O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:10 pm

REVENDO CONCEITOS
Rodolfo também chegou a casa e, como sempre, estava cansado.
Médico dedicado, adorava sua profissão e entregava-se a ela de corpo e alma.
Assim que entrou, foi recebido por Ivete, a empregada da casa:
- Boa noite, doutor.
- Boa noite, Ivete, tudo bem aqui em casa?
- Está tudo bem.
- Marília está bem?
- Está sim, só que não está em casa.
- Onde está?
- O senhor se esqueceu que hoje é dia de ela ir à Casa Espírita?
Foi a tarde, deve estar chegando.
- Tem razão, esqueci completamente.
Enquanto ela não chega, vou para a biblioteca, avise-me assim que ela chegar.
- Pode deixar doutor, assim que ela chegar, eu o aviso.
Pode ler tranquilo.
Rodolfo sorriu e foi para a biblioteca, lugar onde sempre gostava de estar.
Possuía muitos livros.
Quase todos tratavam do cérebro humano.
Olhou na estante, procurou e encontrou o que queria.
Tinha fome do saber.
Sentou-se e começou a ler.
Era um livro recém-publicado.
Desejava muito conseguir curar todas as doenças que partiam dele.
Naquele dia, em especial, queria ler mais sobre paralisia infantil e tentar novamente, embora soubesse que não conseguiria, encontrar cura para aquela doença.
O menino o havia impressionado muito.
Não entendia o motivo, mas não havia gostado dele.
Pensou:
Já tratei de muitas crianças com paralisia cerebral, mas nunca senti, por nenhuma delas, o que senti hoje ao ver aquele menino.
Que sensação foi aquela?
Tudo o que aconteceu hoje é estranho.
Por que não gostei daquele menino indefeso e, ao contrário, senti tanto carinho por sua mãe?
Que sentimento foi aquele?
Por que senti tanta vontade de abraçá-la como se já a conhecesse e da qual eu sentia tanta saudade?
Será que Marília tem razão?
Será que existem, mesmo, outras vidas?
Não sei, mas estou sendo tentado a acreditar que sim, pois, se não existir, não haverá explicação para aquilo que aconteceu hoje.
Porém, como posso acreditar nisso?
Estudei medicina, conheço o corpo humano e, muito mais, o cérebro, embora precise admitir que pouco se conhece sobre ele.
Depois do que aconteceu hoje, entretanto, estou muito confuso... será que Marília tem razão?
Será que existe, mesmo, reencarnação?
Voltou os olhos para o livro e continuou a ler.
Teve de voltar algumas páginas, pois não havia se concentrado o suficiente.
Mas, como da outra vez, seu pensamento estava distante das palavras escritas no livro.
Relembrou o dia em que conheceu Marília.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:11 pm

Eu estava no quinto ano e já me preparava para fazer residência, quando ela se matriculou na Faculdade em que eu estudava.
Filha de um diplomata, morara nos últimos anos no México, onde frequentou a faculdade de Medicina.
Quando seu pai teve de voltar para o Brasil, trouxe seu histórico que foi reconhecido e conseguiu uma vaga na Faculdade.
Ela estava no quarto ano.
Lembro como se fosse hoje.
As aulas daquele dia haviam terminado.
Eu estava saindo, quando vi Raul acompanhado de uma moça.
Ao se aproximar, ele disse:
- Rodolfo, há quanto tempo não nos encontramos?
Ia lhe telefonar, pois preciso conversar com você.
- Olá, Raul. Tem razão, faz muito tempo, mas por que não me telefonou?
Quer conversar sobre o quê?
- Todos os dias, penso em telefonar, mas sabe como é, sempre deixo para depois e acabo esquecendo.
Estou precisando de um livro e, como você já o usou no ano passado, queria pedir emprestado.
- Não vejo problema algum.
Tenho todos.
Basta me dizer o nome e eu o trarei ou, se preferir, vá lá em casa para pegar.
- Acho melhor ir à sua casa, pois estudamos em horários diferentes e é difícil nos encontrarmos.
- Vá quando quiser, se eu não estiver em casa, alguém estará e poderá resolver o seu problema.
Não vai me apresentar a sua amiga?
- Claro que vou! Desculpe-me, Rodolfo.
Esta é a Marília e acabou de se matricular na Faculdade.
- Muito prazer, Marília. Seja bem-vinda.
- Obrigada, estou aqui há poucos dias e já estou me sentindo muito bem.
Assim que a vi, embora já houvesse namorado muito, sem maiores consequências senti que ela era a mulher da minha vida.
Pensando nisso, falei:
- Raul, estou indo para casa, não quer ir agora?
Além de pegar o livro, poderá almoçar também.
Sei que mora sozinho e deve sentir muita saudade da comida de casa.
- Para ser educado, poderia agradecer e dizer que não, mas, tem razão, morar sozinho não é fácil, e sinto, sim, saudade da comida de casa.
- Tudo bem, podemos ir.
Quer ir também, Marília?
Ela pensou um pouco, depois, disse:
- Posso, só preciso telefonar lá para casa e avisar que vou demorar.
Telefonou e fomos para minha casa.
A família de Raul era do interior e, por isso, ele morava em um dos apartamentos da faculdade.
De vez em quando, almoçava ou jantava em casa.
Minha mãe gostava muito dele, pois era um rapaz simples e alegre.
Estava sempre contando uma piada, o que nos fazia dar boas gargalhadas.
Daquele dia em diante, começamos a nos encontrar mais vezes.
Raul namorava, já fazia muito tempo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:11 pm

Nora, que também estudava na faculdade e frequentava o terceiro ano.
Felipe namorava Luana, por isso, saíamos sempre juntos.
Quando me formei, fiz residência clínica, mas não sabia que especialidade seguir.
Marília se formou um ano depois e quis ser obstetra.
Depois de formados, nos casamos e fomos felizes durante três anos.
Rodolfo levantou-se, andou até a estante e colocou o livro de volta.
Sabia que não tinha condições de continuar lendo.
Voltou a se sentar e a pensar:
Embora eu quisesse ter um filho, Marília dizia não ser a hora, pois desejava terminar sua especialidade e ter seu próprio consultório.
Acatei seu desejo e tudo corria bem.
Depois, devido a sua doença, nunca se sentiu com capacidade de ter, criar e educar uma criança.
Mesmo sem filhos, éramos felizes, até aquela madrugada.
Estávamos dormindo, quando Marília acordou, assustada, sentou-se na cama e, olhando para a parede em frente a cama, começou a gritar e a dizer:
- Quem é você?
O que quer de mim?
Também acordei e também me assustei por ver a expressão de medo e desespero em seu rosto.
Comecei a perguntar:
- O que está acontecendo, Marília?
O que está vendo?
Ela, parecendo não me ouvir, continuou gritando:
- É mentira!
Minha mãe está bem e não tem doença alguma!
- Marília! Fique calma!
Diga o que está acontecendo e com quem está conversando!
Por mais alguns minutos, ela continuou conversando com alguém que eu, embora olhasse para o mesmo ponto que ela, não via.
Desesperado e sem saber o que fazer, coloquei-me na sua frente para que ela não conseguisse ver o que havia na parede e comecei a sacudi-la e a dizer:
- Marília, acorde, você está dormindo!
Mesmo estando na sua frente, ela continuou, por alguns minutos, a dizer.
- É mentira!
Minha mãe está bem e não vai morrer!
Desesperado e sem saber o que fazer, abracei-me a ela e fiquei assim por um bom tempo.
Em seguida, ela, parecendo voltar de longe, deitou-se e adormeceu.
Depois de constatar que ela dormia, levantei-me e fui para o banheiro.
Lavei o rosto e, olhando para o espelho, pensei:
o que foi que aconteceu?
O que ela estava vendo?
Com uma toalha sequei o rosto, pensando:
Não preciso me preocupar, ela, embora estivesse com os olhos abertos, estava dormindo e sonhando.
Voltei para a cama e, abraçando-me a ela, adormeci.
Pela manhã, quando acordou, ela, lembrando-se do que havia acontecido, assustada, perguntou:
- Quem era aquele homem que estava no nosso quarto, Rodolfo?
- Não sei, pois, embora estivesse olhando para o mesmo ponto que você, não vi ninguém.
Foi só um sonho ruim...
- Tomara que sim...
- Por que está dizendo isso?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:11 pm

