QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:16 pm

A DESCOBERTA DE CELESTE
Como sempre, o tempo passa.
Para eles também passou, Rodolfo, na ausência de Rosa Maria, quando pensou que ela havia morrido, perdera a vontade de tudo.
Quando não estava dormindo, estava na margem do rio, bebendo, pescando e pensando em tudo que havia acontecido.
Agora, com a volta de Rosa Maria e de Felipe, sentia que para ele também a vida voltara.
Rodolfo, juntamente com José e os escravos, havia feito a fazenda prosperar.
Ela voltara a ser como antes, ou até melhor.
Na lavoura, comandados por José, os escravos trabalhavam com amor.
Parecia que a terra respondia a todo aquele carinho, dando muita produção e qualidade.
O tempo da colheita estava chegando.
Naquele ano não houve muita chuva nem muito frio, por isso a colheita seria boa.
Os negros já estavam se preparando para uma grande festa que iriam fazer quando a colheita terminasse.
Rosa Maria teve mais um filho, Raul, que estava agora com um ano.
E estava esperando outro já havia dois meses.
Rodolfo dizia:
- Tenho que recuperar o tempo perdido!
Ela estava no quarto fazendo Raul dormir.
Felipe estava na escola.
Rodolfo e José, na lavoura. O sino tocou.
Rosa Maria veio para a varanda ver quem estava chegando.
- Não acredito!
Lá longe, entrando na fazenda, vinham aquelas maravilhosas carroças coloridas.
- Eles voltaram! Eles voltaram!
Começou a abanar os braços, gritando feliz.
Sergei e Zara estavam na carroça da frente.
Quando a viu abanando os braços e pulando como criança, Sergei pegou o violino e começou a tocar aquela música de que ela tanto gostava.
A canção fez-se ouvir por quase toda a fazenda.
Na escola, Felipe também a ouviu.
- São os ciganos. Eles voltaram!
Celeste já ouvira falar dos ciganos, mas nunca estivera ao lado deles, nunca os conhecera.
- Professora me deixe ir até lá encontrá-los?
Ela ficou sem saber o que fazer.
Percebeu que ele e as outras crianças estavam muito ansiosos.
Resolveu dispensar a todos.
Colocou Felipe e Tobias na charrete e levou-os para casa.
Quando chegou, os ciganos ainda estavam no meio do caminho.
Felipe fez Celeste ir ao encontro deles.
Zara, quando o viu, parou os cavalos.
Felipe subiu na carroça, beijou e foi beijado por Zara e Sergei.
- Vocês voltaram! Vocês voltaram!
Rosa Maria, depois que passou o susto, também correu pela estrada para encontrá-los.
- Sou a mulher mais feliz do mundo.
Tenho tudo. Só faltavam vocês.
Estou muito feliz.
- Eu também.
Não agüentava mais ouvir essa mulher dizer:
"Temos que ir ver Rosa Maria e Felipe.
Será que estão bem?"
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:16 pm

Estávamos lá no Rio Grande do Sul, mas tive que voltar.
- Fez muito bem.
Estamos com muita saudade.
As carroças foram chegando ao pátio.
Os ciganos iam descendo e abraçando Rosa Maria e Felipe, que riam e pulavam felizes.
Rodolfo chegou, encontrou Rosa Maria dançando no meio dos ciganos ao som da música de Sergei.
Parecia uma cigana também.
Quando a música terminou, Rodolfo abraçou a todos.
Sergei falou:
- Sabe Rodolfo, acho que Rosa Maria não nasceu em Portugal.
Ela é uma cigana disfarçada.
Todos riram.
Pai Joaquim recebeu os amigos tocando o tambor.
Sergei respondeu com o violino.
Rosa Maria mostrou-lhes Raul, que estava começando a andar, Zara pegou-o no colo, dizendo:
- Mais um ciganinho. E é lindo!
Igor mostrou sua filhinha, Zaira.
Estava com oito meses.
Ficaram conversando por muito tempo.
Negros e ciganos abraçavam-se.
Naquela noite, houve uma festa.
Finalmente a colheita terminou.
O dia da grande festa chegara.
Uma grande fogueira foi acesa no meio do pátio.
Negros e ciganos colocaram suas melhores roupas.
Antes de começarem os comes o bebes, as crianças recitaram e cantaram.
Celeste ensinou-as para a festa da colheita.
Depois, foi servida a comida.
Muita carne e muito assado.
Os negros preferiram a feijoada, comida que inventaram com os restos de porcos que os senhores jogavam fora.
No final, todos estavam comendo de tudo.
A dança começou.
Negros tentando dançar as danças dos ciganos; estes tentando dançar as danças dos negros.
No final estavam todos misturados em uma felicidade geral.
Rosa Maria, depois de dançar muito, ficou cansada e sentou-se perto de Pai Joaquim.
- Estão todos felizes, não é, pai?
- Sabe pruquê, fia? Tão livre.
U home só pode sê filiz si fô livre.
- Que bom seria se não houvesse mais escravos.
- Sinhá, pra tudo tem um tempo.
Quando Xangô terminá sua justiça em cima dus nego, eles vão sê livre.
Esse dia vai chegá, sinhá.
Us negô vão tá dançando, não só nessa fazenda, não.
Elis vão dança em tudo lugá nesse Brasi di meu Deus.
Num vai demorá muito.
Nóis vai tê inté nego dotô.
A sinhá vai vê esse dia chegá.
Nóis vai inté tê nego marinheru, cumo u Manequinho quiria sê.
Vai chega esse dia, sinhá. Vai, sim.
- Deus o ouça, Pai Joaquim.
Deus o ouça.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:17 pm

Os ciganos ficaram dois meses e foram embora.
Desta vez, Rosa Maria não chorou.
Sabia que eles voltariam.
Cinco meses depois, ela teve outro menino, Mário.
Lembrou-se do adivinho.
"Sua semente vai dar mais dois botões."
Eles estavam lá, seus três botões.
Uma noite, durante o jantar, José falou:
- Tenho que agradecer por terem me trazido para cá.
O Brasil realmente é um grande país.
Estou muito feliz aqui.
Meu filho também.
O tempo passou.
Num domingo à tarde, estavam todos conversando na varanda.
Celeste almoçou com eles.
Ela falava sobre a escola e as crianças.
José olhou para ela no exacto instante em que ela olhou para ele.
Os dois ficaram sem saber o que fazer.
Alguma coisa aconteceu naquele momento.
Ela se despediu e foi embora, sem entender o que havia acontecido.
Em casa, nem um nem outro conseguia esquecer aquele olhar.
Celeste pensava:
"Não entendo o que está acontecendo.
Conheço José há tanto tempo.
Sempre conversamos, nunca senti nada.
E agora, assim, de repente, ele não sai de meu pensamento.
Só agora percebi como ele é bonito."
José pensava mais ou menos a mesma coisa.
Contou a Rodolfo o que havia acontecido.
Não sabia o que fazer.
Rosa Maria ria do jeito que Celeste falava.
- Juro. Nunca olhei para seu irmão com um sentimento que não fosse de amizade.
Agora não sei o que está acontecendo.
Não consigo esquecê-lo.
O sentimento agora não é mais de amizade.
A resposta não poderia ser outra.
Rodolfo e Rosa Maria ficaram felizes por eles.
Rosa Maria adorava Isabel, mas sabia que seu irmão era ainda muito jovem, não poderia continuar sozinho.
Celeste era uma boa moça.
Trabalhadora, honesta e, principalmente, amiga leal.
Todos gostavam dela.
Muito mais as crianças, com as quais tinha um carinho especial.
O casamento realizou-se.
Os negros aproveitaram para fazer outra festa.
Da varanda, Pai Joaquim, olhando a festa, falou para Serafina:
- É, Serafina, quantu qui as arma têm qui andá pra pude si incuntrá.
Ele nasceu lá longe, nu Purtugá.
Ela lá longe nu sur du Brasi.
Us dois viero si incuntrá aqui.
Esses dois só vai pudê sê filiz.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:17 pm

