QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Página 3 de 12 Anterior  1, 2, 3, 4 ... 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:16 pm

Se for alguém conhecido, faz um sinal para outro escravo que fica na varanda.
Este começa a tocar outro sino que é maior que os dois.
Se for um estranho, pergunta o que deseja.
Antes que terminasse de falar, um escravo chegou montado em um cavalo.
Ao ver que era Dom Carlos, fez um sinal.
O som de um sino se ouviu mais alto.
Seguiram por mais cinco minutos até a casa.
Agora de perto, podia-se ver melhor.
A casa era imensa.
Devia ter muitos quartos.
A carruagem parou em frente a uma escada.
Esta rodeava toda a casa. Todos desceram.
Estavam cansados, mas felizes, por finalmente chegarem e encontrarem aquela casa tão bonita.
Subiram os dez degraus que levavam até a porta de entrada.
A sala era enorme, com tapetes, cortinas e um quadro com paisagem do campo.
Nas paredes, havia vários castiçais de prata, onde eram colocadas velas para iluminar a casa durante a noite.
Um grande corredor levava aos quartos.
No fim do corredor, havia uma porta.
Assim que a porta foi aberta, viram um enorme quarto de banho.
Rosa Maria estava encantada com tudo.
Várias mucamas estavam perfiladas, esperando os recém-chegados.
A um sinal de Dom Carlos, colocaram-se ao lado de quem iriam servir.
Para perto de Rosa Maria foi à escrava que ela havia escolhido e que Malaquias comprara a contragosto.
Rosa Maria olhou para ela e pensou:
"Gostei mesmo dela.”
Maria Luísa falou:
- O que estou querendo mesmo é tomar banho é dormir por vinte horas!
A escrava que estava ao seu lado disse:
- Sinhazinha, seu quartu ta pronto e u banho tumém.
- Que bom!
Com licença, já vou!
A escrava que estava ao lado de Rosa Maria também lhe mostrou o quarto.
Ela a acompanhou.
Dois escravos traziam as bagagens.
Rosa Maria entrou no quarto.
Lá dentro ficou encantada novamente.
Tudo era muito luxuoso.
Os móveis de madeira escura, um grande baú, também de madeira.
Uma penteadeira com um espelho e uma cama grande com um véu que a cobria totalmente.
Por algum tempo, ficou parada na porta sem se mexer, só olhando.
A escrava falou:
- Tem qui te esse véu pruque tem muito musquito, pur causa da mata.
Rosa Maria sorriu.
Deitou-se na cama e começou a pular.
A roupa de cama era toda branca e a cortina de croché azul.
Outra vez, nunca tinha visto coisa igual.
Olhou para a escrava e perguntou:
- Qual é o seu nome?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:17 pm

- Serafina, sinhazinha.
- Pois bem, Serafina, preciso que me faça um favor.
Estou tendo dificuldade para entender o que fala.
Por isso, queria pedir que falasse devagar.
Até eu me acostumar, está bem?
Serafina olhou para ela assustada. Falou devagar:
- A sinhazinha mi discurpe, mais a nega só sabe falá desse jeito...
Rosa Maria percebeu que ela estava assustada e disse:
- Não estou brava.
Gostei de você desde que a vi lá no Rio de Janeiro.
Quero que fale devagar para que eu possa entender.
Sou de família pobre, nunca tive escrava e ajudava minha mãe com o serviço de casa.
Não sei como falar com você.
Ao se lembrar de sua mãe, lembrou-se também de sua casa em Portugal, de tudo que vivera lá.
Nunca teve tanta riqueza como a que estava tendo agora, mas com certeza naquele tempo também era feliz.
Começou a chorar.
- A sinhazinha pode mi trata cumo quisé.
To aqui pra servi a sinhazinha.
Posso preguntá uma coisa?
Rosa Maria secou os olhos com a mão e acenou com a cabeça.
- Pru qui a sinhazinha tá churando?
- Lembrei de minha casa, de meus pais e de meu irmão.
- A sinhazinha pode vortá e incontrá eles di novo.
- Infelizmente, não.
Eles morreram.
- Si num incontrá nessa vida aqui, incontrá na otra vida...
- Outra vida? Que outra vida?
- Sei qui a sinhazinha nun sabe, tumém agora io num posso falá.
Fica pro otro dia.
Rosa Maria não entendeu o que estava falando, só sabia que aquela escrava falava com tanto carinho e sabedoria que parecia ver sua mãe na sua frente.
Fora criada na igreja católica, sabia que existia céu e inferno.
Disse:
- É verdade, Serafina, um dia, com certeza, irei encontrar todos novamente.
- Isso memo sinhazinha.
A tina já tá cheia d' água.
Já pode tuma seu banho.
Rosa Maria sorriu.
Foi guiada pela escrava ao quarto de banho, onde havia uma tina grande de madeira cheia de água quente.
Despiu-se, um pouco envergonhada, e, ajudada por Serafina, entrou na tina.
Aquela água quente por seu corpo todo fez com que ficasse imóvel, só sentindo as mãos da mucama enquanto a banhava.
- Que perfume é esse?
- É di frô qui culhi e fiz mistura pra culocá na água da sinhazinha. Gustô?
- Muito. É uma delícia.
Serafina sorriu.
Gostou muito daquela sinhazinha.
Quando acabou de tomar banho, Rosa Maria colocou uma camisola branca, deitou-se e falou:
- Vou dormir um pouco.
Estou cansada da viagem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:17 pm

Esse banho me deu uma moleza...
Um pouco antes do jantar, por favor, pode me acordar?
- Pode ficá sussegada.
Eu acordo a sinhazinha.
Vô fechá a janela.
Dispois, ieu vorto.
Rosa Maria já estava dormindo antes de Serafina terminar de falar.
A escrava olhou para ela e pensou:
"Tadinha... tá cansada memo!"
Quando acordou, Rosa Maria ficou olhando para tudo a seu redor e pensou:
"Foi um sono reparador.
Quanta coisa está acontecendo em minha vida!
Tudo está mudando tão rapidamente..."
Serafina entrou no quarto e viu que já estava acordada.
Rosa Maria, ainda deitada, abriu os olhos e viu diante de si aquele sorriso amável.
Pensou: "Ela é tão doce!
Por isso gostei dela logo que a vi."
- Já tá quase na hora du jantá.
A sinhazinha tem qui si visti.
Serafina abriu o armário para escolher o vestido que Rosa Maria iria usar.
- Posso iscoiê um vistido pra sinhazinha?
- Pode. Quero um bem bonito.
- Quarqué vistidu vai ficá bunitu na sinhazinha, pruque a sinhazinha é que é bunita.
Rosa Maria se emocionou com as palavras da negra e, pegando em suas mãos, disse:
- Você é que é bonita Serafina.
Em seguida, foi até o armário.
Estava repleto de vestidos pendurados.
Abriu as gavetas e encontrou roupas de baixo, todas brancas e bordadas.
Admirada, perguntou:
- Que roupas são estas, Serafina?
- Inquanto a sinhazinha drumia, Jerusa, a mucama da sinhazinha Maria Luísa, troxe essa ropa pra sinhazinha.
Guardei devagarzinho.
A sinhazinha tava drumindo cum tanto sono qui num escuitô a nega.
- Mas é muita coisa!
Maria Luísa é louca mesmo!
- Vai vê ela gosta muito da sinhazinha.
Rosa Maria sorriu, vestiu um vestido azul-claro com rendas e fitas.
Serafina penteou seus cabelos e colocou um laço de um azul mais escuro.
Serafina tomou certa distância e disse, sorrindo:
- A sinhazinha tá linda!
Rosa Maria se olhou no espelho e pensou:
"Estou linda mesmo e muito feliz!"
Quando chegou à sala de jantar, não havia ninguém da família.
Apenas escravas indo e vindo, preparando a mesa.
Foi para a varanda, olhou para o horizonte.
O sol estava se pondo e o céu estava avermelhado.
Emocionada com tanta beleza, pensou:
"É um lindo pôr-do-sol, como nunca vi antes.”
- Está admirando a natureza?
Ela ouviu a voz e reconheceu.
Voltou-se e lá estava Rodolfo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:17 pm