- Ele disse coisas horríveis!
Disse para eu ficar preparada, pois minha mãe vai morrer...
- Isso é bobagem, sua mãe está muito bem.
Fique calma, foi mesmo um sonho.
Rodolfo ajeitou-se na poltrona.
Estava emocionado ao relembrar aquele dia.
Não entendia, mas não deixava de pensar:
Levantamos e fomos tomar café.
Enquanto tomava café, Marília continuava distante, perguntei:
- Porque está tão distante, Marília?
- Como já lhe disse, eu vi aquele homem, Rodolfo, e ele me disse aquela coisa horrível... que minha mãe vai morrer...
- Como também já lhe disse, é bobagem, sua mãe está bem e, um dia, vai morrer, mas não vai ser hoje.
Pare de se preocupar...
- Tomara que você esteja com a razão, mas estou preocupada.
Assim que terminar de tomar o café, vou telefonar para minha mãe e saber se ela está bem mesmo.
- Faça isso, mas, agora, vamos tomar café, tranquilos.
Foi o que fizemos.
Não havíamos, contudo, terminado de tomar o café, quando o telefone tocou.
Ivete, que estava na cozinha, atendeu.
Logo em entrou na sala e, preocupada, disse:
- Doutor, a dona Sueli está no telefone e quer falar com o senhor.
Fiquei admirado, pois Sueli é irmã de Marília.
Perguntei:
- Comigo, tem certeza?
- Tenho. Ela parece muito aflita.
Preocupado, olhei para Marília que, também assustada e chorando, se levantou e, antes que eu me levantasse, correu, pegou o telefone e perguntou:
- O que aconteceu com a mamãe, Sueli?
Também corri para o telefone e abraçando-me a ela, tentei ouvir o que Sueli dizia.
Marília, após ouvir a irmã, entregou-me o telefone e, chorando mais ainda, disse:
- Eu sabia... eu sabia...
Ainda abraçado a Marília, perguntei:
- Alô, Sueli. O que aconteceu?
Ela também chorando, respondeu:
- A mamãe morreu esta madrugada, Rodolfo...
- Como morreu?
Ela estava sentindo alguma coisa?
Estava doente?
- Não, não estava doente, ao menos não sabíamos.
Ela nunca nos falou a respeito.
Papai disse que só percebeu pela manhã, ao tentar acordá-la.
- Morreu do quê?
- Não sabemos, o Milton acha que ela teve um enfarte...
- Na sua casa?
O Milton já telefonou para a polícia?
Eles devem vir buscá-la para que seja feita a autópsia.
O papai nos telefonou assim que a descobriu e viemos correndo.
Vocês vão vir para cá?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:11 pm

- Claro que sim, agora mesmo!
Desliguei o telefone.
Ivete, enquanto eu falava com Sueli, levou Marilda de volta à cadeira em que estava sentada e ajudou-a a se sentar.
Fui até ela e, abraçando-a, disse:
- Precisamos ir até lá, Marília.
- Eu lhe disse, Rodolfo... aquele homem me avisou...
Fiquei sem saber o que fazer ou falar, pois havia presenciado tudo o que acontecera naquela madrugada.
Sem muita certeza, eu disse:
- Foi apenas uma coincidência, Marília...
- Não foi, Rodolfo... aquele homem me avisou... você acompanhou tudo...
- Não sei o que aconteceu, mas não posso acreditar nisso que está dizendo.
Continuo achando que foi só coincidência...
Abraçando-a, fiz com que se levantasse e nos encaminhamos para o quarto.
Ela continuava chorando.
Eu estava muito assustado com tudo o que havia acontecido.
Fomos para o enterro.
Durante todo o tempo, Marília permaneceu calada e com os olhos perdidos no espaço.
Desesperado por vê-la assim, disse-lhe:
- Não pode ficar assim, Marília.
Como médica sabe que, assim como o nascimento, a morte também existe.
Ela não me olhou nem falou comigo.
Daquele dia em diante, mudou completamente.
Estava sempre distante.
Ficava quase o tempo todo deitada e olhando para um ponto qualquer.
Conversava com alguém que só ela via.
Chorava e ria.
Sentia medo e, às vezes, parecia estar em paz.
Preocupado, levei-a ao consultório do Nelson, um amigo nosso que é psiquiatra.
Após examiná-la, chamando-me à parte, disse:
- Ela está tendo ataque psicótico.
Com medicamentos, ficará bem.
- Vai demorar muito tempo?
- Não, se tomar as doses certas e cumprir os horários, em breve estará bem.
Voltamos para casa, mas, antes, passamos em uma farmácia e comprei os medicamentos.
Expliquei a ela o que Nelson havia dito.
Para minha surpresa, ela, calmamente, disse:
- Não vou tomar, Rodolfo!
Aquele homem que apareceu ontem disse que, se eu começar a tomar remédios, vou perder o meu controle totalmente e não terá mais volta.
Vou ficar louca!
Nervoso, eu disse:
- Você não está bem, mesmo, Marília!
Claro que vai tomar os remédios.
Você é inteligente, uma médica, como pode se deixar levar por essas crendices?
Não consigo acreditar que esteja agindo assim.
- Também não entendo o que está acontecendo, mas sei que não se trata de crendice!
Você pode não acreditar, mas eu vi e ouvi, Rodolfo!
Tudo o que ele disse aconteceu!
Minha mãe, apesar de estar bem, morreu da maneira como ele disse!
Você estava lá, acompanhou tudo!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:12 pm

- Não vamos mais falar sobre isso.
Você não é criança, sabe que os remédios são necessários!
- Não vou tomar!
Agora mesmo ele está dizendo que não posso tomar.
Disse que em breve estarei bem, sem medicamentos que só me tornarão dependente e tirarão de mim a faculdade de discernir entre o que é certo e errado.
Vendo que ela não mudaria de opinião, modifiquei meu tom de voz e disse:
- Está bem.
Já que é assim que deseja, por um tempo, não precisa tomar os remédios, mas se a sua atitude continuar igual, se ficar pelos cantos conversando com alguém que só você vê, chorando e rindo, não haverá alternativa.
Terá de tomar. Está bem assim?
Ela, beijando-me, disse:
- Está bem, não se preocupe.
Logo tudo isso vai passar.
- Como sabe?
- Ele acabou de me dizer.
- Está bem, vamos tentar.
Sabe que a amo e que não quero que nada de mal lhe aconteça.
Por isso, estou tentando encontrar uma cura para isso que está acontecendo para que nossa vida volte a ser como antes.
- Sei disso... também amo você, mas não se preocupe, tudo vai ficar bem.
Quando chegamos a casa, fomos para o quarto.
Ela deitou-se e ficou com os olhos presos na mesma parede da noite anterior.
Embora não dissesse, sabia que estava conversando com aquele homem.
Ao constatar isso, dei-lhe um beijo e saí do quarto.
Fui para a cozinha, onde Ivete estava conversando e ajudando a cozinheira.
Entrei e disse:
- Ivete, Marília não está bem e precisa tomar remédios, só que se recusa.
Fingi que aceitei sua decisão, por isso vou lhe dar os remédios e horários em que devem ser administrados.
Para que ela não desconfie, coloque no leite ou suco.
- Está bem, doutor, vou fazer isso, mas ela não está bem, mesmo.
Estou preocupada...
- Eu também, faça da maneira como lhe disse e tudo ficará bem.
- Vou fazer...
Voltei para o quarto.
Marília continuava na mesma posição.
Deitei-me ao seu lado e fiquei em silêncio.
Na hora do almoço, Ivete fez um suco de uva que sabia que, ao contrário de mim, Marília gostava muito.
Ao ver o suco, e entendendo a intenção de Ivete, fingi estar nervoso e perguntei:
- Ivete, que suco é esse?
- De uva, doutor...
- Sabe que não gosto desse suco!
- Desculpe, eu esqueci, mas já vou preparar um de laranja.
A dona Marília gosta deste.
- Está bem, traga o meu suco.
A Marília que tome esse.
Não entendo como alguém pode gostar de suco de uva!
Ivete saiu e, logo depois, voltou com uma jarra de suco de laranja.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:12 pm

