QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 11, 2017 7:16 pm

UM ANJO ENVIADO PELO CÉU
No dia seguinte, logo cedo, os negros fizeram uma grande fila.
Todos queriam as cartas de alforria.
Rodolfo recebeu um por vez.
Não perguntou nada, só o nome da cada um.
Fazia a carta e a entregava.
Era mais ou menos meio-dia, quando terminou.
Espreguiçou-se quando se levantou, pois ficara muito tempo sentado.
Saiu do escritório. Estava feliz.
Havia cortado a barba, dera um jeito nos cabelos e colocara uma roupa nova que há muito tempo estava no guarda-roupa.
Só estava preocupado com a plantação.
Sem os negros, não sabia como seria, mas tinha que dar a liberdade a todos.
Precisaria de pessoas.
Talvez fosse até a vila, contratar imigrantes que estavam chegando da Europa.
Chamou Serafina e disse:
- Está muito calor.
Por favor, faça um refresco e leve até a varanda.
Vou esperar os ciganos voltarem.
- Tá bão, sinhozinho.
Vô fazê e levá.
Rodolfo foi para a varanda.
Ao chegar, outra surpresa.
Os negros estavam todos sentados no pátio.
Não tinham ido embora.
Pai Joaquim, sentado, fumando seu charuto, disse:
- Sinhozinho, as sementis têm di sê plantada.
Sinão vai passá du tempu.
Us nego tão tudo aí isperandu as ordi du sinhozinho.
- Não acredito!
Não posso acreditar, Pai Joaquim!
Por que eles não foram embora?
- Si elis fosse imbora, quem é que ia prantá as sementi?
U sinhozinhu num ia dá conta suzinho, ia?
Rodolfo começou a rir.
- Acho que tem razão, sozinho não ia dar conta mesmo.
- U véiu sempri tem razão, ih, ih, ih!
Serafina trouxe o refresco, Rodolfo falou alto para que todos os escravos ouvissem:
- Vocês estão todos livres!
Aquele que quiser, poderá ir embora.
Ninguém impedirá.
Mas, se quiserem ficar, serão bem-vindos.
Há muito trabalho para ser feito!
Os negros começaram a tocar os tambores e foram embora para a senzala.
- É, sinhozinho.
Achu que u sinhó num vai cunsegui si livrá dessis negô, não. Ih, ih, ih!
Rodolfo riu.
Muita coisa boa estava acontecendo.
Um negro começou a tocar o sino.
Rodolfo olhou para a entrada da fazenda.
Lá longe, muitas carroças coloridas estavam entrando.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 11, 2017 7:16 pm

Sentado em frente à janela do quarto, Dom Carlos observava tudo.
Pensava: "Agora tudo vai mudar.
Desde aquele maldito dia, Rodolfo nunca mais entrou em meu quarto ou falou comigo.
Quem sabe, agora, ele me perdoa."
Os ciganos chegaram.
Sergei entrou na fazenda, tocando a música que Rosa Maria mais gostava, a mesma que a acordou no primeiro dia em que chegou ao acampamento.
Rosa Maria e Felipe vinham na primeira carroça.
Estavam todos felizes.
No dia seguinte, Rodolfo e Sergei, conduzidos por Josué, que também não havia ido embora, foram para a vila tratar dos documentos para o casamento e o registo de nascimento de Felipe.
Precisavam também comprar sementes e tudo o que estava em falta na fazenda.
Muitas coisas teriam que ser compradas para colocar a fazenda em funcionamento novamente.
As primeiras seriam sementes e cal para pintar a casa.
Rodolfo pegou dinheiro no cofre que o pai tinha no escritório.
Iria mais tarde até o Rio de Janeiro falar com o banqueiro para poder usar o dinheiro do pai.
Rosa Maria continuou dormindo na tenda junto com Felipe.
O tempo foi passando.
A fazenda começou a mudar.
Rodolfo era um bom administrador.
Zara e as outras ciganas fizeram um lindo vestido branco para Rosa Maria.
Zara disse com os olhos brilhando de felicidade:
- Ela será uma linda noiva!
Todos estavam ansiosos, esperando o dia do casamento.
As sementes foram plantadas.
A casa, pintada.
Rodolfo comprou tecidos para que as escravas fizessem roupas novas para todos os negros.
Rodolfo acabou com a senzala.
Mandou os negros pegarem madeiras na mata e, juntos, construírem casas para suas famílias.
Mandou também tirar e queimar o tronco.
Um dia, disse para Rosa Maria:
- Tudo que fizer para eles será pouco.
Rosa Maria estava experimentando o vestido.
Olhou-se no espelho e perguntou:
- Branco Zara? Não posso usá-lo!
Não sou mais virgem.
- Ora, minha filha.
A virgindade só se perde quando é dada com amor.
Por isso, sabemos que é virgem, não é?
Rosa Maria pensou por um tempo e disse:
- Tem razão, se pensarmos assim, realmente sou virgem!
Esse vestido é lindo!
Em todos os lugares em que ia, Rodolfo carregava Felipe.
Os dois davam-se muito bem e, a cada dia que passava, gostavam-se mais.
Finalmente, chegou o dia.
Foi montado um altar no meio do pátio em frente à varanda, enfeitado com muitas flores que negros e ciganos colheram nos campos.
Cada um deles queria fazer a música e as danças.
Brigaram muito e não conseguiram chegar a um acordo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 11, 2017 7:17 pm

Rosa Maria reuniu Sergei e Pai Joaquim e disse:
- Sergei, metade do casamento você toca violino e os negros escutam quietos.
Pai Joaquim, a outra metade os negros tocam os tambores e os ciganos escutam quietos.
Está bem assim?
Durante a festa também será dessa maneira, não pode haver briga.
Este é o dia mais feliz da minha vida!
Os dois concordaram e foram comunicar a seu povo.
Um padre veio da vila.
Um pouco antes de ir vestir-se, Rosa Maria foi para a varanda ver se tudo estava certo.
Vendo aquele vaivém de pessoas, lembrou-se de Maria Luísa e dona Matilde.
"Seria tão bom se estivessem aqui."
Uma lágrima começou a formar-se.
Olhou para o morro, viu as cruzes e, com as pontas dos dedos, mandou um beijo, pensando:
"Que bobagem a minha!
Claro que estão vendo e, com certeza, muito felizes."
O casamento foi realizado com muita paz entre negros e ciganos.
Rosa Maria estava linda com seu vestido todo branco.
Ostentava no pescoço o colar que Zara havia lhe dado.
Zara ficou emocionada ao vê-la usando o colar.
Rosa Maria, finalmente, estava realizando seu sonho.
A cerimónia teve que ser longa, para que negros e ciganos pudessem participar.
Rodolfo e Rosa Maria estavam radiantes.
Quando a cerimónia terminou, Felipe beijou a mão de Rodolfo e saiu correndo.
Rosa Maria e Rodolfo viram que ele foi para dentro da casa.
Foram atrás dele.
Enquanto isso, ciganos e negros dançava misturados.
Ciganos com o toque do tambor.
Negros com o som do violino de Sergei e a sanfona de Igor.
Na varanda, Rosa Maria e Rodolfo encontraram Serafina.
Rosa Maria, aflita, disse:
- Serafina, vimos Felipe entrar correndo.
Onde ele está?
Será que está doente?
- Não, sinhazinha, num tá, não.
Xangô tem ainda um trabainho pra fazê.
U mininu tá lá nu quarto du sinhó.
- No quarto de Dom Carlos?
Está louca? Como pôde permitir?
Aquele monstro, mesmo sem poder mexer-se, pode fazer algum mal a meu filho.
Foram correndo para o quarto de Dom Carlos.
Entraram e viram uma cena que jamais conseguiriam esquecer.
Dom Carlos sentado na cadeira.
Felipe, agachado à sua frente, fazendo massagem em suas mãos e falando:
- Papai e mamãe casaram-se, vovô.
Ela está muito bonita naquele vestido branco.
Quando eles cortarem aquele bolo grande, eu trago um pedaço para o senhor.
- Você é um bom menino.
Amo-o muito.
- Eu também amo muito o senhor, vovô.
Rodolfo e Rosa Maria aproximaram-se.
- O que está fazendo aqui, Felipe?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 11, 2017 7:17 pm

