O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:25 pm

Quando estamos conversando, tenho a impressão de que o conheço há muito tempo, porém, sei que isso é impossível, só nos conhecemos há dois anos, quando entramos na Faculdade.
- Admiro aqueles que se envolvem em uma luta por um ideal.
Embora, através da história do nosso país, possamos perceber que a nossa democracia, desde a República, sempre foi ameaçada e, por diversas vezes, foi vencida.
Continuando a estudar a história do Brasil, notamos que sempre que a democracia foi abalada, houve homens que lutaram para que ela fosse restabelecida, assim como está fazendo o seu amigo Júlio e outros.
Porém, quando isso aconteceu, vários daqueles que lutaram a seu favor começaram a fazer parte do mundo político e mudaram de atitude radicalmente.
Em pouco tempo, estavam fazendo as mesmas coisas que aqueles contra os quais lutaram.
- O senhor está dizendo que a história sempre se repete?
- Sim, todo homem que chega ao poder, em qualquer mandato, logo começa a fazer parte do sistema, pois, se assim não fizer, não será aceito perante os demais e sofrerá com isso.
Há, ainda, aqueles que se deixam envaidecer pelos privilégios que o poder propicia.
O poder, infelizmente, corrompe, meu filho.
- Todos os políticos se deixam corromper?
- Graças a Deus, não.
Existe uma minoria que continua tentando seguir seus ideais e o desejo de que o Brasil deixe de fazer parte do terceiro mundo e se torne a potência que poderia ser, se não houvesse tanto roubo, tanta corrupção.
- Tenho certeza de que, se um dia, o Júlio chegar ao poder, será um desses.
- Se for assim, tomara que chegue.
O Brasil precisa de bons políticos.
- Por ele estar tão decidido é que sinto medo.
Ele está muito envolvido e agora, com tantos espiões, temo que poderá ser preso e torturado e, se isso acontecer, sinto que nada poderei fazer.
- Não se preocupe, Danilo, se isso acontecer, seu pai é um coronel, tem muitos contactos e fará com que ele seja libertado.
- O senhor acredita nisso?
- Sim, por isso, não fique preocupado.
Agora, preciso ir para casa.
Hoje, não devia estar trabalhando.
Estou cansado da viagem. Vamos?
- Gostaria de, antes de ir embora, ver como aquele menino está.
- Você se interessou mesmo por ele, não é, Danilo?
- Não consigo entender o motivo, mas sinto muito carinho por ele.
Vou até lá, papai, depois irei para casa.
- Vou com você, depois iremos para casa.
Sua mãe levou o carro e eu estou a pé.
Amanhã, retornarei ao trabalho.
Hoje, só quero chegar a casa, relaxar e descansar sem me preocupar com política, políticos ou com quem está me governando - disse isso rindo e debochando.
Danilo também riu.
Saíram do consultório e foram para o quarto do menino que só haviam conhecido naquele dia, mas por quem, mesmo sem entender o motivo, Danilo sentia tanto carinho.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:25 pm

A HISTÓRIA DE LUÍSA E TOBIAS
Luísa e Tobias entraram pela porta dos fundos, na cozinha, no exacto momento em que Luana entrava pela porta do corredor.
Assim que os viu, sorriu, dizendo:
- Parece que agora estão bem.
- Estamos sim, senhora.
Olhe como as roupas que nos deu ficaram boas.
Parece que foram feitas para nós.
- Ficaram, sim, mas, sentem-se, vamos comer.
Não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome.
Luísa sentou-se, Tobias esperou que Luana se sentasse e, em seguida, fez o mesmo.
Sobre a mesa, havia pão, frios, frutas e suco, além de café com leite.
Para eles, que estavam desde o dia anterior sem comer, aquilo representava o manjar dos deuses, mas esperaram até que Luana começasse a comer.
Ela, com um pedaço de pão na mão, disse:
- Podem começar a comer e fiquem à vontade.
Tudo isso, a Alda preparou só para nós, não é, Alda?
- É sim, senhora.
Fiz o melhor possível...
- Está óptimo.
Não está? - perguntou olhando para eles.
Luísa, também com um pedaço de pão na mão, sorriu e respondeu:
- Sim, está óptimo!
Não imaginam a fome que estávamos sentindo e, para ser sincera, jamais vimos uma mesa como esta, com tanta coisa, não é, Tobias?
Tobias continuou calado, apenas concordou com a cabeça.
- Não me diga isso?
São muito pobres?
- Sim, mas isso, antes de nosso filho nascer, nunca nos incomodou.
- Por que incomodou depois que ele nasceu?
- Porque se tivéssemos dinheiro, poderíamos ter lhe dado uma melhor alimentação e tratamento e, quem sabe, conseguíssemos curá-lo.
Luana ficou olhando para aquele casal que comia com tanta vontade, pensou:
Coitados, são tão jovens... e não sabem que, mesmo que tivessem dinheiro, nunca conseguiriam curar o filho.
Poderia lhes dizer, mas para que tirar suas ilusões, não vale a pena.
Depois de pensar, disse:
- Agora, seus problemas terminaram.
Estão aqui em casa e, aqui, nada de mal lhes acontecerá.
O menino está nas mãos de Rodolfo.
Sei que tudo o que ele puder fazer, fará.
- A senhora acha que ele vai ficar bom?
Que vai ser uma criança igual às outras?
Aquela pergunta incomodou Luana, pois não sabia o que responder.
Se mentisse, criaria, neles, uma ilusão.
Se dissesse a verdade, lhe causaria uma tristeza sem fim.
Sabendo que precisaria dar alguma resposta, disse:
- Não posso lhe responder, Luísa.
Só posso lhe dizer que Rodolfo é muito bom e que fará o melhor.
- Está bem, doutora, e obrigada por tudo o que tem feito por nós, pessoas que não conhece.
Sabe que isso é difícil de acontecer, as pessoas confiarem nas outras, dessa maneira.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:25 pm

- Não me pergunte por que, mas gostei de vocês assim que os vi e achei que deveria ajudá-los.
Sei que são pessoas boas, apenas precisando de ajuda e, eu, graças a Deus, posso ajudar.
Não haverá problema algum se quiserem continuar morando aqui, mesmo quando o menino ficar bom.
Aqui, vocês terão trabalho, casa e comida.
Também todo o tempo de que precisarem para ajeitar suas vidas.
Mas, se quiserem, podem ir embora a qualquer momento.
- Não vamos senhora!
Só se a senhora quiser!
Nunca nos sentimos tão seguros e felizes, além de o nosso filho estar sendo tratado.
O que mais a gente poderia querer, não é, Tobias?
- É sim... obrigado, doutora.
Continuou comendo, só que com os olhos perdidos.
Luísa percebeu:
- No que está pensando, Tobias?
- Em nada, Luísa...
- Claro que está, conheço você...
- Está bem, estou pensando em uma coisa que a tia Isaura me disse.
- O que ela disse?
- Que a gente nunca está sozinho e, que, na hora da necessidade, Deus sempre nos manda uma ajuda.
Hoje, pela manhã, quando a senhora encontrou e ajudou a gente, doutora, eu estava desesperado.
O menino estava daquele jeito que a senhora viu.
Eu não tinha um centavo.
Quando ele começou a passar mal, pedi ajuda a Deus, peguei a Luísa e saímos para a estrada.
Ela também estava nervosa e desesperada.
Tanto que até desmaiou.
A senhora viu, não viu?
Se minha tia Isaura tivesse aqui, ia dizer que foi Deus quem colocou a senhora e o seu marido, naquela estrada e naquela hora.
Ela diz que Deus usa algumas pessoas para ajudar outras.
Luana ouviu e, olhando para ele, disse:
- Quando fomos para a fazenda, pretendíamos voltar só amanhã.
Não sei se sabem, mas, para médicos, é muito difícil sobrar tempo para tirar férias.
Fomos até a fazenda, para visitar o avô do meu marido que está com mais de oitenta anos.
A fazenda é maravilhosa, se pudesse, eu ficaria lá pelo resto da minha vida.
Por isso, não entendi a vontade imensa de, naquele momento, vir embora.
Depois de ouvir o que você disse, Tobias, penso que, talvez, sua tia tenha razão.
Será que foi Deus quem me usou para ajudar vocês?
- Acho que foi, doutora... acho que a senhora foi um anjo enviado por Deus...
Luana deu uma gargalhada:
- Anjo? Eu?
- Sim, a senhora e seu marido.
Ele parece ser, assim como a senhora, uma pessoa de bem.
- Ele é mesmo!
É o melhor homem do mundo. Somos muito felizes.
- O seu filho, aquele que estava no hospital, também parece ser um bom moço.
- Tem também a Jerusa.
Ela é minha filha e bem diferente do irmão, mas é uma óptima moça.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:26 pm