PRECONCEITO
Correu de boca em boca na vila a notícia de que na Fazenda Maria Luísa os negros, mesmo alforriados, continuavam trabalhando e que cada família de negros tinha sua casa.
Que havia escola onde eles aprendiam a ler e escrever.
Que recebiam um salário e usavam as roupas que queriam.
Que não havia feitor e que o tronco tinha sido derrubado.
Isso fez com que os outros fazendeiros ficassem bravos.
Fizeram uma reunião, em que decidiram que falariam com Rodolfo para que as coisas voltassem a ser como antes, porque os escravos deles também estavam querendo todos aqueles benefícios e aquele mesmo tipo de vida que os escravos dele tinham.
Na reunião, houve acusações de todas as formas.
Gritavam que ele era um traidor, que iria acabar com o Brasil.
Rodolfo, calmamente, respondeu:
- Não sei por que estão nervosos.
Minha fazenda vai muito bem.
Os escravos, que lá estão, querem ficar.
Não preciso de feitor, porque eles não querem fugir.
A cada ano que passa a colheita é melhor.
Cada um sabe sua obrigação.
Creio que, ao invés de eu voltar atrás, seria melhor que os senhores fossem para frente.
Não vou mudar nada.
Estou contente com a produção de minha fazenda.
Estou ganhando muito dinheiro.
Muito mais do que qualquer um dos senhores já ganhou durante a vida toda.
Senhores, pensem bem no que estou dizendo.
A tendência do mundo, hoje, é a abolição.
Será melhor que a façamos antes que se torne lei.
Rodolfo e José saíram da reunião rindo.
- Eles estavam tão bravos que cheguei a ficar com medo.
Pensar que dei as cartas de alforria só porque estava feliz com a volta de Rosa Maria.
Estive tanto tempo preso em meu sofrimento e remorso por não ter acreditado nela.
Senti-me como se fosse um escravo.
No momento em que fiquei livre de minha escravidão, concluí que não tinha o direito de prender ninguém.
Dei as cartas pensando que iriam embora.
Não foram, quiseram ficar e trabalhar.
Estão trabalhando muito.
O que fiz sem pensar deu certo.
Hoje, sabem ler e escrever.
Trabalham contentes, porque querem, sem medo do castigo do tronco.
Moram em suas casas com suas famílias.
Ganho muito dinheiro.
Vou mudar por quê?
- Isso mesmo, Rodolfo.
Vai mudar por quê?
Chegaram em casa e contaram sobre a reunião para Rosa Maria e Celeste, que estavam ansiosas esperando a volta deles.
Pai Joaquim ouviu tudo.
- Sinhô, tudo na vida tem mutivo.
Sempre arguém tem qui cumeçá.
U sinhó cumeçô.
Essa ideia vai si ispaiá.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:17 pm

Tudos branco vão vê qui é mió tê nego livre.
U nego véio só num sabe si, quando us nego tivé a liberdade, eles vão sabê pruveitá.
Naquele ano, Dom Carlos ficou muito doente.
Sentia muitas dores, tinha dificuldade para respirar.
Rodolfo levou-o ao Rio de Janeiro, consultou vários médicos, mas nada adiantou.
Todos o desenganaram.
Felipe ficou o tempo todo a seu lado, conversando e contando histórias que inventava.
Rosa Maria via seu carinho para com o avô.
Não entendia, mas também não se importava.
Estava hoje tão feliz que aqueles tempos terríveis nem parecia que haviam existido.
Dom Carlos foi tratado com respeito por ela e Rodolfo e, com muito amor, por Felipe.
Quando ele morreu, Felipe não chorou muito.
Em sua inocência, sabia que para o avô seria melhor.
Só ficou triste por não ter conseguido fazer o avô andar novamente.
Pai Joaquim, que juntamente com Serafina via os negros levando o corpo de Dom Carlos para o alto do morro, falou:
- É, mia fia, ele tumém foi pru céu.
Xangô vai recebê ele.
Tudos aqui já perdoaru ele.
Mais ele vai tê qui si perdoá.
Isso é qui vai sê u mais difice...
Tudo caminhava bem.
Celeste teve outra menina.
Deu o nome da mãe de José, Maria Teresa.
Felipe agora estava com dez anos.
Tobias, com onze e meio.
Fazia dois anos que Manequinho havia morrido.
Rodolfo e José conversaram.
Foram falar com as esposas.
- Chegou a hora de Felipe e Tobias irem estudar -disse Rodolfo.
Precisam aprender.
Estamos ficando velhos.
Eles terão que continuar com a fazenda e os negócios.
As duas olharam-se.
Sabiam que o que ouviriam a seguir iria deixá-las tristes, mas sabiam também que era inevitável.
- Eles irão para a Inglaterra.
Ficarão lá por alguns anos.
Quando voltarem, serão doutores.
Rosa Maria sabia que o marido tinha razão, mesmo assim seria difícil ficar longe de Felipe.
Sempre soube que esse dia chegaria. Concordou.
Os meninos não queriam ir.
Gostavam da fazenda.
Não queriam ser doutores, não queriam ficar longe dos pais e dos irmãos.
Custou muito, mas foram convencidos de que o tempo passaria logo, Rosa Maria, acompanhada por Celeste, disse:
- Felipe, Tobias.
O pai de vocês têm razão.
O tempo passa logo.
Irão juntos, são amigos.
Voltarão todos os anos nas férias.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:17 pm

No dia marcado, chorando, despediram-se de todos.
Acompanhados dos pais, foram para o Rio de Janeiro, de onde, com outros meninos e um representante da escola inglesa, embarcaram para a Inglaterra.
No convés do navio, assustados, abanavam a mão para aquela multidão que estava em terra.
Não viam os pais, mas sabiam que estavam lá.
Rosa Maria ficou triste e chorosa.
Nunca havia se separado do filho, mas suas outras crianças eram pequenas e usavam muito seu tempo.
Aos poucos, foi ficando calma.
Sabia que era para o bem dele.
A vida continuou.
José, óptimo administrador.
Rodolfo, óptimo comerciante.
Um cuidava da lavoura, outro da venda do café.
Ganhavam muito dinheiro.
Rodolfo deu cinquenta por cento de tudo que ganhassem a José.
Quanto mais dinheiro, mais conforto para os escravos, suas casas foram melhoradas.
O tempo passou sem muitas novidades.
A fortuna de Rodolfo cresceu.
Tornou-se um dos mais ricos fazendeiros.
Nunca quis envolver-se em política.
Seu pai havia trabalhado muito tempo para a coroa portuguesa.
Mas ele era feliz como vivia.
Se fosse trabalhar para o imperador, teria que viajar, ficar longe da família e da fazenda, como seu pai fazia.
Não queria isso.
Teve muitas ofertas, mas recusou todas.
Em uma manhã, Serafina estranhou que Pai Joaquim não se levantara.
Ele já havia muito tempo vivia na casa.
Sempre era o primeiro a levantar-se.
Ninguém sabia quantos anos ele tinha, mas, de acordo com os factos históricos que contava, devia ter mais de cem anos.
Nessa manhã, ele não se levantou.
Ela, preocupada, foi até seu quarto.
Ele estava deitado com as mãos cruzadas sobre o peito, como se soubesse que iria morrer.
Colocou-se na posição correta.
No rosto, muita paz. Parecia que dormia.
Todos sentiram sua morte.
Ele foi importante para brancos e negros.
Esteve sempre ao lado deles nos momentos mais difíceis.
No criado-mudo, junto a seu cachimbo, havia um bilhete que ele escrevera.
Aprendera a escrever com Celeste para mostrar aos outros negros que todos deviam ir à escola.
Um dia Xangô mi chamô e falô
Ocê vai praquela terra di meu Deus
Vai vive muito tempo prajudá os seus
Pra felicidade di tudos, Pai Juaquim lutô
Nessa noite meu pai Xangô vortô
Oiando nus meus óio falô
Agora, meu fio, tudo cabô
Ocê vai vortá pra Xangô
Pruque lá é teu lugá
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:18 pm

