QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:28 pm

Seria o caos!
- Não sei se o imperador poderá impedir.
Estão vindo exigências de outros países, principalmente da Inglaterra.
- O imperador com certeza arrumará uma forma de acabar com essa loucura!
- Vamos ver o que acontece.
O senhor poderia experimentar. Talvez goste.
Aninha e Marcela entraram na sala.
- Os senhores parecem estar discutindo um assunto desagradável.
O senhor está alterado, papai.
- Não, minha filha.
Isso sempre acontece quando se fala de política.
Felipe aproveitou a entrada delas:
- Já se faz tarde.
Está na hora de irmos.
- Também acho - completou Tobias.
Amanhã teremos que viajar para a fazenda.
-Doutor Tobias - disse Marcela -, estive falando com sua esposa.
Peço permissão para visitá-la.
Faremos companhia uma à outra.
Se o senhor permitir.
- Ora, senhorita, será um prazer.
Ela está muito sozinha.
- Quando voltarão da fazenda?
- Talvez fiquemos por lá uns dez ou quinze dias.
- Quando voltarem, marcaremos um dia.
Está bem, Aninha?
- Com certeza.
As duas abraçaram-se.
Os homens cumprimentaram-se.
Marcela estendeu a mão para que Felipe a beijasse.
Quando foi beijar sua mão, ela apertou suavemente a dele.
Ele levantou os olhos: ela sorria.
Foram embora.
Felipe notou o sorriso insinuante de Marcela.
Ela era bonita, educada e gentil.
Mas isso de nada adiantava:
ele não conseguia esquecer Divina.
- Não gostei da conversa do conde - disse ele a Tobias.
Com certeza, não será um aliado para nossa causa.
- Também não gostei.
Ele jamais nos ajudará na luta contra a abolição, muito menos lutará contra a República.
- Bem, agora só quero voltar para a fazenda.
Vou rever Divina.
Não suporto mais a ausência dela.
Já não a vejo há um mês. É muito tempo.
- Ainda bem que está pensando nela. - comentou Aninha.
Estava preocupada.
- Com o quê?
- Que se deixasse envolver pelos encantos de Marcela e esquecesse minha amiga.
- Jamais isso acontecerá.
Divina é minha esposa e eu a amo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:28 pm

CONHECENDO A CORTE
Outra vez o sino tocou.
Outra vez todos correram para ver quem chegava.
Outra vez todos ficaram felizes.
Divina não suportou ficar esperando a carruagem chegar.
Foi correndo ao encontro dela.
Felipe fez a carruagem parar, desceu e foi correndo ao encontro dela.
Encontraram-se no meio do caminho.
Abraçaram-se e beijaram-se, esquecidos de tudo e de todos, com muito amor e saudade.
A carruagem passou por eles, que nem notaram, tão envolvidos estavam no abraço.
Ao passarem por eles, Aninha e Tobias riram.
Depois de algum tempo seguiram pela estradinha, abraçados e a pé.
Rosa Maria não cabia em si de contentamento.
"Os três voltaram.
Será por pouco tempo, mas não faz mal."
Abraçou o filho, que tanto orgulho lhe dava.
"E pensar que um dia rejeitei-o por ser filho daquele monstro.
Ele é perfeito. Eu o amo."
Zara e Sergei também vieram receber os recém-chegados.
Sergei começou a tocar seu violino.
Naquela noite, após o jantar, foram para a sala de estar.
Aninha arrastou Divina para o quarto.
Queria contar as novidades da corte.
Os outros ficaram conversando.
Ouvia-se, ao longe, os tambores dos negros tocando.
Embora livres, nunca deixaram suas tradições.
Enquanto isso, Felipe e Tobias conversavam com os pais.
Felipe disse:
- Olhe, papai, há muita resistência na corte contra a abolição, mas muitos advogados, jornalistas e escritores estão lutando.
Só os grandes fazendeiros ainda resistem.
Eles têm medo de ter prejuízo com a abolição, pois pagaram caro por seus escravos.
- Como estão enganados.
Mas não podemos fazer nada, só o tempo vai mostrar-nos o que irá acontecer.
Para não preocupá-los, Felipe não quis contar aos pais que ele e Tobias já estavam em contacto com os abolicionistas.
Enquanto esteve na fazenda, não quis saber de problema algum, só queria ficar com Divina e amá-la muito.
Em uma noite, disse:
- Eu sempre soube que a amava, mas essa distância me comprovou que não posso viver sem você.
Ficaram lá por quinze dias.
Precisavam voltar.
Após o jantar, Felipe falou:
- Está na hora de voltarmos, papai.
Só que desta vez vou levar Divina.
Rodolfo quis falar, mas Rosa Maria fez um sinal com a cabeça, Ele se calou.
Foi ela quem falou:
- Tem certeza disso?
- Sei que não vai ser fácil, mas ela é minha esposa.
Não adianta escondê-la.
Se quiser, irá comigo e lutaremos juntos.
Divina ouvia tudo em silêncio.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:28 pm

Olhou para todos, dizendo:
- A coisa que mais quero é ficar ao lado dele.
Este mês foi muito triste.
Se quiser, eu irei.
Garanto que serei a mais forte possível.
- Então, está tudo bem.
Amanhã, iremos todos juntos.
No dia seguinte, partiram.
Divina estava com medo, porém ansiosa.
Estava consciente de sua condição de negra, mas eles se amavam tanto, não poderiam mais viver longe um do outro.
No Rio de Janeiro, ficaram todos na casa de Tobias até Felipe providenciar uma para ele.
Aninha contara muitas coisas sobre as festas e sobre Marcela.
- Ela é minha amiga. Um amor de pessoa.
Vai me ensinar muita coisa a respeito da corte.
Vou pedir que lhe ensine também.
Pediu a Tobias que mandasse um mensageiro à casa de Marcela avisando-a de que haviam chegado.
Quando Marcela recebeu a mensagem, ficou feliz.
"Que bom que voltaram.
Frequentando a casa de Aninha poderei me aproximar de Felipe.
Eu o amo. Até agora, não demonstrou sentir nada por mim, mas é uma questão de tempo."
No dia da visita de Marcela, Aninha mandou preparar uma bela mesa com bolo, doces e chá.
Ela e Divina estavam ansiosas pela chegada dela.
Escutaram a batida na porta.
Aninha, ansiosa, foi ela mesma abrir.
Divina ficou parada em pé, na entrada da sala.
Era preciso percorrer um pequeno corredor para se chegar até a sala.
Justamente ali, Divina ficou esperando a amiga chegar.
O cocheiro fez uma reverência para Aninha e se afastou.
Atrás dele, surgiu Marcela, sorridente, na janela da carruagem.
Aninha também sorriu.
O cocheiro desceu as escadas, abriu a porta e Marcela desceu, acompanhada de uma escrava.
As duas cumprimentaram-se e entraram no pequeno corredor.
Marcela entrou, falando:
- Primeira aula, Aninha.
Você nunca deve abrir a porta.
Para isso, deve ter uma negra ou negro.
Antes que Aninha tivesse tempo de falar algo, Marcela chegou perto de Divina, olhou-a de cima a baixo e perguntou:
- Por que não foi abrir a porta, negra?
Não sabe que sua senhora não pode nem deve abrir uma porta?
Divina olhou para Aninha, que estava branca como a neve.
- Espere, Divina.
Marcela, aqui há um pequeno engano.
Ela não é uma escrava da casa.
O nome dela é Divina, e é esposa de Felipe.
- Esposa?
Marcela começou a tremer e disse:
- Não sabia que ele era casado.
Muito menos com uma negra.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:28 pm