Estudiosa e bem educada.
Sabe, Luísa, vocês estão em uma família onde todos são bons, mas, como em toda família sempre existe algum problema.
Ninguém é perfeito, temos as nossas diferenças, porém procuramos superá-las.
E vocês, como se conheceram?
- Quando eu tinha seis anos, minha mãe morreu.
Eu não conheci meu pai, foi ela quem sempre me criou.
Ela trabalhava de empregada doméstica na casa do Senhor Rafael, tio do Tobias.
- Então vocês se conhecem desde crianças?
- Não senhora. O Tobias morava em outra cidade com os pais.
O pai dele é irmão do senhor Rafael.
Quando o Tobias completou dezasseis anos e eu quatorze, o pai dele mandou que ele viesse morar com o tio para poder estudar.
Foi aí que a gente se conheceu e, escondido, começamos a namorar.
- Percebi que são muito jovens.
Foi por isso que tiveram de namorar escondido?
- Foi, o senhor Rafael disse que éramos muito crianças e proibiu, mas nada adiantou a proibição, assim que nós nos vimos, tanto eu como ele sentimos que era amor verdadeiro.
- Amor verdadeiro aos quatorze anos? - perguntou, rindo.
- Sim, o nosso amor é verdadeiro.
Não é, Tobias?
Ele sorriu e com a cabeça disse que sim.
Luana olhou para Alda que estava servindo a mesa e que sorria.
Ela sabia por que Alda sorria e, também sorrindo, disse:
- Sei o que está pensando, Alda.
- Sabe senhora?
- Sei.
Olhou para Luísa e Tobias e disse:
- Quando conheci o Felipe, ele tinha dezoito anos e eu dezasseis.
Como aconteceu com vocês, assim que nos vimos, sabíamos que o nosso amor era verdadeiro.
Nossas famílias, ao contrário das de vocês, embora achassem que éramos crianças, não proibiram o nosso namoro.
Quando nos casamos, eu estava esperando o Danilo e só tinha dezassete anos.
Estávamos na faculdade de medicina e eles nos ajudaram durante todo o tempo em que estivemos estudando.
Assim que nos formamos, fomos trabalhar no hospital da família de Felipe e estamos lá até hoje.
Existe, sim, Luísa, o amor verdadeiro e acredito que vocês se amam de verdade.
- A gente se ama, sim, doutora.
- O que aconteceu depois que o senhor Rafael proibiu?
- Quando eu descobri que estava grávida, o Tobias foi conversar com o tio, mas ele não quis saber dos nossos motivos e queria que eu tirasse a criança e que Tobias voltasse para a casa do pai.
Não podíamos aceitar aquilo! Eu não queria tirar a minha criança e o Tobias não queria ir embora.
Depois de pensar muito, resolvemos que a única solução era fugir.
Foi o que fizemos.
- Vocês fugiram?
- Sim.
- Foram para onde?
- Fomos para uma cidade vizinha.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 17, 2017 7:26 pm

O Tobias arrumou emprego em uma fazenda e eu, enquanto minha barriga não ficou grande, trabalhei na casa grande como empregada, mas, quando a dona da casa percebeu que eu estava esperando criança, me mandou embora e o Tobias ficou trabalhando sozinho.
- Quando o menino nasceu vocês moravam na fazenda?
- Sim. Uma parteira me ajudou, mas quando ela percebeu que ele estava demorando muito para nascer, conversou com o dono da fazenda e ele me levou para o hospital.
O médico disse que, como ele demorou a nascer, teve um problema no cérebro e ficou daquele jeito que a senhora viu.
Luana acompanhava o que ela dizia e sentiu um aperto no coração.
Disse:
- Talvez tenha sido esse o motivo, mas poderiam ser muitos outros.
Estou pensando em como vive a maioria do povo brasileiro.
Sei que só penso, mas não tenho ideia do que seja a pobreza.
Embora soubesse que existem pessoas pobres, como vocês, nunca as havia conhecido.
Nasci em uma família com recursos e nunca senti falta de coisa alguma.
Por isso, só posso imaginar o que seja viver nessa pobreza que você está descrevendo.
- É muito difícil, mas, apesar de o nosso menino haver nascido assim, gostamos muito dele e acreditamos que, com fé em Deus, ele ainda vai ficar bom e me chamar de mãe.
É o que mais desejo.
Você também gosta muito dele, não é, Tobias?
- Gosto de você, Luísa...
Luana percebeu que alguma coisa existia ali, mas não pôde precisar o quê.
Sabia que, infelizmente, o menino dificilmente poderia fazer o que Luísa queria, pois, pelo pouco que havia visto, percebeu que o cérebro dele havia sido muito comprometido, mas se calou e pensou:
São tão jovens e já têm tantos problemas... como a vida é estranha.
Enquanto eu tive tudo e meus filhos também, existem muitas pessoas tão pobres como eles.
- Vocês nunca mais voltaram para a casa do senhor Rafael?
- Não...
- Por que não, Luísa?
- Ficamos com medo.
Quando o menino nasceu e descobrimos que ele tinha esse problema, ficamos assustados e pensamos em voltar, mas a gente sabia que o tio não ia aceitar.
Ele não queria que a criança nascesse e ia querer muito menos agora, doente assim...
- Entendo e foram para onde?
- Continuamos na fazenda.
O Tobias continuou trabalhando, eu não pude mais, precisava cuidar do menino.
Foi muito difícil, o salário do Tobias era muito pequeno.
Depois de pagar o aluguel da casa e a despesa que fazíamos na venda da fazenda, não sobrava quase nada.
Por isso, quando a senhora pegou a gente na estrada, o Tobias disse que não tinha nem um centavo.
Vendo meu menino morrendo e sabendo que não tínhamos dinheiro para socorrê-lo, desesperei-me e desmaiei.
- Agora estou entendendo.
A vida de vocês, até aqui, foi muito dura, mas, daqui para frente, tudo vai melhorar e vocês ficarão bem.
O menino está no hospital e sendo bem cuidado.
Vocês estão aqui e ficarão enquanto quiserem.
- Obrigada, doutora.
Só mesmo Deus poderá lhe pagar todo o bem que está nos fazendo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:21 pm

