QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:55 pm

QUANDO O PASSADO NÃO PASSA
ELISA MASSELLI

SINOPSE

O livro conta a história de Rosa Maria, uma portuguesa que encontra o destino no Brasil, e de sua eterna amiga, Maria Luísa, moça muito rica, que se apaixonou por Tobias, um negro escravo.
Os dois tiveram que lutar contra o preconceito e o poder e contaram, para isso, não só com ajuda espiritual, mas também com o auxílio de dois negros velhos, sempre ao lado deles.
É uma história repleta de suspense e emoção.
A dor e o sofrimento fazem parte da vida dos personagens que no final, entendem que o bem mais precioso é a amizade e a lealdade, e que apesar de tudo, viver sempre vale à pena.
Afinal, tudo pode acontecer, “Quando o passado não passa”.

ACONTECEU COMIGO
Este foi o primeiro livro que escrevi.
Surgiu quando eu tinha cinquenta e quatro anos e em um momento da minha vida em que julguei estar tudo perdido.
Embora eu houvesse trabalhado muito em minha vida, naquele momento, havia perdido tudo.
Meu último negócio, como o outro também não deu certo.
Trabalhava com artigos para noiva.
Era um negócio que tinha tudo para dar certo.
Acho que, como todas as pessoas que trabalham assim, eu vendia com cheques pré-datados e pagava a mercadoria, também com cheques pré-datados.
Eu tinha várias pessoas que trabalhavam para mim e sabia que elas dependiam do sucesso do meu trabalho.
Tudo corria bem, até que um cheque de cinco mil reais voltou o que me causou um mal irreparável, não tinha como pagar as mercadorias que havia comprado.
Para continuar trabalhando recorri a agiotas e esse foi o começo do meu fim.
Em pouco tempo estava devendo muito, uma quantia impagável.
Para fugir das pessoas que, com razão, me cobravam, fugi para o litoral e fui morar em um apartamento que minha filha havia terminado de comprar.
Fiquei lá, sozinha e desesperada.
Eu, que nunca havia ficado devendo nada para ninguém, que sempre tive meu nome limpo, estava ali sem saber ou ter o que fazer.
Meu coração doía, parecia que ia estourar e eu pedia que estourasse, pois, para mim, não havia mais um caminho e eu não conseguia me suicidar.
Além de me considerar velha, vi que toda minha vida de trabalho não tinha dado em nada.
Sempre que algum trabalho não dava certo e eu tinha que trocar por outro, nervosa, gritava:
“Deus não quer que eu trabalhe!”
O tempo foi passando.
Eu dormia no chão e tinha só uma geladeira, um fogão e uma televisão velha.
O meu salário de pensionista permitia que eu me alimentasse, nada mais.
Estava tão desesperada que não conseguia fazer nada.
Não conseguia ler, assistir televisão, nada... só chorava...
Em uma manhã, depois de ter passado uma noite quase sem dormir e sem ter o que fazer, liguei o rádio e, por estar na praia, são poucas as estações que entram.
Comecei a rodar o botão e ouvi a voz de um homem falando bem acaipirado.
Não sabia quem era aquele homem, nunca havia ouvido falar nele, mas mesmo assim, parei e fiquei ouvindo.
Ele estava atendendo a uma mulher que falava pelo telefone.
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Ave sem Ninho

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:55 pm

Ela dizia:
- Meu marido perdeu tudo o que tinha, está desesperado!
Ele calmamente perguntou:
- Ele ta vivo?
Ela, parecendo não entender, respondeu:
- Está, graças a Deus.
- Então ele num perdeu nada...
É só continuar...
Dali para frente, não lembro mais como foi a conversa, somente fiquei pensando: ele está certo.
Eu ainda estou viva!
Como sempre trabalhei vou encontrar um outro trabalho e vou conseguir consertar a minha vida!
Senti um novo ânimo.
Não sabia como, mas sentia que alguma coisa ia acontecer, algum trabalho, como sempre, ia aparecer.
Os dias foram passando.
Continuei ligando o rádio na mesma hora e descobri que aquele homem que falava acaipirado era Calunga, o guia espiritual de Luiz Gasparetto, que eu já conhecia pelas muitas vezes que o havia visto na televisão pintando quadros maravilhosos.
Em uma manhã, acordei com um pensamento estranho.
Via um lugar, uma família em Portugal.
Não entendia o que estava acontecendo e deixei pra lá.
Mas aquela família e aquele lugar não saíam da minha cabeça.
Tentei pensar em outras coisas, mas não conseguia.
Peguei um livro para ler e uma das personagens dizia:
“Já tive filhos, já plantei uma árvore só falta escrever um livro!”
Parei e sorri, pensando:
“Também já tive três filhos, e quando minhas filhas foram ser escoteiras, plantei muitas árvores, só falta escrever um livro”.
Aquela família, aquele lugar voltaram ao meu pensamento, não entendia o que estava acontecendo.
Pensei:
“E se eu escrevesse um livro sobre essa família, sobre esse lugar?”
Ao mesmo tempo, pensava:
“Não, como vou escrever?
Não tenho escola!
Só estudei até o quarto ano primário!
Não tenho como escrever um livro!”
Os dias foram passando e eu não parava de pensar naquele lugar.
Em uma manhã, surgiu o rosto de uma mocinha linda e que morava naquela casa.
Enquanto tomava o meu café, pensei:
“Será que isso vai dar uma história?
Também, não tenho o que fazer.
Estou aqui, sozinha e sem ter o que fazer.
Vou tentar escrever, no menos vou ter o que fazer”.
Fui até o supermercado, comprei um caderno e comecei escrevendo sobre aquele lugar, aquelas pessoas e, principalmente, sobre aquela mocinha.
Assim que comecei a escrever, as imagens foram se tornando mais nítidas.
Elas vinham com tanta força que minha mão não conseguia acompanhar meus pensamentos.
Minha mão doía, pois eu não estava acostumada a escrever, mas mesmo assim eu não parava.
A história foi surgindo e eu escrevia chorando, pois não conseguia acreditar que estava escrevendo coisas tão lindas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:56 pm

Muitas vezes, enquanto escrevia, tive de parar para poder enxugar os meus olhos.
A cada dia que passava ela ia ficando mais linda.
Por algum tempo eu levantava pela manhã e não sabia o que escrever.
Estava ansiosa, como um leitor quando está lendo um livro, queria saber a continuação, mas, nada.
Em outra manhã, acordei com a continuação.
Assim foi até quando o livro terminou.
Quando ele estava pronto, eu estava feliz, mas, ao mesmo tempo, sabia que seria muito difícil publicar.
Meus filhos não acreditavam que eu tinha escrito uma história.
Estavam felizes, pois durante todo o tempo em que escrevi eu havia renascido, parecia outra pessoa.
Antes disso, eles estavam preocupados, com medo que eu entrasse em depressão.
Minha filha, Adriana, quando comecei a escrever, disse que se eu escrevesse ela ia corrigir.
Quando o livro ficou pronto e pedi para que corrigisse, ela desconversou e deixava sempre para o outro dia.
Ela sabia que eu estava empolgada e ficou com medo de ter de me dizer que o livro era ruim e eu voltasse a ficar como antes.
Um dia, eu estava ouvindo o programa do Gasparetto e ele disse:
-Temos uma editora onde são publicados os meus livros e os da minha mãe.
Mais tarde, dona Zibia me disse que ele nunca tinha dito aquilo, pois não falava sobre a editora no programa, mas sei que disse, eu ouvi!
Resolvi que ia mandar o livro para a editora.
Disse para minha filha que se ela não corrigisse ia mandar daquele jeito que estava.
Ela, não tendo como escapar e com medo que eu me decepcionasse, resolveu corrigir.
Nessa altura, depois de muito penar, eu, que nunca tinha chegado perto de um computador, já havia passado o livro para um.
Enquanto eu imprimia as páginas, minha filha ia lendo.
Depois de mais ou menos uma hora que estava lendo, ela veio, muito nervosa até a sala onde eu estava e perguntou:
- Mãe, de onde a senhora tirou essa história?
Plágio dá cadeia!
Comecei a rir e disse:
- Não é plágio, não tirei de lugar algum!
Surgiu na minha cabeça!
Eu só escrevi.
Ela, um tanto temerosa, terminou de ler.
Depois mandou encadernar e eu coloquei no correio.
Quinze dias depois, recebi um telegrama da dona Zibia, pedindo que eu fosse até a editora.
Eu comecei a tremer. Fui até a editora.
Tremia muito de emoção, primeiro por conhecer, pessoalmente a dona Zibia.
Uma escritora maravilhosa que eu acompanhava de há muito tempo e depois por saber o que ela havia decidido sobre o meu livro.
Assim que cheguei, ela me recebeu muito bem.
É uma pessoa maravilhosa, simples e carinhosa.
Sorrindo, disse:
- Eu sabia que ia chegar um livro para que eu publicasse.
Chegam muitos, todos os dias, mas eu estava esperando o seu.
Assim que terminei de ler, sabia que era ele.
Vamos publicar.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:56 pm