Coloquei em meu copo, estava começando a tomar, quando Marília disse:
- Não vou tomar este suco.
- Por que não?
- O homem está dizendo que não é para eu tomar, que você colocou os remédios nele.
Ivete, vou tomar o suco de laranja.
Antes que disséssemos alguma coisa, ela continuou:
- Ivete, por favor, pegue outro copo.
- Você precisa tomar os remédios, Marília!
- Já lhe disse que não vou tomar.
Disse-lhe também que logo ficarei bem.
Diante de sua recusa, concordei e fiquei pensando em uma maneira de fazer com que fosse medicada.
Chamei Ivete e lhe disse:
- Ivete, precisamos fazer com que ela tome os medicamentos.
Pense em algo.
- Está bem, doutor, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.
Daquele dia em diante, Marília mudou de atitude, dizendo que não via nem ouvia nada mais.
Acreditei e, por um bom tempo, parecia que as coisas haviam voltado ao normal.
Ela voltou a ser da maneira como sempre fora.
Conversava, ria e estava sempre de bom humor.
Pensei que a paz havia voltado para casa, por isso desisti de lhe dar os remédios.
Tudo corria bem. Uma tarde, estava no hospital, trabalhando, quando comecei a sentir uma dor de cabeça muito forte.
Resolvi voltar para casa.
Assim que cheguei, Ivete me informou que Marília estava dormindo.
Fui até o quarto e abri aporta bem devagar para não acordá-la.
Entrei e parei.
Ela sem perceber a minha presença, dizia:
- Ele não vai aceitar, acho melhor continuarmos assim como estamos.
Ficou calada por mais alguns instantes, depois disse:
- Eu entendo tudo o que está me dizendo, mas devemos convir que, para alguém como Rodolfo, isso é inacreditável...
Silêncio novamente.
Ela levantou-se e foi até onde eu estava.
Ao me ver ali, estático e quase sem cor, começou a rir e perguntou:
- Está me espionando, Rodolfo?
Envergonhado, como se fosse uma criança pega fazendo uma travessura, respondi:
- Entrei devagar para não incomodá-la, não sabia que estava com visitas.
- Não estou com visitas, termine de entrar e venha para a cama.
Entrei e constatei que ela estava sozinha.
Nervoso, perguntei:
- Ainda continua conversando com aquele homem que ninguém vê, Marília?
Ela, para minha surpresa, calma, respondeu:
- Sim. Converso com ele, várias vezes por dia.
- Você está louca!
Ela começou a rir e respondeu:
- Não estou louca, Rodolfo, só conhecendo outro tipo de vida desconhecida pela maioria das pessoas...
- Que tipo de vida?
- Aquela que existe depois da morte...
- Que asneira está dizendo?
Que vida existe depois da morte?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:12 pm

Está louca mesmo!
De onde tirou essas ideias?
- Quando você me levou ao psiquiatra, também aceitei que não estava bem e que aquilo que sentia era um sintoma de loucura.
Fiquei deprimida por algum tempo, mas o homem que me visita sempre disse para eu não me preocupar, que eu era médium e que tinha uma missão muito importante.
A princípio, não aceitei, mas, depois de muito conversar, ele pediu que eu entrasse em contacto com a Marta.
Lembra-se dela?
- Claro que sim, aquela que, segundo o que dizem, segue a Doutrina dos Espíritos e que sempre me pareceu meio fora da realidade?
Marília riu gostosamente.
Tanto que fiquei admirado, pois, em uma situação como aquela, deveria, ao menos, ter ficado nervosa por ter sido descoberta.
- Ela não é louca, Rodolfo, apenas estudou e aprendeu a lidar com os mortos...
- Mortos? Você, assim como eu, sabe que o corpo, com a morte, se desfaz e nada sobra.
Esse negócio de alma ou espírito foram inventados para que os poderosos pudessem controlar os mais fracos.
Depois da morte, nada mais existe, Marília!
- Enquanto estudei, também pensei assim, mas, hoje, não penso mais.
Existe uma vida depois da morte.
- Que vida?
- Igual a esta que temos aqui...
- Não consigo entender nem aceitar!
- Sei que é difícil para você, mas, se tiver boa vontade, poderei lhe explicar.
Aprendi muito com a Marta e com o Euclides.
- Quem é Euclides?
- O homem que começou a conversar comigo.
- Começou?
Por que, tem mais algum?
Ela, parecendo dizer a coisa mais normal do mundo, rindo, respondeu:
- Sim, muitos...
- Está louca, mesmo!
- Não estou louca.
Seguindo os conselhos da Marta e de Euclides, comecei a ler e a entender o que estava acontecendo comigo.
Sou médium e posso ver e falar com os espíritos.
Com isso, poderei ajudar não só a pessoas, como aos mortos também.
A pessoa, quando morre, muitas vezes fica perdida, sem encontrar o caminho.
Com a minha ajuda, poderá ser encaminhada.
- Não sei o que dizer.
Você, embora fale como louca, está muito bem.
Não sei o que anda lendo, mas, se lhe fizer bem, continue.
- Tenho alguns livros e acho que seria bom que lesse sem preconceito.
- Não tenho interesse.
Só quero que se sinta bem.
Volto a repetir, se isso lhe faz bem, continue.
- Venha, deite-se ao meu lado.
Vamos conversar.
- Não, não estou bem, vou sair um pouco e pensar no que fazer.
- Está bem. Assim que tiver decidido alguma coisa, venha conversar comigo.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:12 pm

Embora ela tivesse dito o que estava acontecendo, nervoso e ofendido, por ela ter me escondido o que estava acontecendo, sai do quarto e fui para o jardim.
Sentei-me em um dos bancos e fiquei pensando:
Ela parece normal, mas está completamente louca e eu não sei o que fazer para ajudá-la.
Fiquei sentado sob uma árvore.
A tarde estava agradável, havia uma brisa fresca.
Continuei a pensar:
Estou há tanto tempo formado e exercendo atendimento clinico, por que, até agora, não me decidi que especialidade fazer?
Agora, acho que encontrei.
Para ajudar Marília, preciso entender o que está se passando com ela.
A melhor maneira de fazer isso é aprender tudo sobre o cérebro.
Vou fazer especialização em psiquiatria.
Preciso entender o cérebro humano e assim descobrir o tipo de doença que a está acometendo.
Foi o que fiz.
No dia seguinte, logo pela manhã fui até a faculdade e me informei de quando começaria a nova turma e me matriculei.
Estudei com afinco, mas, por mais que pesquisasse, não conseguia descobrir qual era o problema de Marília.
Porém, para minha surpresa, me apaixonei pelo estudo do cérebro e resolvi me especializar em neurologia.
Precisava entender não só o psique, mas também o interior do cérebro.
Marília, sabendo que eu não gostava daquela Doutrina, nunca mais falou sobre ela.
Fingia que estava bem e eu fingia que acreditava.
Com o tempo, vendo que ela estava bem mesmo, aceitei que lesse para mim e que frequentasse uma casa espírita.
Ela falava sobre a vida pós-morte, encarnação e reencarnação.
Mesmo assim, eu não dava muita atenção, pois, como cientista, não podia aceitar.
Sabia que ela tinha um problema cerebral e que era questão de tempo para eu descobrir.
Mas, depois de hoje, diante do que senti ao ver aquela moça, o desejo de dar-lhe um abraço saudoso e, por aquele menino, um ódio inexplicável, só me resta perguntar: será que existe mesmo encarnação e reencarnação?
Será que já conheci aquela moça?
Preciso confessar que estou em dúvida.
Preciso ler os livros e conversar com Marília...
Olhou para o relógio de pulso, levantou-se, saiu da biblioteca e seguiu por um longo corredor.
Entrou na sala no exacto momento em que Marília também entrava.
Ao vê-lo, disse, sorrindo:
- Olá, Rodolfo! Desculpe-me pelo atraso, mas, por um motivo especial, a reunião se estendeu.
Aproximaram-se e beijaram-se, de leve, nos lábios.
Curioso, ele perguntou:
- Que motivo foi esse, posso saber?
- Claro que pode.
Vamos nos sentar e eu lhe contarei.
Sentaram-se em um dos sofás da sala.
Ela disse:
- Como sempre, estávamos em reunião.
Às segundas-feiras, temos desenvolvimento mediúnico, onde os médiuns pintam belas telas, compõem músicas e recebem mensagens através da palavra falada e escrita.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 19, 2017 7:13 pm