- Tudo aqui é tão bonito!
Estou encantada!
- Bonita é você.
Eu é que estou encantado!
Hoje, está mais encantadora ainda.
Rosa Maria olhou para ele e pensou:
"Você é que é maravilhoso.
Eu o amo tanto..."
Pensou, mas não falou.
A mulher aprendia desde cedo a não demonstrar seus sentimentos.
Por isso, apenas sorriu.
Os dois ficaram olhando o anoitecer.
- Que perfume é este, Rodolfo?
- É a dama-da-noite.
Uma flor que só exala seu perfume durante a noite.
- Ah! Vocês estão aí?
Voltaram-se e viram Maria Luísa, que acabara de chegar.
- Estamos apreciando o pôr-do-sol e este perfume que sai das flores.
- Posso ficar também?
- Ora, maninha, você pode tudo!
Ficaram lá por alguns minutos.
Ouviram uma voz:
- U jantá tá sirvido.
- Obrigado, já estamos indo - Rodolfo respondeu à escrava que veio chamá-los.
Entraram na sala, conversando e rindo.
Dom Carlos e dona Matilde já estavam sentados.
Os três jovens sentaram-se e começaram a comer.
Dom Carlos conversou com todos, inclusive com Rosa Maria.
Ela respondia a suas perguntas, enquanto pensava:
"Será que ele não me reconheceu mesmo?
Tomara que não!”
- Está pensando em quê, Rosa Maria?
Ela voltou de seus pensamentos.
Olhou para Dom Carlos, que havia feito a pergunta, e respondeu:
- Estou feliz por estar aqui.
Este lugar é maravilhoso.
Aproveito para agradecer ao senhor e a todos, mais uma vez, por toda essa felicidade.
Dom Carlos olhou para ela profundamente e disse:
- Enquanto for amiga de minha filha e ela a quiser aqui, nada mudará.
A vontade dela é minha vontade.
- Então, nada vai mudar - disse Maria Luísa.
Você é minha melhor amiga e vai continuar sendo, não é?
- Sou sua amiga e serei para sempre.
- Você é a irmã que não tive.
- Vamos parar com essa conversa.
Daqui a pouco, estaremos todos chorando. - Rodolfo disse, sorrindo.
Todos riram.
Realmente, a conversa estava tomando um rumo estranho.
Terminaram o jantar e foram para a varanda, onde seria servido o café.
Havia lá uma mesa com cadeiras feitas de palha, nas quais se sentaram.
A noite estava calma e o céu, estrelado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:17 pm

A lua brilhava.
Começaram a soar tambores.
Em seguida, vozes e palmas acompanhavam o som.
Maria Luísa perguntou:
- De onde vem essa música?
- Da senzala - respondeu Dom Carlos.
Toda noite, após o trabalho, os negros tocam e cantam para seus deuses.
Dizem estar agradecendo por seu dia.
Só não sei o que agradecem...
- Estranho, o som é alegre e triste ao mesmo tempo.
Rosa Maria permaneceu calada, apenas ouvindo a música e pensando "Já ouvi esse tambor e essas vozes... mas onde?"
- Papai, gostaria de ir até lá. Posso?
- Hoje não, filhinha.
No sábado, vou mandar que venham tocar aqui no pátio para assistirmos.
- Papai, o que é aquela madeira no centro do pátio?
- É o tronco.
Quando um negro não obedece às ordens de seu dono, é preso nele e chicoteado.
- Que horror!
- Os negros que aqui vivem sabem que, portando-se bem, não há perigo de irem para o tronco.
Até hoje não precisei mandar nenhum.
Conversaram mais um pouco e foram dormir.
Na cama, Rosa Maria pensava:
"Como minha vida mudou em tão pouco tempo!
Perdi meus pais, fiquei sozinha.
Mas também conheci Maria Luísa.
Uma grande amiga, que esteve a meu lado nos piores momentos.
Se ela não estivesse me apoiando, não sei como teria sido.
Conheci Rodolfo, tão gentil, carinhoso e amoroso.
Nunca conheci um homem antes.
Não sei bem, mas o que sinto por ele deve ser amor.
Fico tão feliz quando estou a seu lado, como aconteceu esta noite.
Sim, com certeza o que sinto por ele é amor.
Um amor que veio para sempre."
Adormeceu, pensando nele.
Conhecendo os Deuses dos negros.
No dia seguinte, ao se levantar, Rosa Maria foi directamente para a varanda.
Queria ver o dia nascer.
O sol estava surgindo vagarosamente, uma neblina suave no alto da montanha se transformava em uma luz prateada sob o reflexo do sol.
Uma beleza indescritível.
Pássaros cantavam e escravos iam e vinham.
Novamente, ela se encantou com tudo.
Ficou lá por muito tempo.
O sol, agora, estava visível, seria um dia claro e, com certeza, quente.
Não percebeu por quanto tempo esteve lá.
Aos poucos, os outros foram chegando, e ela contou a beleza do amanhecer que havia presenciado.
Estava feliz e essa felicidade era transmitida aos demais.
Tomaram café. Rodolfo disse:
- Senhoritas, papai permitiu e vou levar as duas para passear, quero que conheçam a fazenda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:18 pm

Quem quer ir?
As duas olharam ao mesmo tempo para Dom Carlos, que sorria, aprovando com a cabeça.
Levantaram-se e saíram correndo para a porta de entrada.
A uns trinta metros da casa, havia uma pequena cocheira onde ficava a charrete e seus cavalos.
A dois quilómetros da casa, ficava o grande estábulo, com muitos cavalos que eram usados para os trabalhos da fazenda, transporte de mercadorias e para as viagens mais longas de carruagem.
Eram cavalos bem tratados.
Josué chegou logo, mais com a charrete.
Havia dois lugares, onde se acomodaram Rosa Maria e Maria Luísa.
Rodolfo foi à frente com Josué. Dirigiram-se ao estábulo.
Tudo estava limpo e arejado, além de vários cavalos bem tratados.
Desceram e se aproximaram para ver os cavalos de perto.
Maria Luísa sentiu o coração disparar.
Lá estava ele, de costas, passando uma escova em um cavalo branco que parecia ser de raça.
Devia ser, ela não tinha certeza.
Mas sabia que o escravo era o negro... Seu negro.
Não parava de tremer.
Ouvia o bater de seu coração.
Ficou com medo de que os outros ouvissem também.
Ao escutar passos e risadas, o negro se voltou, viu os três que olhavam para ele e para o animal.
Rodolfo dirigiu-se a ele e disse:
- Prepare esse cavalo, vou cavalgar.
- Sim, sinhozinho. Vô prepara.
Esse cavalo é manso, bão pra cavargá.
Enquanto falava, seus olhos encontraram os de Maria Luísa, que estava branca como cera e que sentia um arrepio correr por todo o seu corpo.
Ele pensou:
"ieu vi essa sinhazinha nu dia qui fui cumprado.”
Rodolfo, como se estivesse lendo seus pensamentos, falou:
- Você não é o escravo que foi comprado por Malaquias quando estávamos no Rio de Janeiro?
- Sô, sim, sinhozinho.
Seu Malaquia preguntô si ieu sabia trata di cavalo.
Ieu disse qui sim, pur isso to aqui.
- Qual é seu nome?
- Si chamo Tubia.
- Muito bem, Tobias, parece que está tratando bem dos cavalos.
Esse preto tem nome?
- Si chama Truvadô, pruque galopa cumo si tivesse cantando.
Todos riram.
Maria Luísa não conseguia tirar os olhos dele.
Rosa Maria percebeu e ficou apreensiva.
Pensou: “Meu Deus, proteja Maria Luísa, por favor!
Tire essa ideia louca de sua cabeça."
Tobias colocou a sela no cavalo, Rodolfo montou e começou a cavalgar.
As moças ficaram olhando.
Aos poucos, o cavalo foi cavalgando mais rápido.
Logo cavalgava acelerado.
Rodolfo abanava os braços para as moças, que riam com a felicidade dele.
Parecia uma criança.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:18 pm

