QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 7:25 pm

Maria Luísa correu para seu quarto, deitou-se em sua cama.
Fechou os olhos e lembrou-se de como era feliz quando morava naquela casa, sem problema algum.
"Como tudo mudou!
Hoje, estou de volta com um filho...
Quando aqui morava, não poderia pensar que tudo mudaria dessa forma.”
Juvenal chegou em seguida.
Havia ido até o armazém comprar mantimentos.
Ao ver sua senhora ficou contente e disse:
- Estou feliz que tenham voltado.
A casa estava vazia e triste sem o sorriso da senhorita Maria Luísa.
Maria Luísa deu uma gargalhada como fazia antes, falando:
- Pois voltei e quero alegria.
Estou muito feliz porque Deus, ou o destino, está me ajudando.
Ele não entendeu, mas Rosa Maria e Dona Matilde, sim.
Olharam-se e sorriram.
Joana preparou um jantar simples, mas saboroso.
Após o jantar, combinaram que, pela manhã, Juvenal iria levá-las até a casa de José e Isabel.
Dormiram tranquilas.
Rosa Maria estava feliz por poder rever seu irmão e Isabel.
No dia seguinte, acordaram cedo. Tomaram café.
Juvenal já as esperava com a charrete pronta.
Partiram. Ao passar pelo centro do povoado, Rosa Maria viu ao longe o adivinho sentado, com as pernas cruzadas, atendendo algumas pessoas.
Sorriu, pensando:
"Fui e voltei. Não aconteceu nada de ruim.
Ao contrário, estou feliz, encontrei o amor de minha vida."
Ao chegar a casa, percebeu que tudo estava igual.
O sítio continuava bem tratado.
Entrou em casa.
José estava na cozinha, preparando o café.
Isabel não estava.
Rosa Maria entrou devagar, abraçou o irmão pelas costas, falando:
- Adivinhe quem chegou.
Ele se virou e abraçou-a.
- Rosa Maria!
Minha irmã querida, quanta saudade!
Por que não me avisou que iria chegar?
Eu teria ido buscá-la em Lisboa.
- Não deu para avisar.
Resolvemos rápido, assim que recebemos sua carta.
Mas onde está Isabel?
José abraçou Maria Luísa, dizendo:
- Sejam bem-vindas!
Não podem imaginar como estou feliz.
Isabel, desde que perdeu a criança, está triste e abatida, principalmente por não poder mais ter outro filho.
Está no quarto.
Eu iria levar o café para ela.
Dirigiram-se ao quarto.
Isabel estava deitada com o cobertor até a cabeça.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 7:25 pm

Rosa Maria descobriu-a, falando:
- Vamos levantar Isabel!
Chegamos e temos muita coisa para conversar.
Isabel abriu um sorriso, pulou da cama e abraçou as duas.
- Não acredito! Vocês estão aqui?
Devo estar sonhando!
- Não está sonhando.
Estamos aqui e precisamos muito de sua ajuda.
Por isso vai levantar-se e arrumar-se.
Vamos esperar lá fora.
Isabel ria como uma criança que havia ganhado um brinquedo.
- Está bem, estarei pronta em um minuto.
Saíram do quarto e foram para a sala esperar por Isabel.
José disse:
- Ela está assim desde que perdeu a criança.
Faz o serviço da casa, ajuda-me no sítio, mas está sempre triste.
Não sei mais o que fazer.
- Não se preocupe meu irmão.
Temos uma solução para vocês que vai ajudar-nos também.
- Tudo bem, mas estou tão feliz por estarem aqui.
Minha irmã, senti tanto sua falta.
- Voltei, mas não vai ser por muito tempo.
Preciso voltar para o Brasil.
Vou casar-me.
- Casar? Com quem?
Com algum brasileiro?
- Não. Ele não é brasileiro.
É um lindo português, e você o conhece...
- Português? Conheço?
Não me diga que é Rodolfo!
- É ele mesmo.
Apaixonamo-nos e vamos nos casar assim que voltarmos ao Brasil.
- Fico muito feliz.
Escolheu bem, é um óptimo rapaz.
Isabel entrou na cozinha.
Estava abatida.
Não era nem de longe aquela menina feliz que Rosa Maria havia deixado quando partira.
As duas levantaram-se para recebê-la.
Ela as abraçou, dizendo:
- Estou tão infeliz.
Perdi meu filho, e o pior é que nunca mais poderei ter outro.
Não presto para mais nada.
- Poderá sempre adoptar uma criança.
Existem muitas abandonadas que precisam de carinho e amor.
- Nunca! Se não puder ter meu filho, não vou criar o de ninguém.
- Nem o meu? - Maria Luísa perguntou, com o olhar, suplicante.
- O que está dizendo? Você?
- Isso mesmo, Isabel.
Você não notou?
Coloque a mão em minha barriga.
Isabel colocou a mão na barriga de Maria Luísa e, surpresa, disse:
- Está mesmo. Como poderia notar?
Acabou de chegar, e com esse vestido armado é difícil de notar.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 7:26 pm

- Por isso estamos aqui.
Estou com seis meses.
Preciso da sua ajuda.
Meu pai não sabe nem pode saber.
Quero pedir a vocês que, se possível, fiquem com minha criança até que possa voltar para levá-la comigo.
- Não sei. Seu pai não sabe?
Por que não contou a ele?
Por que não se casou?
- Não me casei porque o pai da criança é um negro escravo.
Não podia contar a meu pai.
Ele não aceitaria e mandaria matá-lo.
- Um negro escravo?
Você enlouqueceu Maria Luísa?
- Sim. Mas foi de amor. Eu o amo.
Vou voltar e ficar com ele.
Preciso de algum tempo para encontrar uma forma de contar tudo para meu pai.
E esse tempo que estou pedindo a vocês.
José quando sua carta chegou, foi como se Deus a tivesse mandado para mim.
Marido e mulher se olharam.
José falou:
- Por mim, tudo bem.
Sei que cuidarei muito bem dele, como se fosse meu filho.
Isabel, você é quem decide.
Isabel olhou para as duas, que a olhavam com olhar suplicante
- Está bem.
Só tem um problema em tudo isso.
- Qual?
- Você diz que vem buscá-lo depois.
E se eu me acostumar e apaixonar-me pela criança?
Se eu não quiser devolvê-la?
- Não havia pensado nisso.
Vai demorar muito para eu voltar.
Quando chegar à hora, resolveremos.
Não vou fazer você sofrer nunca.
O importante é que a criança possa nascer e ser criada com amor e carinho.
Nem que isso signifique que ela nunca saiba que sou sua mãe.
Prometo que só ficará sabendo se você contar.
Prometo também que nunca vou reclamar meus direitos de mãe.
Por favor, receba esta criança.
Ela precisa ter uma família que a ame.
Eu não poderei ficar com ele, mas sei que farão tudo que for possível para que seja feliz.
- Sendo assim, está bem.
Ficaremos com ele.
- Quem disse que é ele? - perguntou José.
- Ora, é só um modo de falar.
Seja o que for, amaremos e cuidaremos com todo o carinho.
Maria Luísa, chorando, abraçou a amiga.
Agora, poderia ficar tranquila, seu filho estaria bem.
Voltaram para casa e contaram a Dona Matilde a conversa que tiveram com Isabel e José.
Quando terminaram, ela falou:
- Você tem certeza de que nunca vai querer reclamar seu filho?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 7:26 pm

