O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:57 pm

- Aproveitaremos, pode ter certeza, mas, antes, que bebida deliciosa é essa que estamos tomando?
- Nós mesmos a preparamos.
- Como?
- Colocamos milho dentro de uma garrafa com água, depois a enterramos por uma semana.
Desenterramos, coamos e temos essa bebida deliciosa.
- Deliciosa, mesmo!
Vovô, o senhor não me disse que a cigana que deu o colar para sua avó se chamava Zara?
- Sim, esse era o nome dela.
O colar pertencia a sua filha que morreu muito cedo.
Como ela gostava muito da minha avó e a considerava como filha, deu-lhe o colar com a recomendação de que nunca deveria se desfazer dele.
- Ainda está na família? Que bom.
- Sim, está comigo e não darei a ninguém.
Talvez, quando ficar mais velha, o dê para minha filha ou minha nora.
- Ouvi falar nesse colar.
Gostaria muito de vê-lo.
Poderia me mostrar, Luana?
- Claro que sim.
Pena que não está aqui comigo.
Mas vou trazer em outra oportunidade.
- Infelizmente, vamos ficar só um mês.
Talvez não dê tempo para voltar.
Acredito que ficará para uma próxima vez.
- Eu voltarei na próxima semana e trarei o colar, não é Felipe?
Podemos voltar?
Felipe olhou para Luana. Conhecia a mulher.
Sabia que quando ela pedia algo, sempre queria receber uma resposta positiva.
Respondeu:
- Talvez eu não possa voltar.
Sabe que temos muito trabalho no hospital, mas, se quiser, pode voltar com Marília.
Você se opõe Rodolfo?
- Claro que não!
Até acho bom que Marília saia de casa.
Você quer vir, Marília?
- Quero! Embora ainda não tenha conhecido a fazenda, por ser noite, estou adorando!
O avô, feliz e rindo, disse:
- Que bom! Acho que, por um bom tempo, não vou ficar sozinho.
Agora, aproveitem a festa, vão dançar!
Obedeceram e foram dançar.
Danilo e Diva continuavam dançando com o rosto colado.
Júlio e Samara, como os ciganos.
Estavam rindo, felizes, quando viram aquele carro preto, tão conhecido, parando junto aos de Felipe e de Rodolfo.
Dele desceu o pai de Júlio e mais dois soldados.
Todos tremeram principalmente Júlio e Diva.
Sabiam que seriam presos.
A música parou e todos ficaram olhando para o coronel que se aproximou do meio da roda, impedindo que Júlio ou Diva fugissem.
Luana, embora assustada, colocou-se na frente dele e disse:
- O senhor não vai levar seu filho nem minha futura nora!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:57 pm

- Sua nora, uma subversiva?
- Pode ter sido, mas agora não será mais!
Vai se casar com meu filho e me dará muitos netos, por isso estou dizendo que o senhor não a levará!
Júlio, calado, ficou olhando para o pai.
Conhecia aquele rosto, sabia o que ele era capaz de fazer por aquilo em que acreditava.
O pai, ignorando Luana, olhou para o filho e perguntou:
- Está tudo bem com você?
- Até agora, estava.
O senhor vai me levar?
- O que acha que vim fazer aqui?
- Levar-nos, mas para quê?
Em nome dessa Ditadura ridícula, sejamos presos e torturados?
Entretanto, devo lhe dizer que, façam o que fizerem, não mudaremos de ideia.
Um dia, tudo isso vai terminar e voltaremos a ser um país livre, com democracia, onde todos poderão falar o que tiverem vontade!
- Você é mesmo atrevido, não é?
- Sou seu filho!
Queria que eu fosse como?
O senhor acredita na sua luta e eu na minha!
- Fique sabendo que essa ridícula Ditadura, como você diz, só terminará no dia em que quisermos.
Nesse dia, entregaremos o país aos civis e talvez você se decepcione.
Só chegamos até aqui, por culpa daqueles que se acharam donos do país e se deixaram envolver pela corrupção, roubando o dinheiro público.
Todavia, não estou aqui para isso.
