QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Página 10 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 9, 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:30 pm

Relembrou:
"Tobias era tão tímido, com medo.
Maria Luísa piscando para mim cada vez que achava uma solução para seus problemas, quando conseguia encontrar um meio de ver Tobias.
Dom Carlos fazendo todas aquelas maldades comigo.
Os dias que fiquei perdida na mata.
Os ciganos.
Como fiquei horrorizada quando soube estar esperando um filho daquele monstro.
Quanta emoção senti quando vi Felipe recém-nascido em meus braços.
O ódio que senti durante todos aqueles anos.
O ódio que me fez voltar.
O sentimento de ódio, vingança e a pena que senti quando vi Dom Carlos naquele estado, o amor de Felipe por aquele monstro."
Tudo estava voltando à sua mente.
Ela tremia como estivesse acontecendo tudo novamente.
Sentiu medo.
"Não deixarei tudo acontecer de novo.
Vou pegar Felipe e Divina.
Falarei com Zara e Sergei e iremos embora.
Vamos nos encontrar com Igor e os ciganos.
Lá os dois serão livres e felizes.
Nunca mais quero ver Rodolfo!"
Sentiu um perfume de rosas.
Olhou para os lados, perguntou:
- Felipe, você está aqui?
Pareceu ouvir a voz dele.
- Estou sempre a seu lado.
Lembre-se, agora, do amor.
Do amor, minha querida.
- Felipe, não vá embora, fique comigo.
- Estou aqui, mamãe.
Não vou embora.
Ela olhou para trás.
Felipe, seu filho, estava lá e falando com ela.
- Bom dia, meu filho.
Estava pensando em voz alta.
- Percebi.
Não sairei nunca de seu lado, não se preocupe.
Mamãe, eu a conheço e sei que está preocupada.
Quero e preciso saber o que aconteceu aqui.
Quem foi Tobias?
O que aconteceu realmente com minha tia Maria Luísa?
Por que a senhora não gostava do vovô?
- Não, meu filho, não precisa saber de nada.
O importante é você salvar e proteger essa moça.
Se tem certeza de que a ama, lute por ela, fique com ela.
- Eu preciso saber.
- Não. Você não precisa.
Vamos embora desta fazenda.
Não quero mais ver seu pai.
Sentiu novamente o perfume de rosas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:30 pm

Olhou para Felipe e perguntou:
- Meu filho, está sentindo esse perfume?
- Que perfume, mamãe?
Não estou sentindo nada.
Pareceu que ouvia a voz dele novamente.
- Lembre-se do amor, minha querida, do amor.
Pensou um pouco.
Relembrou Rodolfo.
Ela o amava, sempre o amou.
- Está bem, meu filho. Vou contar tudo.
Só que não vai ser agora.
Seu pai não dormiu em casa.
Sabe onde está?
Que mais ele lhe falou ontem quando saí?
- Só me olhou.
Não disse nada.
Ficou com os olhos parados como se estivesse lembrando ou vendo alguma coisa.
Ficou branco como cera.
Perguntei quem era Tobias e o que havia acontecido com Maria Luísa, com a senhora e com meu avô.
Ele me olhou como se voltasse de longe.
Montou no cavalo e foi embora.
Não sei para onde.
- Talvez eu saiba.
Vou tentar encontrá-lo.
Deus queira que o encontre.
Viu a charrete na frente da casa.
Subiu e foi em busca de Rodolfo.
Felipe ficou olhando-a sair naquele desespero.
"Que tragédia deve ter acontecido aqui?
Como disse Zara:
‘A ferida está aberta.’
Tonha aproximou-se:
- U sinhozinho vai tumá café?
- Não. Onde está Divina? Peça para ela vir até aqui.
- Ela num tá, não. Num veio hoje.
Tá tudo mundo preguntando pur ela.
Qui foi qui essa minina feiz di errado?
Felipe soltou uma gargalhada.
- Só nasceu, Tonha.
Graças a Deus, ela nasceu.
Tonha não entendeu nada.
- Tá tudo mundo loco.
- Tonha, você sabe o que aconteceu aqui no passado?
Conheceu minha tia Maria Luísa?
Ela sabia.
Era pequena quando tudo aconteceu.
Os negros mais velhos sempre contavam como e por que tinham recebido a carta de alforria.
- Num sei, não, sinhozinho.
Era muito piquena, tinha só deiz ano.
Felipe percebeu que ela sabia alguma coisa, mas não queria contar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:30 pm

Não insistiu.
Ficou sentado, olhando tudo.
Lá no alto do mono, as cruzes.
- Quantas coisas devem ter acontecido que resultaram naquelas cruzes?
Vou descobrir. Vou descobrir.
Mas agora vou procurar Divina.
Onde estará?
Que estará sentindo?
Estava pensando nisso quando Tobias chegou.
Estava abatido, com aparência de quem não havia dormido.
- Que cara é essa, Tobias?
Não dormiu?
- Não, Felipe.
Fiquei conversando com meu pai, tentando saber tudo.
- E então? Ele falou alguma coisa?
- Não. Disse que é uma longa história e que chegou a hora de tudo ser esclarecido, mas só vai falar depois de conversar com seu pai e sua mãe.
- Está bem. Já que não podemos fazer nada, vamos esperar.
Tenho certeza de que em breve saberemos tudo.
Agora, vou procurar Divina.
Felipe montou em seu cavalo, abanou a mão para o primo o foi embora.
Rosa Maria, com a charrete, dirigia-se até o rio para procurar por Rodolfo.
- Ele deve estar lá.
E o lugar que sempre procura quando está preocupado.
Chegou ao alto, no mesmo lugar aonde ele ia todos os dias quando pensou que ela havia morrido.
Foi lá também que se reencontraram.
Desceu da charrete e olhou para baixo.
Ele não estava.
Quem estava era Divina, com as mãos no rosto, chorando.
Rosa Maria foi até lá.
Perguntou:
- Divina, posso saber por que está chorando?
Divina virou-se.
Levantou-se rapidamente e falou chorando:
- Perdoe-me, sinhá.
Não sei como tudo aconteceu.
Não planeei nada.
Tudo aconteceu sem que eu percebesse.
Não se preocupe, tenho carta de alforria.
Irei embora.
- Irá para onde?
- Não sei.
Para bem longe daqui, principalmente para bem longe do sinhozinho.
- Você não o ama?
- Muito. Mas não tenho o direito de estragar a vida dele.
Sou uma negra.
Isso não posso mudar.
- Acha que indo embora vai resolver tudo?
Acha que ele vai ser feliz se perdê-la?
Não, minha filha, não vai fazer nada disso.
Vai ficar tranquila.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:30 pm