- Não tenho opção.
Meu filho precisa nascer.
Não é justo depois eu querer tirá-lo deles.
- Está bem, então vamos fazer o seguinte:
você, a partir de hoje, não sai mais de casa.
Vamos evitar que as pessoas a vejam.
Assim, se um dia seu pai voltar, ninguém vai poder falar nada, pois não saberão.
- Está bem, mamãe, a senhora tem razão.
Devemos evitar que as pessoas me vejam.
- Vou falar com o doutor José Maria, explicar tudo e pedir silêncio.
Ficou tudo resolvido e combinado.
Isabel como que renascera.
Junto com Rosa Maria e Maria Luísa compraram tecidos e lã e prepararam as roupinhas do bebé.
Estavam conversando na sala, quando Maria Luísa sentiu uma dor nas costas.
Foram chamar dona Matilde.
Ela chegou, olhou e disse:
- Vou mandar Juvenal buscar o Dr. José Maria.
Chegou a hora.
O médico veio logo depois.
Examinou Maria Luísa e disse:
- Vai demorar algumas horas.
Vou até o hospital e voltarei mais tarde.
Você, menina, fique calma.
Logo terá seu filho em seus braços.
Maria Luísa sorriu, pensando:
"Graças a Deus, vai nascer.
Obrigada, meu Deus, por ter me dado a chance de ter esta criança..."
As horas foram passando, as dores aumentando.
Rosa Maria e Isabel ficaram o tempo todo ao lado de Maria Luísa.
Dona Matilde entrava e saía a todo instante, muito nervosa, pedindo a Deus que tudo desse certo.
O doutor voltou mais tarde.
Examinou Maria Luísa, falando:
- Está quase na hora.
Por favor, dona Matilde, providencie água quente e alguns lençóis.
Ela foi buscar.
Voltou, entregou ao médico.
Maria Luísa estava com muita dor.
A seu lado estavam Isabel e Rosa Maria.
Após algum tempo, ouviu-se um choro forte de criança.
Todos respiraram aliviados.
O médico apanhou a criança e examinou-a.
Percebendo que estava bem, entregou-a a dona Matilde, que a lavou e vestiu.
Em, seguida, entregou-a para Maria Luísa, que ficou olhando com muito carinho.
Um belo menino, muito vermelho.
Sendo recém-nascido, não dava para perceber sua cor.
Também para ela aquilo não importava, o importante é que ele nascera.
Olhou para Isabel, que estava ansiosa para pegá-lo.
Maria Luísa entregou-o, dizendo, com lágrimas:
- Estou, agora, entregando-lhe meu filho.
Sei que vai tratá-lo com todo o amor.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 7:26 pm

Faço isso porque não posso ficar com ele.
Eu o amo, mas prometo-lhe que nunca, mas nunca mesmo, direi a ele que sou sua mãe.
Neste momento, peço a mamãe e Rosa Maria que prometam também.
As duas olharam-se e também com lágrimas disseram:
- Prometemos.
- Isabel, queria pedir-lhe mais uma coisa.
O pai dele é um homem muito bom, que me ama e ama também seu filho.
Só não está hoje a nosso lado por não poder, por isso queria que o nome dele fosse Tobias.
Isabel pegou o menino e disse:
- Pode ficar tranquila, seu filho terá todo o amor do mundo.
E o nome dele será Tobias.
É o mínimo que posso fazer para agradecer-lhe tanta alegria.
Rosa Maria pegou a mão de Maria Luísa e a de Isabel, colocou a sua por cima e disse:
- Esse menino é um felizardo.
Tem três mães.
Vamos fazer agora um segundo juramento?
Juramos que todas cuidarão desse menino como se todas fôssemos suas mães.
- Juramos!
Dona Matilde e o médico observavam tudo com muita emoção.
Ele falou:
- Seria bom que ficasse aqui por algum tempo para poder ser alimentado com o leite da mãe.
Isabel concordou.
José, desde que se aproximara o tempo de a criança nascer, todos os dias pela manhã levava Isabel à casa de Maria Luísa e ia buscá-la à tarde.
Como toda a tarde veio buscá-la.
Ao chegar, encontrou-a feliz.
Ela o levou até o quarto e mostrou o menino.
Ele olhou, mas não teve coragem de pegá-lo.
Olhou para Maria Luísa e falou:
- Tem certeza de que quer dá-lo, Maria Luísa?
- Não há outra maneira, José.
É o preço que tive de pagar para que ele pudesse nascer.
Estou tranquila.
Sei que estou entregando a pessoas que cuidarão muito bem dele.
- Pode ter certeza.
Será como se fosse meu filho.
Nós o amaremos com todo o nosso coração.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:01 pm

PLANEANDO O MAL
Passaram-se as semanas.
O menino Tobias estava cada vez mais forte e bonito.
Era mulatinho, mas de olhos claros.
Quando fez três meses, Maria Luísa achou por bem que Isabel o levasse para sua casa.
Ela precisava desacostumar-se de ficar com ele.
Sabia que a qualquer momento teria que ir embora.
Isabel levou-o.
Maria Luísa, acompanhada de Rosa Maria e Juvenal, ia todos os dias até a casa de Isabel e continuava amamentando o menino.
Dona Matilde não ia.
Não queria ficar perto do menino com medo de se apegar a ele.
Também sabia que teria que deixá-lo.
Estava em seu quarto lendo.
Alguém bateu à porta.
Ela pediu que entrassem.
A porta abriu-se e Rodolfo entrou.
- Mamãe querida!
Quanta saudade!
Ela olhou para ele, assustada e surpresa.
- Meu filho! Você aqui?
- Eu mesmo!
Não aguentei mais a saudade, vim buscá-las.
Onde estão Rosa Maria e Maria Luísa?
Dona Matilde sentiu um aperto no coração.
- Foram pela manhã para a casa de José.
Juvenal irá buscá-las logo mais.
- Irei até lá.
- Não, meu filho, fique aqui comigo, vamos conversar.
- Não aguento de saudade, mamãe, preciso ver Maria Luísa, mas principalmente Rosa Maria.
Conversaremos depois.
Ela sorriu.
Ele saiu correndo, chamou Juvenal, e os dois partiram.
Quando chegou à casa de José, encontrou-as tomando lanche.
- Parece que cheguei à boa hora.
As três olharam para ele e empalideceram.
Rosa Maria foi a primeira que se levantou.
Jogou-se nos braços dele, que a abraçou com muita força.
Levantou-a e começou a rodar com ela nos braços.
Ela ria e chorava ao mesmo tempo.
Maria Luísa começou a tremer.
Depois que colocou Rosa Maria no chão, Rodolfo voltou-se para a irmã, levantou-a e rodou também.
- Não suportei a saudade.
Vim buscá-las.
- Que bom, meu irmão!
Também estávamos com saudade.
- Está na hora de irem embora, afinal, vocês precisam se casar, não é Rodolfo?
- Isso mesmo, Isabel.
Estou ansioso para que esse dia chegue.
Você me parece muito bem.
Quer dizer que a vinda delas para cá foi boa mesmo?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:02 pm