- Estou contando para o vovô de seu casamento, mamãe.
- Não sabia que você o conhecia.
- Conheço mamãe!
Venho aqui todos os dias.
Esfrego as mãos e os pés dele com este óleo que Serafina me deu.
Ele já está mexendo os dedos.
Mostre para eles, vovô, mostre...
Levantou a mão de Dom Carlos, dizendo:
- Mexa os dedos, vovô, mexa!
Dom Carlos olhou para eles.
Lágrimas caíam de seus olhos, com muito esforço, mexeu os dedos.
- Viu papai? Viu mamãe?
Ele mexeu. Falei para ele que vai andar de novo.
- Falou sim, Felipe.
Falou que vou andar...
Eu vou andar...
- Sabe, papai, gosto tanto do vovô, mas tanto que, se não fosse seu filho, queria ser filho dele.
- Que bom, filho, que gosta dele.
Ele não é seu pai, mas é o meu.
- Então o abrace, papai.
Esfregue a mão dele para que ele fique bom logo.
Dom Carlos, agora, chorava, soluçando.
Rosa Maria e Rodolfo também.
Rodolfo olhou para ela, que acenou com a cabeça.
Felipe continuou falando:
- Venha logo, papai!
Rodolfo ajoelhou-se na frente do pai e segurou suas mãos.
Dom Carlos, em lágrimas, disse:
- Perdão, meu filho.
Você também Rosa Maria...
Por favor, perdoe-me.
Esse menino é um anjo que Deus mandou em sinal de que nem tudo está perdido para mim.
Eu o abençoo.
- Quem sou eu para julgar?
Se meu filho gosta tanto do senhor, alguma coisa deve ter visto de bom.
Felipe pegou a mão de Rosa Maria, dizendo:
- O abrace, mamãe.
Beije-o. É meu vovô querido...
Rosa Maria demorou um pouco.
Não queria, mas, diante da insistência de Felipe, abaixou-se, abraçou-o e beijou a testa de Dom Carlos, falando:
- Só Deus poderá perdoá-lo.
Mas se ele me devolveu a felicidade, se meu filho gosta tanto do senhor, só posso perdoar.
Felipe jogou-se em cima dela, rindo feliz.
Ela saiu correndo.
Não podia acreditar que tinha abraçado e beijado aquele homem.
Encostou-se, chorando, na parede da sala.
Sentiu um perfume de rosas por todo o ambiente.
Olhou para a sala.
Lá não havia rosas nem qualquer flor.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 11, 2017 7:17 pm

Disse emocionada:
- Felipe! Oh, Felipe!
É você? Está aqui?
- Sou. E estou aqui.
Você está vencendo. Eu a amo.
- Não está sentindo-se bem, Rosa Maria?
Ela ouviu a voz de Rodolfo, voltou-se e respondeu:
- Estou bem, Rodolfo...
Muito bem. Vamos voltar para a festa?
Serafina e Pai Joaquim que entraram na sala logo depois que Rosa Maria e Rodolfo entraram procurando por Felipe presenciaram tudo que aconteceu.
Riram. Pai Joaquim disse:
- É, Serafina...
Xangô num bandona seus fio, pur pior qui eles seje.
- Ocê tem razão, veio.
- U negô sempre tem razão. Ih ih ih!
Rodolfo e Rosa Maria voltaram para a festa.
Dançaram com os ciganos os passos que Rosa Maria havia aprendido.
Dançaram com os negros.
Foi uma festa sem igual.
- Serafina - pediu Felipe -, ajude-me.
Peça para alguém me ajudar a trazer o vovô aqui fora.
Ele quer ver a festa.
Ela obedeceu.
Chamou dois negros que acompanharam Felipe para dentro da casa.
Voltaram logo depois, carregando a cadeira de Dom Carlos, que foi colocada na varanda.
Felipe sentou em um banquinho ao lado dele e disse:
- Vovô, veja como está tudo bonito.
- Está, sim, meu filho. Está sim...
- Vou buscar um pedaço de bolo para o senhor.
Felipe desceu a escada correndo.
- Eta mininu danadu di bão, num é, Sinhô?
Dom Carlos olhou para o lado de onde vinha a voz.
Pai Joaquim estava sentado, fumando seu cachimbo.
- Ele é sim.
É um menino bom e inteligente.
- Sabe Sinhô, quando a gente faiz as coisa rúim e mardade, Xangô faiz justiça.
U Sinhô sabe disso, num é, Sinhô?
- Creio que sim.
Pensei muito todo esse tempo.
Não sei se Xangô é o mesmo que para mim é Deus.
Mas, com certeza, foi feita a justiça.
- Isso memo, Sinhô.
Si é Xangô, si é Deus, u nome num importa.
Eles dois cuida di nóis.
Eles dois ixiste, sim, Sinhô.
Dom Carlos olhou para aquele negro que falava daquela maneira com ele.
Em outros tempos, jamais permitiria que ele sequer levantasse os olhos, mas hoje era diferente.
Dava graças a Deus por ter alguém com quem conversar.
- E, creio que existem mesmo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:56 pm

- Sabe Sinhô.
Xangô, ou seu Deus, manda justiça pra gente aprende.
Dispois qui a gente aprende, eles manda um anjo ansim, qui nem u sinhozinho Felipinho, pra mustrá qui num bandona seus fio, memo quando elis num mereci pruque fizero muita mardade.
Gradece Xangô ou seu Deus pur esse mininu.
Ele é um anjo mandadu pur Deus pru Sinhô.
- É sim. Ele é um anjo.
Rodolfo teve muita sorte de ter um filho como ele.
- Ele num e fio du sinhozinho Rudofo.
- Como não?
E filho de Rosa Maria...
- Da sinhazinha, eli é.
Naquela noite, ela grito pru sinhó qui era virge.
U Sinhô si alembra?
Ele se lembrou daquela noite, que quis esquecer-se durante todos esses anos. Estremeceu.
Abaixou a cabeça, falando:
- Como pude fazer aquilo?
O que está querendo me dizer, Pai Joaquim?
- É isso memo qui tá pensandu, Sinhô.
Si num é fio du sinhozinho Rudofo, si parece cum eli quandu era minino, di quem ele é fio?
- Meu Deus! Não pode ser!
- Podi, sim, Sinhô. E é.
U sinhozinho Rudofo já sabe.
U sinhó tumém sabi agora.
Pur isso u sinhó tem qui gustá muito desse minino.
Ele foi um anjo qui seu Deus e meu Xangô mando pru Sinhô.
- Ele é meu filho? Meu Deus!
Muito obrigado, Senhor.
Ele gosta muito de mim.
Nunca poderá saber o que fiz com sua mãe!
- Num vai sabe, Sinhô.
Num vai, memo...
Felipe voltou com um pedaço de bolo na mão e entregou para dom Carlos.
- Obrigado, meu filho.
Muito obrigado...
- Vovô, está chorando de novo?
Pare de chorar!
Não quero ver o senhor triste!
Hoje é dia de muita festa!
- Não vou chorar mais. Prometo.
Tem razão. Hoje é um dia de muita festa para todos nós.
Pai Joaquim ria:
- Ih ih ih! Xangô, i u Deus dus branco são bão memo!
A festa continuou.
Já era quase de manhã quando as pessoas foram saindo e voltando para suas casas.
Alguns cansados, outros bêbados.
Aos poucos, o pátio foi ficando vazio.
Serafina havia muito tempo, já tinha mandado levar Dom Carlos para dentro.
Felipe quis deitar-se com ele na mesma cama.
Quando Rosa Maria e Rodolfo entraram, foram logo perguntando:
- Serafina, onde está Felipe?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:57 pm