- Casaram-se no mesmo dia que eu.
Nossos casamentos foram lindos.
Ela tinha ficado na fazenda, mas agora Felipe resolveu trazê-la.
Ficarão morando aqui até Felipe providenciar uma casa.
- Nunca pensei que fosse casado.
Ainda mais com...
- Uma negra?
É isso que a senhorita está pensando? -perguntou Divina, nervosa.
Marcela olhou-a de frente.
Divina sustentou o olhar.
- Não posso enganá-la.
Fiquei surpresa, sim.
Mas não quer dizer que não possamos ser amigas.
Posso ensinar-lhe muita coisa.
- Não, muito obrigada.
Vou me retirar.
Aninha ficou sem saber o que fazer no meio das duas.
Constrangida, falou:
- Aninha, não precisa ficar assim - disse Divina.
Não se preocupe.
Estou bem, mas prefiro ir para meu quarto.
Pode tomar o chá tranquila com a senhorita.
Está tudo bem. Com licença.
Saiu da sala.
Assim que virou as costas, as lágrimas começaram a correr.
No quarto, jogou-se na cama chorando:
"Como o senhor Rodolfo tinha razão!
Jamais serei aceita.
Para todos, serei sempre uma negra.
Com certeza prejudicarei muito Felipe.
O melhor será voltar para a fazenda."
Os pensamentos fervilhavam em sua cabeça.
Muito pouco à vontade, Aninha e Marcela tomavam o chá.
- Por que não me contou que ele era casado, Aninha?
Ele é casado mesmo ou só tomou essa negra?
- Desculpe-me, Marcela, mas sua atitude foi cruel e está sendo mais cruel agora.
Divina é minha amiga e não é uma negra.
É a esposa de Felipe. Amam-se muito.
Tanto que ele não quis mais ficar longe dela.
- Você é quem tem que me desculpar.
Eu estava interessada em Felipe.
Não sabia que era casado.
Agora, que sei, deixarei de pensar nele como um futuro marido.
Esse mal-entendido vai passar.
Quero ser amiga sua e de Divina também.
Na primeira oportunidade, vou desculpar-me com ela.
Ficou mais um pouco e retirou-se, pensando:
"Não posso acreditar que Felipe tenha se casado com aquela negra imunda!
É atrevida! Teve a coragem de sustentar meu olhar como se fosse uma igual.
Tenho que fazer alguma coisa para afastá-la. Mas o quê?"
Divina ficou por um bom tempo no quarto.
Saiu toda arrumada e linda.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 16, 2017 8:29 pm

Nem parecia que havia chorado, disse:
- Felipe e Tobias já devem estar chegando, Aninha.
Não vamos comentar nada do acontecido.
Não quero que Felipe fique preocupado, está bem?
- Está. Também creio que seja o melhor.
Realmente, logo depois os dois chegaram.
Jantaram tranquilos, como sempre.
Tobias disse:
- Temos que sair.
O senhor José do Patrocínio vai para São Paulo.
Vamos nos despedir.
Logo após o jantar, saíram.
Aninha aproximou-se de Divina, dizendo:
- Divina, Marcela saiu muito triste por todo aquele mal-entendido.
Disse que vai lhe pedir desculpas na primeira oportunidade.
- Pensei muito, Aninha.
O senhor Rodolfo tentou me avisar.
O que aconteceu hoje acontecerá muitas vezes.
Preciso estar preparada para não me deixar abalar.
Enquanto isso, Marcela pensava:
"Não posso ser sua inimiga.
É uma negra atrevida.
Se for acuada, reagirá.
Preciso usar de astúcia."
Passaram-se alguns dias.
Aninha recebeu um mensageiro com um bilhete.
Marcela queria visitá-la no dia seguinte.
Queria saber se ela a receberia.
Aninha mostrou o bilhete a Divina, que concordou.
Marcela chegou com dois belos braços de flores.
Depois, com o olhar lacrimoso, disse:
- Estas flores são para você, Divina.
Juntamente com um pedido de perdão.
Tem que aceitar minha atitude.
Fui criada sempre sabendo que havia uma separação entre brancos e negros.
Nunca poderia pensar que você fosse casada com Felipe.
Não estou acostumada ainda com esses novos tempos.
Perdoe-me, por favor.
Quero ser sua amiga.
Divina olhou para ela.
Viu muita sinceridade.
- Está bem.
Eu sabia que isso iria e ainda irá acontecer muitas vezes.
Vamos ser amigas.
- Ainda bem que não vou ter que escolher entre as duas. - disse, feliz, Aninha.
Tornaram-se amigas mesmo.
Marcela ia quase todos os dias à casa de Aninha.
Ensinava as duas como portar-se, vestir-se.
Riam e brincavam muito.
Nunca mais Marcela insinuou-se para Felipe.
Ele, por sua vez, ficou satisfeito com a atitude dela.
Amava Divina, nunca a trocaria por outra, fosse ela quem fosse.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:31 pm

Felipe chegou em casa uma tarde, dizendo a Divina:
- A carruagem está lá fora. Vamos sair.
Vou levá-la a um lugar que sei que gostará.
Dispensou a ama e foram só os dois.
Deram algumas voltas pela cidade.
Finalmente, a carruagem parou em frente a uma casa grande e bonita, com um belo jardim na frente.
Divina perguntou:
- De quem é essa casa?
Quem vamos visitar?
- Espere e verá.
Tocou na porta.
Um pajem veio abrir. Entraram.
A casa era ricamente decorada.
Divina olhava tudo.
Estava deslumbrada.
Segurou o braço de Felipe com muita força.
- Felipe, quem mora aqui?
Estou com medo. Não vou ser bem recebida.
Felipe ria do nervosismo dela.
Uma negra entrou na sala e disse:
- Sinhô, tá tudu prontu.
Ele pegou Divina pela mão.
Entraram pelos corredores da casa.
Quase teve que puxá-la.
Ela resistia com medo.
Ele abriu uma porta.
Encontrou um lindo quarto cheio de flores com uma cama espaçosa.
O quarto todo em tom de verde-água.
Colcha e cortina e sobre a cama, um mosquiteiro também verde-água com laços de cetim verde mais escuro.
Divina parou na porta.
Olhou para Felipe sem saber o que falar.
Ele a pegou nos braços e a conduziu até a cama.
- Meu amor, este quarto, esta casa, tudo isto é seu.
Comprei para nós dois.
Ela começou a saltar na enorme cama.
- Não acredito. Ela é linda.
A cama, o quarto e a casa, tudo é muito bonito.
É muito mais do que sonhei.
Eu o amo. Amo-o muito!
Abraçaram-se.
Amaram-se, desta vez, com mais carinho, como se isso fosse possível.
No dia seguinte, Tobias trouxe Aninha para conhecer a casa de Divina.
Como não podia deixar de ser, ela também ficou encantada.
Naquela tarde, Divina estava ansiosa.
Marcela viria conhecer sua casa.
Mandou que fosse preparado um óptimo chá para recebê-la.
Marcela chegou, fez um imenso esforço para não demonstrar o ódio, o ciúme e a inveja que sentia por aquela negra suja.
"Tudo isto e ele deveriam ser meu.
E ainda serão."
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:31 pm

Embora estivesse pensando isso, disfarçou muito bem.
- Sua casa é maravilhosa, Divina, mas é menos do que você.
Tudo que tem aqui é merecido.
É uma boa amiga e estou feliz por tê-la conhecido.
Divina estava encantada com ela.
Aninha chegou logo depois, acompanhada por sua ama.
Conversaram e riram muito.
A tarde foi agradável.
Marcela despediu-se, prometendo voltar na semana seguinte.
Os dias passaram.
Divina não estava sentindo-se muito bem.
Felipe resolveu levá-la a um médico.
Depois de examiná-la, o médico disse:
- A senhora não tem nada.
O que está sentindo é normal no começo.
- Começo do quê? - perguntou Felipe.
- O senhor conhece gravidez?
O senhor vai ser pai!
- Pai, eu? Oh, meu Deus!
Como vou ser pai?
Não sei ser pai!
O médico riu.
- Aprenderá.
Com certeza aprenderá.
Divina, rindo, disse:
- Estou muito feliz.
Com um bebé, não me sentirei tão sozinha.
- Não sabia que se sentia tão sozinha, Divina.
- Você não é o culpado.
É, pelo contrário, muito ocupado com seu trabalho.
Com o bebé vai ser diferente.
Estou muito feliz.
Aninha também ficou contente.
Ela também gostava de crianças, mas preferia esperar um pouco para ter um filho.
Sempre dizia:
- Quem sabe no próximo mês...
As notícias corriam.
As pessoas ficaram sabendo que o doutor Felipe, rico fazendeiro das Minas Gerais, estava casado com uma negra e agora seria pai.
A curiosidade fez com que muitos os convidassem para festas e jantares.
Divina não gostava de tudo aquilo.
No meio dos brancos, sentia-se como um animal no zoológico.
Todos a observavam e comentavam.
Conversavam de longe, olhando para ela.
Pediu a Felipe que não mais a levasse.
Não se importaria se ele fosse sozinho.
Sabia que fazia parte de sua profissão.
Felipe também não gostava de tudo aquilo.
Não iria mais a festas, a não ser que houvesse um motivo político ou alguma missão.
Como Divina, ele também estava feliz com a vinda do bebé.
Marcela, embora com muita raiva, começou a frequentar a casa de Divina mais frequentemente.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:31 pm

Mostrou-se feliz com a chegada do bebé.
Foi com Divina e Aninha comprar tecidos e lã.
Juntas, bordaram e tricotaram as roupinhas.
Ajudou na escolha dos móveis e na decoração do quarto do bebé de Felipe.
Mas no íntimo tinha verdadeiro ódio da negra e do mulatinho que estava por vir.
Rosa Maria, ao receber a notícia de que iria ser avó, não quis saber de mais nada.
Queria ir para o Rio para ficar com Divina e Felipe.
Rodolfo convenceu-a a deixar para o fim da gravidez, assim poderia estar lá quando o bebé nascesse.
Demorou um pouco para ela aceitar, mas, no final, como sempre, ele tinha razão.
A gravidez de Divina corria bem.
Ela não sentia nada.
A única coisa que a incomodava eram os chutes do bebé.
Felipe estava sempre a seu lado, dando toda a assistência.
Marcela também se mostrou uma grande amiga.
Faltava um mês para o nascimento.
Rosa Maria chegou.
Ficou encantada com a casa e o quarto o neto ou neta, isso não tinha importância.
Divina ficou feliz com a presença dela.
Tratavam-se como mãe e filha.
Marcela veio fazer uma visita.
Quando se encontrou com Rosa Maria, desmanchou-se em elogios.
Rosa Maria não entendia por que, mas não gostara dela.
Não havia motivo, parecia ser uma boa moça e muito amiga de Divina.
Mas havia alguma coisa que a incomodava.
Chegou o dia. Divina acordou com um pouco de dor.
Rosa Maria pediu a Felipe que mandasse chamar o médico.
Ele chegou. O trabalho de parto começou.
Rosa Maria e uma negra ficaram no quarto para ajudá-lo.
Felipe, Tobias, Aninha e Marcela ficaram esperando na sala.
Marcela deu muita atenção a Felipe.
Contou histórias para descontrair e falou muito.
Escutou-se um choro de criança.
Correram para a porta do quarto.
Ficaram esperando ansiosos.
Para Felipe, parecia uma eternidade.
Rosa Maria abriu a porta trazendo um bebé enrolado em um cobertor azul.
- Felipe, aqui está seu filho, um lindo menino.
Felipe não conseguiu pegar o bebé.
Não sabia como fazer.
Ficou olhando-o no colo da mãe.
- Ele é lindo, mamãe!
E Divina, como está?
- Está bem. Um pouco cansada, mas logo ficará bem.
Entre, ela quer vê-lo.
Entrou no quarto.
Ela estava abatida, mas disse, sorrindo:
- Viu como ele é lindo?
- Lindo? É o mais bonito do mundo!
E você é a mulher mais linda do mundo.
Amo-a cada vez mais.
Marcela, vendo toda aquela cena, mordeu os lábios com muito ódio.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:32 pm

Aproximou-se, dizendo:
- Divina, seu filho é lindo.
- Obrigada, Marcela. Estou feliz que esteja aqui.
Rosa Maria colocou o menino perto de Divina, falando:
- Ele é perfeito.
Só falta uma coisa.
Qual vai ser o nome dele?
- Ora, mamãe, qual poderia ser?
O nome mais lindo do mundo, que a senhora um dia escolheu. Felipe.
Rosa Maria lembrou-se de seu Felipe.
Dos sonhos que nunca mais aconteceram.
Lembrou-se do dia em que seu filho nasceu.
- Realmente, é um bonito nome.
Obrigada, filho.
Durante um mês, Rosa Maria fez companhia a Divina.
O menino era saudável, sem problemas.
Marcela visitava-as todos os dias.
Fazia tudo para agradar Rosa Maria.
Tornou-se para Divina uma amiga indispensável.
Rosa Maria, por sua vez, não conseguia gostar dela.
Rodolfo veio ao Rio de Janeiro conhecer o neto.
Ficou alguns dias.
Não demonstrava, mas estava feliz com o neto e com a felicidade do filho.
Não se preocupou se ele era branco ou não.
Era apenas uma linda criança.
Ele e Rosa Maria ficaram mais alguns dias e voltaram para a fazenda, felizes com a felicidade do filho.
Marcela continuou indo à casa de Divina.
Ajudava a cuidar do menino. Trazia presentes.
Era uma amiga fiel. O menino crescia.
Não era negro nem branco.
Um lindo mulatinho com os traços acentuados de Felipe:
olhos grandes e boca pequena.
Uma tarde, Marcela chegou chorando, desesperada.
Divina ficou assustada com o desespero da amiga.
- O que foi, Marcela?
O que aconteceu?
Por que está chorando assim?
- Estou perdida. Não sei o que vou fazer.
Meu pai vai me matar.
- Pare de chorar. Conte-me o que está acontecendo.
Talvez não seja tão grave assim.
Talvez eu possa ajudá-la.
- Você não pode me ajudar.
Ninguém pode me ajudar. Preferia morrer.
- Não fale assim.
Conte-me logo.
- Estou grávida, Divina.
- Grávida? Como? Nunca disse que tinha um namorado.
- Não tenho namorado.
Aí é que está o problema.
Este filho é de um negro lá de casa.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:32 pm