- Muito, Rodolfo!
E agradeço a você pela compreensão.
- Eu até que não compreendi muito, mas quem consegue fazer essas duas mudar de ideia?
- Ainda bem. Mas venha ver, tenho uma novidade.
Levou-o até o quarto e mostrou o menino.
- Este é meu filho, Rodolfo.
Rodolfo olhou para o menino e percebeu que era um pouco escuro, mas não falou nada.
Rosa Maria e Maria Luísa olhavam para ele.
Isabel falou:
- Nós o adoptamos, mas é nosso filho de coração.
Ele sorriu, aliviado.
- Qual é o nome dele?
Isabel olhou para Rosa Maria e Maria Luísa, que a olhavam apavoradas.
Rindo, falou:
- Tadeu. O nome é Tadeu, por causa do pai e do irmão de José.
- É um bonito nome.
Bem-vindo ao mundo, Tadeu.
Todos riram e saíram do quarto.
Daquele dia em diante, Maria Luísa passou a ir muito pouco à casa de Isabel, com medo de falar o verdadeiro nome do menino na frente de Rodolfo.
Antes mesmo de sair do Brasil, Rodolfo marcara as passagens de volta.
O navio sairia em vinte e cinco dias de sua chegada.
Um dia antes de embarcarem, Rosa Maria e Maria Luísa foram até a casa de Isabel para despedir-se.
Maria Luísa falou:
- Isabel, posso ficar um pouco com Tobias para despedir-me?
- Claro que pode!
Sei que nunca reclamará seus direitos de mãe, mas também não vou impedi-la de dar-lhe carinho e amor.
Maria Luísa foi para o quarto de Isabel, onde Tobias dormia tranquilamente.
Ficou olhando sem o pegar, para que não acordasse.
Com lágrimas nos olhos, falou:
- Meu filho querido, estou sendo obrigada a ir embora e deixá-lo, mas amo-o muito e seu pai também.
Nunca saberá que sou sua mãe, mas irei amá-lo para sempre.
Que Deus o abençoe e guarde.
Meus pensamentos estarão a cada minuto de minha vida com você.
Voltou para a sala e abraçou as amigas, que a estavam esperando.
As três choraram.
Isabel falou:
- Sei o que está sentindo.
Imagino como ficaria se tivesse que me separar dele neste momento, mas nós todos o amamos, será um menino feliz.
- Essa é a única coisa que me consola.
O mais importante e que ele nasceu e está lindo.
Só isso já me torna feliz.
Isabel, por favor, cuide muito bem de seu filho.
- Pode ficar tranquila, cuidarei muito bem de nosso filho.
Despediram-se.
Isabel disse que iriam juntos até Lisboa para vê-las partir.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:02 pm

Maria Luísa disse, chorando:
- Não, por favor, não faça isso.
Não sei se suportarei deixar o menino no cais.
Vamos nos despedir agora.
- Se acha que é melhor assim, assim será.
Voltaram para casa.
Embora falando muito e rindo, os olhos de Maria Luísa nunca mais brilharam como antes.
Já no navio, vendo a terra distanciar-se, ela no convés pensava:
"Por que tem que ser assim?
Meu filho tão lindo e amado... tive que deixá-lo.
Voltarei, nem que seja para ficar como amiga de sua mãe.
Pelo menos estarei a seu lado."
Rodolfo estava tão feliz que não percebeu a mudança na irmã.
Dona Matilde aproximou-se.
- Minha filha, sei o quanto está sofrendo.
Imaginei o que faria se tivesse que abandonar você ou Rodolfo.
É muito difícil, mas seus problemas ainda não terminaram.
Quando chegarmos à fazenda, você vai ter que ficar distante do escravo.
Se seu pai um dia souber, talvez até a perdoe, mas a ele nunca.
Pense bem, minha filha.
Um dia você poderá voltar a ver seu filho.
Agora, tem que proteger o escravo.
- A senhora, como sempre, tem razão.
Com certeza, reverei meu filho.
Quanto a Tobias, eu o amo.
Quando chegarmos, verei o que fazer.
Chegaram ao Rio de Janeiro.
Josué estava esperando-os.
Desta vez, Rosa Maria não se admirou com nada, já havia visto tudo.
Sua vontade era de chegar logo à fazenda e preparar seu casamento.
Amava Rodolfo e ele a ela.
Seriam felizes para sempre.
A viagem foi cansativa, como sempre.
Só que desta vez todos tinham um motivo especial para querer chegar.
Rodolfo e Rosa Maria, pensando no casamento.
Dona Matilde, querendo rever seu marido.
Maria Luísa, também querendo rever Tobias e contar tudo a ele sobre o filho.
Ao chegarem à porteira, ouviram com alegria o sino tocar.
Ao aproximarem-se da casa, todos os escravos estavam felizes.
Serafina correu para receber suas sinhazinhas.
Durante o tempo todo em que estiveram fora, ela ficou rezando e pedindo ajuda a Xangô.
Dom Carlos também os esperava ansioso.
Ficou muito tempo longe da esposa e de sua filha.
- Sejam bem-vindos.
Todos me abandonaram...
Maria Luísa correu e, chorando, abraçou o pai.
- Que é isso, minha filha?
Tudo isso é saudade?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:02 pm

- É sim, papai.
Eu o amo muito.
Não quero nunca fazê-lo sofrer.
- Fazer-me sofrer, você?
Ora, filha.
Por mais que faça, nunca me fará sofrer, será sempre minha querida.
Eu também sempre só lhe darei felicidade.
Cumprimentaram os outros, que, exaustos, entraram.
Serafina colocou-se ao lado de Rosa Maria, que sorriu para ela.
Dom Carlos falou:
- Sei que estão todos cansados.
Por isso já está preparado um lanche para que comam e possam descansar um pouco antes do jantar.
Tomaram o lanche e foram para seus quartos.
Serafina acompanhou Rosa Maria.
- Sinhazinha, num to guentando.
Perciso sabe u qui cunteceu.
A criança nasceu?
- Calma, vou contar tudo.
Está tudo bem, nasceu um lindo menino, o nome dele é Tobias.
Ficou com meu irmão.
- Nosso Sinhô Jesuis e Xangô seja lovado.
A sinhazinha Maria Luísa tá sussegada?
- Ela não está bem.
Teve que deixar o filho, mas conseguiu o que queria.
Ele nasceu e é lindo.
- Perciso fala pru Pai Juaquim e u Tubia.
Eles tumém qué sabe.
- Amanhã, com certeza, Maria Luísa vai falar com Tobias.
Hoje não vai dar para sair.
Agora, vou dormir um pouco, estou cansada.
Serafina ajudou-a a trocar-se e deitar.
Fechou as cortinas e saiu bem devagar.
Estava feliz, pensando:
"U danado du neguinho cunsiguiu nasce."
Durante o jantar, Dom Carlos falou:
- Agora que voltaram, vamos providenciar o casamento.
Amanhã, pela manhã vou chamar Malaquias para termos uma conversa e providenciarmos tudo.
Quero que os dois estejam presentes.
No dia seguinte, após o café, ele disse:
- Tenho uma surpresa para vocês.
Venham comigo.
Todos o acompanharam.
Nos fundos da casa-grande, havia outra casa, recém construída.
Dom Carlos entrou.
Os outros o seguiram e entraram em uma sala enorme, com móveis finos e caros.
Em seguida, entraram em um belo quarto de casal.
Tudo muito bonito, como se fosse um sonho.
Rosa Maria, mais uma vez, ficou encantada com tudo o que via.
Tudo ricamente decorado.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:02 pm

Havia mais três quartos.
Diante de tudo aquilo, ela perguntou:
- De quem é esta casa?
- Sua e de Rodolfo.
Não vão se casar?
Poderiam ficar morando em nossa casa, mas achei que seria melhor terem uma só para vocês.
Por isso, enquanto estiveram viajando, mandei construir e decorar.
Espero que tenha gostado, mas se quiser fazer qualquer alteração, fique à vontade, Rosa Maria.
Rodolfo sabia e prometeu que não estragaria a surpresa.
Você não contou, não é Rodolfo?
- Claro que não, papai!
Mas, quando saí daqui, ela não estava terminada.
Ficou linda e perfeita.
O que achou Rosa Maria?
Ela olhava tudo, mais uma vez não acreditando no que estava vendo e ouvindo.
- Estou sem palavras... - disse emocionada.
O senhor é um homem maravilhoso!
- Nada disso, só quero a felicidade de meus filhos.
Ela, olhando tudo, pensou:
"Como pude, um dia, desconfiar e até odiar esse homem?
Naquele dia, do mendigo, deve ter acontecido algo que o deixou daquele jeito."
- Obrigado, papai.
Não sabemos como agradecer por tudo o que fez.
- Não precisam agradecer.
Só quero muitos netos.
Malaquias chegou e ficou do lado de fora, esperando o patrão sair.
Quando saíram, dom Carlos falou:
- Sei que estão loucos para passearem pela fazenda.
Enquanto fazem isso, vou para o escritório conversar com Malaquias, ele vai escolher duas ou três vacas para serem assadas no dia do casamento.
Será uma festa que ninguém conseguirá esquecer.
Quero os negros com roupas novas, para cantarem e dançarem.
Afinal, é o casamento de meu único filho!
Rosa Maria sorria a cada palavra dele.
Estava muito feliz.
Em seguida, foram ao costumeiro passeio.
Ao vê-los se aproximando, Tobias começou a tremer.
"Minha sinhazinha vortô.
Brigado, meu Xangô.
Agora vô sabe si meu minino nasceu.
Ela tá tão linda."
Maria Luísa, ao vê-lo, sentiu seu coração disparar.
Estava com muita saudade e amava-o muito.
Desceram da charrete.
Rodolfo aproximou-se, dizendo:
- Como está, Tobias?
E os cavalos?
- Tá tudo certu, sinhozinho.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:03 pm

- Que bom. Pode preparar nossos cavalos.
Faz muito tempo que não cavalgamos e estamos todos ansiosos.
- Num istante vai tá tudo selado e pronto pra cavargá.
Olhou para Maria Luísa, que sorria para ele.
Entrou no estábulo.
Voltou logo depois trazendo os cavalos prontos.
Maria Luísa falou:
- Não estou sentindo-me bem.
Vão cavalgar, ficarei aqui na sombra.
Não tenham pressa.
- Se não está bem, seria melhor voltarmos.
- Não é nada grave, só quero ficar aqui.
- Podem ir tranquilos.
Rodolfo olhou para Rosa Maria, que disse:
- Ela está bem, ficará aqui com Serafina.
Vamos, nós dois temos muito para conversar.
- Está bem, mas não saia daqui.
Maria Luísa sorriu para ele.
- Não sairei.
Aproveite, a manhã está linda.
Montaram e saíram cavalgando, felizes.
Quando se distanciaram, Maria Luísa falou para Tobias:
- Estava morrendo de saudade.
Vamos entrar?
Entraram, abraçaram-se e beijaram-se.
Depois Tobias, nervoso, disse:
- Sinhazinha, pur favo, mi fala:
qui cunteceu cum nosso minino?
- Nasceu e é lindo, Tobias!
É um menino, seu nome é Tobias!
- Nasceu? Brigado, Xangô.
Ele num é u minino mais lindo du mundo?
A sinhazinha colocô meu nome nele?
- É, sim. O menino mais lindo do mundo.
Tem seu nome porque para mim os dois são as pessoas mais importantes do mundo.
Um dia iremos até lá para você o conhecer.
- Isso num vai cuntecê, mai num faiz mar.
U bão foi qui ele pôde nasce.
- Vamos lá, sim.
Você vai conhecê-lo.
Mas agora venha aqui.
Novamente amaram-se com muito amor.
Com toda a saudade que um sentia pelo outro, com a felicidade que sentiam pelo filho que, embora parecesse impossível, nascera.
Quando terminaram, foram para fora.
Ele escovava um cavalo, enquanto ela falava sobre o casamento de Rodolfo e Rosa Maria.
- Depois que o casamento acontecer, vou pedir que papai me dê você de presente.
Direi que quero um jardim só de rosas.
Ele aceitará. Tenho certeza.
Com você, estando perto de mim, poderemos nos ver mais vezes.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:03 pm

- Tumara qui sim, sinhazinha.
Enquanto isso, Dom Carlos, raivoso, conversava com Malaquias.
- Esse casamento não pode se realizar!
- Não estou entendendo, patrão.
- Não tem que entender nada, só tem que cumprir ordens.
- Está bem.
O que quer que eu faça?
- Preciso que converse com uma negra aqui da casa.
Não pode ser Serafina, ela adora essa moça.
Tem que ser outra.
Diga que terá muito dinheiro e uma carta de alforria se fizer tudo que eu mandar.
Mas tem uma condição:
nunca poderá contar nada a ninguém, mas a ninguém mesmo.
Ficará só entre nós três.
Você também será muito bem pago. Está certo?
- Sim, senhor, pode contar comigo.
O que mais terei que lazer?
- Por enquanto, encontre a negra.
Também um negro forte, Bem apessoado e jovem.
Quando encontrar os dois, quero falar com eles.
- Está bem, vou procurar.
- Não diga nada da alforria, só diga que tenho um trabalho especial, um segredo...
Malaquias saiu do escritório e encontrou Jerusa.
Ela passou por ele, baixou a cabeça.
Ao vê-la, pensou:
"Ela seria perfeita.
Vive dentro da casa, pode andar por toda parte..."
Saiu. Pegou seu cavalo e foi embora.
No caminho, ia pensando:
"Com que negro posso falar?
Qualquer um quer viver na casa-grande, onde o conforto e a comida são melhores."
Ao chegar ao estábulo, viu Maria Luísa sentada em um banquinho que havia embaixo de uma árvore.
Tobias, um pouco afastado, escovava um cavalo.
Quando chegou perto, Malaquias notou que o escravo era bem apessoado, tinha força e porte.
Pensou:
"É bem do jeito que Dom Carlos quer."
Desceu do cavalo, foi para perto dele e falou:
- Há algum tempo me pediu para ir trabalhar na lavoura.
Estive pensando.
Vou mandá-lo para outro lugar.
Tobias olhou para ele, pensando:
"Num quero mais i imbora daqui.
Só aqui posso tê a minha sinhazinha tudos dia.
Si fó pra lavora, só vô pude vê ela lá na istrada, quando ela tivé cavargando.
Mais u qui posso fazê?
Sô só um iscravo.
Tenho qui cumpri orde, mai nada."
- É isso mesmo.
O patrão me pediu, hoje, que arrumasse um negro assim como você para trabalhar na casa-grande.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:03 pm

Tobias não acreditou no que estava ouvindo.
Trabalhar na casa grande?
Ficar perto da sinhazinha o tempo todo?
Xangô estava ajudando-o.
Baixou a cabeça, não respondeu.
- Quero que vá tomar um banho, troque de roupa e à tarde vamos juntos falar com o patrão.
- Sim, sinhó.
Maria Luísa viu os dois conversando, mas não conseguia ouvir.
Viu que Tobias saiu e foi para dentro da cocheira.
Olhou para a estrada.
Rodolfo e Rosa Maria estavam voltando.
Chegaram e desceram dos cavalos.
Estavam felizes com tudo o que ia acontecer.
Seus sonhos estavam perto de realizar-se.
Voltaram para casa.
Durante o almoço, Dom Carlos falou:
- Rodolfo, estive a manhã toda no escritório fazendo uma lista das pessoas que vou convidar para seu casamento.
Todos irão lembrar-se desse casamento por muito tempo.
- Obrigado, papai.
Só podia esperar isso do senhor.
É o melhor pai do mundo.
- Nada disso, filho.
Só quero que todos de minha família sejam felizes.
Terminaram de comer.
Rosa Maria e Rodolfo foram para a sala.
Maria Luísa, dizendo estar cansada, foi para seu quarto.
Dom Carlos, para o escritório.
Pouco depois, Malaquias chegou com Tobias.
- Vim falar com Dom Carlos.
Rodolfo levou-o até o escritório.
Seu pai, ao ver Malaquias, falou:
- Pode deixar Rodolfo, vou combinar com ele a festa de seu casamento.
Rodolfo saiu e voltou para a sala.
Continuou lendo seu livro.
Rosa Maria fingia que lia, mas estava apavorada.
Rodolfo, percebendo sua palidez, perguntou:
- O que está sentindo, Rosa Maria?
Parece que viu um fantasma.
- Não é nada.
Só estou com um pouco de calor.
Com licença, vou entrar um pouco.
Saiu depressa da sala, foi para o quarto de Maria Luísa.
- Maria Luísa, acorde!
Acorde! Ele está aqui.
Maria Luísa sentou-se na cama, assustada com a expressão no rosto de Rosa Maria.
- O que aconteceu?
Quem está aqui?
- Tobias está no escritório com seu pai.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:03 pm