Cavalgou alguns minutos e voltou, dizendo:
- Ele é fabuloso!
Conhece todos os movimentos.
Agora é sua vez, Maria Luísa.
Ela, como Rodolfo, aprendera desde cedo a cavalgar.
O irmão ajudou-a a montar.
Ela saiu cavalgando com elegância.
Os três seguiam-na com o olhar.
Tobias não sabia o que fazer.
Simplesmente, olhava e pensava:
"Essa sinhazinha é tão bunita! Tão branca...”
Ela, mesmo cavalgando, não conseguia esquecer o negro.
Mesmo estando feliz sobre aquele cavalo deslumbrante, sentiu que estava solta, livre, mas lhe faltava algo.
Pensava: "Ele também me olhou diferente.
Oh, meu Deus! Isso tudo é loucura.
Não consigo evitar, é mais forte que eu."
Voltou para junto dos três, que continuavam no mesmo lugar, somente a vendo cavalgar.
- Então, maninha, o que achou?
- Ele é maravilhoso! Adorei!
Você me traz aqui todos os dias para poder, novamente, cavalgar este belo cavalo?
- Com certeza.
Também quero cavalgar esse cavalo.
Agora é sua vez, Rosa Maria.
- Não posso, nunca cavalguei em minha vida...
- É fácil.
Deixe o cavalo ser conduzido com as rédeas, só dê a direcção.
- Não posso. Tenho medo...
- Rodolfo, por que você não monta e leva junto com você Rosa Maria?
Assim, ela perderá o medo e aprenderá.
- Boa ideia, Maria Luísa.
Você vem, Rosa Maria?
Rosa Maria sorriu.
Ele a ajudou a montar e montou em seguida.
Os dois saíram cavalgando.
Maria Luísa olhou para Tobias, que baixou os olhos.
Ela, sorrindo, disse:
- Não precisa ficar assim.
Sou só uma moça, nada mais.
Não vou comer você!
- A sinhazinha cavarga muito bunito.
- Eu sei, cavalgo desde criança.
Fiquei feliz em ver você aqui.
Já o tinha visto lá no Rio de Janeiro.
- Tumém vi a sinhazinha.
Rosa Maria e Rodolfo cavalgavam.
Ela, sentada à sua frente.
Ele, com os braços em volta da cintura dela e segurando as rédeas.
Ela sentia o rosto dele em seus cabelos.
Ele sentia o calor do corpo dela no seu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:18 pm

Falou:
- Gosto muito de você.
Daqui a alguns dias vou com meu pai para o Rio de Janeiro.
Lá, só nós dois, falarei com ele a nosso respeito.
Vou dizer que quero me casar com você.
Sei que não será fácil, mas direi que minha felicidade é você.
Sei também que ele só quer meu bem.
Por isso, vai aceitar.
Quero ficar com você para sempre.
Beijou seus cabelos.
Ela fechou os olhos, sentindo aqueles lábios, se encostou mais a ele e disse:
- Deus queira que ele aceite.
Também quero ficar com você para sempre.
Voltaram para junto de Maria Luísa, que estava sozinha.
Enquanto desmontava, Rodolfo perguntou:
- Onde está Tobias?
- Foi para dentro do estábulo cuidar dos outros cavalos.
Rodolfo não percebeu nada.
Rosa Maria, sim, e pensou:
"Alguma coisa aconteceu aqui".
Tobias apareceu.
Rodolfo entregou o cavalo.
Foram embora. Tobias, com o coração apertado, ficou vendo eles se afastarem.
Continuando o passeio, foram até a lavoura.
Era imensa, não se conseguia ver o fim.
Conheceram a plantação de café, que estava florindo, a de milho e a de mandioca.
A fazenda era grande e bem cuidada, com muitos escravos.
Voltaram, estavam famintos.
Contaram a aventura aos pais:
- Papai, cavalgamos em um cavalo preto, lindo, chamado Trovador.
Vamos voltar amanhã para cavalgar novamente.
- Que bom que estejam felizes!
O passeio parece ter feito bem a todos.
Estão corados e parecem famintos.
Vamos almoçar?
- Estamos mesmo com muita fome.
Foram almoçar. Falavam muito.
Só Maria Luísa estava calada.
Após o almoço, Rosa Maria foi para seu quarto.
Rodolfo saiu com o pai para percorrer a fazenda.
Maria Luísa foi para o piano e ficou tocando uma canção triste.
Não conseguia esquecer o negro.
Teria que encontrar um jeito de ficar com ele, nem que fosse só por um instante.
Queria sentir aqueles braços fortes por seu corpo.
Queria sentir aquela boca na sua.
Parou de tocar e falou baixinho:
- Meu Deus! De onde estou tirando essas ideias?
À noite, após o jantar, na varanda, ouviram novamente os tambores tocando, os negros cantando e batendo palmas.
Dom Carlos falou:
- Está tudo certo.
Amanhã à noite, eles virão aqui para o pátio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:18 pm

Tocarão e cantarão para podermos assistir.
Não queriam vir.
Disseram que é uma cerimónia sagrada e que não é para ser assistida por pessoas estranhas.
Eu disse que, se não viessem, não permitiria que tocassem mais.
Eles concordaram.
No dia seguinte, os três jovens foram novamente passear.
No estábulo, Rodolfo e Maria Luísa cavalgaram.
Rodolfo deu uma volta com Rosa Maria, depois fez com que ela cavalgasse sozinha.
Aos poucos, ela foi perdendo o medo e logo cavalgava muito bem.
Entregou o cavalo a Tobias, que ficou o tempo todo dentro do estábulo, evitando ficar sozinho com Maria Luísa.
Sabia que não podia nem olhar para ela, mas não conseguia esquecer-se dela por um minuto que fosse.
Foram até o rio.
Ficava a alguns metros abaixo da estrada.
Do alto, via-se a água límpida e calma.
Pequenos peixes nadavam tranquilos.
Havia uma pedra grande.
Desceram, sentaram-se na pedra e ficaram olhando a água que descia calmamente.
Rodolfo se deitou, pousou a cabeça no colo de Maria Luísa, arrancou um mato do chão, colocou no canto da boca e falou:
- Sabe irmãzinha, tenho algo para lhe contar.
As duas olharam para ele curiosas.
Ele continuou:
- Vou me casar...
Rosa Maria não acreditou na cara de espanto de Maria Luísa:
- Casar? Como? Com quem?
Rodolfo se levantou de seu colo, olhou bem em seus olhos e falou:
- Sim, casar. Como?
Como todos fazem. Com quem?
Com essa bela senhorita que está aqui na sua frente.
Maria Luísa fez uma cara de surpresa e perguntou:
- Rosa Maria? Não acredito!
Como você não me contou?
Pensei que fosse minha amiga!
Quando aconteceu?
- Ela não lhe contou porque pedi para não contar.
Como será uma esposa obediente, ficou calada.
Quando? Depois que falar com papai e obtiver seu consentimento.
- E se ele não consentir?
Não será bom para ela continuar morando connosco.
- Mesmo que ele não consinta, ela não continuará morando connosco, até irmos embora.
Construiremos nossa vida longe daqui.
- E viverão de quê?
Papai com certeza não vai dar dinheiro algum.
- Tenho alguns contactos no Rio de Janeiro.
Arrumarei um emprego.
Farei qualquer coisa.
Só não vou me separar dela. Nunca!
- Deus os ajude.
Amo os dois e ficarei feliz com a felicidade de vocês.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 8:18 pm