- Oh, meu Deus! Um negro?
Como pôde fazer isso?
- Não sei. Como você se apaixonou por Felipe? Aconteceu.
Divina se lembrou da história de Maria Luísa e Tobias.
Pensou um pouco e disse:
- Primeiro, pare de chorar.
Vamos conversar.
Essa não é a primeira, nem será a última vez, que um negro se apaixona por uma branca.
Não vê Tobias?
É filho de uma branca com um negro.
Você mesma disse...
Meu amor com Felipe. Não se desespere.
Para tudo há sempre uma saída.
- Já pensei demais. Não tenho saída.
Meu pai vai me matar.
Morrerei de vergonha.
Não vou aguentar.
Prefiro morrer!
- Pare de falar isso - disse Divina tentando acalmá-la.
Não vai morrer coisa nenhuma.
Espere. Estou tendo uma ideia.
Dona Rosa Maria é uma pessoa muito boa e compreensiva.
Converso com Felipe.
Ele nos leva até a fazenda.
Ficamos lá até o bebé nascer. Depois voltamos.
Tenho certeza de que dona Rosa Maria cuidará do bebé.
Você poderá vê-lo sempre que quiser.
- Meu pai não me deixará ficar tanto tempo longe de casa.
- Irei com você.
Felipe falará com seu pai, dizendo que vai me fazer companhia.
- Tudo bem.
Só me prometa que não vai falar nada a Felipe, pelo menos por agora.
Diga que quer ir para a fazenda ver os parentes e amigos e mostrar a todos seu filho e que eu irei junto, fazendo-lhe companhia.
Depois que estivermos lá, nós duas juntas, contamos.
Tenho medo de que ele não entenda.
- Ele entenderá.
É um homem maravilhoso.
- Sei disso.
Mas vamos deixar para falar quando estivermos lá.
- Está bem. Hoje à noite, falarei com ele.
No fim da semana, iremos.
Seu filho vai nascer e ficará tudo bem.
Não se preocupe.
Marcela saiu de lá mais calma.
Beijou Divina e subiu na carruagem.
Divina dava adeus com a mão.
Estava preocupada com a situação da amiga.
A carruagem começou a andar.
Marcela olhou mais uma vez para Divina, que sorria.
- Negra idiota!
É mesmo uma idiota!
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:32 pm

Depois que Marcela foi embora, Divina ficou rezando para que tudo desse certo.
À noite, conversou com Felipe.
- Queria passar um tempo na fazenda.
Levar Felipinho para todas as pessoas conhecerem, principalmente meus pais. Que acha?
- Não posso ir agora.
Não tenho como sair daqui.
- Se não se incomodar, você me leva e volta.
Marcela não está muito bem de saúde.
Ela poderá ir junto e ficar comigo.
O ar do campo, a comida e tudo que tem lá, na casa de sua mãe, farão bem a ela.
- Não gostaria de ficar aqui sozinho, longe de você e do menino, mas tem razão, seus pais precisam conhecê-lo.
Está bem. Levarei vocês, mas não poderei ficar.
- Vou falar com Marcela, depois você fala com o pai dela, pedindo autorização.
Vamos ver se ele a deixa ir.
- Também isso, Divina?
- Não custa nada, meu amor.
Você diz que ela vai me fazer companhia.
- Está bem, amanhã falarei com ele.
- Obrigada, Felipe.
Por isso que o amo tanto...
- O que você não consegue de mim, meu amor?
É uma bruxa, mas eu a amo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:32 pm

A VOLTA DE FELIPE
Rosa Maria foi se deitar, tranquila.
Estava novamente na pedra, com os cabelos soltos e o vestido rosa.
- Estou aqui de novo? - disse admirada.
Olhou para o lado da água, sabia que ele estava lá.
- Há quanto tempo não vinha...
Veio me cumprimentar pelo nascimento de meu neto?
- Também por isso, é um lindo menino.
Mas mais uma vez seu amor vai ser necessário, Rosa Maria.
Não se esqueça nunca de que a amo e que estou esperando-a.
Ela acordou.
Viu que estava em seu quarto ao lado de Rodolfo.
Arregalou os olhos, pensando:
“Ele voltou. Depois de tanto tempo.
O que será de ruim que vai acontecer?
Oh, meu Deus, ajude-nos!"
Olhou para Rodolfo, que dormia tranquilo.
Levantou-se, foi até a cozinha, bebeu água e foi até a varanda.
Olhou para o céu, que estava lindo.
Lua cheia e muitas estrelas.
“Oh, meu Deus! Que será que vai acontecer?”
Ficou lá durante muito tempo, pensando:
“Sempre que sonhei com ele, alguma coisa ruim ou boa aconteceu.
Sempre veio antes me avisar e dar força.
O que será que vai acontecer agora?
Tomara que seja boa. Está tudo tão bem.
Deve ser boa. Bem, só posso esperar.
Se não for boa, que Deus nos ajude."
Na manhã seguinte, Divina acordou e olhou para Felipe, que acabava também de acordar.
Por um longo tempo, ficaram olhando um para o outro.
Parecia que se viam pela primeira vez.
- Amo-o tanto. Vou amá-lo por toda a eternidade.
- Também a amo, mas deixe a eternidade para lá.
Somos jovens, temos muito tempo ainda aqui nesta terra maravilhosa.
Amaram-se com o carinho e o ardor que só duas pessoas que se amam verdadeiramente podem conseguir.
Quando tudo terminou, ele pulou da cama.
- Estou atrasado.
Tenho muita coisa para fazer no escritório.
À noite, iremos a uma reunião.
A abolição logo chegará e você será livre, mas livre mesmo! Eu a amo.
Levantaram-se e foram até a sala tomar café.
Ele saiu. Ela foi ao quarto de Felipinho ver se já havia acordado.
Ele ainda dormia.
A ama estava preparando a roupinha para trocá-lo.
Divina olhou para o filho e disse, baixinho:
- Como você é lindo!
Obrigada, meu Deus, por toda a felicidade que tem me dado.
Estava no quarto com o menino quando uma ama entrou.
- Sinhá, tem um mensageiru lá fora querendo falar cum a sinhá.
- Da parte de quem?
- Ele não quis dizer.
Só falou que é urgente.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:33 pm

Ela foi atendê-lo.
- Pois não, o que deseja?
- Quem mi mando foi uma negra que trabaia na casa da sinhazinha Marcela.
Ela mando dizê qui a sinhazinha Marcela saiu de casa disesperada e foi pra estação, dizendo que vai si joga embaixu du trem.
A negra pediu pra sinhá ir até lá ver se podi impedi.
Divina, assustada, chamou uma negra e disse:
- Preciso sair. Vou até a estação.
Cuide de Felipinho e do almoço.
O senhor vem almoçar.
Colocou a mantilha na cabeça.
- A sinhá podi i cum a carruage qui ieu vim.
Ela subiu e foram.
Ao chegar à estação, foi correndo até a plataforma.
Lá estava Marcela, chorando.
Correu para encontrá-la.
O trem estava chegando.
- Graças a Deus deu tempo de chegar!
Quando estava se aproximando de Marcela, alguém a empurrou.
Divina caiu no meio dos trilhos.
O homem que a empurrou saiu apressado no meio da confusão, sem ser notado.
Marcela também se afastou.
Subiu na mesma carruagem que trouxe Divina.
Foi para casa.
Entrou, brincando com todos, como se nada tivesse acontecido.
As pessoas gritavam depois que o trem passou e parou.
- Ela se matou!
Jogou-se embaixo do trem!
Felipe chegou em casa para o almoço.
Procurou por Divina, não a encontrou.
Perguntou à ama:
- Onde está a senhora?
- Num sei, não sinhó.
A sinhá disse qui ia inté a istação du trem, mais qui ia vortá logo.
Mando pripará u armoço pru sinhó.
Num sei pru qui inda não vortô.
Felipe sentou-se para comer.
Precisava voltar logo para o escritório, mas não conseguiu.
"O que terá acontecido?
Divina nunca fez isso.
Sabia que eu viria almoçar."
Chamou a ama e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa que a fez sair?
Alguém veio aqui?
- Veio um mensagem qui tava muito nirvoso.
Quiria fala cum a sinhá.
- Mensageiro de quem?
- Num sei, num quis dizê.
Só disse qui era urgente.
Dispois qui a sinhá falo cum ele, fico muito nirvosa e deu as orde.
Falo qui ia inté a istação, mais qui vortava logo.
Felipe não falou nada, pegou a carruagem e foi até a estação.
Quando chegou, viu todo aquele movimento.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:33 pm