- Conhecendo a vida de vocês, acredito que Deus me pagou por antecedência.
Sempre tive uma vida boa.
Nasci em uma casa em que, além de ter dinheiro, tinha, também muito amor e carinho.
Sempre fui muito feliz e tive tudo o que desejei, além de um marido e filhos maravilhosos.
Depois do que ouvi de vocês, só me resta agradecer a Deus pela vida que me deu.
- A senhora merece...
Luana, pensativa, sorriu. Luísa, terminando de comer, perguntou:
- Doutora, será que podemos voltar para o hospital e ver como nosso menino está?
- Acredito não ser necessário.
Quando saímos de lá, Rodolfo estava cuidando dele.
Hoje, nós estamos cansados.
Vou telefonar, falar com Rodolfo e saber como o menino está.
Se ele achar necessário, se o menino estiver correndo algum risco, iremos até lá.
Porém se ele estiver bem e sedado, vamos deixar para amanhã.
Não precisam ficar preocupados.
Ele está sendo muito bem tratado.
- Nunca ficamos longe dele...
- Mas ele nunca teve um tratamento como está tendo agora.
A presença de vocês não vai adiantar e vocês, justamente por terem estado ao lado dele, precisam ter um tempo de descanso, precisam ficar um tempo sozinhos.
Descansem hoje e, amanhã, quando eu for para o hospital, irão comigo.
Está bem assim?
- A senhora vai telefonar?
- Vou sim, agora mesmo.
Luana levantou-se e foi até um telefone que estava preso na parede.
Assim que atenderam do outro lado, pediu para falar com Rodolfo.
Ele atendeu imediatamente:
- Rodolfo, sou eu, a Luana.
Como o menino está?
- Sob medicação, mas parece bem.
Precisamos esperar a medicação fazer efeito para vermos o resultado.
- Acha necessário os pais irem até aí?
- Não, não é preciso.
Nada poderão fazer aqui, a não ser ficarem cansados.
Se acontecer alguma coisa preocupante, eu lhe telefono e você providencia a vinda deles para cá.
- Obrigada, Rodolfo.
Vou tranquilizar os pais.
Eles estão aflitos.
- Entendo, mas diga-lhes que, por enquanto, não há motivo para isso.
Ela conversou com ele por alguns minutos e desligou.
Voltou-se para Tobias e Luísa e disse:
- Como havia previsto, o menino está sedado e sendo medicado, Rodolfo disse que, se vocês quiserem, podem ir até lá, mas, assim como eu, não acha necessário.
Se o quadro se alterar, ele avisará imediatamente.
- A senhora acha mesmo que a gente não precisa ir?
- Acho. Agora, voltem para o quarto e procurem descansar.
Quando ele voltar para casa, o trabalho recomeçará.
E sei que não é fácil cuidar de uma criança como a sua, Luísa.
- Eu não me importo, doutora.
Sou feliz por ele ter nascido.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:21 pm

- Sei disso, mas precisam descansar e eu vou fazer o mesmo.
Vou me deitar um pouco e tentar dormir.
Fiquem em paz.
Amanhã será outro dia.
Luísa olhou para Tobias que balançou os ombros.
Ela disse:
- A doutora tem razão, Tobias.
A gente não tem o que fazer no hospital e estamos mesmo muito cansados.
Sorriram, levantaram-se e se despediram de Luana que, com os olhos, os acompanhou.
Enquanto eles saíam da cozinha, ela pensou:
Tão jovens e com tantos problemas.
Por que será que alguns, como eu, têm tanto, e outros, como eles, nada têm...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:21 pm

IDEIAS CONFLITUANTES
No hospital, Danilo e Felipe foram até a emergência, onde o menino estava em observação.
Assim que entraram, viram Rodolfo ao lado dele. Aproximaram-se.
Rodolfo percebeu quando chegaram. Sorriu, perguntando:
- Ainda está por aqui, Felipe?
Pensei que já tivesse ido embora.
- Estamos indo, mas Danilo quis vir ver como o menino está.
- Está reagindo bem à medicação.
Acredito que logo estará bem.
Por que todo esse interesse, Danilo?
- Não sei tio, mas estou preocupado com ele.
Ele é tão pequeno...
Não entendo como uma criança pode nascer assim, dessa maneira...
- Assim como ele existem muitas crianças com paralisia cerebral.
- Por que isso acontece, tio?
- Os motivos científicos são muitos.
- O que quer dizer com motivos científicos? Existem outros?
- Não sei se existem outros, só entendo dos científicos, mas Marília tem outros pensamentos.
- Que pensamentos?
- Ela está estudando uma doutrina a qual diz que todos renascemos e que estamos pagando por tudo o que fizemos em encarnações passadas.
- Como é isso, tio? - Danilo perguntou, assustado.
- Não sei muito bem, mas, segundo ela, nascemos e renascemos muitas vezes e, a cada renascimento, vamos nos lapidando até chegarmos à perfeição.
Ela diz que estamos vivendo, hoje, a vida que escolhemos ontem e que durante a nossa vida reencontramos amigos e inimigos de outros tempos.
- Como é? - Danilo perguntou, intrigado.
- Ela diz que precisamos nos encontrar com amigos e inimigos para perdoarmos e sermos perdoados.
Só assim, poderemos seguir para o aperfeiçoamento.
- O senhor acredita nisso, tio?
- Até hoje, não e nunca me preocupei...
- O que está querendo dizer com até hoje?
- Quando me vi diante desse menino, senti um mal-estar terrível e tive vontade de sair de perto dele.
Só não o fiz por ser médico e saber que ele precisava ser atendido.
Porém, quando vi sua mãe, senti um carinho enorme por ela e tive de me controlar para não abraçá-la.
Parece que a conhecia há muito tempo.
Isso me levou a pensar no que Marília disse.
Será que já conhecia esse menino e sua mãe?
Por tudo o que senti e, se formos pensar sobre o que Marília diz, ele deve ter sido meu inimigo e ela, alguém que amei muito.
- Será, tio?
- Não sei se isso pode realmente acontecer, mas que foi estranho, foi...
- Também tive essa mesma impressão, só que foi ao contrário.
Assim que vi o menino, senti por ele muito carinho, poderia dizer que até saudade.
Felipe, que estava calado ao lado deles, começou a rir e disse:
- Vocês dois estão voando!
Voltem para a Terra!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:21 pm

Rodolfo e Danilo também riram. Rodolfo perguntou:
- O que está fazendo aqui, Danilo?
A esta hora não deveria estar na Faculdade?
- Deveria, tio, mas tive uma dor muito forte de estômago e vim até o hospital para ver qual foi o motivo.
- Já o examinou, Felipe?
- Sim, e pedi que faça alguns exames, mas ele se recusa.
- Por que está se recusando, Danilo?
- Não acho que seja necessário.
Agora, depois da conversa que tivemos, acho que essa dor foi só um motivo para que eu viesse aqui para rever o meu amigo. - disse, passando com carinho a mão sobre a cabeça do menino, que, sem que imaginassem, começou a chorar e a dizer:
- Está vendo, Matilde, ele não me esqueceu...
- Estou sim, Carlos... o amor dele sempre foi muito grande por você...
- Por que não posso abraçá-lo, Matilde?
Estou morrendo de saudade...
- Sabe que está vivendo a vida que escolheu.
Quando retornou e viu que, por ter tanto poder, fez muita maldade, pediu para renascer assim, pois, com esse corpo, não poderia fazer mal algum, mas, ao contrário, seria dependente de outras pessoas.
Porém Deus nosso Pai tornou a colocar em sua vida todos eles.
Deus é muito bom, não é, Carlos?
- É sim, Matilde... é sim... mas eu gostaria de poder abraçar o meu menino, assim como Maria Luísa, minha filha amada e a quem fiz tanto mal.
- Não pode se esquecer do mal que fez para a Rosa Maria, Jerusa, Tobias e Rodolfo.
- Todos eles estão aqui ao meu lado, Matilde.
Eles querem se vingar?
- Não, ao contrário.
Todos escolheram renascer e ajudá-lo na sua caminhada.
São espíritos amigos.
Embora não entendamos, o amor e o perdão são os sentimentos mais fortes e maiores que existem.
Todos estão aqui, esperando que, dessa vez, você consiga se libertar do orgulho e do desejo de poder.
- Na situação em que estou, nada posso fazer de bem ou de mal... não sei para que renasci...
- Qualquer vida, não importa a situação, sempre tem um motivo.
Você, depois da experiência de viver em um corpo assim, se, um dia, renascer novamente com dinheiro e poder, saberá usá-los para o bem, para ajudar e não para oprimir as pessoas.
O seu espírito está caminhando, Carlos...
Está caminhando...
- Tem razão, Matilde.
Estou aprendendo muito sobre poder e dinheiro.
Alheios a essa conversa, Felipe, Danilo e Rodolfo saíram do quarto.
Enquanto caminhavam, Rodolfo perguntou:
- Está tendo algum problema, Danilo?
- Por que está perguntando isso, tio?
- Não sei, mas essa sua dor de estômago está estranha.
Dizem que o estômago reflecte a parte emocional.
- Está falando como médico? - Danilo perguntou, rindo.
- Não, estou perguntando como seu tio.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:22 pm