- Sei disso, por isso estou lhe contando.
- Quando vai falar com papai?
- Teremos que ir ao Rio de Janeiro por esses dias.
Lá, na primeira oportunidade, falarei.
Quando voltarmos, já terei tomado uma decisão:
vamos nos casar ou iremos embora para sempre.
- Do fundo de meu coração, espero que ele aceite meu irmão...
Maria Luísa olhou para a amiga, piscou um olho e falou:
- Não vou lhe perdoar nunca por não ter me contado, Rosa Maria.
Isso não se faz com uma amiga.
Rosa Maria sorriu, falando:
- Precisa me perdoar, Maria Luísa.
Não podia desobedecer a meu futuro marido.
- Está bem, por essa vez passa, mas que nunca mais se repita!
Ela abraçou os dois e disse:
- Como é lindo o amor!
Ainda mais um amor como o de vocês.
Que Deus os abençoe!
Voltaram para casa.
O resto do dia ficou ansiosa, esperando a noite chegar, pois os negros viriam tocar e dançar.
Após o jantar, foram para a varanda.
Os negros já estavam sentados em uma grande roda.
Havia um altar com vários santos, muitas flores, comidas, frutas e quatro tambores feitos pelos próprios negros.
Estavam todos vestidos de branco com colares coloridos feitos de sementes e dentes de animal.
A um sinal de Dom Carlos, os primeiros sons se fizeram ouvir.
Uma voz masculina começou a cantar.
Seguindo o ritmo do tambor, homens e mulheres repetiam suas palavras, dançando, batendo palmas e cantando numa língua desconhecida pelos brancos.
Rosa Maria pensava:
"Essa música...
É a mesma que ouço em meus sonhos.
Como posso sonhar a tanto tempo com uma música que só vim conhecer agora?
Por que esse sonho se repete sempre?"
A cada música, um casal entrava dançando no meio da roda.
Tinham o rosto coberto por uma máscara feita de palha e traziam um apetrecho nas mãos.
O movimento da dança e do corpo mudava a cada par que entrava.
Eles gritavam como se estivessem cumprimentando aquele que, na crença deles, era um deus.
Os pares dançavam ora lenta, ora rapidamente.
A música também era assim.
Um espectáculo diferente, mas bonito para olhos leigos.
Ao término de uma música, quando ia iniciar outra, o negro que parecia ser o chefe da cerimónia, fez um gesto chamando Rosa Maria e Maria Luísa para que entrassem na roda.
As duas olharam para Dom Carlos, que confirmou com a cabeça.
Desceram a escada e foram ao encontro do negro que as chamara.
Os negros se afastaram e formaram uma ala, como se fosse uma porta, por onde elas entraram.
Foi colocada em ambas uma máscara e, na mão direita de cada, uma espada de madeira.
Ao som da música, elas começaram a bater palmas e a rodar imitando os negros.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:04 pm

A música e o barulho dos tambores foram tomando conta delas, que começaram a vibrar as espadas no ar como se estivessem cortando alguma coisa.
O corpo de ambas começou a fazer contorções que elas, por mais que quisessem, não conseguiam parar.
Dançaram, enquanto os negros cantavam e gritavam:
- Iaparrei, inhansã...
Iaparrei, inhansã...
Iaparrei, inhansã...
Os tambores aumentavam os sons e a vozes também.
Para os negros, foi uma festa ver duas filhas de Iansã, brancas, no meio deles.
Sabiam ser aquilo um aviso de que seriam protegidos por elas.
Entre todos, o mais feliz era Tobias, porque via sua sinhazinha sendo quase uma deles.
As duas continuavam dançando.
Viam tudo que estava acontecendo.
Só não conseguiam controlar o corpo, mas também não queriam parar.
Estavam muito felizes.
Quando a música terminou, exaustas as duas se ajoelharam.
Rodolfo já estava do lado de fora da roda, tentando entrar.
Afastou alguns negros e entrou.
Levantou as duas, que pareciam bêbadas.
Dom Carlos e Dona Matilde não entendiam o que havia acontecido ali.
Elas abriram os olhos ao mesmo tempo e viram Rodolfo, que as abraçava.
Não sabiam o que dizer ou fazer.
Ele levou as duas até o alto na varanda e fez com que elas se sentassem nas cadeiras.
Envergonhadas, se levantaram e correram para seus quartos, sem olhar para ninguém.
Dom Carlos deu por encerrada a festa e dispensou os negros, que foram embora satisfeitos.
Serafina entrou devagarzinho no quarto de Rosa Maria.
Ela estava deitada chorando.
Serafina sorriu, e, passando as mãos por seus cabelos, disse:
- A sinhazinha num percisa churá.
Num cunteceu nada.
Foi só a mãe da sinhazinha qui veio visitá a sinhazinha.
- Minha mãe? Você está louca!
Ela morreu há muito tempo e nunca dançou dessa maneira.
- Sinhazinha, a nega vai cuntá uma história pra sinhazinha.
Só qui acho qui, nois duas, deve di i nu quarto da sinhazinha Maria Luísa.
Ela tumém deve di tá churando.
Aí, a nega conta logo pras duas.
E aí, as duas vão pará di churá.
Foram para o quarto de Maria Luísa.
Ela realmente estava chorando.
Rosa Maria correu para ela e a abraçou, dizendo:
- Pare de chorar, Maria Luísa!
Eu também estava chorando, mas parei quando Serafina disse que vai nos contar uma história e, assim, nós duas entenderemos o que aconteceu.
Viemos aqui para que ela possa contar para nós duas de uma só vez.
- Isso memo, sinhazinha.
Pára di churá.
Dispois qui a nega cuntá, si a sinhazinha inda quisé churá, a nega vai imbora e dexa.
Agora as duas vão fica bem quetinha, só fica iscuitando a nega. Tá bão?
Sentaram-se na cama.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:04 pm

Serafina começou a contar a história:
- Há muito, muito tempo atrais, lá na África, onde tudos nego nasceu, us nego vivia nas tribo.
Tinha rei, tinha princesa e tinha príncipe.
Us nego vivia filiz.
Eles num cunhecia Nosso Sinhô Jesuis Cristo.
Intão, eles tudo tinha uma purção di deus.
Cada um dus deus era uma coisa da Natureza.
U primero é Oxalá, u deus du mundo e di tudo.
U deus das mata é Oxossi.
U deus da guerra é Ogum.
U deus da justiça e das pedrera é Xangô.
A deusa das água doce, dus rio, das cachoera é Oxum.
A deusa dus mar é Iemanjá.
A deusa dus vento e das tempestade é Inhansã.
Cada um deles recebe dus nego cumida, fruta e frô.
- Us home branco chego lá.
Caçaro us nego cumo si fosse tudo bicho.
Us nego foi culocado nus navio e trazido pra cá.
Fora vindido qui nem fosse animar, num importando si rei, princesa ou príncipe.
Quando us nego chego aqui, us dono dus iscravo num dexava eles dá mais frô, fruta e comida, nem toca tambô, nem dança.
Intão us nego pra cada deus qui tinha coloco u nome di um santo dus branco.
Ansim eles pôde cuntinuá a dança, canta e toca prus deus deles.
Us branco agora dexa.
Intão Oxalá virô Nosso Sinhõ Jesuis Cristo.
Oxossi virô São Sebastião.
Ogum virô São Jorge.
Xangô virô São Jeromo.
Oxum virô Nossa Senhora Aparecida.
Iemanjá virô Nossa Senhora da Conceição.
Inhansã virô Santa Barbra.
- Pur isso as sinhazinha viu aquele artar qui us nego fizera cum tuda aquelas frô, cumida e fruta e us santo dus branco.
Us nego sabe qui tudos nóis têm duas mãe e dois pai.
As mãe daqui da terra impresta a barriga pra gente nascê.
Elas insina a gente falá, anda, tumà banho, si troca e tudo qui é certo e errado nessa vida.
Agora lá nu céu a gente tem um pai e uma mãe.
As sinhazinha intenderam inté aqui?
Elas escutavam com atenção.
Rosa Maria falou:
- Por isso você disse que minha mãe tinha vindo me visitar?
Você quis dizer a mãe do céu, não minha mãe aqui da terra?
- Isso memo, sinhazinha.
As duas sinhazinha é fia di Inhansã.
Isso é muito bão, pruque ela é guerrera e lutadora.
Quando as coisa tão rúim pra gente, ela vem cumo vento, cuma tempestade, cum muito raio, e leva tudo di rúim pra bem longe da gente.
Fia di Inhansã num perde uma briga, não.
As veiz parece qui perde, mais é só aquerditá qui ela vem ajudá.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:05 pm

