QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:31 pm

Ao ouvirem os gritos, todos correram para ver o que estava acontecendo.
Jerusa gritava falando:
- Óia aqui! Óia aqui!
Foram para o quarto de Rosa Maria.
Ficaram horrorizados com o que viram.
Rosa Maria e Tobias também acordaram com os gritos.
Olharam-se, sem entender o que estava acontecendo.
Rodolfo e Maria Luísa, parados, não conseguiam falar nada.
Foi Dom Carlos quem falou:
- Que pouca vergonha é essa?
O que esse negro está fazendo em sua cama e nu?
Os dois, sentados, com o lençol muito branco encostado ao corpo, assustados com tudo aquilo, não sabiam explicar.
- E você, sua ordinária?
Entrou em minha casa, foi recebida como amiga e filha!
Não passa de uma rameira que se deita com um negro!
Enquanto falava, puxava o lençol, obrigando os dois a levantar-se.
- Você vai morrer negro!
Vou mandá-lo para o tronco.
Vai ficar lá até morrer.
Rodolfo decida o que vai fazer.
Não quero mais essa rampeira em minha casa!
Maria Luísa, quando voltou do susto, gritou:
- Ingrata! Você não presta!
Recebi-a como uma irmã.
Traiu minha confiança.
Como teve coragem de se deitar com esse negro imundo?
Odeio os dois!
Louca de ciúme e de ódio saiu do quarto de Rosa Maria e foi para o seu.
Lá, falava, chorando:
- Esse negro era meu.
Como ela teve coragem de me trair dessa maneira?
E ele? Como pôde fazer isso?
Eu o amava tanto.
Estava disposta a enfrentar meu pai por ele.
Abandonei meu filho.
Os dois merecem morrer!
Rodolfo, também tomado de ódio, falou:
- A virgem santa! Odeio-a!
Não quis entregar-se a mim.
Disse que queria se guardar para a noite de núpcias!
Mentirosa!
Estava com medo de que eu descobrisse antes do casamento que era uma rameira?
Papai faça o que quiser!
Sua casa foi desrespeitada.
Tudo o que fizer será pouco!
Saiu de casa apressado, montou o cavalo e foi embora em disparada, pensando:
"Nada disso está acontecendo!
Eu a amava com loucura"!
Foi até o rio, sentou e ficou pensando:
"Ontem, trocamos aqui, neste mesmo lugar, juras de amor.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:31 pm

Ela, com aqueles olhos de virgem, evitando meu amor!
Por isso ficou nervosa quando viu o negro entrando no escritório!
Ficou com medo de que meu pai houvesse descoberto!
Ela é sórdida e má!
Sou um idiota, um cretino!
Joguei toda a minha vida nas mãos dela!
Arrisquei-me, enfrentei meu pai, fiz com que ele quebrasse o compromisso com o coronel António José.
Meu pai aceitou Rosa Maria como se fosse sua filha!
Mandou construir a nossa casa!
Desejava fazer um casamento grandioso!
Com que cara olharei para ele, agora?
Para todos? Não sei o que fazer"...
Ficou lá, sentado, olhando a água que corria calmamente.
Na casa, o caos era completo.
Dona Matilde pegou o camisolão de Rosa Maria que estava no chão, deu a ela e ficou em sua frente, enquanto falava:
- Parem com isso!
Não pode ser verdade!
Conheço essa menina, deve haver uma explicação!
Deixem que ela fale!
- Não há nada de errado!
A senhora cale-se!
Quanto aos factos, não há argumento!
Saia daqui! -Dom Carlos disse gritando.
- Não acredito que seja verdade!
Sairei porque o senhor está ordenando, mas não acredito!
Saiu do quarto chorando e com muito ódio por sentir-se tão impotente.
Assim que ela saiu, Dom Carlos disse, gritando:
- Coloque sua calça, negro!
Chega de exibir sua nudez!
Vamos lá fora, chamar Malaquias!
Dom Carlos saiu do quarto empurrando Tobias.
Rosa Maria ficou sozinha no quarto.
Maria Luísa retornou.
Ao vê-la, Rosa Maria disse, chorando, desesperada:
- Ajude-me, Maria Luísa...
Não sei o que aconteceu.
Ontem dormi sozinha e acordei com tudo isso acontecendo...
Amo Rodolfo, vamos nos casar...
Sei que ama Tobias, jamais faria alguma coisa para magoá-la...
- Não deveria magoar-me mesmo!
Fiz tudo por você! Fui uma idiota!
Confiei a minha vida a você!
Sempre contei a você todos os meus problemas!
Contei todos os detalhes do meu amor!
O que foi? Quis experimentar para ver se era bom, mesmo?
Ele a beijou? Acariciou?
Ninguém mais do que você sabe o quanto estou sofrendo por causa do meu filho!
Odeio-a com todas as forças do meu coração!
Maria Luísa disse isso com os olhos faiscando de ódio.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:31 pm

- Não! Nada aconteceu, Maria Luísa!
Da maneira que dormi, levantei!
Ele não me tocou...
Aconteceu alguma coisa, mas não sei o que foi...
- Não sabe? Mas eu sei.
Nunca mereceu minha amizade.
Ficou encantada com minha casa e minhas roupas.
Iludiu meu irmão.
Achou que se casando com ele teria tudo também.
Herdaria a fortuna do meu pai.
Meu pai... Que a recebeu como uma filha.
Odeio-a. Odeio-a!
E também aquele negro que ousou trocar-me por você!
Quero que os dois morram!
- Não fale assim.
Somos inocentes.
Não fizemos nada!
Maria Luísa cuspiu em seu rosto.
Saiu do quarto, tomada de ódio e ciúme.
Tobias estava em pé.
Dom Carlos mandou chamar todos os negros da fazenda para que vissem o que acontecia com quem ousasse ofendê-lo ou a alguém de sua família.
Eles foram chegando.
Maria Luísa aproximou-se do tronco.
Tobias, suplicante, disse:
- Sinhazinha, mi jude, num fiz nada...
- Ajudá-lo? Você não passa de um negro sujo, que se atreveu a tocar em uma branca.
Quero que morra!
Tobias começou a chorar.
Não mais por medo ou vergonha, mas por todo o ódio que via nos olhos dela.
Logo ela, a quem tanto amava.
Dom Carlos aproximou-se, falando:
- Vamos, minha filha. Saia daqui.
Só de vê-la perto desse negro imundo, sinto asco.
Venha. Vamos para dentro da casa.
Levou-a para dentro, voltou em seguida.
Malaquias já estava esperando-o.
Muito nervoso, disse gritando:
- Malaquias, quando todos os negros chegarem, quero que prenda esse negro no tronco e lhe dê cinquenta chibatadas, para que todos vejam!
Se algum deles tentar algo para socorrê-lo, coloque no tronco também!
Maria Luísa, que havia voltado, disse com os olhos faiscando de ódio:
- Papai, faço questão de assistir!
Rosa Maria continuava no quarto chorando.
Serafina abraçava-a, dizendo:
- Sinhazinha, cumo isso foi cuntecê?
Sei qui a sinhazinha num feiz nada, nem u Tubia.
Ele ama a sinhazinha Maria Luísa.
Arguém feiz mardade pra sinhazinha e pru Tubia.
- Sei que foi maldade.
Só pode ter sido isso, mas quem a faria?
Por quê? Nunca fiz mal a ninguém.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:32 pm