Nem preciso dizer da emoção que senti.
Por causa dos erros de gramática, a correcção levou muito tempo, quase um ano.
Nesse tempo escrevi mais dois livros:
“A missão de cada um” e “Nada fica sem resposta”.
Finalmente o dia chegou.
Recebi um outro telefonema de dona Zibia para me avisar que o livro estava pronto.
Quando cheguei lá e vi o livro, só não chorei na frente dela, por vergonha e por fazer um esforço muito grande.
Senti a mesma emoção de quando peguei meus filhos nos braços pela primeira vez.
Ele estava ali.
Com uma capa linda, que será muito difícil fazer outra igual.
Foi publicado e até hoje, de todos os meus livros, é o mais vendido.
Depois dele, vieram outros.
E, através de cartas e mensagens pela internet, sei que todos eles têm ajudado a muitas pessoas.
Essa é a minha maior felicidade.
Hoje eu brinco, dizendo:
- Deus não queria que eu trabalhasse, ele queria que eu escrevesse e, quando viu que não havia outra maneira, disse:
“Vamos tirar tudo o que ela tem, assim ela vai parar de procurar trabalho e sem ter alternativa, só a de escrever”.
Por isso, quando estou dando autógrafos em algum dos livros eu escrevo:
“Quando pensamos que tudo terminou, para Deus, está apenas começando”.
Isso foi o que aconteceu comigo.
Isso nos dá, a todos, a certeza de que nunca estamos sós.
Que, para que nossa missão seja cumprida, ajuda não faltará e a vida, inevitavelmente nos conduzirá.
Só precisamos acreditar que somos filhos de um Deus perfeito e sábio e entregarmos nossas vidas em Suas mãos, todas as portas se abrirão.
Sem mais, só posso agradecer a Deus, meus mentores e a todos vocês que gostam dos livros e de mim.

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:56 pm

UMA FAMÍLIA... UM LUGAR... UMA AMIZADE...
Esta história aconteceu há muito tempo, mas seu reflexo se estende até hoje.
Em Portugal, havia um pequeno sítio chamado Vila das Flores.
Tinha esse nome porque a família que lá morava, além de criar ovelhas, possuía uma linda plantação de flores, que era conhecida em todo o povoado.
Esse pequeno povoado ficava na região de Trás-os-Montes.
Nesse sítio, morava uma família constituída por cinco pessoas.
O chefe da família, senhor Tadeu, homem de mais ou menos cinquenta anos, trabalhador e honesto, herdou a vila de seu pai.
Desde criança, cuidou de ovelhas e comercializou sua lã.
Sua mulher, dona Maria Teresa, mãe dedicada, que, juntamente com o marido, só tinha um desejo na vida:
o bem-estar de seus filhos.
Tadeu, que levava o nome paterno por ser o filho mais velho, estava com vinte e quatro anos e, assim como o pai, cuidava das ovelhas.
José, o filho do meio, com vinte anos, não gostava do trabalho, mas também ajudava o pai a cuidar das ovelhas.
Os quatro viviam para fazer os desejos de Rosa Maria, a caçula, que era amada por todos.
Dezasseis anos, bonita, com um longo cabelo negro e olhos castanho-claros, parecendo duas gotas de mel.
Rosa Maria era quem cuidava da plantação de flores e ajudava a mãe nos afazeres da casa.
As flores, cultivadas com carinho, eram vendidas no povoado.
Viviam uma vida tranquila, cada um cuidando de sua obrigação.
Tadeu pai e Tadeu filho iam até o centro do povoado comercializar as ovelhas, a lã e as flores.
Todos os anos, no mês de junho, havia uma grande festa no povoado em homenagem a Santo António de Pádua.
Essa festa era muito esperada, não só por todos os moradores das redondezas, mas também por aqueles de lugares distantes.
Sempre nessa data, dona Maria Teresa preparava com carinho as roupas de todos para que fossem bem arrumados, porque lá se encontrariam com conhecidos.
Neste ano, ela preparou com esmero a roupa dos rapazes, não se esquecendo da faixa da cintura, que teria de combinar com a boina.
Para Rosa Maria, fez um lindo vestido rosa com uma saia bem rodada, fitas e muitas rendas.
Seu cabelo seria preso com um lindo laço de fita.
Nesta festa, havia muitos jogos, danças e, principalmente, muita comida, que é o que o português mais gosta.
A imagem de Santo António, toda enfeitada em um andor, seguiria em procissão por toda a cidade.
O senhor Tadeu fazia questão de todo ano comprar um chapéu novo.
Era essa sua única vaidade.
Chegou o grande dia.
Enfeitaram a carroça com flores e bandeiras feitas de papel.
Ao chegar ao local da festa, Rosa Maria não conseguia esconder a emoção.
Tudo muito colorido e enfeitado com bandeiras.
Pessoas indo e vindo.
Moças e rapazes, felizes, desfilavam garbosamente suas roupas novas.
A família encaminhou-se para o local onde era servida a comida:
muita batata, bacalhau, couve troncha e ovos cozidos, tudo regado com muito azeite português e vinho, muito vinho.
Não se pode imaginar uma festa portuguesa se não houver vinho.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:56 pm

Todos comeram à vontade.
Quando se tratava de comida, o senhor Tadeu não fazia economia.
Após o almoço, ele e sua mulher ficaram conversando com um casal de amigos que havia muito tempo não viam.
Tadeu filho, sendo o mais velho, não gostava de andar com os pequenos, como chamava José e Rosa Maria.
Saiu andando sozinho.
Rosa Maria e José, muito apegados, saíram de mãos dadas olhando tudo, parando para jogar em algumas barracas, rindo, felizes por estarem ali.
Viram no longe algumas pessoas cercando um homem que estava sentado com as pernas cruzadas na posição de Buda.
Em sua frente, havia ervas medicinais de todas as qualidades.
Era o curandeiro da cidade.
Diziam que ele com suas plantas curavam qualquer tipo de doença.
Elas eram cultivadas no quintal de sua casa, que ficava distante do povoado, mas mesmo assim as pessoas iam até lá.
Diziam, também, que ele fazia adivinhações e previa o futuro.
Rosa Maria já ouvira falar dele, mas não o conhecia.
Ele não cobrava nada para atender as pessoas, mas todos sabiam que vivia de suas plantas e curas, por isso cada um dava o que podia em pagamento.
Ele usava o necessário para viver.
Dava o que sobrava às pessoas mais pobres.
Por muitos, era considerado um santo.
Rosa Maria e José aproximaram-se para observar e conhecer aquele homem tão comentado por todos.
Após consultar, receitar e dar algumas ervas a alguém, o velho curandeiro levantou a cabeça e ficou olhando à sua volta.
Seus olhos encontraram-se com os de Rosa Maria.
Ficou olhando para ela durante algum tempo e falou:
- Menina, venha para perto de mim.
Rosa Maria olhou assustada para José, que fez um sinal com a cabeça, dizendo-lhe que fosse.
Ela se aproximou timidamente.
O velho pediu que se ajoelhasse à sua frente para que ele pudesse vê-la melhor.
Rosa Maria ajoelhou-se e ficou bem de frente a ele, olhos nos olhos.
- Menina, qual é seu nome?
- Rosa Maria, senhor
- Rosa... É o nome da rainha das flores.
Graças a seu perfume e beleza, desperta, tanto em quem dá como em quem recebe um sentimento de ternura e de amor.
Enfeita todos os lugares em que for apresentada.
É bem aceita em uma festa, casamento ou enterro, mas apesar de toda essa beleza possui espinhos pontiagudos que servem para protegê-la, mas que podem também ferir.
Você, menina, terá uma vida longa.
Voltou à Terra para cumprir uma missão.
Sua vida será cheia de surpresas.
Haverá vezes em que se sentirá perdida, sem rumo e sem saber o que fazer.
Será muito feliz e muito infeliz.
Amará e será amada. Será traída e enganada.
Na hora de maior desespero, seus espinhos a protegerão.
Irá para uma terra distante, além-mar.
Vai se sentir sozinha, desprotegida.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:56 pm

Voltou para resgatar, ajudar e proteger.
Terá toda a ajuda necessária para poder cumprir sua missão com êxito.
Tudo dependerá de você.
Mas lembre-se:
por pior que pareça o momento, nunca, nunca esqueça que Deus é nosso pai e que nunca, jamais nos abandona.
Criador de tudo e de todos, sabe tudo e permite que o ser humano evolua sempre para o bem.
Lembre sempre que a única coisa que conduz a essa evolução é o perdão.
Perdoe sempre. É o único caminho para se chegar a Deus.
Lembre-se também de que tudo está certo como está, que todos estão sempre na hora e no lugar certo e com as pessoas certas.
Nunca duvide da bondade de Deus e nunca duvide que Ele está a seu lado em todos os momentos de sua vida.
Ele parou de falar, virou-se para outra moça que o estava escutando e perguntou:
- Qual é seu nome?
José pegou Rosa Maria pela mão e puxou-a rapidamente.
Tremendo, ela disse:
- Esse homem é louco! Assustou-me!
Como vou ficar sozinha?
Tenho todos vocês.
Imagine ir para terra distante!
Missão? Que missão é essa?
Voltei?! Voltei como, se nunca saí daqui?
José acalmou-a da melhor maneira que pôde.
Também estava furioso, mas precisava acalmar a irmã.
- Não ligue. Esqueça isso.
É só um louco querendo dar uma de esperto.
Voltaram para junto dos pais, que, alheio a tudo aquilo, conversava animadamente com seus amigos.
Rosa Maria estava muito nervosa, mas não quis estragar a tranquilidade dos pais.
José também se calou.
Fazia muito calor.
Dona Maria Teresa pediu aos filhos que fossem até a fonte pegar água, que jorrava fresca e agradável.
Rosa Maria pegou uma jarra e juntamente com José foram buscar água.
No caminho, viram Tadeu dançando com uma moça.
Os dois se olharam com olhar de cumplicidade e riram.
Alguns amigos chamaram José, que começou a conversar com eles.
Rosa Maria, entediada com aquela conversa, falou:
- José, continue conversando.
Vou até a fonte pegar a água.
- Está bem, irei em seguida.
Na fonte, Rosa Maria bebeu um pouco daquela água fresca e cristalina.
Encheu a jarra.
Estava voltando para junto de José quando ouviu gritos de dor e muito alarido.
Foi até o local e viu um homem batendo com um chicote em um mendigo que, com as mãos cobria o rosto e pedia socorro, mas ninguém o ajudava.
O homem que batia era alto, bem vestido, usava um terno e uma linda capa preta com o forro vermelho, além de uma cartola e luvas nas mãos.
Era um homem bonito e elegante.
Ela deu um pulo e abraçou-se ao mendigo com tanta rapidez que quase levou uma chicotada também.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:57 pm

Levantou a cabeça e perguntou:
- Por que está fazendo isso?
- Esse maldito!
Atreveu-se a tocar em minhas roupas.
- Isso não lhe dá o direito de espancá-lo!
Ele a olhou com tanto ódio que ela chegou a estremecer, mas não desviou os olhos.
Ele recolheu seu chicote e saiu, rapidamente.
Ela se levantou e ajudou o mendigo a se levantar.
Iria dar um pouco de água a ele, mas a jarra estava no chão, vazia.
Quando pulara para ajudar o mendigo, a jarra caíra e ela nem percebera.
O mendigo beijou suas mãos e saiu correndo, chorando.
José e os amigos, que estavam conversando, ouviram todo aquele barulho.
Foram até lá ver o que estava acontecendo.
Quando chegaram, tudo já havia terminado.
Só Rosa Maria estava ali, parada, estática, chorando com muito ódio.
- Ele é um animal!
Como o odeio!
José perguntou:
- O que aconteceu aqui?
Por que está chorando?
Ela contou. Olharam para o lado.
O homem não estava mais lá.
Só restavam algumas pessoas que comentavam o acontecido.
José e os amigos não podiam fazer mais nada.
Foram pegar mais água, depois voltaram para junto dos pais, que continuavam conversando sem nada saber.
No final do dia, voltaram para casa.
Rosa Maria estava calada, triste e pensando:
"Quanta coisa desagradável aconteceu hoje.
Primeiro, o adivinho me falando todas aquelas coisas horríveis, depois aquele homem maldoso.
Esperei tanto por este dia...
Não foi nada agradável."
Ao chegar a casa, dona Maria Teresa, que notara a tristeza da filha, perguntou:
- Minha filha, o que aconteceu hoje?
Você me parece tão triste.
Estava tão ansiosa para ir à festa!
Ela contou tudo para a mãe.
Dona Maria Teresa ouviu Pacientemente.
Quando Rosa Maria parou de falar, ela a abraçou, dizendo:
- Não se preocupe com tudo isso.
Aquilo que o curandeiro falou nunca vai acontecer.
Você tem uma família que a adora.
Se eu morrer, ficará seu pai.
Se ele morrer, ficarei eu.
Se nós dois morrermos ao mesmo tempo, ainda terá seus irmãos.
Minha filha, tudo isso é bobagem.
Nunca sairemos daqui.
Você nunca irá para terra estranha.
Vai é se casar e com certeza construirá sua casa aqui e continuaremos por muito tempo juntos.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:57 pm

Quero conhecer meus netos, tanto seus filhos como os de seus irmãos.
Agora, vá se deitar. Não se preocupe.
Tem a vida toda pela frente e é muito amada por todos nós.
Terá sempre nossa protecção.
Seu pai nasceu e foi criado aqui.
Aqui nos casamos, tivemos vocês.
Amamos este lugar e não sairemos daqui jamais.
Aqui seremos enterrados.
Quanto ao outro homem, não guarde tanto ódio.
Não vê que, apesar de ter tanto dinheiro, ele é um infeliz?
Esqueça tudo isso. Vá dormir.
Amanhã será outro dia. Deus vela por todos nós.
Rosa Maria foi para o quarto acompanhada pela mãe, que a colocou na cama e, beijando sua testa, falou:
- Boa noite, minha filha.
Deus proteja seu sono e sua vida.
- Boa noite, mamãe.
Gosto muito da senhora.
Dona Maria Teresa deu um sorriso.
Saiu do quarto, pensando:
“Deus proteja meus filhos.
Não permita que nada de ruim aconteça com eles."
Rosa Maria fechou os olhos, mas não conseguia dormir.
A imagem daqueles dois homens que estragaram seu dia não saía de seu pensamento.
Rolou de um lado para o outro, até que finalmente adormeceu.
Sonhou que estava em uma clareira no meio de uma mata colorida com vários tons de verde e com muitas flores.
O céu estava claro e brilhante pelo sol.
Percebeu estar sentada em cima de uma pedra bem alta.
Seu vestido era de um rosa claro, quase branco.
O vestido, muito longo, descia pela pedra.
Vestido e cabelos enfeitados por flores minúsculas brilhantes.
À sua frente, homens, mulheres e crianças dançavam e colocavam a seus pés flores e frutas de várias qualidades e cores.
Ao longe, o barulho de um riacho.
O barulho era alto.
Ela se virou e viu uma linda cachoeira.
Achou aquele lugar mágico.
Do meio das águas, viu um moço que vinha em sua direcção, sorrindo e trazendo em suas mãos um lindo ramalhete de rosas.
Ela também estava feliz por vê-lo.
Alto, bonito e com um lindo sorriso.
Ela o conhecia.
Estava vestido de branco com os olhos brilhantes de felicidade.
Quando ele estava chegando perto, surgiu aquele homem com o chicote nas mãos e começou a chicotear a todos.
Ela se assustou e acordou.
Sentou-se na cama.
Olhou para todos os lados.
Estava em seu quarto.
Viu que fora somente um sonho, mas parecera tão real!
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:57 pm

Por algum tempo, ficou pensando no sonho:
"Foi tudo tão real!
E aquele moço? Quem será?
Tão bonito como nunca vi antes!
Eu conheço, tenho certeza, mas de onde?"
Pela manhã, acordou com uma sensação de felicidade.
Estava muito bem.
Contou o sonho para a mãe, que perguntou:
- Está vendo como não precisa se preocupar com nada?
Esse sonho foi um aviso para lhe dar a certeza de que está tudo bem.
- E o homem do chicote?
- Apareceu porque você deve ter ido dormir pensando nele e estava com muito ódio.
Enquanto tomava café, Rosa Maria não conseguia esquecer aqueles olhos e pensava:
"Quem será ele?"
Como todas as manhãs, Rosa Maria pegou a trouxa de roupa e foi até o riacho para lavá-las.
Era lá um lugar de encontro para as moças e mulheres que moravam naquelas redondezas.
Lá, elas cantavam e conversavam enquanto a roupa ia sendo lavada em cima de tábuas colocadas para esse fim.
Isabel era amiga de Rosa Maria.
Tinham quase a mesma idade. Foram criadas juntas.
Isabel morava em um sítio vizinho ao seu.
Conversavam muito e trocavam confidências.
Quando Rosa Maria chegou, Isabel já estava lá.
Começaram a conversar.
Isabel apresentou uma moça que estava a seu lado:
- Esta é Joana, minha prima.
O marido dela foi para o Brasil já há dois anos.
Ela ficou aqui trabalhando de copeira na casa do barão Dom Carlos de Albuquerque Sousa.
A família toda foi passar as férias em uma quinta, lá pelos lados de Lisboa.
Joana, sem eles em casa, não tem muito que fazer, por isso veio passar uns dias connosco.
- Muito prazer!
Meu nome é Rosa Maria, sou a melhor amiga de Isabel.
Falando nisso, Isabel, esta noite tive um sonho estranho, mas maravilhoso!
Com detalhes, contou o sonho para as duas.
Isabel ficou abismada e disse:
- Nossa! Esse não foi um sonho, parece mais um romance.
Disse Joana:
- Meu marido está no Brasil já há dois anos.
Logo irei encontrá-lo.
Ele me escreve contando coisas de lá.
Diz que tudo é diferente.
Não com as famílias portuguesas, mas com os nativos.
Diz que os negros escravos têm vários deuses.
Tocam tambor, dançam e oferecem flores, frutas e comida a eles.
Disse também que eles são muito sofridos e humilhados.
As duas moças ficaram impressionadas com o relato de Joana.
Para quebrar aquele clima, Isabel falou, rindo:
- Rosa Maria, vai ver você é uma deusa dos negros!
Rosa Maria ficou furiosa com o comentário da amiga, que brincava com um assunto tão sério quanto aquele.
- Você é louca?
Não sou deusa de nada!
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:57 pm

As três riram e continuaram a lavar a roupa.
Os dias foram passando, e elas se encontravam quase sempre.
Joana continuava a contar coisas sobre o Brasil.
Rosa Maria sabia que o Brasil era uma colónia de Portugal.
Sabia que ficava distante.
Agora é que estava conhecendo outras coisas por meio de Joana.
Sabia que Dom João havia ido para o Brasil com medo de Napoleão Bonaparte, deixando Portugal ao abandono.
Por isso os portugueses não queriam saber nada sobre o Brasil.
Em uma de suas visitas, Joana falou para as amigas:
- A casa, onde moro e trabalho é a coisa mais bonita que já vi.
Lá tudo é rico.
Os móveis, as cortinas, tudo de primeira.
Os lençóis são bordados, todos trazidos da Ilha da Madeira.
O quarto da menina Maria Luísa parece o quarto de um conto de fadas.
Igual ao quarto de uma princesa.
Quando Joana acabou de falar, Rosa Maria suspirou e falou:
- Gostaria de conhecer essa casa, principalmente esse quarto.
- Eu também gostaria muito.
Joana teve uma ideia:
- Meus patrões estão viajando.
Se quiserem, poderemos ir até lá.
Vocês olham tudo e matam a curiosidade.
Rosa Maria ficou encantada com a ideia.
Foi até o pai, contou o que estava acontecendo e terminou, dizendo:
- Já que o senhor irá mesmo à cidade fazer compras, então poderá nos levar.
Quando terminar, tudo que tem para fazer é só nos pegar e voltaremos.
Depois de muito pensar, o pai falou:
- Tudo bem, mas só com uma condição.
Não irei me atrasar por causa de vocês.
Às três da tarde já deverei ter acabado minhas compras.
Passarei pela casa e vocês já deverão estar me esperando. Tudo bem?
- Está certo, papai, não se preocupe.
Não iremos deixar o senhor esperando.
Foram para o povoado.
O senhor Tadeu deixou-as na casa dos patrões de Joana, dizendo:
- Olhem lá, meninas!
Não vão me deixar esperando!
Elas desceram da carroça.
Entraram na casa, dando ainda um último adeus para o Senhor Tadeu, que se foi rindo.
Ao entrar na casa, Maria Rosa e Isabel não acreditaram no que estavam vendo.
Era tudo muito lindo.
Tapetes e cortinas combinando.
A sala era imensa, com porta-vela de prata espalhados pelas paredes para que a mesma fosse iluminada.
Uma cristaleira de madeira maciça com muitos pratos e copos.
Lá tudo era divino.
Muito limpo, sem nem sequer um pouco de pó.
Percorreram vários quartos e salas.
Joana levou-as até o quarto da moça da casa.
Quando o abriu, Rosa Maria e Isabel ficaram paradas, olhando da porta, sem ter coragem de entrar.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:57 pm

Todo decorado em rosa, exactamente a cor que Rosa Maria mais gostava.
Entraram devagar, olhando tudo curiosamente.
A cama era imensa, com uma linda colcha rosa feita de croché, sobre um forro também rosa.
As cortinas de croché eram de um rosa mais escuro.
Rosa Maria foi se aproximando devagar da cama.
Com as mãos, apertou o colchão, sentindo a maciez.
Olhou para as outras duas e falou, rindo:
- Estou louca de vontade de fazer uma coisa.
Antes que as duas tivessem tempo de falar, ela se jogou em cima da cama.
Começou a pular, rindo como se fosse uma criança.
- Posso saber o que está acontecendo aqui?
Olharam para a porta.
Rosa Maria sentou-se na cama, parada, olhando.
Joana, assustada, falou:
- Desculpe senhorita.
Estas são Isabel e Rosa Maria, minhas amigas.
Elas nunca viram uma casa igual a esta.
Eu as convidei para conhecê-la.
Sei que não deveria ter feito isso, mas achei que a senhorita não se importaria.
Foi só por curiosidade.
Perdoe-me, por favor.
Já estamos indo embora!
- Tudo bem que vejam a casa, mas ela precisava ficar pulando em cima de minha cama?
Só nesse momento, Rosa Maria se deu conta de que continuava em cima da cama.
Levantou-se rápido, falando:
- Desculpe senhorita!
Meu nome é Rosa Maria.
Era só para olhar, mas é que aqui é tudo tão lindo que não resisti.
Daqui a pouco meu pai vem nos buscar.
Isso não vai se repetir. Não castigue Joana.
Era só para olhar. Eu é que não resisti.
A moça ficou olhando as três de cima para baixo com as mãos para trás, divertindo-se com o desespero delas.
Depois de algum tempo falou:
- Só existe uma maneira para que eu possa perdoá-las.
- Qual? -perguntou Rosa Maria.
- Como é mesmo seu nome?
- Rosa Maria, senhorita.
- Se aceitarem tomar um lanche comigo.
Estou com fome e não gosto de comer sozinha.
Rosa Maria falou:
- Boa ideia.
Vamos tomar um lanche, ou pelo menos um pouco de água com açúcar.
Estou tremendo!
Todas riram e saíram.
Estavam andando, quando Maria Luísa disse:
- Se não se incomodarem, poderemos ir tomar o lanche na cozinha.
Minha mãe ficaria horrorizada, mas adoro comer na cozinha!
Todas concordaram com a cabeça e foram para a cozinha.
Na cozinha, Joana ajudou Maria, a cozinheira da casa, que não estranhou a presença de Maria Luísa ali, pois sempre que os pais não estavam ela fazia as refeições na cozinha.
Em pouco tempo, um belo lanche já estava pronto.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:58 pm

Maria Luísa, Rosa Maria e Isabel sentaram-se à mesa.
Maria Luísa perguntou:
- Não vai sentar-se também, Joana?
- Não, senhorita.
- Como não?
As convidadas são suas.
Se não se sentar, elas não ficarão à vontade, por favor, sente-se.
Joana sentou-se.
Logo depois as quatro estavam conversando como se já fizesse muito tempo que se conheciam.
Maria Luísa falava sem parar:
- Voltamos antes do tempo porque mamãe não estava sentindo-se bem.
Papai e Rodolfo foram para o povoado.
Eles vão voltar novamente para o Brasil.
Cheguei louca de saudade de tudo aqui.
Principalmente da comida de Maria - falou olhando para a cozinheira, que sorriu agradecida.
Rosa Maria, que a princípio assustara-se, estava agora olhando aquela mocinha à sua frente.
Muito bonita, com cabelos louros, compridos, pele clara e olhos azuis.
Devia ter mais ou menos a sua idade.
Maria Luísa, olhando para ela, voltou a perguntar:
- Desculpe, mas esqueci.
Como é o seu nome, mesmo?
- Rosa Maria, senhorita.
- Senhorita? Pare com isso!
Devemos ter a mesma idade.
Quantos anos você tem?
- Dezasseis, vou fazer dezassete em novembro.
- Não falei?
Também tenho dezasseis, mas só vou fazer dezassete em dezembro.
- Sou mais nova que você.
Por isso pode parar com essa de senhorita.
Meu nome é Maria Luísa.
Quebrado o gelo por Maria Luísa, que as deixou à vontade, logo estavam conversando como se fossem velhas amigas.
- Gostaram da casa?
- Achei linda! Nunca tinha visto coisa igual.
-Também gosto, principalmente de meu quarto.
Papai fez do jeito que eu sonhei.
Ficaram conversando ainda por um tempo, enquanto Maria Luísa falava de sua recente viagem.
Quando o senhor Tadeu chegou, elas estavam prontas.
Ao despedirem-se, Maria Luísa falou:
- Fiquei muito feliz em conhecê-las.
Quase não tenho amigas.
As moças que conheço são umas chatas.
Já que vieram conhecer minha casa, gostaria de conhecer a de vocês. Posso?
- Claro! - responderam juntas.
Rosa Maria continuou:
- Só que nossas casas são muito simples.
Não se parecem em nada com a sua.
- Na verdade, não quero conhecer suas casas.
Quero encontrá-las novamente.
Gostei muito de vocês.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:58 pm

Despediram-se.
Rosa Maria convidou Maria Luísa para ir a sua casa no próximo sábado.
Maria Luísa prometeu que falaria com os pais.
Se eles permitissem, iria com todo o prazer.
O senhor Tadeu, que ouvira tudo, falou:
- Vamos, meninas, já está ficando tarde.
A senhorita será muito bem recebida em nossa casa.
É uma casa humilde, porém poderá ir quando quiser.
- Irei, sim. Pode ter certeza.
As meninas subiram na carroça e partiram felizes.
No caminho, foram contando tudo o que acontecera e como Maria Luísa as tratara.
Já em casa, Rosa Maria contou entusiasmada, para a mãe o que acontecera.
Sua mãe, como sempre, ouvia-a com atenção.
Quando Rosa Maria parou de falar, ela disse:
- A vida é mesmo assim.
Conhecemos nela muitas pessoas.
Umas boas, outras ruins.
Devemos sempre agradecer a Deus quando encontramos pessoas boas.
E as ruins também, pois com elas nos aperfeiçoamos cada vez mais.
Maria Luísa também contou aos pais o acontecido, omitindo a parte da cama e da cozinha.
Sabia que eles não entenderiam.
Todos a ouviram com atenção.
Ela sempre viveu com muito conforto.
Seu falecido avô, Dom Luís, fidalgo de família, era um conde que vivia dentro da corte portuguesa.
Com isso, conseguiu muito dinheiro e terras, o que fez com que seu filho, Dom Carlos, pai de Maria Luísa, gozasse até aquele dia de muita influência na corte.
Homem orgulhoso, Dom Carlos sempre usou seu poder para conseguir tudo o que queria.
Estava, agora, com quarenta e cinco anos.
Casara-se com dona Matilde, também da corte e com fortuna.
O casamento foi arranjado por seus pais.
Conheceram-se uma semana antes do casamento.
Respeitavam-se, mas não se amavam.
Fora de casa, Dom Carlos fazia o que fosse preciso para conseguir o que queria.
Era temido e respeitado no mundo dos negócios.
Em casa, tratava os filhos e a esposa com carinho e respeito.
E pensava:
"Meus filhos nunca terão nada de mal para dizer a respeito de minha conduta.
Eu os adoro.
Não precisam saber como consigo dinheiro.
O importante é que tenham sempre tudo de que precisam."
Gostava da esposa e do filho, mas por Maria Luísa tinha verdadeira adoração:
"Ela será muito feliz.
Irá se casar com um homem rico e fidalgo.
Terá sempre na vida tudo com que sonhar."
Maria Luísa, por sua vez, dominava-o com um sorriso, um olhar.
Ele a adorava e ela sabia.
Ele já tinha planeado seu futuro.
Quando fizesse dezoito anos, iria para Lisboa e casar-se-ia com Dom João Pedro de Miranda e Sousa, muito rico e com boas influências na corte.
Assim, a fortuna da família aumentaria.
Dom Carlos poderia fazer óptimos negócios com o pai de Dom João Pedro.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 30, 2017 6:58 pm

Maria Luísa não sabia dos planos do pai.
Ele ouvia tudo o que Maria Luísa falava a respeito das novas amigas.
Ela olhou bem nos olhos do pai e disse:
- Papai, o senhor deixaria Juvenal levar-me à casa de Rosa Maria no sábado pela manhã?
Eu passaria o dia lá e, à tarde, ele voltaria para me pegar.
Rosa Maria disse que tem uma linda plantação de flores, e o senhor sabe como gosto de flores.
O pai olhou para ela e disse:
- Não sei...
Não conhecemos essa gente.
Moram afastados, e é muito longe.
Dona Matilde, embora de família fidalga e criada na corte, não era orgulhosa nem gostava do modo como seu marido se referia aos pobres.
Por isso, desde cedo ensinou a seus filhos que a única diferença entre eles e os mais pobres era o dinheiro.
Deveriam tratar com respeito qualquer pessoa, independentemente de sua classe social.
Vendo que para o marido naquele momento o que estava contando era só o dinheiro, falou:
- Se o senhor meu marido não se incomodar, irei junto.
Assim, poderei protegê-la, caso aconteça alguma coisa.
Nossa filha é muito sozinha, precisa de amigas.
- Amigas? Ela pode ter quantas quiser na corte.
- Eu sei papai, mas aquelas são iguais a mim. Vivem como eu.
Gostaria de conhecer pessoas diferentes e saber como vivem.
Maria Luísa havia interferido na conversa de seu pai com sua mãe.
E isso era imperdoável.
Seu pai, bravo, falou:
- Fique calada!
Sei o que é bom para você.
Não gosto que ande com essas pessoas sem cultura.
Você precisa aprender e não desaprender!
O que aprenderia com essas pessoas?
Maria Luísa percebeu que havia falado em hora errada.
Mudou o tom de voz e disse:
- Papai, desculpe-me, é que gosto tanto da vida no campo e de flores que, quando Rosa Maria me falou de seu jardim, fiquei louca para conhecê-lo.
Ela sabia que o pai não resistia quando falava mansamente.
Ele ficou pensando mais um pouco e disse:
- Está bem.
Se sua mãe for junto, permitirei.
Maria Luísa olhou para a mãe e pedia com os olhos que ela dissesse sim.
Dona Matilde sorriu para a filha e disse:
- Está bem, filha, eu vou.
Também gosto do campo e de flores.
Maria Luísa beijou o pai, depois a mãe, dizendo:
- Eu os amo muito!
Seu pai ainda tentou evitar.
Não adiantou:
ela foi mais rápida.
Ele não gostava quando ela o beijava.
Naquele tempo, havia uma respeitosa distância entre pais e filhos, principalmente entre pai e filha.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:23 pm

- Eu e Rodolfo partiremos na sexta-feira para o Brasil.
Vocês ficarão sozinhas, não acho conveniente que saiam de casa.
Dona Matilde argumentou:
- Por estarmos sozinhas é que será bom para nós duas passarmos um dia no campo.
Isso nos distrairá.
Não sentiremos nem ao menos por um dia a falta do senhor e de Rodolfo.
Juvenal nos levará.
Poderei conhecer a família e essas meninas que tanto impressionaram Maria Luísa.
Poderei, também, avaliar se são boas companhias para nossa filha.
Aproveitando o momento em que estamos conversando, preciso pedir uma permissão ao senhor:
como sabe, minha mãe mora a quatro horas daqui.
Já está velha, gostaria de visitá-la, com sua permissão.
Não tendo mais argumentos, ele concordou.
Maria Luísa estava ansiosa para que o sábado chegasse.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:23 pm

A FESTA DE SANTO ANTÓNIO
Na sexta-feira, Dom Carlos e seu filho despediram-se de dona Matilde e Maria Luísa.
Foram para Lisboa, onde pegariam um navio que os levaria para o Brasil.
Ficariam lá por cinco ou seis meses.
Dom Carlos, fiel servidor do imperador, soube que os portugueses com dinheiro obtinham favores da corte, podendo ganhar terras do imperador e assim conseguir muito dinheiro.
Sua ideia era ir até a colónia, investigar e adquirir terras.
Sabia que o clima no Brasil era bom.
Foi convidado pelo imperador para exercer um cargo de confiança junto a ele.
Se gostasse do cargo e do país, mudaria com toda a família para lá.
Finalmente, o sábado chegou.
Dona Matilde e Maria Luísa, conduzidas por Juvenal, foram à casa de Rosa Maria.
Se dona Matilde gostasse das meninas e da família, permitiria que sua filha as visitasse.
Por tudo que Maria Luísa contara, eram simples, autênticas e, com certeza, seriam amigas sinceras.
Quando chegaram a casa, foram muito bem recebidas por toda a família e por Isabel, que estava lá desde cedo.
Dona Maria Teresa preparou um almoço especial, com galinha assada, verduras e batatas colhidas na horta.
A mesa foi enfeitada com flores e frutas.
A presença daquelas pessoas tão importantes deixou os demais um pouco constrangidos, mas a alegria de Maria Luísa e a simplicidade de Dona Matilde fizeram com que logo todos ficassem à vontade.
O almoço transcorreu num clima de alegria e descontracção.
Dona Matilde não se cansava de elogiar a comida de dona Maria Teresa.
Depois do almoço, os mais velhos ficaram conversando.
Os jovens foram passear.
Rosa Maria e Isabel mostraram a Maria Luísa à plantação de batatas, o jardim e a horta, onde havia verduras e legumes de todas as variedades, e o pomar, com várias parreiras que estavam quase na hora de serem colhidas.
Depois foram ao riacho, onde eram lavadas as roupas e onde havia os encontros.
Maria Luísa estava encantada com tudo aquilo, com o modo como aquelas pessoas viviam:
simples, porém com muita felicidade.
Ao chegarem ao riacho, sentaram-se à beira da água e conversaram sobre vários assuntos.
Maria Luísa contava sobre os lugares que já havia conhecido.
Ela já viajara por vários países da Europa.
Embora conhecesse tantos lugares, não se lembrava de ter se sentido tão bem como agora com elas.
A conversa transcorria alegremente.
A certa altura, Isabel confidenciou algo que nem mesmo Rosa Maria, sua melhor amiga, sabia:
- Tenho algo para contar.
Estou começando a namorar José.
Rosa Maria ficou feliz, pois além de Isabel ser sua melhor amiga, ela seria também sua cunhada.
Em seguida, Rosa Maria comentou com Maria Luísa sobre o sonho e sobre o rapaz do rio que tanto a impressionou.
- Até agora não conheci rapaz algum que me impressionasse assim. - disse Maria Luísa.
- Nem eu, Maria Luísa. Foi só um sonho.
Dona Maria Teresa também levou dona Matilde para conhecer as belezas do sítio.
Foram ao riacho e encontraram as três moças, rindo felizes.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:23 pm

Dona Matilde, ao ver Maria Luísa tão descontraída, falou:
- Sabe dona Maria Teresa, nunca vi minha filha tão feliz.
As três, naquele momento, estavam colocando uma mão sobre a mão da outra e falando, juntas:
- Amigas para sempre!
Juramos que uma sempre protegerá a outra em qualquer circunstância.
Cada uma, por sua vez, repetiu:
- Juro!
Dona Maria Teresa e dona Matilde chegaram ao exacto momento em que elas estavam fazendo o juramento.
Quando Maria Luísa as viu, chamou-as e, rindo, falou:
- Que tal as senhoras também fazerem um juramento de nos proteger para sempre?
As duas riram e também colocaram uma das mãos sobre a da outra, olharam-se nos olhos e disseram juntas:
- Eu, Maria Teresa, juro proteger Maria Luísa e Isabel para sempre.
- Eu, Matilde, juro proteger Rosa Maria e Isabel para sempre.
Todas riram. Dona Matilde falou:
- Maria Luísa, o juramento está feito, mas já se faz tarde e está na hora de irmos embora.
Maria Luísa e as amigas quiseram protestar, mas Dona Matilde falou:
- Está na hora, mas gostei de todos aqui.
Maria Luísa poderá vir quando quiser.
E vocês, meninas, serão sempre bem recebidas na minha casa.
Voltaram para a casa.
Dona Matilde despediu-se de todos e agradeceu pelo dia maravilhoso que passara.
Convidou o senhor Tadeu e família para também irem passar um dia com elas.
Foi realmente um dia muito bom para todos.
Desse dia em diante, a amizade entre as duas famílias foi se tornando cada vez maior, forte e sincera.
Tadeu estava agora com vinte e cinco anos.
Na última festa do Santo António, conheceu uma moça, Roberta.
Tadeu e Roberta namoravam já havia três meses.
Decidiram casar-se no ano seguinte.
Ela tinha dezanove anos.
De família humilde, mas composta por pessoas de bem.
Morava do outro lado do povoado, a uma distância de duas horas a cavalo.
Tadeu visitava-a todos os sábados e domingos.
Ele pediu aos pais de Roberta sua mão em casamento, o que foi aceito, porque todos também gostavam dele.
O pai só fez uma exigência:
- Roberta é nossa única filha.
E muito apegada à mãe e esta a ela.
Gostaria que ficassem morando perto.
Para isso vou dar a vocês um pedaço de terra onde poderão construir sua casa e fazer uma lavoura ou criar ovelhas.
Tadeu aceitou e começou a construir a casa, junto com os três irmãos de Roberta.
Desde que começara a construção da casa, Tadeu ia para lá no sábado pela manhã, só voltando no domingo à noite.
Não voltando no sábado, aproveitava o tempo que perderia com a viagem.
José falou com seus pais e depois com os pais de Isabel e começaram a namorar.
Sendo muito jovens, teriam que esperar para marcar a data do casamento, mas obtiveram a permissão das duas famílias para que iniciassem o namoro.
O resto continuava igual.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:24 pm

A amizade entre Rosa Maria e Maria Luísa ficava cada vez mais forte.
Uma vivia na casa da outra.
As duas famílias encontravam-se sempre.
Faltava um mês para a festa de Santo António.
A grande festa!
Esse ano seria diferente.
Com Maria Luísa, Rosa Maria tinha certeza que seria bem melhor que a anterior.
Desta vez, ficaria longe do adivinho.
Nada conseguiria estragar sua festa.
Ela não permitiria. Já conversara com Maria Luísa:
as duas se encontrariam lá.
Isabel disse que queria ficar com José, com o que as duas logicamente concordaram.
Tudo parecia estar bem, mas, quando alguns dias depois, Rosa Maria chegou à casa de Maria Luísa, encontrou-a abatida.
Preocupada, perguntou:
- O que aconteceu, Maria Luísa?
Por que está tão preocupada e abatida?
- Acabamos de receber uma carta de meu pai.
Ele diz que não vai poder voltar para Portugal.
Comprou uma fazenda no Brasil, mas disse que Rodolfo chegará em novembro para providenciar a nossa mudança.
Eu quero conhecer o Brasil.
Dizem que lá é muito bonito, mas não quero deixá-la.
Meu pai disse que ficaremos lá por pelo menos cinco anos.
Rosa Maria abraçou a amiga, falando:
- Não fique assim.
Quem sabe eu não possa ir visitá-la?
- Seria perfeito, Rosa Maria!
Depois que estiver lá, converso com meu pai e ele mandará uma carta para seus pais com as passagens de ida e de volta!
Assim você poderá me visitar!
Depois de tudo combinado, começaram a falar sobre a festa, que seria na próxima semana.
Dona Maria Tereza estava preparando roupas novas para todos.
Tadeu ficaria com Roberta, e José, com Isabel.
Maria Luísa e Rosa Maria ficariam juntas.
- Quem sabe também arrumemos um namorado, Rosa Maria. Ah, ah, ah.
Rosa Maria também riu, mas ficou calada.
Dona Matilde disse para Maria Luísa:
- Na segunda feira pela manhã, iremos para a casa de minha mãe, sua avó.
Ficaremos lá por algum tempo.
Quero ficar um pouco com ela, antes de partirmos para o Brasil.
- Gosto muito da vovó, mamãe, vou sentir sua falta quando estiver longe.
Por que a senhora não a leva connosco?
- Sua avó? Ah, ah, ah.
Jamais sairá daqui, ou deixará sua casa e suas coisas, muito menos entrará em um navio!
- Também quero ver a vovó, mas há um problema...
Combinei com Rosa Maria de ficarmos juntas na festa de Santo António.
Será daqui a duas semanas, no sábado.
- Está bem! Voltaremos na sexta-feira que antecede a festa.
Assim, poderão ir juntas.
Maria Luísa abraçou e beijou a mãe.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:24 pm

- Já que vamos ficar separadas, poderíamos ir neste sábado para a Vila das Flores e passarmos o dia lá.
- Não, eu não posso ir.
Tenho muita coisa para arrumar antes da viagem, mas vou deixá-la feliz.
Se quiser, Juvenal pode levar você no sábado pela manhã e buscar só no domingo à tarde.
O que acha?
- A senhora é a melhor mãe do mundo! Vou adorar!
No sábado pela manhã, Juvenal estava esperando Maria Luísa, que rumou feliz, para Vila das Flores.
Durante o sábado e domingo, divertiram-se muito.
Comeram, cantaram e conversaram.
Rosa Maria e Maria Luísa ficaram de longe vendo Isabel e José namorarem.
- Sabe Rosa Maria, falei com minha mãe ontem a respeito de sua ida ao Brasil para nos visitar.
Ela não viu inconveniente algum.
Disse que depois que nos instalarmos, pediremos para papai mandar uma passagem para você.
Antes de partirmos, mamãe vai falar com seus pais e deixar tudo combinado.
- Isso é óptimo. Se ela falar com eles, tenho certeza de que me deixarão ir.
- Não vamos nos preocupar com isso agora.
Por enquanto, o que devemos é nos preocupar com a festa de sábado que vem.
Na tarde de domingo, Juvenal veio buscar Maria Luísa, que, ao se despedir, combinou o lugar onde iriam encontrar-se no dia da festa.
No domingo à noite, Tadeu não voltou.
A família toda ficou preocupada.
Ele nunca havia feito isso.
Alguma coisa devia ter acontecido.
Sempre foi um rapaz responsável.
Ele sabia que na segunda-feira pela manhã teria que ir com o pai entregar ovelhas para o Sr. Cristóvão, o comerciante do povoado.
Na segunda-feira pela manhã, o Sr. Tadeu e José foram para a casa de Roberta saber o que havia acontecido.
Estavam a uma distância de meia hora da casa, quando viram um cavaleiro vindo em sua direcção.
Pararam os cavalos.
Era Raul, irmão de Roberta.
- Bom dia. Estava indo justamente para sua casa.
Tadeu ficou e ainda está com uma febre muito alta.
Não tem condições para cavalgar.
- Que febre?
- Não sabemos.
Ontem à tarde, quando se preparava para voltar, quase desmaiou.
Quando fomos socorrê-lo, vimos que estava com muita febre e até agora ela não passou.
Por isso eu estava indo para sua casa.
Mamãe e Roberta estão cuidando dele.
O senhor Tadeu, nervoso, falou:
- Então, vamos logo!
Preciso ver o meu filho!
Quando chegou, constatou que o filho realmente não estava bem.
Ao lado dele, estava o doutor José Maria, médico do povoado.
O senhor Tadeu perguntou, aflito:
- Que febre é essa, doutor?
- Não sei. Há na cidade mais quatro casos de pessoas com essa mesma febre.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:24 pm

O que está me intrigando é que por mais remédio que se dê, ela não baixa, e aumenta cada vez mais.
O senhor Tadeu pediu a José que fosse para casa contar à mãe e Rosa Maria o que estava acontecendo e que trouxesse roupas para Tadeu.
José montou no cavalo e partiu rapidamente.
Chegou a casa e contou tudo.
Não conseguiu segurá-las.
As duas vestiram-se rápido.
Dona Maria Teresa pegou algumas roupas para Tadeu, enquanto José preparava a carroça para levá-las.
Enquanto isso, a febre de Tadeu aumentava.
Ele começou a delirar.
Abriu os olhos, viu o pai, sorriu e falou:
- Papai, ainda bem que está aqui.
Onde está mamãe, José e Rosa Maria?
- José foi para casa avisá-las, meu filho.
Talvez venham com ele.
- Tomara que sim. Não estou bem.
- Mas vai ficar.
Essa febre vai passar.
Você vai ficar bom.
Tadeu voltou a dormir.
Roberta segurava suas mãos, com lágrimas nos olhos.
Com um pano molhado, enxugava o rosto de Tadeu, que delirava, chamando por ela e pela mãe.
Dona Maria Teresa e Rosa Maria chegou preocupada.
Entraram no quarto onde Tadeu, ardendo em febre chamava pela mãe.
Dona Maria Teresa, ao ver o filho naquele estado, começou a chorar.
Rosa Maria, abraçada ao pai, também chorava.
José, encostado num canto do quarto, segurava-se para não chorar.
Tadeu, delirando, falava coisas que não se podia entender.
Abriu os olhos mais uma vez.
Viu a mãe e os irmãos.
- Que bom que vieram!
Mamãe, não chore.
Vou ficar bem...
- Essa febre tem que baixar.
- Vai, sim, meu filho.
Logo estará em casa.
- A senhora está vendo a vovó?
Ela também veio me visitar. Está sorrindo.
Disse para eu não me preocupar porque tudo vai ficar bem.
Todos se olharam.
O coração de dona Maria Teresa apertou-se.
Roberta segurou com mais força as mãos de Tadeu, como se assim pudesse evitar o que estava pressentindo.
Rosa Maria, abraçada ao pai e ao irmão, não sabia o que fazer.
Tranquilamente, Tadeu dormiu para não mais acordar.
A morte de Tadeu foi um choque para todos.
Seu pai não se conformava.
- Isso não é justo!
Não podia ter acontecido com ele. Não com ele.
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Ave sem Ninho

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:24 pm

Tão jovem, forte e saudável, com a vida toda pela frente...
Um pai nunca imagina que um filho possa morrer antes dele.
Não é normal.
O certo seria os pais morrerem primeiro.
Enquanto falava, chorava sem tentar esconder as lágrimas.
Dona Maria Teresa, abraçada a Rosa Maria, também chorava, sem poder acreditar que aquilo fosse verdade.
O desespero foi geral.
Roberta continuou segurando as mãos de Tadeu sem se mover.
Somente ficou olhando, com lágrimas correndo mansamente por seu rosto.
O senhor Tadeu resolveu que o corpo de Tadeu seria levado para a Vila das Flores, porque lá toda a família estava enterrada.
A viagem de volta foi triste e vagarosa.
Por todos os lugares em que passavam, as pessoas acenavam e os homens tiravam o chapéu.
Tadeu foi enterrado em meio a muita tristeza e sofrimento.
Roberta continuava muda e distante.
Estava sentada em uma cadeira, alheia a tudo.
Dirigia-se para fora da casa quando caiu.
Todos correram para socorrê-la.
Sua mãe, ao ajudá-la a levantar-se, gritou:
- Meu Deus!
Ela também está com febre!
O pai de Roberta e o senhor Tadeu foram até o povoado buscar o médico.
Não conseguiam encontrá-lo.
Muitas pessoas na cidade também estavam com febre.
Quando, finalmente, o encontrou, ele disse:
- Não posso ir até sua casa agora.
Aqui, muitas pessoas estão com essa febre estranha.
Não há muito que fazer.
Estou lhes dando um medicamento para febre, mas parece que não faz efeito.
Vou lhes dar o mesmo remédio que estou usando aqui para tentar baixar a febre.
Podem também ir fazendo compressa de água morna.
Tomara que ela passe!
Não estou gostando do que está acontecendo.
Essa febre surgiu do nada, está se alastrando por este e outros povoados.
Não há o que a faça baixar.
Muitas pessoas já morreram.
O pai de Roberta e o senhor Tadeu voltaram rápido para casa, levando o remédio.
Os dois calados temiam o pior.
Durante dois dias, Roberta foi cuidada com todo o carinho.
Porém não foi possível fazer com que a febre baixasse.
Aquela estranha febre fazia com que a pessoa fosse perdendo os sentidos aos poucos.
Não havia dor, somente aquele torpor.
Roberta, num raro momento de lucidez, falou:
- Mamãe, papai, não chore!
Sei que estou indo para junto de Tadeu.
Deus, sabendo que eu não viveria sem ele, vai levar-me para junto de Tadeu.
Ela, mansamente, dormiu e, como Tadeu, partiu.
O desespero novamente foi geral.
Aquela febre terrível estava levando pessoas jovens e saudáveis.
Roberta foi enterrada ao lado de Tadeu.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:24 pm

Os pais dela, desesperados, voltaram para casa.
Não entendiam como tudo havia acontecido.
Ao invés de uma festa, de um casamento, fizeram dois enterros!
Rosa Maria, desolada, foi com Isabel para o povoado ver se conseguiam ajudar em alguma coisa.
Estava tudo uma desolação só.
Começaram a ajudar no pequeno hospital, que não dava conta de tantos doentes.
Aquela estranha febre espalhou-se por toda parte.
As pessoas morriam rápido.
Sem dor, sem sofrimento.
Dona Maria Teresa e o senhor Tadeu, a princípio, quiseram impedir que Rosa Maria fosse para a vila, com medo de que também pegasse a febre.
Ela os convenceu que, se tivesse que pegar, pegaria de qualquer maneira, que as pessoas precisavam de ajuda.
A contragosto concordaram.
Isabel também teve dificuldades com seus pais, mas, no fim, também concordaram.
Dormiam somente algumas horas por dia.
As autoridades não davam conta de enterrar as pessoas.
Os doentes eram enterrados rapidamente para se evitar o contágio.
Nas casas em que havia um doente, era colocado um pano branco na janela.
José veio em busca de Rosa Maria e disse desesperado:
- Rosa Maria, você tem que ir para casa.
Papai não está bem e quer vê-la.
- O que ele tem?
Não vá me dizer que é a febre!
- Infelizmente é.
E ele não está bem.
- Meu Deus!
Ele também não!
Vamos logo!
Avisaram Isabel, que os acompanhou.
Quando chegaram, Rosa Maria, que já havia visto muitos doentes, percebeu que seu pai, infelizmente, também iria morrer.
Entrou em desespero.
Conteve-se, quando sua mãe disse:
- Não fique preocupada, filha.
Ele não vai morrer.
A febre está baixando.
Ela sorriu para a mãe e abraçou-a.
Sabia que o pai não estava bem, mas não podia dizer à mãe naquele momento.
Sentou-se na cama.
Pegou as mãos do pai e segurou-as com muito carinho.
Ele abriu os olhos.
Vendo que era ela quem estava lá, falou:
- Minha filha, sei que vou para junto de Tadeu e Roberta.
Não estou com medo, porque sempre soube que este dia chegaria.
A única preocupação que tenho é deixar você, tão jovem.
Fique sempre ao lado de sua mãe e de seu irmão.
Eles a protegerão sempre.
- Não fale assim.
Vai ficar bom.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:25 pm

Muitas pessoas têm sarado lá no hospital.
Sabia que não estava falando a verdade, porque todas as pessoas que ficavam com febre morriam, mas naquele momento foi à única coisa que lhe veio à cabeça para falar.
Ficou ao lado do pai, cuidando dele com compressas e com os remédios que o médico havia receitado.
Sua mãe, do outro lado da cama, percebendo que o marido iria partir, começou a chorar baixinho.
Estivera casada por vinte e seis anos.
Uma vida toda.
Sempre se amaram, ele foi um bom marido e, ainda, melhor pai.
Colocou as mãos dele entre as suas e ficou calada, chorando.
Rosa Maria olhou para ela e falou:
- Mamãe, a senhora está muito cansada.
Vá se deitar, eu cuido dele.
Vai ficar bem por algum tempo.
Descanse um pouco.
Dona Maria Teresa estava cansada mesmo.
Estava sem dormir havia quase dois dias.
Falou:
- Estou um pouco cansada.
Vou deitar, sim.
Daqui a meia hora você me acorda?
- Pode descansar.
Eu a chamo assim que for necessário.
Dona Maria Teresa foi para o quarto de Rosa Maria.
Deitou-se e fechou os olhos, mas não conseguia dormir.
Havia perdido o filho, agora estava perdendo o marido.
Como Deus pôde fazer aquilo com ela e sua família?
Dormiu.
Enquanto isso, Rosa Maria ficou ao lado do pai, percebendo que aos poucos ele estava indo embora.
Sem ter o que fazer, apenas o acariciava, com lágrimas caindo por seus olhos.
José e Isabel entraram no quarto e se ajoelharam junto ao senhor Tadeu.
Ficaram olhando, calados, porque também sabiam que nada havia para se fazer.
Duas horas depois, vendo que a mãe não acordava, Rosa Maria foi até seu quarto.
Ela dormia profundamente.
Rosa Maria chamou-a, baixinho:
- Mamãe, está na hora de acordar.
Papai quer falar com a senhora.
Dona Maria Teresa com muito custo abriu os olhos e falou:
- Já vou levantar.
Estou mesmo cansada...
Rosa Maria colocou a mão na cabeça da mãe e percebeu com horror que ela também estava com febre.
Falou, tentando se manter calma:
- Se não quiser, não precisa se levantar, mamãe.
Papai está bem.
- Vou me levantar.
Quero ficar junto de seu pai.
Já aceitei que ele também irá embora.
Quero estar a seu lado.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 01, 2017 7:25 pm

Rosa Maria, sem poder evitar as lágrimas, falou:
- Está bem. Enquanto a senhora se levanta, vou para junto de papai.
Ao invés disso, Rosa Maria se dirigiu para onde estavam José e Isabel.
Nervosa, falou:
- José, vamos até lá fora um pouco, preciso falar com você.
Isabel, por favor, fique com papai.
Depois falo com você.
Fora do quarto, abraçou o irmão, dizendo:
- Mamãe também está com febre...
Ele a afastou com os olhos esbugalhados e disse:
- Não! Você deve estar enganada. Não pode ser!
- Infelizmente, é verdade, meu irmão...
Fui acordá-la.
Ela disse que estava cansada, então coloquei a mão em sua testa e vi que estava com febre.
- O que vamos fazer Rosa Maria?
- Não sei...
- O que temos que fazer agora é ficar ao lado de papai, Rosa Maria.
Ele não está bem.
Não sei por quanto tempo vai resistir.
Abraçaram-se, chorando.
Ficaram assim por algum tempo, um nos braços do outro.
Enxugaram as lágrimas e foram para o quarto.
Dona Maria Teresa já estava lá, segurando as mãos do senhor Tadeu.
Não percebeu que estava com febre. Falou:
- Meu marido, que Deus o abençoe.
Obrigada por toda a vida de felicidade e pelos filhos maravilhosos que me deu.
Rosa Maria e José choravam.
Sentiam que o pai estava indo e temiam pela mãe.
O senhor Tadeu abriu os olhos quando ouviu a voz da esposa.
Nada falou. Apertou a mão dela, sorriu e voltou a dormir.
Quando dona Maria Teresa percebeu que ele havia ido, começou a chorar.
Deitou-se sobre o corpo do marido e chorou.
Chorou muito. Rosa Maria, José e Isabel choravam abraçados.
Pela terceira vez, em muito poucos dias, uma pessoa deixava aquela família que até pouco tempo era tão feliz.
Dona Maria Teresa, após a morte do marido, entrou em profunda tristeza, o que fez com que a febre tomasse conta de seu corpo.
O senhor Tadeu foi enterrado rapidamente ao lado de Tadeu e de Roberta.
Rosa Maria sentiu a morte do pai, mas agora sua mãe precisava de sua ajuda e cuidado.
Com o coração partido, cuidou da mãe, sem descansar por um momento.
Por todos os doentes que já havia visto no hospital, sabia que a mãe também não resistiria.
Dona Maria Teresa também percebeu que estava doente e que iria fazer companhia a seu marido e a seu filho.
Em um momento de lucidez, falou:
- Meus filhos, estou indo embora.
Deus assim quis.
Quero que nunca percam a fé.
Sigam seu caminho, sempre com a certeza de que, de onde estiver, eu, seu pai e Tadeu estaremos pensando em vocês.
Fique sempre juntos, um amparando o outro.
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