Mais tumém, si ela ficá cum reiva, ninguém sigura.
Ela é rúim, muito rúim, capaiz di fazê as pior mardade.
Maria Luísa ouvia tudo atentamente.
Ficou pensando um pouco e falou:
- Quer dizer que nós duas somos filhas da mesma mãe lá do céu?
- Isso memo, sinhazinha.
Pur isso qui us nego num quiria vim tocá aqui, pruque eles sabe qui us memo deus dus nego são us memo dus branco tumém.
Maria Luísa começou a rir.
- Sabia que nos éramos irmãs, Rosa Maria!
Só não sabia como.
Mas que eu sabia, eu sabia!
As duas pularam juntas para cima de Serafina.
E a beijaram, uma de cada lado, com tanta força que a derrubaram sobre a cama.
Serafina ficou sem jeito, falou:
- As sinhazinha já penso si u Dom Carlos entra aqui agora?
Elas riram.
Serafina também saiu rindo.
- Essas duas são uns amô.
Meio locas, mais uns amô.
- Tudo bem, Maria Luísa.
Essa história de Serafina foi muito bonita, mas e sua mãe, seu pai e Rodolfo?
Como vai ser?
O que estarão pensando?
- Só vamos saber amanhã na hora do café.
Agora vamos dormir e sonhar com tudo o que aconteceu hoje.
Particularmente, adorei!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:05 pm

O ACIDENTE
No dia seguinte Maria Luísa acordou primeiro.
Como haviam combinado, foi para o quarto de Rosa Maria.
Aproximou-se da cama e a acordou, dizendo:
- Vamos! Vamos acordar preguiçosa!
Não disse que acordava primeiro?
Vamos chegar às duas juntas e enfrentar as feras?
Rosa Maria abriu os olhos e se espreguiçou, rindo.
- Como acha que vai ser com seus pais, Maria Luísa?
- Não sei.
Só vamos saber vendo.
Por isso não adianta ficar adiando.
Vamos logo.
Vestiram suas roupas e foram juntas para a sala de refeições.
Os três já estavam tomando café.
Elas entraram timidamente.
Dona Matilde disse:
- Bom dia, meninas.
Venham tomar café.
Devem estar com fome.
Com a cabeça baixa, sentaram e começaram a comer.
Dom Carlos foi o primeiro a falar:
- Podem voltar a ser como eram antes.
Não se preocupem.
Ontem, quando saíram correndo, ficamos conversando sobre o que havia acontecido.
Chegamos à conclusão de que a música é realmente envolvente, que só não saímos dançando porque somos muito adultos e não tivemos coragem, mas todos queriam dançar também.
As duas levantaram a cabeça.
Eles estavam rindo.
Maria Luísa perguntou:
- Verdade isso, papai?
- Claro que é! Não se preocupem mais.
Terminem o café e vão passear.
Tudo voltou ao normal.
Rosa Maria, Maria Luísa e Rodolfo saíam para passear todos os dias.
Passavam pelo estábulo, cavalgavam e Maria Luísa continuava olhando para Tobias, que fazia tudo para não ficar sozinho com ela.
Iam à lavoura, corriam pelos campos e depois iam para o rio.
Ficavam sentados conversando e apanhando sol.
Na hora do almoço, voltavam para casa.
Rosa Maria, com os ensinamentos de Rodolfo, já estava cavalgando.
Maria Luísa dava e recebia olhares furtivos de Tobias.
Não precisavam de palavras.
Os olhares diziam tudo.
Não tinham controle sobre aquela situação.
Rodolfo e Rosa Maria se olhavam e, às vezes, davam alguns beijos escondidos.
Fazia seis meses que estavam na fazenda.
Haviam esquecido os acontecimentos daquela noite.
Os negros nunca mais vieram tocar no pátio da casa-grande.
Estava começando a esfriar.
Durante esse tempo, Dom Carlos foi muitas vezes ao Rio de Janeiro.
Rodolfo não foi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:05 pm

Aproveitou para conversar com Rosa Maria.
- Só quero falar com meu pai quando estivermos sozinhos.
Se não concordar, não poderá maltratar você.
Enquanto isso, ele vai se acostumando com a ideia, conhecendo-a melhor e, depois disso, será impossível que não se apaixone também.
Ela sorria e só podia desejar que aquilo fosse verdade.
O inverno estava chegando.
Lá, sendo perto das montanhas, o frio era intenso, por isso havia uma lareira na sala, que esquentava a casa toda.
Após o jantar, todos ficavam próximos a ela, conversando.
Naquela noite, Dom Carlos falou:
- Rodolfo, preciso ir ao Rio de Janeiro.
Ficarei mais ou menos um mês. Quero que venha comigo.
- E nós? - perguntou Maria Luísa.
Nunca ficamos tanto tempo sozinhas na fazenda.
Em Portugal, tudo bem, mas aqui não conhecemos ninguém...
- Vocês estão bem aqui.
Têm tudo de que precisam.
Se precisarem de algo que não haja aqui, Malaquias manda providenciar.
Dona Matilde já estava acostumada com o trabalho do marido.
Várias vezes ficaram sozinhas em Portugal.
Lá, nunca houve problemas, mas essa terra ela não conhecia.
Também sabia que nada poderia fazer.
Ele sempre decidia tudo.
Três dias depois, Rodolfo e seu pai partiram.
Elas ficaram na varanda olhando a carruagem desaparecer no fim da estrada.
Na noite anterior, Rodolfo disse a Rosa Maria:
- Vou aproveitar a viagem para falar com ele a nosso respeito.
Tenho certeza de que vai concordar.
Ele já gosta de você, Rosa Maria.
- Espero que sim, Rodolfo!
É o que mais desejo!
Falou, mas pensava:
"Será que ele não me reconheceu?
Ou fez de conta que não para não magoar Maria Luísa?"
Na manhã seguinte, Josué esperava-os na carruagem.
Elas se levantaram para as despedidas.
Quando eles desapareceram na porteira, elas voltaram para seus quartos.
Era muito cedo, embora o sol já estivesse nascendo.
Rosa Maria ficou pensando no resultado da viagem:
"Tomara que aceite.
Vou ser a mulher mais feliz do mundo se puder casar-me com Rodolfo."
Maria Luísa, por sua vez, pensava:
"Não consigo deixar de pensar em Tobias.
Sei que estou apaixonada, mas sei também que é um amor impossível.
Meu pai jamais concordará.
Se descobrir, talvez me mande para o convento.
Ou pior: me mate!
E com Tobias, o que faria?
Com certeza, o mataria também.
Preciso tomar cuidado, mas ao mesmo tempo tenho que pensar num meio de conseguir ficar sozinha com ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:05 pm

Terá que ser agora, já que Rodolfo não está."
Tobias, por sua vez, também pensava:
"Xangô, meu pai, mi juda!
Sei qui num posso fica pensando na sinhazinha, mais ela num sai da minha cabeça.
Mi juda, pai!"
O sol começou a brilhar.
O dia estava claro e bonito.
Havia uma brisa fria, mas acolhedora.
Estavam terminando de tomar o café quando Maria Luísa falou:
- Vamos cavalgar Rosa Maria?
- Como? Rodolfo não está aqui.
- Não precisamos de Rodolfo.
Vou falar com mamãe.
Não é justo deixarmos de fazer o que gostamos por ele não estar aqui.
- Você é quem sabe.
Também estou morrendo de vontade de cavalgar.
Maria Luísa soltou uma gargalhada, pegou os cabelos da amiga e foi puxando, fazendo com que ela a acompanhasse até o quarto da mãe.
Rosa Maria já estava acostumada com aqueles repentes dela.
Mantinha uma distância certa para não doer.
Entraram no quarto correndo.
Maria Luísa soltou Rosa Maria e disse para a mãe de uma só vez.
- Mamãe, queremos cavalgar.
- Vocês duas sozinhas?
Não sei. Acho perigoso.
- Perigoso por quê?
Porque Rodolfo não está?
Não é justo ficarmos sem fazer o que gostamos.
Serafina vai connosco.
- Está bem, Maria Luísa, mas quem vai conduzir a charrete?
Josué foi com seu pai.
- Eu mesma.
Sei conduzir a charrete.
- Está bem, podem ir.
Mas não vão muito longe.
Voltem para o almoço.
Serafina foi chamada e avisada de que iria sair com as moças.
Embora Maria Luísa tivesse sua própria mucama e a usasse para seus serviços, tinha por Serafina um carinho especial que despertava em Jerusa um grande mal-estar.
Nunca era convidada para sair ou para ficar conversando, como as duas faziam com Serafina.
Nesse dia, mais uma vez, elas voltaram a sair sem que ela fosse levada.
Ficou acabrunhada.
As duas se aprontaram e foram para fora da casa.
Serafina já as esperava na charrete.
Foram directo para o estábulo.
Embora Maria Luísa não falasse, estava louca de vontade de ver Tobias.
Lá chegando, se aproximou dele e perguntou:
- Onde está Trovador, Tobias?
- Tá lá dentro, sinhazinha.
- Vá buscá-lo.
Vou cavalgar até me cansar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:06 pm