Não quero discutir política.
Vim para ver você.
Conversei com essa senhora e ela me fez ver muitas coisas.
Você é meu filho e eu, embora possa não parecer, o amo muito e quero que seja feliz.
Entendi que, como pai, eu o decepcionei, mas, daqui para frente, tentarei mudar e dar a você e a sua mãe o amor, carinho e respeito que merecem e, embora não esteja acostumado, vou procurar respeitar suas opiniões.
Só não posso garantir que não será preso, pois, se isso acontecer, nada poderei fazer... por isso, não pode continuar aqui.
Precisa ir para outro lugar.
Quanto à política, continue lutando por aquilo em que acredita e eu farei o mesmo.
Agora, venha cá...
Abriu os braços, Júlio, sem conseguir disfarçar a emoção, abraçou-se ao pai e aqueles dois homens tão lutadores, choraram como criança.
Júlio não acreditou que aquilo estava acontecendo.
A última vez em que seu pai o havia abraçado, ele deveria ter dez anos.
Daí para frente, sempre manteve uma distância significativa.
Tudo piorou, quando seu pai descobriu que ele não queria mais ser marinheiro, por discordar do que as forças armadas fizeram com o país.
Depois do abraço, separaram-se, olhou para Luana, que sorriu. Voltou a olhar para o pai:
- Não tenho para onde ir, papai, pois sei que não há como fugir.
Em qualquer lugar serei achado.
A prova é que o senhor me encontrou aqui, tão distante.
Sergei, que acompanhava a conversa e ao ver o olhar de desespero de Samara e de Zara, disse:
- Desculpem-me pela interrupção, mas, se você quiser, Júlio pode nos acompanhar.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:58 pm

Tenho certeza de que ao nosso lado estará seguro.
O pai de Júlio, admirado, perguntou:
- Faria isso pelo meu filho?
- Sim, em nome da grande amizade que existe há muito tempo em nossas famílias.
Ele não é cigano, mas, segundo sei, o primeiro Felipe desta família, embora também não o fosse, se tornou um.
Será um prazer ter você ao nosso lado, Júlio.
Júlio não conseguia acreditar que aquele homem que estava ali fosse o pai que conhecia até então.
Olhou para Luana e disse:
- Só mesmo a senhora poderia fazer com que meu pai mudasse.
Nem mesmo minha mãe conseguiu.
O que falou para ele?
- Somente o quanto eu amava meu filho e que ele deveria amar o seu.
O Coronel sorriu:
- Falando em sua mãe, olhe quem está ali.
Voltaram-se para onde ele apontava e a mãe de Júlio, chorando, se aproximava.
Abriu os braços e ele se aconchegou a ela num abraço saudoso e feliz.
- Meu filho, que bom que esteja bem.
Eu estava tão preocupada... não sabia por onde você andava.
Minha paz só voltou quando a doutora Luana foi em casa e me disse que você estava bem.
Depois que ela saiu, tentei conversar com seu pai, mas como ele sempre fez, não permitiu que eu me intrometesse em política.
Fui obrigada a sair de casa.
- A senhora saiu de casa?
- Sim. Depois de ver a altivez com que a doutora Luana defendia o filho, não restou outra solução.
- Foi isso mesmo que aconteceu.
Ela saiu de casa, o que me fez pensar em toda a minha vida.
Em como tenho sido intransigente com vocês dois.
Nunca permiti que se expressassem que dessem opinião.
Como a doutora disse, além de Coronel, sou seu pai.
Por isso, estou aqui.
- Isso não tem mais importância, Coronel.
O importante é que, agora, está tudo bem e você poderá continuar livre, Júlio.
Desejo que seja muito feliz.
Quanto a minha futura nora, o que o senhor pretende fazer com ela?
- A senhora não perde tempo, não é?
- Claro que não, assim como está protegendo seu filho, preciso proteger o meu.
- A senhora não disse que ela lhe dará muitos netos?
- Sim. Assim sendo, não terá mais tempo de tentar destruir o nosso governo.
O meu único desejo é que sejam felizes e que realmente tenham muitos filhos.
Luana, para o espanto dele, não se conteve.
Abraçou-o fortemente e beijou seu rosto.
Felipe e os outros que a conheciam sabiam que só ela seria capaz de mudar o pensamento de um homem como aquele. Sorriram.
Sergei voltou a tocar aquela música tão conhecida.
A mãe de Júlio pegou o marido pela mão e o conduziu para o meio do pátio.
Começaram a dançar em volta da fogueira.
Isso aconteceu com todos os ciganos e trabalhadores da fazenda que, felizes, rodopiavam, como se estivessem em um grande salão.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:58 pm

Dançaram, comeram e beberam a noite toda.
Luísa e Tobias também dançavam.
Ela disse:
- Tobias, quando cheguei aqui neste pátio, senti um arrepio de horror, não entendi o motivo.
Nunca estive aqui.
- Estranho, também senti o mesmo.
Meu coração chegou a doer, Luísa.
- Não entendi o que aconteceu, mas, agora, estamos bem.
Sinto que aqui, seremos felizes.
Esta fazenda é maravilhosa.
Não entendo, mas me sinto como se, finalmente, tivesse voltado para casa.
- Estranho... estou tendo essa mesma impressão... será que já vivemos aqui, Luísa?
- Não sei Tobias, mas estou me lembrando muito daquilo de que sua tia fala...
- Reencarnação?
- Sim, só ela explicaria isso que estamos sentindo.
Tobias ficou pensando.
Luana se aproximou:
- Então, como estão se sentindo?
- Muito bem, doutora.
Eu e o Tobias estávamos falando exactamente isso.
Estamos nos sentindo tão bem que parece que voltamos para casa.
- Que bom que se sintam assim.
Espero que, daqui para frente, sejam felizes.
São muito jovens e já sofreram tanto.
- Só não sabemos no que vamos trabalhar.
- Não se preocupem.
Aqui terão tudo do que precisam para ser felizes.
Agora é noite e não dá para ver nada, a não ser esse céu maravilhoso com todas essas estrelas.
Além do mais, vamos aproveitar a festa e dançar. Vamos?
Sorrindo, eles a acompanharam.
Ela pegou Felipe pela mão e saíram rodopiando.
Marcela e Samuel também dançavam felizes.
O dia estava clareando quando, cansados, foram se acomodando.
Os mais velhos ficaram com os quartos.
Os mais novos deitaram-se em redes penduradas na varanda.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:58 pm

CONHECENDO A HISTÓRIA
No dia seguinte, estavam todos cansados.
O Coronel queria ir embora, mas foi convencido por Luana a ficar ali por mais dois dias.
Ele concordou e, ao lado da mulher, do filho e de Samara, foi conhecer a fazenda.
Os casais foram se formando e também passeavam por ali.
Foram até o riacho.
Felipe e Júlio fizeram barquinhos de jornal, colocaram-nos na água e corriam, acompanhando-os.
Estavam felizes.
A paz havia voltado não só à casa de Luana, como à de Júlio também.
Após o almoço, o avô foi se deitar.
Quando se levantou, encontrou Luana e Marília, sentadas nas cadeiras da varanda, conversando.
Sentou-se ao lado delas. Luana, olhando para as montanhas, disse:
- Por mais que eu olhe tudo aqui, não me canso.
Este lugar é maravilhoso e pensar que sempre pertenceu a nossa família.
Quanta história deve ter acontecido aqui.
- Tem razão, minha filha.
Muita história aconteceu.
- Vai nos contar vovô?
- Somente o que sei.
- Conte vovô, estou curiosa.
O avô respirou fundo e começou a contar:
- Meu bisavô, que era um português rico e poderoso, veio para o Brasil.
Trouxe, com ele, sua esposa, Matilde, seus filhos, Maria Luísa e Rodolfo, e Rosa Maria, uma amiga de Maria Luísa que ficou órfã, por causa de uma febre que atingiu toda a vila onde moravam.
Minha avó dizia que muitas pessoas morreram.
Como naquele tempo o café era muito valorizado, ele construiu esta fazenda e comprou muitos escravos.
Minha avó, Rosa Maria, casou-se com Rodolfo, meu avô.
Não sei qual foi o motivo, porque nunca me contaram, minha avó foi parar em um acampamento cigano, onde meu pai nasceu.
Quando voltaram para a fazenda, ele estava com dez anos.
Meu avô, Rodolfo, e meu pai, Felipe, eram actuantes.
Meu avô, mesmo antes da abolição, libertou seus escravos.
Lutaram muito contra os outros fazendeiros para que a abolição fosse proclamada.
Depois, fizeram o mesmo pela República.
Lutaram, também, contra toda e qualquer injustiça.
Acreditando no que diz Severina, acho que são aqueles espíritos lutadores pelo bem e pela justiça e que sempre voltam.
Minha avó dizia que via um espírito que sempre aparecia nos momentos difíceis ou de felicidade.
O nome dele era Felipe.
Foi por causa dele que ela deu o nome para o meu pai que, depois, o deu a mim.
- Essa é a história dos Felipes da nossa família?
- Sim. Como os Rodolfos existem por causa do meu avô.
- Que interessante.
Nunca imaginei que havia acontecido assim.
- Quando Danilo me disse que estava fugindo da polícia por lutar contra a Ditadura, vi meu pai falando.
Naquele momento, tive a certeza de que ele é a reencarnação dele.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:58 pm

- Será?
- Tenho certeza, Danilo é o retrato vivo do meu pai.
O avô continuou:
- Meu pai se apaixonou por uma negra, disseram que era linda.
Meu pai nunca soube o que aconteceu realmente.
Não sabia se ela tinha sido jogada na linha do trem, por escravocratas, quando ele se aproximava, ou se havia se jogado.
Não a conheci, mas minha avó me criou com todo carinho e amor.
Meu pai amava esta fazenda e pediu que eu nunca me desfizesse dela.
Prometi e cumpri.
Agora que estou velho e que o mundo mudou tanto, não sei o que vocês farão.
Gostaria muito que continuassem com ela, mas sei também que, por morarem longe e terem suas vidas, isso se tornará inviável.
Enfim... cumpri minha parte...
Luana, que conhecia as intenções de Felipe e Rodolfo, mentiu:
- Não se preocupe com isso, a fazenda não será vendida, continuará na nossa família.
- Espero que esteja dizendo a verdade.
Mas, se não for possível, não se preocupe, minha filha.
Aprendi que não somos donos de nada.
Tudo o que conseguimos, durante a nossa vida, é um empréstimo de Deus.
Quando retornamos para a casa do nosso Pai, tudo fica aqui.
Marília, percebendo que ele estava emocionado, para mudar de assunto, disse:
- Que linda história, Luana.
Nem parece que aconteceu mesmo.
- Mas aconteceu, sim.
Sabe de uma coisa, Marília, enquanto vovô contava, parecia já conhecer essa história.
Segundo a sua doutrina, se Danilo foi seu pai, quem acha que eu poderei ter sido, vovô?
- Não posso afirmar, mas desde que a conheci, achei que fosse a reencarnação da minha avó, Rosa Maria.
Foi por isso que lhe dei o colar que era dela.
- Será, vovô?
- Não sei, mas, de qualquer maneira, quem fomos ontem não importa o que importa é quem somos e você, tendo ou não sido Rosa Maria, hoje é uma grande mulher e eu sou muito feliz por ter se casado com o meu neto.
Ele é um bom rapaz, merecia uma mulher como você.
- Obrigada. Eu é que me sinto honrada por poder pertencer a uma família como esta.
O avô voltou-se para Marília:
- Estou feliz por você também pertencer a nossa família, Marília.
- Também sou feliz por esse motivo.
- Preciso me penitenciar por, durante tanto tempo, ter duvidado e ficado tão distante de você, Marília. Perdão...
- Não tenho o que perdoar Luana.
Gosto de você.
Só não estou gostando de uma coisa.
- Do quê?
- Se você foi Rosa Maria, será que foi casada com o meu Rodolfo?
- Agora quem não sabe responder sou eu, mas, se fui não se esqueça de que eu ficava sonhando e vendo Felipe a todo instante, mesmo que não estivesse vivo.
Como o vovô disse, o que passou não importa o que importa é o momento e estou muito feliz.
Meu filho está feliz, minha filha, embora com alguns problemas, também encontrará o seu caminho.
Tenho Felipe a quem amo com devoção e vocês como amigos.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:59 pm

Que mais posso querer?
Mas, vovô, será que todos fizemos parte da história da família?
- Tenho quase certeza que sim, pois aprendi que, durante a vida, sempre nos encontramos com amigos e inimigos para que possamos juntos, continuar a nossa jornada.
- Que bom seria se isso fosse verdade.
- Quem pode dizer que não é, Luana?
- Tem razão, ninguém pode afirmar com certeza que a reencarnação não existe e, se ela existir, que bom que eu tenha sido Rosa Maria, gostei muito dela.
Danilo, Felipe e Rodolfo conversavam sentados em um banco no pátio.
Assim que os viu conversando na varanda, aproximaram-se.
Danilo disse:
- Que bom que estão aqui.
Mamãe estive conversando com papai e tomei uma decisão.
- Qual? Já sei, quer se casar amanhã!
- Não, mamãe.
Será no mês que vem, mas não é sobre isso que quero falar.
- Sobre o quê, então?
- Sobre uma conversa que tive com papai e o tio Rodolfo.
Um dia, eles disseram que o único que poderia cuidar da fazenda seria eu.
Naquele dia, fiquei nervoso e disse que não queria, mas, hoje, mudei de ideia.
Quero ficar aqui, cuidar de tudo, voltar a plantar café e ver esta fazenda exuberante como já foi um dia.
- Estou feliz por isso, mas e os seus estudos?
- Na cidade, tem uma Faculdade de Direito.
Basta eu trazer o meu carro e fazer a minha transferência, continuarei estudando e cuidando da fazenda também.
O avô, que acompanhava a conversa, disse, rindo:
- Eu sabia que a minha fazenda não ia morrer!
Sabia que meu pai voltaria para cuidar dela!
Eles, ao ouvirem o que ele disse, pensaram ser por causa da velhice.
Marília, olhando para Luana, sorriu.
Samuel conversou com os pais de Marcela e resolveram que se casariam dali a um mês.
Combinaram com Danilo e Diva que o casamento seria no mesmo dia.
Sergei chamou Júlio.
Perguntou:
- Deseja mesmo seguir ao nosso lado?
- Sim.
- Quero lhe avisar que nossa vida, apesar de parecer fácil, não é.
- Isso não me importa.
Além do mais, amo Samara e quero me casar com ela.
- Sabe que isso é impossível.
Você não é cigano.
- Mas posso me tornar.
Farei qualquer coisa que me pedir para ficar ao lado dela.
Sergei olhou para Samara e Zara que, aflitas, também olhavam para ele. Disse:
- Sei que minha filha também gosta de você.
Embora não seja o normal, você seguirá connosco e, se depois de um ano, ainda quiser ser um cigano e eu achar que pode, voltaremos a conversar.
- Tenho certeza de que o senhor me aceitará.
Olhou para Samara e sorriu.
Ela, entendendo o recado, sorriu também.
Depois que os dois dias passaram, todos voltaram para casa e para seus afazeres.
Danilo ficou triste ao saber que o menino de quem tanto havia gostado falecera, mas, ao mesmo tempo, sabia que ele não teria muitas oportunidades na vida.
Tobias foi contratado como capataz e começou o plantio do café.
Com a ida de Marcela para a Capital, Luísa ficou no seu lugar, ajudando Severina a cuidar da casa.
O avô estava feliz, pois sabia que sua fazenda ia renascer.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:59 pm

EPÍLOGO
Assim que chegou a casa, Luana foi até o quarto de Jerusa que estava deitada em sua cama.
Aproximou-se:
- Como você está Jerusa?
- Triste, mamãe, muito triste... eu gosto mesmo dele...
- Entendo o que está passando.
Você é jovem, portanto, sonhadora.
Como todo ser humano, sempre escolhe o caminho mais difícil e quer aquilo que lhe é considerado impossível.
Com o tempo, tudo isso passará.
Vai se apaixonar muitas vezes até encontrar aquele que será seu companheiro.
Até lá, continue estudando, se preparando para a vida.
Agora, vou lhe contar o que aconteceu na fazenda.
Contou tudo.
Terminou, dizendo:
- Danilo vai se casar com Diva daqui a um mês.
A festa vai ser na fazenda.
- Não diga mamãe!
Quando trouxe Diva aqui para casa, jamais poderia imaginar que terminaria assim.
- Estive conversando muito com Marília e com o vovô que seguem a mesma doutrina.
Segundo eles, nada do que acontece em nossa vida é por acaso.
Está tudo programado.
Só nos resta seguir ou não a estrada que se abre diante de nós.
- Acredita nisso, mamãe?
- Estou começando a acreditar.
Não foi só você ter encontrado Diva, mas Danilo ter que fugir para a fazenda e conhecê-la, se apaixonar e querer tomar conta dela.
Quando ele teve de fugir, fiquei desesperada, não imaginava que havia sido para o melhor.
- Tem razão...
- Agora, vamos nos preparar para o casamento.
Quero uma festa linda!
- Vamos, mamãe.
A senhora me convenceu de que preciso continuar minha vida.
Desejo, sinceramente, que Tobias e Luísa sejam felizes.
Luana sorriu.
Beijou a filha e saiu do quarto.
Obrigada, meu Deus, por ter feito Jerusa entender. Os dias passaram. O mês passou.
O dia do casamento chegou.
Todos foram para a fazenda.
A festa, preparada por Severina e a mãe de Marcela, foi linda.
Os ciganos continuaram ali.
Só iriam embora depois do casamento.
Em um altar improvisado no pátio da casa grande, Danilo e Diva se casaram.
A festa, como não poderia deixar de ser, foi linda.
Houve muita música, tocada por Sergei, dança e comida.
Luana estava feliz.
Mais feliz ficou quando viu Júlio abraçado ao pai, conversando e rindo alegremente.
Sua mãe olhou para Luana, que os observava e disse baixinho:
- Obrigada.
Luana sorriu.
Olhou para o morro das cruzes e também disse baixinho:
- Obrigada a todos vocês que vieram antes de nós.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 29, 2017 7:59 pm

Serafina também estava feliz por ver a fazenda viva novamente.
Sentiu uma vontade imensa de ir até o seu quarto.
Assim que entrou, viu o quarto se iluminar.
Sabia que pai Joaquim a estava visitando.
Sorriu, e ficou olhando para a luz.
Logo ele, sorrindo, e Matilde apareceram:
- Tudo bem com você, Serafina?
- Sim, véio. Agora parece que está tudo em paz.
- Sim, Severina, o passado ficou para trás.
Marcela, Jerusa e a sinhazinha Maria Luísa foram resgatadas pelo amor dos amigos.
Estão felizes, cada uma cumprindo sua missão e caminhando para a Luz.
Só podemos agradecer a Deus por toda essa felicidade.
O menino Danilo e a menina Diva, embora tenham sido impedidos, finalmente estão juntos e poderão seguir caminhando um ao lado do outro.
- Agora, podemos ir embora, Matilde.
Nosso trabalho aqui terminou.
Você trabalhou muito bem.
- Nada fiz além de acompanhar os meus queridos.
Também estou feliz por eles.
Apesar do passado, estão todos bem.
Tomara que não se desviem do caminho.
- Tomara. Neste instante, estão vivendo um momento mágico e, por isso, o passado não importa.
O que importa é o futuro e a caminhada de cada um.
Até uma próxima vez, Severina.
- Até, véio, que sua luz aumente sempre mais.
Pai Joaquim sorriu, pegou na mão de Matilde e desapareceram.
Severina deitou-se na cama e disse baixinho:
- Que Deus os acompanhe.

§.§.§- O-canto-da-ave
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