Se vocês se amam de verdade, tudo dará certo.
Há uma coisa que dizia Pai Joaquim.
Lembra-se dele?
Divina, com um sorriso entre lágrimas, acenou com a cabeça, dizendo que sim.
- Então, como ele dizia:
Xangô sabe o que faz.
Vamos confiar?
- A sinhá vai me aceitar?
- Claro que vou.
Se meu filho a ama, se ele vai ser feliz em sua companhia, só posso aceitá-la com todo o meu coração.
Abriu os abraços e abraçou-a.
Felipe chegou ao alto.
De onde estava, viu as duas.
Gritou:
- Mamãe! Divina!
Elas olharam para o alto e viram Felipe, que descia correndo para encontrá-las.
- Ainda bem que as encontrei.
Estava procurando as duas, mas nunca pensei encontrá-las juntas.
- É, meu filho, parece que este lugar é o preferido da família para se pensar, chorar e amar.
Eles olharam para ela sem entender muito bem do que estava falando.
- Divina, por que está chorando?
Rosa Maria respondeu:
- Porque é uma boba.
Porque o ama.
Divina ria e chorava.
- Sua mãe é maravilhosa.
Por isso estou chorando.
- Sei que ela é maravilhosa...
Sempre soube...
- E seu pai?
Ele nunca vai me aceitar.
- Esse problema não é de vocês.
É meu e de Rodolfo.
Por enquanto, fiquem aí conversando.
Vou tentar encontrá-lo.
- Sabe onde ele está?
- Não. Mas tenho certeza de que meu coração irá levar-me até ele.
Vou achá-lo.
Não sei se conseguirei convencê-lo a aceitar o amor de vocês.
Se eu conseguir, ficarão juntos com nossas bênçãos.
Se eu não conseguir, quero saber se vocês se amam mesmo.
Os dois abanaram a cabeça, dizendo que sim.
- Pois bem.
Já que se amam, nunca, mas nunca mesmo, duvidem desse amor.
E nunca duvidem um do outro.
Mesmo que as aparências possam demonstrar o contrário, nunca acreditem.
Acreditem sempre um no outro e no amor que sentem.
Vou embora, preciso achar Rodolfo.
Sorriu para os dois enquanto subia com o corpo erecto, forte, com o porte de uma rainha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:31 pm

- Que bela mulher é sua mãe!
- Não é só uma bela mulher.
É uma grande mulher, que aprendi a amar e confiar desde pequeno.
Sei que fará tudo por minha felicidade e, agora, pela sua também.
Os dois abraçaram-se.
Quando Rosa Maria chegou ao alto, virou-se e viu os dois lá embaixo, junto àquele rio de águas claras que corria mansamente.
Com uma mão, deu adeus; com a outra, mandou um beijo.
Subiu na charrete e pegou as rédeas.
Saiu procurando por Rodolfo.
Percorreu muitos lugares, perguntou aos vários negros que ia encontrando pelo caminho.
Foi até a lavoura. Nada.
Não o encontrava em lugar algum.
- Onde ele está?
Não foi para a cidade...
A carruagem está aqui...
Não iria a cavalo...
Continuou andando, procurando e perguntando. Nada.
Olhou à sua volta.
Lá estavam as montanhas coloridas, brilhantes pelo sol.
No alto do morro, via todas aquelas cruzes.
Ficou olhando, pensando:
"Lá estão às cruzes de todas as pessoas que viveram aquela tragédia.
Com certeza, todos devem estar no céu, até Dom Carlos, que teve tempo para se arrepender.
Se estiverem me ouvindo, ajudem-me a encontrar Rodolfo.
Ajudem-me a convencê-lo a aceitar Divina.
Ela é o amor de meu filho."
Sentiu uma suave brisa tocar em seu rosto.
Estremeceu. Virou a charrete e foi para lá.
Rodolfo havia mandado construir uma estrada que levava ao morro, para facilitar o acesso.
Ela levaria mais ou menos cinco minutos para chegar ao alto.
Ao chegar, viu à sua frente, perto das cruzes, o cavalo de Rodolfo.
Desceu da charrete e continuou andando a pé devagar.
Rodolfo estava sentado com a cabeça nos joelhos, junto à cruz de Maria Luísa.
Ele não viu Rosa Maria chegar.
Só percebeu quando ela se sentou a seu lado e ele levantou a cabeça.
Seus olhos encontraram-se.
Ele estava com os olhos vermelhos e inchados, como se tivesse chorado por muito tempo.
Ficaram em silêncio, só olhando-se.
Por fim ele perguntou:
- Como me encontrou aqui?
- Não vim procurá-lo.
Vim apenas rezar e pedir a todos eles, que nos ajudassem.
- Também vim aqui não para rezar, mas para pedir perdão.
Principalmente para minha irmã.
Abraçou-se a ela chorando.
Ela, por sua vez, também chorava.
- Como consegui esquecer tudo aquilo, Rosa Maria?
Como pude ouvir minha boca dizendo todas aquelas barbaridades?
Como vou poder olhar novamente para Felipe?
Rosa Maria pegou a cabeça de Rodolfo com as mãos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:31 pm

Levantou-a, ficando assim olhando em seus olhos, e falou:
- Pare com todos esses "comos".
Porque também tenho alguns.
Como pôde, durante toda a nossa vida, ser um homem maravilhoso?
Como pôde ser, durante todo esse tempo, um homem amado por todos os negros?
Como pôde ser, durante todo esse tempo, um homem amado por mim e por seus filhos?
Como pôde aceitar e amar Felipe como se fosse seu filho?
Eu mesma respondo.
Porque é amado por seus filhos, principalmente por Felipe.
Porque é amado por seus escravos.
Porque é meu amor, meu marido, a quem amei ontem, amo hoje e amarei enquanto viver, talvez até depois de minha morte.
Por último, porque é e sempre foi um homem de bem.
Abraçaram-se e beijaram-se.
Uma suave brisa, um perfume de rosas envolveu-os. Separaram-se.
Ela olhou bem dentro de seus olhos e perguntou:
- Tem certeza de que vai aceitar o amor dos dois?
Está sendo sincero?
Não está mentindo para mim?
- Não. Não estou mentindo.
Tive muito tempo para pensar.
Não posso nem devo envolver-me na vida de Felipe.
Se ele a escolheu, será por mim recebida como se fosse minha filha.
- Rodolfo, olhe para mim.
Seu pai também me disse que eu seria como sua filha.
- Que é isso?
Está pensando que estou fingindo e mentindo como meu pai fez?
Que, como meu pai, vou preparar uma armadilha?
Está louca?
Não me conhece?
- Perdoe-me. Não devia ter desconfiado, muito menos perguntado.
Mas, por um instante, pareceu-me ver seu pai falando.
Rodolfo, com os olhos vermelhos, olhando-a bem dentro dos olhos, disse:
- Quando você me disse todas aquelas coisas, foi como se tivesse acordado.
Fiquei sem saber o que fazer.
Montei no cavalo, saí cavalgando e pensando.
Depois, vim para cá buscar as lembranças que havia esquecido.
Revi a tudo e a todos.
Senti tudo novamente como se estivesse acontecendo agora.
Não, meu amor.
Não vou fazer nada.
Como dizia Pai Joaquim, Xangô trabalha com seu machado.
Vamos voltar para casa.
Vou falar com Felipe.
Vou dar minha bênção.
- Sabia que você não podia ser aquele monstro que disse todas aquelas coisas.
Você é bom e sensível, jamais poderia ter dito tudo aquilo.
Só há mais uma coisa.
Receio que agora teremos que fazer mais do que falar.
Felipe sempre soube que houve alguma coisa no passado, e agora, depois de tudo que houve e o que falei, ele tem certeza e quer saber.
Não poderemos escapar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:31 pm