Jamais faria.
Principalmente a essa família que me recebeu com tanto carinho.
Rodolfo, onde está?
Não pode ter acreditado nisso.
Sabe que o amo.
- O sinhozinho muntô nu cavalo.
Caiu nu mundo faiz tempo e inda num vortô.
- Oh, meu Deus! Alguém me ajude!
E a Tobias também...
- Num posso fazê nada.
Bem qui quiria, mai num posso...
- Eu sei Serafina, que não pode fazer nada.
Ao menos você acredita em mim.
Isso já me basta.
A porta abriu violentamente.
Era Dom Carlos, acompanhado por Malaquias.
- Leve-a para fora.
Tem que ver o que vai acontecer com seu amante.
- Senhor, ele não é meu amante.
Nada fizemos.
Alguém fez uma grande maldade.
- Maldade? Quem?
Eu? Rodolfo? Maria Luísa?
Fizemos sim, quando a aceitamos em nossa casa.
Nós a recebemos com todo o carinho.
Cale-se! Não me deixe com mais raiva.
Senão eu mesmo acabo com sua vida!
- Minha vida já está acabada, desde que ninguém mais nesta casa acredita ou gosta de mim.
Deixe-me voltar para Portugal para perto de meu irmão.
- É cretina, mesmo!
Acha que vou gastar um centavo mais com você?
Ainda não pensei no que farei.
Vou cuidar primeiro do negro, depois verei.
Vamos, para fora!
A porta abriu-se. Dona Matilde entrou:
- Dom Carlos, por favor, não faça isso.
Ela é meiga, gentil e gosta de nosso filho.
Deve estar havendo algum engano...
- Já lhe disse que não há engano algum!
Ela não presta! Enganou a todos nós!
Já mandei à senhora ir para seu quarto.
Por favor, não me deixe mais aborrecido do que já estou.
Dona Matilde abraçou Rosa Maria dizendo:
- Minha filha, não acredito que tenha feito isso.
Creio que tenha sido vítima de uma cilada.
Deus a abençoe.
- Obrigada, dona Matilde. Sou inocente...
Dom Carlos puxou dona Matilde, gritando:
- Saia daqui!
Como se atreve a abraçar essa imunda?
Não viu que esteve dormindo com um negro?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:32 pm

Que ela está cheirando a negro?
Dona Matilde saiu do quarto chorando e pensando:
"Como mulher não posso enfrentá-lo.
O que será que está acontecendo?
Nunca o vi assim, tão violento."
Rosa Maria foi empurrada para fora.
Da varanda, viu Tobias preso no tronco.
Viu também Maria Luísa rindo dele.
Percebeu que ela estava transtornada.
Rindo e chorando ao mesmo tempo.
"Meu Deus, quanto ódio!
Como ela pôde acreditar em tudo isso?"
Os negros foram obrigados por Malaquias a ficar sentados em volta do tronco.
Dom Carlos falou gritando:
- Quero que vejam o que acontece com um negro que se atreve a desrespeitar minha casa.
Vai ser açoitado porque foi encontrado na cama desta sem-vergonha!
Enquanto falava, puxava Rosa Maria pelos cabelos.
Disse com muito ódio:
- Malaquias, pode começar a chicotear.
- Não, papai.
Deixe-me começar.
Quero ter esse prazer.
Maria Luísa pegou o chicote, para espanto de todos, até de seu pai.
Tobias fechou os olhos, pensando:
"Meu pai Xangô, num dexa ela fazê isso.
Essa num é a minha sinhazinha.
Essa é otra. Ieu amo tanto ela.
Num dexa, meu pai.”
Ela pegou o chicote e com toda a força que possuía, aumentada pelo ódio que sentia, começou a chicotear.
Cada vez que o chicote estalava, ela aumentava a força e ria completamente descontrolada.
Rosa Maria chorava por sua dor, mas muito mais ainda por ver aquela cena.
- Meu Deus, é grotesco!
Maria Luísa está fora de si...
Maria Luísa não percebeu por quanto tempo bateu, nem quantas chicotadas deu.
Batia com muita raiva, muito ódio.
As primeiras marcas já começavam a aparecer nas costas de Tobias, ela continuou chicoteando.
Continuou chicoteando até cair exausta.
Dom Carlos levantou-a, dizendo:
- Malaquias, agora continue!
Malaquias olhou para ele assustado, pensando:
"Ele não me disse que isso iria acontecer."
Dom Carlos, percebendo que ele não queria bater, gritou:
- Se não o chicotear, o chicoteado será você!
Malaquias pegou o chicote e começou a bater.
Tobias não soltava um som.
Estava tão triste pela atitude de Maria Luísa que a dor do chicote não era nada.
Malaquias batia, batia.
O sangue começou a escorrer pelas costas de Tobias.
Aos poucos, sua cabeça foi caindo.
Os negros assistiam a tudo em silêncio.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:32 pm

Pai Joaquim se colocou à frente de Malaquias e falou:
- Já chega meu sinhó.
U nego já panhô bastanti.
Dom Carlos ficou morto de ódio.
- Que é isso, negro?
Quem pensa que é para impedir uma ordem minha?
Quer apanhar no lugar dele?
- Sô um nego veio, sinhó.
Já vi muita injustiça.
Mais iguar a essa, nunca vi, não.
Si quisé, ieu tomo u lugá dele, sim.
Já to veio. Já vivi muito.
Esse minino tá cumeçando vive agora.
Ele num feiz nada.
Só amô dimais.
Maria Luísa, pensando que Pai Joaquim fosse contar sobre ela e Tobias, antecipou-se:
- Deixe-o, meu pai. É só um velho.
Quer que pare de chicotear, negro?
Pois bem, dê-me uma faca.
Malaquias, achando que ela iria cortar as cordas, tirou a faca da cinta e entregou-a.
Dom Carlos falou:
- Minha filha, você não vai soltar esse negro!
Ela olhou para ele e para Rosa Maria, que chorava.
- Não vou soltá-lo, não, meu pai!
Atreveu-se a usar uma amiga minha, desrespeitou nossa casa.
Vai ter o que merece!
Pegou a faca, cortou as cordas e ele caiu.
Levantou a sua cabeça e com golpe certeiro cortou seu pescoço.
Todos gritaram.
Nem Dom Carlos acreditou no que estava vendo.
Os negros começaram a chorar.
Rosa Maria desmaiou.
A cena foi brutal.
O sangue jorrava.
Tobias, agonizante, não parava de olhar para ela, que tresloucada ria.
Ele, já sem forças, disse:
- Ieu ti amo, sinhazinha. Ieu ti amo...
Maria Luísa saiu correndo.
Pai Joaquim começou a cantar e foi sendo acompanhado pelos negros, que, imóveis, viram o último suspiro de Tobias.
Meu Pai Xangô
Recebe seu fio nos arto da pedrera
Traiz pra toda gente
A justiça verdadera
A mintira nesse dia parece qui venceu
Meu pai e quem sabe cumo tudo cunteceu
Os pássaro du amô em sua asa vai levá
Esse fio da do qui só sobe amá
Enquanto Pai Joaquim cantava em oração, Dom Carlos saiu atrás de Maria Luísa.
Ele também não entendia a razão de tanto ódio.
Indo para casa, viu Rosa Maria sendo amparada por Serafina, que não se afastou dela um minuto sequer.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:32 pm