Como você sabe, eu recebo mensagens através da escrita.
Já estou até escrevendo um livro.
- Sei que está escrevendo um livro, mas sei também que, até agora, não quis que eu lesse uma palavra sequer.
- Vou lhe mostrar no dia em que acreditar que não sou eu quem o está escrevendo.
- Por que está dizendo isso?
- Sei que não acredita que um espírito possa envolver as vidas das pessoas e que se eu lhe mostrar o meu livro, vai dizer que é obra minha e não de um espírito, quando, na realidade, tenho certeza de que não é assim e que quem me envia através da intuição é o Euclides.
- Você me conhece muito bem.
Se eu acreditar no que está dizendo, vou ter de acreditar que todos os livros escritos são obras dos espíritos.
Ela sorriu e, piscando um olho, disse:
- Por que não?
- Porque nem todos os escritores são espíritas...
- Porém, todos são filhos do mesmo Deus, Rodolfo e, portanto, todos têm suas energias, seus amigos e inimigos espirituais.
Já lhe disse algumas vezes que, para Deus, não existe religião.
Todas elas não passam de denominações criadas pelos homens.
Deus é o criador de tudo e de todos.
As denominações religiosas e as fronteiras entre países também foram criadas pelos homens.
Para Deus, nosso criador, somos, todos, Seus filhos amados e todos, sem excepção, estamos caminhando para a perfeição.
Por isso, acredito que não só os livros, mas as músicas, as pinturas e todas as invenções que, aparentemente, pertencem aos seus criadores, não passam de inspiração Divina para que nossa vida, aqui na Terra, seja sempre melhor e que, através delas, possamos viver em paz.
- Se tivesse me dito essas coisas em outros tempos, Marília, eu não acreditaria, mas, hoje, é diferente.
Estou levado a crer que pode até ser verdade...
Ela, admirada, pois nunca pensou ouvir isso ou qualquer coisa parecida, perguntou:
- Por que está dizendo isso, Rodolfo?
- Hoje aconteceram coisas muito estranhas...
- O que aconteceu?
Ele lhe contou de como se sentiu desde que viu o menino e sua mãe. Terminou, dizendo:
- Não sei Marília, mas, durante o dia, fiquei pensando em tudo o que você tem falado e cheguei a acreditar que existe, mesmo, reencarnação...
- Existe, sim, Rodolfo!
Pois, se não existir, não teremos respostas para muitas coisas que acontecem no mundo!
- Se realmente existir, o que significa aquela vontade de abraçar aquela moça?
Será que já a conheci antes?
Ela, rindo, e com um ar de preocupação, perguntou:
- Pode ter certeza que sim, Rodolfo, por tudo o que está me dizendo, chego até a ficar preocupada.
Será que ela é um amor antigo?
- Não, Marília!
A vontade de abraçá-la não era a de um homem para com uma mulher, mas, sim, a de um amigo, diria até que a de um irmão...
- Você deve se sentir um privilegiado, pois a encontrou aqui na Terra e pode confirmar.
Posso lhe garantir que isso acontece com poucas pessoas.
Podemos ter a sensação de ter conhecido alguém, mas nunca a certeza.
Você pode ter a certeza disso.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:21 pm

- Como posso confirmar?
Ela, sorrindo, abriu a bolsa e dela tirou um papel que entregou a ele, dizendo:
- Eu lhe disse que a reunião atrasou, só não disse o motivo.
Estávamos terminando a reunião, senti uma vontade imensa de escrever.
Voltei a pegar o papel e o lápis que já havia guardado e escrevi isso.
Não entendi, mas, depois de tudo o que me contou, resolvi mostrá-lo para você.
Rodolfo, desconfiado, pegou o papel e começou a ler:

Sinhazinha Rita,
Tenho uma mensagem pra lhe dá.
Leva ela pro sinhozinho Rodofo i avisa qui à sinhazinha cabô de chegâ.
A sinhazinha, irmã dele, vortô pra ele incuntrá.
Agora ele vai pode Judá cum carinho e amô.
Qui ela vai percisá.
Tão tudos junto de novo.
Pra judá aqueles que no caminho ficô.
Deus bençoe a todos Por aceitá a missão.
Com muito amo.
O mais importanti di tudo, não podi si esqucê, não qui é di dá o perdão di todo coração.
Quem tá iscrevendo essas coisas pro sinhozinho é o Pai Juaquim, que nunca dexô eli suzinho.

Rodolfo, emocionado, terminou de ler e olhou para Marília, perguntando:
- O que significa isto, Marília?
- Não sei Rodolfo, apenas escrevi o que me foi intuído.
Confesso como já lhe disse, que também não entendi e não ia mostrar para você, mas, diante de tudo o que me contou, resolvi mostrar.
- É muito estranho, mas, se for verdade, aquela moça foi minha irmã, Marília?
- Não sei Rodolfo, mas tudo leva a crer que sim.
- Isso explicaria, também, o carinho que Danilo sentiu pelo menino...
- Talvez.... precisamos conversar com a Luana e o Danilo...
- Acha que será bom?
Sabe que eles não acreditam em nada disso, Rodolfo.
- Sei disso, mas, embora não tenhamos conversado a esse respeito, posso garantir que Luana também sentiu alguma coisa em relação à moça!
- Acredita mesmo, Rodolfo?
Será que ela também fez parte do seu passado?
- Agora, neste momento, não sei se acredito ou não, mas estou curioso e preciso obter respostas.
- Também estou curiosa.
Mas, agora, está na hora de jantarmos.
Depois do jantar, você telefona para Luana e conversa com ela. Está bem assim?
- Tem razão, com tudo o que aconteceu, até esqueci que estava com fome, mas, agora, ela voltou com toda força.
Vamos jantar, depois conversaremos com a Luana.
Levantaram-se e foram em direcção à sala de refeições, onde a mesa já estava colocada. Sentaram-se.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:21 pm

DESENTENDIMENTOS
Na casa de Luana, terminaram de jantar e voltaram para a sala de estar.
Sentaram-se. Danilo e Diva tentaram disfarçar, mas, quando um não estava olhando, o outro olhava.
Algumas vezes, os olhos se encontraram e sentiram-se constrangidos.
Mesmo assim, tentaram conversar com os outros.
Felipe, sem perceber o que estava acontecendo, disse:
- Bem, Diva, você pode se considerar uma privilegiada.
- Por que o senhor está dizendo isso?
- É a primeira amiga que Jerusa traz para que conheçamos.
Não sei se sabe, mas ela sempre foi muito sozinha e calada.
Nunca confiou em alguém o suficiente para considerá-lo amigo.
Nós sempre achamos e dissemos a ela que, diferente de todos nós, é anti-social.
- Talvez tenha sido esse o motivo para nos darmos bem, pois também sou considerada por minha família dessa maneira.
É, preciso controlar, tenho dificuldade em fazer amizades.
Sou muito reservada.
Disse isso, olhando para Danilo, que sorriu.
Jerusa, demonstrando nervosismo, disse:
- Não se trata de ser anti-social, não suporto as conversas fúteis das moças de minha idade.
Só pensam em namoros e rapazes!
- Ora, minha filha.
Elas estão certas, vivem sua idade.
É natural que os jovens sintam atracção pelo sexo oposto.
- Entendo isso, mamãe, mas não pode ser o único objectivo da vida.
- O jovem pode e deve viver sua idade no tempo certo, pois o tempo fará com que encontre o seu caminho, mas, se você pensa assim, só nos resta aceitar.
Sei que, mesmo sendo criados da mesma maneira, os filhos são diferentes.
Acho que o instinto e as tendências fazem parte de cada um.
Agora, parece que você encontrou uma amiga e isso é muito importante e, ao mesmo tempo, fico preocupada.
- Preocupada com o quê, mamãe?
- Por nunca ter tido uma amiga, me preocupa que você se entregue a essa amizade com muito ardor, que espere muito dela e possa, por isso, ser machucada.
- Por que está dizendo isso, senhora?
Acha que não sou boa companhia para sua filha? - Diva, ofendida, perguntou:
- Não, acho que você será uma óptima companhia.
O que me preocupa é Jerusa pensar que, por ser sua amiga, você não tenha defeito algum, quando, na realidade, não existe ninguém perfeito.
O que me preocupa é ela esperar demais.
- Não sou perfeita, tenho meus erros e minhas qualidades, mas posso lhe garantir que minhas qualidades são maiores.
- Não duvido disso, só quero alertar Jerusa para o facto de sonhar demais e dever aceitar a todos como são, não importa se ricos, pobres, cultos ou não.
Ela tem muito preconceito, você já pôde notar.
Desconfia de todos e se deixa levar pelas aparências.
Isso, quase sempre, causa dor.
- Ora, mamãe, sei qual é o motivo disso que está dizendo.
- Não existe motivo algum, só me preocupo com você e não quero que sofra.
O preconceito e a solidão só trazem tristeza e sofrimento.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:21 pm

- Eu não sofro nem me sinto só, mamãe!
Sou até muito feliz.
Só não tenho paciência para conversas fúteis.
- Está bem, Jerusa, não vamos discutir mais.
- A senhora está dizendo tudo isso, porque eu disse que não deveria ter trazido para casa essas pessoas que encontrou na estrada e que não sabe quem são.
- Em parte, é isso mesmo, você não os conhece e já está sendo injusta.
São pessoas simples, sim, mas de boa índole.
- Como pode saber, mamãe?
Acabou de conhecê-los!
- Não os conheço, mas sei sentir e sinto que são pessoas boas.
- Já que é assim, quero conhecer essas pessoas e ver se tenho o mesmo sentimento.
Sem que pudesse ser impedida, Jerusa levantou-se e caminhou em direcção à cozinha.
Luana, preocupada, também se levantou e foi atrás.
Jerusa entrou na cozinha, olhou para Luísa que estava sentada comendo e de frente para ela e, fingindo calma, disse:
- Boa noite, estou aqui para conhecer as pessoas que minha mãe trouxe para casa.
Luísa levantou-se, o mesmo fez Tobias que estava sentado de costas para a porta por onde ela entrou e ficou, agora, sim, de frente.
Jerusa olhou para Luísa e sorriu, dizendo:
- Muito prazer, parece que conquistaram toda a minha família.
- Obrigada, senhorita, a sua família é muito boa...
- Sei que é, por isso, sujeita a ser enganada.
Luana que chegara logo atrás, disse com a voz grave e demonstrando descontentamento:
- Jerusa, quero lhe apresentar os nossos convidados.
Jerusa, fingindo não perceber que mãe estava lá, voltou-se para ela, olhou em seus olhos e não pôde dizer palavra alguma.
Tobias, que havia notado o tom ríspido como ela falava, encarou-a.
Jerusa olhou para ele por alguns instantes e depois, sem nada dizer, saiu da cozinha e, calada, foi para seu quarto.
Luana, constrangida, disse:
- Desculpem minha filha, ela é assim mesmo, desconfia de tudo e de todos, mas, quando a conhecerem melhor, verão que é uma óptima pessoa.
- Não precisa se desculpar, doutora.
Entendemos a atitude dela.
Afinal, somos estranhos e a senhora nos trouxe para sua casa.
É natural que ela desconfie.
- Tem razão, mas ela vai entender.
É uma boa moça...
Luísa sorriu.
Tobias ficou intrigado, mas se calou.
Luana voltou para a sala, onde todos continuavam conversando, menos Jerusa.
Disse nervosa:
- Felipe, sua filha não está bem!
Ela precisa de um tratamento!
- Não sei por que você está tão nervosa, Luana.
Ela sempre foi assim.
Sempre se isolou, parece que sente alguma culpa.
- Culpa do quê, Felipe?
- Como vou saber, ela só diz que sente culpa, mas, também diz que não sabe o motivo.
- Até entendo, mas isso não lhe dá o direito de ser indelicada!
Você precisa conversar com ela!
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:21 pm

- Vou conversar, mas não vai ser hoje.
Ela precisa ficar só e pensar em tudo o que fez e na sua vida.
- Acalme-se, mamãe.
A senhora está nervosa à-toa.
Sabe que ela sempre age assim, para, logo em seguida, se arrepender e pedir desculpa.
Diva, também constrangida por aquela situação, olhando para todos e, principalmente para Danilo, disse:
- Preciso conversar com ela e, se permitirem, vou até o seu quarto.
- Claro que pode ir, Diva, e desculpe-nos por essa situação desagradável.
- Se vai morar aqui connosco, precisa ir se acostumando.
Jerusa faz questão de sempre provocar uma crise.
- Não fale assim, Danilo!
Ela é sua irmã!
- É minha irmã, sim, mamãe, mas não é por isso que não sei os defeitos que tem... - disse, rindo.
Diva levantou-se e foi para o quarto de Jerusa.
Bateu, devagar, à porta e entrou.
Jerusa estava deitada e chorando.
Diva se aproximou e perguntou:
- Por que está assim, Jerusa?
Jerusa, que estava com o rosto virado para o outro lado, voltou-se e respondeu:
- Não sei, Diva!
Não consigo me enquadrar nesta família!
Parece que não faço parte dela!
Parece que sou uma estranha!
Ninguém gosta de mim!
- Não fale assim, Jerusa, isso não é verdade.
Sua família gosta muito de você e está preocupada.
Sua mãe disse que você precisa de ajuda, de um tratamento.
Quem sabe, alguém possa ajudá-la a entender o que está acontecendo.
- Você também está achando que preciso de um tratamento psiquiátrico?
Também acha que sou louca?
- Não! Não disse isso.
Acho que precisa conversar mais e dizer o que está sentindo.
Não entendo sua reacção, estava bem e, de repente, se descontrolou.
Quando foi para a cozinha, estava bem, o que aconteceu lá?
- Estava bem, mesmo, só queria afrontar minha mãe.
- Por quê, Jerusa?
Sua mãe me pareceu ser uma pessoa muito boa.
- Esse é o problema!
Ela é muito boa e está sempre tentando ajudar as pessoas!
Você mesma viu que ela, sem pensar nas consequências, trouxe para nossa casa aquelas pessoas que conheceu na estrada.
Nem sabe de quem se trata.
E se forem bandidos?
- Existem pessoas que são assim, Jerusa.
Cada um é da maneira que é e ninguém fará que mudem.
Aprendi com minha mãe que devemos aceitar a todos da maneira como são.
- Nisso está certa, então, por que não me aceitam como sou?
- Eu aceito, mas até agora não entendi qual foi o motivo de ter ficado tão descontrolada.
- Não sei lhe responder, Diva.
Entrei na cozinha para conhecer as pessoas.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:22 pm

Quando vi a moça, senti um ódio incontrolável, mas, quando olhei para o rosto do marido, estremeci, senti muita ternura, uma vontade imensa de abraçá-lo, beijá-lo e de pedir-lhe perdão.
- Perdão, por quê, do quê, Jerusa?
- Não sei dizer, mas senti um enorme sentimento de culpa.
Assim que o vi, fiquei paralisada e não pude dizer uma palavra sequer.
Não sei o que estava acontecendo e me desesperei.
- Também não consigo entender... o que será que isso significa, Jerusa?
- Não sei... não sei...
- Não entendemos, mas deve existir uma resposta.
Sempre existe...
- Não sei, Diva, mas, às vezes, chego a pensar que tia Marília, que todos consideram louca, é quem está com a razão...
- Quem é tia Marília?
- A esposa do meu tio Rodolfo.
Ele é irmão do meu pai.
- Por que ela é considerada louca?
- Ela diz que vê os mortos e fala com eles.
- Como?
- É isso mesmo, Diva. Diz que existe vida após a morte e que nascemos e renascemos muitas vezes.
- Você acredita nisso?
- Até agora, não, porém, estou sendo levada a creditar.
- Por que está dizendo isso, Jerusa?
- Porque, se realmente existir reencarnação, eu teria respostas para tudo o que está acontecendo e o que estou sentindo.
- Não estou entendendo...
- Segundo ela, nascemos e renascemos muitas vezes em lugares e situações diferentes.
Isso explicaria a culpa que sinto, não sei do quê.
O ódio qui senti por aquela moça e a ternura que tive para com seu marido.
- Isso é muito louco, Jerusa!
- Também sempre achei isso, mas, hoje, não sinto mais.
A reencarnação explicaria por que me sinto tão diferente de todos aqui em casa.
Ela, enfim, explicaria tudo...
- Sendo assim, por que não telefona para sua tia e conversa com ela?
- Não sei... ela foi sempre tão discriminada, que, talvez, não queira falar a respeito.
Meu tio não fala e a família também não.
Ela é muito reservada e nos visita muito pouco.
- Nada entendo sobre isso e devo confessar que nunca me preocupei muito com essa história de religião.
Acredito que só o trabalho constrói e faz com que as pessoas possam viver com dignidade, mas, diante disso que disse, gostaria de conhecer melhor, pois também tenho alguns questionamentos que, talvez, só a reencarnação possa responder.
- Estou pensando muito nisso...
- Ainda é cedo, Jerusa, telefone para sua tia.
Quem sabe ela esteja disposta a conversar a respeito.
- Acha que devo fazer isso?
- Por que, não? Para tudo, na vida, existem só duas respostas.
Sim ou não. Portanto, ela pode dizer que aceita ou não conversar com você.
Se disser sim, óptimo.
Marque um encontre e converse, tire todas as suas dúvidas.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:22 pm

Se disser não, procure em outros lugares.
Deve existir literatura que fale a esse respeito.
Jerusa ficou olhando para Diva por alguns instantes, depois, disse:
- É isso que vou fazer.
Vou telefonar agora mesmo.
Pegou o telefone e discou o número da casa de Rodolfo.
Ele atendeu e se admirou:
- Jerusa! O que aconteceu?
- Nada de grave, tio.
Eu queria falar com a tia Marília.
Ela está aí e pode me atender?
- Está e acredito que possa atendê-la, mas do que se trata?
- De um assunto muito sério.
Preciso conversar com ela.
- Está bem. Vou passar o telefone para ela.
Intrigado, entregou o telefone para Marília, que também, curiosa, atendeu:
- O que aconteceu, Jerusa?
Por que está telefonando a esta hora?
- Desculpe o horário, tia, mas preciso falar, urgente, com a senhora!
- Você está muito nervosa.
O que aconteceu?
- Preciso conversar com a senhora sobre reencarnação.
- O quê?
- É isso mesmo, tia.
Estou com algumas dúvidas e acredito que só a senhora poderá me ajudar!
- Fique tranquila.
Eu e o Rodolfo conversamos e decidimos que, assim que terminássemos o jantar, ele ia telefonar para seus pais.
Precisamos mostrar-lhes algo e conversar a respeito.
Assim que desligar o telefone, ele vai telefonar e iremos até aí.
Está bem assim?
- Está, tia. Não sei de qual assunto irão tratar, mas, seja qual for, antes de ir embora, preciso muito falar com a senhora.
- Estamos telefonando e indo.
- Obrigada, tia.
Estarei esperando.
Desligou o telefone e disse para Diva:
- Eles pretendiam mesmo vir aqui em casa conversar com meus pais, Diva.
- Sobre o quê?
- Ela não disse, mas deve ser um assunto muito grave para virem a noite.
- Vamos esperar e, depois que conversarem, traga sua tia aqui para o quarto e converse com ela.
Sinto que, depois dessa conversa, tudo vai ser esclarecido e você se sentirá melhor.
- Assim espero... assim espero...
No mesmo instante, Felipe conversava com Rodolfo pelo telefone:
- Precisamos conversar com você, Felipe, principalmente com Luana e Danilo.
- Do que se trata, Rodolfo?
Está me parecendo nervoso.
Estou preocupado...
- Não estou nervoso, só precisamos conversar e esclarecer algumas coisas e não pode ser por telefone.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:22 pm

Podemos ir até aí?
- Podem, claro que podem.
Nem precisava ter telefonado. Marília também vem?
- Sim. Trata-se de um assunto que só ela poderá esclarecer.
- Estaremos esperando.
Desligou o telefone e, atónito, olhou para Luana e Danilo que também o olhavam.
Luana perguntou:
- O que aconteceu, Felipe?
- Não sei. Rodolfo disse que Marília precisa conversar connosco.
- Marília? Conversar connosco?
Sobre o quê?
- Não sei. Ele não disse.
Luana, balançando os ombros, disse:
- Só nos resta esperar para ver do que se trata.
Deve ser um assunto muito sério para Marília vir aqui.
Foi o que fizeram.
Esperaram.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:22 pm

RECONHECIMENTO
No dia seguinte, Luana e Felipe tomavam café, quando Jerusa e Diva entraram apressadas:
- Bom dia, mamãe, papai.
- Bom dia, Jerusa, bom dia, Diva. Sentem-se.
Diva e Jerusa sentaram-se, Luana disse:
Hoje não precisa chamar o táxi, Jerusa.
- Por que não, mamãe?
- O Tobias, aquele rapaz que eu trouxe aqui para casa, é motorista e vai levá-las para a faculdade.
Já deve estar esperando, portanto, apressem-se.
- Ele é motorista?
- Sim, mostrou-me a carteira de motorista.
Ele vai estar à disposição de você e da Alda.
Vai ficar no lugar do senhor João.
- Será que vai dar certo, mamãe?
Ele conhece a cidade?
- Não sei se vai dar certo, ele não conhece a cidade, mas você ensinará o caminho para que ele possa chegar à faculdade e a Alda, o caminho que precisar.
Sabe que temos necessidade de um motorista.
Já que ele está aqui, vamos experimentar.
- Não sei, não...
- Não sabe o quê, Jerusa?
- Não sei se ele tem competência para exercer esse cargo.
- Para isso, existe um tempo de experiência.
Vamos tentar e, depois, veremos.
- Está bem, a senhora tem razão.
Vamos, Diva.
Estamos atrasadas e ainda teremos de ensinar o caminho. - disse, contrariada.
- Teremos, não, Jerusa!
Você terá, pois eu também não conheço o caminho.
Jerusa sorriu e disse:
- Tem razão, eu sou a responsável pela nossa chegada à Faculdade.
Onde está o Danilo?
- Ele saiu agora pouco.
Não tem medo de dirigir... - Luana disse com ironia na voz.
- A senhora não se conforma com esse meu medo, não é mamãe?
- Não me conformo mesmo e não entendo como uma pessoa pode não gostar de dirigir!
- Eu não gosto, sabe que tenho medo.
- Você tem medo e desconfia de tudo e de todos!
Como pode ser isso?
- Não sei...
Sinto-me culpada, não sei bem do quê...
- Acho que deveria procurar ajuda.
- Sabe que já fiz isso, mas ainda não encontrei o motivo...
- Está bem. Não precisa ficar aflita.
Termine de tomar seu café e vá para a faculdade.
Terminaram de tomar o café, despediram-se e saíram.
Como Luana havia dito Tobias, vestido com um terno preto, camisa branca e um quepe, também preto, estava postado junto ao carro que havia terminado de lavar.
Jerusa se aproximou, dizendo:
- Bom dia!
- Bom dia, senhoritas...
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:22 pm

Abriu a porta de trás do carro para que entrassem.
Elas, em silêncio, entraram e sentaram-se.
Tobias abriu a porta do motorista, entrou e colocou o carro em movimento.
Assim que chegou à esquina, ele, um pouco constrangido, disse:
- Senhorita, sua mãe lhe disse que eu não conheço o caminho.
Nunca dirigi em uma cidade grande.
- Sim, não se preocupe, eu ensinarei.
Pode virar à esquerda.
Ele obedeceu.
Enquanto dirigia, pelo retrovisor olhava para Jerusa que fingia não ver.
Ele, constrangido, voltava os olhos para a estrada e pensava:
Essa moça não gosta de mim.
O que vai acontecer se ela reclamar qualquer coisa para a doutora?
Ela foi tão boa, está cuidando do nosso filho e nos deu um tecto.
Tomara que eu consiga fazer com que essa moça me aceite.
Preciso conseguir isso...
Jerusa, embora fingisse que não estava percebendo, sentia seu olhar e, por mais que quisesse, não podia desviar o seu.
Também pensava:
Eu posso até jurar que já vi esses olhos em algum lugar.
Onde terá sido?
Eles dizem que nunca moraram aqui na cidade... será que foi de outra encarnação?
Se tia Marília estivesse aqui, provavelmente diria que sim...
Após alguns minutos por aquela via, Jerusa disse:
- Na próxima, entre novamente à direita.
Estamos perto.
- Sim, senhorita.
Ele dirigia com atenção, fazendo esforço para decorar o caminho.
Diva, ao perceber o silêncio que havia se instalado, disse:
- Esta cidade é realmente muito bonita Jerusa! Embora soubesse que era grande, nunca imaginei que fosse tanto.
- Realmente, é grande e bonita.
Está vendo só uma pequena parte dela.
Terá oportunidade de ver e se encantar muito mais.
Finalmente para Tobias, chegaram à porta da faculdade.
Ele desceu, abriu a porta de um lado, depois do outro para que elas descessem.
Jerusa foi à primeira.
Desceu e começou a caminhar, sem nada dizer.
Diva também desceu, mas, diferente dela, sorriu, dizendo:
- Obrigada, Tobias, por ter nos trazido.
Ele, também sorrindo, disse:
- Obrigado, senhorita.
Na hora da saída, estarei aqui.
Elas entraram pelo portão da faculdade, ele voltou para o carro, entrou, colocou-o novamente em movimento e saiu.
Jerusa, enquanto entrava na Faculdade, também pensava:
Estou começando a acreditar que aquilo que tia Marília disse é verdade... tenho certeza de que conheço esse moço e sua mulher, mas de onde?
Não pode ser de agora, pois eles nunca moraram aqui e nem eu no interior... por que sinto esse carinho por ele e muito ódio por ela?
Depois de tudo o que a tia disse e se for verdade, só pode ter sido em outra encarnação.
O que terá acontecido?
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:23 pm

Como gostaria de saber...
Diva, que caminhava ao lado de Jerusa, percebendo que ela estava pensativa, perguntou:
- No que está pensando, Jerusa?
- Naquilo que a tia Marília disse.
O que achou de tudo aquilo, Diva?
Diva, rindo, respondeu:
- Sua casa é muito movimentada, Jerusa.
Confesso que estou confusa.
Sou filha única, não tenho um irmão para brigar, meu pai, você sabe, é militar, o que o torna um tanto seco.
Minha mãe nunca trabalhou fora, também não conversa muito.
Está sempre envolvida com seus compromissos sociais.
Jerusa também riu, dizendo:
- Tem razão, em casa conversamos muito e sobre todos os assuntos.
Eu e meu irmão sempre encontramos um motivo para discutir, mas meus pais interferem e a paz volta.
Estou muito preocupada com aquilo que tia Marília disse.
Será que houve mesmo uma encarnação anterior?
Será que tivemos outra vida?
Será que, nesta encarnação, conhecemos pessoas com quem convivemos antes?
- Por que está perguntando isso, Jerusa?
- Por que estou muito confusa.
Sinto que conheço Tobias e sua mulher.
Sinto por ele um carinho inexplicável e, por ela, um ódio incontrolável.
Só mesmo a reencarnação poderia responder.
- Isso é fácil de entender, Jerusa! - Diva disse com ironia na voz e fazendo uma careta.
- Por que está dizendo isso, Diva?
- Ele é muito bonito!
Um pedaço de homem, e ela, é sua esposa...
Jerusa olhou para a amiga e, sorrindo, disse:
- Tem razão, ele é muito bonito e ela muito feia...
- O que é isso, Jerusa?
Não a conheço, será que é feia mesmo, ou está dizendo isso por ciúmes?
- Quando a conhecer, verá que tenho razão.
Ela é feia mesmo!
Diva riu e, depois, com o rosto sério, disse:
- Ontem à noite, quando fomos dormir, também fiquei pensando naquilo que sua tia disse...
- O que pensou?
- Assim como você sentiu quando viu aquele casal, também, quando vi sua mãe e seu irmão e, depois, quando seu tio chegou, senti o mesmo, tive a impressão de já os conhecer.
O estranho é que, por seu irmão e sua mãe, senti um carinho especial, como você disse, parecia que os conhecia.
Já com seu tio foi diferente.
Senti que, assim como eu, ele também evitou o meu olhar.
Acho que também não gostou de mim.
- Será que já vivemos todos juntos em outra encarnação, Diva?
- Não sei, mas o que me faz pensar sobre essa teoria é por que não senti o mesmo com você nem com seu pai.
Quando conheci você, gostei logo, mas não tive esse pressentimento de tê-la conhecido antes.
O mesmo aconteceu com seu pai.
Acho que, se houver mesmo reencarnação, nunca vivemos juntos.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:23 pm

- Será que vivemos em épocas diferentes, Diva?
- Não sei Jerusa...
Não sei...
- Tem razão, não dá para adivinhar.
Bem, agora vamos para a sala de aula?
- Vamos, sim.
Estamos atrasadas!
Entraram na sala de aula.
Tobias chegou a casa. Estacionou o carro e, quando estava descendo, Luana se aproximou, perguntando:
- Está tudo bem, Tobias?
- Sim, doutora.
- Minha filha foi rude com você?
- Não, doutora. Foi até gentil.
Ela me ensinou o caminho até a faculdade.
- Como foi a sua volta?
- Tive alguma dificuldade, mas perguntei aqui e ali e, graças a Deus, consegui chegar.
- Acha que não terá problemas para voltar e apanhá-las na hora da volta?
- Acho que não, prestei muita atenção, mas, se a senhora permitir, quero ir bem antes, pois, se me perder, terei tempo para chegar na hora.
Luana sorriu:
- Pode sim, não se preocupe com o tempo que perder procurando o caminho.
Entendo que, por nunca ter dirigido em uma cidade grande como esta, terá alguma dificuldade.
- Obrigado, doutora.
Prometo que não vai demorar muito para que eu aprenda bem o caminho.
- Tobias, seria melhor se fosse comigo para conhecer o caminho até o hospital, assim, você e Luísa poderão visitar o menino e, talvez, buscá-lo à tarde, caso esteja de alta.
- Parece que a senhora ouviu meu pensamento.
Estava pensando como ia fazer para ver o Carlinhos.
Luísa está muito preocupada.
Ela nunca ficou tanto tempo longe dele.
Ela sorriu e, enquanto se dirigia para o seu carro, ele correu para abrir a porta para que ela entrasse.
Ela disse:
- Agora, podemos ir para o hospital.
- Doutora, será que poderei ver o meu menino?
- Claro que sim, Tobias!
Vai ser a primeira coisa que vamos fazer!
Depois que o vir, volte para casa e fique à disposição da Alda.
Na hora do almoço, vá buscar as meninas na Faculdade.
Depois de ver o menino, vou conversar com Rodolfo e telefonarei para lhes dizer quando poderão buscá-lo.
Pode ficar tranquilo...
- Obrigada mais uma vez, doutora...
Ela sorriu, sem nada dizer.
Ele entrou no carro, ligou o motor e saiu.
Assim que chegaram ao hospital, desceram.
Luana, seguindo na frente, conduziu Tobias até o quarto do menino.
Ele parecia dormir, mas, na realidade, em pensamento, conversava com Matilde.
- Matilde, sempre que vejo o carinho com que o Tobias me olha, fico pensando em como pude fazer aquilo com ele e com a Rosa Maria...
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Ave sem Ninho

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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:23 pm

- Aqueles eram outros tempos.
Você, por ter dinheiro achava que tinha todo o poder e que, por isso, era o dono do mundo e de todos.
Achava que poderia comandar o destino de todos.
Muita coisa aconteceu depois daquele dia.
Hoje, você sabe que não é assim, que somente Deus, nosso criador, é que pode fazer isso.
- Tem razão.
Eu era mesmo muito ruim.
Ele, como meu pai, gosta, mesmo, de mim.
Será que se ele conhecesse o passado, agiria da mesma maneira?
- Tobias é um espírito iluminado.
Renasceu para ficar ao lado de Maria Luísa e ao seu.
Ele fará tudo para protegê-los.
Você também continua ao meu lado.
- Não só ao seu como ao de Maria Luísa também.
Como eu poderia seguir deixando vocês pelo caminho?
- Ficará sempre ao nosso lado?
- Sim, estamos há muito tempo juntos na caminhada.
- Eu não mereço tanto sacrifício...
- Você, assim como todo mundo, nada sabe.
Só quem sabe é Deus.
- Do que vale esta minha encarnação se não sirvo para nada?
Estou aqui, preso neste corpo sem nada poder fazer...
Qual é a minha utilidade, a não ser trazer sofrimento e preocupação para Tobias e Maria Luísa?
- Nenhuma encarnação é inútil.
Seu espírito está dando valor para tudo o que teve um dia e desprezou.
Foi prepotente e, por isso, fez também muita maldade.
Hoje, preso dentro desse corpo, entendeu que Deus é Pai e nos dá sempre novas chances de redenção.
Não pode se esquecer, nunca, de que, quem quis nascer assim foi você.
- Sinto que está falando a verdade, mas, quem está sofrendo, também, é Maria Luísa e Tobias.
Eles, com certeza, prefeririam ter um filho perfeito.
- Às vezes, acho que eles não gostam de mim de verdade e queriam que eu morresse para ficarem em paz.
- Está enganado, Carlos.
Você, como acontece com muitos, tinha o poder nas mãos e o poder corrompe.
Muitos espíritos, diante dele, já sucumbiram e sofreram por isso.
Quanto ao que pensam Maria Luísa e Tobias, não deve se preocupar.
Eles, antes de renascerem, escolheram e quiseram que fosse assim.
Perdoaram, de verdade, você.
Maria Luísa o matou e depois se matou, embora tenha entendido e se arrependido, precisava resgatar o que fez.
Tobias, como sempre a amou, quis vir junto para viver ao seu lado e ajudá-la.
Por enquanto está tudo bem, mas coisas ruins talvez possam acontecer.
Jerusa, a escrava que o ajudou naquela maldade, hoje é Jerusa, filha de Luana e está sendo testada mais uma vez.
Assim que viu o Tobias, todo aquele amor que sentiu voltou com muita força.
Para que possa resgatar o mal que fez, precisa evitar que esse amor faça com que ela cometa o mesmo mal que cometeu em outros tempos.
Ela, sendo filha de Deus, está tendo uma nova chance.
Vamos esperar para ver se ela aproveita.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:23 pm

- Você acha que ela vai conseguir Matilde?
- Não sei, mas espero de coração, que sim.
Tobias, sem imaginar o que eles conversavam, olhando com carinho para o filho e passando a mão por sua cabeça, disse:
- Parece que ele está bem, não é, doutora?
- Sim, está dormindo e respirando bem.
Vou conversar com Rodolfo e, depois, telefonarei para casa e aviso vocês.
- Obrigado, doutora.
Nem sei como agradecer por tanta bondade.
- Não tem o que agradecer.
Só estou fazendo o que qualquer pessoa faria na mesma situação.
Agora, pode ir embora e espere o meu telefonema.
Preciso começar o meu trabalho.
- Está bem, doutora, e mais uma vez obrigado.
Saíram do quarto.
Luana acompanhou Tobias até a saída do hospital.
Ele, sorrindo, se despediu e caminhou em direcção ao carro.
Luana foi ao encontro de Rodolfo.
Tobias teve dificuldade, mas conseguiu chegar a casa.
Luísa, assim que ouviu o barulho do carro, saiu da casa e, ansiosa, correu para junto dele.
Ele, vendo a ansiedade dela, disse:
- Está tudo bem, Luísa.
A moça me tratou muito bem.
Só tive dificuldade para voltar, pois não conhecia o caminho, mas consegui chegar e não vou me perder mais.
Fui com a doutora até o hospital e vi o Carlinhos.
- Como ele está?
- Parece que está bem.
A doutora disse que vai conversar com o doutor Rodolfo e, depois, vai telefonar para dizer se a gente vai visitar ou trazer o nosso menino de volta.
- É o que mais quero trazer o meu menino para casa, Tobias...
Ele sorriu e, abraçados, entraram em casa.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:24 pm

CONVERSA ELEVADA
Luana foi em busca de Rodolfo.
Ele estava em um dos quartos, examinando um paciente.
Ela se aproximou e ficou observando-o.
Ele viu quando ela entrou, sorriu.
Depois de terminar de examinar o paciente e preencher sua ficha, saíram.
Ele perguntou:
- Tudo bem com você, Luana?
- Sim. Você já viu o menino?
Estive lá e parece que está muito bem.
- Estou indo agora para lá, quer me acompanhar?
- Gostaria muito.
- Então, vamos?
Foram para o quarto onde o menino estava.
Assim que entraram, aproximaram-se da cama e olharam para ele que ainda parecia dormir.
Ao seu lado, ainda estava Matilde que, ao vê-los, sorriu.
O menino, parecendo sentir a presença dos dois, abriu os olhos que brilharam.
Rodolfo, com a ajuda de Luana, o examinou.
Quando terminou, disse:
- A crise passou, ele está bem.
Acredito que, hoje à tarde, poderei lhe dar alta e ele poderá voltar para junto dos pais.
- Que bom Rodolfo!
Eles ficarão contentes.
- Tenho certeza que sim, mas...
- Mas o quê, Rodolfo?
- Nada, deixe para lá...
- Mas o quê, Rodolfo?
Ela repetiu, preocupada.
- Ele, entendendo a preocupação dela, disse:
- Vamos sair.
Iremos até a lanchonete, tomaremos um café e conversaremos.
- Está bem.
Precisamos mesmo conversar.
Tenho algumas dúvidas e só você poderá me esclarecer.
Foram até a lanchonete, sentaram-se e pediram café.
Enquanto o café não vinha, Luana disse:
- Estive pensando muito em tudo o que você e a Marília disseram.
Será verdade tudo aquilo?
- Também tive muita resistência para acreditar, mas, hoje, já não tenho mais.
- Por quê?
- Vi a melhora de Marília, quando começou a entender o que lhe acontecia.
Depois, ligando factos.
- Que factos?
- Quando conheci você, no dia em que Felipe a levou para que nossa família a conhecesse.
- Como?
- Em casa, estávamos ansiosos para conhecê-la.
Ele falava muito a seu respeito.
Assim que a vi, tive a sensação de já tê-la visto em algum lugar e senti um carinho imenso, uma vontade de abraçá-la, como aconteceu quando vi a mãe do menino.
Na época, não dei muita importância, mas, depois de tudo o que Marília me disse, comecei há relembrar aquele dia.
- É sobre isso que quero conversar.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 20, 2017 7:24 pm

Estive também me relembrando daquele tempo e senti a mesma sensação quando conheci sua família e, principalmente, você.
Ao vê-lo, também tive essa mesma impressão.
Também senti vontade de abraçá-lo e, durante muito tempo, me culpei por isso.
Julgava estar traindo Felipe, embora soubesse que o meu sentimento para com ele era diferente do que tinha por você.
Eu o amava e queria com ele me casar.
Você era um amor diferente, como se fosse meu irmão.
- Foi exactamente o que senti por você, mas não parou por aí.
Quando Danilo nasceu, tive a mesma impressão.
Ao segurá-lo no colo, senti-me como se fosse seu pai, ao contrário do que ocorreu quando Jerusa nasceu...
- O que aconteceu?
- Não quero dizer, tenho medo de magoar você...
- Magoar, por quê? Conte-me o que aconteceu.
- Quer mesmo saber?
- Claro que sim.
Já lhe disse que estou revendo o meu passado e tenho algumas dúvidas.
- Está bem.
Quando peguei Jerusa no colo, diferente do que aconteceu com Danilo, senti um arrepio por todo o corpo e uma vontade imensa de derrubá-la no chão, para que morresse.
Sinto muito, Luana...
Luana olhou em seus olhos e, sem nada dizer, ficou pensando.
Rodolfo também olhou para ela e ficou esperando sua reacção.
Depois de alguns segundos, seus olhos encheram-se de lágrimas.
Ele, desesperado, falou:
- Eu disse que ia magoá-la, por isso nunca comentei com você nem com ninguém!
Foi uma sensação que, com o passar do tempo, desapareceu.
Hoje, gosto muito dela!
É minha sobrinha!
- Não foi pelo que você me contou que estou triste e chorando...
- Por que, então, Luana?
- Porque senti o mesmo e nunca me perdoei...
- Sentiu o quê?
- O mesmo que você.
Assim que peguei Jerusa em meu colo, senti um ódio inexplicável e vontade que ela morresse.
Nos primeiros dias, não conseguia cuidar dela.
Não entendia e sofria por isso.
Antes de ela nascer, eu estava feliz e ansiosa para ver seu rostinho e quando estava com ela nos braços, pela primeira vez, senti essa rejeição.
Sofri muito naquele tempo, mas não comentei com ninguém, nem mesmo com Felipe.
Eu não entendia o que estava acontecendo, como poderia esperar que outros entendessem?
Depois, como aconteceu com você, o tempo foi passando e acredito que o amor de mãe foi maior e até havia me esquecido de que tudo aquilo havia acontecido.
Tenho problemas com Jerusa, pensamos de modo diferente e muitas vezes brigamos por coisas sem sentido, mas, hoje, amo-a e só quero o seu bem e farei o possível e o impossível para evitar que sofra!
- Ninguém duvida do seu amor, Luana!
Você é uma óptima mãe e seus filhos são maravilhosos!
- Como já falei Rodolfo, nunca disse isso a ninguém nem mesmo ao Felipe...
- Fique tranquila, Luana, não comentarei com ninguém, muito menos com ele.
- Sei disso.
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Re: O PASSADO NÃO IMPORTA / Elisa Masselli

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