- O machado de Xangô está trabalhando, Rosa Maria.
Vamos facilitar para ele.
Ah ah ah!
Abraçaram-se, rindo.
Rodolfo amarrou o cavalo na charrete e foram juntos, abraçados.
Antes de sair, Rosa Maria olhou para as cruzes e emocionada, pensou:
"Obrigada. Obrigada a todos."
Voltaram juntinhos.
Pareciam um casal de adolescentes que haviam se encontrado pela primeira vez.
Ao chegarem aquele ponto do rio onde ela havia deixado Felipe e Divina, Rodolfo parou a charrete e olhou para Rosa Maria.
Rindo, os dois desceram e foram até a margem.
Felipe e Divina não estavam mais lá.
Sentaram-se na grama e ficaram olhando para o rio.
Rodolfo abraçou-a.
Respirou fundo, falando:
- Estou sentindo-me tão bem. Livre.
Como se acordasse de um pesadelo.
Tudo isso graças a você, a mulher que amo.
Ela, rindo, abraçou-o com mais força e jogou-o para trás.
E, naquele lugar mágico, amaram-se como há muito tempo não faziam, parecendo dois recém-casados.
Voltaram para casa, abraçados e felizes.
Felipe continuava na varanda, preocupado com os pais, que haviam saído e ainda não haviam voltado.
Pensava:
"O que terá acontecido no passado?
Por que mamãe falou daquela maneira com papai?
Por que ele sumiu?
Onde estarão agora?
Por que mamãe nos disse para nunca desconfiarmos um do outro?"
Viu ao longe a charrete chegando.
Rosa Maria desceu rapidamente e correu para abraçá-lo.
- Mamãe, conte-me o que aconteceu.
- Nada aconteceu, meu filho.
Só redescobri que seu pai é o amor de minha vida.
Felipe, sem entender nada, olhou para o pai, que sorria para ele, como fazia antes, como sempre fez.
Rodolfo, de cima da charrete, perguntou:
- Ela não é linda, Felipe?
Sentindo que tudo estava bem, Felipe sorriu e respondeu:
- É, sim, papai, mas o senhor também é.
Foi para junto do pai, que desceu da charrete, e abraçaram-se.
Rosa Maria sentiu um nó na garganta, só que desta vez foi de alegria.
Entraram em silêncio.
Divina estava na cozinha, limpando algumas verduras.
Não queria ter voltado para casa com Felipe, mas ele insistiu.
Aceitou, mas não ficaria com ele.
Assim que voltaram do rio, ela foi para a cozinha.
Rodolfo, Rosa Maria e Felipe foram para a sala.
Sentaram-se, Rodolfo perguntou:
- Onde está aquela moça?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:31 pm

Como é mesmo o nome dela?
- Divina, papai.
Ela está na cozinha.
- Vá chamá-la.
Precisamos conversar, e é bom que ela esteja presente.
Rosa Maria voltou a olhar para o marido, pensando:
"Voltou a ser aquele homem sério de sempre.
Com essa firmeza, fez com que a Fazenda Maria Luísa se tornasse a mais rica da região.
Gosto de vê-lo assim, forte dono da situação.
Aquele que sabe e resolve tudo.
Já tomou uma decisão, agora só vai comunicar.
Não vai permitir que ninguém o interrompa.
Hoje no morro, depois no rio, estava desarmado.
Não precisou mostrar essa aparência de dono da situação.
Entregou-se, mostrou como realmente é.
Esse homem maravilhoso que tanto amo."
Felipe voltou, trazendo Divina pela mão.
Trémula, com os olhos baixos.
Rodolfo puxou uma cadeira, dizendo:
- Sente-se aqui, por favor.
Ela sentou-se.
Ele continuou:
- Primeiro levante os olhos enquanto eu estiver falando.
Ela levantou os olhos e encarou-o.
- Isso mesmo.
Assim é que deve ser.
Gosta de meu filho?
Divina olhou firme para ele e, com a voz firme, respondeu:
- Muito.
- Pois bem.
Parece que ele também gosta muito de você.
Vamos ser práticos.
A princípio, eu não quis aceitar, porque, embora para mim não haja diferença, você é uma negra.
Felipe quis se levantar e falar, mas Rosa Maria segurou com as mãos e com os olhos.
Ele se acalmou.
Rodolfo, sem tirar o olhos de Divina, continuou:
- Você é uma negra.
Se para meu filho isso não tem importância, para mim também não terá.
Mas, infelizmente, para a sociedade há uma diferença enorme entre brancos e negros.
Felipe voltou com um diploma com o qual vai para o Rio de Janeiro trabalhar.
Se chegar lá com uma esposa negra, certamente não será aceito nem respeitado.
Olhou agora para Felipe:
- Já pensou nisso?
Não será respeitado.
Pior ainda será para Divina, que será ignorada e tratada como uma negra.
Há lugares em que não poderá entrar, mesmo acompanhada por você.
Já pensaram nisso?
Aqui na fazenda, o negro é tratado como um homem livre, mas é apenas aqui.
Somos um grão de arroz neste imenso Brasil.
Fora daqui, o negro é negro e como tal é tratado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:32 pm

Como será a vida de vocês?
Olharam-se entre si.
Divina nasceu na fazenda, nunca sentiu o preconceito.
Rodolfo e Felipe conheciam-no, e muito bem.
Embora tendo estado fora por muito tempo, sabia que o pai estava sendo duro, mas tinha razão.
Começou a pensar nas várias ocasiões em que presenciou negros sendo humilhados.
Não. Não queria aquilo para ela.
Não suportaria vê-la em situação de constrangimento.
O silêncio caiu.
Ninguém falava nada, cada um com seus próprios pensamentos.
Rosa Maria entrou na conversa:
- Seu pai tem razão, Felipe.
Jamais seriam felizes.
Divina procurou argumentar:
- Eu amo Felipe.
Suportaria qualquer coisa para ficar com ele.
- Está bem. Já pensaram?
Estou aberto a uma solução.
- Eu a amo, papai.
Vou protegê-la de tudo e de todos.
- Vai mantê-la trancada dentro de casa?
Acha que ela será feliz vendo-o sair sem poder acompanhá-lo?
- Tem razão, Rodolfo - disse Rosa Maria.
Jamais seriam felizes indo para o Rio de Janeiro, mas eles não precisam ir.
Podem ficar aqui.
Felipe poderá ajudá-lo a cuidar da fazenda.
- Depois de tudo que estudou, Rosa Maria?
E o projecto da abolição? Da República?
- Quem tem que decidir é ele.
Que acha, Felipe?
- Estava pensando exactamente isso.
Não irei para o Rio.
Tobias irá com Aninha e cuidará do escritório.
A abolição está próxima.
Quando essa coisa horrível terminar, quando os negros forem iguais aos brancos, aí iremos para lá.
Posso fazer meu trabalho junto aos fazendeiros, enquanto Tobias trabalha com os abolicionistas.
- Não, isso não é justo -discordou Divina.
Não posso aceitar.
O senhor não pode estragar sua vida por minha causa.
Vá para o Rio. Ficarei aqui.
Quando puder, voltará para me ver.
Seu pai tem razão.
Se eu fosse junto, só iria atrapalhar.
Quando puder, volte, estarei aqui.
Como disse, a abolição vai chegar logo.
Ficarei aqui esperando.
- Não. Não vou me separar de você!
Não vou ficar longe! Felipe disse, quase gritando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:32 pm

- Ela tem razão, meu filho - disse Rosa Maria.
Para que possam ficar juntos em paz e para sempre, é preciso que venha a abolição.
Para que a abolição chegue, é necessário que homens como você lutem.
Ela ficará comigo.
Sabe que cuidarei muito bem dela.
Rodolfo falou sorrindo:
- Só que há uma condição.
Ela ficará aqui.
Sua mãe cuidará dela, mas antes de partir terão que se casar.
O que acham?
Rosa Maria e Felipe pularam em cima de Rodolfo.
Divina ficou rindo, sem se atrever a chegar perto.
Rosa Maria puxou-a e os quatro abraçaram-se.
Rodolfo estava bem, mas tinha sérias dúvidas a respeito do preconceito.
Só em pensar que Felipe poderia ter um filho negro, um neto seu, ficava apavorado.
Como poderia chegar a seus amigos o dizer "Este é meu neto"?
“Nunca mostrarei essa criança a ninguém, Nunca!
Não farei nada para interferir no amor dos dois, como fez meu pai, mas também não sairei pelo mundo dizendo que meu filho casou-se com uma negra!
Sinto muito, mas não conseguirei!”
Enquanto os quatro abraçavam-se felizes por tudo ter terminado bem, Tobias, Celeste e José chegaram.
Vieram para falar a respeito do passado.
Rosa Maria cumprimentou-os.
José estava tenso o nervoso.
Não sabia qual seria a reação do filho.
Felipe pediu a um escravo que fosse chamar Zara e Sergei.
Sabia que eles haviam feito parte da história.
Pouco depois, chegaram.
Os mais velhos entreolharam-se.
Celeste também não conhecia a história.
Divina percebeu que um assunto grave iria ser tratado ali.
Quis ir embora, mas Rosa Maria não deixou:
- Você vai fazer parte da família.
Em uma família não pode haver segredos.
Por mais bem guardados que fiquem, um dia revelam-se por si só.
Divina sentou perto de Felipe. Rodolfo perguntou:
- Quem vai começar? Pode ser eu.
- Não, Rodolfo.
Tobias é meu filho, devo começar.
Tobias, meu filho, vamos neste momento quebrar um juramento que fizemos a sua mãe, Isabel.
Tudo aquilo de que você está desconfiado é verdade.
Não é nosso filho verdadeiro.
Tobias ficou sério:
- Como não?
Quem são meus pais?
Quem sou eu?
- Espere, José - interrompeu Rosa Maria.
Não adianta contar as coisas pelo fim.
Tobias, você não é filho de Isabel e de José.
Mas foi sempre amado por eles.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:32 pm