- Ele está com problemas na faculdade.
- Na faculdade?
Está com problemas para entender as matérias?
- Não, tio, o problema é outro.
- Que problema?
- Política, tio.
- Política? O que está acontecendo?
- O senhor sabe como está a repressão.
Alguns estudantes estão se rebelando com o governo militar e planejando alguma forma de enfrentá-lo e isso está nos causando muitos problemas.
Descobrimos que existem espiões e que eles entregam os alunos que participam, como eles dizem, dessa conspiração.
Dizem que os subversivos devem ser presos e torturados para que digam os nomes de todos.
- Você está participando de algum movimento?
- Não, tio.
- Mas deveria!
Todas as conquistas do povo brasileiro começaram pela revolta dos estudantes!
Principalmente os que estudam Direito!
- Eu, por estudar Direito, acredito que só poderemos vencer essa ditadura através das leis.
- Que leis, Danilo?
Se os estudantes de outros tempos tivessem pensado assim, a escravidão não teria terminado e o Brasil ainda seria um império.
É preciso que haja luta de um povo para que possa ser livre e democrático.
- Não ligue para o que seu tio está dizendo, Danilo.
Ele sempre foi um anarquista.
Não importa qual seja o governo que está no poder, sempre será contra.
- Não é isso, Danilo!
Apenas, sempre achei que o povo deve ser livre, deve poder falar, reclamar e exigir os seus direitos.
- Também acho, tio, porém, insisto que não é através de luta armada que isso poderá ser conquistado, mas, sim, pelas leis.
Para isso, vou ser um advogado e lutar com as armas certas.
- Deve lutar junto dos seus companheiros e não ser um covarde e se esconder.
- Pare com essa conversa, Rodolfo!
Deixe meu filho estudar e, assim, lutar com as armas certas!
Você falou em escravidão e República, dizendo que foram conquistadas através das lutas, quando, na verdade, não foi assim que aconteceu.
- Como não foi assim, Felipe?
- A escravidão só terminou quando a Inglaterra resolveu transformar os escravos em consumidores.
A república foi decidida por duas ou três pessoas.
O povo pouco teve a ver com esses movimentos.
Agora mesmo, se prestar atenção, verá que quase todos os países da América do Sul estão vivendo sob ditaduras militares.
Já se perguntou por que isso acontece?
- Não, o que acontece nos outros países não me importa.
Só quero que o Brasil seja um país livre, democrático e que haja justiça social.
- Pois deveria se importar.
Todas essas ditaduras foram patrocionadas pelos Estados Unidos.
Estão com medo de que as ideias comunistas da Rússia se espalhem pela América do Sul e Central.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:22 pm

Essa ditadura que estamos vivendo só terminará no dia em que os militares decidirem que está na hora de entregar o poder aos civis.
Antes disso, não!
- Você não sabe o que está dizendo, Felipe!
Com a força do povo, tudo pode ser mudado!
Não podemos nos conformar com essa situação que estamos vivendo!
- O povo tem pouco a ver com as decisões dos políticos poderosos!
Cada homem e cada mulher estão preocupados em como pagar as contas e criar os filhos!
Enquanto os militares não resolverem entregar o poder, se o povo tentar algum ato de rebeldia ou simplesmente se reunir para discutir a respeito, vai acontecer o que está acontecendo, prisões e torturas.
Você não se lembra das histórias que nosso pai contou?
Daquilo que aconteceu na ditadura Vargas, quando tantos jovens e adultos foram torturados e outros tantos mortos?
Para quê, Rodolfo?
Hoje, estamos em ditadura novamente?
- Se todos pensarem assim, o Brasil nunca será um país democrático, Felipe!
- Será, sim, meu irmão.
Quando interessar aos Estados Unidos.
- Você é muito radical, Felipe!
- Pode ser que seja, mas não quero meu filho envolvido em nada disso.
Quero que termine sua Faculdade e, já que não quis ser médico, que seja um bom advogado.
- Não se preocupe, papai.
Penso como o senhor e não vou me envolver em movimento algum.
Felipe olhou para o filho, passou a mão por seus cabelos e, sorrindo, disse:
- Ainda bem, Danilo.
Não sei o que faria se soubesse que você está preso e sendo torturado.
Por que você não entra em um desses movimentos, Rodolfo?
- Por que já estou velho e tenho mulher.
Além disso, tenho responsabilidades aqui no hospital.
- Está vendo, Danilo?
E assim que os adultos agem.
Falam, falam, mas não arriscam sua estabilidade.
Por isso, fico contente em ver que você não está se deixando enganar.
Quer lutar com as armas certas.
- Já disse para não se preocupar, papai.
Não faço nem pretendo fazer parte de movimento algum.
O que quero mesmo é estudar.
Rodolfo acompanhou o gesto do irmão e o que ele disse, também sorriu, dizendo:
- Agora que já terminamos a nossa discussão patriótica, vamos mudar de assunto.
Como está a fazenda e o vovô, Felipe?
- O vovô está bem.
Passou o tempo todo nos contando aquelas histórias mirabolantes da família, de sua avó e sua mãe negra, sem se esquecer dos ciganos.
Rodolfo começou a rir.
- Ele sempre nos contou essas histórias.
Disse que faz isso para não nos esquecermos de que, antes de nós, houve muita história e pessoas maravilhosas que lutaram pela família.
- Se tudo o que ele contou for verdade, realmente foram pessoas maravilhosas e lutadoras, Rodolfo.
- Sim, teve até um que lutou contra a escravatura e a favor da República.
Parece-me que foi o pai dele, nosso bisavô.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:22 pm

- Sim, foi ele mesmo.
Vovô sempre nos contou a história de que seu pai lutou pela libertação dos escravos e pela República.
- Não vamos reiniciar esse assunto, Rodolfo.
- Por quê, Felipe?
Está com medo de que, se seu filho conhecer a história da família, decida-se a também lutar por alguma coisa?
- Não, Rodolfo.
Sei que ele não vai se deixar influenciar por essas bobagens.
- Pois eu continuo achando que não é bobagem e se eu fosse mais novo, não estaria fugindo da luta.
- Acho que você errou de profissão, deveria ser político. - Felipe disse, rindo e debochando.
Danilo, percebendo que a discussão ia reiniciar, falou:
- Não conheço essas histórias da família.
Por que nunca me contou, papai?
- Sempre achei que meu avô exagerasse muito quando contava.
Além do mais, do que nos adianta conhecer a história da família? Eles viveram no seu tempo.
Hoje, tudo é diferente, as lutas são outras.
- Tem razão, meu irmão, embora o tempo e as lutas sejam outras, os motivos são sempre os mesmos.
A liberdade!
- Não vamos voltar a esse assunto, Rodolfo.
Será que não percebeu que Danilo, graças a Deus, não está interessado nessa luta inglória e que eu não tenho interesse algum em discutir sobre esse assunto, porque, embora exista uma Ditadura, ela nunca me atingiu, ao contrário, desde que se instalou, tenho tido a oportunidade de atender muito bem aos meus pacientes e, para mim, é isso o que importa.
- Por favor, parem com essa discussão que não levará a lugar algum.
Estou mais interessado em conhecer a história da nossa família.
- Quem conhece bem essa história é a sua mãe.
Ela fica ouvindo o meu avô por horas e se encanta com tudo o que ele conta.
Dessa vez, ele lhe deu um colar que disse ter pertencido a uma cigana que deu para a avó dele, no dia do seu casamento.
Disse que esse colar tem passado de geração a geração e, como ele não teve uma filha, resolveu dar para sua mãe.
Ele diz que sua avó, quando veio de Portugal, era muito jovem, mas não me pergunte mais, porque não sei.
- Também nunca dei muita atenção para as histórias que ele conta, Danilo.
Sabe como é, todo velho gosta de viver no passado.
- Pois eu não sou velho e gostaria de conhecer essas histórias.
Gostaria de saber como foram os meus antepassados, o que fizeram, o que pensaram.
A primeira coisa que queria saber é qual é o nome do vovô?
- Está dizendo bisavô, não é?
Por que insiste em chamá-lo de avô?
Sabe que ele é meu avô e seu bisavô.
- Sei disso, mas dá muito trabalho falar bisavô.
É bem mais fácil chamá-lo de vovô, o senhor não acha?
- Você é mesmo muito folgado, Danilo!
Danilo sorriu e perguntou:
- Não sou folgado, papai, só não gosto de perder tempo.
Se é mais fácil chamá-lo de vovô, por que fazer diferente?
Mas ainda não me respondeu, qual é o nome do vovô?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:22 pm