- Sim, sinhazinha.
Tobias entrou, mas antes olhou para Maria Luísa de um modo que Serafina não gostou.
Voltou, trazendo Trovador, já selado.
- Aqui tá, sinhazinha.
Pode cavargá.
- Obrigada, mas acabei de ter outra ideia.
Já que Rodolfo não está, não podemos cavalgar sozinhas.
Você vai junto para nos proteger se algum problema surgir.
Tobias olhou para Serafina e Rosa Maria, que acenaram a cabeça.
Rosa Maria disse:
- Boa ideia, Maria Luísa!
Ficarei mais tranquila.
Estaremos mais seguras.
- Já devia saber Rosa Maria, que sempre sei o que faço.
Tobias vá buscar aquele cavalo que Rodolfo deu para Rosa Maria.
Traga um para você.
Vamos os três cavalgar.
Tobias foi para dentro e trouxe os dois cavalos.
Montaram e saíram cavalgando, as duas conversando e rindo.
Tobias ia mais atrás.
Maria Luísa falou:
- Vamos apostar uma corrida?
- Não cavalgo tão bem quanto você, mas vamos lá!
Saíram em disparada.
As duas iam à frente e Tobias atrás, a uma distância considerável.
Seguiram cavalgando, ora uma na frente, ora a outra.
Repentinamente, uma cobra surgiu no meio da estrada.
Trovador se assustou, empinou e Maria Luísa caiu.
Rosa Maria, logo à frente, parou.
Tobias desceu do cavalo ainda em movimento e correu para Maria Luísa.
A cobra, também assustada, correu para o mato.
Trovador saiu em disparada.
Maria Luísa ficou deitada, imóvel.
Tobias chegou primeiro junto a Maria Luísa.
Por momentos, esqueceu quem era.
Abaixou-se, pegando a cabeça dela, e colocou junto a seu peito, falando:
- Sinhazinha!
Pur favô, abre us oio.
A sinhazinha num pode murrê!
Abraçou-a com carinho, acariciando seu rosto e seus cabelos.
Rosa Maria chegou trazendo seu cavalo.
Trovador também retornou.
Ela não acreditava na cena que via.
Pensou:
"Por que ele chora desse jeito?
E a acaricia com tanto carinho..."
Maria Luísa abriu os olhos.
Quando viu que estava nos braços dele, não acreditou.
Sentiu as mãos dele em seus cabelos.
Fechou os olhos para sentir mais um pouco aquelas mãos.
Rosa Maria ficou alarmada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:06 pm

Percebeu que ela acordara e tornara a fechar os olhos.
Percebeu também que ela estava bem.
Tudo era tão absurdo, mas não teve coragem de interromper aquela cena.
Depois de algum tempo, vendo o desespero deles, Maria Luísa resolveu abrir os olhos para mostrar que estava tudo bem.
Quando Tobias viu que ela abriu os olhos, ficou apavorado.
Só aí percebeu o que estava fazendo.
Olhou para Rosa Maria, falando suplicante:
- Óia, sinhazinha, ela cordô.
Num murreu, não.
Segura ela, segura!
Ela sentiu uma profunda pena dele.
Chegou mais perto, sentou no chão e segurou Maria Luísa junto a seu corpo.
- Ai, acho que quebrei a perna...
Rosa Maria deitou-a.
Levantou sua saia até o joelho, mexeu.
Maria Luísa gritou.
- Você se machucou mesmo, Maria Luísa.
O que vamos fazer?
Não pode mais cavalgar.
Tobias vamos ver se conseguimos fazer com que ela possa ir em seu cavalo.
É preciso que a leve.
Eu não posso, tenho medo que caia.
- Sim, sinhazinha, pode dexã.
Eu levo ela.
Num dexo ela caí, não.
Passou os braços pelo corpo de Maria Luísa.
Depois a colocou na sela e montou em seguida.
Foram embora.
Ele a colocou de lado com as duas pernas juntas.
Passou os braços em volta de seu corpo, segurando as rédeas.
Sentindo o corpo dele junto ao seu, ela encostou a cabeça em seu peito.
Ele ia galopando devagar, porque qualquer movimento mais brusco a fazia gritar de dor.
Realmente, estava doendo, mas ela agradecia a Deus por aquilo ter acontecido e pela oportunidade de estar nos braços de Tobias.
Levantou os olhos e encontrou os dele.
Ficaram por alguns instantes assim, só olhando um para o outro.
Ela olhou para ele com muito carinho e falou baixinho:
- Eu te amo! Eu te amo!
- Num pode, sinhazinha!
Num pode!
Ela se virou e beijou seu peito.
Rosa Maria, logo atrás, percebeu que conversavam, mas não conseguia ouvir.
Maria Luísa falou baixinho:
- Ninguém precisa saber, mas amarei você para sempre e nunca o abandonarei.
Vou enfrentar o mundo, mas ninguém poderá nos separar.
- Num pode, sinhazinha!
Num pode! Só nego.
Sô iscravo.
- Não me importa quem você é.
Para mim é só o homem que amo e que vou amar para sempre.
Até minha morte!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:06 pm

- Num pode, sinhazinha!
Num pode!
Maria Luísa se calou.
Só continuou beijando o peito dele.
Quando Serafina viu Maria Luísa e Tobias no mesmo cavalo, correu gritando:
- Sinhazinha! Qui cunteceu?
Tá machucada?
- Caí do cavalo, mas não me machuquei muito.
Só a perna. Acho que quebrei.
Tobias tirou Maria Luísa bem devagar do cavalo.
Colocou-a na charrete sentada no banco com as pernas esticadas.
Serafina olhou a perna de Maria Luísa por cima da meia e disse:
- Num quebro, não.
Vamo pra casa-grande.
Lá ieu cuido disso.
Rosa Maria e Serafina foram ao banco do cocheiro.
Tobias ia no cavalo atrás, para poder tirar Maria Luísa da charrete quando chegassem em casa.
Ia pensando: "Tô sunhando!
A sinhazinha num falô nada daquilo.
Num iscuitei direito. Não!
Num iscuitei direito, não.
Num pode sê!
Nunca pudia pensa qui ela gostava di ieu tumém.
Tantas noite fiquei sem pude drumi, só pensando nela.
Desde u dia qui vi a sinhazinha lá nu Rio di Janero.
Quem sô ieu?
Num tenho direito nem di oiá pra ela, muito menos di amá, mais ieu amo. Amo muito.
Xangô, meu pai, mi juda!"
Chegaram à casa-grande.
Ele a tirou da charrete.
Dona Matilde ficou nervosa querendo saber o que havia acontecido.
Enquanto Rosa Maria explicava, Tobias com Maria Luísa nos braços seguia Serafina, que ia mostrando o caminho.
Maria Luísa, com a cabeça encostada no peito dele, falava baixinho:
- Não esqueça nunca que eu amo você...
Ele, firme, olhando para frente, fazia de conta que não ouvia, mas seu coração batia forte e alto.
No quarto, quando a colocou na cama, deu uma última olhada.
Não estava aguentando mais, queria abraçar e beijar sua sinhazinha.
Ela era tudo para ele.
Ficou parado olhando até que ouviu uma voz dizendo:
- Já pode i, Tubia.
Ieu cuido da sinhazinha.
Ispera lá fora.
Vô percisá di ocê.
Ele sorriu para Serafina, olhou mais uma vez para Maria Luísa e saiu.
Maria Luísa sentia muita dor, mas estava feliz.
Sabia que ele a amava.
Isso é o que importava.
Rosa Maria, depois de avisar dona Matilde, estava indo junto com ela para o quarto.
Encontraram Tobias, que saía.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:06 pm