E muito, mas muito mesmo, por seus verdadeiros pais.
Vou contar uma história para vocês.
É a história de nossas vidas, de nós todos.
Contarei desde o começo.
Aí você entenderá tudo.
Rosa Maria contou toda a verdade. Desde o começo, em Portugal.
Os meninos escutavam-na com atenção.
Rodolfo, algumas vezes, saiu de perto.
A história de Maria Luísa e Tobias era a que mais interessava a Tobias.
Rosa Maria só não contou que Felipe era filho de Dom Carlos, mas falou do estupro, de como foi acolhida por Zara e Sergei, como Felipe nasceu no acampamento cigano.
Quando terminou de contar, não estava chorando.
Estava lívida, parecendo ter tirado dos ombros um grande peso.
Tobias chorava como se fosse criança.
Um homem não podia chorar, mas, naquele momento, ele não era um homem.
Era simplesmente alguém que se descobre, que entende muitas coisas:
sua cor, seus olhos...
Felipe, lembrando-se do avô, perguntou:
- Como ele pôde fazer tudo aquilo?
Como pôde fazer tanta maldade?
Olhou para o pai e perguntou, assustado:
- O senhor não está pretendendo me afastar de Divina, está?
- Não, meu filho.
Pode ficar tranquilo.
Você se casará e será feliz.
Tobias olhou para José, que fazia força para não chorar.
- Papai, por que não me contou antes?
- Não havia necessidade.
Você estava feliz.
Não é meu filho verdadeiro, mas sempre o amamos como se o fosse.
Olharam para o alto do morro.
- Sei disso, papai, mas meus pais estão lá.
Quero falar com eles.
Vou até o alto do morro.
- Vá, meu filho.
Eles se amaram muito e amaram-no muito também.
Maria Luísa entregou-o a nós para que você pudesse viver.
Foi uma grande mulher.
- Tobias - disse Rodolfo -, só tomei conhecimento disso quando fomos para Portugal.
Assim que voltamos, fui com seu pai para o Rio de Janeiro e fizemos um documento passando a metade de tudo que temos para você.
Seria a parte de Maria Luísa.
- Mamãe, eu gostava tanto do vovô...
Felipe disse com lágrimas nos olhos.
- Meu filho, ninguém é perfeito.
No entendimento dele, eu não estava à altura de seu pai.
Estragaria os planos dele.
Atrevi-me a enfrentá-lo.
Tudo isso fez com que tomasse aquela atitude desvairada, mas no final entendeu tudo e sofreu muito.
O adivinho disse-me que o melhor caminho é o perdão.
É o que deve fazer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:32 pm

Tobias montou no cavalo e foi para o alto do morro.
Nunca havia ido até lá, nem mesmo quando Manequinho morrera.
Ao chegar ao alto, devagar, aproximou-se dos túmulos.
Foi olhando um por um.
Ao chegar aos de Maria Luísa e Tobias, ficou em pé olhando ora um, ora outro.
Ajoelhou-se entre os dois.
Colocou uma mão em cada um.
Fechou os olhos, por onde lágrimas corriam.
Pareceu ver diante de si uma moça loura e linda que sorria para ele.
Junto a ela, abraçado, um negro alto e forte.
Não sabia o que dizer.
Só queria sentir aquela presença, nada mais.
Lembrou-se de toda a história que Rosa Maria havia contado.
Ficou lá por muito tempo.
Escutou o barulho de um cavalo chegando.
Não se mexeu.
Continuava ajoelhado, parado.
Aninha aproximou-se.
Mais atrás, estavam Felipe e os outros.
Todos desceram de seus cavalos.
José aproximou-se e colocou as mãos nos ombros do filho e disse:
- Meu filho, já está aqui por mais de três horas.
Está na hora de voltar.
Estamos todos preocupados.
Tobias levantou os olhos, depois o corpo.
Olhou para José.
- Papai, obrigado por todo o carinho e amor que me deu todos esses anos.
Meu pai talvez pudesse ter sido um bom pai, mas com certeza nunca melhor do que o senhor.
Abraçaram-se, chorando, com muito carinho e amor.
Tobias separou-se do pai e virou-se para os outros, que olhavam emocionados aquela cena.
Com lágrimas nos olhos, levantou os braços como se fosse um guerreiro e gritou o mais que pôde:
- Meus pais morreram por causa do preconceito e da intolerância.
Juro aqui e agora diante de seus túmulos que só descansarei no dia em que neste país houver a abolição dos escravos, para que brancos e negros sejam iguais e possam se amar livremente.
Até hoje era um ideal; de hoje em diante, será uma questão de honra.
Felipe aproximou-se do primo.
Pegou a mão dele que estava no alto e também gritou:
- Juro que estarei a seu lado.
Lutaremos juntos!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:32 pm

TENTAÇÃO
No dia seguinte, Rodolfo foi com Felipe até a vila.
Providenciou a ida do padre até a fazenda.
O casamento seria realizado no mesmo dia que o de Tobias com Aninha.
Os preparatórios foram intensos.
Só algumas poucas pessoas foram convidadas.
Igor, parecendo adivinhar, chegou com os ciganos poucos dias antes, para a felicidade de Zara e Sergei.
Os ciganos não poderiam perder uma festa como aquela.
Rosa Maria, Divina e Aninha foram também à vila, acompanhadas por Felipe e Tobias.
Rodolfo inventou uma desculpa, não quis ir.
Na realidade, não queria ser visto com Divina, sendo apresentada como a noiva de seu filho.
Na cidade, compraram tecidos para os vestidos de noiva e todo o necessário para serem confeccionados.
Divina estava deslumbrada com a vila.
Jamais havia ido até lá.
Chegando ao armazém, Rosa Maria entrou seguida de Aninha.
Quando Divina estava à porta, o dono do estabelecimento disse:
- Negra, espere os senhores serem atendidos.
Depois que eles saírem, você entra.
Divina parou estática.
Felipe colocou-a em sua frente, falando:
- Ela vai entrar na minha frente, porque é minha futura esposa.
O homem ficou atónito, sem saber o que falar e pensou:
"Como um homem rico poderia casar-se com uma negra?
Se a quisesse, poderia simplesmente pegá-la.
Não precisava casar-se..."
Pensou, mas não falou nada, apenas olhou para as mulheres e pediu desculpas.
- Desculpem-me, não sabia que ela estava acompanhada dos senhores.
Nenhum negro pode entrar no armazém enquanto um branco estiver dentro.
Felipe estava irado, mas sabia que o homem tinha razão e que infelizmente era assim.
- Por enquanto, mas um dia isso vai mudar.
Divina queria fugir, mas Rosa Maria apertou seu braço e a fez entrar.
Compraram tudo de que precisavam.
Na volta, todos estavam calados e muito nervosos.
Depois do incidente do armazém, Rosa Maria quebrou o silêncio:
- Viu, Felipe? Seu pai tem razão.
Infelizmente vivemos num mundo assim.
Se levar Divina para o Rio de Janeiro, muitas vezes isso vai acontecer.
Ela sempre ficará nessa tristeza toda e você nervoso.
O melhor é fazermos do jeito combinado.
Você irá, Divina fica connosco.
Estará protegida.
Você sabe disso.
- Irei, sim, mamãe.
Mas, juro, não vou descansar enquanto não terminar com toda essa abominável escravidão.
Conheci tantos negros...
Pai Joaquim, Serafina, Manequinho e muitos outros, que tinham o coração puro, muito mais do que qualquer branco.
Foram sempre nossos amigos.
Manequinho, até na hora de sua morte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:33 pm