Mandou o cocheiro parar.
Um senhor ia passando.
Ele perguntou:
- O que aconteceu?
- Uma negra se matou.
Pulou na frente do trem.
Ele estremeceu.
- Que negra? Quem é ela?
- Não sei. Ninguém sabe.
Nervoso e apavorado com o pensamento que veio à sua cabeça, sentiu que as pernas tremiam.
Com o coração na boca, quase cambaleando, aproximou-se.
O corpo não estava mais ali.
Viu um pedaço do vestido que Divina usava pela manhã.
Começou a gritar.
- Onde ela está?
Para onde a levaram?
Pelo amor de Deus, onde ela está?
- Foi levada para o hospital.
Felipe, desesperado, mandou um mensageiro avisar Tobias, que, naquela hora, já deveria estar no escritório.
Tobias chegou ao escritório com Julinho.
O mensageiro deu o recado de Felipe.
Tobias e Julinho foram para o hospital, sem saber o que havia acontecido.
Quando chegaram, viram Felipe, que estava sentado, calado, sem forças nem para chorar.
- Felipe, o que aconteceu?
- Ela morreu, Tobias!
Ela morreu!
- Ela quem?
Pelo amor de Deus, fale!
- Divina...
Ela está morta!
- Morta? Como? Onde?
- Não sei.
Não me deixaram vê-la.
Como sabe que é ela?
- Vi um pedaço do vestido que ela estava usando hoje pela manhã...
Tobias saiu.
Foi procurar a pessoa responsável.
Encontrou um policial que estava ali, cuidando do caso.
Apresentou-se como advogado e parente.
- O senhor pode me dizer o que aconteceu?
- Parece que ela quis se matar.
Jogou-se embaixo do trem.
- Posso vê-la?
- O estado dela não é muito apresentável.
Foi um trem que a pegou.
- Sei disso.
Estou preparado.
- Sendo assim, me acompanhe.
Tobias, quando viu Divina, ou o que restou dela, achou melhor que Felipe não a visse.
Cumpriu as formalidades e voltou para falar com Felipe, que estava chorando, abraçado a Julinho.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:33 pm

- Infelizmente, é ela mesma, Felipe.
O policial disse que ela se matou, que se jogou embaixo do trem.
- Isso é um absurdo!
Não faria isso.
Não tinha motivo.
Estava fazendo planos para ir à fazenda, levar nosso filho para que todos o conhecessem.
Pela manhã, deixei-a muito bem.
Quando saiu, disse que voltaria logo.
Ela não se matou.
- Eu sei, mas é isso que consta por testemunhas que presenciaram o acidente.
- Não pode ser.
Quero vê-la.
- Providenciei tudo.
Vão prepará-la para a viagem.
Creio que vai querer levá-la para a fazenda, não vai?
- Sim. Mas quero vê-la agora.
- Felipe, melhor não.
Foi um acidente de trem.
- Oh, meu Deus! Não!
Como pôde acontecer isso?
Éramos tão felizes.
Alguém fez isso.
Alguém mandou aquele mensageiro.
Mas quem teria sido?
- Não sei.
Talvez algum escravista que não se conformou em vê-la vivendo como branca.
São fanáticos.
- Não. Ela conhecia quem mandou o mensageiro.
Não teria saído se não fosse assim, se não o conhecesse.
Depois de muito tempo, os dois conseguiram levar Felipe para casa.
Tobias levou Felipe para o quarto.
Pediu a Julinho que ficasse na casa enquanto ele iria avisar Aninha e trazê-la.
Felipe, ao ver-se sozinho no quarto, recomeçou a chorar, lembrando os momentos que ali passaram.
O sorriso de Divina, sua voz.
Ficou lá por muito tempo.
Tudo parecia um sonho.
Não podia ser verdade.
Quando Tobias voltou com Aninha, ele estava dormindo.
Julinho havia pedido à ama que fizesse um chá com uma erva que o fizesse dormir.
Os negros da casa estavam inconsoláveis.
Julinho na sala, calado, não podia acreditar.
Tobias mandou um mensageiro para a fazenda contar o que havia acontecido e avisar que em poucos dias estariam chegando com o corpo de Divina.
O sino da porteira tocou.
Alguém vinha chegando.
Rosa Maria e Rodolfo estavam na sala.
Ela, bordando uma roupinha para o neto. Ele, lendo.
Quando ouviram o sino, foram juntos para a varanda.
Viram só um cavaleiro.
Ficaram olhando, curiosos.
O negro já estava se aproximando para ver quem era e o que queria.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:33 pm

O cavaleiro chegou à varanda.
Rodolfo foi a seu encontro.
Rosa Maria, do alto, via Rodolfo falando com ele.
Rodolfo colocou as mãos na cabeça e balançava como se estivesse desesperado, dizendo não.
Rosa Maria percebeu que alguma coisa grave havia acontecido.
Desceu a escada correndo.
Rodolfo, quando a viu, foi em sua direcção.
Ela percebeu que ele estava desesperado.
- O que foi, Rodolfo?
Que aconteceu?
Ele a abraçou e com a voz entrecortada falou:
- Divina está morta.
- Como morta? Que aconteceu?
Ele lhe contou o que o homem dissera.
- E Felipe, Rodolfo?
Precisamos ir até lá.
- Não. Tobias mandou o mensageiro na frente para nos avisar e nos prepararmos.
Chegarão dentro de alguns dias.
Talvez amanhã ou depois.
Rosa Maria lembrou-se na hora do sonho que tivera.
- Então era isso?
Oh, meu Deus!
Sentiu o perfume de rosas.
Sabia que não estava sozinha, sabia que ele, o seu Felipe, estava lá.
Chorando, sentindo muita dor, chamou um negro e pediu a ele que tocasse o tambor, chamando os outros.
Foram chegando aos poucos.
Conheciam a batida do tambor.
Sabiam que aquela batida significava que algo de grave havia acontecido.
Talvez até a morte de alguém.
Naquela mesma noite da morte de Divina, Marcela chegou desesperada na casa de Felipe.
Ele estava dormindo.
- Aninha, não posso acreditar!
Como aconteceu?
- Não sei, Marcela. Ninguém sabe.
Disseram que ela se jogou na frente do trem.
Mas nós não acreditamos.
Tobias acha que foi empurrada por algum escravista.
- Também não acredito que tenha se matado.
Não tinha motivo. Era feliz.
Eles se amavam, ainda mais agora com o menino.
Não, ela não se mataria.
Abraçaram-se e choraram muito.
Enquanto chorava, Marcela pensava:
"Essa história de escravista é muito boa.
Pratiquei o crime perfeito.
Ninguém descobrirá.
Felipe agora vai ser meu, só meu.
Só quero Felipe.
O negrinho que fique na fazenda com Rosa Maria ou com a gente dele.
Se Felipe insistir em ficar com ele, dou um jeito."
Divina foi preparada para a viagem.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:33 pm