- Tobias?
No escritório com meu pai?
Você está louca?
O que meu pai quer com ele?
- Não sei.
Acabou de entrar com Malaquias.
- Ai, meu Deus!
Será que Malaquias sabia de tudo e contou para meu pai?
- Não sei.
Fiquei tão assustada quando o vi, creio que Rodolfo está desconfiado de algo.
Preciso voltar. Fique aqui.
Qualquer coisa que acontecer, volto para contar.
Saiu e voltou para junto de Rodolfo, que não entendia o que estava acontecendo.
- Por que está tão nervosa?
- Não estou nervosa, Rodolfo.
Só não me senti bem e tive que ir lá dentro.
Rodolfo ficou prestando atenção e pensando:
"Ela não está conseguindo esconder o nervosismo.
Por que será?
Ficou assim desde que Tobias chegou.”
Realmente, ela não conseguia esconder seu nervosismo.
Temia por Maria Luísa e muito mais por Tobias.
Não conseguia tirar os olhos da porta do escritório.
Rodolfo continuou fingindo que estava lendo, mas prestava atenção ao comportamento de Rosa Maria.
Enquanto isso, no escritório, Dom Carlos falava com Tobias.
O escravo estava nervoso diante daquele homem que só conhecia de ver pegar os cavalos e sair cavalgando, mas que nunca lhe dirigira um olhar sequer.
Dom Carlos olhou para Tobias de cima a baixo.
Perguntou a Malaquias:
- Qual é o nome dele?
- Tobias, senhor.
Trabalha no estábulo.
Cuida muito bem dos cavalos.
- É isso mesmo que preciso.
Josué, o cocheiro de minha carruagem, está doente.
Vou precisar viajar muito, ele não vai aguentar.
Por isso preciso de um novo cocheiro.
Creio que esse aí irá se dar bem.
- Ele é o melhor, posso garantir.
Tobias ouvia os dois conversando, calado, de cabeça baixa.
"Xangô, meu pai. Brigado!
Tá mi dando u mó presente qui ieu pudia ganhá na minha vida."
- Malaquias, você soube escolher.
Ele é óptimo. Leve-o até Josué.
Peça a ele que mostre tudo a esse escravo, onde vai dormir e ficar.
Dê roupa de cocheiro a ele.
Amanhã cedo, iremos até a vila.
- Sim, senhor. Vamos negro.
Finalmente, para Rosa Maria, a porta abriu-se e os dois saíram.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:04 pm

Tobias continuava de cabeça baixa.
Rosa Maria olhava firme para ele, tentando adivinhar o que estava acontecendo, mas não conseguiu descobrir nada.
Rodolfo olhava para ela, desconfiado.
Assim que Tobias foi embora, Rosa Maria pediu licença, foi correndo para o quarto de Maria Luísa, que estava ajoelhada, rezando.
- Saíram agora do escritório.
Não sei o que aconteceu, mas não ouvi gritos e Tobias não me pareceu assustado.
- Estou sem coragem de sair daqui.
- Não pode ficar aqui.
Tem que sair e agir normalmente.
- Está bem, vou arrumar-me e irei para a sala, ficar com Rodolfo e você.
Vá à frente.
Rosa Maria voltou para a sala.
Pegou um livro e começou a ler.
Em seguida, Maria Luísa chegou.
Sentou ao piano e começou a tocar como sempre fazia.
Seu pai, ao ouvir o piano, foi para a sala, chamando-a.
Ela tremeu, mas levantou-se e foi até o escritório.
Rosa Maria seguiu-a com os olhos.
Estava tremendo.
Rodolfo prestava atenção nas atitudes dela.
- Entre, minha filha.
Precisamos conversar.
- Pois não, papai, aqui estou.
- O que está achando do casamento de seu irmão, Maria Luísa?
- Estou feliz. Rosa Maria é minha melhor amiga.
Diria até que a amo como se fosse minha irmã.
Tenho certeza de que fará Rodolfo feliz.
- Estou feliz também.
Gosto dela como se fosse minha filha.
Sabe que tinha planos para Rodolfo, mas o que importa é a felicidade dele.
Será uma festa linda.
- Queria lhe fazer uma pergunta.
O que aquele negro estava fazendo aqui?
- Por que quer saber?
- Por nada, estou curiosa.
- Josué está doente.
Vou viajar muito e ele não vai aguentar.
Resolvi ter um cocheiro mais forte.
Esse que Malaquias trouxe pareceu-me ideal.
- É isso?
Já o vi no estábulo, parece-me bem forte.
Como sempre, soube escolher.
- Agora vá, tenho muito que fazer.
Maria Luísa levantou-se e beijou seu pai, aliviada.
Saiu rindo. Olhou para Rosa Maria, que continuava apavorada e não tirava os olhos da porta.
Maria Luísa sorriu, tentando demonstrar que estava tudo bem.
Rodolfo não a viu fazendo o sinal.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:04 pm

Estava desconfiado, olhando para Rosa Maria.
Viu Rosa Maria sorrindo, aliviada.
Ela pensou: "Graças a Deus.”
Dom Carlos saiu do escritório falando:
- Vamos tomar chá?
Dirigiu-se à sala.
Foi seguido por eles.
Dona Matilde estava supervisionando a arrumação da mesa.
Seu marido estava em casa, tudo tinha que ser perfeito.
"Quero que esse casamento seja o mais comentado.
Espero que sejam felizes, e serão com certeza."
Rosa Maria parecia estar vivendo um sonho.
Dom Carlos era mesmo maravilhoso.
Adorava os filhos e agora tinha certeza de que a adorava também.
Pensava:
"Estou tão feliz neste momento.
Pena que meus pais e irmãos não possam estar aqui comigo.
Tenho certeza de que, onde estiverem, estão felizes também.
Aquele adivinho era um louco.
Só encontrei felicidade aqui nesta terra.
Ele acertou em quase tudo.
Fiquei sozinha, vim para uma terra estranha.
Ele só não disse que eu iria encontrar um grande amor e ser muito feliz."
Dom Carlos percebeu que ela estava distante, disse:
- Rosa Maria, você está pensando muito.
Pode nos dizer o que é?
- Estou pensando em meus pais e em meu irmão.
Eles estariam felizes em ver minha felicidade.
- Lá onde estão com certeza sentem-se felizes.
Mas agora tenho que voltar ao escritório.
Há muitas coisas para serem feitas.
Quero que no dia do casamento tudo dê certo.
Levantaram-se.
Maria Luísa falou:
- Rosa Maria, quero mostrar-lhe um vestido novo que vou lhe dar.
Está guardado há muito tempo.
Você vai adorar.
Venha comigo até meu quarto.
Rosa Maria levantou-se sorrindo e seguiu-a.
Estava ansiosa para ficar sozinha com ela e saber o que estava acontecendo.
Quando chegaram ao quarto, Maria Luísa falou eufórica:
- Você não vai acreditar Rosa Maria!
Papai chamou Tobias para ser cocheiro.
Vai servir aqui em casa.
Poderei vê-lo todos os dias!
Rosa Maria sorriu.
- Você tem muita sorte, Maria Luísa.
Quem sabe, com ele por perto, seu pai acostume-se e acabe aceitando.
Maria Luísa começou a chorar.
- Não consigo esquecer meu filho.
Não acho graça em mais nada.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:04 pm