Voltou para junto de Tobias e, raivoso, disse:
- Peguem esse negro!
Levem-no com vocês!
Façam o que quiserem!
Olhando para Rosa Maria, disse:
- Você que gosta tanto de negro, vá para a senzala!
Fique lá até eu decidir o que farei com você!
Os negros, sempre fazendo um som ritmado como se fossa uma oração, envolveram o corpo de Tobias em um pano branco e em procissão, levaram-no para a senzala.
Rosa Maria, chorando abatida, acompanhou-os.
A cena era triste.
Todos cantavam a Xangô pedindo justiça.
Pai Joaquim seguia ao lado de Rosa Maria para mostrar aos negros que ela também era inocente.
Ela, chorando pensava:
"Meu Deus do céu!
Como Maria Luísa pôde fazer uma coisa como essa?
Como pôde acreditar nessa mentira?
Pobre Tobias, morrer dessa maneira... inocente, sem nada ter feito.
E Rodolfo? Por que não nos ajudou?
Ele não pode ter acreditado em tudo isso, sabe que o amo..."
Continuou caminhando ao lado dos negros, sempre amparada por Serafina que dizia:
- Sinhazinha, num fica anssim.
Tudu passa na vida. Tudu si isclareci tumem.
Nois, desdi piquenu, aprende qui tudu tá certu na vida i que tudu tem um mutivu.
Xangô é u deus da justiça nessi momentu, seu machadu puderosu tá em cima da cabeça di tudos nóis.
Querdita na Virge Maria, mãe di Nossu Sinhô Jesuis Cristu.
Jesuis tumem foi injustiçadu, mais tinha um mutivu, percisava sarvá tudos nóis.
Si a sinhazinha tá passandu pur tudu issu, argum mutivu deve di tê, tumem.
"O que será que fiz de tão errado para merecer isso?
O que será de minha vida?
Como poderei continuar vivendo depois de tu isso?
Não tenho dinheiro para voltar para Portugal.
José receberá minha carta e ficará feliz com meu casamento, pensando que tudo está bem.
Estou perdida.
Mas o que mais me deixa desesperada é a atitude de Maria Luísa e Rodolfo.
Dom Carlos até tinha razão, foi muito bom para mim.
Por isso teve motivo.
Ele não me conhece, mas Maria Luísa e Rodolfo, não.
Eles me conhecem, sabem que jamais poderia ter feito aquilo."
Ela, pensando, foi caminhando.
Parecia que flutuava que estava sonhando.
Em seu rosto, a expressão de dor e sofrimento.
Serafina falava, mas ela não escutava tão absorta em se pensamentos.
Finalmente, chegaram à senzala.
Os negros colocaram o corpo de Tobias no chão.
Em frente à porta, havia um grande pátio, onde os negros faziam suas danças e oferendas aos deuses.
Crianças saíram, foram até o campo e trouxeram muitas flores.
Colocaram em volta do corpo de Tobias.
O som dos tambores fez-se ouvir.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:33 pm

As vozes entoavam um canto triste.
Pai Joaquim aproximou-se do corpo de Tobias, falando:
Vai, meu fio, voa agora
Cum a pena branca du amô
Vai pra j unto di Jesuis
Pruque a alma num tem co
Teus dia cá na terra
Hoje si cabô
Mais ocê, meu fio amado
Pra Cristo vortô
A mardade inté parece
Qui hoje ela venceu
Só o qui fica em nossa arma
É tudo qui si aprendeu
A justiça di Xangô
Um dia vai chegá
Seu machado certero
Na cabeça du mardoso
Tumém vai chegá
Pur isso, meu fio
Voa agora pra essa luiz
Pruque nu fim dela
Vai incuntrá Nosso Jesuis
Rosa Maria ouvia aquela prece feita em versos que saía da boca e do coração daquele preto velho que com certeza muita coisa já havia visto na vida.
À tarde daquele mesmo dia, os negros fizeram mais uma oração e, ao som dos tambores e das vozes, enterraram Tobias no alto de um morro.
Colocaram uma cruz que era vista de qualquer parte da fazenda.
Rosa Maria ficou sentada na porta da senzala, pensando:
"O que vou fazer?
Não tenho para onde ir.
Talvez daqui para frente seja tratada como escrava."
Rodolfo chegou a casa.
Estava tudo quieto.
Assim que desmontou, Josué correu para ele, dizendo:
- Sinhozinho, cunteceu uma disgraça.
- O que foi? Fale logo!
Josué contou com detalhes tudo o que acontecera.
À medida que falava, Rodolfo ia ficando branco e abismado.
Correu para dentro da casa, não havia ninguém na sala.
Bateu à porta do quarto de sua mãe.
Ela estava sentada na cama, chorando:
- Meu filho, onde esteve?
Procurei tanto por você.
Aconteceu uma desgraça.
Nossa família está destruída.
- Já soube.
Onde está Maria Luísa?
- Deve estar em seu quarto.
Quando terminou de fazer aquela coisa horrível, saiu correndo.
Não sei para onde foi.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:33 pm

Sinto muito, meu filho, mas não tive coragem de ir atrás dela.
Também corri para cá.
Foi tão triste.
Tudo isso está parecendo um pesadelo...
- E papai, onde está?
- Também não sei.
Rodolfo saiu, foi para o quarto de Maria Luísa.
Ela estava sentada em um canto do quarto, encolhida.
Nas mãos, ainda segurava a faca ensanguentada.
Rodolfo aproximou-se e, lentamente, tirou a faca de suas mãos.
- Maria Luísa, dê-me essa faca.
Estou aqui, irmã querida, e não vou abandoná-la.
Abraçou a irmã, que começou a chorar copiosamente.
- Rodolfo, não sei como consegui fazer aquilo.
Estou vendo Tobias em minha frente, os olhos dele no momento em que estava morrendo...
- Você ficou com ódio de tanta ingratidão.
Foi mais forte do que eu, que covardemente fugi para não tomar uma atitude.
Fique calma. Tudo dará certo.
Pedirei a papai que nos deixe viajar para Portugal ou outro lugar qualquer.
E Rosa Maria, sabe onde está?
- Não sei, nem quero saber!
Não me importa!
- Também não quero saber dela.
Foi a causadora de toda a nossa desgraça.
Eu a odeio por ter-me traído de forma tão horrível.
Naquela noite, não houve jantar.
Todos ficaram em seus quartos, cada um com seus pensamentos.
Dom Carlos ficou no escritório até o anoitecer.
Saiu, foi para a senzala, pensando:
"Meu trabalho ainda não está terminado."
Rosa Maria continuava sentada, calada, à porta da senzala.
As lágrimas haviam secado.
Sentia um profundo vazio.
"Tudo aconteceu tão de repente.
Ontem estava feliz, fazendo planos para meu casamento.
Hoje, toda essa desgraça!
Um inocente morreu, outra inocente transformou-se em assassina.
Eu perdi tudo: minha segurança, minha felicidade e meu amor."
Sentia-se como no tempo em que a febre atacou sua família.
Perdida da mesma forma, quando, se não fosse Maria Luísa, talvez não tivesse conseguido reagir.
"O que vou fazer agora?
Não tenho nem mais Maria Luísa.
Como ela foi acreditar em uma infâmia dessas?"
Ao lembrar-se de Maria Luísa e tudo que havia acontecido com sua família, começou a chorar novamente.
Absorta em seus pensamentos, não percebeu quando Dom Carlos chegou.
Ele se dirigiu até ela, falando:
- E então, ordinária?
Está contente agora com tudo o que fez acontecer?
- Nada fiz. Juro!
Ele a levantou com força.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 7:33 pm