- Tá lá nu quartu du sinhó.
Foram para lá. Abriram a porta.
Os dois estavam dormindo.
Felipe abraçado a Dom Carlos.
Olharam-se, sorriram e foram deitar-se.
No quarto, abraçaram-se.
Rodolfo disse:
- Felizmente, estamos sós e casados, Rosa Maria. Parece um sonho.
O amor naquela noite foi total.
Duas almas que se encontravam, após tanto sofrimento e separação.
Amaram-se com o amor e o ardor que só duas almas unidas no céu podem sentir.
O amor foi supremo.
Aquela noite ficaria para sempre marcada no coração dos dois.
Quando terminaram, olharam-se e Rodolfo disse:
- Enfim juntos, e desta vez será para sempre.
Tenho uma surpresa para você.
- O que é Rodolfo? Não gosto de surpresas.
Está tudo tão perfeito que tenho medo.
- Nunca mais sentirá medo, meu amor.
Dizendo isso, Rodolfo levantou-se.
Entregou um envelope a ela, que perguntou:
- O que é isso?
- Abra e veja.
Ela abriu o envelope.
Continha três folhas.
- O que é isso, Rodolfo?
- Leia.
- São três passagens para Portugal?
Não pode ser verdade...
- Como, não pode ser? Não quer ir?
- Claro que quero.
É o maior sonho de minha vida!
- Todos os seus sonhos serão realizados.
Os que sei, realizarei.
E os que não sei, descobrirei.
- Eu o amo. Você é o melhor homem do mundo.
Antes de dormir, ela rezou:
- Obrigada, meu Deus!
Obrigada por toda essa felicidade que estou sentindo.
Quando acordaram, o sol já havia raiado.
Beijaram-se. Amaram-se.
Foram para a sala.
A mesa estava posta como antigamente.
Felipe estava na varanda conversando com Dom Carlos que, enquanto esperava por eles, já havia tomado café.
Pai Joaquim lá fora, fumando seu cachimbo, somente ria.
Ele iria embora da casa-grande.
Teria voltado para sua choupana, quando Rosa Maria chegou, mas ela não permitiu.
Após terminarem de tomar café, Rosa Maria e Rodolfo foram para a varanda.
Ela viu as tendas dos ciganos sendo desmontadas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:57 pm

Sergei veio até ela e disse:
- Estamos indo embora, Rosa Maria.
- Não, Sergei. Vocês não precisam ir.
A fazenda é muito grande.
Podem continuar aqui.
Vamos ficar todos juntos!
Zara também se aproximou.
Sergei continuou falando:
- Minha filha, nós a amamos. Estamos felizes.
Agora que encontrou sua felicidade com Rodolfo e Felipe, está protegida.
Sabemos que nos ama também, mas, querida, não queira prender um cigano.
O cigano precisa ser livre.
Precisa estar viajando, conhecendo o mundo.
O dia em que o cigano ficar parado em um só lugar, será seu fim. Ele morrerá.
Você viveu connosco por muito tempo.
Conheceu nossos costumes.
Sabe que estou falando a verdade.
Zara acompanhava as palavras do marido, concordando com a cabeça, porém uma lágrima teimava em cair.
Rosa Maria sabia que não poderia insistir.
Tudo que Sergei estava falando ela sabia ser a verdade.
- Você tem razão.
Por um minuto pensei só em mim, na saudade que irei sentir.
Quero que me prometam que voltarão daqui a algum tempo.
Viajem por muitos lugares, mas nunca se esqueçam deste.
Não se esqueçam de mim...
Zara abraçou-a e disse:
- Nunca a esqueceremos.
Nem o nosso ciganinho.
Voltaremos muitas vezes, vai até enjoar de ver-nos tanto.
Nós todos a amamos.
- Está bem. Sendo assim, eu permito.
Vocês são os responsáveis por toda a minha felicidade.
Despediram-se de Rodolfo e Felipe.
Acenaram para Pai Joaquim, que estava no alto, na varanda.
Foram até as carroças, que já estavam prontas.
Rosa Maria foi beijada e beijou a todos.
Chegou perto de Sergei e, com lágrimas nos olhos, disse:
- Posso pedir-lhe mais uma coisa, Sergei?
Sergei colocou no chão o pequeno Felipe, que estava chorando porque não queria que eles fossem embora.
- Pode falar meu anjo.
- Enquanto for indo embora, pode ir tocando em seu violino minha música?
Quero ouvi-la mais uma vez.
- Você ainda a ouvirá muitas vezes.
Nós voltaremos, mas se isso a faz feliz agora, tocarei.
Beijou-a novamente.
Subiu na carroça em que Zara já estava com uma mão segurando as rédeas e, com a outra, o violino.
Sergei pegou o instrumento e começou a tocar.
As carroças foram se movimentando.
Todos os ciganos abanavam lenços brancos.
Rosa Maria chorava e ria.
Rodolfo abraçou-a.
Ela disse:
- Sei que essa é a vida deles, mas já estou com saudade.
Foram para o alto da varanda e ficaram ouvindo a música e olhando as carroças indo embora, até eles sumirem.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:57 pm

REENCONTRANDO O VIDENTE
No dia seguinte, Rodolfo foi com Josué até a vila.
Precisava comprar algumas coisas que estavam faltando.
No final da tarde, Rosa Maria ouviu o sino tocar.
Foi para a varanda e viu que era a carruagem de Rodolfo que estava chegando.
Ficou esperando.
Assim que a carruagem parou em frente à casa, Rodolfo desceu e ajudou uma moça a descer.
Ela vinha acompanhada por uma menininha.
Rodolfo olhou para Rosa Maria que o olhava admirada, e disse:
- Encontrei esta moça no armazém lá na vila.
O senhor Jair contou que o marido dela morreu há três dias e ela não tem onde ficar.
Chegaram há pouco tempo do sul.
Ficaria na pousada até ele receber o primeiro salário para poder arrumar uma casa, mas ele morreu de repente.
Ela ficou sem dinheiro e sem poder voltar para o sul, onde mora sua família.
Estava desesperada.
Achei que você não se incomodaria e trouxe-a para cá.
Rosa Maria olhou para a moça e se lembrou de como foi ajudada por pessoas estranhas.
Se estava feliz, hoje, foi porque alguém a ajudou.
Sorriu, dizendo:
- Claro que não me incomodo.
Como é o seu nome?
- Celeste senhora.
E esta é minha filha.
Chama-se Ana.
- Muito prazer.
Meu nome é Rosa Maria e este é meu filho Felipe.
Entrem, venham comer alguma coisa.
Devem estar com fome.
Celeste, sem soltar a mão da filha, timidamente entrou na casa.
Enquanto tomavam o lanche, Rosa Maria notou com que carinho Celeste tomava conta da filha.
- Celeste, estou pensando em algo. Sabe ler?
- Sei senhora.
Estudei muito em minha cidade.
Meu pai, diferentemente da maioria dos homens, sempre achou que a mulher deveria saber ler e escrever.
- Ele foi muito inteligente.
Rodolfo, se ela ficar aqui sem ter o que fazer não se sentirá bem.
Que tal ela ensinar os negros a ler e escrever?
Gostaria Celeste?
- Gostaria muito, senhora.
Ensinar é o que mais gosto de fazer.
- O que acha Rodolfo?
- Não acho nada.
Só sei que escravos, de fazenda alguma, sabem ler ou escrever.
Rosa Maria, sorrindo, disse:
- Escravos de fazenda alguma trabalham com carta de alforria nas mãos, meu amor...
- Você não existe, Rosa Maria! Tem razão.
Mandarei fazer um galpão bem grande.
Lá, Celeste ensinará as crianças durante o dia e os adultos, que quiserem, à noite.
Elas se olharam.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:57 pm

Rosa Maria perguntou:
- Que acha Celeste?
- Eu não sei.
Estou achando que morri e que estou no céu e que vocês dois são anjos que Deus mandou para me receber...
- Você não morreu, está no céu e nem somos anjos.
Vai é ter muito trabalho!
Rodolfo, que tal, quando fizer o galpão, aproveitar e fazer uma casa para que ela possa morar com a filha?
- Sim, madame.
Sua alteza quer mais alguma coisa?
- Só mais uma coisinha, meu amor.
Ela tem que ter um salário para comprar coisas para ela e para esta menina linda.
Celeste interrompeu.
- Não precisa senhora.
Só de ter um lugar para ficar, onde minha filha possa crescer, já é o suficiente.
Não preciso de dinheiro.
- Não se preocupe.
Para nós, o mais importante é seu trabalho, terá aqui toda a paz que procura.
- Eu que pensei que estava tudo perdido, que não encontraria um caminho para seguir...
- Por muitas vezes, sentimo-nos assim.
Porque, como diz Pai Joaquim, não acreditamos na bondade e na justiça de Deus, ou de Xangô.
- Muito obrigada, senhora, muito obrigada.
- Só há mais uma coisa, Celeste.
Meu nome é Rosa Maria. Não é senhora.
Celeste riu e falou:
- Obrigada... Rosa Maria.
Rodolfo abraçou a esposa, dizendo:
- Cada dia você me surpreende mais, Rosa Maria.
Cada dia a amo mais...
Quando os negros souberam que havia chegado uma professora e que ela ensinaria as crianças e os adultos a ler e escrever foi uma loucura.
Em um mês, o galpão e a casa estavam prontos.
Fizeram camas, armários, mesas e banquinhos.
A lavoura não foi abandonada.
Alguns ficaram na lavoura, outros foram para a mata cortar madeira.
À tardinha, quando voltavam da lavoura, trabalhavam na construção até escurecer.
Rodolfo trouxe da vila um quadro negro, lápis e cadernos para as aulas.
Quando ficou tudo pronto, à noite fizeram uma festa, cantaram e dançaram para os deuses.
Celeste e sua filha mudaram-se para a casa nova.
No dia seguinte, pela manhã, ela tocou um pequeno sino que fora colocado na porta do balcão.
Os negros sabiam que, quando ele soasse, estaria na hora de as crianças irem para a escola.
No primeiro dia, as crianças foram trazidas pelas mães.
Os pais foram para a lavoura.
Depois de deixarem os filhos, as mães, foram cuidar de seus afazeres.
Havia muito trabalho para ser feito.
Estavam dentro do galpão, quando Rosa Maria chegou, dizendo:
- Bom dia, professora.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:58 pm

A senhora tem mais um aluno.
Está atrasado porque não queria vir.
Ainda está em tempo?
- Está sim. Entre, Felipe.
Você vai gostar de aprender a ler e escrever.
Felipe, chorando muito, não largava a mão da mãe.
- Fique, meu filho. Vai gostar.
Alguma vez fiz algo que o fizesse sofrer?
Felipe não largava a mão dela.
Aproximou-se um negrinho.
Tinha mais ou menos a idade dele.
- Vem, sinhozinho.
É bão sabê lê i iscrevê.
Ieu fico junto du sinhozinho. Vem...
Felipe olhou para ele, que sorria.
A boca era tão grande que, conforme ria, não se via quase o resto do rosto.
Só os olhos brilhantes.
Felipe achou graça e começou a rir.
Largou a mão da mãe e segurou a do negrinho.
Os dois entraram.
Celeste e Rosa Maria olharam-se e sorriram.
Rosa Maria foi embora.
Sabia que, naquele dia, seu filho estava dando um passo importante na vida.
Durante a aula, os dois ficaram sentados juntos.
Felipe tinha dificuldade para fazer aquela bolinha com perninha.
- Faiz ansim, sinhozinho, divagá. Ansim...
No fim da aula, as crianças foram brincar.
O negrinho chamou Felipe:
- Vem brinca tumém, sinhozinho. Vem...
Rosa Maria passou a manhã toda preocupada.
Não sabia como Felipe estava se saindo.
Foi buscá-lo nervosa, pois não sabia como iria encontrá-lo.
Chegou e ficou olhando de longe.
Ele brincava feliz, com outros meninos, jogando com uma bola que Celeste havia feito com algumas meias.
As meninas brincavam de roda.
No meio da roda, estava Aninha a filha da professora.
Quando Felipe viu a mãe, correu para ela, gritando:
- Mamãe, este é Manequinho, meu melhor amigo!
- Que bom, meu filho, que tenha encontrado um amigo.
- Um não, mamãe!
Uma porção, mas Manequinho é o melhor de todos!
Ela passou, carinhosamente, a mão na cabeça de Manequinho.
Ele levantou a cabeça, arregalou os olhos e os dentes num sorriso feliz.
Daquele dia em diante, Felipe ia correndo para a escola, assim que o sino tocava.
Manequinho, sempre junto, o ajudava na lição.
Depois da aula, ficavam brincando.
Rosa Maria e Rodolfo estavam felizes por verem o filho tão bem.
Felipe dividia seu dia entre a escola, brincadeiras e as visitas a Dom Carlos.
Contava tudo o que acontecia na escola e nas brincadeiras a seu avô querido, como o chamava.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:58 pm

Manequinho e Felipe tornaram-se inseparáveis.
Aninha brincava com as outras meninas, mas estava sempre atrás dos dois.
Pai Joaquim e Serafina foram à escola, para mostrar aos negros adultos que também poderiam aprender.
Aos poucos, todos os escravos da fazenda foram chegando.
À tardinha, quando voltavam da lavoura, arrumava-se com esmero para irem à escola.
Rosa Maria deu a Celeste algumas revistas e jornais para ela usar na aula.
Em uma revista, havia a fotografia de um navio.
Ela mostrou a fotografia para as crianças, dizendo:
- Isto é um navio.
Na Terra, aqui onde vivemos, há muita água salgada, que chamamos de mar.
Este navio viaja por cima das águas do mar, vai para muitos lugares.
Manequinho ficou encantado com o navio e perguntou:
- Fessora, cumu si chama us homi qui trabaia nu naviu?
- Chamam-se marinheiros.
Ele ficou pensando, depois disse:
- Quando ieu crescê, vô sê marinheru!
- Muito bom, mas para isso acontecer, terá de estudar muito.
- Ieu gostu di estudá.
Fessora dá esse retratu pra ieu?
- Dou, sim. É seu.
Manequinho brincava com Felipe o tempo todo.
Várias vezes foi para a casa-grande brincar e até dormir.
O tempo foi passando.
Fazia quase um ano que Rosa Maria havia voltado e se casado.
Na fazenda, tudo corria bem.
Os negros trabalhavam com alegria.
Rodolfo dividira a fazenda em pedaços e os negros em grupos.
Cada grupo cuidava de um pedaço.
A colheita, naquele ano, seria muito boa.
Com tudo certo na fazenda, eles poderiam viajar para Portugal com tranquilidade.
Rosa Maria estava ansiosa.
Durante o tempo que estivera com os ciganos, sempre escrevia para José e Isabel, mas não recebia respostas, porque não tinha um endereço fixo.
Sabia que eles deveriam estar bem e, para José, era importante saber que ela também estava.
Por isso, ela escrevia sempre.
Quando se casou, escreveu contando tudo, mas não disse que iriam para Portugal.
Queria fazer uma surpresa.
Felipe não queria ir viajar, pois teria de deixar a escola e, principalmente, Manequinho.
Ele queria que o amigo fosse junto na viagem.
Rodolfo, várias vezes, disse que não, mas Felipe insistiu tanto que não houve jeito.
Rodolfo, vencido pelo cansaço, disse:
- Está bem, vamos levá-lo connosco!
Felipe ficou radiante, beijou o pai e a mãe e saiu correndo para contar a Manequinho.
Quando ele saiu, Rodolfo ficou olhando, com um olhar de tristeza.
Rosa Maria percebeu e perguntou:
- Que foi Rodolfo?
O que aconteceu?
- Ele sempre consegue tudo o que quer.
Faz-me lembrar de Maria Luísa...
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:58 pm

- É mesmo. Tem o mesmo gênio.
Com jeitinho, consegue tudo o que quer.
- Ela só não conseguiu ser feliz, Rosa Maria.
Espero que Felipe, nesse sentido, tenha mais sorte que ela.
- Terá Rodolfo!
Faremos tudo para que isso aconteça!
Felipe foi correndo para a casa de Manequinho.
Entrou gritando:
- Manequinho! Você vai viajar connosco!
- Vô? Vô andá naqueli naviu?
- Vai sim! Papai deixou!
Mamãe disse que vamos ficar muito tempo dentro dele!
Manequinho arregalou os dentes e os olhos e começou a pular de alegria.
O dia da viagem chegou.
Foram de carruagem para o Rio de Janeiro.
Chegaram dois dias antes de o navio partir.
Rosa Maria comprou roupas novas para Felipe e Manequinho.
Ele não acreditava que iria conhecer de perto um navio.
No Rio de Janeiro, Rodolfo levou-os para passear nos mesmos lugares onde tinha ido quando dona Matilde, Rosa Maria e Maria Luísa haviam chegado de Portugal.
Ao passar pela praça em que Tobias, Serafina e Jerusa foram comprados, lembraram-se de tudo.
Uma lágrima surgiu nos olhos de Rosa Maria.
Lembrou-se de como Maria Luísa era linda e alegre.
Rodolfo também se emocionou.
- Por que a senhora está chorando, mamãe?
- Por nada, Felipe. Acho que de saudade.
Quando cheguei de Portugal, paramos aqui, eu, papai, vovó e sua tia Maria Luísa.
Ela era muito alegre e bonita.
- Que pena que ela morreu.
Queria tê-la conhecido.
- Foi uma pena mesmo...
Rodolfo, com a garganta engasgada, acompanhava a conversa, mas não conseguia falar.
Passearam muito.
Os meninos estavam encantados com tudo que viam.
No dia seguinte, embarcaram.
Manequinho, a se ver dentro do navio, não conseguia falar, de tão emocionado que estava.
Olhou para um rapaz que passava.
Ele estava com uma roupa bonita e um boné.
Manequinho dirigiu-se a ele e perguntou:
- Moço, u sinhó é um marinheru?
- Sou. Por quê?
- E qui quando ieu cresce vô sê marinheru tumém.
- Garanto que vai gostar.
Gostaria de conhecer o navio?
Os dentes e olhos de Manequinho arregalaram-se.
- Posso?
- Agora não, porque estou em serviço.
Mas quando eu terminar virei buscá-lo.
- U sinhozinho Filipe pode i tumém?
- Se seus pais deixarem pode.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:58 pm

- Deixaremos, sim. Só há uma condição.
Manequinho, você já está há muito tempo na escola.
Tem que falar direito.
- Tá bão, sinhá.
Vô falá, mais dexa nóis i cunhecê u navio, dexa...
Rosa Maria, rindo, acenou com a cabeça.
O marinheiro foi embora.
Voltou mais tarde e levou os meninos por todos os cantos do navio.
Durante o trajecto, ia apresentando-os para os companheiros e dizendo:
- Este aqui, quando crescer, vai ser marinheiro.
Todos os marinheiros que eram apresentados a Manequinho encantavam-se com o garoto.
Ele e Felipe estavam sempre junto deles.
Manequinho perguntou para o marinheiro que mais ficava com eles:
- Seu Paulo, u sinhó num pudia arranja um buné iguar u seu pra ieu?
- Quando chegarmos ao fim da viagem, se portar direito vou lhe dar um de presente.
- Vô fica direitinho.
U sinhó vai vê.
O marinheiro foi embora rindo.
Os dois nem sentiram a demora da viagem.
Estavam sempre acompanhados de algum marinheiro e fazendo alguma coisa.
Para Rosa Maria, a viagem foi longa, tão ansiosa que estava.
Ao aportarem em Lisboa, Manequinho e Felipe ganharam uma porção de bonés.
Todos os marinheiros quiseram dar um.
Tomaram uma carruagem de aluguel para irem até o povoado e, depois, para a Vila das Flores.
Ao chegarem ao povoado, Rosa Maria lembrou-se da festa e do pai andando de carroça pelas ruas.
De quanto fora feliz ali.
De quanto sofrera com a morte dos pais e do irmão.
Rodolfo também lembrava-se da mãe e da irmã.
Os dois, calados, ficaram perdidos em seus pensamentos.
Manequinho e Felipe olhavam tudo.
Ao passarem pela praça, Rosa Maria viu o adivinho que havia previsto e acertado em tudo o que dissera.
Pediu a Rodolfo que parasse.
Desceu, foi até ele.
Rodolfo seguiu-a, sem interferir.
Ela começou a mexer nas ervas.
Ele olhou para ela e perguntou:
- Como é seu nome, senhora?
- Rosa Maria.
- Seu nome é o da rainha das flores.
Hoje, a rosa cresceu, floresceu.
Chorou com o orvalho da manhã.
Usou seus espinhos para se defender.
O botão puro se abriu para que o mundo o visse.
Exalou seu perfume e muitos sentiram.
Voltou ao solo em que nasceu e desabrochou novamente.
Está agora exalando perfume.
Não vai mais precisar usar os espinhos.
De sua semente nasceu um novo botão, que vai desabrochar e se tornar outra rosa.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:58 pm

Muito perfume também vai exalar.
Assim será sua vida.
Daqui para frente, só perfume, juntamente com a felicidade, sua e de todos que a cercam.
Rosa Maria prestava atenção em tudo que ele falava.
Ia relembrando cada momento de sua vida.
- Tem certeza, senhor, de que tudo de ruim acabou?
- Minha filha, há tempo de plantar e tempo de colher.
Está, agora, colhendo.
Vai querer comprar alguma erva?
Ela olhou para aquele homem, tão humilde, mas que conhecia tão bem o coração humano.
- Quero, sim. Quero que me dê uma para que nunca mais me esqueça do senhor.
- Não, senhora. Precisa e vai me esquecer.
Esse pequeno botão, que nasceu de sua semente, foi um anjo que Deus lhe mandou.
Ele, em momentos muito difíceis e importantes, vai precisar de seu perfume.
Mais dois botões brotarão de sua semente.
São mais amigos que estão chegando para, juntos, espalharem o perfume da paz e da harmonia.
Vá com Deus. Não precisa de minhas ervas.
Precisa agora apenas espalhar seu perfume para a felicidade de muitos.
Que Deus a abençoe por ter usado seus espinhos quando precisou o por ter os deixado caírem quando o perigo passou.
O perdão ainda é o melhor caminho para a felicidade. Vá com Deus.
Rosa Maria pegou suas mãos e beijou-as.
Rodolfo escutava tudo, sem entender quase nada.
Apertou seus ombros para que ela entendesse que o homem nada mais tinha para falar.
Foram para a casa de Rodolfo.
Lá só estava Juvenal e uma nova criada.
Tudo estava em ordem.
Joana havia ido para Santos, no Brasil, a cidade em que seu marido trabalhava.
Juvenal contratou aquela nova empregada.
Todo o mês ia buscar o salário dos dois e um dinheiro para as despesas da casa.
Antes de ir para o Brasil, Rodolfo havia autorizado o gerente que tirasse da conta certa quantia para as despesas da casa.
Quando os viu, Juvenal perguntou curioso:
- Quem são esses meninos?
- Este aqui é Felipe, nosso filho.
E esse é o melhor amigo dele, Manequinho.
Manequinho arregalou os dentes e os olhos, num sorriso alegre.
- Muito prazê, sinhó.
- Como se fala, Manequinho? - repreendeu Rosa Maria.
- Muito prazer, senhor.
- Assim está bem melhor.
Já era quase noite quando chegaram.
Jantaram e foram dormir.
Estavam cansados da viagem.
No dia seguinte, foram para Vila das Flores.
Lá chegando, encontraram José abatido.
Quando os viu, abraçou-os, chorando.
- Minha irmã querida.
Estava pensando tanto em você.
Mandei-lhe uma carta há um mês.
Estou sofrendo tanto.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:59 pm

- Por quê? O que aconteceu?
- Isabel foi embora.
- Como, embora? Para onde ela foi?
Abandonou-o?
- Ela sofria do coração, mas não sabíamos.
Teve um ataque e morreu.
Rosa Maria empalideceu e quase caiu.
Só não o fez porque Rodolfo segurou-a.
Começou a chorar.
Os meninos olhavam para ela, assustados.
- Como isso pôde acontecer?
- Não sei. Nem sei o que vou fazer de minha vida.
- Meu irmão querido! Não fique assim.
Deus está sempre ao nosso lado.
Não nos abandona nunca.
Só precisamos aprender a confiar em sua sabedoria.
Ela continuou chorando.
- Mamãe, não chore.
Serafina disse-me que as pessoas nunca morrem de verdade.
Que lá no céu há uma casa para onde vamos.
Ficamos de lá olhando o que se passa aqui.
Ela disse que todos os que morreram estão de lá olhando para nós.
Se chorarmos, eles choram também.
A senhora não quer vê-los chorando, não é?
- Tem razão, meu filho.
Não quero vê-los tristes.
Vamos mandar um beijo para eles?
Levou os dedos aos lábios e mandou um beijo para o céu.
Felipe imitou-a, rindo.
Rodolfo cumprimentou José e abraçou-o.
Um menino entrou e ficou encostado na parede, chorando também.
José, ao vê-lo, enxugou os olhos e disse:
- Tobias, meu filho, venha até aqui para conhecer seus tios e seu primo.
Rodolfo, ao ouvir aquele nome, arrepiou-se todo.
Rosa Maria não percebeu, de tão abalada estava.
Olhou para o menino.
Mulato, quase branco, com olhos azuis.
Um menino muito bonito.
Abraçou-o dizendo:
- Você está tão grande e bonito.
Sou Rosa Maria, sua tia.
Este é seu tio Rodolfo, meu marido e estes são Felipe, seu primo, e Manequinho, seu amigo.
O menino estendeu a mão para Rodolfo, que o olhava desconfiado.
Tobias beijou sua mão, falando:
- Sua bênção.
- Deus o abençoe.
José, não se dando conta da preocupação de Rodolfo, disse:
- Meu filho, leve os meninos para conhecerem o sítio.
As crianças saíram.
Rodolfo estava pensativo.
Rosa Maria e o irmão continuaram conversando, mas ele não prestava atenção na conversa.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:59 pm

Por fim, não resistiu à tentação e perguntou:
- José, seu filho não se chama Tadeu?
Os irmãos olharam-se.
Só agora perceberam o que havia acontecido.
Rosa Maria baixou os olhos.
José respondeu:
- Não. O nome dele é Tobias.
E não é meu filho.
É filho de Maria Luísa.
Rodolfo sentou-se, olhou com raiva e surpresa para os dois.
- Vocês me enganaram?
Rosa Maria, como pôde fazer isso comigo?
Ela respondeu, chorando:
- Eu não podia Rodolfo.
Jurei a Isabel e a Maria Luísa.
- Mas sou seu marido.
Não devia haver segredos entre nós.
- Eu não podia contar.
Esse segredo não era meu.
- Nasceu quando vocês vieram sozinhas?
Mamãe sabia?
- Sim. Ela também jurou segredo.
Não podíamos arriscar a vida da criança.
Se seu pai descobrisse, o que aconteceria?
- Por isso adiou nosso casamento vindo para cá?
- Aquela viagem foi a salvação para Maria Luísa.
Rodolfo ficou calado, pensando:
"Por isso Maria Luísa ficou tão diferente.
Voltou triste para o Brasil.
Depois daquela viagem, nunca mais foi à mesma.
Pobre irmã, como deve ter sofrido por ter tido que abandonar o filho."
Levantou-se e saiu calado.
Foi andando pelo sítio.
Lembrou-se da irmã com muita saudade.
"Por que ela não confiou em mim?
Talvez não precisasse abandonar o filho.
Eu falaria com papai.
Não... Não adiantaria.
Ele não aceitaria.
Jamais teria aceitado Tobias."
Foi andando e chegou ao riacho.
As crianças brincavam.
Tobias era um ou dois anos mais velho que Felipe.
Ele não sabia. Ficou olhando para o menino.
"Tem muita coisa de Maria Luísa.
Seus olhos e seu sorriso."
Felipe, percebendo que o pai estava ali, disse:
- Papai, como este sítio é bonito.
Estou gostando muito daqui e de Tobias também.
- Também gosto. Do sítio e de Tobias.
Tobias venha até aqui.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:59 pm

O menino veio devagar.
Rodolfo colocou-o de frente para ele.
Olhou bem em seus olhos.
Abraçou-o com muita força.
Rosa Maria e José chegaram nesse momento.
Ficaram de longe, olhando, abraçados.
- Sabia que essa seria sua reacção, José -comentou Rosa Maria.
Ele é um homem maravilhoso.
O menino soltou-se daquele abraço, voltou para junto dos outros e continuou brincando.
José e Rosa Maria aproximaram-se de Rodolfo.
Os três abraçaram-se e ficaram calados, olhando as crianças brincando.
Nada havia para ser dito.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 7:59 pm

A DECISÃO DE JOSÉ
Estavam em Portugal havia três meses.
Rodolfo disse para José:
- José, contei-lhe tudo sobre a fazenda.
Está correndo tudo bem, mas preciso viajar muito para fechar negócios com os importadores de café.
Preciso de alguém para ajudar-me.
Alguém assim como você, que conheça lavoura e que possa orientar os escravos.
Tudo lá também pertence a Tobias.
Que tal ir para o Brasil connosco?
Rosa Maria adiantou-se:
- Rodolfo, que boa ideia!
José ficaremos juntos novamente.
Poderei ver Tobias crescer e você verá Felipe.
- Não sei.
Estou muito triste aqui, mas o que farei com o sítio?
- Pode deixar com os pais e irmãos de Isabel.
Sei que será feliz no Brasil.
Mas se não for, poderá voltar a qualquer momento.
Tem que decidir logo, precisamos voltar.
Já estou há muito tempo longe da fazenda.
- Está bem, vou pensar.
Depois darei uma resposta.
Mais tarde, conversou com Tobias.
- Meu filho, gostaria de ir para o Brasil?
- Gostaria.
Os meninos disseram que lá é muito bonito, que a fazenda é muito grande, tem cavalo.
Gostaria de conhecer.
- Está bem.
Vou falar com seus avós e tios.
Se ficarem tomando conta do sítio, iremos.
Mas só por um tempo.
Será bom para nós dois sairmos deste lugar.
Vamos conhecer outras terras, outra gente.
Mas nossa casa é aqui.
Um dia, voltaremos.
Vamos conhecer outras terras e outra gente.
Conversou com os pais e irmãos de Isabel, que concordaram.
Quinze dias depois, estavam embarcando para o Brasil.
Todos estavam ansiosos para voltar.
Rodolfo, antes de partir, perguntou a Juvenal se queria ir junto.
Ele trabalhava para eles desde que eram crianças.
Não tinha família, era de confiança, poderia ajudar muito na fazenda.
Juvenal, feliz, concordou.
Rodolfo colocou a casa à venda.
Não tinha mais intenção de voltar para morar.
Rosa Maria também sentia saudade de tudo.
A única coisa que a prendia em Portugal era seu irmão, mas agora ele estava indo junto.
Tobias iria conhecer uma terra nova.
Manequinho e Felipe estavam com saudade da escola e dos amigos.
Felipe queria ver o vovô para contar tudo que acontecera na viagem.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 12, 2017 8:00 pm

A volta transcorreu demorada, mas tranquila.
Manequinho logo fez amizade com os marinheiros.
Todos gostavam de seu jeito.
Era um menino especial.
Novamente, ele e Felipe ganharam bonés.
Tinham muitos e dariam para as crianças da fazenda.
Quando chegaram ao Rio de Janeiro, Tobias e José ficaram encantados com toda aquela beleza natural.
Ficaram lá por dois dias.
Foram visitar todos os lugares.
Passearam muito.
Como Rosa Maria quando chegou, José também se admirou com aquele vaivém de pessoas.
Dois dias depois, foram para a fazenda.
A cada momento, mais os visitantes admiravam-se.
Quando viram aquelas montanhas, que do alto pareciam um tapete verde, ficaram abismados.
Quando o sino tocou avisando que alguém estava chegando, os escravos da casa correram para a varanda.
Viram a carruagem.
- Eles voltaram!
Eles voltaram!
O sino começou a tocar com mais força.
Alguns correram para a estrada.
Eles gostavam realmente dos senhores.
Pai Joaquim estava sentado na varanda, fumando seu cachimbo, conversando com Dom Carlos.
Serafina, quando ouviu o sino, veio para a varanda.
A carruagem parou.
Os ocupantes começaram a descer.
Rosa Maria estava feliz.
Rindo, disse:
- Este é meu irmão José.
Veio para ficar um tempo connosco.
Este é seu filho, Tobias.
Ao verem Tobias, os três olharam-se.
Pai Joaquim olhou para Serafina e sorriu.
Dom Carlos ficou olhando, sem dizer nada.
- Estes são Pai Joaquim e Serafina, meus anjos da guarda.
Este é Dom Carlos, o pai de Rodolfo.
José cumprimentou a todos.
Ele sabia o que Dom Carlos havia feito com Rosa Maria.
Olhou para ele com raiva, mas Felipe estava em seus braços, falando:
- Vovô, tenho algo para contar ao senhor.
Estava com muita saudade.
Conheci sua casa lá em Portugal.
Ela é grande e bonita.
Dormi num quarto todo cor-de-rosa.
A mamãe falou que era de tia Maria Luísa.
José amoleceu.
Cumprimentou Dom Carlos com um sorriso.
Dom Carlos respondeu ao cumprimento.
Entraram em casa.
José e Tobias nunca haviam visto tanto luxo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:15 pm

Pai Joaquim feliz, disse:
- É, Serafina, u minino tá muito bunito.
Us zóio dele é iguarzinho us da mãe.
- Vocês conhecem esse menino?
E a mãe dele também? - perguntou Dom Carlos.
- Nóis num cunhecia u mininu, não.
Mais nóís sabia qui eli tinha nascido, cum as graça di Xangô e di Oxalá.
Cunhecemo, sim, a mãe dele.
Xangô inda num termino sua justiça.
Inda fartava um tiquinho. Ih ih ih!
- O que está querendo dizer?
- Nada, sinhó. Nada, não.
Só qui esse mininu u negô num sabe pru quê tá cum us óio iguarzinho us da sinhazinha Maria Luísa.
E qui a cor deli é iguarzinha à du Tubia.
U nego tá muito veio.
Num sabe, não, mais tá achando qui ele é fio da sinhazinha Maria Luís mais u Tubia.
- Está querendo me dizer que esse menino é...
- Isso memo, sinhó. Ele é seu neto.
Fio da sinhazinha Maria Luísa mais u Tubia.
- Meu Deus! Quanta coisa eu não sabia!
- É, sinhó, num era tão puderoso cumo pensava, num é?
Só quem é puderoso é Xangô.
Enquanto isso, José encantava-se com a casa e com tudo que estava vendo.
Manequinho puxou Felipe, que puxou Tobias, e foram correndo para a escola.
Todas as crianças estavam lá.
Interromperam a aula.
Todos correram para recebê-los, inclusive Celeste.
Eles deram os bonés para as crianças.
- Temos um montão de coisa para contar.
- Andei di navio.
Quando cresce, vô sê é marinheru.
Rumei um tantão ansim di amigo.
Tudo marinheru.
- Está bem - disse Celeste.
Por hoje a aula acabou.
Podem conversar e brincar.
Vou até a casa-grande.
Saiu rindo. Celeste foi apresentada a José.
Ele a cumprimentou sem prestar muita atenção.
Elas ficaram conversando.
Rodolfo foi mostrar a fazenda para José, que ficou encantado com o tamanho.
Por onde passavam, eram saudados com sorrisos e cumprimentos pelos negros.
Estava tudo em ordem.
- Eles cuidaram de tudo enquanto estive fora.
Não sei o que teria feito sem essa ajuda.
- Notei que gostam muito de vocês.
- Você quer dizer, de sua irmã.
Foi ela quem fez todas as alterações.
Fez até uma escola.
Esta é a única fazenda que tem uma escola.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:15 pm

José, rindo, disse:
- Ela ficou muito forte.
Nem parece mais aquela menininha que veio para cá.
- Tem razão. O sofrimento faz crescer.
Tudo voltou ao normal.
José, aos poucos, foi tomando conhecimento do trabalho na fazenda.
Logo começou a dar ordens e orientar os escravos.
Estava tudo em paz.
Tobias começou a ir para a escola.
Ficou amigo de todos.
As crianças não entendiam como ele era quase negro e tinha aqueles olhos azuis.
Cada vez que perguntavam, ele dizia que não sabia.
Em uma tarde, Rodolfo e José chegaram.
Desmontaram e entraram na casa.
Estava muito calor. Era dezembro.
Rosa Maria mandou preparar um refresco.
Estavam na varanda conversando.
Na escola, Celeste estava contando a história do descobrimento do Brasil.
Com jornal, fez um barquinho.
- Quando Pedro Álvares Cabral veio para o Brasil, chegou em caravelas, que eram barcos como este.
Contou toda a história.
Ensinou as crianças como fazer o barquinho.
Ficaram encantadas.
No fim da aula, ela deixou as crianças brincando com os barquinhos, pegou a charrete e foi para a casa-grande conversar com Rosa Maria sobre a festinha que iria dar para as crianças no Natal.
As crianças brincavam com os barquinhos em uma bacia com água.
Felipe disse:
- Essa bacia é muito pequena.
Não. Não dá para todos brincarmos.
Vamos para o rio?
Todos concordaram.
Colocaram os barquinhos na água e iam seguindo-os da margem.
- Vamos ver qual vai ser o último a afundar?
- Sinhozinho, tenho certeza qui num vai sê u meu.
- O meu é que vai ganhar!
Iam gritando e torcendo.
O barquinho de Felipe ficou preso em uma pedra.
- Isso não vale. Vou soltá-lo.
Enquanto falava, Felipe entrou na água.
Escorregou, caiu o tentou levantar-se, mas o chão se abriu.
Havia um buraco coberto por lama.
Começou a afundar.
Não sabia nadar, mas, mesmo que soubesse, não adiantaria.
Quanto mais se debatia, mais afundava.
As crianças gritavam.
Manequinho, gritando, jogou-se na água de cabeça para baixo para poder mergulhar e pegar Felipe pelas mãos.
Conseguiu pegá-lo e trazê-lo para cima.
Quando chegou à tona, as outras crianças puxaram Felipe.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:15 pm

Manequinho afundou.
Ao jogar-se, bateu com a cabeça em uma pedra.
Num esforço supremo, conseguiu puxar Felipe, mas não teve forças para sair.
Afundou no buraco.
Felipe ainda tentou voltar para tirá-lo.
Os outros meninos, também pularam e conseguiram trazê-lo para fora.
Mas era tarde. Estava morto.
As crianças ficaram inconsoláveis, sem saber o que fazer.
Alguns começaram a chorar.
Outros correram para a casa grande para pedir ajuda.
- Sinhá! Sinhô! Sinhozinho!
U Manequinho... Lá nu rio!
Estavam tão nervosos e cansados da corrida que não conseguiam falar.
Todos correram.
Sabiam que alguma coisa havia acontecido no rio, só não sabiam o quê.
Rodolfo e José montaram em seus cavalos.
Rosa Maria, com o coração apertado, sentindo que algo grave havia acontecido, subiu na charrete de Celeste.
Quando chegaram, viram Felipe sentado chorando, com a cabeça de Manequinho no colo.
Rosa Maria correu para ele.
- Mamãe, ele está dormindo.
Pulou na água para me salvar, bateu a cabeça.
Olha como está sangrando.
Manequinho abra os olhos.
Abra. Fale comigo.
Nós vamos outra vez para o mar.
Quando crescer, você vai ser marinheiro.
Abra os olhos.
Ao longe se ouvia o tambor de Pai Joaquim com uma batida triste e cadenciada.
Algumas crianças foram avisar a mãe de Manequinho.
- Meu fio, qui cunteceu?
Oh, meu sinhó Ogum, minha Inhansã, qui cunteceu cum meu neguinho?
Rodolfo pegou Manequinho no colo.
Rosa Maria abraçou o filho, que não parava de chorar.
Os negros na lavoura ouviram a batida do tambor.
Pelo som, sabiam que alguma coisa ruim havia acontecido.
Largaram o que estavam fazendo e foram em direcção a casa.
Rosa Maria olhou para o rio.
Preso em uma pedra estava o boné de marinheiro que Manequinho não tirava da cabeça.
Foram para a casa-grande.
Todos juntos, como se fosse uma procissão.
Rosa Maria conduzia a charrete.
Celeste chorava muito.
- Fui a culpada.
Não devia tê-los ensinado a fazer o barquinho.
Não devia tê-los deixados sozinhos.
Só os deixei brincando em uma bacia com água.
Não havia perigo.
Rosa Maria falava:
- Você não tem culpa de nada, Celeste.
Deus é quem cuida de nossas vidas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:16 pm

O corpo de Manequinho foi enterrado no morro junto com os outros.
Uma cruz foi colocada com seu nome e com o boné de marinheiro.
Todos estavam tristes, pois ele era alegre e brincava muito.
Rosa Maria, com o olhar distante, disse:
- Nunca mais vamos ver aqueles olhos e dentes grandes...
Durante o enterro, Pai Joaquim, da varanda, ficou tocando, tristemente, o tambor.
Estava muito velho para acompanhar.
Não conseguiria subir o morro.
Ficou tocando até que todos voltassem.
Em casa, Felipe estava inconsolável.
Foi para seu quarto, jogou-se na cama sem parar de chorar.
Serafina entrou, dizendo:
- Sinhozinho, ocê tem qui pará di churá.
Sinão u Manequinho num vai querê i imbora e vai churá tumém.
U pai du céu chamô ele.
Sabe, sinhozinho, Deus du céu manda di veiz em quando um anjo du céu só pra alegrá a vida da gente.
Manequinho era um anjo ansim.
U anjo num pode ficá muito tempo cá na terra, não.
Si ele ficá aqui, ele perde as asa, num pode mais vuá e vortá pru céu.
Pur isso u sinhozinho tem qui dexá ele i imbora.
U sinhozinho num qué dexá ele sem asa, num é?
Felipe sentou-se na cama, perguntando:
- Isso é verdade mesmo, Serafina?
Se ele não for agora, poderia perder as asas, não poderá mais voar?
- É sim, sinhozinho.
Pode preguntá pru Pai Juaquim.
Felipe pulou da cama e correu para a varanda.
Pai Joaquim estava lá olhando para o infinito e fumando seu cachimbo.
- Pai Joaquim, é verdade que Manequinho era um anjo que Deus mandou?
Que se ele não morresse antes de crescer perderia as asas e não poderia mais voar e voltar para o céu?
O velho olhou para Serafina, que estava sorrindo atrás de Felipe, respondeu:
- É, sim, sinhozinho. Ele era um anjo.
Percisava vortá pra Nosso Sinhô Jesuis Cristo e pros deus da natureza.
Pur isso u sinhozinho tem qui para di churá.
Sinão ele num vai imbora i vai perdê as asa.
- Eu não consigo parar de chorar...
- Cunsegue, sim.
Si alembra da risada e dus dentão dele?
Felipe começou a lembrar-se do amigo, rindo para ele.
- Gora sinhozinho, fala ansim:
"Meu amigo, voa agora.
Vai logo, sinão vai perdê as asa e num vai mais pudê vortá lá pru céu.”
Felipe repetia tudo, sorrindo e abanando as mãos dando adeus.
Quando achou que Manequinho fora embora, perguntou a Pai Joaquim:
- Agora que ele foi embora, posso chorar mais um pouquinho?
- Pode só um puquinho, sinão ele iscuita e vorta.
Felipe chorou mais um pouco no colo de Serafina, que o embalava.
Depois foi para o quarto de Dom Carlos contar tudo que havia acontecido.
Dom Carlos adorava aquele menino.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:16 pm

Quando Felipe falou do anjo que Deus mandava de vez em quando, uma lágrima rolou de seus olhos.
Pensava: "Você é o anjo que Deus me mandou.
Perdão, meu Deus.
Perdão, meu filho."
- Vovô, o senhor deu adeus quando vovó e tia Maria Luísa morreram?
- Não, filho.
Eu não sabia como fazer.
Serafina não me ensinou.
- Será que elas perderam as asas?
- Não. Acho que não.
Elas também foram dois anjos que Deus colocou em minha vida.
Eu que não soube enxergar.
- Se o senhor não deu adeus com as mãos, elas devem estar por aqui esperando.
Vamos dar adeus agora?
- Não posso mais.
Não consigo levantar os braços.
- Eu ajudo o senhor a levantar.
Vamos dar adeus para as duas, vovô...
Felipe fez muita força e conseguiu levantar um pouco o braço e a mão de Dom Carlos.
- Fale assim, vovô:
"Podem ir embora as duas.
Não se preocupem mais comigo.
Felipe está aqui para cuidar de mim".
Enquanto Felipe falava, Dom Carlos repetia, chorando.
Felipe mexia as mãos e os dedos do avô, tentando fazer um sinal de adeus.
Depois daquele dia, Felipe nunca mais chorou.
Sempre que se lembrava de Manequinho, via-o voando e rindo com aqueles dentes grandes e o boné de marinheiro.
Às vezes, na escola, quando sentia dificuldade para aprender, parecia ouvir:
- É ansim, sinhozinho. É ansim...
Parecia que Manequinho estava ali, então ele conseguia aprender.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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