- Não sabe o nome do meu avô?
- Não, o senhor nunca disse.
Sempre o chama de vovô.
Rodolfo começou a rir.
- Do que está rindo, Rodolfo?
- Do seu filho não ter a mínima ideia de como é o nome do nosso avô.
- Não entendo por que está rindo, tio...
- Se você adivinhar o nome dele, lhe dou um doce.
Danilo olhou para o pai e, também rindo, disse:
- Não vai me dizer que o nome dele é Felipe, papai!
- Por que, não gosta desse nome?
- Claro que gosto, ele é muito bonito, mas são muitos Felipes na nossa família... não sei o nome do meu bisavô, mas sei que o nome do meu avô, seu pai, era Felipe e o seu também.
Qual foi o primeiro Felipe da família?
- Pelo que sei, foi o pai do seu bisavô, aquele que, segundo ele, nasceu no acampamento cigano.
De lá para cá, todos os homens que nasceram na nossa família receberam esse nome.
- Sendo assim, por que o meu nome não é Felipe?
- Por que cansei e resolvi quebrar a tradição, além do mais, sua mãe pediu que eu lhe desse o nome de Danilo.
Por que, não gosta do seu nome?
- Gosto, claro que gosto, só fiquei curioso.
- Ainda bem.
Não sei por que está rindo, Rodolfo.
Quantos Rodolfos existiram na nossa família?
- Pelo que sei, só um, o nosso bisavô.
- Talvez porque o meu Felipe foi mais importante que seu Rodolfo!
Quem riu agora e mostrou a língua fazendo uma careta foi Felipe.
Danilo ficou com o olhar perdido no horizonte.
Felipe perguntou:
- No que está pensando, Danilo?
- No passado e em como devem ter sido essas pessoas de quem estamos falando.
Gostaria muito de conhecer toda a história...
- Tenho uma óptima ideia para resolver esse problema.
- Que ideia, papai?
- Rodolfo, você não me perguntou como está a fazenda?
Como não poderia deixar de ser, está um pouco abandonada.
Todos da família resolveram ser médicos e não temos tempo para cuidar dela.
Você poderia transferir sua Faculdade para lá e ir morar na fazenda.
Ela não fica milito distante da cidade e da Faculdade.
Assim, poderá conhecer toda a história e cuidar dela.
- Está louco, papai?
Eu odeio mato!
Posso passar alguns dias lá, mas morar, nunca!
Rodolfo e Felipe riram do desespero de Danilo.
- Está bem, Danilo, foi só uma ideia.
Só pensei nisso porque você não quis ser médico e por isso tem todo o tempo que nós não temos.
- O senhor nunca vai me perdoar por eu ter decidido ser advogado, não é, papai?
- Nada disso, sei que nem todas as pessoas conseguem exercer uma profissão que está sempre envolvida com dor e sofrimento.
Acho que os médicos são pessoas escolhidas.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:22 pm

Rodolfo riu e, debochando, perguntou:
- Somos escolhidos, Felipe?
- Claro que sim, titio.
Preciso concordar com meu pai.
Eu jamais suportaria ver alguém gemendo de dor ou com sangue espalhado pelo corpo.
Sei que desmaiaria na hora.
Felipe e Rodolfo olharam-se e riram.
Felipe disse:
- Não se preocupe com isso, meu filho.
O mundo, assim como precisa de médicos, precisa de advogados, também.
- Tive outra ideia, Felipe.
- Qual?
- Já que ninguém quer cuidar da fazenda, poderíamos vendê-la.
- Já pensei a esse respeito, mas sabe que, enquanto o vovô viver, isso não poderá ser feito.
Ele nunca quis sair dali.
A casa continua como sempre foi.
Nunca quis trocar os móveis e a cor da pintura dos quartos.
- Ainda existem móveis daquele tempo?
- Sim, Danilo.
Todos os móveis foram trazidos de Portugal e feitos com madeira de lei e, se forem bem cuidados, nunca se estragarão.
O vovô dá muita importância ao passado e, por isso, pode não cuidar da plantação, mas da casa, cuida muito bem.
- Sendo assim, acho que, enquanto ele estiver vivo, não deve ser vendida mesmo.
- Você tem razão, Felipe.
Vamos pensar nesse assunto mais tarde.
- É isso mesmo que vamos fazer.
Agora, precisamos ir embora.
Além de estar cansado da viagem, também estou com muita fome.
- Vamos, sim, papai.
Também estou com fome.
- Isso é um bom sinal, mostra que a sua dor de estômago foi algo passageiro.
- Já tinha até me esquecido dela.
Antes de irmos, posso ir dar uma última olhada no menino?
Rodolfo e Felipe olharam-se.
Não entendiam todo aquele interesse, mas, mesmo assim, Rodolfo, respondeu:
- Podemos, sim, Danilo.
Ficamos conversando aqui e nem percebi o tempo passar.
Está na hora de eu ver se os medicamentos estão tendo resultado. Vamos.
Juntos, entraram no quarto onde o menino estava.
Danilo aproximou-se, passou a mão no cabelo dele, dizendo:
- Fique bom logo, viu?
Você é um lutador, sei que vai sair dessa.
Felipe e Rodolfo voltaram a se olhar e sorriram.
O menino, sem que Rodolfo entendesse, deixou que uma lágrima corresse por seu rosto.
Danilo sorriu, olhou para o pai:
- Agora podemos ir, papai.
Parece que ele está bem.
- Pode ir tranquilo, Danilo.
Parece que ele está reagindo bem à medicação, mas, se acontecer alguma alteração, eu telefono.
Está bem assim?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:23 pm

- Está óptimo, tio.
Estou muito preocupado com ele.
Felipe pegou no braço do filho e, juntos, foram para o estacionamento.
Assim que saíram, o menino, com lágrimas, disse:
- Esse menino é um anjo mesmo, Matilde...
- É sim e ele gosta muito de você, Carlos.
- Nem imagina o mal que fiz para sua mãe.
- Tem razão, ela nunca quis que ele soubesse.
Ele, depois que morreu, tomou conhecimento.
Mesmo assim, nunca deixou de gostar de você. Isso é um amor verdadeiro.
- É sim, Matilde... é sim... tomara que ele seja feliz nesta vida que escolheu, porque, na anterior sofreu muito.
Perdeu a esposa logo no começo do casamento e nunca mais quis se casar.
Viveu para o filho e as lembranças de Divina.
- Eles são espíritos amigos e vão continuar por muito tempo na mesma caminhada, um ajudando ao outro.
- Assim como estou, pouco posso fazer.
Gostaria de ser normal para poder reparar todo o mal que fiz.
- Você é normal, só está vivendo a vida que escolheu e que achou que seria melhor para o seu aprendizado.
Mesmo estando paralisado e dependente, seu espírito está alerta a tudo o que acontece e pode vibrar amor para todos eles que estão se reencontrando e poderão resgatar Maria Luísa, Jerusa e Marcela que ficaram pelo caminho.
- Eu só vou ficar assistindo, sem nada poder fazer?
- Na hora certa, vai ajudar.
Agora, procure dormir.
Seu corpo é muito fraco e precisa de cuidados.
- Está bem, Matilde, e obrigado por ficar ao meu lado.
Matilde sorriu, passou a mão sobre a cabeça do menino que fechou os olhos.
Quem o via, não podia imaginar que, por sua pequena cabeça, tantos pensamentos passavam, tanta vida havia.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:23 pm

MÚSICA CONHECIDA
Assim que Luísa e Tobias saíram da cozinha, Luana foi para o seu quarto.
Queria se deitar e descansar.
Foi isso que aconteceu, logo depois, adormeceu e sonhou que estava tocando piano e, que ao seu lado, Luísa sorria.
A música era linda.
Sentia, também, um perfume de rosas, estava feliz.
Por trás de Luísa, que a observava, surgiu a imagem de um homem, cujo rosto não podia ver, mas isso fez com que se assustasse e acordasse.
Deu um pulo, sentou-se na cama e ficou pensando:
Que sonho louco foi esse?
Que lugar era aquele e o que Luísa estaria fazendo no meu sonho?Levantou-se e, enquanto se arrumava, pensava no sonho e na música que não saía de sua cabeça.
Desceu e foi até a cozinha, onde não havia ninguém.
Tomou um pouco de água e foi para a sala.
Assim que entrou, olhou para o piano que estava em um canto.
Sorriu e pensou:
Há quanto tempo não sento nesse piano e não toco?
A música do meu sonho era linda!
Tenho a certeza de que nunca a ouvi antes.
Que bobagem estou pensando?
Claro que devo tê-la ouvido em algum lugar.
Vou me sentar e tentar tocá-la.
Sentou-se ao piano e começou a tocar aquela música.
O som invadiu toda a casa.
Estava inebriada tocando, pensando: Estávamos felizes eu e Luísa.
Parecia que nos conhecíamos muito bem.
Como isso pode ser?
Quem era aquele homem que me causou tanto medo?
Estava assim, distraída, e não percebeu que a porta da sala se abriu e, por ela, entraram duas moças que ficaram paradas ouvindo.
Quando Luana terminou de tocar, uma das moças perguntou:
- Que música linda é essa, mamãe?
- Olá, Jerusa, nem percebi que havia entrado.
Não sei que música é essa.
Sonhei que a estava tocando e, como ela não saía da minha cabeça, resolvi tocar.
Ela é realmente linda, não é?
- É sim, mamãe, mas tenho a impressão de já tê-la ouvido.
- Também estou com essa impressão, mas não consigo saber de onde.
Ela não me parece actual.
Enquanto falava, olhava para a moça que estava ao lado de Jerusa.
Percebendo o interesse da mãe, Jerusa disse:
- Esta é Diva, ela está há pouco tempo estudando lá na Faculdade.
Luana levantou-se e caminhou em direcção à moça.
Estendeu a mão e, sorrindo, disse:
- Olá, Diva.
Estou feliz por estar em minha casa, muito mais por ter sido trazida por Jerusa.
A moça sorriu e, apertando a mão que Luana estendia, perguntou:
- Por que está dizendo isso, senhora?
- Você é a primeira amiga que ela traz aqui em casa.
Nunca imaginei que ela tivesse uma amiga.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:23 pm

- Que é isso, mamãe, está me deixando sem graça...
- Não é essa a minha intenção e fico feliz por ter uma amiga.
Sabe o quanto já temos discutido a esse respeito.
Você é jovem e linda.
Precisa sair de casa, passear e nada melhor que uma amiga para que isso aconteça.
- Agora seu desejo vai ser realizado.
Diva chegou há pouco.
Ela não conhece ninguém e mora em uma pensão.
Sua família está toda no Nordeste.
Fui encarregada de mostrar-lhe a Faculdade e de apresentá-la aos alunos.
Sem perceber, descobrimos que temos muito em comum e ficamos amigas.
- Sabe como isso me deixa feliz.
Seja bem-vinda, Diva.
Diva sorriu e disse:
- Obrigada, senhora.
Sua filha é uma excelente moça e muito inteligente.
Estou feliz por tê-la conhecido.
A música que a senhora estava tocando é realmente muito linda... não sei por que, mas também tive a impressão de já tê-la ouvido.
É estranho, não é? Levando-se em conta que, como a senhora disse, ela não parece ser actual.
Quem será que a compôs?
- Ela é linda mesmo e também tive a impressão de já conhecê-la, só não posso lhe dizer quem a compôs, pois só a ouvi no meu sonho.
- Isso é estranho, mas ela é linda.
Poderia tocar novamente?
Luana olhou para Jerusa que, assim como a amiga, sorria.
- Está bem, preciso confessar que também estou com vontade de tocar.
Sentou-se ao piano e as moças em um dos sofás.
Começou a tocar e sentiu que estava em outro lugar, em outro tempo.
Novamente a música invadiu o ambiente.
Sentiram um perfume de rosas.
Estranharam, mas logo viram que se tratava de Alda, que entrava na sala trazendo um vaso com rosas e o colocou sobre uma mesinha de canto.
Quando terminou de tocar, Luana se levantou e sentou-se ao lado da filha, que disse:
- Mamãe, como lhe disse, Diva não conhece ninguém e está morando em uma pensão.
A senhora sabe que essa situação não é confortável, por isso gostaria que, se a senhora e o papai concordarem, ela venha morar aqui em casa.
Luana assustou-se com aquele pedido.
Olhou para Diva e depois para a filha.
Estava feliz por ver que, finalmente, Jerusa estava bem e deixara para trás aquele olhar de tristeza e desconfiança que sempre tivera. Disse:
- Por mim não haverá problema algum.
Sabe que temos vários quartos vagos, mas precisamos consultar seu pai e seu irmão e, se eles se opuserem, poderá ficar o tempo que desejar, Diva.
- Obrigada, senhora.
Prometo que, se ficar, não lhes darei trabalho algum.
- Não se preocupe com isso, pois, só de ver minha filha feliz e descontraída, sua presença já é bem-vinda.
Jerusa sorriu, pois sabia que tudo o que a mãe queria, tanto o pai como o irmão acatavam.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:23 pm

Pegando a mão de Diva, levantou-se, dizendo:
- Venha, Diva, vamos nos preparar para o jantar.
Daqui a pouco, meu irmão e meu pai deverão chegar.
Você vai conhecer os homens mais bonitos que já viu na vida!
Diva sorriu e, levantando-se, disse:
- Dona Luana, sua filha é a maior fã do pai e do irmão.
Devo confessar que estou ansiosa para conhecê-los.
- Ela é assim mesmo, mas garanto que você não vai se decepcionar.
Eles, além de lindos, são pessoas maravilhosas.
Tenho a certeza de que gostará de ambos.
Elas saíram, Luana continuou sentada, pensando no sonho e na música.
Começou a tocar novamente.
Estava assim, quando a porta se abriu.
Felipe aproximou-se e, abaixando-se, beijou sua testa.
O mesmo fez Danilo.
Luana, sorrindo, disse:
- Meus dois homens lindos chegaram.
Eles riram e sentaram-se.
Ela perguntou:
- O que aconteceu com Danilo, Felipe?
Qual foi o motivo da dor de estômago?
- Aparentemente não existe motivo, preciso fazer alguns exames, mas ele se recusa.
- Recusa-se, por quê, Danilo?
- Já pensou, mamãe, ele quer enfiar aqueles canos dentro de mim? Não quero!
- Sei que é desconfortável, mas, se for necessário, terá de fazer.
Sabe que o começo da cura de qualquer doença é o diagnóstico precoce.
- Estou bem, mamãe, e já disse ao papai que, se a dor voltar, farei os exames.
- Assim espero.
Acredito que não se trate de algo mais grave, deve ter sido algo que comeu.
Como está o menino, Felipe?
- Rodolfo está cuidando dele.
Disse que é preciso esperar o resultado dos medicamentos que estão sendo aplicados.
Por enquanto, continua em observação.
- Os pais estão aqui e muito ansiosos para ter noticias dele.
- Como eles estão se sentindo aqui em casa?
- Um pouco constrangidos, mas, com o tempo, se acostumarão.
- Dissemos a eles que poderiam morar e trabalhar no hospital.
Acha que eles preferiam que fosse assim, Luana?
- Não sei. Na hora em que estávamos conversando, imaginei que seria melhor morarem aqui, pois poderiam dar mais atenção ao menino quando obtivesse alta.
Quando isso acontecer, voltarei a conversar com eles e saber o que preferem.
- Aquele menino é lindo... merece o melhor tratamento e conforto que poderemos lhe dar.
- Você ficou muito impressionado com ele, não é, Danilo?
- É, sim, mamãe.
Não sei explicar o motivo, mas, assim que o vi, meu coração bateu forte.
Parece que o conheço, só não posso imaginar de onde pode ser.
- Assim que o vi, senti o mesmo.
Não só por ele, mas por sua mãe também.
Acabei de ter um sonho em que estava sentada em um piano tocando uma linda música, ela ouvia e sorria.
O sonho foi tão real que a música não saía da minha cabeça, mesmo depois de acordada.
Vim até aqui e a toquei de uma maneira como se a conhecesse muito bem.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:23 pm