Levou-a para o lado oposto em que estava sentada.
Lá havia um quartinho que era usado para prender os negros rebeldes.
Não tinha janelas, era um lugar abafado e malcheiroso.
Empurrou-a para dentro.
Não fechou a porta, porque, se fechasse, não conseguiria respirar.
No alto da parede havia um apetrecho feito de ferro em que era colocada uma vela.
Dom Carlos acendeu a vela e uma luz fraca iluminou aquele lugar imundo.
Desde que comprara a fazenda, esse lugar jamais havia sido usado.
No lado oposto ao da vela, havia uma argola presa com cordas penduradas.
Depois de acender a vela, ele levantou os braços de Rosa Maria e prendeu-a com a corda na argola.
Ficou pendurada somente com as pontas dos dedos dos pés no chão...
Rosa Maria chorava baixinho, pensando:
"Que será que ele vai fazer agora?”
Ainda tentou falar:
- Pelo amor de Deus! Nada fiz.
Alguém fez isso, só não sei quem e por quê...
- Sua cretina! Não sabe?
Pois eu sei!
Achou que eu tinha me esquecido de você?
De seu atrevimento em afrontar-me e humilhar-me daquela maneira na frente das pessoas?
Rosa Maria arregalou os olhos.
- O senhor? Não posso acreditar.
Por que não falou que me havia reconhecido?
- Achou que eu permitiria que contasse a minha família aquela cena?
Achou também que eu permitiria que se casasse com meu filho?
Que estragasse a vida dele?
- Não acredito que por causa de seu ódio um inocente morreu.
Sua filha transformou-se em uma assassina.
Seu filho deve estar sofrendo muito.
E o que vai fazer comigo?
Matar-me também?
- Minha filha não é assassina, porque não matou um ser humano, matou um negro simplesmente!
Meu filho irá reagir e casar-se com a filha de meu amigo, que é muito rico!
Nossa fortuna aumentará.
Logo tudo isto será esquecido.
Quanto a você, tenho um plano.
Creio que gostará!
Quando terminou de falar, começou a rasgar a camisola com a qual ela estava vestida.
Ela começou a gritar e a retorcer-se.
- Não faça isso!
Por favor! Socorro! Socorro!
Os negros lá fora ouviam tudo, mas não podiam fazer nada, Malaquias, com uma espingarda nas mãos, olhava para eles em atitude de ameaça, falando:
- Qualquer negro que tentar alguma coisa será fuzilado aqui mesmo!
O patrão pode fazer o que quiser!
Rosa Maria gritou desesperada, tentando livrar-se das cordas, mas foi inútil.
Em poucos minutos estava nua.
Ele estava como louco, enquanto batia nela e acariciava-a.
- Sempre achei você bonitinha e desejável...
Agora, vou matar minha curiosidade...
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:24 pm

Começou a abrir as calças.
Ela percebeu qual era sua intenção.
- Não, por favor!
Não faça isso!
Sou virgem e amo seu filho.
Ele deu uma bofetada em seu rosto, falando:
- Virgem? Ah ah ah!
Em poucos minutos, não será mais.
Quanto a meu filho, ele não a quer mais, mas eu quero!
Como um animal, abriu as pernas dela e a possuiu violentamente.
Enquanto penetrava, ia batendo em seu rosto, em seu corpo.
Ela gritava de dor.
O sangue escorria por suas pernas e rosto.
Ele continuava gargalhando.
Quando terminou, ajeitou as calças e gritou da porta do quarto:
- Malaquias, venha cá!
Malaquias, abismado com tudo o que presenciou, atendeu o chamado de seu patrão.
Colocou-se à frente de Dom Carlos, como um fiel súbdito.
- Quero que pegue essa ordinária, leve-a para o mato, bem longe daqui.
Abra uma cova e enterre-a.
Se quiser, pode usá-la antes.
- Ela está morta, senhor?
- Não. Mas não importa.
Faça o que mandei e não se atreva a desobedecer-me!
Rosa Maria chorava desesperada, com vergonha e dor pelo corpo todo.
Ao ouvir as ordens dele, ficou ainda mais apavorada, mas sabia que era inútil falar qualquer coisa.
Conhecia Malaquias, sabia que ele cumpriria à risca as ordens do patrão.
Pensou:
"Só me resta mesmo morrer.
Assim, irei embora para junto de meus pais e de meu irmão.
Todo esse sofrimento terminará.
Nada poderá ser mais terrível do que o que aconteceu aqui.
Meu Deus, por favor, permita que eu morra."
Dom Carlos montou no cavalo e partiu.
Malaquias entrou no quarto, viu Rosa Maria nua, sangrando.
Serafina entrou logo depois dele.
- Meu Xangô! Meu Jesuis Cristo!
Sinhazinha, qui ele feiz cum a sinhazinha?
Malaquias desamarrou as mãos de Rosa Maria.
Ela caiu no chão.
Serafina pegou a camisola que estava no chão e começou a vesti-la com cuidado, porque ela gemia a qualquer movimento, enquanto a vestia, falava:
- Seu Malaquia, u sinhó num vai fazê u qui ele mandô.
Oia u istado dessa minina.
Já sufreu muito.
Ieu sei qui u sinhó sabe qui ela é inucente.
- Fique calada, negra!
Sabe também que tenho ordens para cumprir!
Dom Carlos é meu patrão.
Não tenho nada a ver com o que ele faz.
Só tenho que cumprir ordens e vou cumprir!
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:24 pm

- Já penso si fossi a sua fia?
- Não pensei nem quero pensar!
Termine logo seu trabalho, preciso terminar o meu!
Serafina retardou o mais que pôde, mas teve que terminar de colocar a camisola em Rosa Maria.
Malaquias pegou-a e colocou-a no cavalo.
Montou e saiu galopando.
Serafina e os negros todos se ajoelharam e começaram a rezar.
Serafina falava:
- Meu Nosso Sinhô Jesuis Cristo, jude essa minina.
Malaquias, seguro de si, enquanto galopava, ia pensando:
"Não acredito que ele teve coragem de fazer isso.
Pensei que seria só para incriminá-la e acabar com o casamento, mas aquilo que ele fez... nunca pude imaginar.
Estuprar a menina com tanta violência?
E, agora, matá-la?
Isso tudo está indo longe demais, mas nada posso fazer, preciso cumprir ordens.
Ele é poderoso.
Se não for obedecido, ficará furioso, poderá mandar-me embora ou se vingar em minha família.
O certo é cumprir a ordem e aceitar a proposta que ele me fez.
Com o dinheiro que me prometeu, poderei ir embora e esquecer tudo isso."
Com o galopar do cavalo, o corpo de Rosa Maria doía muito, mas ela não conseguia mais chorar.
Não queria reagir, só queria morrer.
Depois de cavalgar por muito tempo, Malaquias entrou na mata e desceu Rosa Maria, que estava deitada sobre a sela do cavalo.
Pegou uma enxada que também estava sobre a sela e começou a cavar um buraco.
Ela percebeu o que ia acontecer, mas nada fez, seu corpo doía, além do mais estava muito fraca, havia passado o dia todo sem comer.
Só conseguia pensar:
"Não quero mais viver... só quero morrer... perdi tudo... até Maria Luísa... vou para junto dos meus..."
Muito fraca, sem perceber, adormeceu.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:24 pm