Embora o corpo estivesse estraçalhado, o rosto estava perfeito.
Não tinha um arranhão sequer.
Quando o sino tocou, todos sabiam o que era.
Dessa vez ninguém correu.
Todos ficaram parados, esperando a carruagem mortuária chegar.
Felipinho dormia no colo de Aninha, que estava na mesma carruagem com Felipe, Tobias e Marcela.
Mais duas carruagens vieram, com alguns amigos de Felipe e Tobias.
Julinho vinha em uma delas.
Enquanto a carruagem ia passando, os tambores soavam tristes.
Os negros estavam perfilados, em todo o caminho, desde a entrada da fazenda, iam se ajoelhando e baixando a cabeça até o chão.
Rosa Maria foi até a carruagem em que Felipe estava.
Desde o dia da morte de Divina, ele não falara mais nada.
Ficava com os olhos parados, distantes.
Quando desceu da carruagem, Rosa Maria o abraçou.
- Meu filho querido, Deus o abençoe...
Ele não respondeu.
Parecia que não a estava vendo ou ouvindo.
Rodolfo também o abraçou.
Levaram-no para dentro, onde uma mesa grande já estava preparada para receber o caixão.
Depois de colocado na mesa, Tobias abriu uma janelinha por onde se podia ver o rosto de Divina.
Os negros foram entrando devagar, cada um com um maço de flor do campo.
Cantavam baixinho, seguindo o tambor.
Sergei, longe dali, tocava seu violino.
Ouviu-se o sino.
Rosa Maria foi até a varanda.
Viu as carroças dos ciganos chegando.
Igor também tocava, mas uma melodia alegre.
- Obrigada, meu Deus!
Como, agora, precisava da presença de todos.
Igor entrou tocando.
Viu de longe a carruagem mortuária.
Chicoteou os cavalos para que corressem mais.
De longe, viu Rodolfo e Rosa Maria abraçados.
Seu pensamento foi para o pai e a mãe.
Um negro chegou perto.
Ele parou os cavalos.
O negro contou o acontecido.
Quando desceram da carroça, Rosa Maria abraçou-os, chorando.
- Como aconteceu, Rosa Maria?
Quando? Onde?
Ela, em lágrimas, contou tudo.
Os ciganos foram descendo das carroças em silêncio.
Sergei e Zara, que estavam um pouco distantes, ouviram a música de Igor.
Vieram ao encontro dos ciganos.
Igor abraçou os pais.
- Onde está Felipe?
- Está lá dentro, junto ao caixão.
Não sai de perto dela e desde que chegou não disse uma palavra.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:34 pm

Sergei e Zara, somente naquele momento se aproximaram e acompanhados por Igor e todos os outros ciganos entraram na sala.
Quando Sergei chegou perto de Felipe, disse, emocionado:
- Meu filho, estamos aqui para ficar junto de você.
Felipe olhou para ele e para os outros com lágrimas, mas continuou calado.
O caixão foi colocado sobre uma carroça enfeitada com flores.
Todos os moradores da fazenda acompanhavam.
Os negros iam atrás, tocando e cantando, mas tristemente.
Depois de enterrado o corpo no alto do morro, foi colocada mais uma cruz.
Todos foram descendo o morro.
Somente Felipe ficou ali parado, olhando.
Julinho também não desceu.
Preferiu permanecer ali, ao lado de Felipe.
Ficou olhando as cruzes, mas de longe prestava atenção em Felipe, que ficou lá por muito tempo.
Julinho aproximou-se, falando:
- Vamos embora, doutor, já está escurecendo.
- Não sei o que vai ser de minha vida sem ela.
- Agora não é hora de pensar em mais nada.
Vamos para casa, amanhã será outro dia.
Hoje, não pode fazer mais nada.
Colocou a mão no ombro de Felipe e ajudou-o a levantar-se.
Desceram em silêncio.
Ao chegar em casa, Felipe não quis entrar pela porta da frente.
Não queria falar com ninguém.
Julinho entrou com ele pelos fundos, foi até o quarto e o ajudou a se deitar.
Depois, saiu e ficou olhando o pôr-do-sol.
Sentiu um bem-estar muito grande, pensou:
“Este lugar é lindo.
Parece até que já estive aqui..."
Olhou para o alto do morro.
O sol ainda batia lá.
"Quem serão todas aquelas pessoas enterradas ali?"
Quando o sol se pôs e a lua já vinha surgindo, entrou e foi ficar com os outros.
Aquele dia foi muito tenso.
Todos estavam cansados e tristes.
Foram dormir cedo.
No dia seguinte bem cedo, Julinho acordou e foi para a sala de refeições.
A mesa estava servida.
Rosa Maria, Rodolfo e Tobias estavam tomando café.
- Bom dia para todos.
Rosa Maria olhou para ele e com um sorriso disse:
- Bom dia, meu filho, sente-se para tomar café.
Ele se sentou.
Rosa Maria ficou olhando para aquele rapaz.
Aquele rosto parecia familiar.
- Dona Rosa Maria, esta fazenda é muito bonita, parece que tem muita paz.
Se pudesse, ficaria aqui pelo resto de minha vida.
- Por que não fica?
Garanto que Rodolfo logo arrumaria algo para você fazer.
- Obrigado, mas não posso.
Pelo menos por enquanto.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:34 pm

Terminou de tomar café, foi até a varanda e ficou olhando tudo em sua volta.
O dia estava frio, havia uma leve garoa.
Lá no alto, as cruzes.
Felipe, deitado, pensava:
"Como vou viver sem ela?"
Levantou-se e foi até o quarto do filho.
Disse baixinho:
- Meu filho, tão pequeno e sem mãe.
Tenho certeza de que ela não se matou.
Ela o adorava, nunca o deixaria... nunca.
Vou descobrir quem mandou aquele mensageiro e por que ela saiu.
Não terei paz enquanto não descobrir.
- Ele é lindo, não é?
Felipe se virou.
Marcela entrava no quarto.
Chegou perto do berço, onde o menino estava deitado, e passou a mão sobre sua cabeça, dizendo:
- Por ele, você precisa continuar.
É muito jovem. Tudo vai passar.
Tenha fé em Deus.
Felipe não respondeu.
Saiu do quarto, entrou no seu e fechou a porta.
Ela, sorrindo, também saiu.
Foi para fora da casa e começou a andar.
Viu o acampamento dos ciganos e foi até lá.
- Bom dia. Nunca vi um acampamento cigano.
Posso ver hoje?
Zara estava junto ao fogo pegando chá, respondeu:
- Pode, minha filha.
Não quer tomar um chá?
- Quero, sim, mas o que quero mesmo é que a senhora leia minha mão.
Sempre tive curiosidade.
Zara olhou em seus olhos.
Falou:
- Vamos primeiro tomar chá.
Depois lerei sua mão.
Tem certeza de que quer?
As cartas não mentem jamais.
Tudo que eu vir, direi.
- Quero, sim. É o que mais desejo saber:
se as cartas não mentem mesmo.
Depois do chá, Zara pegou sua mão.
Ficou por um longo tempo olhando, calada.
Depois, olhou firme nos olhos de Marcela:
- Você veio para este mundo com todas as armas para ser boa e praticar a caridade.
Nasceu em uma família com posses e poderia usar tudo o que Deus lhe deu.
Infelizmente até agora, não usou.
- Está tudo certo o que está dizendo.
Minha família me ama e temos dinheiro.
Ainda não usei meu dinheiro porque não surgiu oportunidade.
Talvez, um dia, eu use, mas o que quero saber é sobre o homem de minha vida.
Zara voltou a olhar sua mão.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 7:34 pm

Olhou por um bom tempo:
- Não vejo um homem em sua vida.
O que vejo é um segredo terrível, muito bem guardado em seu coração.
Marcela tremeu, perguntou, assustada:
- Que segredo é esse?
Não tenho segredo algum!
- Esse segredo é seu.
Não se preocupe.
Ele não vai ser descoberto pelos homens.
Ele pertence às pessoas que dele participaram.
Foi formada uma aliança em que, todos juntos, terão que corrigir o mal hoje praticado e que será cobrado por sua vítima.
Os homens não descobrirão, mas Deus, sim.
Ele tudo vê e tem sua justiça pronta para ser usada.
Marcela levantou-se, nervosa:
- Isso tudo é mentira!
Não tenho segredo algum.
A senhora não está vendo nada.
Está inventando tudo isso!
Saiu correndo em direcção a casa.
Dois dias depois, todos foram embora.
Só Felipe não quis ir.
Rosa Maria estava preocupada.
O menino tomava muito de seu tempo, mas sabia que o filho estava sofrendo e não sabia como ajudar.
Todos os dia ele levantava, pegava o cavalo e ia a todos os lugares em que antes estivera com Divina.
Revivia todos os segundos que viveram ali.
Fazia quase um mês que Divina havia morrido.
Como todos os dias, Felipe pegou o cavalo e saiu.
Na hora do almoço, não voltou.
Rosa Maria e Rodolfo ficaram preocupados.
Resolveram sair procurando o filho.
Rodolfo, a cavalo; Rosa Maria, de charrete.
Nos momentos de tristeza, todos eles tinham um lugar para ir.
Rosa Maria foi para lá, no rio.
Ele estava lá.
Sentado na margem, vendo o rio correr.
Quando o viu, ela respirou, aliviada.
Desceu da charrete e foi até ele.
Sentou-se a seu lado, em silêncio.
Ficou também olhando o rio correr.
Felipe percebeu que a mãe estava a seu lado.
Também ficou calado.
Ficaram calados por um longo tempo, até que Rosa Maria disse:
- Parece que este lugar é o preferido da família para pensar.
Meu filho, sei que está sofrendo muito.
Sei também que talvez eu nem possa avaliar o quanto.
Agora, já é hora de retomar sua vida.
Deus sabe o que faz.
- Que Deus? Deus não existe, mamãe.
Se existisse, não permitiria que isso acontecesse.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 7:49 pm

Nós éramos felizes, nos amávamos.
Por que essa coisa horrível tinha que acontecer?
Retomar minha vida? Que vida?
Não tenho vida sem ela.
- Não sei por quê.
Neste momento, estou me lembrando de Pai Joaquim.
Lembra quando Manequinho morreu?
O que ele lhe disse?
Felipe voltou para o passado.
Viu em sua frente Pai Joaquim com seu cachimbo e sua risada.
“- Tudo anjo quando morre tem asa pra vuá.
Si a gente chora, ele num vai imbora.
A asa cai e ele num pode mais vuá.
Num pode i mais simbora e fica aqui penando.”
Felipe falou essas palavras em voz alta.
- Isso mesmo, meu filho.
Ele falava bem assim.
- Ora, mamãe. Eu era criança. Hoje não. Sou adulto. Sei que tudo isso é bobagem.
- Pode ser bobagem, mas Divina também era um anjo.
E se for verdade?
Não sabemos o que acontece depois da morte.
Se for verdade?
Ela está sofrendo por vê-lo assim.
Felipe ficou quieto.
Rosa Maria continuou:
- Você agora tem um projecto maior. Abolição.
Ela, com certeza, iria querer que continuasse sua luta.
Você deve isso a ela.
- Para quê? Ela agora não está mais aqui para ser livre.
- E os outros negros?
Ainda são escravos.
- Para que ajudar os outros?
O que tenho a ver com eles?
- Não fale assim.
Muita coisa ruim já aconteceu por causa da escravidão e do preconceito.
Em nossa própria família.
Maria Luísa... Tobias...
E tantos outros que não conhecemos e que ainda estão sofrendo.
Você ainda diz que não tem nada a ver com isso?
Se existe uma chance de terminar, temos que lutar.
Temos que conseguir a igualdade de todos os seres humanos.
Dizem que foi um escravista que mandou matar Divina.
Não sei se foi ou não.
A única coisa que sei é que Felipinho é meu neto.
Eu o amo muito, mas não podemos negar que é mulato, portanto será considerado um negro.
Não acha que tem que deixar um mundo melhor para ele?
Não acha que Divina ficaria feliz em vê-lo lutando pela liberdade de seu povo?
Acha que ela está feliz vendo-o aí chorar como uma criança mimada?
Felipe começou a chorar alto, muito alto, como se arrancasse do fundo do peito toda a dor que sentia.
Um homem não podia chorar, mas ele chorava abraçado à mãe, que chorava também.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 7:49 pm

Ela, abraçada ao filho, sentiu um perfume de rosas.
Olhou para o rio.
Felipe lá estava, rindo, mandando um beijo com as pontas do dedo.
Ela sorriu e mentalmente falou:
"Obrigada, muito obrigada por estar sempre a meu lado quando preciso, por me inspirar a falar as palavras certas.”
Ele abanou a mão dando adeus e sumiu.
Rosa Maria continuou abraçada ao filho por muito tempo.
Ele se soltou, se levantou e foi até perto da água.
Olhou para o alto, abanando os braços e dando adeus.
Disse: "Vá, meu amor. Vá.
Voe com essas lindas asas.
Eu a amarei para sempre."
Mãe e filho ficaram por alguns minutos abanando as mãos.
Depois, foram para casa.
No dia seguinte, ele voltou para o Rio de Janeiro, deixando Felipinho com Rosa Maria.
Foi para sua casa.
Podia, agora, entrar sem sofrimento.
Sabia que Divina estaria no céu, ou a seu lado na luta.
Da porta de entrada, falou em voz alta:
- Lutarei com todas as minhas forças.
Vou lhe dar esse presente.
Nosso filho e todos os negros serão livres.
Voltou para o escritório.
Tobias ficou feliz ao vê-lo.
Os dois se dedicariam mais à luta abolicionista.
A tensão no Brasil estava grande.
Os brasileiros e o Exército não estavam contentes com o governo imperial.
Havia muita luta entre abolicionistas e escravistas.
Julinho levou Felipe e Tobias a uma casa em que nunca estiveram antes.
Usavam essa táctica para não serem descobertos.
Naquela casa havia muitos abolicionistas, entre eles alguns maçons que também estavam interessados na abolição, mas, principalmente, na República.
Estavam descontentes com o imperador.
Este havia proibido a maçonaria por todo o território nacional.
No encontro, combinaram estratégias que seriam usadas por todos.
Sabiam que a abolição estava perto.
Depois da Lei do Ventre Livre e da Lei dos Sexagenários, o preço dos escravos restantes havia valorizado muito.
A Inglaterra continuava pressionando para que houvesse a abolição.
Com a industrialização, ela queria e precisava de consumidores.
Os negros, enquanto continuassem sendo escravos, não o seriam.
Viviam agora à custa do senhor.
Quando fossem livres, teriam seu salário e com este comprariam seus produtos.
Felipe e Tobias voltaram animados para casa.
Perceberam que a abolição e a República estavam perto.
Muitos brasileiros não aceitavam mais a escravidão, muito menos o domínio de Portugal.
Eles estavam uma noite em uma reunião, discutindo directrizes para o andamento do movimento, quando alguns homens entraram armados.
Começaram a atirar, chamando-os de traidores.
Felipe percebeu que um deles estava com a arma voltada na direcção de Julinho.
Rapidamente, pulou na frente dele.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 7:49 pm

A bala atingiu-o.
Levou a bala que seria para Julinho.
Quando os escravistas viram o corpo caindo, saíram correndo em disparada.
Julinho correu para Felipe, que continuava deitado, com o paletó sujo de sangue.
- Doutor, como está?
Salvou minha vida.
- Não sei onde a bala pegou.
Mas acredito que não estou morto ainda.
Quanto à sua vida, já que a teve de volta, aproveite.
Não sei por que fiz isso.
Não sou herói.
Agora me levem para o hospital...
- Claro, doutor.
Ajudem aqui!
A bala passou de raspão pelo ombro de Felipe.
Embora dolorido, o ferimento não tinha gravidade.
Os laços de amizade entre os dois, a partir daquele dia, aumentaram, ficaram mais firmes.
Andavam sempre juntos.
Finalmente, a polícia terminara o inquérito sobre a morte de Divina.
Resultado final: suicídio.
Felipe não aceitou aquele resultado.
Mas também não se importava mais.
Como dizia Pai Joaquim:
- Xangô vê tudas coisa.
Usa u machado na hora certa e na pessoa certa.
A única coisa que ele queria era dar de presente para Divina a abolição.
Durante o inquérito, Marcela evitou encontrar-se com Felipe.
O plano foi perfeito, mas era preciso esperar a polícia encerrar o caso.
Só assim ela ficaria completamente livre.
Com o encerramento e aquele resultado, estava livre.
Começou a frequentar a casa, o escritório, jantavam e iam ao teatro.
Saíam sempre juntos.
Tobias e Aninha ficaram felizes, porque aquilo iria dar em casamento.
Felipe estava muito sozinho.
Precisava retomar a vida.
Marcela começou até a mobilizar mulheres para lutarem contra a escravidão, falando com seus maridos.
Tornou-se uma aliada de Felipe.
Ele, no entanto, tratava-a como uma amiga, por mais que ela se insinuasse.
Ele não entendia, ou se fazia de desentendido. Até que um dia ela disse:
- Felipe, desde o primeiro dia que o vi me apaixonei.
Quando soube que era casado, me afastei e me tornei amiga de Divina.
Agora ela está morta, não é justo continuar escondendo todo o amor que sinto por você.
Não é justo que sendo tão novo se isole assim e não se case novamente.
Sei que não me ama ainda, mas meu amor é suficiente para nós dois.
Quero me casar com você e ser uma mãe para Felipinho.
- Gosto muito de você, sei que foi a melhor amiga de Divina, por isso lhe agradeço, mas não a amo.
Creio que jamais amarei outra.
Amei Divina com todas as forças de meu coração.
Tenho quase certeza de que nunca mais me casarei com você ou outra pessoa.
Se quiser continuar sendo minha amiga, tudo bem, mas se estiver querendo outra coisa, é melhor não nos vermos mais.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 7:49 pm

A única coisa que me importa agora é a abolição.
E um presente que prometi a Divina.
Depois, voltarei para a fazenda e ficarei junto de meu filho.
Marcela não respondeu.
Com os olhos cheios de lágrimas, foi embora, pensando:
"Continuarei assediando-o, mas com inteligência.
Sei que sou inteligente.
Pratiquei um crime perfeito!"
A luta pela abolição continuou até que Dom Pedro afastou-se do palácio, deixando o governo com sua filha, a princesa Isabel, que, não suportando a pressão da Inglaterra e do povo, proclamou a abolição da escravatura em todo o território brasileiro.
No Brasil não haveria mais escravos.
A notícia correu rapidamente.
Mensageiros dos abolicionistas foram enviados a cavalo para toda parte, dando a notícia aos negros e senhores.
Os negros, quando se viram livres, tocaram os tambores, que soavam de fazenda a fazenda.
Houve muita dança e muita alegria.
Quando Rosa Maria soube, ficou feliz, e uma grande festa foi feita na fazenda.
Enquanto eles tocavam e dançavam, ela, na varanda, pensou:
"Pai Joaquim disse que isso aconteceria."
“- Us nego um dia vão sê livre.
Um dia, vai tê nego dotô, divugado e inté puliciar.
Tumara qui quando esse dia chega tudos nego sabe pruveitá”.
"É, Pai Joaquim.
De onde estiver, deve estar contente.
Seus negros estão livres.
Tomara que saibam aproveitar."
Os negros abandonaram as fazendas.
Muitos fazendeiros ficaram em situação difícil.
Sem homens para trabalhar, as lavouras foram perdidas.
Os negros foram para as vilas, mas ao chegarem, não souberam o que fazer, acostumados a ter tudo fornecido pelo senhor:
roupa, comida e casa para morar.
Nas vilas, não havia emprego para todos.
Foram se afastando e formaram pequenos núcleos só deles
A abolição chegou, mas eles não estavam preparados para ela.
Muitos fazendeiros foram à falência.
Outros contrataram imigrantes que chegavam dos países da Europa, principalmente da Itália, Portugal e Espanha.
Os negros conseguiram só sub-empregos.
Sem saber ler e escrever, não tinham como conseguir empregos melhores.
Viveram momentos difíceis.
Na Fazenda Maria Luísa, nada mudou.
Os escravos que lá estavam, lá permaneceram.
A abolição já tinha chegado havia muito tempo.
Iriam sair de lá por quê?
Rodolfo comprou algumas fazendas que estavam falidas.
No dia da abolição, os abolicionistas fizeram uma grande festa.
Felipe disse para Julinho:
- Missão cumprida.
Conseguimos.
Agora, já posso voltar para a fazenda.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 7:50 pm

- Não pode, não, doutor.
A missão ainda não está terminada.
- Como não? A abolição chegou.
Os negros estão livres!
- Ainda falta a República.
O Brasil também tem que ser livre.
- República? Ah, não!
Nunca falei que lutaria, também, pela República.
- Mas precisa. Agora é à hora.
Mostrou que é idealista e lutador.
Não pode nos abandonar agora.
- Vou pensar.
- Mas não pensou.
Sem perceber, estava participando de reuniões, agora pela República.
Durante quase um ano, participou de todas as manifestações a favor da República.
O Exército, maçons e o povo estavam todos unidos contra o imperador.
Por intermédio de uma carta, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República.
Finalmente, o Brasil, depois de Tiradentes e tantos outros, não era mais uma colónia, era agora um país.
Felipe, Aninha e Tobias voltariam para a fazenda.
Convidaram Julinho para passar uns dias lá.
Ele aceitou.
Aninha teve a ideia de convidar Marcela também.
Eles foram até a casa dela.
Os pais os receberam.
- Viemos convidar Marcela para ir connosco passar uns dias na fazenda.
A mãe de Marcela estava muito nervosa.
- Seria bom se ela fosse, mas creio que não será possível.
- Por que não?
- Ela não está bem.
Não sai do quarto.
Fica o tempo todo falando coisas que não entendemos.
Está com medo. Não sabemos do quê.
Aninha, você não quer tentar falar com ela?
- Se a senhora permitir, gostaria.
Entrou no lindo quarto de Marcela.
Ela estava enrolada no cobertor, com a cabeça coberta.
Aninha a se aproximou e tentou tirar a coberta de sua cabeça.
- Marcela, estou aqui.
Preciso falar com você.
Marcela descobriu a cabeça.
Olhou para Aninha com os olhos arregalados.
- O que você quer? Não fiz nada.
Está me acusando do quê?
- Marcela, o que está acontecendo?
Não estou lhe acusando de nada.
Só quero levá-la para a fazenda.
- Aninha, você não a está vendo aqui?
- Quem? Não estou vendo ninguém.
- Divina. Ela está aqui.
Não está vendo? Ela está mentindo.
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Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

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