Num si priocupe oceis meus fio
Logo logo Pai Juaquim vai vortà
Serafina, chorando, deu esse bilhete para Rosa Maria, que o leu junto da sepultura na hora do enterro.
Outra cruz foi colocada no alto do morro.
Depois que Pai Joaquim morreu, Serafina ficou muito triste.
Dizia estar cansada de viver.
Estava velha, já não cuidava da casa.
Felipe havia ido embora.
Não tinha mais nada para fazer.
Rosa Maria tratava-a muito bem, mas não adiantou:
dois meses após a morte de Pai Joaquim, ela também morreu.
Foi enterrada ao lado dele.
Outra cruz foi colocada no alto do morro.
Rosa Maria não se conformava.
Aqueles dois haviam acompanhado toda a sua vida desde o dia em que chegou ao Brasil.
Sentiu a mesma dor que sentira quando perdeu seus pais e seu irmão.
Eles eram para ela como se fossem da família.
Felipe e Tobias ficaram estudando por quatorze anos.
Durante esse tempo, os ciganos voltaram no mínimo uma vez por ano.
Cada vez que chegavam, Sergei reclamava:
- Não adianta querer ficar muito longe daqui.
Zara não deixa.
Fica o tempo todo querendo voltar.
Piscava os olhos dizendo:
- Eu não. Detesto tudo isso aqui.
Zara e Rosa Maria riam, sabiam que ele era louco por tudo aquilo.
Raul e Mário, quando estavam com dez e onze anos, foram também estudar.
Todos os anos, vinham passar as férias no Brasil.
Ficavam aqui por três meses e voltavam.
Acostumaram-se com a vida de estudante.
Felipe e Tobias começaram a interessar-se por política e a fazer parte dos movimentos estudantis.
Finalmente, Felipe e Tobias iriam voltar.
Eram esperados com ansiedade.
Na última vez que os ciganos estiveram lá, foram avisados.
Prometeram que voltariam.
De facto, um mês antes da data voltaram, montaram o acampamento e, com os negros, prepararam uma grande festa.
José e Rodolfo foram para o Rio de Janeiro esperá-los.
Quando o navio aportou, ficaram procurando os dois entre as pessoas que desembarcavam.
Desta vez, já fazia cinco anos que os meninos não voltavam.
Aproveitaram as férias para conhecer outros lugares e saber mais sobre a política de outros países.
As pessoas desciam.
Rodolfo e José não viam os filhos.
Estavam ficando nervosos, quando viram dois rapazes aproximando se e abanando as mãos.
Rodolfo bateu no ombro de José, dizendo:
- Lá estão eles!
- Já são homens.
Estão tão crescidos.
Os rapazes correram para os pais.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:18 pm

Felipe disse:
- Pronto, papai, agora já sou um doutor.
- Eu também - disse Tobias.
- Estamos orgulhosos dos dois.
Agora irão usar tudo que aprenderam.
Iremos para a fazenda e vocês vão rever tudo que deixaram.
Depois de algum tempo, quando enjoarem da vida no campo, abriremos um escritório, aqui no Rio de Janeiro, para cuidarem das partes legais da fazenda.
- Nada disso.
O senhor quis que eu fosse estudar porque queria um filho doutor.
Obedeci. Não sei o que Tobias pensa, mas eu não pretendo sair da fazenda nunca mais.
- Está bem, meu filho, mas agora vamos para casa.
As mães de vocês estão ansiosas esperando.
Depois, falaremos sobre isso.
Na fazenda, estava tudo pronto para a chegada deles.
O sino tocou avisando que alguém estava chegando.
Os tambores começaram a tocar e o violino de Sergei também.
Quando Rosa Maria viu os dois jovens descendo da carruagem, não acreditou que aquele belo rapaz era seu pequeno Felipe.
Moreno, alto, cabelos pretos, pele e olhos claros.
Lembrava Rodolfo, quando ela o conheceu, mas muito mais bonito.
Abraçaram-se e riram muito.
Ela beijava ora um, ora outro.
Tobias também estava bonito.
Aqueles olhos azuis se destacavam na pele quase escura.
A festa começou à tarde, assim que eles chegaram, e continuou noite adentro.
Enquanto os negros e ciganos dançavam, Rosa Maria e Celeste cobriam-nos de perguntas, queriam saber tudo sobre a Inglaterra e os outros lugares que conheceram.
Iam respondendo todas as perguntas.
Tobias, um pouco distante, não conseguia tirar os olhos de Aninha, agora uma bonita moça.
Depois de muito falarem, foram para o meio dos outros e começaram a dançar.
Felipe dançava como cigano, ou como negro, pois conhecia os dois modos.
Havia uma negra dançando com um lenço colorido na mão.
Ele chegou perto dela, parou e pediu o lenço.
Ela, sorrindo, entregou-lhe o lenço e continuou dançando.
Quando ele pegou o lenço de suas mãos, seus olhos se encontraram.
Realmente, os olhos são o espelho da alma.
Quando duas almas se encontram, uma fica reflectida na outra.
Felipe, disfarçando, pegou o lenço, amarrou-o na cabeça como se também fosse um cigano.
Continuou dançando, mas seus olhos procuravam os da negra.
Ela levantou um lado da saia e começou também a dançar como se fosse cigana.
Passou dançando por ele.
- Você é muito bonita.
Ela sorriu e continuou dançando.
Tobias e Aninha também dançavam.
Estava nascendo ali algo mais do que amor de irmãos.
A festa acabou quando o dia estava raiando.
Por muitas vezes Felipe e a negra dançaram sem conversar.
Ela ria alto e alegremente.
Quando todos começaram a ir embora, a mãe pegou-a pela mão e também, levou-a embora.
Felipe ficou do alto da varanda vendo-a distanciar-se.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:18 pm

No dia seguinte, era quase uma hora da tarde quando Felipe acordou.
O silêncio na casa era total.
Abriu os olhos, olhou à sua volta.
Estava em seu quarto.
"Como é bom estar de novo em casa.
Mas quem será aquela negra?
Como é bonita!
Não tenho certeza, mas acho que sonhei com ela."
Espreguiçou-se, levantou-se e foi até a janela.
Abriu as cortinas.
A janela estava aberta porque fazia muito calor.
O sol estava alto.
Há muito tempo já devia ter raiado.
Ficou olhando tudo.
A grande montanha que parecia um tapete verde, lá longe, a lavoura de café, as flores e folhagens que rodeavam a casa.
Lá no alto do morro, todas aquela cruzes.
Ele não estava na fazenda quando Pai Joaquim e Serafina morreram.
Lembrou-se deles e, também, de Manequinho, Manequinho, que o ajudou em quase tudo, a aprender as primeiras letras que mesmo ele não sabia, mas ensinou-o.
Quantas vezes eles correram por aqueles campos?
Tudo foi retomando a sua mente.
Já fazia tanto tempo que o amigo havia morrido para salvá-lo...
Sentiu um nó na garganta.
Ficou com vontade de chorar.
Lembrou-se do Serafina.
- Si chorá, ele perde as asa.
Felipe sorriu.
"Querida Serafina... quanta saudade.
Não vou chorar por ele, nem por vocês.
Não quero que percam as asas.
Os três foram anjos que vieram a Terra somente para nos ajudar e ensinar."
Continuou admirando a paisagem pela janela.
"Como tudo aqui é lindo!
Como consegui ficar tanto tempo longe deste lugar?"
Vestiu-se e abriu a porta. Saiu.
A porta do quarto de seu avô estava aberta.
Entrou. "Vovô, sinto tanto que o senhor não esteja mais aqui."
Lembrou-se dele com muito carinho e saudade.
Via-se com suas pequenas mãozinhas de criança esfregando as mãos do avô para que ele as mexesse. Sorriu.
"Como eu era ingénuo!
Queria que ele se levantasse para ir cavalgar comigo, ou pelo menos passear..."
Quando se virou para sair, lembrou-se de Serafina dizendo:
“-Sinhozinho já isfregô dimais as mão du seu vô.
Gora vai lá fora brinca.
U Manequinho tá isperando”.
"Serafina... Ah, Serafina... quantas lembranças boas tenho daquele tempo...
Pai Joaquim. Sempre com uma história nova para contar quando eu estava triste”.
“- Sabe, sinhozinho, Deus du céu um dia tava cansado di num fazê nada, intão ele feiz a Terra.
Dispois ele ficô pensandu, pensandu...
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 7:18 pm

Achô qui a Terra era muito grande e bunita pra ficá vazia.
Intão ele feiz tudos bicho.
Ficô cuntente cum u qui tava vendo.
Mais achô qui inda fartava arguma coisa.
Intão feiz us home.
Feiz us branco qui nem u sinhozinho, us nego qui nem ieu, e us índio tudo vremeio.
Jogô tudos nóis aqui na terra e falô:
‘-Oceis fica tudo junto aí na terra e si trata tudo cumo si fosse tudo irmão.
Pruque tudo oceis são meus fio.
Tudo oceis são iguarzinho ieu’.
Mais isso num cunteceu.
U branco, pruque acha qui é a primera cor di tudas as otras cor, achô qui pudia manda nas otras cor.
Pegô primeru us índio, mais eles fugiru pru mato e tão lá inté hoje.
Quando us índio fugiro, us branco, intão, foro lá na África e robaru us nego di lá.
Us nego num sabia lutá, pur isso num suberu si defendê.
Us branco troxe tudos pra cá e fizeru eles di iscravo.
Us branco acha qui são fio di Deus e qui nóis nem pai tem.
Nóis tem qui servi eles cumo si eles fossi Deus.
“- Mas aqui na fazenda não é assim.”
“- Cá, não, sinhozinho.
Xangô veio logo e mostro pru seu pai e pra sua mãe qui tudus nóis somu iguar.
Qui num tem diferença.
Tudos nóis sumo fio du memo Deus.”
“- Ainda bem. Não gosto de ver os negros sofrendo.”
“- Inda vai chegâ u dia qui tudos nego vai sê livre cumo são cá na fazenda.”
“- Acredito que sim.
Vou lutar muito para que isso aconteça.”
“- Luta, sim, sinhozinho.
Luta bastante.”
Felipe voltou a olhar para o morro com as cruzes, pensando:
"Quantas lembranças!
Que bela infância tive...
Como fui e sou feliz..."
Chegou à sala. Não havia ninguém.
A casa estava deserta.
Foi para a cozinha.
A cozinheira estava junto ao fogão.
Lavando louça em uma tina estava ela, a moça com quem havia dançado.
De costas para ele, não o viu entrar.
Ele se aproximou, falando:
- Você trabalha aqui?
Ela se voltou e os olhos encontraram-se novamente.
Respondeu:
- Sim, sinhozinho, já faz um bom tempo.
Desde que Etelvina ficou doente, eu ajudo Tonha.
Ela falava muito bem porque desde pequena foi para a escola.
Estava agora com dezoito anos.
Felipe, com vinte e cinco.
- Sinhozinho quer comer alguma coisa?
- Quero, sim.
Estou com fome.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:11 pm

Como é seu nome?
- Divina. A mesa do café já foi tirada.
Pode ir para a sala, que logo eu levo.
- Não precisa, tomo o café aqui mesmo.
Onde estão todos?
- Seu pai e o senhor José foram cedo para a vila.
Sua mãe está no acampamento dos ciganos.
- E Tobias?
- Ele ainda não acordou.
Enquanto ela preparava o lanche, ele ficou olhando o pensando:
"Como é linda!
Conheci muitas moças na Inglaterra, tive até alguns romances, mas nunca vi uma beleza igual a essa."
Ela colocou sobre a mesa várias frutas, pão, bolo, leite e café.
Felipe, rindo, disse:
- Se eu comer tudo isso, vou estourar.
- Não vai, não.
Precisa comer, senão vai ficar fraco.
Ela foi saindo.
Ele a chamou:
- Fique aqui comigo conversando.
Não gosto de comer sozinho.
- Não posso. Tenho muita coisa para fazer.
- Só um pouco.
Eu tomo café rápido.
Diante daquele sorriso, não pôde evitar.
Ela ficou parada e pé diante dele.
- Por favor, sente-se - pediu ele.
- Não. Não posso.
- Pode sim. Estou mandando.
Ela se sentou, tímida.
- Divina...
Seu nome é muito bonito.
- Minha mãe demorou muito para ter um filho.
Quando nasci, achou que eu era um anjo, por isso, deu-me esse nome.
- Ela tinha razão.
Você é mesmo um anjo. É Divina.
Colocou sua mão sobre a dela.
Ela saiu correndo assustada. Ele foi atrás.
- Desculpe-me.
Não tive intenção de ofendê-la.
Fiz aquilo sem perceber.
Não precisa ficar assustada.
Não vai se repetir. Volte comigo.
- Não. Tenho que ir para casa.
Felipe não falou mais nada.
Voltou para a cozinha e continuou comendo.
Ela tirou o avental e foi embora.
No caminho, assustada, tremia.
Não sabia se era de medo ou de felicidade.
Tinha gostado de Felipe assim que o vira.
"Não posso nem pensar nisso."
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:12 pm

Felipe estava pensando naquele rostinho envergonhado, quando Tobias entrou.
- Bom dia. Pelo que estou vendo, você também acordou tarde.
- Dormi mesmo, mas, também, depois de tantos anos de rigidez no horário, tendo que levantar cedo todos os dias, temos o direito de acordar tarde nesta terra maravilhosa.
- Também acho.
Sentou-se e começou a tomar café.
- Sabe, Felipe, fiquei pensando na proposta de nossos pais sobre o escritório lá no Rio.
Penso que servirá para nossos projectos.
- Acho que tem razão, mas papai não pode saber por enquanto, quais são nossos projectos.
- O que não posso saber?
Voltaram-se surpresos.
Rodolfo chegou sem que percebessem.
Felipe respondeu:
- Temos um comunicado para fazer, mas é bom que mamãe, dona Celeste e tio José estejam presentes.
- Que comunicado é esse?
A respeito de quê?
- Não se preocupe, papai.
E sobre nossa ida ao Rio de Janeiro, sobre nosso escritório.
- Não vão querer ir?
- Vamos chamar mamãe, dona Celeste e tio José.
Falaremos com todos de uma só vez.
- Está bem. Vou comer alguma coisa.
Chamou um escravo e deu a ordem de ir até o acampamento e à casa de José para chamá-los.
Rosa Maria, Celeste e José chegaram quase juntos.
- O que aconteceu? - perguntou ela.
- Felipe, falo eu ou fala você?
- Pode deixar, Tobias, vou falar.
Por todos esses anos que estivemos estudando na Inglaterra, vimos muitas coisas.
Depois da Revolução Francesa, o conceito da humanidade está diferente.
Dizem que somos todos iguais.
A tendência na França e Inglaterra é acabar com toda a escravidão no mundo.
Com a industrialização, os ingleses querem que os escravos se tornem consumidores.
Em muitos países, já não há escravos.
Mais cedo ou mais tarde, o Brasil, também terá que fazer isso.
Terá que libertar seus escravos.
E terá, também, que realizar a independência total do Brasil, proclamando a República.
O sentimento republicano está em todo lugar.
O Brasil é um país muito grande.
Se quiser continuar a ter negócios com outros países, vai ter que libertar seus escravos.
Felipe parou de falar.
Tobias continuou.
- Por isso, enquanto estivemos lá fora, fomos a muitos lugares, conversamos com muitas pessoas.
Decidimos que, ao voltarmos, usaríamos tudo que aprendemos para ajudar, no que for preciso, o Brasil a ir para frente, caminhar para o progresso.
Primeiro, abolindo a escravatura, depois proclamando a República.
Quando chegamos, os senhores nos falaram do escritório no Rio de Janeiro.
Achamos bom, pois lá é o centro das discussões e a discussão é muito bem aceita por nós.
Lá, poderemos entrar em contacto com as pessoas que já devem estar lutando por essas mesmas coisas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:12 pm

- Esperem aí - disse Rodolfo.
Não mandamos estudarem para chegarem aqui e se misturarem com essa cambada ele vagabundos que se dizem abolicionistas, republicanos.
Nada disso. Não temos nada a ver com essa tal de abolição.
Nem República. Em nossa fazenda, há muito tempo os escravos são livres.
- Por isso mesmo, papai.
O senhor viu que deu certo.
Os negros aqui trabalham, estão felizes e produzem sem feitor.
E isso que os abolicionistas querem.
Temos que mostrar a todos, que o melhor ter homens livres trabalhando.
- Já tentamos eu e seu tio.
Por várias vezes estivemos em reuniões.
Um ou outro aceita, mas a maioria não quer nem ouvir falar.
- Esse vai ser nosso trabalho.
Tentar convencê-los.
Porque mais cedo ou mais tarde os outros países, liderados pela Inglaterra, vão obrigar o Brasil a tomar uma atitude sobre isso.
Rosa Maria concordou:
- Rodolfo, José, creio que os meninos tenham razão.
Com esse escritório, podem fazer o trabalho da fazenda e ainda ajudar na abolição.
Rodolfo olhou para José, que olhou para Celeste, que olhou para Rosa Maria, que olhou para eles novamente, sabendo que havia se intrometido em conversa de homens.
- Rodolfo - disse José -, acredito que Rosa Maria esteja certa.
Podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Ter quem lute pela abolição é importante.
- Está bem.
Enquanto ficarem por aqui descansando, vou mandar um mensageiro ao Rio, pedindo a Domingos que encontre um escritório para vocês.
Felipe não conteve sua alegria:
- Por isso que o amo.
É o melhor pai do mundo.
Riram e mudaram de assunto.
Divina voltou.
Esquecera-se de pegar a comida que todos os dias levava para casa.
Entrou calada. Foi para perto do fogão.
Felipe a seguia com os olhos.
Tobias percebeu e sorriu.
Terminaram de tomar o café e foram para a varanda.
De lá se podia ver o acampamento dos ciganos.
A música de Sergei chegava até eles.
Era uma música triste e suave.
Felipe fechou os olhos.
A imagem de Divina surgiu em sua mente.
Olhou para o morro e viu as cruzes.
Pensou um pouco. Falou:
- Tobias, vou lá no alto do morro visitar meus amigos.
Você vai comigo?
- Nem pensar. É muito longe.
Vou ficar aqui mesmo.
- Então fique.
Vou pegar um cavalo e cavalgar por esses campos.
Rever lugares e ir até lá em cima no morro.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:12 pm

Foi até o estábulo, montou em um cavalo e saiu cavalgando.
Percorreu vários lugares.
Passou pela escola.
Celeste e Aninha estavam dando aula.
Quando o viram, abanaram as mãos.
Havia muitas crianças. Foi até o rio.
Relembrou o dia em que pela primeira vez encontrou e conheceu seu pai.
Relembrou Manequinho, que havia morrido naquele trecho.
Olhou para o morro, foi até lá.
Havia várias cruzes, cada uma com o nome da pessoa que estava enterrada ali.
A primeira cruz era a de seu avô.
Ajoelhou falando:
- Vovô, estou de volta.
Sei que alguma coisa aconteceu entre o senhor, papai e mamãe.
Não sei o que foi.
A única coisa que sei é que o amei muito e que tenho saudade.
Ao lado, estava à cruz da avó, que não havia conhecido, e as de Manequinho, Serafina, Pai Joaquim e Maria Luísa.
Ficou olhando todas elas por um tempo.
- Todas essas pessoas passaram por minha vida, foram importantes.
De alguma maneira, ajudaram-me.
Olhou para a cruz de Maria Luísa.
- Não a conheci.
Mamãe disse que era muito bonita e alegre.
Disse, também, que ela se matou.
Nunca me disse qual foi o motivo.
Qual seria o motivo que pode levar alguém a querer morrer, a deixar esta vida, que é tão bela?
Ela deve ter sofrido muito.
Talvez algum dia eu conheça sua história.
Ao lado de Maria Luísa havia uma cruz. Tobias.
- Tobias? Nunca ouvi falar dele.
Quem terá sido?
Sorriu para todas as cruzes, mandou um beijo com os dedos.
Montou no cavalo, saiu cavalgando em direcção ao acampamento dos ciganos.
Rosa Maria conversava alegremente com Zara, enquanto comiam um assado feito na fogueira.
Sergei tocava violino.
O resto dos ciganos comia e conversava em pequenos grupos.
Felipe desmontou.
Foi recebido com alegria por todos.
Começou a comer com Zara e a mãe.
Zara disse:
- Olhe nosso menino, Sergei, que moço bonito se tornou.
- Realmente, é um bonito rapaz e, agora, um advogado, - disse Sergei.
- Isso é bom, porque, se um dia eu for preso, já tenho a quem recorrer.
- Ora, Sergei, você nunca será preso.
É um homem de bem.
- Não sei. Dizem que sempre há uma primeira vez.
- Por favor, não esqueçam que ele é meu filho.
- Não precisam brigar. Sou bem grande.
Aqui tem tamanho para as duas.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:12 pm

Podem dividir à vontade.
Quem mandou ter duas mães e dois pais? Ah ah ah!
Sergei deu a ele a pequena sanfona.
- Vamos ver se você ainda se lembra, Felipe.
- Claro que sim.
Começaram a tocar.
Logo os ciganos estavam dançando.
Depois de muito tempo, Sergei deu o violino para Igor, que continuou tocando.
- Agora, vou comer. Já toquei muito.
Felipe agora já se formou.
Só falta se casar.
- Talvez seja logo.
Rosa Maria olhou para ele.
- Tem namorada? Vai se casar?
- Eu estou namorando.
Ou melhor, enamorado.
Ela ainda não sabe, mas vou me casar.
- Ela não sabe?
Não estou entendendo.
- Nem eu, mamãe.
Quando eu entender, vou contar.
- É, Rosa Maria, nosso gavião vai voar.
Rosa Maria fechou a cara e fez um bico.
Felipe abraçou-a:
- Não se preocupe, dona Rosa Maria.
Será sempre a primeira.
Todos riram.
Sergei olhou para Zara, que fez um sinal com a cabeça.
-Tenho algo muito importante para falar com vocês dois.
Estranharam aquele semblante sério.
Sergei sempre brincava, jamais ficava sério.
- Que foi? Fale logo.
- Estive conversando com Zara.
Achamos melhor conversar primeiro com vocês, depois com Rodolfo.
- Pelo amor de Deus, Sergei, fale logo!
Já estou ficando nervosa!
- Já percorremos este Brasil todo.
Estamos velhos e cansados.
Com essa mania que Zara tem de querer sempre voltar para cá, ficamos sempre por perto.
Estamos impedindo que os ciganos mais jovens estendam suas viagens.
Por isso, resolvemos, se permitirem, armar nossa tenda e ficar aqui para sempre.
- Como? - perguntou Rosa Maria, surpresa.
Não entendi. Ficarem aqui para sempre?
Se permitimos?
Mas é o que eu quis a vida toda!
Que acha, Felipe?
Você permite?
- Não. Eu não permito.
- Como não, meu filho?
- Já pensou ser acordado todos os dias por esse violino irritante de Sergei?
Todos riram, abraçando-se.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:12 pm

- Passarei minha coroa para Igor.
Ele seguirá com os ciganos e virão nos ver de vez em quando.
- Isso é maravilhoso.
Como Deus tem sido bom para mim.
Vou falar com Rodolfo.
Ele também, com certeza, ficará feliz.
Quase no fim da tarde voltaram para casa.
Felipe puxava o cavalo pelas rédeas, enquanto caminhava de mãos dadas com a mãe.
À noite, durante o jantar, Rosa Maria contou a Rodolfo sobre os ciganos.
Ele ficou feliz.
Gostava muito deles.
Eram para ele como se fossem os pais de Rosa Maria.
Após o jantar, foram sentar-se fora da casa para apreciar a noite.
Divina veio até a varanda com uma bandeja.
Trazia café.
Colocou sobre a mesa e saiu em silêncio.
Felipe seguia-a com os olhos.
O único que percebeu foi Tobias.
- Mamãe, estive hoje lá no morro.
Fui visitar meus amigos.
Vi lá uma cruz com o nome de Tobias.
Quem foi ele?
Rosa Maria deixou a colher cair da mão.
Olhou para Rodolfo.
Tobias olhava para um e para outro.
Rodolfo, nervoso, respondeu:
- Foi um escravo muito querido de todos.
Morreu antes de você nascer.
Felipe aceitou a resposta do pai, mas ficou desconfiado com o nervosismo da mãe.
Tobias também ficou desconfiado.
Sempre estranhou sua cor.
Não era negro, mas também não era branco.
Pensou: "Por que tenho o nome de um escravo?
Não entendi até agora.
Nasci em Portugal.
Por que tia Rosa Maria ficou tão nervosa?"
Para mudar de assunto e deixar o ambiente melhor, Rodolfo disse:
- E quanto ao escritório?
Decidiram alguma coisa?
- Nada dessa conversa, papai.
Pelo menos por um tempo.
Nós vamos é aproveitar tudo aqui.
- Está bem, mas, no final, terão que ir.
Aproveitaram mesmo.
Tobias e Aninha começaram a encontrar-se constantemente.
Aos poucos, foi nascendo algo entre eles.
Logo estavam namorando.
Tobias falou com Celeste e o pai.
Eles concordaram, e os dois começaram a namorar oficialmente.
Em uma tarde, Felipe viu Divina saindo da casa-grande.
Resolveu segui-la.
Ela foi para sua casa.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:13 pm

A mãe estava sentada em um banco do lado de fora.
Ficaram conversando.
Felipe ficou observando de longe.
A tarde estava quente.
Divina disse algo para seu irmão.
Ele foi aos fundos da casa e voltou trazendo um cavalo.
Divina montou-o e saiu cavalgando.
Felipe seguiu-a de longe.
Ela foi em direcção ao rio.
Lá chegando, tirou a roupa e caiu nas águas, nadando suavemente.
Felipe observava-a.
"Como é bonita! Que corpo!"
O corpo nu e negro, molhado, brilhava com os raios do sol.
Ele nunca tinha visto beleza igual.
Sem saber que estava sendo observada, ela nadava tranquilamente.
Entregava-se a todo o prazer que aquela água fria lhe dava.
Felipe aproximou-se, sentou-se em uma pedra perto das roupas dela.
Num momento ela se virou para aquele lado.
Quando o viu, rindo, ficou sem saber o que fazer.
Tentou cobrir seu corpo com as mãos, mas não conseguiu.
Precisava delas para ficar boiando.
Felipe, rindo, falou:
- Não precisa ficar nervosa.
Só estou olhando.
Não vou lhe fazer nada. Só olhar.
- Quero sair da água.
Mas se o sinhozinho ficar aí perto de minhas roupas, não vou poder sair.
- Se prometer não fugir, viro de costas e até jogo-lhe as roupas para que possa vestir-se e sair.
Quero conversar com você.
- Está bem. Prometo.
Ele jogou as roupas e virou de costas.
Ela saiu bem devagar da água.
Pegou as roupas e foi se vestindo rapidamente.
Quando colocou o vestido, disse:
- Já estou quase pronta.
Ele notou que ela estava demorando.
Virou-se. Ela estava se preparando para fugir.
Ele se colocou a sua frente, dizendo:
- Você prometeu.
Só quero conversar, mais nada.
Ela percebeu que não havia como fugir.
- Se for só para conversar, eu fico.
- Eu só quero conversar.
Você está querendo outra coisa?
Ela ficou vermelha.
Baixou a cabeça.
- Eu não...
Ele se sentou e disse:
- Sente-se aqui.
Não se preocupe, não vou fazer nada.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:13 pm

Ela sentou-se meio receosa, mas o sorriso dele fez com que perdesse o medo.
Começaram a conversar.
Ele se lembrou dela quando criança.
Era muito pequena, não ia para a escola, mas seu irmão sim e brincava com Manequinho e ele.
Falaram de Pai Joaquim, das histórias que contava.
Ela foi aos poucos se desarmando.
Percebeu que ele só queria mesmo conversar.
Logo estavam rindo como se já se conhecessem há muito tempo.
Lembraram-se dos dentes e dos olhos de Manequinho o começaram a rir.
Quando pararam de rir, ficaram se olhando, um se vendo reflectido nos olhos do outro.
Foram se aproximando como se houvesse um ímã puxando-os e beijaram-se.
Entregaram-se àquele beijo caloroso.
Quando se soltaram, ela quis fugir, mas ele a segurou, dizendo:
- Não precisa fugir.
Não estrague este momento que foi tão bonito.
Nada mais vai acontecer, nada que você não queira.
Sei que vem aqui sempre.
Amanhã, à mesma hora, virei também.
Se quiser me ver, venha.
Ficarei muito feliz.
Ela não respondeu.
Correu, montou no cavalo e foi embora.
Ele continuou ali parado, olhando a água.
Tirou as roupas e foi nadar.
Nadou por muito tempo. Saiu, vestiu-se.
Deitou-se na grama e ficou pensando em Divina.
"Realmente é linda!"
Durante o jantar, ela servia a mesa, mas fazia de conta que nada havia acontecido.
"Sei que ele é o senhor.
Sou uma simples negra, mas o que vou fazer?
Não consigo deixar de pensar nele nem por um minuto.
Não. Não irei amanhã.
Bem que gostaria, mas não irei."
No dia seguinte, Felipe acordou e foi directo para a cozinha.
Ela estava lá.
Tonha, ao vê-lo, perguntou:
- U sinhozinho qué arguma coisa?
Tá fartando arguma coisa na mesa?
- Não. Não está.
Só queria ver se há café quente.
O da mesa está um pouco frio.
- Cumo frio?
Cabei di mandá a Divina levá.
Ocê num levô u café, Divina?
Divina, que sabia qual era a intenção dele, riu respondendo:
- Desculpe, Tonha.
Você mandou, mas me distraí e esqueci.
- U sinhozinho pode i lá pra sala.
A Divina já vai levá.
- Tudo bem. Vou para a sala.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:13 pm

- Pode i. U café já vai.
Pur favo, num fala pra sinhá Rosa Maria qui u café tava frio.
- Não se preocupe, não vou falar nada.
Foi para a sala e começou a comer.
Divina trouxe o café.
Colocou o bule sobre a mesa.
Felipe não falou nada, nem sequer olhou para a escrava.
Ela, disfarçando seu nervosismo, saiu e voltou para a cozinha.
Durante o resto do dia, ficou nervosa.
Tonha percebeu.
- Qui ocê tem, minina?
Parece qui viu u diabo.
- Não tenho nada.
Só não estou me sentindo muito bem.
- Tá bão. Dispois qui servi u armoço, pode i imbora.
Hoje num percisa vortá.
Ieu falo cum a sinhá.
Ela mi ruma outra pra mi judá fazê a janta.
Manhã, quando já tive boa, ocê vorta.
Toma um chá i discansa.
- Não precisa, Tonha.
Vou e volto, como todos os dias.
- Num vorta, não.
Pra ficá cum essa cara di quem viu u diabo?
Num vorta, não. Ocê num é ansim.
Tá sempre brincando cum ieu.
Deve di tá duente memo.
É mió tumá um chá e discansá.
Manhã ocê vorta.
Depois que o almoço foi servido, Divina lavou a louça, como todos os dias, deixou tudo arrumado e foi para casa.
Estava ansiosa e nervosa.
Ele não olhou para ela o dia inteiro.
Fez de conta que ela não existia.
"Será que ele está lá no rio?
Não. Eu não quero saber.
Ele é o senhor, eu sou escrava.
Eu disse a ele ontem que não iria, e não irei."
Foi caminhando.
Não conseguia parar de pensar nele.
"Não irei.
Quem ele pensa que é?
Ficar olhando enquanto eu estava nadando... depois me dar aquele beijo... é um atrevido!
E isso que ele é. Não irei."
Continuou andando:
"Vai ver ele nem está lá.
Fez tudo aquilo só para brincar comigo, porque é o senhor”.
Chegou em casa e conversou com a mãe como todos os dias.
Mas a mãe percebeu que alguma coisa estava errada.
- Qui foi, minina?
Tá nirvosa pru quê?
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:13 pm

- Não estou nervosa, só cansada.
Com muito calor.
Foi para dentro de casa e deitou-se.
"Será que ele estava só brincando?
Será que está lá me esmerando?
Eu poderia ir e ficar de longe só olhando.
Só para ver se ele está lá."
Levantou-se e falou com a mãe:
- Mãe, vou cavalgar um pouco. Volto logo.
A mãe não respondeu.
Já estava acostumada com os passeios que ela dava.
Divina montou no cavalo.
"Vou ficar só de longe olhando, como ele fez comigo."
Fez o cavalo correr muito.
"Preciso chegar logo.
Será que ele já foi embora?"
Chegou ao alto e olhou para baixo.
Ele estava lá sentado, olhando a água que corria tranquila.
"Ele é muito bonito.
Sempre gostei dele, desde criança, quando o via brincando com meu irmão.
Nunca brincou comigo porque eu era muito pequena.
Acho que sempre o amei.
Agora, sou adulta, não posso me enganar.
Ele também é adulto, meu senhor e dono.
Só está querendo brincar."
Ele, sentado perto da água olhando os pequenos peixinhos que nadavam em uma dança compassada, tentava lembrar-se dela, de como era quando pequena.
Não conseguia.
"Naquele tempo, eu só queria brincar com crianças de minha idade.
Hoje é diferente.
Ela se tornou uma linda moça.
Será que virá?"
O cavalo relinchou.
Ele olhou para cima e sorriu.
Ela percebeu que ele a vira.
Quis fugir, mas não conseguiu.
Uma força maior fê-la ficar parada e estática.
Ficou ali, parada, olhando para ele.
- Não vai descer?
Eu já estava indo embora.
Como uma autómata sem resistência, foi descendo devagar.
Quando estava a um metro de distância, ele se levantou.
Não disse nada, só abriu os braços.
Ela parou, ficou olhando e pensando:
"Esses braços me esperando.
Esses olhos me procurando.
Eu também o desejo."
Sem pensar muito, atirou-se nos braços dele, que a segurou com carinho e muito amor.
Olhos nos olhos, braços nos braços, boca na boca.
Naquele beijo, não havia desejo carnal, só um imenso amor, como se fosse um reencontro.
Ficaram beijando-se por um longo tempo, nenhum dos dois queria parar.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:14 pm

Sem uma palavra, sem nada, os corpos foram amolecendo, foram caindo, ajoelharam-se, deitaram-se.
Foi um momento mágico.
Não existia escrava ou senhor, só um grande amor.
Para os dois, não havia empecilhos, preconceitos ou consequências.
Naquele momento só existiam os dois no mundo.
O barulho da água correndo pelo rio.
Um acariciando o outro, devagar, suavemente.
Entregaram-se ao desejo e ao amor.
Amaram-se com toda a força que só um amor sincero e divino pode ter, um amor sincero e eterno.
Quando terminaram, ficaram calados.
Um nos braços do outro, só olhando para o céu, que estava brilhante, aquecendo aquele amor.
Ficaram calados.
Não sentiam necessidade de falar.
Sabiam que, no momento em que uma palavra fosse dita, aquele encanto acabaria, desapareceria.
Ficaram deitados parados.
As mãos dele acariciando o rosto dela, que estava com a cabeça deitada no peito dele e com as mãos acariciando seu corpo.
Não havia mais desejo, só a vontade de ficarem assim deitados, calados.
Depois de algum tempo ela começou a voltar à realidade, a pensar nas consequências.
Voltou à sua lembrança que ele era o senhor e ela, a escrava.
Seus olhos encheram-se de lágrimas.
Levantou a cabeça, olhou em seus olhos.
- Senhor, o que fizemos?
- Amamo-nos.
Fizemos exactamente o que queríamos.
Entregamo-nos a um sentimento maior.
- E agora? Não podíamos ter feito isso.
- Não podíamos mesmo, mas fizemos.
Adorei. Eu a adoro.
Quero você para sempre.
Para sempre.
Por toda a minha vida.
- Sou sua escrava.
- Nesta fazenda, não existem escravos.
Mesmo assim, não a quero como escrava.
Quero-a como esposa, como a mãe de meus filhos.
Ela se afastou rapidamente.
- O senhor está louco?
Seus pais nunca vão concordar.
Sou negra. Sou escrava.
- Pare de me chamar de senhor! - disse, nervoso.
Você não é escrava! Não é negra!
Só é a mulher que amo e que quero para mim.
Quanto a meus pais, eles não têm preconceito.
Vão aceitá-la porque só querem minha felicidade, e minha felicidade, no momento, é você!
Não se preocupe, vou falar com eles.
Tudo vai dar certo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:14 pm

- Você acredita nisso?
- Não só acredito como tenho certeza.
- Deus queira que tenha razão.
- Não se preocupe. Venha aqui.
Ela se chegou mais para perto dele, que a beijou suavemente.
Ficaram assim abraçados por muito tempo.
Começou a escurecer.
Ela parou, pensou e falou:
- Meu Deus! Não voltei para ajudar Tonha.
E agora?
- Agora nada.
Hoje mesmo, após o jantar, vou falar com meus pais.
Quero me casar logo.
- É mesmo louco.
- Louco por você.
Beijou-a novamente e voltaram juntos.
A mãe de Divina, quando os viu chegando, pensou:
"Meu Xangô, isso num vai dá certo.
Protege a mia fia.
Num dexa ela sufrê.”
Felipe foi para casa.
Estava feliz porque encontrara a mulher de sua vida.
Falaria com os pais e casar-se-ia em breve.
"Como a vida é maravilhosa!
Sou o homem mais feliz do mundo!"
Após o jantar, na varanda, conversavam como todas as noites.
- Mamãe, papai, quero comunicar aos dois que vou me casar.
- Casar?
- Sim. Encontrei a mulher de minha vida.
Eu a amo. Sei que seremos felizes.
- Isso é uma surpresa.
Mas, se acha que vai dar certo, se está feliz, então também estamos.
Ela está na Inglaterra?
- Não, não a encontrei na Inglaterra, papai.
Conheci-a aqui mesmo.
- Aqui na fazenda? Mas quem é?
Por mais que eu pense, não consigo adivinhar. - perguntou Rosa Maria.
- É Divina, mamãe. Eu a amo.
Ouviu-se o barulho de algo caindo.
Divina, que vinha entrando, trazendo uma bandeja com café.
Ao ouvir aquelas palavras, deixou a bandeja cair.
Rodolfo levantou-se, nervoso.
- Você está louco?
Ela é uma negra!
Uma serviçal aqui em casa.
- Não me importa sua cor!
É a mulher que amo.
Vai deixar de ser serviçal.
Vai ser minha esposa.
- Esposa?! Esposa? Está louco?
- Calma, Rodolfo, vamos ouvir primeiro o que ele tem a dizer.
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Ave sem Ninho

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:14 pm

- Não vai dizer nada!
Não gastei uma fortuna para que fosse estudar na Inglaterra e agora jogar tudo para o alto casando-se com uma negra! -Rodolfo disse, gritando.
- Eu a amo, papai.
Quero-a para mim...
- Você quer? Você quer?
Pois a tome!
Um branco não precisa se casar para ter uma negra.
Basta, simplesmente, pegá-la.
Você é branco.
Acorde! Você é branco!
- Sei que sou branco.
Sei que poderia tomá-la.
Mas não quero. Eu não a desejo.
Eu a amo. Quero me casar.
O senhor nunca teve preconceito.
Há muito tempo já deu carta de alforria, já libertou os escravos, sempre os tratou bem...
- Isso é diferente.
Dar carta de alforria e libertá-los não quer dizer que vou querer misturar meu sangue com o deles!
Imagine, eu com um neto negro levando meu nome.
Nunca! Farei qualquer coisa para impedir esse casamento.
Rosa Maria, ao ouvir Rodolfo falando aquilo, não suportou.
- Tudo o quê, Rodolfo?
O que vai fazer? Mandar matar?
Sequestrar? Estuprar?
Não quero nem posso acreditar que estou ouvindo isso de sua boca.
Logo de você, que sabe muito bem a desgraça que aconteceu nesta casa pela intransigência de seu pai.
Esqueceu-se de Maria Luísa, Tobias, de mim e de nós dois?
Sempre o amei, mas, a partir deste momento, vou começar a odiá-lo!
Felipe, meu filho, sei que no coração ninguém manda.
Mas se ama essa moça como diz, leve-a para bem longe daqui.
Antes que seu pai tenha tempo de planear alguma maldade contra ela e contra você.
Nervosa, chorando de ódio, saiu correndo, foi para o quarto e jogou-se na cama, relembrando tudo o que havia acontecido no passado.
"Oh, meu Deus!
Não acredito que tudo esteja acontecendo novamente.
Proteja meu filho.
Proteja essa moça.
Proteja-nos todos para que mais uma desgraça não se abata sobre nós.
Pai Joaquim, por favor, de onde estiver, peça a seu Xangô que nos proteja."
Cansada de tanto chorar, adormeceu.
Tobias chegou no momento em que Rosa Maria começara a falar.
Ele tinha ido conversar a respeito da ida dele e de Felipe para o Rio de Janeiro.
Depois que Rosa Maria saiu nervosa, Rodolfo saiu da varanda, montou no cavalo e saiu, cavalgando, em disparada.
Tobias olhou para Felipe e perguntou:
- Você está pensando o mesmo que eu?
Quem foi Tobias?
Quem foi Maria Luísa?
Por que tenho esse nome?
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Ave sem Ninho

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:14 pm

Porque tenho essa cor?
O que aconteceu no passado?
Quem sou eu?
- Não sei, mas aconteceu algo.
Pela reação de mamãe, foi algo muito grave.
A música de Sergei começou.
- Tobias, não sabemos, mas alguém sabe. Vamos até lá.
Saíram e foram até a tenda de Sergei e Zara.
Eles não quiseram morar dentro da casa-grande.
Continuaram em sua tenda.
- Olá, meninos.
Vieram ouvir minha música?
- Também, Sergei.
Mas viemos conversar.
Como conheceram minha mãe?
O que aconteceu aqui no passado?
Os dois olharam-se.
Sergei perguntou:
- O que está querendo dizer?
O que aconteceu para que me fizesse essa pergunta?
Felipe contou tudo a eles, tudo que Rosa Maria havia falado naquele momento de revolta.
Zara olhou para Sergei e disse:
- Felipe, meu filho.
Sabe que o amamos como se fosse nosso filho.
Existe uma história, sim.
Só que não é nossa.
Um dia, juramos que nunca contaríamos a você, nem a ninguém.
Sua mãe sem querer abriu a ferida.
Mais cedo ou mais tarde isso aconteceria.
Só ela poderá fechar.
Hoje, não adianta falar nada.
Estão todos muito nervosos.
Vamos todos dormir, amanhã conversaremos.
Prometo que sua mãe contará tudo.
Estarei ao lado dela.
- E eu? Quem sou eu?
Quem foram Tobias e Maria Luísa?
- Você também vai agora para sua casa, Tobias.
Amanhã saberá de tudo.
Só tem que dormir e saber que foi muito amado por sua mãe e por seu pai.
Vão, meus filhos, procurem não pensar em nada.
Sempre há uma verdade, mas sempre também há uma explicação.
Zara beijou os dois, passando a mão por suas cabeças num gesto de extremo amor.
Eles a beijaram e foram embora.
Sergei voltou para seu violino, só que a melodia agora era triste e dolente.
Os dois rapazes foram andando em silêncio, ouvindo a melodia.
O céu estava estrelado; a lua, crescente.
Ouvia-se o barulho da noite:
grilos cantavam, vaga-lumes dançavam com suas luzes brilhantes.
- Felipe, o que vamos fazer?
- Conheço Zara desde que nasci.
Confio no que falou.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 8:14 pm

Amanhã, saberemos tudo.
Hoje, vamos tentar dormir.
Despediram-se.
Cada um foi para sua casa.
Felipe foi até o quarto da mãe.
Ela dormia profundamente.
Tinha um sorriso nos lábios.
- Deve estar sonhando, não irei acordá-la.
Ela estava novamente sentada naquela pedra com o vestido rosa, jovem e bonita como antes.
- Felipe, sei que você está aqui.
Há quanto tempo não o via...
Ela voltou os olhos em direcção à água.
Lá estava ele, sorrindo, e lindo como sempre.
Não saiu da água.
De longe, falou:
- Mais uma vez tem que ser forte.
Mais uma vez terá que ajudar aqueles que ama.
Mais uma vez terá que usar sua sabedoria e seu amor.
- Porque, nunca mais, sonhei com você?
- Porque não precisou de força.
Estava tudo bem, mas estive a seu lado todo esse tempo.
Acompanhei todos os seus passos.
Você não me via, mas eu sempre estive aqui, porque a amo.
Ela tentou levantar-se para ir ao encontro dele, mas não conseguiu sair do lugar.
Acordou com uma sensação de felicidade e de paz.
Abriu os olhos.
Já amanhecera.
Olhou para o lado.
Rodolfo não estava lá, não dormiu em casa.
Levantou-se e olhou por todo o quarto.
Ele não estava.
Foi ao quarto de Felipe, temendo que alguma coisa tivesse acontecido.
Ele dormia tranquilo.
Foi para a cozinha.
Tonha estava junto ao fogão, abanando as brasas.
- Bom dia, Tonha.
- Bons dias, sinhá. Cordô cedo.
- É, acordei.
Onde está Divina?
- Ela num veio trabaiá.
Mais fui ieu quem falo pra ela num vim.
Acho qui ela tá duente.
Só chora. A sinhá qué café?
- Sim. Por favor, leve até a varanda, mas só café.
Saiu da cozinha, foi até a varanda e sentou-se, pensando:
"Alguma coisa grave vai acontecer.
Há muito tempo não sonha com Felipe.
Agora, percebo: durante todos esses anos, nada de mal me aconteceu.
Se ele voltou, é porque tenho que estar preparada.”
Começou a olhar à sua volta.
As montanhas e as árvores floridas.
Ao longe, lá no alto do morro, todas aquelas cruzes.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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