ENCONTRANDO O CÉU
Rosa Maria estava novamente sobre a pedra, com o vestido rosa, rodeada de flores e frutas que eram servidas por aquelas pessoas.
Olhou para as águas.
Sabia que ele estava lá, e ele estava.
Trazia nas mãos um lindo ramalhete de rosas brancas.
Vinha sorrindo, bonito como sempre.
Ela o conhecia. Olhou para o lado.
Sabia que, como sempre, Dom Carlos apareceria e estragaria seu sonho, mas desta vez ele não estava lá.
O moço falou:
- Luana, querida. Você está linda!
Olhe a luz que sai de seu corpo.
Voltará para mim e nunca mais a deixarei ir embora.
Ela se olhou e, realmente, de seu corpo saía muita luz.
Olhou para ele e falou:
- Felipe! Você é Felipe!
Oh, meu amor! Como não o reconheci antes?
Quero ficar com você para sempre.
Não quero mais voltar. Amo-o.
Agora sei que o amo e que meu lugar é aqui a seu lado.
Não sei de mais nada.
Só sei que o amo.
Ele falou algo, mas ela não entendeu.
Abriu os olhos. O dia estava raiando.
O sol estava nascendo.
Olhou para todos os lados, só havia mato à sua volta.
Em seu corpo, viu o sangue preto.
Mexeu por todo o corpo.
"Não estou morta?”
A sua frente, o buraco e a enxada.
“Malaquias não teve coragem de matar-me.
Mas por que não, meu Deus? Quero morrer!
Quero ir para junto de Felipe, para aquele lugar maravilhoso."
Tornou a olhar para os lados.
Só árvores e muito mato.
"Como sairei daqui?"
Escutou um barulho de água.
Levantou-se. O corpo doía.
Andou. Foi quase se arrastando em direcção ao barulho.
"Se for um rio, vou jogar-me e morrer afogada.
Não quero mais viver..."
Chegou perto da água.
Era um riozinho pequeno.
"E muito raso.
Aqui não dá para eu me afogar..."
Com as mãos, lavou o rosto e os braços.
Aquela água gelada trouxe-a para a realidade.
Bebeu um pouco. Lembrou-se do vidente.
"Tudo o que ele disse se realizou.
A dor, o sofrimento, a traição, tudo.
Eu quis morrer, mas Deus não deixou.
Sairei daqui.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:25 pm

Voltarei à fazenda e matarei aquele canalha!
Vingar-me-ei de todo o mal que fez para mim, Tobias e Rodolfo, mas principalmente para Maria Luísa!
O ódio será minha força! Não morrerei!
Encontrarei um caminho para sair daqui.
Aquele canalha vai pagar tudo o que fez!
Xangô, já que os negros dizem que é o deus da justiça, tenho certeza de que me dará forças."
O céu estava azul, o dia lindo e brilhante.
Ela entrou na água com roupa e tudo.
A água estava gelada.
Sentia muito frio, pois estava vestida só com a camisola rasgada.
"Serafina colocou esta camisola com tanto carinho.
Não conseguiu vestir-me direito.
Não teve tempo para colocar as botas.
Tenho certeza de que está rezando por mim.
Continue rezando, minha amiga, pedindo a seu deus Xangô para que me ajude.
Ele vai ajudar-me. Vou fazer justiça!"
Aquela água fria lhe fez bem.
O choque fez seus músculos e nervos enrijecerem.
Ficou lá por algum tempo.
Lembrou-se de Felipe:
"Quem será ele? Fiquei feliz ao revê-lo.
Sei agora seu nome, mas quem será?
Por que me chamou de Luana?"
Lavou-se, conseguiu tirar todo o sangue preto da camisola, do corpo e dos cabelos.
Sentia muita dor por todo o corpo.
A dor entre as pernas era terrível.
Levantou a camisola, viu que estava sem roupa de baixo.
Com horror, relembrou aquele momento:
"Aquele animal! Como o odeio!
Eu o matarei! Juro por todos os deuses.
Eu o matarei!
Lentamente saiu da água, tirou a camisola, que, por ser grande, ficou pesada.
Torceu-a o mais que pôde.
Percebeu que estava descalça.
"Como poderei andar sem sapatos?
Deve haver muitos espinhos e galhos soltos."
Olhou novamente em volta.
Havia muitas bananeiras à margem do rio.
Pegou várias folhas.
Com os dentes, conseguiu rasgar um pedaço da camisola e, depois, rasgou-a, tirando duas tiras.
Enrolou as folhas nos pés, depois amarrou com as tiras da camisola, improvisando um sapato.
Estava com fome.
Tornou a olhar ao redor.
Viu algumas bananas que estavam maduras no cacho.
Perto da água, havia umas frutinhas vermelhas.
Não as conhecia, mas pareciam morangos.
Experimentou. Tinham um sabor bom.
Colheu e comeu várias dessas frutas e algumas bananas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:25 pm

Sentiu-se forte.
Malaquias deixou a enxada e a pá.
Com a pá, foi cortando o mato, abrindo caminho.
Seguindo o curso do rio, foi caminhando.
Os galhos cortavam seu rosto, braços e pernas.
As folhas dos pés esquentaram, seus pés começaram a doer.
A fome voltou.
Não sabia quanto havia andado, não sabia as horas.
O sol estava alto.
"Deve ser quase meio-dia, por isso estou cansada e com fome.
Vou parar um pouco."
Sentou-se novamente na margem do rio.
Tirou as folhas dos pés.
O pano que usara estava rasgado.
Colocou os pés novamente na água, lavou o sangue que escorria dos arranhões dos galhos.
Rasgou outro pedaço da camisola.
Pegou mais folhas e tornou a enrolar os pés.
Comeu mais alguns morangos e bananas.
Sentiu-se fraca.
"Não vou conseguir. Estou perdida..."
Deitou-se na grama. Lembrou-se de tudo.
Novamente, sentiu ódio.
Levantou-se e continuou andando.
Andou muito. Os pés começaram a doer novamente.
Estava cansada. Olhou à volta.
"Não vou conseguir sair desta mata.
Não! Deus não vai permitir que isso aconteça.
Não quero morrer.
Preciso viver para poder matar aquele monstro!"
Novamente o ódio tomou conta dela.
Levantou-se, continuou andando.
Viu do outro lado do rio uma carroça de boi conduzida por um homem.
Começou a gritar, mas ele não ouviu.
Levantou a camisola e atravessou o rio, que era raso.
Foi andando em direcção no local em que viu a carroça.
Subiu um morro alto.
Quando chegou ao topo, a carroça não estava mais ali.
Anoitecia. O sol começava a se pôr.
Ela notou que estava em uma estrada.
"Por aqui devem passar cavaleiros.
Esta estrada vai dar em algum lugar.
Vou segui-la."
Os pés e o corpo doíam. Estava toda machucada.
Mas o ódio fazia com que não parasse de caminhar:
"Conseguirei. Conseguirei!"
Continuou andando pela estrada.
O sol estava baixando.
Ela sabia que iria escurecer em pouco tempo.
"Oh, meu Deus!
Como vou ficar aqui sozinha nesta estrada?
No escuro... Com toda essa dor e fome..."
Continuou quase se arrastando.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:25 pm

Mesmo o ódio não conseguia fazer seu corpo resistir.
Caiu na estrada. Desfaleceu.
O sol estava quase desaparecendo.
Ficou ali deitada, inconsciente.
Acordou. Não estava mais na estrada.
O lugar em que estava era bastante colorido.
"Que lugar é este? Será que morri?
E esse violino que está tocando essa música suave e linda...”
- Graças a Deus estou morta - disse em voz alta.
- Não morreu, não.
Aqui, embora pareça, ainda não é o céu.
Olhou para o lado de onde vinha a voz.
Uma cortina estava aberta.
Por ela, entrou uma mulher, trazendo nas mãos uma bandeja com frutas, pães e chá.
O aroma do chá era agradável.
- Bom dia.
Meu nome é Zara, você está em nosso acampamento.
Somos ciganos.
Rosa Maria assustou-se.
Ciganos? Sempre teve medo dos ciganos.
Quando pequena, sua mãe dizia para ficar longe deles, pois roubavam crianças.
- Como vim parar aqui?
- Foi encontrada desfalecida por Sergei quando ele foi à vila buscar mantimentos e voltava com a carroça.
Quando a viu, pegou a, colocou-a na carroça e trouxe-a para cá.
O que lhe aconteceu?
Como chegou àquela estrada?
Está muito machucada.
Quando quiser e se quiser, pode me contar tudo.
Por enquanto, vai comer um pouco e beber este chá.
Depois, vou com você até o rio.
Vai tomar um banho e colocar estas roupas.
Com esses seus cabelos pretos, vai até parecer uma cigana.
Zara deu uma gargalhada, oferecendo um cacho de uvas para Rosa Maria.
Rosa Maria sentiu-se bem como há muito tempo não se sentia.
- Qual é seu nome?
- Rosa Maria.
Estou com dor no corpo e nos pés.
Por outro lado, não sei porquê, sinto-me segura e protegida.
- E está mesmo.
Aqui nada de mal vai lhe acontecer.
Depois, vai conhecer os outros, mas, agora, coma.
Rosa Maria comeu as frutas e tomou chá.
Ficou satisfeita.
- Obrigada.
Foi Deus quem me encaminhou até aqui.
- Ele sempre está presente em nossas vidas.
Também agradeço por nos ter enviado você.
Agora, vai tomar um banho e lavar esses cabelos.
Está horrível!
Rosa Maria lembrou-se do dia em que Maria Luísa falou aquelas mesmas palavras, quando estava deitada, sofrendo pela morte de seus pais e de Tadeu.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:25 pm

