ao ouvir a mãe dizer aquilo, esqueceu-se do que pretendia e gritou:
- Não vou fazer isso, mamãe!
Eu quero aquele homem, será que a senhora não entende que estou apaixonada?
Eu quero ficar com ele!
- Você não sabe o que está dizendo!
Ele é casado, ama a esposa e os dois já sofreram muito.
Não entendo o que você quer da vida!
Sempre teve tudo, dinheiro, posição e uma boa casa para morar!
Sempre teve o amor tanto meu como do seu pai!
O que você quer mais?
Destruir duas vidas!
Sinto muito, minha filha, mas não vou permitir!
Você é jovem, está enganada e terá muito tempo para encontrar alguém que a ame e que ame também e será feliz, mas não com esse homem.
- Está dizendo isso porque ele é pobre!
Tem preconceito!
- Não seja tola!
O problema não é ele ser pobre, o problema é que ele ama a esposa!
O problema é que acabou de perder o filho!
O problema é que sempre tiveram uma vida difícil, mas, mesmo assim, estão juntos e, se depender de mim, ficarão para sempre!
Chegaram a casa.
Luana entrou primeiro, Tobias logo atrás.
Ele estava constrangido e apavorado, pois não sabia o que ia acontecer.
Amava Luísa, sempre a amara, temia que aquele mal-entendido fizesse com que ela não o quisesse mais.
Luana voltou-se para ele e disse:
- Entre connosco, Tobias.
Precisamos conversar com Luísa.
Ela precisa saber o que aconteceu realmente.
- Juro que não tive culpa doutora, mas a Luísa não vai acreditar!
- Sei disso, não se preocupe, conversarei com ela e acertarei essa situação provocada pela irresponsável da minha filha.
Luísa, que havia chegado antes, foi até a cozinha.
Nem Alda nem Carlita estavam ali.
Viu sobre a pia uma faca grande, pegou-a e foi para seu quarto.
No caminho, pensava: Ele não sabe que o vi, assim que chegar, com esta faca, vou matá-lo e depois me matarei!
Não tenho motivo algum para continuar vivendo!
Perdi meu filho e, agora, o homem que sempre amei...
Entrou no quarto e ficou esperando.
Luana, Tobias e Jerusa entraram em casa.
Vendo que não havia ninguém na sala, foram para a cozinha, mas lá também Alda e Carlita não estavam.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 28, 2017 7:52 pm

Tobias, desesperado, perguntou:
- Para onde ela foi doutora?
- Não sei, deve estar em seu quarto, vamos até lá.
Jerusa vá para o seu quarto depois conversaremos!
Jerusa, conhecendo sua mãe e sabendo como ela era justa, obedeceu.
Sabia que havia perdido e que Tobias nunca seria dela.
Chorava muito.
Alda, que descia a escada, ao ver Jerusa em casa e chorando, preocupada, perguntou:
- O que aconteceu, Jerusa?
Estava lá no alto e vi quando sua mãe voltou, estranhei, pois ela me disse que ia viajar.
E você, por que não foi para a Faculdade?
Jerusa não respondeu.
Chorando, terminou de subir a escada e entrou no seu quarto.
Da janela, podia ver o quarto de Luísa e de Tobias.
Por detrás da cortina, ficou olhando.
Luana e Tobias entraram no quarto.
Luísa estava encostada em uma parede, com as mãos para trás.
Da maneira como estava nem Luana nem Tobias podiam ver a faca que estava em sua mão.
Luísa não chorava mais, mas seus olhos estavam com um brilho estranho que chamou a atenção de Luana.
Luísa, assim que viu Tobias, correu em sua direcção com a faca em punho, gritando:
- Vou matar você e depois me matar!
Você me enganou, traiu!
Luana, que estava desconfiada daquele olhar, colocou-se à frente de Tobias e só não levou uma facada, porque Luísa, vendo o gesto dela, parou com a faca no alto.
Luana segurou sua mão e disse:
- Dê-me essa faca, Luísa, não é assim que resolvemos as coisas.
Precisamos conversar.
Além de não largar a faca, Luísa disse muito nervosa:
- Não tenho o que conversar doutora!
Minha vida está destruída e não tenho motivo para continuar vivendo!
Meu filho morreu e o homem que sempre amei me traiu.
- Eu não traí você, Luísa!
Amo-a e sabe disso... - ele disse, com lágrimas nos olhos.
- Não queira mentir, vi com meus próprios olhos você beijando a moça!
- Ele não a estava beijando, Luísa.
Ela era quem o estava beijando.
Ele tentava impedir.
- Como a senhora sabe disso?
- Porque, diferente de você, me aproximei e pude ver tudo o que estava acontecendo.
Minha filha pensa que está apaixonada por ele, mas ela não passa de uma criança.
- Foi por isso que pedi a você para irmos embora, você lembra?
Ela me ameaçou.
Disse que, se eu não me rendesse aos seus caprichos, diria a seus pais que eu a havia importunado e eles, com razão, nos mandariam embora.
Nosso menino precisava de atendimento médico e não tínhamos para onde ir.
Mesmo assim, eu quis ir embora, mas você não aceitou o meu pedido.
Faz dias que ela vem tentando e só não me levou a um apartamento ontem porque nosso filho morreu.
Mesmo sofrendo muito por sua perda, agradeci a Deus, pois sua morte me salvou.
Não pensei que, depois disso, ela continuaria insistindo, mas, hoje, fez com que eu parasse o carro e voltou com sua proposta.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:56 pm

Quando viu que recusei, me abraçou e beijou, deve ter sido nesse momento que você nos viu.
Eu já havia decidido que hoje mesmo iríamos embora, não sabia para onde, mas precisa fazer isso.
Como você nos viu tudo foi atropelado, e se você acreditar no que estou dizendo, vamos pegar nossas coisas e iremos para algum lugar.
Luana, estarrecida, ouvia o que Tobias dizia.
Não conseguia acreditar que sua filha poderia ter tanta maldade.
Aproveitar-se da situação dele para exigir um amor que não tinha. Tentou manter a calma:
- Como vê Luísa, seu marido gosta de você e não teve culpa do que minha filha fez.
Ele tem razão, vocês não podem continuar aqui, pois, apesar de saber que Jerusa errou, ela é minha filha e, talvez, em algum ponto eu tenha errado na sua educação.
Preciso descobrir no que foi.
Luísa entregou a faca para Luana, aproximou-se de Tobias e abraçaram-se.
Chorando, ela disse:
- Bem que desconfiei de que alguma coisa não estava indo bem, porque você, de repente, começou a ficar nervoso e a insistir para irmos embora.
Voltando-se para Luana, disse:
- Obrigada, doutora, por ter impedido que eu cometesse uma loucura.
Só posso agradecer à senhora, ao doutor Felipe e ao doutor Rodolfo, que tanto nos ajudaram.
Como a senhora disse, precisamos ir embora.
Entendo sua situação, somos apenas pessoas que a senhora recolheu em uma estrada, mas ela é sua filha e está precisando de ajuda, muito mais do que nós.
Vou pegar nossas coisas e iremos embora.
- Para onde vão?
- Não sei, mas encontraremos um caminho.
Acreditamos em Deus e sabemos que Ele nunca nos abandona e sempre manda um de seus anjos para cuidar dos seus filhos, assim como mandou a senhora naquele dia.
Sua missão terminou.
Fez o que pôde para nos ajudar e salvar o nosso filho, agora, precisamos continuar nossas vidas.
Luana ouvia tanta sabedoria na voz daquela moça simples.
Percebeu que, apesar de tudo, ela não sentia raiva de Jerusa.
Pensou um pouco e disse:
- Tobias, você não disse que sempre foi agricultor?
- Disse e é a única coisa que sei fazer.
- Pois bem, quando tudo aconteceu, eu estava indo me encontrar com Felipe para irmos à fazenda.
Agora, vou lhe telefonar e contar o que aconteceu.
Se quiserem, podem nos acompanhar e poderão ficar morando lá.
O lugar é agradável, sei que vão gostar.
Luísa voltou a chorar:
- A senhora faria isso?
Nos daria emprego e um lugar para morar?
- Por que não?
Vocês são pessoas de bem e merecem ajuda.
Luísa e Tobias se olharam e tornaram a se abraçar.
Ela, chorando, disse:
- Viu, Tobias, Deus sempre manda um anjo para ajudar seus filhos.
Sabia que Ele não nos deixaria desamparados.
Vamos aceitar, sim, doutora e prometemos trabalhar muito.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:56 pm

- Só precisarão trabalhar o necessário, lembrem-se de que não são escravos.
Luana disse isso, sorrindo e feliz.
Outra vez sentiu vontade de abraçar Luísa, como uma irmã que não via há muito tempo, mas se conteve.
- Está bem, preparem suas coisas.
Vou telefonar, depois, iremos para o hospital.
- Doutora, por favor, não conte a ele o que aconteceu com sua filha.
Sei que vai ficar muito triste.
- Não se preocupe Luísa.
Com minha filha, conversarei mais tarde.
Dizendo isso, voltou a sorrir e saiu em direcção a casa.
Luísa não sabia, mas, naquele momento, havia resgatado seu crime cometido no passado.
Teve a oportunidade de voltar a cometer o mesmo crime, mas, com a ajuda de Luana, se conteve e perdoou à Jerusa.
Pai Joaquim, feliz, jogou luzes brancas sobre eles.
Luana entrou em casa, telefonou para Felipe e lhe contou o que o pai de Júlio havia dito.
Combinaram que ela passaria pelo hospital para que seguissem viagem.
Assim que terminou de falar com Felipe, desligou o telefone e foi para o quarto de Jerusa que, deitada em sua cama, chorava.
Luana aproximou-se e disse:
- Não sei o que passou por sua cabeça, Jerusa, mas quase provocou uma desgraça.
Por muito pouco, Luísa não mata o marido e se mata também.
Jerusa, chorando muito, disse:
- Também não tenho explicação para o que aconteceu... assim que vi Tobias, me apaixonei e não pensei em mais nada, somente em tê-lo.
Por que isso aconteceu, mamãe?
- Também não tenho explicação, só sei que, para ter esse homem, usou dos mais terríveis argumentos.
Como pôde intimidá-lo, dizendo que se ele não fizesse o que queria, mentiria, dizendo que havia sido atacada por ele?
- Não sei mamãe, não sei como pude fazer aquilo... estava completamente louca...
- Sei que deveria ficar brava e lhe dar um castigo, porem entendo.
É jovem e não pensou no que estava fazendo, mas espero que isso lhe sirva de lição.
Ainda terá muitos amores e decepções, mas a vida é assim mesmo.
Numa próxima vez, pense nas consequências dos seus actos, não só em relação ao amor como em tudo na vida.
Lembre-se de que sempre colhemos o que plantamos.
Estou brava, é claro, mas também muito feliz para que o meu dia seja estragado.
Eu e seu pai estamos indo para a fazenda buscar Danilo.
O pai do Júlio telefonou e disse que está tudo bem, que Danilo nunca fez parte de grupo algum.
- Posso ir também, mamãe?
- Infelizmente, não.
Com a sua atitude, Luísa e Tobias não poderão continuar aqui.
Estou levando-os para que morem e trabalhem na fazenda.
Fazendo isso, evito futuros problemas.
- Só posso dizer que estou arrependida do que fiz e que vou até lá contar a Luísa que a culpa foi toda minha, que ele é inocente.
- Não será preciso, ela já sabe e entre eles está tudo bem.
Agora, você, minha filha, precisa pensar bem no que fez para que, de uma próxima vez, não use o dinheiro nem sua posição para intimidar outras pessoas, seja em que situação for.
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:56 pm

- Está bem, mamãe, e obrigada por ser tão compreensiva.
Desculpe por aquelas coisas horríveis que eu disse.
A senhora sempre foi uma óptima mãe.
Luana sorriu, abraçou a filha:
- Não sei se fui uma óptima mãe, mas sei que fui aquela que sabia ser e que só quis que você e seu irmão tivessem uma vida tranquila e fossem felizes.
Também, não sou compreensiva, somente já tive sua idade... agora preciso ir, seu pai está me esperando.
Quando Danilo voltar, poderá abraçá-lo.
- Só posso agradecer a Deus por ter uma mãe como a senhora.
Abraçaram-se.
Luana deu um beijo na testa da filha e saiu do quarto.
Novamente, Pai Joaquim sorriu e jogou luzes brancas sobre elas.
Felipe, como não podia deixar de ser, ficou feliz e contou para Rodolfo que, imediatamente, telefonou para Marília e lhe contou tudo.
Quando terminou de falar, ela disse:
- Não havia lhe dito que Deus não abandona seus filhos, que não precisava se preocupar porque no fim tudo daria certo?
- Disse, mas confesso que não tinha muita certeza.
Senti muito medo por Danilo.
- Pois, a partir de agora, tenha sempre isso em mente.
- Estive pensando, estou com vontade de ir até a fazenda abraçar o meu sobrinho e meu avô.
- Por que não faz isso?
- Tenho muito trabalho no hospital.
- Você sempre trabalhou muito.
Há quanto tempo não tira férias?
- Faz muito tempo...
- Pois então, converse com o Jorge.
Com certeza ele o substituirá por alguns dias.
- Tem razão, vou fazer isso.
Prepare nossas malas e venha para cá.
Iremos junto com Felipe e Luana.
Afinal, será só por um fim de semana.
Você me acompanha?
- Claro que sim, também quero abraçar Danilo!
- Está bem, pode ir preparando nossas malas, vamos tirar um fim de semana de férias.
Luana saiu do quarto de Jerusa e foi ao encontro de Tobias e Luísa que já a esperavam.
Estavam cada um com uma mala.
Assim que ela chegou, Luísa disse:
- Desculpe doutora, mas tive de pedir para dona Alda que nos emprestasse essas malas para colocarmos as roupas que a senhora nos deu.
Não tínhamos onde as levar.
- Não tem problema algum.
Vamos embora.
Saindo agora, chegaremos à fazenda à noite e vocês começarão uma nova vida, agora, com toda segurança.
Poderão ter outros filhos e ser felizes.
- Obrigada, doutora, a senhora é mesmo um anjo que Deus colocou em nossas vidas.
- Anjo, eu? Não sou anjo, estou muito longe disso.
Não sei explicar o motivo, mas gostei de vocês assim que os vi.
Talvez, Marília, a minha cunhada, tenha uma explicação para isso.
Agora vamos embora.
Do contrário, chegaremos muito tarde.
- Já nos despedimos da dona Alda e da Carlita e agradecemos todo o bem que fizeram por nós.
- Agiu correctamente.
Agora vamos embora.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:57 pm

VISITA INDESEJÁVEL
Quando chegaram à fazenda, eram nove horas da noite.
Assim que os carros pararam em frente à porteira, ouviram uma música tocada em um violino.
Luana estremeceu e o mesmo aconteceu com Luísa, que disse:
- Doutora, essa não é a música que a senhora estava tocando na sua casa naquele dia?
- Sim, é ela mesma.
Como pode ser? Nunca a ouvi...
- Não sei, só sei que é muito bonita!
- Tem razão, vamos entrar e ver quem está tocando.
Felipe e Tobias desceram do carro e abriram a porteira.
Os carros entraram.
Ainda ouvindo a música, aproximaram-se do pátio em frente à casa grande, onde os escravos eram torturados.
Viram que uma fogueira muito grande estava acesa e sobre ela um pedaço de carne assava como se fosse um espeto.
Estacionaram os carros e, admirados, notaram que havia muitas pessoas.
Enquanto algumas comiam, outras dançavam ao som da música tocada por Sergei.
Quando chegaram mais perto, viram Danilo e Diva que dançavam com os rostos colados e bem juntos.
Em outro lado, Júlio também dançava com Samara, mas da maneira como os ciganos, distantes.
Ela, naquele momento, esqueceu-se de que era cigana e só queria se entregar àquele amor.
Júlio vibrava de felicidade, por estar sentindo algo que não conhecia.
Quem via como brilhavam seus olhos percebia, imediatamente, que estavam apaixonados.
Zara, à distância, olhava a filha e pensava:
Ela vai sofrer muito.
Por que isso teve de acontecer?
Sergei não vai permitir que ela se una a esse gaji.
Sergei, envolvido pela música, não notou.
Rodolfo, admirado, perguntou:
- Felipe, o que está acontecendo aqui?
- Parece ser uma festa cigana.
- Ciganos? Aqui na fazenda?
- Parece que sim, Rodolfo.
Vamos nos aproximar.
Olhe lá, o vovô está sentado na varanda e parece muito feliz.
Realmente, o avô estava feliz e ficou mais ainda quando os viu chegando.
Aproximaram-se e o beijaram.
- Estou feliz que tenham vindo logo hoje.
- O que está acontecendo aqui, vovô?
Que festa é essa?
- São os ciganos que estão nos visitando.
- Ciganos vovô?
- Sim, esses ciganos são descendentes dos primeiros que aqui chegaram e sempre voltam.
Com a sua chegada, trazem música, alegria e felicidade.
- Nunca soube dessa história de ciganos amigos da família.
- Eu sabia, vovô me contou e até me deu um colar lindo.
Disse que foi presente de uma cigana para sua avó.
- Vocês, Felipe e Rodolfo, nada sabem a respeito da história da nossa família.
Mas, se quiserem isso poderá ser consertado.
Se quiserem, contarei tudo o que sei.
Tudo que meu pai e minha avó me contaram, ou melhor, desde a construção desta fazenda, mas não será hoje, porque é dia de festa.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:57 pm

A música parou.
Danilo, Júlio e Diva olharam para a varanda e os viram ali.
Correram. Danilo foi o primeiro a chegar.
- Mamãe, papai, o que estão fazendo aqui?
Luana abraçou o filho e respondeu:
- Estamos aqui para levá-lo de volta para casa.
- Levar-me de volta?
Como pode ser?
Não sabem que estou sendo procurado?
- Não está mais... está livre, meu filho, e poderá retomar sua vida, estudar e ser o melhor advogado que este país já teve!
- Livre? Como pode ser?
Luana contou a conversa que teve com o pai de Júlio e o resultado dela.
Terminou, dizendo:
- Sinto muito, Júlio, mas, quanto a você, seu pai está inflexível.
Ele diz que você merece ser preso, pois traiu tudo em que ele sempre acreditou.
Por isso, acho melhor que saia daqui e vá para outro lugar.
Embora acredite que, por mais longe que for, ele o achará.
Sabe que está aqui e poderá chegar a qualquer momento.
Sobre você, Diva, ele nada disse, mas acredito que deva ir embora também.
- Ela não pode ir embora, mamãe!
- Por que não?
- Estamos apaixonados e pretendo me casar com ela.
- Casar?!
- Sim, mamãe, essa é a minha intenção.
- Você nem terminou seus estudos...
- O casamento não me impedirá de continuar estudando, mas, hoje, não é dia para falarmos sobre isso, é dia de festa e a música voltou a tocar!
Vamos dançar Diva!
Abraçados, afastaram-se e recomeçaram a dançar.
Luana, abismada, olhou para Felipe que sorriu:
- Nosso filho já é um homem, Luana.
- Ele é muito novo, Felipe!
- Que idade tínhamos quando nos casamos?
Ela pensou um pouco, depois sorriu:
- Tem razão, vamos aproveitar essa música maravilhosa e dançar também?
- Óptima ideia, vamos!
- Vamos também, Marília?
- Claro Rodolfo!
Adoro dançar!
Logo, todos estavam dançando, felizes.
Dançaram, comeram e beberam uma bebida preparada pelos ciganos.
Depois, cansados, voltaram para junto do avô.
O avô fez um sinal para Zara que se aproximou.
- Zara, estes são Felipe e Luana, pais de Danilo, e estes são Rodolfo e Marília, tios de Danilo.
Felipe e Rodolfo são meus netos.
Estou admirado com a visita deles.
Esta é Zara, esposa do rei dos ciganos, aquele que está tocando violino.
Zara sorriu, estendeu a mão.
- Muito prazer, espero que gostem da festa e aproveitem.
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