- Isso é muito estranho, não é, mamãe?
É essa que estava tocando quando entramos?
É linda e também me parece que já a ouvi em algum lugar, mas não sei precisar onde.
Toque mais um pouco para ver se lembro.
Luana, que ainda estava sentada ao piano, sorriu e começou a tocar.
Depois de algum tempo, Danilo começou a cantarolar.
Quando Luana terminou, ele disse, eufórico:
- Agora tenho certeza de que conheço essa música, mamãe!
Já a ouvi, não sei quando ou onde, mas já a ouvi, sim!
É muito estranho, pois esse ritmo não é actual.
Parece que é de muito tempo atrás.
Felipe, que permanecia calado enquanto eles conversavam, levantou-se dizendo:
- Talvez aquilo que Rodolfo disse tenha algum fundamento.
- O que ele disse, Felipe?
- Que já vivemos em outro tempo.
Que existe reencarnação.
- Ora, Felipe, isso é coisa da Marília e daquela religião que está seguindo.
Como cientistas, acha que podemos acreditar nisso?
- A ciência não explica tudo, Luana.
- Tem razão, mas isso de se ter vivido em outros tempos é uma loucura.
- Não sei, mas estou estranhando isso que está acontecendo, Luana.
Você, Rodolfo e Danilo, ao verem o menino e seus pais, sentiram que já os conheciam.
Será que não se conheceram em outros tempos?
- Isso é loucura, Felipe!
Não pode se esquecer que, logo depois de que Rodolfo e Marília se casaram, ela começou a dizer que ouvia e via coisas.
Com o tempo, deve tê-lo influenciado.
- Sim, Luana, mas você também não pode se esquecer de que Rodolfo fez todos os exames e constatou que, fisicamente, ela estava bem.
Até hoje ele não tem explicação científica para aquilo que acontece com ela.
- Nisso você tem razão, mas deve haver outra explicação.
- Rodolfo é muito reservado.
Faz algum tempo que não converso com ele a esse respeito.
Hoje, talvez sem pensar, ele comentou.
Não sabemos como ela está.
- Conversei com ela há alguns dias, Felipe.
Ela disse que está bem e que as vozes e aparições sumiram, mas que está aprendendo a lidar com isso.
- Aprendendo, como?
- Estudando essa Doutrina. Disse que está encontrando respostas para tudo e que as vozes e visões só voltarão quando estiver preparada.
- Ela vai poder controlar, Luana?
- Ela disse que sim.
- Se isso acontecer, teremos a confirmação de que não é louca.
Que pode, sim, haver coisas que não entendemos, mas de que não podemos descrer.
- Tem razão, Felipe... tem razão...
Enquanto eles conversavam, Luísa e Tobias também ouviram a música.
Ela saiu da casa e ficou parada.
Sentiu um arrepio correr por seu corpo e uma vontade imensa de chorar e, quase sem perceber, lágrimas correram por seu rosto.
Tobias se aproximou e perguntou:
- Por que está chorando, Luísa?
O que aconteceu?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 18, 2017 8:24 pm

Ela, abraçando-o, respondeu:
- Não sei, senti uma tristeza e saudade muito grande.
- Tristeza, por quê?
Saudade do quê?
- Não sei explicar, mas assim que ouvi a música que está sendo tocada, senti que a conhecia e me deu vontade de chorar...
- Isso é muito estranho, pois também parece que já a ouvi e também não sei dizer onde ou quando.
- Quem será que está tocando, Tobias?
- Não sei, só sei que está vindo da casa, deve ser dona Luana ou sua filha, porque o doutor e o rapaz acabaram de chegar.
Eu estava aqui fora e vi quando chegaram.
A música só parou quando eles entraram...
- Deve ser a dona Luana, mesmo.
Essa música é linda, Tobias...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:09 pm

A HORA DO ENCONTRO
Luana, Felipe e Danilo conversaram por mais um tempo, depois, Danilo disse:
- Está quase na hora do jantar.
Vou tomar um banho e voltarei em seguida.
- Boa ideia, Danilo.
Vou fazer o mesmo e fiquem bem bonitos, temos visita para o jantar.
Os dois olharam para ela.
Felipe perguntou:
- Visitas? Quem?
- Alem de Luísa e Tobias, uma amiga de Jerusa.
- Amiga! Da Jerusa?
Nunca soube que ela tivesse uma amiga...
- Nem eu! Quem é ela, mamãe?
- Uma moça que chegou do Nordeste e que está estudando na mesma faculdade.
Gostei muito dela.
Parece ser uma boa moça e deve ser, pois conseguiu se aproximar de Jerusa e sabemos que isso é muito difícil.
- Por que a Jerusa é assim, mamãe, tão diferente de todos nós?
- Não sei Danilo, foi criada da mesma maneira que você, mas tem um temperamento completamente diferente.
Enquanto você é alegre, expansivo, ela está sempre triste e parece não conseguir confiar em ninguém.
Desconfia de tudo e de todos.
Confesso que muitas vezes me fiz essa mesma pergunta.
Realmente, não dá para entender o seu comportamento.
Mas, hoje, me pareceu feliz.
Essa moça conseguiu aquilo que nunca consegui, fazer Jerusa sorrir.
- Ela é estranha mesmo, mas também é minha filha muito amada.
- Por todos nós, Felipe.
Também a amamos, só ela é que não se dá conta disso.
Por isso fiquei feliz ao ver que, finalmente, arrumou uma amiga.
Espero que essa amizade faça com que mude de comportamento.
- Também espero.
Bem, vou subir e me preparar para conhecer essa amiga.
- Também vou.
Vamos, Danilo, estou curioso...
- Eu também, papai...
Subiram a escada, Luana foi até a cozinha para ver como estava o preparo do jantar e voltou no exacto momento em que Jerusa e Diva retornavam.
Percebeu o olhar feliz da filha.
Perguntou:
- Estão prontas para o jantar?
- Sim, mamãe, estamos com fome e, depois do jantar, precisamos estudar, pois, na semana que vem, teremos provas semestrais.
Papai e Danilo chegaram?
- Sim, estão se preparando para o jantar.
Enquanto o jantar não fica pronto, venham, sentem-se aqui.
Assim que se sentaram, o telefone tocou e Luana atendeu:
- Alô!
- Oi, Luana, sou eu, Rodolfo.
- Rodolfo! Aconteceu alguma coisa com o menino?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:09 pm

- Não, ele está reagindo muito bem à medicação.
Acabei de vê-lo.
Só telefonei para dizer que estou indo para casa e que está tudo bem e, se ele continuar assim, amanhã, poderá ter alta.
Pode tranquilizar os pais.
- Farei isso, obrigada, Rodolfo.
Eles devem estar ansiosos.
Boa-noite e dê um abraço em Marília.
- Darei, boa-noite.
Luana desligou o telefone.
Jerusa, que prestou atenção à conversa, perguntou:
- De que criança a senhora estava falando, mamãe?
- Não tive tempo de lhe contar, mas quando estávamos voltando da fazenda, encontramos um casal com um menino que passava muito mal e o levamos para o hospital, Rodolfo está tratando dele.
E acabou de dizer que está bem.
Quer ir comigo contar para os pais?
- Onde eles estão?
- Como são pobres e nunca estiveram em uma cidade grande, pedi que viessem ficar na casa dos fundos, até que o menino fique melhor.
- A senhora trouxe-os aqui para casa?
Como pôde fazer isso, mamãe?
- Isso o quê, Jerusa?
- Trazer para nossa casa pessoas que não conhece.
E se forem bandidos?
- O que é isso, Jerusa?
São uns pobres coitados com uma criança doente!
Não entendo como pode ser assim!
- Assim como, mamãe?
- Tão fria e sem coração.
Nada faz com que se emocione ou que acredite bondade alheia.
São pessoas que precisam de ajuda e, nós, graças a Deus, temos condições de ajudar.
- A senhora é muito confiante, acredita que só exista o bem, quando na realidade, não é bem assim. Existe muita maldade, mamãe.
- Você é quem, não sei o motivo, vê maldade em tudo e todos.
- A senhora é que é muito confiante e não vê o que acontece por ai! Acredita em todos e sabe que nunca terá uma recompensa de pessoas pobres como essas!
- Já discutimos muitas vezes a esse respeito.
Não ajudo as pessoas esperando recompensas ou pagamento.
Ajudo-as, simplesmente porque quero, posso e tenho condições e, se depois de o menino estar bem, eles não me disserem muito obrigada, não me preocuparei.
O importante é que o menino fique bem e seus pais, também.
Eles apareceram, do nada, no nosso caminho, não poderíamos deixar de ajudá-los. Não posso lhe dizer que gostei do menino, na verdade, assim que o vi, não gostei, mas isso também não tem importância.
O importante é que ele e os pais estão sob minha responsabilidade e ficarão enquanto desejarem.
O depois, será o depois...
- A senhora não existe, mesmo, mamãe.
Não posso aceitar que seja assim.
Que não tenha maldade e não veja maldade em ninguém.
- Pois eu, às vezes, fico preocupada por você ser como é.
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:10 pm

- Por quê?
- Existe um ditado que é assim: quem usa acusa...
- Não estou entendendo o que quer dizer, mamãe.
- Quero dizer que esse ditado diz que aquele que acusa deve ser capaz de fazer o mesmo.
Você, sem os conhecer, acusa-os de coisas e maldades inimagináveis.
Será que seria capaz de fazer essas mesmas maldades e coisas?
- Não sou maldosa, mamãe, só previdente.
Jamais traria para minha casa pessoas desconhecidas, encontradas no meio da estrada.
- Sabe que nunca entraremos em acordo.
Recuso-me a aceitar que todas as pessoas sejam ruins.
Claro que existem, mas a maioria, não, são boas e estão cuidando de suas vidas.
Estou indo até lá para lhes contar o que Rodolfo disse.
Quer ir também?
- Não, obrigada.
Não tenho interesse algum em conhecer esse tipo de gente.
- Sinto muito, mas vai ter de conhecer.
- Por que está dizendo isso?
- Sabe que, na casa dos fundos, não tem cozinha, por isso, terão de comer aqui.
- Aqui em casa?
- Sim, aqui em casa e na nossa mesa.
- A senhora está louca, mamãe?
Não os conhece nem sabe se eles sabem se comportar à mesa!
- Não, Jerusa, estou apenas fazendo aquilo em que acredito e só não comerão em nossa mesa se não quiserem.
Você está tendo preconceito por serem pobres, quando deveria, ao contrário, agradecer tudo o que tem e tentar dividir com aqueles que têm menos.
- Não tenho culpa de ter nascido em uma casa com tanta riqueza!
Não vou me culpar por isso!
- Não deve se culpar, mas não precisa desmerecer aqueles que não têm.
Isso, sim, é errado!
Agora, vamos parar com essa conversa.
Está quase na hora do jantar e você, parece que esqueceu, mas tem visita.
Só naquele momento, Jerusa se lembrou de Diva que, em silêncio, acompanhou toda conversa.
Envergonhada, disse:
- Desculpe, Diva, mas, se for morar aqui em casa, vai se acostumar com essas discussões.
Eu e minha família temos muitos pontos de vista diferentes.
Às vezes, chego a pensar que nasci em casa errada. - disse isso rindo e passando a mão pelo cabelo da mãe.
Diva, constrangida, apenas sorriu.
Luana também riu e saiu.
Atravessou o quintal e foi para a casa dos fundos, conversar com Luísa e Tobias.
Quando se aproximou, encontrou-os do lado de fora, perguntou:
- Tudo bem com vocês?
- Sim, doutora, só estamos preocupados com o nosso menino.
- É por isso mesmo que estou aqui, Luísa.
Rodolfo telefonou e disse que ele está respondendo bem à medicação e que, se continuar assim, amanhã receberá alta e poderá vir para casa.
- Que bom, doutora!
Estávamos muito preocupados.
Ele nasceu fraquinho, mas nunca ficou tão mal como desta vez.
- Parece que não precisam se preocupar.
Tenho um outro assunto para tratar com vocês.
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:10 pm

- Que assunto?
- Quando os encontramos, dissemos que poderiam morar e trabalhar no hospital, mas, agora, acho que seja melhor continuarem aqui, pois, assim poderão cuidar melhor do menino.
Preciso saber se concordam?
- A senhora foi um anjo que caiu em nossa vida, por isso, faremos o que achar melhor.
Só não podemos ficar aqui se não formos necessários.
Precisamos trabalhar para pagar tudo o que está fazendo.
- Sendo assim, Luísa, vocês podem continuar aqui.
Já lhes disse que preciso de alguém para cuidar das minhas roupas e do meu jardim.
Ficando aqui, uniremos o útil ao agradável.
Ficarão bem e o menino também.
- Obrigada, doutora... desculpe, mas preciso lhe fazer uma pergunta.
- Pode fazer.
Do que se trata?
- Quem estava tocando aquela música no piano?
- Eu, por quê?
- Como é o nome dela?
- Não sei, apenas toquei.
- Ela é linda e posso até jurar que já a ouvi antes, só não sei quando ou onde...
- O mesmo aconteceu lá em casa.
Também ficamos intrigados, mas não podemos deixar de dizer que, realmente, ela é linda.
Agora, podemos ir jantar.
A família vai estar toda lá e poderão conhecer a todos.
- Desculpe doutora, mas não podemos jantar ao lado da sua família...
- Por quê?
- A senhora sabe que somos simples e que não sabemos nos comportar a mesa, por isso, se não se incomodar, gostaríamos de comer aqui ou na cozinha.
Luana sorriu.
Entendendo a situação deles, disse:
- Está bem, se acharem ser melhor assim, podem comer na cozinha.
Então, vamos?
O dia foi muito agitado e estou com fome.
Sorriu. Eles a acompanharam.
Ela, para evitar constrangimento por parte deles, entrou pela cozinha. Disse:
- Alda, eles vão jantar aqui com vocês.
Alda olhou para eles, sorriu e disse:
- Tudo bem, senhora.
Assim que terminar de servir a mesa, jantaremos aqui.
Felipe já havia descido e conversava com Jerusa e Diva.
Luana entrou e foi recebida com um sorriso:
- Olá, Luana, estava conversando com as meninas.
Jerusa me contou da sua preocupação em relação aos país do menino.
Eu estava lhe dizendo que não precisa se preocupar, porque eles parecem ser pessoas de bem e só se preocupam com o filho.
Portanto, ela pode ficar tranquila.
Luana sorriu:
- Espero que tenha conseguido convencê-la, pois tentei e não consegui.
- Não sei o que acontece com vocês duas, nunca conseguem chegar a um acordo.
- Qual é o problema agora, papai?
Voltaram-se e olharam para Danilo que acabava de descer a escada e chegava à sala.
- Aquilo de sempre, Danilo.
Sua mãe e sua irmã não conseguem ter a mesma opinião sobre qualquer assunto.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:10 pm

Nem parecem mãe e filha.
Danilo, rindo, se aproximou e olhou para Diva que, paralisada, também olhava para ele.
Jerusa apressou-se e disse:
- Diva, este e meu irmão, Danilo, não sei como consegue, mas sempre está de acordo com tudo o que mamãe diz.
Danilo estendeu a mão e, sorrindo, disse:
- Muito prazer, senhorita.
Não ligue para o que Jerusa diz, ela, sim, está sempre em desacordo e faz um campo de batalha por qualquer motivo.
As mãos se tocaram, os olhares se encontraram e uma corrente eléctrica percorreu o corpo dos dois.
Diva, emocionada e com a voz embargada, disse:
- Muito prazer...
Ficaram se olhando por alguns instantes, quando Alda entrou, dizendo:
- O jantar está pronto e a mesa está servida, senhora.
- Obrigada, Alda, estamos indo.
Olhou para os outros e continuou:
- Podemos ir?
Estou com muita fome e acho que todos vocês também.
Levantaram-se e a acompanharam.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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