Começou a chorar.
- Por que está chorando?
- Fez-me lembrar de uma amiga muito querida que um dia me falou essas mesmas palavras.
- Lembrar-se de amigos é sempre muito bom.
Dizendo isso, Zara abriu um baú, tirou uma blusa branca com um grande babado e rendas nas pontas.
As mangas eram largas.
Tirou também uma saia rodada com uma estampa colorida, sobressaindo o azul.
- Vamos até o rio?
Rosa Maria deixou-se levar por aquela estranha que a tratava com tanto carinho.
Saiu da tenda.
Lá fora havia uma fogueira com um caldeirão no centro, seguro por um pedaço de ferro.
Em volta da fogueira, havia tendas e atrás de cada tenda uma carroça enfeitada e colorida.
O aroma que saía do caldeirão era muito bom.
Crianças corriam brincando.
Uma senhora alimentava o fogo.
Um homem bonito tocava violino, moças e rapazes dançavam.
Parecia uma festa.
Todos vestidos com roupas coloridas.
A alegria parecia ter ali seu endereço.
Zara pegou-a pela mão, levou-a até o centro da roda e disse:
- Esta é Rosa Maria.
Vai ficar por algum tempo connosco.
Todos olharam sorrindo para ela, mas não pararam de fazer suas actividades.
Zara apontou para o homem que tocava o violino, falando:
- Aquele é Sergei, meu marido e quem a salvou.
Ela, timidamente, sorriu para ele, no que foi retribuída.
Zara pegou-a pela mão e foi conduzindo-a até o rio.
Rosa Maria estava encantada com todas aquelas cores e toda a alegria que sentia naquelas pessoas.
Todas abanavam as mãos, sorrindo.
No rio, ajudada por Zara, tirou as roupas rasgadas, banhou-se e lavou os cabelos.
Colocou as roupas que Zara lhe oferecia.
Sentou-se na margem.
Zara começou a pentear seus cabelos.
Sentia ainda muita dor por todo o corpo.
Seus pés feridos doíam.
Em volta de seus olhos havia uma imensa mancha preta, resultado das bofetadas que levara.
Tudo doía, mas agora sabia que estava bem e entre amigos.
- Está muito machucada.
Seu corpo deve estar doendo.
Mas muito mais doente deve estar sua alma.
Rosa Maria virou a cabeça para trás e disse:
- Por que está dizendo isso?
- O povo cigano vive de um lado para outro, é perseguido desde o começo dos tempos por querer ser livre e poder fazer o que quer.
Muita coisa se diz a nosso respeito, que roubamos crianças e o dinheiro.
Nem tudo que se ouve é verdade.
Somos livres, sim.
Gostamos de danças, cores e de muita alegria.
Já percorremos quase todo este país.
Quando nos cansarmos, iremos para outro.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:26 pm

Não temos pátria porque o mundo todo é nosso.
Por sermos livres de convenções e costumes, as pessoas não nos aceitam.
Por isso, vivemos separados e com nossas leis e costumes.
Dizem que lemos cartas e mãos, isso é verdade.
Quer ver? Dê-me sua mão esquerda.
Vejo aqui que você foi surrada e está toda machucada.
Seu corpo e alma estão feridos.
Seu corpo, com o passar dos dias, vai sarar, mas sua alma levará muito tempo e talvez nunca se cure.
O amor e o ódio andam juntos.
O amor dá-nos o sentimento de paz e tranquilidade.
Quando amamos, não enxergamos nada.
Vivemos quase voando, só pensando em nosso amor e em nossa felicidade.
Por isso, ficamos fracos, por não acreditarmos que a maldade existe.
Quando odiamos, uma força grande toma conta de todos os nossos sentidos.
Por amor podemos morrer, por ódio podemos matar.
Precisamos desses dois sentimentos para sobreviver, porém devem ser dosados.
Nem tudo pode ser amor, nem tudo pode ser ódio.
O ideal é vivermos a realidade.
Você deve ter amado muito, por isso sofreu.
Deve ter odiado muito, por isso sobreviveu.
Rosa Maria escutava-a com atenção e, em silêncio, pensava:
"Como pode saber de tudo isso?"
Quando Zara terminou de falar, voltou a pentear os cabelos de Rosa Maria.
- Estou muito grata por estar aqui.
Meu mundo não tem essas cores, essa alegria, nem toda essa liberdade.
Amei muito, sim, e por isso sofri, mas também odiei e odeio ainda.
Meu corpo dói muito, mas, como a senhora disse, dói mais meu coração, minha alma.
Só vão sarar quando conseguir vingar-me.
- Se quiser, pode contar-me o que aconteceu, mas só se quiser.
Está aqui e ficará até quando desejar.
Nada que me contar vai mudar isso.
Rosa Maria encostou o rosto no peito de Zara.
Sentia tanto carinho, tanta protecção....
Começou a chorar baixinho.
Fechou os olhos e contou tudo, desde o início em Portugal.
Seus pais, a febre e o encontro com Maria Luísa, Rodolfo e Dom Carlos.
Quando terminou, chorava muito.
Zara olhou em seus olhos e disse:
- Agora, pare de chorar.
Tenho certeza de que está aliviada.
O que pretende fazer?
- Vou sarar! Essas feridas vão desaparecer!
Se permitir, ficarei um pouco de tempo aqui com vocês, até ficar completamente curada e forte novamente.
Aí, voltarei e matarei aquele canalha!
- Hoje, tem razão e motivo para estar assim.
Enquanto estiver ferida e fraca e, enquanto quiser, ficará aqui.
Por enquanto, vamos voltar ao acampamento.
Quero apresentar-lhe os outros ciganos.
Rosa Maria se levantou apoiada por Zara.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:26 pm

Olhou para suas roupas e disse, com um sorriso:
- Estas roupas são muito bonitas!
Estou sentindo-me linda!
Zara sorriu, deixou os cabelos de Rosa Maria soltos e caídos pelas costas para que secassem.
Estavam molhados, mas muito bem penteados.
Voltaram para o acampamento.
Rosa Maria, sempre apoiada por Zara, que a conduzia carinhosamente.
A música continuava, agora mais um rapaz tocava em um instrumento que parecia uma sanfona, só que menor.
Os outros dançavam.
A música, ora lenta, ora rápida, fazia com que a dança também fosse assim.
As moças dançavam, rindo.
Algumas tinham nas mãos um pequeno pandeiro enfeitado com fitas coloridas.
Tudo lá era alegria.
Quando chegaram, Zara parou no meio da roda.
A música cessou.
Ela disse:
- Já sabem que esta é Rosa Maria e que foi encontrada por Sergei.
Precisa de nossa ajuda e terá.
Não quero que ninguém faça perguntas.
Ela não falará nada que não desejar.
Ficará aqui o tempo que quiser e que precisar.
Durante esse tempo, será uma de nós.
A um sinal dela, a música voltou a tocar.
Começou a dançar no que foi acompanhada pelos outros ciganos.
Rosa Maria afastou-se e ficou olhando, encantada.
Sentou-se no chão, igual a algum deles que estavam sentados.
Começou a bater palmas e a sorrir seguindo o ritmo da música.
Pensava:
"Esse povo é realmente feliz..."
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:26 pm

NOTÍCIA INDESEJADA
Ela continuou ali, percorrendo, com os olhos, todo o acampamento.
Crianças e adultos pareciam viver em perfeita ordem e felicidade.
Olhou para Sergei.
Ele também a olhava.
Os acordes da música aumentaram.
Parecia que a música tomava conta do acampamento.
Ele fechou os olhos e começou a tocar uma música suave e agradável.
De seus olhos, corriam lágrimas.
Zara aproximou-se e abraçou-o, mas ficou calada ouvindo a música, com lágrimas também.
Rosa Maria não viu que estavam chorando.
Ela, de olhos fechados, ouvia a música, que a transportou para junto dele, Felipe.
"Quem será Felipe e que lugar é aquele?
Ele é muito bonito, sei que o amo, mas como pode ser?
Amo Rodolfo. Rodolfo, meu amor, como pôde acreditar em uma mentira como aquela?"
A música parou. Todos estavam cansados.
Algumas mulheres que não estavam dançando ofereciam suco de frutas aos dançarinos.
- Quero que todos se apresentem à nossa convidada. - Zara disse, sorrindo e abraçando Rosa Maria.
Rapazes, moças, homens, mulheres e crianças foram passando por ela, fazendo uma reverência e dizendo seus nomes, sempre sorrindo.
Por último, o homem que estava tocando.
- Meu nome é Sergei.
Sou o rei dos ciganos.
Esta é Zara, minha esposa, que você já conhece.
Encontrei você e estou feliz que esteja bem.
Rosa Maria, sorrindo, falou:
- Muito obrigada.
Se não tivesse me encontrado, talvez estivesse morta agora.
Zara, que estava ao lado, disse:
- Olhe Sergei, como ela ficou linda nessas roupas!
Não parece uma cigana?
- Muito linda mesmo e parece, sim, uma cigana!
Agora, vamos ao trabalho.
Música e dança, só à noite.
Cada um saiu para um lado.
Algumas mulheres foram para teares, nos quais confeccionavam belos tapetes.
Os homens faziam panelas e canecas de cobre.
Rosa Maria perguntou a Zara:
- Para que fazem essas coisas?
- Tudo o que é feito no acampamento é levado ao povoado por Sergei e alguns ciganos.
Vendem ou trocam por alimentos e mercadorias.
Não quer aprender a usar um pequeno tear?
- Eu sei usar.
Meu pai criava ovelhas.
- Óptimo. Se quiser, pode começar.
Ela fez que sim com a cabeça.
Tentou levantar-se, mas sentiu tontura e foi obrigada a segurar-se em Zara, que falou:
- Ainda está muito fraca e machucada.
É melhor deitar-se.
Vou levá-la para dentro da tenda.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:26 pm

- Obrigada, realmente não estou bem.
Zara colocou a mão em sua testa.
- Está com febre.
Vá deitar-se, vou preparar um chá de ervas para combater qualquer inflamação.
Vai ficar boa.
- Tenho certeza de que sim.
Não vou morrer antes de matar aquele monstro!
Deitou-se. Sentia muito frio.
Zara saiu, mas logo depois voltou trazendo uma caneca com chá.
- Beba este chá.
Vai dormir por um bom tempo.
Logo estará bem.
Rosa Maria tomou o chá e, em seguida, adormeceu.
Zara saiu da tenda e foi para perto de Sergei.
- Ela está com muita febre.
As feridas das pernas e dos pés estão inflamadas.
Dei um chá para baixar a febre e vou pedir Zoraide que cuide das feridas.
- Faça isso.
Parece que ela sofreu muito, Zara.
- Você nem pode imaginar o quanto, Sergei.
Zara fez uma pausa e perguntou:
- Notou o mesmo que eu?
- Sim. Quando a encontrei desfalecida no meio da estrada, me pareceu ver Tâmara.
São muito parecidas.
Talvez tenham a mesma idade.
Com as roupas dela, ficou mais parecida ainda.
- Também achei.
Talvez por isso tenha me afeiçoado tanto a ela.
- Zara, cuide dela, mas não se apegue demais.
Não é nossa filha. Nem cigana.
A qualquer momento vai querer ir embora.
Não poderemos impedir.
Como não conseguimos impedir a morte de nossa querida filha.
Calaram-se, mas lembraram-se com muita dor e saudade da filha que morrera tão cedo, vítima de uma doença desconhecida para eles.
A doença começara com uma tosse seca, depois a menina começou a cuspir sangue.
Deram ervas, chá e levaram-na até um médico dos gagis, mas não adiantou.
Foi definhando até morrer.
Todo o acampamento sofreu muito, pois ela era amável, delicada e muito alegre.
Todos a amavam.
Eles sabiam que ela tinha ido para junto dos antepassados, nas asas de um grande pássaro branco.
- Zara, onde está aquele colar de ouro e pedras preciosas que vem passando de geração a geração, de mãe para filha?
- Aquele que seria de Tâmara?
Está guardado.
Darei talvez para uma neta.
Nosso Igor em breve irá se casar com Zilca, terá uma filha.
Darei a ela.
Parou de falar e foi procurar Zoraide.
Ela conhecia plantas, ervas, poções e unguentos para cura de qualquer coisa.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:27 pm

- Zoraide preciso que cuide dessa moça.
Está muito ferida.
- Pode deixar. Vou lá ver como ela está.
Zara, você notou a semelhança dela com Tâmara?
- Sim, chamou-me a atenção.
Mas é só semelhança.
Ela não é Tâmara, nem cigana.
- Tem razão.
Cuidaram de Rosa Maria por vários dias.
Aos poucos, as feridas foram sarando.
A febre baixou.
Ganhou de outras ciganas muitas roupas bonitas e coloridas.
Estava bem com os ciganos.
Aprendia suas danças e músicas.
Aprendia a tecer belos tapetes.
Vivia tranquila, até lembrar-se de Dom Carlos.
Nesses momentos, seu rosto mudava de expressão.
Pensava:
"Preciso ficar bem forte para poder enfrentá-lo.
Se for agora, irá destruir-me novamente.
Preciso de um plano".
Foi falar com Sergei e Zara.
- Vocês conhecem a Fazenda Maria Luísa?
Sergei pensou um pouco, olhou para Zara e respondeu:
- Não, nunca ouvi falar.
Onde fica? Em que lugar?
- Não sei. Só sei que por ela passa um rio.
O dia que saí de lá, cavalguei muito tempo, mas não sei quanto.
- Não conheço. Nunca ouvi falar, mas com certeza qualquer dia desses passaremos por ela.
Os dias foram se sucedendo.
Rosa Maria estava com os ciganos havia mais de um mês.
Sentia-se cada vez mais forte saudável.
Naquela manhã, levantou-se, saiu da tenda e encaminhava se para a fogueira quando sentiu uma tontura.
Parecia que seu estômago queria explodir.
Deu alguns passos.
Uma cigana segurou-a, evitando que caísse. Zara estava do outro lado.
Viu Rosa Maria, pálida, ser amparada pela cigana.
Correu para lá.
- O que está sentindo, Rosa Maria?
Que aconteceu?
- Não sei Zara.
Fiquei tonta de repente.
Estou suando com as pernas fracas.
Tenho vontade de vomitar.
Zoraide, que também estava perto, olhou para Zara, mas não disse nada.
Ajudou a segurar Rosa Maria e disse:
- Venha, coma uma carambola.
É uma fruta azeda, vai ajudar.
Se quiser vomitar, não há problema.
Isso não é nada, logo passará ficará bem.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:27 pm