Morreu para me salvar, por ser meu amigo.
Nunca vou aceitar a escravidão, preconceito, tudo isso.
- Nem eu, meu filho.
Os ciganos, como os negros, também são discriminados.
Mentiras são ditas sobre eles.
Você conhece pessoas mais bondosas que Sergei e Zara?
Todos os ciganos?
Pessoas mais alegres, livres e felizes?
- Não. Por isso temos que lutar.
E lutaremos.
- Lutaremos, meu filho. Você irá.
Nós ficaremos aqui na fazenda, esperando esse dia chegar.
E, com certeza, chegará.
- Com certeza, mamãe.
Voltaram para casa.
Tudo foi preparado com muito carinho para os casamentos.
Estavam todos ansiosos pela chegada do dia.
Os negros estavam felizes porque uma deles iria tornar-se uma Sinhá.
Aquilo seria bom para eles?
Alguns tinham dúvidas.
Os mais cépticos diziam:
- Negro é sempre negro.
Não vai adiantar querer ser outra coisa, jamais será respeitado pelos brancos.
Outros diziam:
- Divina é a primeira que conhecemos.
Os tempos estão mudando.
Logo haverá muitas misturas como esta.
A abolição virá, seremos todos iguais.
Pensamentos e palavras à parte, o grande dia chegou.
Foi preparado um grande altar na frente da casa.
O padre veio com sua melhor roupa de sacramento.
Muita carne estava sendo assada em várias fogueiras que os ciganos prepararam.
Felipe e Tobias, também alinhados, esperavam as noivas junto ao padre.
Rosa Maria estava feliz por ver a felicidade de seu filho se concretizar.
Celeste e José também estavam felizes.
Seus filhos amavam-se, seriam felizes.
Só Rodolfo e os pais de Divina estavam preocupados.
Embora felizes por ver seus filhos casando-se, não se sentiam tranquilos.
No íntimo de seu ser, Rodolfo sabia que, embora tivesse sonhado com o futuro de Felipe quando o mandou estudar Direito no exterior, sabia que voltaria com um diploma e poderia lutar contra as injustiças que havia no Brasil.
A primeira seria a escravidão.
Aboli-la era um sonho que tanto ele como Rosa Maria havia muito tempo alimentavam.
Agora, casado com uma negra, perderia o respeito das pessoas.
Ninguém iria querer recebê-lo.
Ele sentiria o peso do preconceito e o descaso das pessoas.
Os noivos estavam ansiosos no altar que fora enfeitado por negros e ciganos com muitas flores.
Quando as noivas chegaram, ouviu-se uma linda melodia, tocada por Sergei, que a executava com muita emoção.
Enquanto tocava, pensava:
"Esse menino está feliz casando-se hoje porque Deus me colocou no caminho de sua mãe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 7:33 pm

Eu o amo como se fosse meu filho.
Que seja protegido por todos os deuses."
Rosa Maria e Zara, juntas, não conseguiam esconder a emoção.
- Você se lembra do dia que lhe falei que estava esperando um filho, Zara?
- Como me lembro, Rosa Maria!
- Pensar que fiquei brava, que não queria.
Olhe como se tornou um lindo homem.
- Sim, Rosa Maria, é muito lindo por fora, mas muito mais bonito por dentro.
Esse nosso filho é maravilhoso.
Merece toda a felicidade do mundo.
- E terá. Com certeza, terá.
As noivas chegaram, juntas devagar.
Foram aproximando-se de Felipe e Tobias, que as esperavam ansiosos e encantados com tanta beleza.
Aninha, com um vestido branco, véu e grinalda de flores de laranjeira.
Divina, com roupa africana, flores de várias cores no cabelo.
A beleza das duas era deslumbrante.
Negros e ciganos unidos no mesmo pensamento.
Desejando toda felicidade do mundo para os noivos.
Zara apertou o braço de Rosa Maria, rindo.
- Rosa Maria, você deu a ela o colar que era seu.
- Quem melhor para herdá-lo, se não a esposa de Felipe?
Contei a ela a história do colar.
Prometeu-me que nunca o venderá, que será dado à minha neta.
Se não tiver uma neta, à esposa de um neto.
No dia em que for dado, será contada a história.
Esse colar permanecerá em nossa família para sempre.
- Obrigada, minha filha.
Estou muito feliz.
Agora só me resta fazer um último pedido a Deus.
Que sejam muito felizes.
- Eles serão, Zara.
O amor é à base desses corações.
A festa durou o dia inteiro.
Muita música e dança.
Mais uma vez os ciganos misturaram-se com os negros, comemoravam felizes aquele acontecimento.
Dois dias após a festa, Aninha e Tobias seguiram para o Rio de Janeiro, onde já tinham uma casa esperando por eles.
Felipe e Divina ficaram na casa que havia nos fundos da casa-grande, construída por Dom Carlos para Rosa Maria e Rodolfo.
Era grande e confortável.
Durante os últimos anos, ela servira para alojar os hóspedes da fazenda, mas poucos vieram.
Desde que Rodolfo dera a carta de alforria, os amigos distanciaram-se.
Temiam que aquela ideia se espalhasse e que seus negros se rebelassem querendo a alforria.
Rodolfo, com a ajuda dos negros, reformou, pintou e mandou vir móveis do Rio de Janeiro.
A casa ficou linda.
A primeira noite de Felipe e Divina foi de muito carinho e amor.
A felicidade dos dois era imensa.
Foram dias maravilhosos.
Cavalgaram e tomaram banho no rio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:25 pm

Fizeram tudo que duas pessoas apaixonadas fariam.
Ficaram juntos por quinze dias.
Felipe precisava ir para o Rio de Janeiro.
Tinha que iniciar sua luta com Tobias, que também tivera quinze dias de felicidade e amor com Aninha.
O escritório estava pronto.
Um secretário foi contratado e um rapaz faria o serviço de rua.
Agora, teriam que fazer contacto com as pessoas para tornarem-se conhecidos.
Naquela noite, haveria uma grande recepção na alta sociedade, na qual as pessoas importantes iriam comparecer.
Felipe e Tobias precisariam estar presentes.
Foram. O salão, riquíssimo, onde o bom gosto e a beleza imperavam.
As damas, com seus vestidos armados e deslumbrantes.
Os homens, com seus fraques, luvas, bengalas e belas capas.
Tudo muito luxuoso.
Felipe, Tobias e Aninha foram anunciados e apresentados aos anfitriões da festa.
Conde e condessa Barros de Morais e sua filha Marcela, uma linda moça de vinte anos.
Loura com olhos azuis.
Família pertencente à corte portuguesa.
Aninha fez uma reverência diante dos anfitriões.
Os rapazes também.
Marcela estendeu a mão para que Felipe a beijasse.
Ele o fez. A música começou.
Os pares saíram dançando.
Aninha e Tobias também dançavam.
Felipe sentiu-se um pouco perdido.
Não conseguia esquecer Divina.
"Como seria bom se ela estivesse aqui..."
- Vamos dançar esta valsa?
É muito bonita.
Felipe voltou-se.
Marcela sorria para ele.
- Vamos.
Foram até o centro do salão e começaram a dançar.
Ela estava encantada com o porte e a beleza de Felipe.
Ele, encantado por tanta beleza, deixou-se levar.
Dançaram a noite toda.
Aninha e Tobias notaram o envolvimento de Felipe.
Aninha ficou nervosa:
- Homem não presta mesmo.
Não pode ver uma mulher diferente.
Casou-se só há vinte dias.
Pobre Divina.
Está lá na fazenda, com certeza morrendo de saudade e esperando-o voltar.
E ele aí, logo na primeira festa todo enrabichado por outra. Que raiva!
- Vamos, meu amor, não estrague sua diversão.
Felipe ama Divina.
Só está aproveitando a noite, mais nada.
Para nosso negócio, é importante fazermo-nos notar por essas pessoas, principalmente pelo pai de Marcela.
- Com certeza, Felipe vai ser muito notado.
Felipe sabia que Marcela era importante para seus negócios, mas não podia negar que ela era muito bonita.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:26 pm

Enquanto dançavam, ela estava feliz.
Felipe, ao som da música, às vezes parecia ver o rosto de Divina rindo para ele.
Ao término da festa, ao se despedirem, Marcela disse:
- Gostei muito desta noite.
Precisamos ver-nos novamente.
- Com certeza, senhorita, voltaremos a nos ver.
Na volta, na carruagem, Aninha ficou calada.
Tobias divertia-se com a atitude da esposa.
Felipe misturava imagens de Divina e Marcela.
Aninha não aguentou, disse, muito nervosa::
- Você não podia ter feito isso com Divina, Felipe!
- Não fiz nada.
Do que está falando?
- Nada? Como nada?
Dançou a noite toda com aquela moça...e Divina?
- Divina? Eu a amo com todas as minhas forças.
Com Marcela só dancei, nada mais.
Embora falasse isso, sabia que Marcela havia mexido com ele.
Sentia por Divina um amor puro, mas por Marcela havia um desejo intenso.
Naquela noite, teve problemas para dormir.
As imagens das duas misturavam-se.
"Sei que o pai dela servirá de escada, mas sei, também, que não preciso dele.
Meu pai é rico e conhecido.
Embora há muito tempo esteja longe de tudo aqui, é conhecido e respeitado."
No dia seguinte, acordou ao meio-dia e meia.
Foi de carruagem até o escritório.
Aninha não falou com ele.
Tobias, ao vê-lo, disse:
- Boa tarde. Que houve, Felipe?
Não conseguiu dormir?
O que aconteceu ontem?
- Não dormi muito bem.
Não sei o que aconteceu.
Aquela menina é linda demais, Tobias...
- É linda mesmo, mas para seu bem é melhor esquecê-la.
- Já esqueci.
Agora vamos trabalhar.
Senhor Rubens, por favor venha até aqui.
O secretário foi até a sala deles.
- Vou lhe fazer uma pergunta que é muito importante para nós.
O que acha da escravidão?
Rubens ficou sem saber o que responder.
Ficou pensando:
"Não sei o que pensam.
Se forem abolicionistas e eu disser que aprovo a escravidão, podem me mandar embora.
Se forem escravistas e eu disser que não aprovo, podem me mandar embora também.
E agora, o que respondo?"
Felipe percebeu o impasse e o medo que ele estava sentindo:
- Pode ser sincero.
Qualquer que seja a resposta, não vai afectar seu trabalho.
Só poderá nos ajudar, ou não.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:26 pm

- Bem, senhores, acho que a escravidão não deveria existir.
Somos todos filhos do mesmo Deus.
Felipe e Tobias fitaram-se.
Rubens olhava ora para um, ora para o outro.
- Muito bem, Senhor Rubens, era essa a resposta que queríamos ouvir.
Eu e Felipe estamos aqui para conhecer os abolicionistas do Rio de Janeiro.
- Senhor, isso é difícil saber.
Todos sabem que eles existem, mas ninguém sabe quem são ou onde estão.
- Alguém deve saber.
Procure informar-se.
Espalhe a notícia de que queremos conhecê-los, mas seja discreto.
- Farei o possível.
Rubens voltou para sua sala.
Falou para o rapaz que cuidava do trabalho de rua:
- Julinho, preciso que saia por aí e procure saber quem são os homens envolvidos nessa história de abolição.
- Para que o senhor quer saber?
- Não sou eu quem quer saber, são os doutores.
Para quê? Também não sei.
Julinho, um rapaz de dezassete anos, de boa família, nunca quis estudar.
Embora sua família tivesse posses, não dava importância ao dinheiro.
Só fazia aquilo que gostava.
E o que gostava era ficar andando pelas ruas.
Conhecia tudo e todos.
E todos o conheciam.
Seu pai, cansado de querer fazê-lo estudar, pedira a Rubens, que era um amigo da família:
- Rubens, será que não consegue um emprego para Julinho nesse escritório em que vai trabalhar?
- Não sei. Vou falar com Julinho, depois volto a falar com o senhor.
Julinho gostou da ideia de trabalhar podendo andar pelas ruas, levando documentos de um lugar para outro.
- Está bem, pode falar para meu pai que vou trabalhar.
Só não quero ficar preso.
Se puder sair, tenho certeza de que vou gostar desse trabalho.
Rubens falou com Tobias, que conversou e gostou de Julinho.
Ele foi contratado.
Depois que Rubens falou a respeito dos abolicionistas, Julinho saiu.
Ficou várias horas fora.
No fim da tarde, voltou.
- Senhor Rubens, já consegui alguns nomes, mas só vou falar depois de conversar com os doutores.
- Não pode entrar na sala deles, muito menos dirigir-lhes a palavra.
Dê-me os nomes, que eu transmito.
- Não, senhor.
Preciso saber por que eles estão interessados nos abolicionistas.
Para o senhor não falarei os nomes.
- Está bem, vou falar com eles.
Entrou na sala e voltou logo depois, dizendo:
- Pode entrar.
Julinho entrou.
Colocou-se em uma posição em que podia ver o rosto dos dois sentados em suas mesas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:26 pm

- O senhor Rubens disse que você tem a informação que queremos.
- Tenho, sim.
Só que preciso fazer algumas perguntas.
Felipe olhou-o mais atentamente.
Era um rapaz de boa aparência, podia-se dizer bonito, que os encarava sem desviar os olhos grandes e brilhantes.
- Que pergunta?
- Para que os senhores querem conhecer essas pessoas?
- Estamos interessados no projecto deles.
- Interessados?
Como e por quê?
- O que é isso?
Um interrogatório?
- Disseram-me que se eu não obtiver essa resposta, não poderei dizer quem são.
- Como não pode dizer?
Somos seus patrões.
- Vão me desculpar.
São meus patrões, mas não meus donos.
Não sou negro.
Só direi depois que responderem minhas perguntas.
- Você é atrevido, mas gostei.
Pode perguntar, responderemos todas.
Estamos interessados em conhecê-los porque admiramos essa luta, queremos nos juntar a eles.
- O que homens brancos e ricos têm a ver com isso?
- Se olhar bem para mim, verá que não sou branco.
Rico, talvez; mas branco, não.
Julinho olhou para Tobias.
Calado, voltou os olhos para Felipe, que dizia:
- Na fazenda de meu pai, que fica nas Minas Gerais, os negros são livres há muito tempo.
Todos que lá vivem têm carta de alforria.
- Se são livres, por que o senhor se preocupa com os outros?
- Porque deu certo.
Se todos conhecessem, saberiam que é bom.
- O que mais?
Felipe não acreditou no topete daquele jovem.
- Escute aqui, menino.
Não acha que está fazendo perguntas demais?
- Não acho, não.
Preciso saber o que querem exactamente com os abolicionistas para depois dizer-lhes quem são.
- Está bem.
Sou casado com uma negra, a quem amo muito.
Quero que seja livre, não só na fazenda mas em todo o Brasil, em todo o mundo.
Em qualquer lugar!
- Agora creio que deu um motivo justo.
Vou falar com eles.
- Pois bem.
Vá e conte aos outros nossas razões.
Depois, se aceitarem, queremos marcar um encontro.
- Não preciso falar com ninguém.
Eu decido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:26 pm

- Você? - assustou-se Felipe.
Não acha que é muito novo para decidir qualquer coisa?
- Hoje, às oito horas da noite, estará aí, em frente, uma carruagem que os levará até eles.
Com licença, preciso ajudar o senhor Rubens.
Saiu da sala antes que um dos dois falasse qualquer coisa.
Ficaram olhando para a porta, não acreditando na petulância daquele menino.
- Sabe, Tobias, não conheço esse moleque, nem sua família, mas confiei nele.
Confiei tanto que até lhe falei de Divina.
Seu modo de olhar e de falar...
Já o conheço...
Já o vi em algum lugar.
Só não sei onde.
- Sabe que tive a mesma impressão, Felipe?
Parece que o conheço.
Mas de onde?
Vou até em casa avisar Aninha que chegaremos tarde por causa da reunião.
Tobias saiu.
Felipe ficou no escritório.
Estavam prontos, esperando a carruagem, que chegou às oito horas em ponto.
Só havia o cocheiro.
Subiram no veículo.
Rumaram para um endereço desconhecido.
Rodaram pela cidade.
Passaram várias vezes pelos mesmos lugares.
Depois de quase uma hora, chegaram a uma rua estreita.
A carruagem parou em frente a uma casa pequena, sem muita beleza.
O lugar também era estranho, parecia ser distante do centro da cidade.
O cocheiro parou os cavalos.
Desceu e abriu a porta, falando:
- Senhores, podem descer aqui.
Eles se olharam com certo receio.
Tobias falou:
- Não estou gostando deste lugar e de nada disso.
Felipe, também preocupado, falou para o cocheiro:
- Que lugar é este?
- As pessoas que querem conhecer estão aqui.
Se não quiserem descer, tenho ordens para levá-los de volta.
- Não. Vamos entrar - disse Felipe.
Desconfiados, desceram e entraram na casa.
Lá dentro, em volta de uma mesa grande, havia vários homens sentados.
Felipe falou:
- Muito prazer a todos.
Somos os doutores...
Um dos homens interrompeu-o.
- Por favor, nada de nomes.
Aqui não precisamos de nomes, precisamos de atitudes.
- Se não soubermos os nomes, como poderemos confiar nos senhores?
- Cada um de nós foi apresentado por alguém que se tornou responsável por nossas atitudes.
- Nós fomos apresentados por quem?
- Por mim, doutor - respondeu Julinho, que estava na sala.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:27 pm

- Você? - assustou-se Felipe.
Mas é apenas um garoto.
Os outros riram.
Um deles falou:
- Apesar de garoto, é um de nossos melhores colaboradores.
Com essa aparência, entra e sai de qualquer lugar sem levantar suspeitas.
- É isso mesmo.
Por isso fui trabalhar com os senhores.
Sendo um escritório de advocacia, muitas pessoas iriam lá.
Eu poderia escutar e saber o que pensavam sobre a abolição e a República.
- Quer dizer que é um espião?
- Mais ou menos isso, doutor.
Mais ou menos isso.
Ele abriu um grande sorriso, seus olhos brilharam.
Disse:
- Somos muitos.
Aqui há jornalistas, médicos, engenheiros, escritores, advogados.
Alguns estão dentro do palácio.
Estamos espalhados por todo o Brasil.
Essa nossa luta pela abolição será a primeira.
O que queremos mesmo é a República.
O Brasil é nosso país.
Precisamos fazer como as demais colónias espalhadas pelo mundo.
Temos que nos libertar de Portugal para sempre.
Ser um país livre.
Já fomos explorados demais.
Todos olhavam e ouviam, encantados, aquele menino falando como se tivesse mais de quarenta anos.
- Está bem. Também acreditamos que o Brasil deve ser livre, tem que ser dono de si e de seu povo.
O que podemos fazer para ajudar? - perguntou Felipe.
- Cada um de nós trabalha em seu próprio meio.
Escutamos muito, falamos pouco.
Vamos defender a ideia da abolição e fazê-los pensar que podem nos ajudar.
- Isso podemos fazer.
- Este senhor é jornalista.
Tem acesso às informações que vêm do exterior.
Graças a ele, sabemos o que acontece nos outros países.
Logo estavam todos conversando, trocando ideias, fazendo planos.
Julinho conversava com todos.
Conseguia fazer com que aqueles homens sérios e sóbrios parassem para ouvi-lo.
Por volta das onze horas, a reunião terminou.
Cada um saiu de lá com uma missão.
As carruagens foram chegando.
Ficou marcada outra reunião para a semana seguinte.
Felipe e Tobias voltaram para casa, animados.
Aninha estava preocupada.
Sabia que eles iriam encontrar-se com os abolicionistas, mas não sabia quem eram, nem onde seria a reunião.
Quando chegaram, contaram-lhe tudo.
Ela ficou tranquila.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:27 pm

Durante a noite, Felipe sonhou com Divina.
Os dois corriam pelo campo, rindo, abraçando-se e beijando-se.
Acordou com muita saudade.
Acordou e pensou:
"Preciso voltar para a fazenda.
Preciso vê-la."
No dia seguinte, no escritório, Felipe percebeu que Julinho entrava e saía, mas, sabendo agora quem ele era, não se preocupou.
Não falaram nada da noite anterior.
No escritório, eram patrão e empregado.
Algumas pessoas vieram visitar Felipe e Tobias para conhecer o escritório.
Na hora do almoço, os dois foram para casa.
Na casa em que viviam, havia três negras que cuidavam de tudo.
Felipe e Tobias resolveram que, assim como na fazenda, seriam livres para irem aonde quisessem.
Combinaram com elas um salário semanal com a condição de que não comentassem com ninguém.
Não queriam um confronto com os donos de outros escravos.
- Por enquanto, tem que ser assim.
Logo chegará o dia que todos serão livres e terão seus salários.
No fim da tarde daquele dia, chegou ao escritório um mensageiro negro, trazendo uma carta endereçada a Felipe e Tobias.
Prezados senhores, o Conde e a condessa Barros de Morais convidam-nos para um jantar no próximo sábado às vinte e uma horas em nossa residência.
Contando e agradecendo sua presença, Conde Barros de Morais.
Quando terminaram de ler, Felipe disse:
- O que será que querem de nós?
- Não sei, primo.
Para mim isso tem dedo de mulher.
- Marcela? Não pode ser.
Apenas dançamos.
- Você só dançou.
Ela viu naquilo algo mais que uma simples dança.
- Só dancei.
Mas para nós é importante participarmos de um jantar como esse. Iremos.
Aninha ficou animada com o jantar.
Poderia usar seu vestido azul, dançar e conversar.
Conhecer mais de perto aquela família tão importante.
- Mas e Marcela, Tobias!
O que estará pretendendo com Felipe?
E Divina, como fica?
Ela é minha amiga.
Não está aqui para defender-se.
- Felipe não está preocupado com isso, Aninha.
Ele só quer conhecer pessoas que possam ajudar no nosso projecto.
- Espero que esteja certo...
Chegou o sábado.
Aninha esmerou-se na roupa.
Tinha uma educação primorosa, porque, embora tenha sido criada na fazenda, aprendeu bons modos com sua mãe e com Rosa Maria, que aprendera com Maria Luísa.
Aprendeu a falar e a comportar-se, mas era um pouco insegura quando na presença de pessoas estranhas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:27 pm

Sempre que isso acontecia, prestava atenção em tudo e em todos.
Precisava aprender tudo.
Amava Tobias, não queria fazer nada que o envergonhasse.
"Não conversarei muito.
Vou observar como as damas portam-se.
Só comerei depois dos outros."
Embora com muita vontade de ir, estava com medo.
No portão da casa, havia um brasão da família do conde.
Notaram que não havia um trânsito grande de carruagem.
Um escravo abriu o portão, eles entraram com a carruagem e seguiram por um caminho cercado por flores e folhagens baixas.
No fim do trajecto, havia um enorme pátio e uma escadaria com uma dezena de degraus.
Essa escada terminava na porta de entrada, que se abria em duas folhas e onde também havia um brasão.
Um pajem aguardava e abria as portas para os visitantes. Entraram.
Outro pajem aguardava-os para pegar capas, cartolas e bengalas.
Tudo muito luxuoso.
Uma ante-sala, com tapetes e sofás dourados.
Na sala, uma mesa grande, rodeada por cadeiras de madeira de lei como estofados em veludo vermelho.
Um imenso candelabro de cristal com uma corrente que o trazia para baixo, onde eram colocadas velas que eram acesas para iluminar toda a sala.
Uma toalha toda branca, copos de cristal e porcelanas finas.
A mesa estava enfeitada com flores.
Aninha nunca tinha visto tanto luxo e bom gosto.
A casa de Rosa Maria na fazenda também era luxuosa, mas a decoração dela era diferente.
Rústica. Os móveis eram também importados, mas de outro tipo.
Ali, não. Parecia um palácio como os que se vêem em contos de fadas.
Entraram e foram ao encontro dos pais de Marcela, que os esperavam de pé.
Felipe viu que na mesa só havia seis lugares servidos.
- Sejam bem-vindos a nossa casa - disse o conde.
Esperamos que gostem do jantar.
- Não chegará mais ninguém? - perguntou Felipe.
- Não, doutor, este jantar é só para sua família.
Embora esteja muito feliz com a presença dos senhores, devo confessar que a ideia foi de minha filha.
Olhou para Marcela, que sorria timidamente.
Ela se aproximou e estendeu a mão, que Felipe e Tobias beijaram.
Cumprimentou Aninha.
Tomaram um drinque antes do jantar.
Conversaram coisas banais.
Durante o jantar, todos comiam e conversavam.
Aninha esperava Marcela comer.
Só depois comia também, imitando seus gestos.
Após o jantar foram para a sala de música.
Nela havia um piano e uma harpa.
Marcela foi para a harpa e começou a tocar uma melodia suave.
Quando terminou, foi aplaudida por todos.
Ela olhou para Aninha, perguntando:
- Não quer tocar piano?
- Ela quer, sim.
É uma óptima pianista - respondeu Tobias.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:27 pm

Aninha olhou para o marido com ódio.
Ele continuou:
- Aprendeu a tocar com minha tia Rosa Maria, mãe de Felipe.
Marcela pegou Aninha pela mão e conduziu-a até o piano.
- Vamos, toque um pouco para nós.
- Não sei tocar muito bem.
- Não faz mal.
Apenas toque.
Aninha sentou-se e tocou.
A princípio timidamente, depois foi se entregando à música.
Tocou lindamente a música que Sergei tocava e que Rosa Maria tanto gostava.
Quando terminou, foi aplaudida por todos.
Nem ela acreditava que havia tocado tão bem.
Enquanto os homens conversavam, Marcela puxou-a e levou-a até a biblioteca.
Lá chegando, disse:
- Percebi que não estava à vontade durante o jantar.
Posso saber por quê?
Aninha olhou em seus olhos.
Marcela sorria docemente.
Confiante, respondeu:
- Fiquei com medo de fazer algo errado.
Nunca estive no meio da sociedade.
Fui criada na fazenda.
- Você se portou muito bem.
Tenho certeza de que foi muito bem educada.
- Tudo que sei foi ensinado por minha mãe e por dona Rosa Maria.
- Já ouvi falar muito em Rosa Maria.
Como ela é?
- É uma pessoa maravilhosa.
Muito amada na fazenda.
Na escola, ensina às meninas boas maneiras, bordado e costura.
- Na fazenda há escola?
- Sim. Minha mãe é a professora.
- Faz muito tempo que há escola?
Quem a frequenta?
- Não sei há quanto tempo. Todos estudam.
Crianças negras e adultos também.
Todos sabem ler e escrever.
- Os negros?
Está me dizendo que os negros da fazenda sabem ler e escrever?
- Sim. E são livres.
Todos têm carta de alforria.
- Livres?
E continuam na fazenda?
- Não sei muito bem essa história.
Só sei que o senhor Rodolfo, pai de Felipe, muito tempo atrás alforriou todos os negros.
Eles não foram embora e estão lá até hoje.
- Não posso acreditar numa história dessas...
Você não está exagerando?
- É tudo verdade.
Mas por que o espanto?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:27 pm

- Já ouvi falar de fazendas em que isso acontecia, mas pensava ser conversa de abolicionistas.
- Na Fazenda Maria Luísa faz muito tempo que é assim.
- Está me dizendo que os negros são tratados como brancos?
- Claro que são.
Todos trabalham, têm seu salário e sua casa.
- Não há senzala?
- Não. Há muito tempo foi derrubada e, no lugar dela, foram construídas casas para os negros morar.
- Isso é muito bonito.
Daqui a pouco os negros vão casar com brancos e vai nascer uma porção de mestiços, assim como Tobias.
Desculpe-me.
Por um minuto esqueci que é seu marido.
Já que estamos falando disso, como Tobias é tão rico e estudado?
- Ele é meu marido e amo-o muito.
Ele é filho da irmã do pai de Felipe com um negro escravo.
- Não acredito!
Conte-me essa história.
- Não posso.
Não sei nada sobre isso.
Aconteceu antes de minha mãe chegar à fazenda.
Aninha não gostou do jeito que Marcela falava a respeito dos negros, muito menos do modo que falou a respeito de Tobias.
Não contou sobre Divina. Felipe, se quisesse, que contasse.
Enquanto elas conversavam, Felipe, Tobias e o conde também discutiam.
- Diga-me, doutor Felipe, como é essa história da fazenda de seu pai?
E verdade que lá os negros são livres?
Felipe demorou um pouco para responder.
Sabia da fama do conde.
Ele era um escravista ferrenho, mas não poderia deixá-lo sem resposta.
- Sim, é verdade, e já faz muito tempo.
- Como ele pôde fazer uma coisa dessas?
É uma traição contra todos nós!
Nunca poderia ter feito isso.
Está passando de boca a boca.
Os abolicionistas estão aproveitando para usar isso a favor da abolição.
Os negros estão se revoltando.
Querem que todos façamos igual.
Não pode continuar.
Isso tem que acabar!
Como e quando isso aconteceu?
- Não sei quando, nem por quê.
Meu pai deve ter tido seus motivos, mas isso é coisa dele.
Só posso dizer-lhe que, qualquer que tenha sido o motivo, deu certo.
Sei que a Fazenda Maria Luísa tem dado bons lucros.
Desde que alforriou os negros, meu pai vem ganhando muito dinheiro.
Os negros trabalham e se esforçam para que tudo dê certo, pois sabem que, se a colheita for boa, com certeza, terão uma vida cada vez melhor.
Meu pai, ganhando dinheiro, aumenta o salário deles.
- Salário? Isso é uma loucura.
O imperador não pode permitir que essa ideia espalhe-se pelo Brasil.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 10 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 9, 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum