No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 10:56 am

Além disso, prefiro acreditar nisso a não acreditar em nada, ficar sem esperança, com o coração vazio, repleto de torturas íntimas e revoltas amargas por me recusar a aceitar determinadas situações.
— Sinto falta do meu filhinho...
— Chorando, Marília perguntou:
— O que faço da minha vida agora?
Quem vai cuidar dele?
Como saber se ele está bem?
— Lembre-se, minha amiga, antes de Higor ser seu filho, ele é filho de Deus.
Após ter cumprido sua curta, porém valorosa experiência, encarnado, Deus o quis a Seu lado.
Certamente Ele achou que Higor não precisava mais dos tormentos terrenos, pois já harmonizou tudo o que precisava expiar.
Agora, o que tem a fazer é cuidar de você mesma.
Se desejar valorizar essa experiência de vida, cuide de outros filhos de Deus que precisam ser orientados, instruídos e apoiados, pois seu filho está sendo cuidado por Ele.
Há muito trabalho nessa área e poucos voluntários.
As palavras, proferidas com bondade e esperança, tocaram profundamente o coração de Marília que, muito emocionada, abraçou a amiga, murmurando:
— O que seria de mim se não fosse você?
Enquanto isso, na espiritualidade, Elma despedia-se de Lisete e de Djalma, seguindo com seus alunos para novos aprendizados.
Longe da casa de Marília, Silmara, ainda reflectindo sobre tudo o que ouviu, pediu:
— Elma, poderia exemplificar o motivo de tantos nascerem com HIV ou adquirirem o vírus, mesmo sendo pessoas que preservam a moral, como é o caso de hemofílicos?
— Quero lembrar, mais uma vez, que cada caso é um caso.
Podemos relatar alguns exemplos.
Tenho conhecimento de um caso em especial, de alguém que, após passar por sérios problemas de saúde na infância e na adolescência, chegando a ser desenganado pelos médicos, resistiu às previsões e tornou-se defensor ostensivo de causas nobres.
Foi uma alma brilhante.
Muito especial.
Abraçou ideais e lutou pelos infortunados, para lhes garantir dignidade, respeito e abastecimento mínimo, para que não passassem fome.
Aliás, ele foi um pioneiro nessa área.
Que criatura linda! — exclamou emocionada, como se recordasse de alguma particularidade ou fortes laços de amizade.
Mas logo prosseguiu: — Hemofílico, ele necessitava de transfusões de sangue ou plasma para conter hemorragias.
A pessoa hemofílica tem coagulação sanguínea lenta ou inexistente, o que representa uma constante ameaça a sua vida, pois os pequenos traumatismos ou ferimentos podem matá-lo.
Ele contraiu o HIV em uma transfusão necessária, por causa da hemofilia -— contou Elma.
— Apesar de toda a problemática emocional que enfrentou, conseguiu pensar em salvar outras vidas.
Participou de movimentos e acções inúmeras, entre elas, reivindicando que no país fosse efectuado o exame anti-HIV em todo sangue doado, para que ninguém mais fosse contaminado por transfusão.
Essa criatura maravilhosa e digna de exemplo superou-se na proposta para aquela reencarnação, harmonizando sua consciência e elevando-se como espírito, de uma forma impressionante, na experiência que solicitou.
— O que ele tinha para expiar?
O que o incomodava tanto para pedir uma prova tão difícil quanto essa? —- interessou-se Romildo.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 10:56 am

— Séculos atrás, os índios, em nosso país, viviam em conflito aberto com os colonizadores portugueses que, a qualquer custo, queriam tirá-los de suas terras.
Os índios, torturados e escravizados com trabalhos contínuos e impiedosos, chegavam rapidamente à morte, em vista do abuso e das torturas.
— A benfeitora ofereceu uma pausa e observou a atenção de seus alunos.
— Tanto os colonizadores quanto os religiosos católicos, padres jesuítas que vinham para cá, consideravam os índios e os negros criaturas desprezíveis e sub-humanas.
Era considerado normal tratá-los como animais, pois não acreditavam que tivessem alma.
Embora, nem animais devam ser maltratados, pois eles são nossos irmãos menores e necessitamos deles.
— Nova pausa e prosseguiu:
— Os índios e os negros eram mortos perversamente ou torturados com requinte de crueldade para prazer de seus senhores e caprichos das senhoras ou sinhás.
Com o tempo, os colonizadores ou senhores de terras, perceberam que os índios eram muito mais vulneráveis a doenças de todos os tipos, principalmente, a infecções transmitidas pelos brancos.
— Breve pausa e comentou:
— Quando em contágio com determinada moléstia, os índios de uma região morriam e seu completo extermínio estava garantido.
Esse foi o meio que os colonizadores cristãos encontraram para tomarem as terras dos índios, explorarem o ouro e as pedras preciosas de nosso país.
Nesse período, a varíola assombrava a Europa, dizimando famílias e infectando muitos em todo o continente.
— Narrava a instrutora no mesmo tom brando.
— Trazida para o Brasil nas embarcações diversas, a varíola chegou à Vila de Caxias e provocou terrível epidemia.
Aqui não era comum chamá-la de varíola, mas sim de bexiga ou alastrim.
Como sabiam da sensibilidade dos nativos deste país, tiveram uma ideia infeliz.
Usaram um pretexto qualquer para atrair os índios à Vila de Caxias, pois sabiam que a varíola os exterminaria.
— Nova pausa e continuou no mesmo tom:
— Depois de alguns dias na região, os índios foram emboscados, presos e espancados, inclusive as mulheres e as crianças.
Os que conseguiram fugir para as matas levaram consigo o vírus da varíola e contaminaram todos os outros índios do sertão.
Sabe-se que, da Vila de Caxias, a varíola chegou a atingir populações indígenas além do rio Tocantins, cerca de dois mil quilómetros a oeste, por causa desse evento.
A varíola, alastrim ou bexiga era chamada pelos índios daquela região de Pira de Cupé, ou seja, Sarna dos Cristãos.
A cruel doença queimava-lhes todo o corpo, provocava fortíssimas dores na coluna, no abdómen e na cabeça, além da febre alta e delírios — detalhou Elma.
— Os índios, desesperados, atiravam-se nos rios para se matar.
Outros ainda, quando se percebiam doentes, assim que começavam os terríveis sintomas, colocavam a cabeça sobre uma pedra para que um amigo ou parente pudesse bater em sua cabeça com outra pedra grande, esmagando-lhe o cérebro e matando-o para livrá-lo do desespero da terrível varíola.
— Após poucos segundos de pausa, revelou:
— Essa prática de extermínio cruel não foi um facto isolado em nossas terras.
E esse amigo, do qual falei, que experimentou incontáveis problemas com o HIV e mesmo assim lutou por ideais sublimes, foi, nesse passado distante, um dos colonizadores cristãos que idealizou e executou essa matança que acabei de lhes contar.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 10:56 am

— Além de ser hemofílico, lutar em defesa dos pobres e contra a fome, ele precisava sofrer com a Aids? — perguntou Romildo.
— Ele não sofreu.
Ele experimentou -— respondeu a benfeitora com peculiar paciência.
— Além disso, aconteceu com ele, em uma única existência, o que fez milhares de criaturas sofrer.
Se compararmos o grau de sofrimento único dele ao dos milhares de índios, podemos ver que a expiação foi menor do que a causa e as consequências que ele provocou.
Ela foi branda por suas acções humanitárias e sublimes em prol dos não-favorecidos.
Foi sua consciência que se harmonizou e se elevou.
— Esperou um instante e ainda contou:
— Por ter invadido terras, apropriando-se indevidamente dos bens alheios, deixando incontáveis pessoas na total penúria e miséria extrema, quando atacava aldeias, sem poupar mulheres nem crianças, ele hoje lutou contra a fome para os desprovidos.
O HIV e a Aids foram pelos milhares de semelhantes que condenou à tão horrenda e fatal varíola.
Somente com essa experiência teve paz consigo mesmo.
Todos silenciaram em profunda reflexão, até Romildo perguntar:
— Então deve haver milhares de portadores de HIV que contraíram o vírus, não por contacto sexual ou drogas, mas por transfusões ou cirurgias, e passam por essa expiação por terem, propositadamente, feito algo semelhante no passado, não é?
— Sim. Não só com acontecimentos referentes à varíola, como também a inúmeras outras doenças e pestes terríveis que surgiram em diversos períodos na história da humanidade.
— Pode contar-nos outros casos? -— pediu Álvaro, com grande expectativa.
— Claro. Mas, antes, vamos ao posto espiritual que nos abriga.
Precisamos nos refazer.

13. N. A.E.: Para saber mais sobre a sorte das crianças após a morte ver em O Livro dos Espíritos das questões 197 a 199-a.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 10:57 am

17 - A história de Elma

CHEGANDO AO valoroso lar terreno que lhes servia como oficina de trabalho espiritual superior, com excepção da amorosa instrutora, o grupo de estudo parecia um tanto cansado, necessitando de alimento espiritual.
A companhia de amigos queridos, os cumprimentos afectuosos e a absorção de alimentos propícios ao estado de espírito de todos foram suficientes à manifestação da energia e animação, renovando o ânimo de cada um.
Elma, procurando isolar-se um pouco dos demais, imóvel, entregava-se a uma prece de elevação, manifestando ao Alto agradecimentos sinceros por todos os acontecimentos tranquilos durante os estudos e as observações, pois poderiam ter sido importunados e até atacados por malfeitores de considerável "poder", que não admitem a tarefa de esclarecimento ou elevação a ninguém.
A benfeitora agradecia também o socorro oportuno do pequeno Higor que, agora, recompunha-se calmo e aliviado dos suplícios terrenos.
Observando-a a certa distância, Romildo permaneceu em respeitoso silêncio.
Admirado e surpreso pela tocante concentração silenciosa que a instrutora imprimia na sublime prece, pôde perceber que a querida instrutora transformava-se radiosa, parecendo receber e espargir encantadora e brilhante luz de um azul intenso, magnífico, que não dá para ser comparado a nada conhecido no plano físico.
Com uma emoção inexplicável, Romildo não conseguiu deter as lágrimas rolando em seu rosto, ao observar e sentir tão elevada vibração.
Intenso jorro de luz ainda se projectava em Elma, quando, com agradável serenidade, findou a prece e ergueu lentamente seu lindo olhar na direcção do aluno que parecia petrificado de emoção.
Imediatamente, Romildo caminhou em sua direcção, estendendo-lhe os braços quase trémulos, em busca de um abraço para abrigar seu coração aturdido.
Ela sorriu docemente e envolveu-o com carinho, até seu protegido recompor-se.
Em pouco tempo, afastando-se do abraço, ainda com os olhos húmidos, Romildo comentou:
— Não há nisto mistério ou predilecção -— dizia, com as palavras embargadas pela emoção.
— O que eu vi e senti foram as bênçãos Divinas respondendo à prece sincera daquela que trabalha com amor e esperança, incondicionalmente para o bem, mesmo quando poderia estar em esferas superiores, distante das desgraças que assolam este mundo.
Mas não, oferece a si própria na construção da fraternidade, erguendo tarefeiros necessitados de saldar débitos ou, simplesmente, em solidariedade e exemplificando na tarefa de elevação.
— Olhando-a nos olhos, perguntou emotivo:
— Por quê?
Elma, sempre sustentando agradável sorriso, respondeu cautelosa:
— Como permanecer no céu, se aqueles que vivem, particularmente, em meu coração não podem dividir comigo o paraíso?
— Breve pausa e o aluno não se manifestou.
Em tom bondoso, disse:
— Busco, há séculos sucessivos, auxiliar e elevar aquele que elegi como amor e também aos queridos filhos de minha alma que se perderam nas lutas, nos vícios, no orgulho ou egoísmo de qualquer tamanho.
Devo admitir que estou distante deles para auxiliá-los.
Não me podem perceber hoje...
No entanto, quanta esperança trago no coração quando encontro grupos como o seu, alunos de fé, dedicados e repletos de ânimo para trabalharem e auxiliarem aqueles que se prendem na luta das experiências materiais.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 25, 2017 10:57 am

Chego a pensar e desejar que seus futuros protegidos e aprendizes, encarnados ou desencarnados, ou aqueles que, de alguma forma, aprenderão com vocês a viver o Evangelho do Cristo, podem ser um de meus amados.
Quero, de todo o meu amor, que vocês saibam envolvê-los, mostrando-lhes que as impressões terrenas são passageiras, que os ensinamentos do Cristo são as regras para a elevação, que os vícios mundanos e a falta de equilíbrio nas vontades terrenas são o caminho para se perder mais tempo nas misérias humanas, reparando, sofrendo e harmonizando o que se fez de errado.
Romildo, meu querido, todo sofrimento existente tem sua explicação na bagagem tormentosa que trazemos do passado errante.
— Olhando-o nos olhos, disse ainda:
— Deus nunca erra nem nos pune. Deus não é cruel em achar que um merece a perfeição e outro o aleijamento, ou um merece a riqueza e outro a miséria, um a saúde e outro terríveis enfermidades.
Deus é bom e justo, por isso nos oferece incontáveis oportunidades reencarnatórias para que possamos nos aperfeiçoar e harmonizar.
Não sofremos injustamente.
As experiências amargas que vivemos são tão somente expressões educativas para o espírito.
Devemos enfrentar toda provação com resignação, sem revolta, ou teremos de nos reeducar, novamente, na mesma situação.
O aluno, ainda sob o efeito de forte impressão, com olhos lúcidos ousou perguntar:
— Aqueles que lhe são queridos vão passar pela experiência do HIV?
— Um, em especial, parece não se inclinar nem se atrair a esse vírus tão cruel.
Se o fizer, certamente, terá de se reeducar com as dificuldades da Aids sim.
Porém, sua força interior e sua fé são impressionantes, mesmo com terríveis conflitos íntimos, de toda a dor na consciência, das incontáveis dificuldades para entender e aceitar.
Encarnados, não temos a capacidade de compreender determinadas provas para nossa evolução.
Essa alma querida não se corrompeu em desequilíbrio e, apesar de tudo, harmoniza a consciência despendendo todo o seu tempo com tarefas saudáveis.
Canaliza toda a sua energia para a arte de projectar e construir, trazendo alegria, beleza e luz.
Também ajuda, como voluntário, irmãos especiais que necessitam de sua atenção, amor e carinho.
Sem recusas nem reclamações.
Os outros dois que busco socorrer não vão experimentar a difícil prova da Aids, já experimentaram e não vivem mais encarnados.
— Acaso fala de Lúcio?
É ele uma dessas almas queridas?
— Sim — afirmou com doce emoção de júbilo.
— Os que se amam no infinito mantêm as almas unidas e se buscam ajudar.
Não fui criada nas esferas excelsas.
Tive um passado de erros, padeci em resgates penosos e justos.
Elevando o entendimento, compreendi a máxima de que:
"Fora da caridade não há salvação".
Eu havia me distanciado de Lúcio, que se demorou em conflitos íntimos, no orgulho, na vaidade, na vulgaridade e em tudo mais.
Resgatei, aprendi e trabalhei, arduamente, para meu equilíbrio.
Roguei, implorei em preces a Jesus para me conceder a oportunidade de, um dia, poder ajudar aqueles que guardava, com especial ternura, em meu coração.
Então, há séculos, foi-me permitido cuidar de Lúcio, do pequeno Higor, acolhido hoje no plano espiritual, e de Dirso, o arquitecto que se dedica ao lazer de crianças especiais.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:26 am

Dentre os três, o querido Dirso e o amoroso Higor são os que vêm se saindo melhor.
E como se saíram bem!
— A instrutora sorriu docemente.
— O caso de Dirso você já conhece.
Ele passa pela prova do corpo masculino com psicologia feminina, pelos abusos sexuais que cometeu no passado.
Como mulher, com grande erotismo e seduções exorbitantes, desmanchou lares, desfez famílias e fez do sexo um meio de prosperar e adquirir bens.
Após muito sofrimento na espiritualidade, depois do socorro e de aprender que a sedução e a energia sexual não foram permitidas à criatura humana para esses fins, Dirso reencarnou, nesse comportamento, para se reeducar, ou melhor, provar sua educação.
E está conseguindo, com louvor, apesar de todos os conflitos íntimos para entender a razão de ser como é e dos assédios para uma vida vulgar, leviana, promíscua.
No caso de Higor, ele reencarnou como filho de Marília, que já estava com HIV, porque eles têm ligações de um passado distante.
— Por que ele precisou dessa experiência? —- perguntou Romildo, com simplicidade.
— Em um passado distante, por expiação, Higor experimentou a Hanseníase, conhecida como lepra, algo temido e assombroso na época.
Mesmo sabendo do alto grau de contaminação, ele, revoltado, espalhou a doença o quanto pôde enquanto as pessoas não percebiam seu estado doentio.
Quando a doença se tornou insuportável, ele se suicidou.
Em nova oportunidade, uma doença desconhecida na época, mas que hoje sabemos ser câncer, o faria resgatar, no momento oportuno, o ato insano do suicídio.
Mas, novamente, ao enfrentar as terríveis dores daquela expiação, ele se suicidou.
Foi imensuravelmente lamentável.
Como louco, padeceu mais de um século no sofrimento contínuo e terrível das paisagens sombrias, indefinível na descrição humana, revivendo a agonia e o desespero do ato de suicídio.
Seu socorro foi difícil.
Ela deteve as palavras por um instante, como se pudesse rever mentalmente a situação.
Em seguida, continuou:
— Numa reencarnação, em que ficou preso nas deficiências mentais e físicas, com sérios problemas de saúde, resgatou os suicídios cometidos.
Retornando ao mundo espiritual —- Elma ainda contou —- recompôs-se bem e, após décadas de aprendizado, rogou para resgatar o débito que outrora necessitava sofrer com a lepra, para harmonizar o que causou a outras pessoas, quando, propositadamente, espalhou a terrível doença.
Então, Higor reencarnou com uma mãe portadora do HIV, que o infectou com o vírus.
Em seu breve reencarne, experimentou a terrível expiação com a Aids, o que lhe restava pela encarnação interrompida que, apesar de todo o sofrimento, reeducou-o como espírito, harmonizando sua consciência.
Somente Lúcio ainda mergulha no pântano e no desespero da própria mente.
Mas ele há de conseguir vencer a perturbação e buscar a elevação da consciência.
A aproximação de Silmara e Álvaro fez Elma concluir, dizendo:
— As qualidades morais são forças vitais dos espíritos sublimes, lembre-se disso.
O espírito elevado jamais retrograda. Jamais perde a superioridade.
Moral é aprender e praticar o que é correto.
É ter total controle dos desvios e desequilíbrios, sem se deixar corromper pelo sexo, fumo, álcool, drogas, comida, ganância, ciúme, vaidade, fofoca, fanatismo por desportos, jogo e outros incontáveis vícios.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:26 am

Nunca evoluiremos espiritualmente se formos devedores de alguma qualidade moral a nós mesmos.
— Elma, perdoe-me a interrupção -— pediu Álvaro, com sua timidez.
— Prometeu nos contar outros casos de pessoas que contraíram o HIV por outros meios, que não sexo e drogas.
Pode fazê-lo agora?
— A criatura humana sempre disputa o direito de sobressair-se.
Existem incontáveis casos bem semelhantes, mas vou lhes contar este:
uma bela jovem, a quem vamos chamar de Síria, foi educada com cuidadoso primor.
Seu pai, homem rico e bem influente, proporcionava-lhe tudo, numa época, no século XVIII, em que a grande maioria das pessoas vivia situações difíceis.
Suas ordens eram rígidas e sua postura austera. Não oferecia liberdade à jovem, órfã de mãe e filha única.
Ele desejava casá-la com alguém que lhe conviesse.
Não deixava que ela namorasse, pois não queria que a filha ficasse falada, o que era inadmissível para a época.
Entretanto, o pai, inflexível e conservador, morreu deixando para a filha toda a sua fortuna.
Portadora da síndrome que vem desviando gerações, Síria era compulsiva sexual — revelou a instrutora.
— Logo que se viu liberta dos laços paternos, criou para si um mundo de prazeres sexuais.
Diversos homens eram dominados por sua conquista.
Outras jovens também passaram a fazer parte dos desvarios de perversões que Síria criou, quando instalou, aos poucos, uma casa de prostituição, em sua mansão.
Com o tempo, mesmo sabendo que "suas meninas", como ela as chamava, portavam doenças sexualmente transmissíveis, conhecidas por doenças venéreas, Síria deixou que sua casa de prostituição funcionasse normalmente.
Com isso, muitos homens se contaminaram e infectaram suas esposas e filhos com sífilis e blenorragia.
Síria viveu sua vida de luxúria no prazer tentador do sexo promíscuo e leviano — continuou, vendo que todos estavam interessados. — Como ela queria, viveu feliz até que, após o desencarne, prendeu-se nos turbilhões de desesperos pelos actos irresponsáveis, pelo desvio no auto-erotismo, na erotomania, na corrupção dos prazeres carnais, no emprego erróneo das energias sexuais.
Sem contar o sofrimento experimentado pela agressão dos que queriam vingar-se por terem sido contaminados por tão selvagens doenças.
— Após oferecer breve instante, prosseguiu:
— Grupos hostis de espíritos revoltados atacaram-na cruel, impiedosa e ininterruptamente por décadas a fio.
Suas lamentações estridentes de medo e dor não resolviam.
Até que foi arrebatada pela loucura funesta, arrasadora, que a deixou paralisada, sem palavras nem acções, somente com as visões perturbadoras e horríveis de seus erros.
Aquele que havia sido seu pai austero e exigente trabalhou incansavelmente a seu favor, retirando-a daquele "lugar estranho", das "esferas inferiores" a muito custo e levando-a para uma câmara apropriada onde, lentamente, entre gritos atormentados e rogativas de piedade, ela passou a demonstrar reacção.
Após uns cinquenta anos se recuperando desse estado, Síria reencarnou com severas dificuldades mentais em breve experiência terrena, cerca de trinta anos, para que voltasse mais recomposta à espiritualidade e também tivesse uma trégua aos ataques de seus algozes.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:26 am

Mais outro considerável tempo na espiritualidade, recompondo--se e aprendendo, em vista de tudo o que fez Síria reencarnou há três décadas.
Casou-se e manteve-se fiel em seu casamento.
Porém, o marido não fez o mesmo.
Foi em uma de suas diversas aventuras extraconjugais com mulheres de seu trabalho e também com prostitutas, que ele se infectou com o HIV, transmitindo o vírus à esposa.
Observando os alunos perplexos e interessados, Elma continuou:
— Após o choque e a dor de saber que foi traída, a mesma situação que ela proporcionou às inúmeras esposas dos homens com quem se envolveu no passado, Síria foi obrigada a equilibrar--se emocionalmente, apesar da tortura viva e constante que invadia seus pensamentos.
Ela se forçou a não se revoltar, a procurar viver realmente de forma intensa.
Intensa de cuidados, amor, carinho, atenção e respeito para com ela mesma, o que não fizera no passado.
— E o marido?
Eles se separaram? -— indagou Romildo, curioso.
— A princípio, sim.
O marido foi viver com a mãe e os irmãos, mas sua carga virai aumentou, suas células de defesa caíram.
As infecções oportunistas surgiram uma a uma.
O marido não era bem cuidado pelos parentes que, talvez, por falta de conhecimento, tinham medo de adquirir o vírus.
Mais calma e diante da situação deplorável dele, Síria levou-o de volta para sua casa e cuidou dele, sem descuidar de si mesma.
Foram dias difíceis para ele, que sofreu com diversas dores, com a pneumonia por Pneumocystis, a paralisação dos membros inferiores e a falta de coordenação, a demência causada por infecções no cérebro, o câncer e outras infecções purulentas na pele que o castigaram até os últimos dias.
— Nova pausa e a benfeitora revelou:
— Para cuidar dele, Síria usava luvas tipo cirúrgicas, máscara e um jaleco que deixou só para esse fim.
Ela tomou a postura certa.
Além de cuidar correctamente do marido, ela buscou informações de todas as fontes possíveis e com muito ânimo para ganhar mais conhecimento de tudo o que vivia.
Descobriu que, apesar de também estar infectada, seus medicamentos eram diferentes dos medicamentos do marido, por isso não poderia entrar em contacto com os fluidos corpóreos dele, pois correria o risco de infectar-se novamente com o vírus já acostumado aos coquetéis anti-retrovirais que o esposo tomava.
Para ela seria um sério problema, por ser um vírus mutante, o HIV, caso ela se infectasse novamente, seria resistente aos medicamentos, que deixariam de fazer efeito.
Não é porque uma pessoa está infectada com o HIV que pode se relacionar sexualmente com alguém que também é seropositivo ou correr qualquer risco de infectar-se com fluidos corpóreos de quem é portador desse vírus.
Em casos assim, os coquetéis anti-retrovirais deixam de ser eficientes e a manifestação da Aids vai surgir. — explicou Elma.
Síria, além disso, descobriu que teria de viver saudavelmente com uma qualidade de vida que adoptaria a partir de então.
— E ainda contou:
— Ela já não fumava e só bebia socialmente.
Afastou-se de ambientes com fumaça de cigarro e passou a beber apenas água e sucos naturais.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:26 am

Alimenta-se de forma saudável, evita químicas, preferindo alimentos naturais e, principalmente, toma seus remédios pontualmente, sem diminuir ou esquecer as doses.
Consulta o médico.
Faz seus exames de rotina sem hesitar.
Pratica natação e faz caminhadas.
Além disso, ela se motiva para trabalhar com outras pessoas portadoras do HIV, em terapias de grupo de uma associação apropriada para esses casos, buscando ajudá-las, incentivá-las para viver com qualidade e amor a si mesmos, pois a vida é muito mais do que a experiência com HIV.
Fora isso, Síria aceita pequenas palestras de advertência e alerta sobre o vírus e a Aids em escolas, para adolescentes, que nem sempre dão atenção a esse assunto.
Ela realiza um trabalho cristão de amor ao próximo, quando, carregando sua cruz, segue os exemplos do Cristo.
— Contando dessa forma, pode parecer fácil -— considerou Romildo —- mas o tratamento para se manter saudável, quando se é portador do HIV, não é nada fácil.
— Não mesmo! -— confirmou a instrutora que pouco exclamava.
— É por isso que o HIV e a Aids são experiências reeducativas.
O amor a si mesmo é o remédio mais importante nessa prova.
Cada um, de forma individual e sempre com a orientação do médico, vai tomar os remédios adequados a seu estado.
Os efeitos colaterais desses medicamentos podem surgir.
No entanto, cada um vai descobrir um modo de superar essa ocorrência ou tolerá-la, tomando um suco, quando ingerir o remédio ou uma colher de mel, para aliviar o gosto provocado pelo refluxo...
Infelizmente -— disse ainda - nem todas as pessoas têm informações ou desejam acompanhamento médico.
Elas não sabem, mas essa atitude é muito perigosa e imprudente.
— É suicídio inconsciente também —- comentou Silmara.
— Vamos lembrar que deixar de promover a cura ou melhora de nosso estado de saúde é deixar-se morrer.
É deixar sua oportunidade acabar antes do tempo proposto.
— São poucas as pessoas que recebem tratamento ao saberem que são portadoras do HIV — comentou a instrutora.
Dos portadores do HIV, a minoria sabe que são seropositivos.
Dos que sabem, bem poucos procuram o tratamento.
Dos que têm acesso ao tratamento, pequena parte toma os remédios apropriadamente ou possui instrução suficiente de sua nova condição de vida.
Isso é tão lamentável...
— Talvez, alguns nem saibam que, se não tomar o medicamento correctamente, o vírus acaba ficando mais resistente, ganha muito mais força e ataca mais severamente —- lembrou Álvaro.
— Além disso -— tornou a instrutora - os medicamentos param de fazer efeito e outros remédios, com outros componentes, podem ser menos eficazes, em vista da resistência que o vírus adquiriu.
O maior problema enfrentado hoje é que muitos seropositivos deixam de tomar a medicação ou diminuem a dosagem por conta própria, por causa dos efeitos colaterais, o que vai lhes trazer sérios transtornos no futuro.
Breves segundos e Elma comentou:
— Isso me fez lembrar de um caso muito sério.
Um rapaz descobriu que seu parceiro estava com Aids.
Desesperado, realizou todos os exames, que confirmaram que também havia sido infectado com HIV.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:27 am

O jovem ficou confuso, arrasado, mas começou a tomar, rigorosamente, o coquetel adequado para seu caso e a seguir a orientação médica.
Porém, sua irmã, uma fiel de uma linha religiosa do protestantismo, religiosos comumente conhecidos como evangélicos, disse-lhe que nada é impossível para Deus e o fez ir à igreja com ela.
Nos cultos realizados especialmente para a cura, o rapaz começou a ser... digamos... exposto aos demais, para que todos gritassem a Deus pedindo pela cura de sua saúde, para que se livrasse desse vírus letal.
Além disso, ele e a irmã fizeram ofertas generosas de dinheiro à igreja, para alcançarem o que solicitavam, em meio a um delírio eufórico e sem equilíbrio, razão ou bom senso.
Com Jesus, aprendemos que para orar devemos entrar em nosso quarto e fechar a porta, orando em secreto.
Ao orarmos para que sejamos vistos pelos homens, já recebemos o que desejávamos, ou seja, a demonstração e a exibição de nossos actos.
Pois bem -— continuou ela —- esse rapaz não frequentava nenhum grupo de apoio, nem ouviu muitas orientações, nem procurou saber mais detalhes sobre a Aids e o HIV.
Seu médico, homem de poucas palavras, prescrevia seus medicamentos, fazia-lhe algumas recomendações e pedia-lhe exames de rotina.
Nada mais. Quase não havia perguntas.
O jovem seguia à risca tudo o que lhe era indicado.
Com o tempo, esse rapaz realizou um exame.
Abriu o resultado antes de levá-lo a seu médico.
Em meio a inúmeras linguagens clínicas, entendeu como resultado:
Carga virai indetectável.
Eufórico, fanático e cego para a realidade, não recordou as poucas advertências médicas, nem levou o exame para que seu médico lesse.
Não cabendo em si de contentamento, divulgou no meio do culto religioso que havia recebido um milagre, pois não era mais portador do HIV.
O pastor, diante do "milagre" ocorrido, passou a usar o rapaz para promover os tratamentos de cura nos cultos e solicitar numerários respectivos à graça que se desejava alcançar.
Convertido de forma fanática, o jovem e o pastor passaram a dar-se muito bem, a ficar muito próximos, se me entendem...
Vou resumir -— disse Elma para desfechar a história.
— Depois de algum tempo, eis que a esposa desse pastor, após apresentar alguns problemas de saúde e depois de diversas consultas ao médico, descobriu que fora infectada com HIV e já sofria a manifestação de algumas infecções comprometedoras.
Ela garantia fidelidade ao marido que, para surpresa de todos, revelou-se homossexual actuante e ter contraído o vírus do rapaz que informou que seu exame apresentava carga virai indetectável.
Mais uma vez, podemos confirmar que não é a religião que nos liga a Deus nem ao diabo.
A boa conduta moral está no espírito humano.
— Uma vez confirmado o HIV no organismo, ele não some.
Nenhum tratamento nos livra do HIV, mas impede a multiplicação desse vírus e diversas infecções, retardando a Aids.
Por isso é muito importante iniciar o tratamento com remédios prescritos por médicos especialistas no assunto, antes que a pessoa apresente qualquer doença e tenha seu sistema imunológico enfraquecido —- argumentou Álvaro.
— Muitos seropositivos que se medicam rigorosamente
e procuram uma boa qualidade de vida, em todos os sentidos, podem ter sua carga virai, que é a medida da quantidade de HIV circulante no sangue, indetectável em exames mas, ao mesmo tempo, o sistema imunológico alto.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:27 am

Se ele se descuidar, o vírus volta a se multiplicar e a atacar as células do sistema imunológico.
Estar com a carga virai indetectável não significa deixar de ter o vírus no organismo.
— Elma -— perguntou Silmara - suponhamos que um casal seja seropositivo porque um infectou o outro.
Eles moram juntos e fazem tratamento.
Se tiverem relação sexual, pode haver algum problema, ou por serem seropositivos, podem ter uma vida sexual activa?
— Há problemas, e muitos.
Existe uma série de remédios usados para tratamentos que contêm as infecções oportunistas e diminuem a carga virai, ou seja, reduzem a multiplicação do HIV no organismo.
Cada pessoa é um caso.
Cada seropositivo deve ter um tipo de tratamento, um tipo de combinação de medicamentos diferentes.
Se os seropositivos se relacionarem, estarão trocando vírus que já receberam determinada medicação e que vão tornar-se resistentes à droga, quando precisarem dela.
Fora isso -— prosseguiu a instrutora, —- o HIV tem alto poder de mutação.
Após invadir o organismo e usar uma célula para se replicar, as novas partículas virais, ou seja, os novos vírus que vão surgir naquele corpo, não são mais iguais aos do vírus que entrou.
Em um casal, quando o homem infecta a mulher, o vírus que se multiplica agora no organismo dela não é igual ao vírus do organismo dele.
Assim como no caso dos medicamentos, o DNA, as proteínas, os nutrientes e tudo mais que um corpo possui implica a mutação desse vírus que pode ser, além de diferente, mais resistente.
Então -— explicou ainda - quando dois seropositivos se relacionam sexualmente sem o uso de preservativos ou transmitem um ao outro seus fluidos corpóreos contendo o vírus, haverá, no interior do organismo de cada um deles, um vírus ainda mais diferente e, provavelmente, ainda mais agressivo.
— Elma —- pediu Silmara - pode nos contar algum caso de pessoa que escapou de ser contaminado pelo HIV por ouvir o mentor?
— Existem diversos casos desse tipo.
Um deles é do jovem Beto.
Um rapaz bonito e maduro em seus 27 anos.
Por ser de boa família, ou melhor, por ter tido pais que lhe ensinaram valores morais, ele trazia no imo da alma a vontade de constituir uma família.
Ter casa, esposa e filhos e até um cachorro para completar a alegria da família.
Por motivo de emprego, precisou ir para a cidade grande e morar sozinho.
Ganhando razoavelmente bem, logo entrou numa academia de ginástica, muito comum nos grandes centros, para acabar com a ociosidade.
Beto entrou na academia e lá começou a reparar no corpo escultural das jovens bonitas e elegantes.
Uma moça em especial chamou-lhe muito a atenção -— contou a instrutora.
— Ela era muito bonita mesmo.
Um corpo perfeito, sadio e malhado, como eles dizem.
Beto tentava aproximar-se dela com certo cuidado, pois não estava acostumado ao modernismo das mulheres da cidade grande.
Certo medo, porém, o fazia recatado, talvez, envergonhado.
Era seu mentor que o intuía a ficar mais atento e alerta.
Observando o interesse de todos, Elma prosseguiu o longo relato:
— Como não poderia deixar de ser, os amigos incentivam-no a se aproximar rapidamente da moça, dizendo que ele precisava ser mais directo, convidando-a para sair logo na primeira conversa, pois era isso o que ela esperava.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:27 am

Apesar de todo recatamento, Beto aproximou-se da bela moça que, sorridente, aceitou o convite para tomarem um aperitivo num barzinho.
Cheio de boas intenções, sentia-se apaixonado por ela, por seu corpo maravilhoso, por seus cabelos bonitos, pela boca bem-feita, pelo sorriso alvo.
Era a mulher perfeita!
No encontro, apesar de um pouco nervoso, o rapaz começou a conversar e descobriu, com determinados assuntos, que a moça não possuía, em seu interior, cinco por cento da beleza que exibia no físico.
Era uma jovem vazia. Sem emoções nem sentimentos. Sem responsabilidade.
Não tinha objectivos na vida, a não ser ter um corpo bonito, fazer cirurgias plásticas etc.
Com isso, o rapaz percebeu que a jovem aceitara muito rápido o convite para saírem e que, se houvesse proposto algo mais íntimo, certamente, ela aceitaria.
Ele não sabia, mas seu mentor o fazia perceber tudo isso na jovem.
Notou também que a moça ficou decepcionada quando ele, simplesmente, deixou-a na porta de sua casa, sem convite para que alongassem a noite.
A partir de então, Beto passou a ficar mais exigente com as moças que observava, pois havia se decepcionado com o vazio e a pobreza de espírito daquela por quem se sentiu atraído.
Com o tempo, numa visita aos pais, no interior, não tão longe da capital onde residia, tornou a rever uma amiga de infância que, naquele dia, visitava sua mãe.
Ela foi a menina com quem ele havia brincado e brigado muito.
Conversaram. Ela contou que havia terminado uma faculdade e procurava empregar-se na área.
Mostrou--se produtiva, com responsabilidade, valores morais e ideias de prosperar.
Voltando para a capital, Beto não tirou a amiga da cabeça e passou a compará-la com as jovens com quem trabalhava ou conhecia, achando-as bem fáceis e, apesar dos assédios, decidiu rejeitá-las.
Conhecendo o assunto do momento, começou a pensar na infecção pelo HIV, nas dificuldades da Aids e decidiu que não valeria a pena correr o risco de sair com qualquer uma por simples promoção de prazer ou para provar aos amigos que era homem. Ele atendeu as inspirações de seu mentor.
Retornando a sua cidade, convidou essa amiga para voltar com ele para a capital, pois lá poderia procurar um emprego.
Poderia morar com ele, afinal, ele morava sozinho.
Mas a moça não aceitou.
Ficaria ali com seus pais e enviaria seus currículos.
Se fosse para ela ir para a capital, acreditava que seria chamada.
Não ficaria bem morar com um rapaz, sozinha.
Foi então que começaram a namorar.
Hoje estão casados. Moram na capital.
Ela trabalha na área em que se formou.
Espera o primeiro filho e Beto, realizado, experiente, não pensa em trair a esposa por companhias efémeras e vulgares.
Beto não sabe que se livrou de ser infectado com o HIV por aquela jovem bonita da academia, por quem se sentiu apaixonado, um dia, por quem foi, freneticamente, incentivado a convidar pelos colegas.
Talvez, sua vida hoje, com mulher e filho, seja simples, sem muitas emoções, mas, certamente, ele está livre de grandes aflições, desespero, dores e angústias.
Além do arrependimento.
E, querem saber quem são eles? —- perguntou Elma, com sorriso maroto.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:27 am

— Estamos sob o tecto desse casal magnífico e abençoado, pois possuem o coração evangelizado na Doutrina do Cristo -— finalizou para surpresa de todos.
— Que legal!!! -— gritou Romildo sem conter as emoções, recatando-se logo em seguida.
— Ainda bem que existem pessoas ponderadas, que escutam aquela inspiração... -— comentou Silmara, sorridente.
— Agora, meus queridos -— disse a instrutora —, por hoje encerraremos aqui.
Amanhã, falaremos mais.
E foi com o coração repleto de harmonia, abrigados nas vibrações salutares daquele ambiente que os acolhia, que cada um procurou o repouso reconfortante e merecido, para se recompor para o dia imediato.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:28 am

18 - Desafios diversos

O DIA INICIAVA-SE tranquilo quando Romildo, com expressão animada, logo perguntou à instrutora:
— Continuaremos com nossa conversa?
Afinal, essas histórias são óptimas.
Tive a sensação de haver mais casos para contar.
Elma sorriu gentilmente e avisou:
— Caminharemos, ao modo dos encarnados, até nosso destino. Durante o trajecto, conversaremos.
Seguindo por avenidas e ruas, o grupo observava muitos transeuntes acompanhados por espíritos muito maldosos, maliciosos, compulsivos e perturbados de esfera incrivelmente inferior, que se atraem aos desencarnados pela postura mental, ideias de raiva, descontentamento, revolta, vingança, orgulho, ganância, sexo e por tantos outros motivos.
A instrutora aproveitou-se da oportunidade e comentou:
— Lembram-se do caso da Síria, aquela moça rica que, em séculos passados, aproveitou-se da morte do pai rigoroso e transformou a mansão onde morava em prostíbulo?
— Sem aguardar a resposta, continuou:
— Pois bem, existem milhares de casos semelhantes ao dela, em parte, claro.
Algumas das mulheres que se perverteram no sexo leviano com ela, hoje, retornam com experiências semelhantes.
Uma delas, infectada com HIV pelo marido, revoltou-se, criou situações difíceis e complexas para ela e para a família que a acolhia com compaixão e tentava oferecer conforto e solidariedade.
Desesperou-se em manifestações agressivas, palavras rudes, acreditando que, por ser uma mulher digna e fiel, jamais deveria merecer tamanha desgraça.
Decidindo esquecer sua nova condição de seropositivo, acreditando que não tinha nada mais a perder, não se alimentava devidamente, passava a noite em festas estranhas, com amigos duvidosos, embebedando-se e fumando, inclusive drogas.
Ela exigia dos parceiros o uso de preservativo nas relações sexuais, entretanto por causa das bebidas e dos abruptos movimentos, quantos preservativos se romperam no calor dos acontecimentos?
Ela não sabe.
Porém, pouco se importava, afinal, ela pensava:
"Eu fiz questão do uso do preservativo, mas se ele se rompeu, não foi por minha culpa.
E, se ele se infectou, não tenho responsabilidade alguma, porque, começamos com a prática de sexo seguro".
Todas as pessoas, portadoras do HIV ou não, devem a si e a Deus a preservação da saúde e da vida dos semelhantes.
Ninguém tem o direito de deixar, seja quem for, correr qualquer risco -— disse Elma que esperou alguém se pronunciar, mas não aconteceu.
Por isso, ainda contou:
— Desesperada pela fatalidade, ela busca esquecer a nova condição cometendo novos desatinos, em vez de viver para melhorar-se como pessoa, para se superar na nova vida.
Todos nós, sem excepção, temos capacidade de dominar nossos sentimentos de raiva, revolta e nos melhorar a cada dia, apesar dos pesares, das dificuldades e dos conflitos.
— Talvez, ela acredite que sua vida termine com a Aids.
Que engano lamentável... -— compadeceu-se Silmara.
— Pior do que ter o HIV no corpo é ter o HIV "no espírito", pois criamos mentalmente, pela revolta e raiva, pelo desânimo, desespero, desprezo e actos irresponsáveis a nós mesmos e aos outros, energias que destroem nossa imunidade ou vibração espiritual, nossa força espiritual.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:28 am

Muitos perdem a fé em um Deus bom e justo, esquecendo que a vida é eterna e teremos de rever, corrigir, experimentar novamente e harmonizar tudo o que desprezamos e tudo fizemos irresponsavelmente.
Jesus já nos disse:
"Não temeis os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo".
Todos silenciaram, por alguns instantes, em profunda reflexão, até que a instrutora avisou simplesmente:
— Chegamos.
Ao entrarem, depararam com um campo magnético de impressionante serenidade, reforçado de energias animadoras e luzentes.
Entidades socorristas que trabalhavam na espiritualidade os receberam com largo sorriso e muita animação.
— José! Quanto tempo, meu amigo! -— expressou-se Elma, com elevada consideração.
— A distância é pelo trabalho intensivo que cresce a cada dia.
— Jesus o abençoe, fortalecendo-o na árdua tarefa magnífica e intensa que abraçou a qual ampara a muitos.
— Logo Elma apresentou:
— Esses são os queridos alunos que necessitam aprender com as experiências e os desafios da Aids.
Penso ser, este posto, formado na espiritualidade com as bênçãos do Divino Mestre, o lugar ideal para complementarem o aprendizado.
Poderia contar-lhes como tudo isso aconteceu?
Após poucos segundos, todos se acomodaram e José contou:
— Lindaura, dona desta casa, foi uma criatura que, em outras encarnações, desviou a função da libido e entregou-se ao sexo casual, prazeroso e promíscuo.
Nem preciso narrar as dificuldades que ela experimentou depois do desencarne.
Porém, logo após se deixar socorrer, procurou aprender e solicitou novo reencarne para se equilibrar.
Com muita dificuldade, não se entregou a compulsões e orgias, até surgir o convite insistente de amigas para que, segundo elas, divertissem-se em espectáculos de quase nudismo masculino, em que homens, com trajes típicos, expõem-se, dançam e mostram seus músculos e porte atlético.
São homens que se prostituem e se vendem, nem sempre para o ato sexual, mas para se exporem em troca de dinheiro, para excitação e fantasia de várias mulheres.
É lógico que no fim do espectáculo sempre há os que aceitam convites para shows particulares, privados.
Vocês me entendem...
Infelizmente, são jovens desequilibrados, que possuem desvios psicológicos para o exibicionismo e auto-erotismo, expondo-se ao voyeurismo de mulheres — detalhou o mentor.
O lugar onde se apresentam normalmente, no plano visível aos encarnados, é sofisticado, de alto estilo e decoração de bom gosto.
Entretanto, na espiritualidade, a visão é terrível, tenebrosa.
Muitos espíritos escravizados no sexo, deformados e quase perdendo a aparência perispiritual humana, entrelaçam-se num panorama repleto de miasmas repugnantes. O odor é insuportável.
Verificando que todos estavam bastante atentos, José continuou, o que seria um longo relato, explicando tudo muito bem:
— Mulheres que foram prostitutas, quando encarnadas, sem serem percebidas no plano físico, também se juntam aos encarnados que se apresentam com exibições eróticas àquelas que assistem.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:28 am

Todos entram no mesmo clima de excitação e depravação.
Quanto mais esses espíritos terrivelmente inferiores conseguem penetrar nos pensamentos das encarnadas que assistem ao show, mais se ligam a elas, ceifando-lhes a moral, o bom senso e o amor-próprio.
Ali acontece uma dominação obsessiva delirante, excessivamente perturbadora e sórdida.
Até o final do espectáculo, inúmeras mulheres, que se entregaram ao nefando voyeurismo, ao prazer de observar o corpo dos exibicionistas, não sabem que se entrelaçam, espiritualmente, a criaturas que lhes sugam as energias e lhes transferem fluidos funestos.
A princípio, ou melhor dizendo, no dia ou semana seguinte, talvez, muitas mulheres nem percebam nada, mas acabarão notando mudanças subtis no cotidiano, coisas que começam de forma errada e desordenada.
Elas se tornam nervosas e estressadas.
Acreditam que precisam relaxar e distrair-se, ou então é despertado um desejo pelo sexo, de uma forma que nunca sentiram antes.
E foi isso que aconteceu com a estimada Lindaura — disse José em tom brando.
E prosseguiu:
— Um daqueles espíritos inferiores que estavam no espectáculo em busca de uma consciência que se assemelhe a ele, impregnado de fluidos repugnantes, imantou-se a ela pelas afinidades, principalmente as do passado.
Esse irmãozinho procurou imprimir-lhe, vagarosamente, ideias de prazer e de desejo sexual.
Sem que percebesse, Lindaura era induzida a folhear revistas em que sempre se destacavam assuntos sobre prazer sexual, ou como conseguir mais prazer no sexo, com opiniões sórdidas, vulgares e desmoralizantes de mulheres que não se respeitam.
Em tudo o que Lindaura procurava para distrair-se sempre era levada a assuntos sobre sexo.
Foi então que cresceu seu desejo sobre o tema: sexo e prazer.
Lindaura passou a dar preferência a filmes com cenas explícitas de sexo, fazendo com que se juntassem a ela, para também compartilharem das cenas, mais espíritos lascivos, maliciosos e deprimentes.
Ela adorava novelas picantes, com cenas insinuantes, de sexo e troca de parceiros, trazendo-se emoções e sensações.
Lindaura, ignorando os espíritos inferiores que agora lhe escravizavam e imprimiam-lhe pensamentos de uma espécie de fantasia em que ela se imaginava com um ou diversos homens para obtenção de prazer, não sabia que tudo que fantasiava acontecia na espiritualidade, com espíritos vis e compulsivos sexuais representando, como se estivessem encarnados, os acontecimentos de sua imaginação.
Com os estímulos das revistas femininas requintadas que, irresponsavelmente, passam uma informação de baixa moral, defendendo os direitos da mulher como se leviandade, promiscuidade, prostituição e irresponsabilidade sexual fossem demonstração de liberdade feminina.
— José fez breve pausa para reflexão, depois continuou:
Com os incentivos recebidos das novelas, cujos enredos são de troca natural e promíscua de parceiros, com a preferência a filmes com cenas de sexo, a pobre Lindaura, disposta a ser uma mulher liberal, assumida e independente, decidiu libertar-se dos ensinamentos morais recebidos. Passou então a viver como queria.
Ignorava as entidades sugadoras, perversas, lascivas e monstruosas que se grudavam a ela, literalmente falando.
Com a crescente necessidade emocional de saciar-se no sexo, Lindaura viveu paixões e sexo sem amor, sentindo-se vazia e fragmentada ao final de cada experiência.
Sentia-se usada, como um objecto que passa de mão em mão e vai se desgastando, deixando-se marcar pelo uso.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:28 am

Quando percebeu que nenhuma mulher se realiza, satisfaz-se plenamente ou é feliz da forma como vivia, de mão em mão, Lindaura descobriu que o sexo, em sua função normal, proporciona amor, plenitude e elevada sensação de carinho verdadeiro ao parceiro.
Pela dádiva da união, proporciona satisfação na alma e não dúvida antes, durante ou depois do acto.
O sexo, em toda a sua plenitude, pertence à alma e não ao corpo carnal.
Nessa fase de reflexão ao que praticava desrespeitosamente a ela mesma, Lindaura descobriu que havia se infectado com o HIV.
Então ela se questionou:
"Como, se eu praticava o sexo seguro?
Como, se seleccionava meus parceiros?".
Após muito choro, desespero, pensamentos causticantes e terríveis, ela se ergueu com muita dificuldade, mas graças ao apoio dos pais e de apenas um irmão, pois o restante da família promoveu sua morte social ao saber da notícia.
Lindaura, porém, foi mais forte, foi superior a todo preconceito.
Passou a cuidar-se mais, a ter mais atenção com sua saúde e buscou uma nova filosofia de vida, que lhe deu o entendimento da causa das aflições.
Hoje, ela vive mais do que antes. Livrou-se das obsessões nefastas, dos espíritos vis que a escravizavam com impregnações energéticas e de pensamentos.
Lindaura trabalha, estuda e, além de cuidar muito bem de si mesma, faz parte de um grupo de apoio a portadores do HIV e visita os vitimados pela Aids em suas residências ou clínicas, quando estes estão impossibilitados de frequentar uma associação.
Seu lar, hoje — comentou com sorriso generoso —, bem diferente de tempos atrás, é um lugar prazeroso de imensa paz, pois as palavras indecentes e de baixo valor moral foram trocadas por educado entendimento e resignação.
Os programas de televisão de tragédias horrendas, que são temas chamativos de audiência, ou com cenas sensuais e promíscuas, que atraem a presença e atenção de espíritos maliciosos estimuladores da desvalorização e do desequilíbrio moral, foram trocados por programas instrutivos.
Os programas de televisão de diversão com depravação, ridicularização e humilhação de pessoas, que também servem de especulação a espíritos zombeteiros que apreciam a vergonha e humilhação alheias, foram substituídos por comédias agradáveis, com atores preparados.
As músicas inferiores, que insinuam o sexo animalizado, portanto doentio, e comparam o ser humano a cão, equino e outras coisas mais, estimulando a zoofilia, ou contêm palavrões e palavras agressivas, foram trocadas por canções mais tranquilas e elevadas.
Tudo isso, antes, atraía incontáveis espíritos de todas as inferioridades.
A prática do Evangelho no Lar e os estudos da Doutrina Espírita trouxeram não só compreensão e elevação dos encarnados, mas também muita Luz radiosa ao ambiente.
Essas mudanças proporcionaram fluidos salutares aos encarnados e promoveram este lar, principalmente na espiritualidade, facilitando a elevação a tal ponto, que hoje nos serve de guarida e oficina superior, facto que oferece aos encarnados energias salutares, harmonia e muita paz.
José ofereceu breve pausa em que circunvagou o olhar a todos e finalizou o relato:
— Tudo isso não foi fácil.
Foi a reeducação, forçada pelo choque de saber-se seropositiva, que levou Lindaura e sua família à elevação moral.
Finda a narrativa, após um instante, Elma voltou-se para seus alunos lembrando-lhes:
— Diante das maiores dificuldades, somos nós quem transformamos em tragédia ou vitória as circunstâncias a serem enfrentadas.
É bom lembrar que teremos de repetir a experiência quando nos acomodamos ou nos revoltamos com o que deveríamos harmonizar.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:29 am

A instrutora sorriu e aguardou algum questionamento.
Como não foi feita nenhuma pergunta, voltou-se para o amigo José, abraçou-o com carinho e, após os votos de êxito no trabalho desenvolvido e agradecida pelas explicações objectivas, despediu-se.
Deixaram aquele lar.
Elma seguia junto com seus alunos para uma igreja, mas Romildo, sempre sequioso por aprender, aproveitou-se da oportunidade e perguntou:
— A família e os parentes têm uma tarefa muito importante na vida daqueles que portam o HIV ou experimentam a Aids, não é?
- Sem dúvida -— esclareceu a benfeitora.
— Nunca estamos próximos de uma pessoa por mera casualidade.
Aqueles que experimentam situações difíceis como essa precisam ser apoiados e, principalmente, orientados.
Entretanto, situações abusivas, por parte do seropositivo, devem ser evitadas.
Como nos disse o próprio Mestre, não devemos dar ao filho o peixe, mas ensiná-lo a pescar.
Sabe Romildo, é necessário ter muito bom senso e amor — explicou a instrutora.
— Porém muitos repugnam aquele que é soro-positivo, às vezes, por pura ignorância, por orgulho ou preconceito.
Porém ninguém está livre de tão terrível experiência, que sempre nos é proposta para aprimoramento e educação do espírito.
E, em nosso futuro, receberemos exactamente o que proporcionamos a outros numa possível situação difícil.
Alguns, infelizmente, acreditam que o HIV pode infectar com o contacto social, com o beijo social, quando se usa a mesma cadeira ou até pelo ar que se respira próximo ao seropositivo —- disse Elma.
— Por isso desprezam, humilham e desrespeitam, esquecendo-se de que necessitarão harmonizar o que proporcionaram de mágoa, melancolia, vergonha e muito mais.
Nesse momento, eles chegaram ao destino, quando Silmara perguntou:
— Aprenderemos algo sobre os desafios da Aids nesta igreja católica?
— Sem dúvida! -— animou-se Elma e completou:
— Quero mostrar-lhes um trabalho magnífico e desafios reeducativos sobre o HIV. Vamos entrar.
Em uma atmosfera espiritual harmoniosa e de inenarrável paz, a instrutora e seus alunos foram recebidos calorosamente pelos tarefeiros espirituais que ali prestavam serviços prestimosos.
Sempre generosa e educada, depois de terno cumprimento, ela solicitou àquele que se encarregava do trabalho principal:
— Egildo, meu amigo, como vê, estou com esse novo grupo e necessito de seus valorosos préstimos.
Poderia apresentar-nos a creche que você mentoreia e os desafios de cada um dos irmãozinhos queridos que vivem nela?
— Com imenso prazer, meus amigos! -— respondeu extremamente alegre e satisfeito.
Seguindo-o por corredores laterais, eles chegaram até uma creche que funcionava activamente num local ao lado da igreja.
Ao olhar, sorrindo para todas as crianças que, naquele instante, estavam em recreação, Egildo explicou com ternura na expressão:
— Esses são meus anjinhos.
É assim que eu os chamo.
São queridos espíritos inocentes nesta encarnação.
Digo, inocentes, no sentido de ignorarem as dificuldades que vivem, porém trazem do passado uma pesada bagagem da qual tentam se aliviar.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:29 am

Todas essas crianças cuidadas com precioso carinho pelo padre Alécio são portadoras do HIV.
Elas já nasceram com o vírus e foram infectadas pelas mães seropositivas.
Aproveitando-se da breve pausa, Elma solicitou gentilmente:
— Antes de contar alguns casos em particular, pode falar sobre o valoroso padre Alécio?
— Claro! — respondeu o anfitrião, sempre animado.
— Nosso querido padre Alécio, em tempos remotos, em outra experiência reencarnatória, era casado.
Por um problema congénito, ignorado na época, seus filhos nasciam com certos problemas físicos e debilidades.
Alécio e a esposa abandonaram cada um dos filhos especiais que lhes foram confiados.
Sem um coração bondoso, ele e a mulher, simplesmente, deixavam os pequeninos em lugares ermos, para que morressem, pois indefesos, com dias ou meses, não resistiam por muito tempo e faleciam de forma angustiosa.
Desencarnado -— relatou Egildo - Alécio passou por tristes penas em labirintos tenebrosos pelo remorso.
Ouvia constantemente cada choro, cada grito desesperador de seus filhinhos ecoando em sua mente, enquanto sentia corroer-se pela mesma sensação física que os pequeninos experimentaram angustiosamente enquanto esperavam a morte.
As visões ininterruptas em sua tela mental eram horrendas e aterrorizantes.
Em nova oportunidade de vida terrena, Alécio foi um grande senhor de engenho e, recebendo, novamente, os filhos enfermos, proporcionou cuidados a cada um deles.
Porém, vejamos, ele proporcionou cuidados, pois tinha situação privilegiada, mas não cuidou pessoalmente com atenção e carinho. Eram suas escravas que cuidavam.
Como homem lascivo e senhor de escravos, ele se sentia no direito de possuir suas escravas negras, índias e bugres, abusando delas sem nenhuma piedade, transmitindo-lhes doenças sexuais, além de causar-lhes agressões físicas e emocionais.
Em meio a sua conturbada vida, foi proclamada a Lei do Ventre Livre, que determinava que os filhos de escravos nascidos a partir daquela data não seriam mais escravizados.
Revoltado com a situação, ganancioso e impiedoso, pensando somente nos prejuízos que teria se cuidasse de crianças negras que eram livres, sem poder utilizá-las como escravos, sem poder vendê-las e usá-las cruelmente em suas práticas indecorosas, Alécio tomava dos braços de suas escravas os filhos recém-nascidos, pequeninos e indefesos, e os levava para longe de suas terras, abandonando-os para que morressem desprovidos de auxílio ou socorro.
Com isso, embrenhou-se em terrível obsessão que, ainda em vida, levou-o à loucura extrema, obrigando-o a ser amarrado e amordaçado, em sua cama, pelos próprios parentes.
Após o desencarne, seu padecimento foi tenebroso, causado principalmente pelos espíritos que torturou como senhor de escravos e até pelos que foram abandonados à morte.
Muitos, inclusive, eram seus filhos.
Alécio necessitou de duas reencarnações lamentáveis e miseráveis, de deformação e debilidade mental, e da experiência com estupro e queimaduras para expiar o que fez a muitos dos escravos.
Depois de muito tempo na espiritualidade -— Egildo prosseguiu no mesmo tom tranquilo —- foi elevando-se e entendendo que devia, como todos nós, fazer ao próximo o que desejava a si mesmo.
Alécio, porém, necessitava vencer a compulsividade sexual e entregar-se a tarefas de auxílio ao próximo, para reeducar-se e harmonizar-se pelos homicídios de crianças e pelas condições precárias que muitos tiveram por sua causa.
Para abster-se do sexo, acreditou que seria melhor prender-se às obrigações e dogmas da Igreja Católica, fazendo votos de pobreza e castidade.
Assim ele se equilibrou e sentiu necessidade de ajudar os desafortunados.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 26, 2017 9:29 am

Comovido pelas crianças abandonadas pelos pais e portadoras do HIV, o que dificultava extremamente uma adopção, Alécio decidiu adoptar esses filhos do mundo, canalizando todas as suas energias em trabalhos incríveis, de imenso valor e respeito.
E, como pai amoroso, dedica-se imensamente à tarefa árdua de acomodá-los com relativo conforto, provê-los de elevados cuidados e, principalmente, oferecer-lhes toda atenção e tratamento para conter o HIV e as infecções oportunistas causadas pela Aids.
Alécio tornou-se elevada criatura -— disse ainda - abençoado a cada dia pelo trabalho operante, pela disposição em servir ao Cristo, quando socorre a cada um desses pequeninos.
Que ninguém ouse criticá-lo pelo passado errante.
Hoje há criaturas com muito pouco a corrigir e harmonizar e se tornam ociosas, inoperantes e acomodadas.
Encontram defeitos nas obras alheias, embora tenham tempo de sobra para corrigir seus débitos, não se dispõem a servir como poderiam e deveriam.
Envolto em bênçãos especiais -— contou Egildo para desfechar —- o padre Alécio entrega-se arduamente, em benefício desses pequeninos de forma ostensiva, incansável e com incrível paciência.
Finda a narrativa, o silêncio foi absoluto até Romildo se manifestar:
— Que relato emocionante!
— Mas aqui temos muitos relatos emocionantes e comoventes.
Esperem só!
Egildo fez um gesto significativo, indicando para que o grupo o seguisse. E assim foi feito.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 am

19 - Nascendo com HIV

CONDUZINDO os amigos com expressiva satisfação, o amável Egildo alcançou determinada ala da referida creche e deteve-se, mostrando a todos:
— Esses meus anjinhos são os menores.
Vou-lhes narrar alguns casos.
Eles foram levados a essa reencarnação, chegando ao mundo já portando o HIV.
Aquele é Ovídio — apontou o benfeitor e anfitrião.
— Ele tem 3 anos.
Há um ano e meio, foi abandonado na porta desta creche com um bilhete contendo alguns dados e seu primeiro nome.
Sua mãezinha entrou em desespero ao saber que era seropositiva e que seu filhinho tinha nascido contaminado.
Quando ela o deixou aqui, Ovídio já desenvolvia várias infecções oportunistas, decorrentes da Aids.
— Egildo ofereceu alguns instantes e contou:
— Ovídio experimenta esse desafio porque, em outra experiência terrena, suicidou-se, atormentado pela hanseníase também chamada de lepra ou morfeia, uma das enfermidades que mais aterrorizaram o mundo em todos os tempos.
Emocionalmente, Ovídio não resistiu às difíceis condições de ataque ao tecido da pele com lesões em mucosas, ulcerações e necrose dos tecidos afectados, muito dolorosas e fétidas, além da alteração do sistema nervoso causada por essa infecção bacteriana, denominada hanseníase.
Depois de anos em perturbação terrível por ter tirado a própria vida, ele retornou para uma breve reencarnação, já infectado por um vírus que o fará continuar a experiência interrompida em outra vida.
Aproveitando-se da pausa de Egildo, Álvaro perguntou:
— Devem ter aqui muitos casos de espíritos que interromperam a própria vida por causa de doenças tão difíceis de suportar quanto a Aids é hoje, não é?
— Sim, temos muitos casos de suicídios em vidas passadas, por aqueles que não suportaram determinada enfermidade ou condição emocional dolorosa.
Entretanto, apesar de parecer cruel, as consequências da Aids, em uma criança, evita ou impede que esse espírito cometa novamente o acto de suicídio.
Além de ele expiar no mesmo grau aquilo que lhe ficou faltando harmonizar — esclareceu o anfitrião.
Percebendo o interesse, o benfeitor Egildo comentou, apontando:
— Aquela é Rafaela, nossa linda menininha.
Rafaela tem uma história curiosa.
Ela se suicidou em outras experiências de vida, por causa da anorexia.
A anorexia, como devem saber, é um estado emocional doentio em que a pessoa deixa de se alimentar, o que provoca deficiência em todo o organismo e emagrecimento rigoroso, levando à morte prematura em muitos casos.
Como consequência de seu ato, por não controlar seu desequilíbrio de não comer, por ter deixado seu corpo ir à falência orgânica com inúmeros comprometimentos terríveis à saúde, hoje, ela já reencarnou com o HIV, para que passe pelas mesmas experiências a que se forçou e que a levaram ao suicídio inconsciente.
— Casos como o de Rafaela -— disse Elma —- podem fazer uma pessoa já nascer com o HIV ou adquiri-lo mais tarde, no decorrer da vida, por meio de transfusões, injecções etc...
Ela não vai se infectar por práticas sexuais.
— Eu estava longe de imaginar que a anorexia pudesse levar alguém a esse tipo de experiência com a Aids! -— surpreendeu-se Silmara.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 am

— Ora! -— interrompeu Romildo.
— A pessoa não gostava de passar fome, queria ser magra e maltratava o corpo, comprometendo a saúde e até desencarnando antes da hora?
Pois, então, essas pessoas vivem hoje exactamente o que fizeram de errado para si mesmas, para o próprio corpo.
Quando tiverem de passar pela fase da Aids, que causa magreza, mal-estar e falência dos órgãos, estarão expiando, experimentando o que fizeram!
Elma, imediatamente, olhou para Romildo, como uma forma de repreensão, demonstrando que não gostou do comentário, mas nada disse.
Egildo, por sua vez, continuou em tom singular:
— Apesar da forma um tanto chocante como Romildo nos expôs os factos, essa é a verdade.
Entretanto, normalmente, só os casos de anorexia reincidentes fazem o espírito expiar dolorosa provação com a Aids.
Antes de enfrentar experiência em doenças para resgatar a harmonia emocional com relação à alimentação, ele reencarna primeiro em condições paupérrimas, de extrema miséria, e passa por muita fome em lugarejos esquecidos do mundo.
— Como Etiópia, Somália? - perguntou Silmara.
— Não só lá.
No sertão brasileiro, também encontramos condições semelhantes, paupérrimas.
Veja, cada caso é um caso -— alertou o mentor.
— Quando a anorexia é uma doença mental ou emocional, algo do espírito, trazida por traumas, transtornos e perturbações, sequelas do passado, a harmonização pode ocorrer de uma forma bem diferente.
Entretanto, existem pessoas que não comem ou comem e depois provocam vómito, para não engordarem, pois assim exige sua profissão ou os padrões de beleza, para que tenham status, fama, dinheiro, etc.
Frequentemente, essa agressividade ao corpo provoca um reencarne nessas condições paupérrimas que comentamos, ou inclina a essa reencarnação.
— Quando a anorexia pode ser uma doença do espírito por um trauma do passado? -— perguntou Silmara, interessada.
— Quando a pessoa tem medo de comer porque, no passado, foi vagarosamente envenenada por comida, e hoje tem medo de levar à boca qualquer alimento; quando, no passado, foi ridicularizada, agredida ou até espancada por algum parceiro, algo muito comum, por achar seu corpo avantajado e gordo.
E hoje, por mais que essa pessoa esteja magra, sua condição mental diz que ela ainda precisa emagrecer.
Esses são dois exemplos, entre várias situações.
São casos que necessitam de muita orientação, psicoterapia e espiritualização.
Bem diferente daquelas pessoas que não comem para manterem o corpo esculpido, por exibicionismo, fama ou fortuna -— explicou Egildo, e prosseguiu:
— Venham ver.
Esta é a querida Lina que experimenta essa difícil expiação pelas incessantes renúncias à boa moral.
Ela assumiu a prostituição com orgulho, destruindo lares, magoou pessoas.
Mesmo sabendo que estava com uma doença sexualmente transmissível, infectou inúmeros parceiros, as esposas e, consequentemente, os filhos desses casais, que já nasciam com a sífilis ou cegos pelo contágio da doença no momento do parto.
Também infectou os próprios filhos, concebidos mesmo depois que sabia estar doente.
— Somos sempre responsáveis pelo que causamos aos outros, não é? -— indagou Silmara.
— E a consciência sempre nos faz experimentar os desafios que causamos.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 am

— Aqui temos Enio -— continuou o anfitrião.
— Enio é um caso difícil, pobrezinho.
Em outros tempos, ele realizou experiências terríveis em seres humanos, em nome da ciência, sem se importar com a crueldade, as dores e as consequências morais e físicas.
— Foram feitas inúmeras experiências, sem cautela, com drogas e químicas terríveis com seres humanos, essencialmente, durante a Segunda Guerra Mundial -— comentou Álvaro.
— Temos registros desse tipo de crueldade principalmente nessa época.
Mas o homem, imprudente, vem realizando esse tipo de crime hediondo há centenas, milhares de anos e, infelizmente, ainda os realiza -— explicou Egildo, comovido.
— Na condição em que nós nos encontramos hoje, encarnados ou desencarnados, temos o dever, a obrigação de amar todas essas criaturas, sejam quais forem seus erros passados, pois é provável que tenhamos errado tanto quanto eles, ou até mais.
É nossa oportunidade de servir com amor verdadeiro, para não expiarmos nem nos tornarmos necessitados como eles.
Deus nos dá a oportunidade de harmonizar e reparar o que fizemos de errado antes de nos deixar à mercê de nossa própria consciência perturbada, que nos exigirá reparos, provações e expiações severas.
Egildo silenciou.
Elma, aproveitando-se da pausa, comentou:
— Nunca devemos pensar que alguém sofre porque merece, ou que alguém está em trabalho valoroso porque precisa reparar.
Não sabemos nosso passado, por isso, em vez de julgar o irmão do caminho, devemos ser instrumento útil e valoroso.
Quando perdemos tempo em analisar a prova alheia, é sinal de que estamos improdutivos.
Aquele que trabalha se preocupa com o que faz e não tem tempo para outros pensamentos.
— Muito bem lembrado, minha querida amiga! -— exclamou Egildo, sorridente.
— O julgamento dos factos cabe a Deus. Continuemos.
— Um momento e prosseguiu:
— Muitos desses nossos amados irmãozinhos estão harmonizando o que sua consciência lhes cobrava.
Ali temos a pequena Eloide -— o benfeitor mostrou - que nos traz uma experiência bem recente.
Há cerca de trinta, quarenta anos faziam-se campanhas para o combate a muitas doenças virais infecto-contagiosas e as vacinações eram feitas em massa nas escolas e nos postos de saúde.
As principais doenças eram sarampo, rubéola, paralisia infantil, tuberculose e varíola, que ainda existiam na época, mas já foram erradicadas.
Naqueles anos, porém, as agulhas e os aparelhos usados para a vacinação não eram descartáveis, assim os agentes de saúde, que trabalhavam nessas campanhas, deveriam esterilizar os equipamentos utilizados.
Eloide, por falta de ânimo ou preguiça, desprezava as normas de higiene e vacinava seguidamente crianças e mais crianças, sem trocar as agulhas e os aparelhos de injecção e sem esterilizá-los como devia.
Algumas vezes, quando alguma professora ou mãe lhe exigia procedimentos de higiene, ela simplesmente passava a agulha do aparelho pela chama de uma vela, alegando que seria suficiente para a esterilização, mesmo tendo sido orientada de que esse procedimento já havia sido abolido.
Eloide e muitos outros profissionais de saúde, que trabalharam com negligência, contaminaram incontáveis adultos e crianças com infecções graves, vírus inúmeros, como o da hepatite, tuberculose, sífilis etc., causando, inclusive, muitas mortes.
Desencarnada, Eloide perturbou-se ao extremo e, após conscientizar-se de todo o prejuízo que causou a muitos, solicitou reencarnação com essa difícil prova, para o alívio da própria consciência.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:49 am

Então -— disse Egildo para finalizar - aqui contamos somente alguns casos, entre as centenas de motivos, que levam um espírito a solicitar reencarne já portando o HIV. Mas nem todos são assim.
Alguns espíritos, entretanto, têm um reencarne compulsório e obrigatório nessa situação, que lhe é imposta para regeneração.
São tratados igualmente com imenso amor, respeito e atenção por todos nós que, sem dúvida, estamos também em harmonização, em vez de provação.
O silêncio reinou por alguns instantes.
A essa altura, os alunos do pequeno grupo estavam admirados pelos exemplos narrados e pelo trabalho de amor ali tão magnificamente realizado com muitas bênçãos.
Notando uma movimentação especial, todos se voltaram para uma linda cena.
O padre Alécio, sorridente e animado, acabava de chegar e colocava-se de joelhos junto aos pequeninos que o rodeavam, agitados, pela alegria imensa em vê-lo.
Beijando-os um a um, padre Alécio os abençoou, como é da tradição católica.
Mesmo tendo um dos pequeninos segurando-lhe as roupas e o seguindo, foi até o outro recinto.
Observou a todos que dormiam nos berços, fez no alto o sinal da cruz e, em breve prece significativa, rogou bênçãos às crianças.
Só então se colocou à disposição das trabalhadoras da creche que o circundavam para contarem as novidades.
Padre Alécio ouvia com paciência e muita reflexão, pois, em sua maioria, eram necessidades e carências de todos os tipos.
O plano espiritual não era perceptível aos encarnados.
Egildo, aproximando-se de Alécio, envolveu-o com abraço fraterno e beijou--lhe a face.
Elma repetiu o gesto de Egildo e falou:
— Que o Mestre Jesus continue abençoando-o com luzes de amor e perseverança, meu irmão, e por muito tempo.
Não há substituto para a causa que abraçou, por isso e muito mais há de ser sustentado pelas mãos compassivas de Deus, hoje e sempre.
Rogaremos para que suas dificuldades materiais sejam sanadas.
Afastando-se, a instrutora propôs:
— Meus queridos, devemos ir agora.
Como podem ver, o trabalho aqui é intenso e ininterrupto.
Agradecemos a colaboração amorosa e imensa de Egildo para nossa instrução.
Com respeito a sua tarefa, devemos ser breves e deixá-lo retornar ao que realiza com dadivoso amor.
Ao terminarem as despedidas, Elma e seu grupo deixou aquela abençoada creche seguindo para novo aprendizado.
Observando o comportamento silencioso do grupo, a instrutora aguardou alguma pergunta, que foi feita repentinamente.
— Elma - disse Álvaro - quando eu disse ao Egildo que muitas experiências com seres humanos foram feitas lamentavelmente durante a Segunda Guerra Mundial, ele confirmou que se faziam e ainda se fazem.
Será possível que nos dias atuais uma monstruosidade dessas ainda aconteça?
— Sem dúvida.
Em segredo, países tecnologicamente bem desenvolvidos realizam experiências com pessoas.
E, como se não bastassem, os projectos de inseminação artificial, realizados para casais que não conseguem engravidar por métodos normais, apresentados com tanta modéstia, subtileza e sigilos também não passam, em muitos casos, de uma experiência científica criminosa.
Em alguns, vários óvulos são fertilizados com métodos artificiais em centrífugas e alguns deles são implantados no útero da mulher.
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Re: No silêncio das paixões - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 27, 2017 8:50 am

Se um, dois ou três obtiverem sucesso, inicia-se a gestação, óptimo.
Mas há várias situações problemáticas nisso tudo.
Em alguns casos, dependendo do país, as leis não são específicas, pois há muita coisa desconhecida nessa área.
— Elma ainda disse:
— Em alguns países, quando a fecundação artificial humana acontece e vários embriões são gerados ao mesmo tempo na mulher, os médicos efectuam o aborto criminoso em alguns desses embriões, para que nem a mãe nem os outros corram risco.
Por essa razão, alguns países só permitem a inseminação artificial com três ou quatro óvulos fecundados.
Fora isso, o que fazer com os embriões humanos não utilizados para a implantação?
— A benfeitora indagou, mas não houve resposta.
Por isso prosseguiu:
— Os pais, responsáveis por esses óvulos fecundados, já conquistaram o que queriam, ou seja, ter um ou dois filhos e não desejam mais.
Mas o que fazer com os óvulos fecundados, embriões vivos não utilizados?
Doar a outro casal?
Será a melhor alternativa?
Vamos pensar que, um dia, anos depois do nascimento desses filhos, esses jovens encontrem-se e iniciem um romance apaixonado, um namoro ou até casamento.
A irresponsabilidade dos pais que doaram os óvulos fecundados permitiu o incesto, que é a união sexual ilícita entre parentes consanguíneos.
E se descobrirem?
E se essa união gerar filhos com incríveis deficiências genéticas?
Certamente estará promovida a destruição de sentimentos e da felicidade dos filhos, sem contar com outros problemas sérios.
Voltando à questão -— ela disse para reflexão de todos —- o que fazer em caso de diversos óvulos fecundados, embriões vivos?
Destruí-los?
Então o casal estaria autorizando o assassinato de vários filhos!
Como viver com essa dúvida, com esse remorso?
Como reparar esse erro?
Não venham me dizer que ali não existe vida, pois se os embriões forem introduzidos no útero de uma mulher, uma vida será continuada de onde parou.
Vamos lembrar que a encarnação inicia-se no momento da concepção.
A fertilização humana in vitro foi realizada pela primeira vez em 1978, na Europa, e de lá para cá houve muitas controvérsias e polémicas religiosa, ética e moral.
A Igreja Católica foi a que mais protestou, e com toda a razão!
— Elma enfatizou generosa, porém muito firme.
— Tenho muito respeito pela opinião deles.
A Igreja Católica vê a destruição de embriões humanos, que não são utilizados, como homicídio, o que é verdade.
Outro problema que alegam é a fertilização feita por um doador que não seja o marido, a interrupção do elo conjugal e a procriação natural.
E os católicos têm toda a razão! -— enfatizou a instrutora.
— Os bancos de sémen e os bancos de óvulos são um grande crime, uma grande criação irresponsável e imoral, além de comércio deplorável.
Há pagamento pela "doação", ou melhor, não é doação, uma vez que quem a recebe, paga.
Em muitos casos, a identidade do doador, que deveria ser chamado de vendedor, é protegida — protestou a instrutora, inalterável.
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