Realmente, logo depois Rosa Maria estava perfeitamente bem.
Foi ajudar as ciganas com os tapetes.
Na hora do almoço, comeu muito bem do coelho que foi assado em um espeto sobre as brasas da fogueira.
Durante a refeição, Sergei disse:
- Já estamos há muito tempo aqui.
Amanhã iremos embora.
- Para onde, meu pai?
- Igor, meu filho, ainda não aprendeu?
Um cigano nunca sabe para onde vai.
Ele simplesmente vai para onde o destino levar.
Todos riram, pois sabiam que era assim mesmo.
Rosa Maria pensava:
"Sei que a fazenda fica por aqui.
Não deve ser muito longe, mas ainda é muito cedo para voltar.
Tenho que planear meu retomo.
Voltarei para desmascarar aquele monstro perante todos, principalmente para Maria Luísa e Rodolfo.
Vou embora com Zara e Sergei, mas um dia voltarei".
Durante alguns dias continuou sentindo-se mal pela manhã e, às vezes, na hora do almoço.
Num desses dias, após passar mal, estava comendo uma carambola.
Falou para Zara, que ficava sempre a seu lado nessas horas:
- Zara, que doença estranha é essa que me ataca todos os dias pela manhã?
Estou ficando preocupada, embora o resto do dia eu passe muito bem e tenha muita fome.
- Não se preocupe esse enjoo logo vai passar.
Ficará bem.
- Como sabe?
Por que estou sentindo-me tão mal?
- Porque já passei por isso.
Vai comer muito porque tem que comer por dois.
Rosa Maria não podia nem queria acreditar naquilo que estava ouvindo.
- Que está querendo dizer, Zara?
- Não estou querendo.
Estou dizendo.
Você vai ser mamãe...
Logo chegará um ciganinho.
Ou uma ciganinha...
Rosa Maria arregalou os olhos e gritou, chamando a atenção de todos.
- Não pode ser Zara!
Você deve estar enganada.
Isso seria terrível demais!
Deus não permitiria que isso acontecesse!
- Não estou enganada, Rosa Maria.
Já há vários dias eu e Zoraide sabemos.
Você está esperando um filho.
Se Deus está permitindo, é porque está escrito nas cartas e em seu destino.
- Você sabe quem é o pai!
Não posso aceitar!
Não vou querer esse filho!
Não quero. Não quero!
Enquanto falava, chorava copiosamente.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:27 pm

- Como não pode Rosa Maria?
Ele não tem culpa de nada.
Vai tê-lo e com certeza vai amá-lo muito.
Um filho é a coisa mais importante em nossa vida.
Só quando se perde é que se dá o justo valor.
Terá esse filho.
Se não o quiser, ficarei com ele.
Não importa quem é o pai.
Ele está dentro de você.
É seu. Deus lhe deu.
- Não posso. Não posso!
Eu odeio aquele homem!
Vou matá-lo.
- Está bem. Se quiser matá-lo, é problema seu.
Mas a criança não tem nenhuma culpa.
Se não a quiser, repito, ficará comigo.
Eu a criarei com todo o amor.
Depois daquele dia, Rosa Maria caiu em profunda depressão.
Não quis fazer mais nada.
Quase não falava, vivia triste.
Sua barriga começou a aparecer.
Triste, pensava:
"Não quero essa criança!
Quando nascer, vou dá-la para Zara e irei embora.
Vou descobrir onde fica a fazenda e vou matar aquele miserável!
Um dia, Zara falou-lhe:
- Está tendo uma gravidez muito boa, Rosa Maria.
Sua criança será forte e saudável.
Não tem mais jeito:
querendo ou não, ela nascerá.
Já que não pode mudar a situação, aceite-a.
Se não puder com o inimigo, una-se a ele.
- Tem razão, Zara.
Já que não posso evitar, vou ter este filho com alegria, porque estou gerando-o para você.
Será seu e irei embora cumprir meu destino.
- O destino nem sempre é do modo que queremos.
Vamos para fora.
Sergei está tocando aquela música de que você tanto gosta.
Que tal dançarmos?
Abraçaram-se.
Quando os dois corpos se tocaram, a barriga de Rosa Maria deu um pequeno tremor.
As duas sentiram começaram a rir.
Rosa Maria disse:
- Ele concordou com nosso acordo, Zara.
Saíram da tenda e começaram a dançar.
Rosa Maria esta linda, vestida de cigana.
Os meses seguintes transcorreram normalmente.
Agora, Rosa Maria participava novamente da vida do acampamento.
Pensava:
"Zara quer tanto este bebé.
Vou tê-lo para ela, mas detesto essa criança!
Deus colocou-a em minha barriga, mas não vou nem olhar para ela!"
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 7:27 pm

O tempo passou.
Estava agora no Nordeste brasileiro, Pernambuco.
Naquela manhã, Rosa Maria acordou como todos os dias.
Sentiu uma dor nas costas, mas não deu importância.
Saiu da tenda, comeu frutas e tomou seu chá.
A mesa, disse a Zara e Zoraide que a dor havia aumentado.
As duas imediatamente levaram Rosa Maria para junto do rio, deitaram-na e ficaram esperando.
A dor aumentando.
Zoraide era a parteira do acampamento.
Examina Rosa Maria a todo instante.
Depois de algum tempo, disse:
- Chegou a hora.
As duas colocaram Rosa Maria de cócoras.
A dor aumentou muito.
Ela fez muita força, até que com a ajuda das duas a criança nasceu.
Zoraide colocou-a no peito de Rosa Maria e disse com lágrimas nos olhos:
- É um menino, Rosa Maria!
Um lindo menino!
Rosa Maria virou o rosto.
Zara disse:
- Olhe para ele, Rosa Maria!
Não custa nada, mas lembre-se.
Prometeu. Ele é meu!
Ela olhou para aquele rostinho.
Estava vermelho, mas tinha cabelos pretos como os dela.
Chorava com muita força.
Por um momento, ele abriu os olhos e olhou para ela.
O coração de Rosa Maria se encheu de emoção.
Lágrimas vieram a seus olhos.
Olhou para Zara dizendo:
- Sinto muito, mas não posso dá-lo.
É meu, e eu o amo...
- Sei que é seu, minha filha. Sempre soube.
Deus a abençoe por este momento.
Ele será um grande homem.
Teremos muito orgulho dele.
Sim, porque embora não o esteja me dando, considero-me sua mãe também.
- E é, pode ter certeza de que é.
Ele só nasceu por sua vontade.
Obrigada por mim e por ele...
Enquanto Zoraide cuidava de Rosa Maria, Zara banhava o menino nas águas do rio.
- Qual vai ser o nome dele, Rosa Maria?
Rosa Maria olhou para o bebé.
Zara estava perguntando com ele dentro da água.
Rosa Maria lembrou-se de Felipe saindo das águas, sorrindo.
Sem saber por quê, desviou os olhos.
Lá estava ele, seu Felipe.
Como sempre, estava lá, sorrindo feliz, dando a ela um ramalhete de rosas.
Desta vez, ela estava acordada, não era sonho.
Ela o via. Ele ria muito.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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