Depois de seu casamento, vou pedir a papai que me deixe voltar para Portugal e levar comigo Jerusa e Tobias.
- Acha que ele vai deixar?
- Não sei, mas não custa tentar.
Não consigo ficar longe de meu filho.
Nem de Tobias.
Algumas coisas têm que tentar.
- Você tem razão.
Quando tiver meu filho, com certeza não vou suportar ficar longe dele.
Mas e Isabel?
Devolverá o menino?
Nós prometemos.
- Não vou tirá-lo dela.
Só vou ficar por perto, vendo, acompanhando seu crescimento.
Depois do casamento, quem sabe você convence Rodolfo a voltarmos?
- Farei tudo que for possível para sua felicidade, Maria Luísa.
Quando saiu do escritório, depois de falar com Josué, Tobias foi até o estábulo buscar as poucas coisas que tinha.
Aproveitou para despedir-se de Trovador e dos outros cavalos.
Sabia que outro escravo iria tratar deles.
Enquanto acariciava Trovador, falava:
- Pur causo di ocê fiquei perto da sinhazinha.
Agora vô fica perto da casa, vai sê mais face ieu vê ela.
Estava mergulhado em pensamentos quando ouviu passos, Voltou-se.
Era Pai Joaquim, que o viu chegando.
- Qui ti cunteceu, fio?
- U sinhó que qui ieu vô mora lá na casa-grande, pra ieu tratá dus cavalo lá da cochera e sê cochero.
- Vai fica mais pertu dela?
Cuidadu, meu fio.
Num isquece nunca qui ocê é nego e ela é branca.
Branco pensa qui nego num é gente.
Nóis num tem iscoia.
Si ocê incontra uma cobra na istrada, vai di incontro dela ou disvia u caminho?
- Ieu possu disviá, mais tumém posso mata.
- É, fio, a escoia é di ocê.
Ninguém podi mudá, nem Xangô.
Lembra sempre qui tudo qui Deus manda tá certo.
Mais ainda ocê tem tempo di disviá.
- Num posso fazê nada.
Tenho qui cumpri orde.
- Ocê tem qui sê cochero, mai nada.
- Óia, pai, si tudo cunteceu, si ieu incuntrei a sinhazinha, si gustei dela, si ela gustô di ieu, é pruque Xangô quis.
Si ela num mi quisesse, nada tinha cuntecido, num é?
Hoje nóis tem inté um fio.
- As veiz ele culoca em nussa vida tentaçãu, pra gente iscapá.
Mais si tem qui sê, Xangô juda.
- Sua bença, pai.
Pede pra Xangô prutegê ieu.
- Deus Nosso Sinhô Jesuis Cristo ti bençoa.
Vai cum sua pruteção.
- Ieu vô, pai, sei qui inda vô sê filiz.
Beijou as mãos do preto velho e foi encontrar seu destino.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:04 pm

TRAIÇÃO
No dia seguinte pela manhã, Tobias estava imponente em sua farda de cocheiro.
Estava muito feliz por tudo o que estava acontecendo.
"Inda num vi a minha sinhazinha.
Quandu ela mi vê nessa ropa, vai fica cuntenti i urgulhosa.
Vai gustá mais di ieu."
A porta de casa se abriu e saíram por ela Dom Carlos, dona Matilde e Maria Luísa.
Esta ao ver Tobias vestido com aquela roupa, realmente achou que ele estava muito bonito.
Passou pela frente de seu pai para que ele não visse seu rosto.
Sorriu para Tobias e deu uma piscada.
Ele fez a maior força para não rir.
Ficou sério, porém seus olhos brilharam de felicidade.
Abriu a porta da carruagem.
Dom Carlos entrou.
Tobias fechou, montou, deu uma última olhada em Maria Luísa e foi embora.
Estava indo para a vila.
Quando estavam saindo, Rosa Maria chegou gritando para que esperassem.
Tobias parou a carruagem.
Dom Carlos colocou a cabeça para fora.
Rosa Maria se apressou, chegou perto da carruagem e disse:
- Por favor, Dom Carlos, o senhor poderia fazer o favor de colocar esta carta no correio?
É para meu irmão.
Estou contando tudo sobre o casamento.
- Claro menina! Não se preocupe.
Irei ao correio antes do almoço.
Também preciso mandar algumas correspondências.
Em seguida, ordenou a Tobias que partisse.
Acenou para as outras que estavam na varanda.
Elas acenaram e ficaram vendo a carruagem até desaparecer.
Nesse dia, Maria Luísa não quis passear.
Voltou para seu quarto.
Deitada na cama começou a chorar.
Estava triste e nervosa.
"Não deveria ter abandonado meu filho.
Deveria tê-lo trazido comigo.
Nunca mais poderei reclamá-lo.
Sei que nunca poderei ficar com Tobias, mas poderia ter encontrado uma maneira de ficar com meu filho."
Chorava sem parar. Tremia muito.
Não havia conseguido dormir durante a noite.
Via o menino chorando e sofrendo muito.
Acordava e percebia que estava em casa, bem longe do filho.
Sentia-se culpada e infeliz.
Na carruagem, Dom Carlos seguia com a carta na mão.
Segurou-a por alguns minutos, depois abriu-a e leu:
Querido irmão e Isabel,
Estou escrevendo para contar da imensa felicidade que estou sentindo.
Vou me casar em breve.
Rodolfo é um homem maravilhoso.
Amo e sou amada por todos, principalmente por Dom Carlos.
Às vezes sinto-me culpada por tê-lo julgado tão mal no dia do mendigo, tenho certeza de que serei muito feliz.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:04 pm

Espero na próxima carta já poder dizer que vocês serão tios.
Espero também que estejam felizes.
Amo-os muito.
Talvez consiga voltar para Portugal com Rodolfo, ou quem sabe vocês possam vir até aqui.
Um beijo para os dois, Rosa Maria.
Assim que terminou de ler, Dom Carlos falou em voz alta:
- Piegas! Sonsa! Cretina!
Amo e sou amada...
Não perde por esperar.
Verá quem é o homem do mendigo.
Assim que chegar a casa, queimarei esta carta.
Depois de amanhã, tudo estará resolvido.
Chegando à vila, mandou Tobias colocar algumas cartas no correio.
Visitou alguns amigos.
A vila ficava a uma hora da fazenda, por isso voltou um pouco antes do almoço.
Maria Luísa levantou-se e arrumou-se.
Estava triste, mas tinha que manter as aparências.
Foi para a varanda.
Sentou-se em uma cadeira de balanço e ficou esperando ansiosa por seu pai, mas muito mais por Tobias.
Poderia vê-lo mais uma vez.
Daria um jeito de encontrá-lo, não sabia como, mas conseguiria.
Sempre conseguia o que queria.
"Só não consegui ficar com meu filho.
Como será que ele está?
Terão nascido os dentinhos?"
Já havia alguns dias estava assim, triste e desanimada.
Enquanto isso, Rodolfo e Rosa Maria foram até o rio, desmontaram, sentaram-se à margem.
Rodolfo falou:
- Este lugar é mágico.
Aqui é o melhor lugar da fazenda.
Essa água descendo tranquila nos dá uma sensação de paz infinita,
- Também acho.
Quando estou triste, com saudade, o melhor lugar é aqui.
Enquanto falava, com uma varinha batia na água, fazendo com que os peixinhos fugissem.
Ela ria e pensava:
"Estou tão feliz!
Amo esse homem, sei que me ama também.
Logo estaremos casados.
Vou ter muitos filhos.
Talvez volte para Portugal acompanhada de Rodolfo.
Muito obrigada, meu Deus, por ter colocado em meu caminho Maria Luísa e sua família.
Dom Carlos é um homem maravilhoso, ama seus filhos e a mim também."
Rodolfo passou um braço sobre os ombros dela.
Com a outra mão, puxou seu rosto para junto dele.
Olhou profundamente em seus olhos e falou:
- Eu a amo, Rosa Maria.
Prometo fazer o impossível para que seja feliz.
Continuou olhando para ela.
Foi aproximando-se e beijou-a ardentemente.
A princípio, ela quis afastar-se, pois não era de bom tom uma moça ficar sozinha com o noivo, muito menos tendo aquelas intimidades antes do casamento.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 7:05 pm

Mas não resistiu e entregou-se àquele beijo com todo o amor e a força de sua juventude.
Parecia que estava nas nuvens.
Ele foi ficando cada vez mais atrevido.
Colocou as mãos em seus seios.
Um calor imenso tomou conta dos dois.
Deitaram-se na grama e continuaram beijando-se ardentemente.
Era um momento mágico.
Os corpos queriam-se, nada poderia impedir que um fosse do outro naquele momento.
Nada a não ser a própria Rosa Maria.
- Pare Rodolfo, por favor.
Se continuar assim, não vou resistir.
Sonhei minha vida toda, principalmente depois que o conheci.
Quero ir virgem para nossa primeira noite.
Está quase chegando o dia.
Vamos esperar?
- Tem razão. Vamos esperar.
Falta tão pouco tempo.
Não vamos estragar.
Por isso, amo-a tanto.
Vamos embora.
Levantaram-se, arrumaram às roupas, ele beijou sua testa e foram embora.
Estavam felizes por terem conseguido esperar.
Quando chegaram a casa, Dom Carlos havia acabado de retornar.
Tobias já havia levado a carruagem para os fundos da casa, onde ficava a cocheira.
Entraram rindo.
Estava na hora do almoço, todos se sentaram.
Dom Carlos disse:
- Rosa Maria, coloquei sua carta no correio.
Pode ficar tranquila, logo seu irmão irá recebê-la.
- Obrigada, senhor.
Estou feliz e muito agradecida por tudo.
Após o almoço, Rodolfo foi até a lavoura para ver como estava tudo.
O período de colheita aproximava-se e ele queria ver se não seriam necessários mais escravos.
Maria Luísa saiu andando em volta da casa.
Ia olhando as flores, mas o que queria mesmo era ver Tobias.
Rosa Maria foi para seu quarto.
Naquele dia, passou por muitas emoções, estava exausta.
Deitou e adormeceu em seguida.
Dom Carlos foi para o escritório.
Logo depois, Jerusa entrou, trazendo um chá.
- Cum licença, sinhó.
U seu Malaquia disse qui u sinhó qué falá cum ieu.
Ele olhou para ela.
Já a tinha visto andando pela casa.
Se Malaquias mandou-a, deveria ser ela.
- Quero falar com você, sim.
Gosta de viver aqui?
- Gostu muito, sinhó.
- Gostaria de ter uma carta de alforria e dinheiro para ir embora e montar seu próprio negócio?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:30 pm

- Craro que quiria, mais num to intendendu...
- Preciso que me faça um trabalho.
Se fizer direito, darei a carta e dinheiro para ir embora e montar um negócio só seu.
O que acha?
- Meu sinhó, façu quarqué coisa pra consegui issu!
- Pois bem. Preste muita atenção.
Vai pegar este vidrinho e colocar o líquido que está dentro dele no chá que servirá à noite para Rosa Maria.
Pela manhã, você a encontrará deitada com um negro.
Saia pela casa, gritando, para que todos acordem, ouçam e venham ao quarto dela.
Isso ficará entre nós.
Não deve, nunca, comentar com ninguém.
Se fizer tudo direito, terá a carta e o dinheiro.
Se abrir a boca e falar com alguém, coloco-a no tronco até morrer. Entendeu?
- Intendi, sinhó.
Mais u qui vai cuntecê cum u nego e cum a sinhazinha?
- Isso não lhe interessa.
Só precisa fazer o que estou falando, é melhor fazer direito.
- Ta bão, ieu façu.
Mais tem mais uma coisa.
Cum u dinheiru qui u sinhó vai mi dá, possu cumpra um negru pra mim?
- Pode, vendo-lhe o negro que quiser.
Agora, pode sair.
Procure Malaquias.
Diga para que venha até aqui.
- Ta bão, sinhó.
Saiu depressa do escritório.
Não estava acreditando que tudo aquilo estava acontecendo.
Com o dinheiro, poderia comprar Tobias, foi tudo o que sempre quis desde que o conheceu.
Apertava o vidrinho em sua mão, enquanto pensava:
- Inté qui infim, vô deixa di sê iscrava!
Cum u dinheiro, vô compra u Tubia e muito vistido, iguar us da sinhazinha!
Qui será qui vai cuntecê cum a sinhazinha Rosa Maria?
E cum u nego?
Quem será ele?
Num possu pensa nissu.
Tenhu qui i imbora daqui, cu meu Tubia.
Num dá pra pensa muitu.
Tenhu qui fazê.
Saiu correndo pelo corredor e esbarrou em Serafina que vinha do lado contrário.
- Qui é issu, minina, ta fugindo di quê?
- Di nada, não, Serafina...
- Ocê tá sustada. Qui cunteceu?
- Nada, não, Serafina. Num to sustada.
Só vô vê si a sinhazinha Maria Luísa tá percisando de arguma coisa.
- Ela num tá na casa.
Saiu i só quim tá é a sinhazinha Rosa Maria, mais tá drumindo.
- Tá bão. Intão vô na cuzinha toma água.
- Cuidadu, minina.
Tá cum cara qui ta fazendu arguma coisa errada.
Antis di fazê, lembra qui Xangô vê tudo i qui eli è u deus da justiça.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:30 pm

- Num to fazendu nada erradu, mais si tivessi qui fazê, ieu ia fazê.
Ocê fala qui Xangô vê, mais si visse, num deixava a genti sê iscravo, sufrendu sem nada e us brancu cum tudo!
Num querditu im Xangô.
Agora mi deixa i!
Serafina soltou sua mão, dizendo:
- Vai, minina.
Faiz u qui quisé.
Xangô ixisti, sim.
Toma cuidadu.
Jerusa saiu correndo.
Serafina ficou preocupada:
- Essa minina tá fazendo arguma coisa errada... u qui será, meu Nossu Sinhô?
Malaquias entrou no escritório.
Dom Carlos perguntou:
- Conversou com o negro?
- Não. Vi que com ele não vai dar certo.
Ele é muito fiel, religioso e tem medo do tal de Xangô.
- Não tem importância.
Essa noite, você vai fazer o seguinte...
Enquanto isso, Rosa Maria dormia e estava novamente sentada naquela mesma pedra, cercada por frutas e flores.
Do meio das pedras, saiu aquele moço que ela já tinha visto outras vezes.
Conhecia-o.
Ficou feliz ao vê-lo.
Perguntou:
- Quem é você?
Eu o conheço e sei que o amo, mas não pode ser.
Amo Rodolfo, vou me casar e sei que seremos felizes.
- Luana, querida, não se preocupe, também a amo e amarei para sempre.
O tempo ruim está chegando.
Eles tiveram a chance de se redimir do mal que fizeram.
Nós não podemos interferir.
Só podemos, com muita tristeza, observar.
Não esqueça, nunca, que, aconteça o que acontecer, estarei sempre ao seu lado.
Amo-a muito.
Seja forte e que Deus a abençoe.
- Amo-o também.
Acordou com o som de sua própria voz dizendo essas palavras.
Ficou abismada:
"Quem será ele? Sinto que o amo.
E aquele lugar? Onde será?
Que sonho é esse que sempre se repete?
Não lembro o que ele falou, só de uma coisa.
‘Luana, amo-a muito’.
Por que me chamou de Luana?
Eu também disse que o amava.
Oh, meu Deus, o que é tudo isso?"
Levantou-se e foi até a cozinha.
Estava com muita sede e fome.
Encontrou Jerusa, que, ao vê-la, levou um susto.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:30 pm

- A sinhazinha cá na cuzinha?
- Estou com sede e com fome, Jerusa.
- Tá quasi na hora du jantá, mais tem um bolo.
Deixa qui ieu sirvu a sinhazinha.
Colocou um pedaço de bolo em um pratinho e deu-o a Rosa Maria.
Enquanto Rosa Maria comia, Jerusa a olhava e pensava:
"Meu Nossu Sinhô, ela é tão boa.
Sempre mi trato tão bem.
Será qui vô tê coragem de fazê mardade pra ela?
Mas si num fiz é, otra fais i ieu ainda morro"...
Alheia ao que Jerusa pensava, Rosa Maria comia tranquilamente, pensando em seu casamento próximo e no moço do sonho.
Terminou de comer e foi para a sala que estava vazia.
"Onde estarão todos?"
Maria Luísa estava andando pelo jardim e chegou até a carruagem que Tobias limpava.
Começou a olhar em volta, para ver se não havia ninguém por perto.
Falou baixinho:
- Você está muito bonito e elegante nessa roupa de cocheiro.
Isso é muito bom.
Com meu pai convivendo com você, será mais fácil aceitar o nosso amor, além de podermos nos encontrar com mais facilidade.
Com o tempo, pedirei que ele me dê você para meu cocheiro.
- A sinhazinha é a vida di ieu... - ele disse rindo.
- Sou sua vida, como você é a minha.
Mas não consigo esquecer o nosso menino.
Não deveria tê-lo deixado...
- Mais a sinhazinha num pudia trazê ele... si a sinhazinha num tivessi feitu isso, ele num tinha nascidu...
- Sei disso, mas estou sofrendo muito.
Às vezes penso que vou ficar louca...
Vejo o nosso menino na minha frente a toda hora, às vezes tenho vontade de morrer...
- Num fali assim, sinhazinha...
Ieu amu a sinhazinha...
Ela sorriu, acenou e foi embora.
Ele ficou sem saber o que fazer para animá-la.
Em casa, Maria Luísa encontrou Rosa Maria na varanda e recostada em uma cadeira de balanço.
- No que está pensando, Rosa Maria?
Já sei, não precisa responder.
Está pensando em Rodolfo e no casamento.
Papai contou-me que vai mandar vir uma costureira do Rio de Janeiro para fazer o seu vestido.
Estou muito feliz por vocês.
- Não sabia da costureira.
Cada dia que passa fico mais feliz.
Só não consigo mais porque tenho medo de que alguma coisa ruim possa acontecer com você.
Seu pai me surpreende a cada dia.
Ele é mesmo maravilhoso!
- Teve alguma dúvida sobre isso?
Não se preocupe comigo, Rosa Maria.
Tudo de ruim que poderia acontecer, já aconteceu.
Perdi meu filho e não consigo esquecê-lo nem por um minuto.
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Ave sem Ninho

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:30 pm

- Precisa esquecer Maria Luísa...
Era a única coisa que poderia ter feito.
Sabe que ele está muito bem com Isabel e José...
- Sei disso, é o que ainda me conforta...
A porta do escritório se abriu e por ela saiu Malaquias.
Estava tenso, passou por elas, calado, nem sequer as cumprimentou.
- O que será que ele tem Maria Luísa?
Parece que não nos viu aqui.
- Papai deve ter lhe dado um correctivo.
Em seguida, Dom Carlos abriu a porta e foi até a varanda.
Perguntou:
- O que minhas duas filhas estão fazendo aqui?
- Estamos conversando a respeito do casamento de Rosa Maria.
Disse a ela que o senhor vai mandar vir do Rio de Janeiro uma costureira para fazer o seu vestido de noiva.
Não é verdade?
- Sim, Rosa Maria vai ser a noiva mais bonita desta terra.
Tão bonita quanto ela, só Maria Luísa quando se casar.
Terá também um lindo casamento.
- Não sei, não, papai.
Creio que não me casarei.
- Como não?
O filho do coronel João António virá para o casamento, quero que o conheça e que o trate muito bem.
Será seu marido.
Já está tudo arranjado.
- Está bem, papai, vou tratá-lo muito bem.
Rodolfo chegou.
- Posso saber sobre o que estão conversando tão animadamente? - perguntou curioso.
- Sobre seu casamento, meu filho, e o futuro de Maria Luísa.
- Falar sobre meu casamento é sempre um assunto muito bom, papai.
Percorri a lavoura e está tudo bem, mas creio que iremos precisar de mais escravos.
Graças a Deus há muito café para ser colhido.
- Isso é muito bom.
Estou com fome.
Vou ver se o jantar vai demorar.
Nesse momento, dona Matilde entrou.
- O jantar está pronto, vamos para lá?
Foram para a sala de jantar e comeram como sempre em paz, conversando sobre o casamento.
Dom Carlos nunca permitiu que durante as refeições se falasse sobre qualquer problema.
Para evitar discussões, dizia sempre:
- A hora das refeições é sagrada.
Devemos sempre com em paz.
Após o jantar, conversaram mais um pouco na varanda.
Despediram-se e cada um foi para seu quarto.
Quando Rosa Mar estava preparando-se para deitar, Jerusa entrou no quarto de Rosa Maria.
- U sinhó chamô Serafina.
Ele percisô fala cum ela.
E pidiu pra ieu trazê u chá da sinhazinha e judá a sinhazinha deita.
Cumo a sinhazinha tá nervosa, acho qui pur causo du casamentu, troxe esse chá di erva cidrera.
A sinhazinha vai drumi qui nem si fossi um anjo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:31 pm

- Obrigada, Jerusa, preciso dormir mesmo.
Jerusa serviu o chá e saiu pensando:
"Tá feito! Agora é só isperá".
Logo após tomar o chá, Rosa Maria sentiu muito sono.
Adormeceu em seguida.
Altas horas da noite.
A casa estava em silêncio.
Malaquias acordou Tobias, dizendo:
- Venha, o patrão está chamando.
Precisa de seu serviço agora à noite.
Tobias levantou-se rapidamente, vestiu-se e seguiu Malaquias.
Estava no escritório, quando sentiu uma pancada em sua cabeça.
Não viu mais nada. Malaquias golpeou-o por trás.
Ele caiu. Dom Carlos surgiu das sombras.
Eles o carregaram para o quarto de Rosa Maria, que dormia profundamente.
Tiraram as roupas dos dois.
Deitaram um ao lado do outro.
Despejou na boca de Tobias o mesmo chá que Jerusa dera a Rosa Maria.
Viraram Rosa Maria de lado e colocaram o braço de Tobias sobre as costas dela.
Quem visse aquela cena, acharia que estavam dormindo abraçados.
Deram uma última olhada na cena.
Estava tudo certo, foram embora.
Malaquias saiu da casa.
Dom Carlos voltou para seu quarto.
A noite estava linda, a lua cheia brilhava.
Malaquias segurava na mão o dinheiro que Dom Carlos havia lhe dado e pensava:
"Com este dinheiro, poderei mandar meu filho estudar fora.
Ele vai ser doutor.
Sei que fiz algo errado, mas é ele quem tem o poder.
Não sou ninguém para discutir.
Meu filho precisa estudar para não ficar como eu.
Minhas filhas precisam de roupas bonitas.
Já que surgiu essa chance, não podia deixar escapar.
Deus sabe que não sou um homem mau.
Sou feitor de escravos, mas não maltrato nenhum deles, como é feito em outras fazendas.
Se não aceitasse a proposta, com certeza, seria despedido.
O que eu faria de minha vida, sem ter onde morar?
Como ficariam meus filhos?
Não tenho culpa do que está acontecendo.
O culpado é só ele, mais ninguém!"
No dia seguinte, assim que clareou, antes que Serafina acordasse Jerusa já estava de pé.
Não dormira a noite toda esperando amanhecer.
"Sei qui uma disgraça vai cuntecê, mai num pudia fazê nada.
Só anssim vô deixa di sê iscrava, vô pude tê u Tubia só pra mim.
U sihô num dexô iscoia.
Si tem argum curpado, é eli".
Eram sete horas, quando Jerusa abriu a porta do quarto de Rosa Maria.
Os dois estavam abraçados e nus.
Ela não viu o rosto do negro e começou a gritar.
Todos estavam acordados em seus quartos, preparando-se para o café.
Serafina também estava pronta para ir ao quarto de Rosa Maria.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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