Ele falou:
- A sinhazinha já tá na cama.
Vô fícá lá fora.
Serafina disse qui vai percisá di ieu.
- Está bem - disse dona Matilde. Pode ir.
Serafina tirou as botas e meias de Maria Luísa.
Mexeu em sua perna. Ela gritou.
Serafina falou para as duas que acabavam de entrar no quarto:
- Num quebro, não.
Mas já tá inchadu.
A sinhazinha vai fica bem quétinha.
Vô saí mais vorto logu.
Num si mechi, sinhazinha.
Saiu e chamou Tobias.
Os dois foram para o mato em busca de folhas e ervas.
Voltaram logo depois com folhas e bambu que Tobias cortou em tiras.
Levou para Serafina, que estava na cozinha.
Ela estava com uma panela no fogo com azeite dentro, colocando as folhas.
Tobias saiu.
Serafina foi para o quarto levando a panela.
Entrou e pegou um lençol.
Rasgou em tiras.
Tirava as folhas da panela e experimentava o calor em seu braço.
Quando achava que estava bom, colocava na perna de Maria Luísa.
Dona Matilde e Rosa Maria ficaram olhando, sem nada dizer.
Serafina colocou várias folhas.
Pegou as tiras de bambu e foi colocando uma bem perto da outra.
Com as tiras do lençol, amarrou bem forte.
Quando terminou, disse:
- A sinhazinha vai tê qui fica sem anda pur uns deiz dia.
Si tenta anda, vai fica cum a perna torta.
Acho qui num vai querê.
- Claro que não!
Vou ficar quietinha.
Maria Luísa estava feliz.
Nem parecia estar com dor.
Dona Matilde, preocupada, falou:
- Pode deixar, eu mesma vou cuidar dela.
Não vai dar nenhum passo.
- Eu também vou cuidar dela - emendou Rosa Maria.
- Obrigada as duas, mas agora quero ficar sozinha.
Serafina, o que colocou no chá?
- Foi uma erva, pra sinhazinha fica carma e num sinti muita dor.
Pur isso tá cum sono.
Em seguida, fechou as cortinas e todos saíram.
Maria Luísa estava com sono, mas não conseguia esquecer tudo o que havia acontecido.
Seu corpo encostado no dele...
Os braços dele em volta dela...
Os lábios dele em seus cabelos.
Os lábios dela naquele corpo nu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:07 pm

Ao mesmo tempo em que estava feliz, sentia muito medo, pensando:
"O que terei que fazer para poder ficar com ele?
Mas pensarei nisso mais tarde.
Agora, só quero continuar sentindo seu cheiro e ficar lembrando-se de tudo o que aconteceu.
Quero dormir e sonhar com ele."
Dormiu por várias horas, mas não sonhou.
Foi acordada, suavemente, por Jerusa, sua mucama, que entrou no quarto, trazendo uma bandeja com pão, leite, manteiga e frutas.
Colocou a mão em seu ombro e a acordou suavemente.
Maria Luísa abriu os olhos, quis se levantar, mas sentiu dor, lembrou, tornou a se deitar.
Em seguida, dona Matilde e Rosa Maria entrou.
Maria Luísa, enquanto comia, falava:
- Estou com muita fome.
Com tudo isso que aconteceu, acabei não almoçando.
Começou a comer.
Dona Matilde sorria enquanto dizia para Rosa Maria:
- Ela está muito bem, nem parece ter passado por tudo aquilo.
- Estou bem mesmo, mamãe, não se preocupe.
Logo mais estarei andando novamente.
- Assim espero.
Rosa Maria, você pode ficar com ela?
Preciso dar algumas ordens.
- Claro que posso dona Matilde.
Pode ir, não vou arredar meu pé daqui.
Dona Matilde saiu.
Rosa Maria se deitou ao lado de Maria Luísa e ficou ali, até ela terminar de comer.
Assim que Maria Luísa terminou de comer, Rosa Maria se levantou e retirou a bandeja, colocou sobre uma cadeira, voltou a se deitar ao lado dela e perguntou:
- Pode me contar o que aconteceu, Maria Luísa?
- Você não viu Rosa Maria?
A cobra apareceu na frente de Trovador, ele se assustou e eu caí.
- Isso eu vi.
Quero que me conte o resto, ou seja, o que aconteceu depois.
- Que depois, Rosa Maria?
- Você e Tobias.
- O que tem?
- Não se faça de boba e nem queira me fazer, Maria Luísa!
Alguma coisa aconteceu e está acontecendo!
Preciso saber o que é!
- Está bem, vou contar, sei que não conseguirei deixar de contar a você.
Contou tudo, desde o primeiro dia que foi ao estábulo e reencontrou Tobias.
Disse que era o que mais desejava depois que o viu no Rio de Janeiro.
Enquanto falava, seus olhos brilhavam.
Rosa Maria não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
Quando Maria Luísa terminou de falar, Rosa Maria, assustada e amedrontada, disse:
- Você só pode estar louca, Maria Luísa!
Isso não pode estar acontecendo!
Se seu pai descobrir, você estará morta, ou, no mínimo, será mandada para um convento!
- Sei de tudo isso, mas é mais forte do que eu!
Não tive nem tenho como evitar! -Disse Maria Luísa, chorando.
- Precisa terminar com isso, se continuar, poderá se transformar em tragédia!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:07 pm

- Acha que não sei de tudo isso que está falando, Rosa Maria, mas é mais forte que eu!
Não tive e nem tenho como evitar.
Farei tudo para continuar com ele!
- O quê, por exemplo?
Vai contar para sua família?
O que acha que seu pai fará?
Vai fugir com Tobias?
Seu pai colocará o capitão do mato com cachorros que os seguirão até encontrar vocês dois!
Tobias, provavelmente, será morto!
O que você fará se isso acontecer?
- Não sei, não sei!
Pensarei em alguma coisa.
Só não vou deixar o meu amor, nunca!
- A única coisa que pode fazer é nunca mais olhar ou se encontrar com ele, ou melhor, dizer a seu pai que estou com saudade de meu irmão.
Pedir que ele nos deixe voltar para Portugal.
Ficaremos lá até você esquecer toda essa loucura!
- Isso nunca!
Não vou sair daqui, nunca!
Nem que tenha de ver o meu amor, só de longe!
Não imagino minha vida sem ele!
- Você está louca mesmo...
- Não sei se estou louca.
Só sei que farei tudo o que puder para ficar com ele!
Tem que prometer que não contará a ninguém e que me ajudará se for preciso.
Você é a única que sabe Rosa Maria.
Jure que vai me ajudar... Jure!
- Juro, Maria Luísa, claro que juro!
Você é a minha melhor amiga.
É a irmã que não tive.
Nunca falarei sobre isso com ninguém.
Aconteça o que acontecer nunca a abandonarei.
Estarei sempre a seu lado.
Farei qualquer coisa para ver você feliz.
Chorando muito, se abraçaram.
Rosa Maria não sabia o que dizer.
Saiu do quarto, passou correndo por Serafina e foi para fora da casa.
Serafina, quando viu Rosa Maria sair correndo e percebendo que ela não estava bem, foi atrás dela.
Rosa Maria correu para a estrada até se cansar.
Parou e se sentou no chão.
Não conseguia parar de chorar.
Serafina se aproximou, sentou ao seu lado e perguntou:
- Qui foi que cunteceu, sinhazinha?
- Não aconteceu nada, Serafina...
- Então pru qui ta churando?
- Estou com um pouco de dor de cabeça, só isso...
- Essa dor di cabeça chego quando a sinhazinha discubiu u que tá cuntecendo com a sinhazinha Maria Luísa mais u Tubia?
- O que está falando, Serafina?
- Du amô dos dois...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:07 pm

- Meu Deus do céu!
O que você sabe Serafina?
- Di tudu, sinhazinha.
A nega já viveu muitu, já viu muita coisa.
Conheço a vida.
Conheço us oiá.
A nega viu lá nu Rio de Janero, quando us zoío dus dois si cruzo.
A nega sabe qui quandu us zóio se cruzam daquela manera, num tem jeitu não.
Quando vamu lá nu estabo, ieu vejo os zóio se cruza tudus us dia.
Num tem jeitu, não, sinhazinha, us dois si gosta, u amo dus dois é pra tuda vida...
Rosa Maria chorou mais ainda e perguntou:
- O que vamos fazer Serafina?
- Nada, sinhazinha.
Nóis num podi fazê nada.
Tudo qui cuntece aqui na Terra já vem mandadu du céu.
Deus Nosso Sinhô é qui manda na vida da gente.
A gente só podi rezá, mais nada.
- Precisamos fazer alguma coisa, Serafina!
Vai acontecer uma tragédia.
Dom Carlos mandará matar os dois!
- Deus i Xangô é qui sabi das coisas.
Ta nas mãos delis.
Nóis num podi fazê nada.
Posso braçá a sinhazinha?
Rosa Maria se jogou nos braços da negra, como se fosse sua mãe, e chorou, chorou muito.
Enquanto isso, distante de lá, Pai Joaquim, o negro mais velho da fazenda, estava perto do estábulo, esperando Tobias voltar.
Dom Carlos havia comprado a fazenda de um português que voltou para Portugal.
Entre as cláusulas do contrato de compra venda, havia uma que rezava:
Pai Joaquim é o escravo mais velho desta fazenda.
Nasceu e foi criado aqui.
Nunca poderá ser vendido.
Possui carta de alforria e deverá ser enterrado nestas terras.
Pai Joaquim era respeitado por todos os negros.
Sendo muito velho, não podia mais trabalhar, por isso ficava andando de lá para cá, fumando seu cachimbo.
Os negros, quando tinham algum problema, vinham falar com ele.
Dessa vez, estava sendo diferente.
Ele queria falar com Tobias.
Tobias voltou da casa grande.
Trazia com ele seu próprio cavalo e o de Rosa Maria.
Igual a Maria Luísa, no mesmo tempo em que estava feliz, estava também desesperado.
Sabia que aquele amor nunca daria certo, mas naquele momento a única coisa que queria era estar ao lado dela, porque era a mulher que amava.
Parou o cavalo, ajoelhou-se na estrada e gritou:
- Oxalá! Meu sinhó que feiz a terra i u céu, qui manda im tudo.
Pru qui mi feiz iscravo?
Pru qui mi feiz amá essa muié?
Com as mãos no rosto, batia a cabeça no chão e chorava muito.
Depois de algum tempo, montou no cavalo e foi para o estábulo.
Lá chegando, desmontou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:07 pm

Deu água para os cavalos e depois os levou para dentro.
Por mais que tentasse, não conseguia evitar as lágrimas.
- Pru qui tá churando, meu fiu?
Tobias se voltou e viu Pai Joaquim, que o olhava com carinho.
- Tô muitu infeliz, meu pai.
E to muito triste, mas...
Mas to muito feliz tumem...
Num to intendendu u qui tá cuntecendo...
- U nego sabe pru qui u fiu tá tristi i feliz, tudo ao memo tempo.
Fio, vô ti dizê uma cousa.
U branco vem na senzala, iscói uma nega.
Num qué sabe si ela tem pai, marido, irmão ou fio.
Ele tira a ropa dela na frente di nóis tudo.
Pega ela pra ele.
Mais u nego num pode nem oiá pruma branca.
- Pru qui u pai tá mi falando isso?
- Pur nada, não.
E só pru fio pensá.
Pensa bastante, fio.
Dispois, si quisé, vem fala cum u nego.
Deu uma grande baforada no cachimbo e foi embora.
Tobias ficou pensando, pensando.
Havia entendido o que o velho quis dizer, mas como ele sabia?
Depois de acomodar os cavalos, foi ao encontro do negro.
Pai Joaquim era muito querido pelo antigo dono, por isso não morava na senzala.
Morava em uma casinha feita de taipa e coberta com capim.
Ao lado da casa, havia um jardim e muitos pés de banana de que ele cuidava.
Pintou sua casa com cal branca.
Quando Tobias chegou, ele estava sentado em um banquinho junto à porta, fumando seu cachimbo.
Olhou para Tobias.
Sorrindo, perguntou:
- U fio já penso?
- Pensei muito.
Intendi u qui u pai quis dizê.
Vim cá pru sinhó mi dizê u qui vô fazê.
- U nego veio num sabe.
As coisa cuntece pruque tem qui cuntecê.
U fio já viu qui isso num pode dá certo.
Tem qui ficá longe da sinhazinha.
Pede pru seu Malaquia ti manda pra lavoura.
Lá vai se mais difíce ôceis si incontrá.
Tenta di quarqué jeito ficá longe dela, sinão muita coisa ruim pode cuntecê.
- Vô tenta pai.
Juro qui vô tenta.
- Tenta fio. Di tudo jeito qui pude.
Mais si fô coisa lá di cima, num vai tê jeito, não.
- Pai, mi diz uma coisa?
Quem qui cuntô pru pai?
- Ih ih ih! Ninguém cuntô.
Nego veio viu oceis dois si olhando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:07 pm

Tobias voltou para o estábulo.
Enquanto escovava os cavalos, pensava:
"Vô tenta, mais ti amo, ti amo muito, sinhazinha.”
Ainda sentia o calor do corpo dela!
Seu corpo ansiava por ela.
Mais tarde, Malaquias chegou.
Tobias se aproximou, falando:
- Seu Malaquia, ieu quiria pidi um favo pru sinhó.
- Fala negro.
- Quiria i trabaiá na lavora.
- Você deve estar louco!
Aqui seu trabalho é leve.
Se for para a lavoura, vai trabalhar muito mais.
- Num faiz mar.
Num tenho medo du trabaio.
- Aqui tem coisa.
O que está tramando, negro?
Uma fuga? Você quer fugir?
- Não sinhó, só quero i pra lavoura.
- Pois não vai!
Está cuidando muito bem dos cavalos.
Se estiver pensando em fugir, pode esquecer.
Vai ficar aí mesmo, cuidando dos cavalos!
Malaquias foi embora.
Estava desconfiado e pensou:
"Esse negro está tramando alguma coisa.
Por que iria querer trocar um serviço leve por outro mais difícil?
Vou prestar atenção."
Tobias ficou desesperado, pedindo aos deuses que o ajudassem.
Maria Luísa e Rosa Maria não falaram mais sobre o assunto.
Rosa Maria agradecia a Deus por Maria Luísa ter machucado a perna.
Por um bom tempo, não poderia cavalgar nem ver Tobias.
Temia pelo futuro da amiga e pela vida do negro.
As músicas dos negros continuavam.
Todas as noites, os tambores tocavam e as vozes cantavam.
A senzala ficava a uns dez minutos da casa, por isso, elas podiam ouvir.
Naquela noite, Rosa Maria perguntou a Serafina:
- Por que os tambores estão tocando diferente?
O tom da música mudou, parece triste.
Não é mais alegre como antes.
- Sabe, sinhazinha, Xangô tá avisando qui arguma coisa ruim tá pra cuntecê.
- Quem é mesmo Xangô?
Você nos contou, mas eu esqueci.
- E u deus da justiça.
Tem tuda bondade.
Tuda mardade du mundo é jurgada pur ele.
Ele tem um machadu.
Cum esse machadu, vai fazendo justiça.
Ninguém escapa du machadu dele, não...
- Não entendo Serafina.
Se os deuses ajudam vocês, por que são escravos?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: QUANDO O PASSADO NÃO PASSA / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 12 Anterior  1, 2, 3, 4 ... 10, 11, 12  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum