Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:02 pm

Construindo um caminho
Psicografia de Eliana Machado Coelho

Romance do espírito SCHELLIDA

MENSAGEM

O caminho mais suave
Sempre é possível construir algo novo, bom e belo em nossa existência para alegrar o caminho, desde que coloquemos a fé e tiremos forças das mãos de Deus, usando o poder da oração.
Nosso aprimoramento pessoal depende de nossa vontade, perseverança e bom ânimo.
Mas isso é treino.
Para que a felicidade brote do fundo do coração, é preciso, simplesmente, começar a sorrir.
Lembrando que a mudança pretendida pode precisar de algum tempo, porém a conquista é certa e definitiva, quando há empenho.
Dessa forma, a criatura se transforma em raio de amor e vai derramar luz a sua volta.
Tenha sempre amor no coração, bondade no olhar, silêncio nas palavras, sorriso nos lábios e confiança em Deus.
Seja optimista. Não se abale diante dos problemas.
Quem está acostumado a resolver pequenos desafios, encontrará soluções para os grandes.
O caminho é sempre mais suave quando se tem alegria e boa intenção.

Pelo espírito Erick Bernstein Mensagem psicografada pela médium Eliana Machado Coelho Inverno de 2015.

Índice
Capítulo 1. Um dia atrapalhado
Capítulo 2. Superação de um dia difícil
Capítulo 3. Conhecendo-se melhor
Capítulo 4. Criando oportunidades
Capítulo 5. A inconveniência da mentira
Capítulo 6. Insatisfação com o compromisso assumido
Capítulo 7. Hilda em dificuldades
Capítulo 8. Atracção irresistível
Capítulo 9. Decepção com Nicolas
Capítulo 10. Resolução importante
Capítulo 11. Difíceis decisões
Capítulo 12. Escolhas constroem caminhos
Capítulo 13. Viagem interrompida
Capítulo 14. Ausência de notícias e desespero
Capítulo 15. Nicolas se revela
Capítulo 16. As acusações de Celine
Capítulo 17. Nascemos para vencer
Capítulo 18. O socorro à Adriana
Capítulo 19. Wagner encontrando sua mãe
Capítulo 20. Uma nova vida
Capítulo 21. Enfrentando a realidade
Capítulo 22. Comece pelo seu quarto
Capítulo 23. A sombra do medo
Capítulo 24. Uma luz chamada esperança
Capítulo 25. Novos planos
Capítulo 26. Hilda encontra Adriana
Capítulo 27. O reencontro com Wagner
Capítulo 28. Hora da verdade
Capítulo 29. Novos rumos
Capítulo 30. O pulsar de dois corações
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:02 pm

Capítulo I - Um dia atrapalhado

Wagner despertou ao som de uma música tocada no celular e não desligou.
Levantou-se com o quarto ainda na penumbra.
Não acendeu a luz.
Com hábitos automáticos, foi directo para o chuveiro com a escova de dentes na boca.
Após o banho, enrolado na toalha, barbeou-se.
Usou uma colónia que estapeou no rosto e pescoço experimentando o ardor na pele pela barba escanhoada.
Usou um anti-transpirante e se penteou, examinando seu reflexo no espelho embaçado que limpou com a mão.
No quarto, acendeu a luz.
Abriu o armário e escolheu um terno entre os vários que tinha.
Optou por uma camisa muito bem passada e colocou várias gravatas a frente para ver qual combinava.
Vestiu-se e se calçou, observando os sapatos para ver se estavam em ordem.
Ajeitou uma correntinha de ouro com crucifixo, que nunca tirava, e fechou o último botão do colarinho antes de fazer o nó da gravata.
Olhou no espelho e achou que ela não combinava com o terno, por isso pegou outra.
Sobre um móvel, apanhou a carteira, conferiu-a e enfiou no bolso.
Fez o mesmo com o celular que desligou o som e desplugou do carregador ligado à tomada.
Pegou o relógio de pulso, consultou-o e colocou no braço.
Em seguida, o anel de formatura, presente de seus pais, que gostava muito de usar.
Apanhou a toalha de banho húmida sobre a cama, o paletó do cabide, apagou a luz e saiu do quarto.
Na sala, sobrepôs o paletó no encosto da cadeira, foi até a lavandaria e jogou a toalha no varal.
Não pôs qualquer pregador nem ergueu o varal.
Voltou para a sala.
Abriu as cortinas e a claridade intensa da manhã pareceu agredir sua visão.
Precisou espremer os olhos.
Abriu a janela balcão e foi para a pequena sacada.
Olhou o movimento do trânsito, das pessoas e respirou fundo, sentindo o ar frio expandir seus pulmões.
Retornou para a sala e esbarrou na porta ao fechá-la.
Imediatamente olhou sua roupa para ter certeza de que não havia se sujado com graxa das engrenagens e mecanismo da fechadura.
Precisava andar bem arrumado e limpo.
Não só sua função exigia esse rigor, mas também apreciava estar asseado e bem vestido.
Fechou a porta e foi até a cozinha procurando, na geladeira quase vazia, suco de fruta com proteína de soja.
Pegou a caixa e sacudiu-a.
Não deveria haver muito suco pelo peso e barulho do recipiente.
Apesar disso, despejou o conteúdo em um copo.
Procurou por biscoitos, porém nada encontrou.
O armário da dispensa só tinha um pacotinho de amendoim.
Apanhou o copo com suco e levou à boca, mas, como que por ironia, achava-se estragado.
Ainda bem que não encheu a boca.
Fez uma careta e jogou o líquido na pia.
Abriu a torneira e deu uma enxaguada no copo deixando-o na cuba.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:03 pm

Foi até o armário novamente em busca de outra caixa de suco.
Poderia jurar que havia comprado, entretanto nada encontrou.
Fez um ar de insatisfação ao envergar a boca para baixo após olhar e perceber que não tinha nada para o desjejum.
Então deveria se apressar para tomar café em algum lugar antes de ir para a empresa.
Voltando para a sala, vestiu o paletó.
Sobre o console, abaixo do espelho que ficava no corredor da porta da sala, pegou a chave do carro e saiu.
No hall, o elevador estava demorando muito, mais do que o de costume.
Não sabia que, dos dois existentes no prédio, um apresentava defeito naquele dia, por isso, a longa espera.
Como se adiantasse, Wagner apertou novamente o botão desejando acelerar a chegada.
Quanto o elevador parou no andar e as portas se abriram, já estava bem cheio e não pôde entrar.
- Droga! - murmurou irritado após a porta se fechar.
Olhou o relógio.
Gostaria de chegar mais cedo para tomar café antes de ir trabalhar.
Não gostava de ficar em jejum.
Além disso, por causa da sobrecarga de serviço, havia dias em que almoçava bem tarde ou nem almoçava.
O elevador parecia demorar.
Ele acreditou e ficou inquieto.
Morava no décimo andar.
Seria muito descer todos aqueles lances de escada.
Não desejava transpirar e suar.
Um bom tempo depois, o elevador chegou.
Apesar de cheio, desta vez conseguiu entrar.
Acomodou-se perto de uma vizinha que tinha um cachorrinho no colo.
A senhora o cumprimentou com um sorriso e aceno de cabeça e ele correspondeu da mesma forma.
Era uma mulher simpática que o encontrava muitas vezes e fazia questão de cumprimentá-lo, embora o rapaz nem soubesse o seu nome.
Nos demais andares, mães e suas crianças entraram conversando alto e reclamando, puxando malas escolares com rodinhas que passaram em cima de seus sapatos.
O elevador encontrava-se lotado, mas sempre havia alguém segurando a porta para outro tentar entrar, provocando uma demora ainda maior.
Sem dizer nada, o rapaz ficou espremido no canto.
Aqueles minutos pareciam eternos e o irritavam.
E o dia mal tinha começado.
Na garagem, olhou para seus sapatos para se certificar de que não estavam sujos pelas rodinhas da mala escolar.
Ao olhar em direcção de seu carro, notou que um vizinho que manobrava seus automóveis trocando-os de lugar, deixou um deles parado bem atrás do seu.
Quando o homem o viu, desejou bom dia, sorriu e exclamou:
- Espera só um minuto!
Estou só trocando de lugar.
É rapidinho! - sorriu.
Wagner olhou novamente o relógio, sorriu ao disfarçar a insatisfação e ficou esperando.
O vizinho mudou os automóveis de lugar como queria e liberou sua saída.
Em seu carro, Wagner tirou o paletó para não amassar, sobrepôs no encosto do banco.
Entrou no veículo e, sentado ao volante, respirou fundo para destressar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:03 pm

Em seguida, colocou uma música agradável em baixo volume.
Nem quis ouvir o noticiário da manhã na rádio CBN, como de costume.
Manobrou o carro, tirando-o da vaga e foi sair, mas o portão electrónico da garagem não funcionava.
- Não é possível! - exclamou zangado, falando sozinho.
Por mais que insistisse, o controle remoto não accionava o portão.
Desceu do veículo, pegou o interfone e ligou para a portaria pedindo gentilmente:
- Bom dia. Por favor, dá para abrir os portões da garagem para eu sair?
Acho que acabou a bateria do meu controle.
Ao ver o primeiro portão ser erguido, agradeceu educadamente:
- Obrigado.
Entrou no veículo e foi encarar o trânsito lento e complicado da cidade de São Paulo.
Muito tempo depois, estacionou o veículo no lugar de costume.
Cumprimentou os manobristas e procurou a cafeteria perto da empresa para fazer seu desjejum.
Costumava ir ali.
Fez seu pedido no balcão e, enquanto aguardava, procurou uma mesa para se acomodar.
Depois de descansar o paletó cuidadosamente no encosto da cadeira, sentou-se e ficou de olho na moça do balcão que preparava seu pedido.
Ao ver a bandeja montada, levantou-se e foi pegá-la.
Nesse instante, entrou na cafeteria uma moça bem elegante.
Cabelos pouco abaixo dos ombros e bem penteados.
Ela observou o lugar para entender como funcionava.
Parecia a primeira vez que estava ali.
Usava uma blusa cor de creme e um lenço bem bonito.
Um blêizer feminino que delineava seu corpo.
Uma saia comprida, pouco abaixo do joelho e rodada que cobria levemente as botas de salto alto.
Ela entrou tomando cuidado para não esbarrar em ninguém.
O lugar estava cheio.
Nesse momento, Wagner, equilibrando a bandeja acima da cabeça das pessoas sentadas, passava pelo vão apertado entre as mesas.
Percebendo que alguém ia se levantar, virou-se rápido e bateu na moça que acabava de vir por aquele corredor e virava-se para ele.
O encontro fez esborrifar café em sua gravata e entornar o copo de suco sobre a moça bem arrumada.
Ela abriu a boca, puxou todo o ar que pôde caber em seus pulmões e ficou se olhando por longos segundos antes de encará-lo e exclamar:
- Moço! Olha o que você fez!!! - estendendo os braços num gesto incrédulo.
- Desculpe-me. Eu. - Não sabia o que dizer.
Ficou vermelho no mesmo instante e sentiu o rosto arder.
Observando-a, viu que estava molhada do pescoço para baixo.
- Ai, meu Deus! É o meu primeiro dia!
Começo a trabalhar hoje! E agora?!
Uma funcionária se aproximou rapidamente, entregou um pano limpo para a moça e tirou a bandeja gotejando suco das mãos de Wagner.
- Desculpe-me. Por favor.
As cadeiras desse lugar são muito juntas.
Quase não tem espaço. - disse constrangido e sem saber o que fazer.
A funcionária pediu que eles fossem para outro extremo da cafeteria enquanto limpavam o chão.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:03 pm

Nesse canto, próximo aos banheiros, havia um espaço com pias e papel toalha.
Ali começaram a se limpar.
Inconformada e nervosa, a jovem parecia não acreditar no que acontecia.
- Meu Deus! O que vou fazer?!
- Se eu puder te ajudar.
É só dizer como - ele propôs sem jeito.
Olhando-o firme, ela falou zangada e irónica:
- Ah! Então, por favor, vá até a empresa onde eu começo hoje e diga para a minha gerente ou para o meu coordenador que você resolveu me dar um banho de suco de laranja logo cedo!
Para eles perdoarem minha falta, pois não tenho condições de trabalhar assim encharcada.
Olha só a minha blusa!
- Desculpa. - falou em tom baixo e suspirou.
Não ficou satisfeito com aquilo.
Percebendo que estava sendo difícil tirar a mancha ou secar a roupa, ela exclamou:
- Da próxima vez, olha por onde anda! - e murmurou:
Idiota.
A funcionária se aproximou e disse, fazendo-o se virar:
- Senhor, seu pedido já está pronto novamente.
- Obrigado - ele agradeceu.
Olhou para o lado e não encontrou mais a moça que havia molhado com suco.
Procurou-a e viu somente sua silhueta saindo porta afora.
- Que dia! E nem bem começou - Wagner murmurou, mas ninguém ouviu.
Quando pegou novamente seu pedido, perguntou:
- Não serviram café para a moça, por quê?
- Ela não havia pedido nada, senhor.
- Ah. Tá.
Aquele episódio o incomodou imensamente.
Não é nada agradável atrapalhar a vida de alguém.
Ainda mais por saber se tratar do primeiro dia de trabalho.
Sabia o que era isso.
Quando se vai trabalhar pela primeira vez em uma organização, a pessoa quer ir bem arrumada, causar boa impressão.
Mas, por causa dele, aquela moça iria chegar ao seu primeiro dia de serviço encharcada de suco.
Wagner trabalhava em uma multinacional no grande centro financeiro de São Paulo.
Era director executivo de uma das maiores empresas da indústria alimentícia.
Cargo que conquistou após muito empenho e dedicação, exibindo sua competência e vivacidade.
Nos últimos tempos, estava muito estressado.
Mudanças administrativas e os novos planos estratégicos exigiam demasiadamente dele e do departamento que dirigia.
Havia muita tensão e responsabilidade, além de bastante expectativa no ar.
Por isso e pelo episódio desagradável com aquela moça logo de manhã, nem terminou seu desjejum e se levantou, saindo logo da cafeteria.
Foi para a empresa.
Assim que chegou à organização onde trabalhava, pediu para sua assistente pessoal providenciar uma gravata.
A mulher demorava demais e ele foi para o banheiro de sua sala tentar limpar a mancha de café.
Alguns minutos e ouviu um barulho.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:04 pm

Pensou ser a secretária e foi para a sala perguntando:
- Dona Hilda, a senhora encontrou.
- Bom dia, Wagner! - cumprimentou-o um outro director da empresa.
- Olá, Bianor! Bom dia!
- O que aconteceu?
Está dando banho na gravata logo cedo? - brincou e riu.
- É. Hoje, na cafeteria aqui em frente, estava indo para a mesa com uma bandeja nas mãos e dei um encontrão em uma moça.
O café espirrou na gravata, mas, coitada da moça!.
Dei um banho de suco nela.
O outro riu e o rapaz ainda contou:
- Pedi para Hilda ir comprar outra gravata para mim, mas ela está demorando tanto!.
Não dando importância ao que Wagner contava, Bianor disse:
- Logo após o almoço, faremos aquela reunião para o Plano Director da empresa para o próximo ano.
Preciso que leve os relatórios qualitativos e quantitativos.
O Norberto e o Osório estão cheios de exigências.
A briga hoje vai ser boa!
Quando teve o intento de sair da sala, ainda disse:
- O doutor Avelino quer os resultados o quanto antes.
- Está bem. Pode deixar - respondeu em tom calmo, mesmo ficando preocupado.
Após a saída daquele director, Wagner foi até sua mesa, olhou alguns documentos, consultou sua agenda no computador e foi à procura de sua assistente.
Passando pela sala da secretária, não a encontrou.
Hilda não havia chegado.
Pegou o elevador e foi à procura de uma gerente de um dos departamentos sob sua chefia.
Ao encontrar a quem procurava, cumprimentou:
- Bom dia, dona Juçara.
- Bom dia, doutor Wagner - respondeu a mulher.
- A senhora providenciou as pesquisas de mercado que eu solicitei?
- Estão quase prontas.
Só falta o relatório. É que - titubeou.
Estamos com um probleminha.
Deveríamos ter três analistas cuidando disso, mas...
Uma está de licença maternidade.
Outro de férias e um pediu demissão há três semanas, como o senhor sabe.
- Isso quer dizer quê?!. - indagou firme, começando a se irritar.
- Outra pessoa foi contratada, mas, por causa de um problema.
Técnico, vamos dizer assim, eu acabei de dispensá-la - sorriu forçadamente e sem jeito.
- Que problema é esse?! - exclamou em tom firme e franzindo a testa.
- Ela estava com a vestimenta. Digamos.
Wagner a interrompeu:
- Arrume alguém agora!
Se a vestimenta não estava adequada, oriente o funcionário para que se vista adequadamente amanhã.
Eu preciso desse relatório em minha mesa agora!
Eu disse isso para a senhora semana passada!
Em carácter de urgência, providencie alguém que faça isso!
Não ofereceu tempo para a mulher se justificar.
Virou-se, foi para o corredor dos elevadores e subiu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:04 pm

Ao passar por sua assistente, a passos rápidos e sem encará-la, a mulher se levantou, pegou um pacote que estava sobre a mesa e se apressou em segui-lo, entrando na sala da directoria logo atrás do chefe.
Sabendo disso, Wagner foi falando enquanto desmanchava o nó da gravata que usava:
- Quero dar uma olhada naqueles memorandos e nos relatórios para a coordenadoria de produção.
Isso é para antes do almoço, dona Hilda.
Quero também o relatório para o marketing, apontando que as propagandas efectuadas não proporcionaram aumento nas vendas.
Aproximando-se, a mulher entregou-lhe a gravata nova que ele pegou, olhou por um momento e enlaçou ao pescoço, medindo as pontas e preparando o nó.
- A dona Juçara não nos entregou os relatórios com as pesquisas de mercado.
Estão com deficiência de analistas na seção - disse a secretária.
- E ela só viu isso hoje cedo?! - perguntou firme, em tom de crítica, sem querer ouvir a resposta.
- Tiveram dificuldade para encontrar uma pessoa qualificada.
Porém, pelo que eu soube, contrataram alguém muito competente e com histórico bem interessante.
- E onde está esse alguém?
Quem é?! - gesticulou, abrindo os braços a fim de expressar, ainda mais, sua ironia.
- Disseram-me que o último trabalho dessa pessoa foi no concorrente.
Ela deve nos trazer informações precisas - tornou a mulher.
Wagner a encarou nesse momento.
Pareceu interessado.
Terminando o nó na gravata, perguntou em tom brando:
- Está bom?
A mulher se aproximou, centralizou o colarinho alvo da camisa impecavelmente engomada e falou:
- Agora está.
Virando-se, ele comentou:
- Gostei de saber dessa contratação.
Vou querer falar com esse funcionário depois.
Acho que teremos muito que explorar.
Mas. Afinal de contas, onde ele está?
- Na verdade, era para ter começado semana passada.
Mas houve um problema na documentação de homologação da empresa de onde saiu.
Ia começar hoje, mas a dona Juçara parece ter dispensado a pessoa.
- Por problemas com roupa!
Ora, pelo amor de Deus!
Ela não sabe que temos urgência?
Ligue para ela e veja o que resolveu.
- Sim, senhor.
- Outra coisa!
Ao vê-la se virar, pediu:
- Peça para alguém comprar aquelas baterias de controlo remoto de garagem.
- É preciso saber o modelo.
- Faz esse favor para mim, Hilda. Pega lá no meu carro.
No estacionamento - pediu com jeitinho. Não do modo como falou antes.
Hoje cedo, o controle descarregou.
- Certo. Pode deixar - ela concordou e saiu da sala.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:04 pm

Algum tempo depois, insatisfeito com a demora, Wagner saiu de sua sala e foi até a gerente para acompanhar de perto a resolução do problema.
- E então, dona Juçara?
A mulher, nitidamente nervosa, levantou-se e gaguejou para informar:
- Estamos com dificuldades ainda, doutor Wagner.
- Com o quê, agora, dona Juçara? - perguntou em tom, visivelmente, insatisfeito.
- É que.
Vamos ali para eu mostrar.
Caminharam até onde os analistas ficavam.
Era uma sala bem grande, separada por divisórias baixas que individualizavam os funcionários.
Aproximando-se das costas da nova analista, que estava sentada frente a um computador, a gerente mostrou:
- Estamos com problemas no sistema.
Nesse instante, a analista de produtos olhou para o lado e os viu.
A nova funcionária e Wagner se encaram por longos minutos sem dizerem nada.
Por um momento, ele sentiu vontade de rir, mas, em seguida, por sua posição como director comercial daquela importante organização, recatou-se e permaneceu sério.
Ao vê-lo olhar de cima a baixo e reparar muito nas roupas da nova funcionária, a gerente explicou, após apresentar:
- Doutor Wagner, esta é Adriana, nossa mais recente contratação.
Ela deveria ter começado antes, mas houve problema com a homologação da empresa anterior e...
Bem, ela só pôde começar hoje.
Devido a um incidente, logo cedo, por derramarem suco de laranja em suas roupas, eu a havia mandado embora para casa, mas.
O senhor disse que precisávamos de alguém e com urgência.
Então liguei para a portaria e pedi para que ela retornasse e...
- Já entendi, dona Juçara.
Vamos ao que interessa.
Eu preciso dos relatórios.
Preciso de números.
A reunião com o vice-presidente é após o almoço.
Esses relatórios têm de ser para agora! - foi firme.
- Sim. Eu sei.
Mas. - a mulher tentou dizer algo.
- Chame o pessoal do sistema de computadores.
Resolva esse problema - interrompeu-a.
- Já chamei. Estão vindo.
Wagner olhou novamente para Adriana, que não disse absolutamente nada.
Ela o fitava sem piscar.
Talvez, querendo ter a certeza de que foi ele quem derramou suco em suas roupas.
Lembrou-se de tê-lo chamado de idiota.
Sentiu-se envergonhada, mas nada poderia fazer.
O rapaz fugiu ao olhar e se virou.
Não se manifestou.
Fazendo-a duvidar de ter sido ele.
Wagner seguiu, exigindo providências de serviço para a gerente.
Já era hora do almoço e nenhuma solução para os computadores, que não rodavam o sistema nem providenciavam os relatórios.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:05 pm

A postura firme e a feição séria do director eram suficientes para cobrar e inquietar os funcionários.
Ele não precisava dizer nada, só olhar.
Todos estavam tensos e agitados, uma vez que os computadores interligados da seção não rodavam os programas e, consequentemente, não geravam os relatórios.
Adriana, embora nova demais na seção, levantou-se e falou, demoradamente, em tom quase inaudível, à gerente que pendeu negativamente com a cabeça, rejeitando sua sugestão.
Wagner viu a cena.
Pareceu erguer-se mais e ficou curioso.
Imaginando que a nova funcionária pudesse ter alguma ideia que solucionasse o problema, ele esperou que a moça se sentasse.
Aproximou-se e quis saber:
- A senhora sugeriu algo, dona Adriana?
- Sim. Quer dizer.
Bem, doutor Wagner, eu sei que o Departamento Comercial analisa a aceitação de um produto, o quanto esse produto vai custar à produção e o quanto ele deve ser vendido ao mercado.
Entendi que hoje esta empresa tem um produto lançado por ela e copiado pela concorrência.
O produto daqui é de melhor sabor e igual custo, mas as pesquisas mostram que o cliente adquire o produto da concorrência.
O que o senhor deseja provar, hoje na reunião, é que o Departamento de Marketing não está investindo ou trabalhando a altura do produto lançado.
Para isso, precisa das análises e pesquisas junto ao consumidor para gerar relatórios que apontem esse número.
O problema é que temos as pesquisas, mas o sistema de informática não consegue visualizá-lo.
Eu vi que conseguimos visualizar 70% das pesquisas.
Desculpe minha intromissão senhor, mas.
Acredito que, pelos resultados apontados, 70% seja um número considerável para ser analisado, a fim de se exigir o desenvolvimento de novos projectos por parte do marketing.
Observo que os 30% restantes não vão alterar os resultados que temos.
- Espera aí!
Você está me dizendo que, no sistema, conseguimos visualizar 70% da pesquisa do produto?
- Sim senhor - tornou a nova funcionária.
Wagner respirou fundo, afastando o paletó, colocou as mãos na cintura, fechou os olhos e ergueu o rosto para cima.
Ficou ainda mais nervoso, embora aliviado.
Ele não sabia daquela informação.
Espalmando as mãos sobre a mesa da analista, voltou-se para ela e pediu sério:
- Prepare os relatórios com os dados que você tem em cima dos 70%.
Eu os quero em percentuais.
- Mas nenhum computador desta secção está funcionando.
Tivemos um blecaute. - respondeu a funcionária.
- Do que você precisa? - indagou em tom solene, sério e sisudo.
- Copiar o sequencial que tenho e transferir para outra máquina - referiu-se a outro computador -, ligada a uma impressora, claro.
Erguendo-se, olhou para a gerente e pediu, parecendo exigir:
- Providencie isso, dona Juçara.
Como director comercial daquela considerável organização, ele não poderia ter outra postura senão a de acompanhar de perto aquela acção, cujo resultado era de suma importância para a reunião que teria logo mais.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:05 pm

Todos foram para outra sala onde a recém-contratada, na frente de uma tela de computador, começou a gerar tabelas e relatórios.
O horário de almoço foi consumido pelo serviço.
A assistente pessoal do director providenciou lanches e refrigerantes para os que se empenhavam naquela tarefa, mas quase não conseguiram comer ou beber nada.
Wagner nem deu importância ao lanche.
Ficava próximo da impressora apanhando, ele mesmo, os impressos e estudando-os.
Talvez, para saber o que falar na reunião.
- Pronto! O último já está sendo impresso - disse a analista, sorrindo.
O director suspirou fundo, como uma forma de alívio, e pegou o papel para verificar.
Adriana se levantou e ficou na expectativa, aguardando algum comentário.
- Muito bom - ele disse, tão somente.
Consultando um pouco mais os papéis, exclamou sem se dirigir a ninguém:
- Vamos lá! - referiu-se à tão esperada reunião.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:05 pm

Capítulo 2 - Superação de um dia difícil

Era quase final de expediente quando Wagner pediu a sua secretária para chamar Adriana, a analista recém-contratada, a sua sala.
Aquela não era uma atitude comum.
Os directores quase não tinham proximidade com os funcionários daquele escalão.
Porém aquela situação era bem diferente.
Havia derrubado suco na moça em seu primeiro dia de serviço sem, nem mesmo, saber que ela iria trabalhar em sua directoria.
Poderia ter estragado o seu dia, mas não.
Ela o surpreendeu.
- Com licença, doutor - pediu a secretária.
A dona Adriana. - disse após entrar com a funcionária.
- Obrigado, dona Hilda.
Colocou alguns papéis de lado na mesa e, voltando seu olhar em direcção da porta, pediu:
- Entre e sente-se, por favor - indicou as cadeiras que ficavam à frente de sua mesa.
Adriana observou a luxuosa sala da directoria.
De um lado contemplou a mesa de reunião, composta por várias cadeiras.
E, no outro canto, sofás bem dispostos com uma mesinha central, ostentando uma peça de arte indefinida que ela não saberia dizer a forma, importância ou valor.
Dando alguns passos pelo tapete, que se estendia no piso lustroso, passou por entre as cadeiras frente à mesa e escolheu se sentar na da sua direita.
Acomodada, ficou aguardando o director dizer algo.
- Muito bom o seu desempenho hoje.
Para o primeiro dia.
Tendo em vista desconhecer o serviço, além da pressão psicológica.
Eu diria que se saiu muito bem.
Ajudou demais.
Encarou-a e recostou em sua cadeira, girando lentamente de um lado para outro.
- Obrigada - sorriu com simplicidade.
Conheço bem o trabalho.
Desempenhei essa função por cinco anos, antes de vir para cá.
- Soube que trabalhou na nossa principal concorrente - continuou girando a cadeira de leve.
- Sim senhor. Isso mesmo.
- E por que saiu de lá?
- Bem. - sorriu novamente.
Houve corte de funcionários e eu entrei na lista.
Esperto, em tom brando, quis saber:
- Se era tão eficiente como demonstrou hoje.
Por que, então, isso aconteceu?
Discreta e sensata, não foi directa:
- Não sei dizer exactamente, senhor.
Mas espero ser mais útil aqui e poder também demonstrar meu potencial.
Wagner parou de girar a cadeira.
Admirou sua resposta.
Percebeu que ela era esperta.
Entendeu que sabia o motivo da demissão, porém não queria contar.
Ele sentou-se mais erecto e apoiou os cotovelos à mesa.
Fixou seus olhos na funcionária e relatou:
- Adriana, hoje estamos com problemas para aumentar a venda de um de nossos produtos.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:05 pm

Lançamos uma linha de iogurtes excelentes.
Sabor e consistência impecável.
Nível internacional. Exportação! - enfatizou.
Não demorou e a concorrente fez o mesmo.
Copiando-nos.
Ela sorriu. Sabia do que se tratava.
Wagner entendeu seu sorriso enigmático e comentou:
- A função do Departamento Comercial, cuja directoria é minha, precisa, não só oferecer novos serviços, como alavancar as vendas, ouvir clientes, promover facturamento e isso sei que você sabe.
Demonstrou hoje.
O plano director desta empresa exige um aumento de renda de 30% em cima desse produto.
O planeamento estratégico está trabalhando muito para promover esse aumento, mas não consegue.
Breve pausa.
- Por quê? Não descobrimos.
Nossa directoria pressionou a directoria de produção para diminuir custos.
Fez o mesmo com o marketing para aumentar as vendas.
O que conseguimos foi aumentar o lucro em 15%.
Metade do proposto. - Ofereceu nova pausa.
Olhou-a nos olhos e prosseguiu:
- Se o nosso produto, o iogurte, tem melhor sabor, consistência.
Se o valor de mercado é o mesmo.
Por que o cliente ainda compra o da concorrência?
Adriana sorriu com simplicidade e respondeu com sensatez:
- Porque o iogurte da concorrência é mais fácil de ser encontrado na prateleira dos mercados.
- Não, não, não. - discordou ele.
Nós temos contractos com as grandes redes de hipermercados para nossos produtos serem posicionados estrategicamente.
Ocupamos as gôndolas das geladeiras nos mercados na altura dos olhos.
Também são colocados nas pontas das gôndolas e...
- Mas não são visíveis - aproveitando-se da breve pausa, ela o interrompeu em tom brando.
- Como assim? - franziu a testa ao perguntar.
- As embalagens são poluídas demais.
Têm muita informação.
Por isso se confundem com outros produtos da prateleira.
Já o do concorrente, tem a embalagem em uma única cor.
Usa letras garrafais para anunciar o nome do produto e a marca, de forma que a embalagem é vista a distância pelo tom forte e vivo da cor.
A embalagem do nosso iogurte é, quase toda ela, rotulada com muita informação.
É só ir a um mercado e comprovar o que estou dizendo.
Wagner ficou pensativo, tentando se lembrar de como era a tal embalagem que produziam e do rótulo do produto em questão.
- Além do que - tornou a moça - a campanha de degustação do iogurte, que fizeram nas grandes redes de mercado, foi bem curta.
- Logo, devemos entender que a culpa disso sabrecai no Departamento de Propaganda e Marketing.
- Creio que sim - a analista concordou.
Se formos ao mercado hoje, poderemos confirmar o que eu digo.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:06 pm

Não adianta o produto ser óptimo, se ninguém o vê.
Os clientes não sabem que ele existe ou tem dificuldade de encontrá-lo.
- Lógico.
Pensou um pouco e perguntou:
- Você trabalhava na directoria comercial?
- Sim senhor.
E, como creio que acontece aqui, era uma briga constante com o Departamento de Marketing.
- O problema aqui não é o Departamento de Marketing, é somente uma pessoa arcaica e retrógrada que não ouve ninguém.
Mas não tem problema.
Amanhã vamos resolver isso.
- Posso sugerir uma coisa? - ela sorriu ao indagar.
- Sim. Claro - o director aceitou.
- Fotografe.
- Como? - ele não entendeu.
- Se alguém for aos mercados e fotografar as gôndolas, terá provas sobre a visibilidade do produto nas prateleiras.
Verão também que os produtos da concorrente, mesmo estando em lugar de pouca promoção, são vistos devido às embalagens.
- Preciso encontrar alguém que faça isso.
- Porque o senhor mesmo não o faz? - propôs Adriana.
Porém, logo em seguida, acreditou ter sido ousada demais e considerou:
- Desculpe-me.
É que pensei que se o senhor viver a experiência de procurar pelo produto e ter dificuldade, terá mais argumentos para defender suas ideias e queixas.
Ele ficou reflexivo e sério.
Meneou a cabeça positivamente e considerou:
- É uma estratégia.
Obrigado pela sugestão.
Breve pausa e desculpou-se:
- Perdoe-me tê-la feito perder seu horário de almoço logo no primeiro dia. - sorriu levemente pela primeira vez.
Perdoe-me por ter derramado suco de laranja em você hoje cedo.
- Não tem problema - ela sorriu sem jeito.
- Desculpe-me - sorriu ainda.
Mesmo sem jeito e constrangido, não perdeu a oportunidade de dizer:
- Vou olhar melhor por onde ando e deixar de ser idiota.
- Oh. Não! Perdoe-me, por favor.
Eu não quis ofendê-lo. É que...
- Eu sei. - sorriu mais largamente.
Eu sei. Na hora da raiva, dizemos qualquer coisa.
Ela também ficou sem graça por ter ficado nervosa.
Não sabia que estava falando com aquele que seria seu director.
- Bem. - tornou Wagner.
Por hoje é só. Amanhã continuamos.
Adriana se levantou e agradeceu.
- Obrigada pela oportunidade.
- Sou eu que devo agradecer pelo seu empenho. Obrigado por tudo.
Ela pediu licença, ofereceu um sorriso e se foi.
Wagner jogou-se novamente para as costas da cadeira e se balançou nela.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:06 pm

Permaneceu pensativo até sua assistente entrar e oferecer alguns documentos para assinar.
- O dia hoje foi tenso.
Não foi mesmo?
- Sim, foi.
E da próxima vez, Hilda, tenha mais bom gosto para comprar gravata - brincou com a mulher, falando em tom sério.
Onde foi que encontrou isso?!
Pelo amor de Deus!
Eu me senti ridículo usando esta coisa!
Hilda riu alto e revelou:
- As lojas estavam fechadas, por isso, eu comprei no cara lá da esquina, na barraquinha.
- Você está brincando?!
- Não senhor!
Foi o melhor que pude encontrar.
Como disse, as lojas estavam fechadas - contava sem dar muita importância a ele enquanto reunia documentos ao arrumar a mesa da directoria.
- Você está demitida, Hilda!
Isso não se faz! - falou bravo.
- Sim, senhor - concordou e continuou com o que fazia.
Ele já estava em pé, desfazendo o nó da gravata, quando perguntou:
- Como que tiro mancha de café que secou no tecido?
Gosto tanto daquela gravata.
- Como o senhor manda tudo para a lavandaria, recomendo que coloque um bilhete dizendo: mancha de café.
- Toma! - jogou a gravata manchada sobre pastas que ela pegava.
Mande lavar e coloque o bilhete.
- Não posso. Fui demitida.
O senhor esqueceu?
- Foi admitida novamente.
Mas é só para mandar lavar a gravata.
Ela sorriu e informou:
- A bateria do controle remoto da garagem foi trocada.
Já coloquei no seu carro as seis camisas que peguei na lavandaria na hora do almoço.
Coloquei-as no banco e de um jeito que não amassem.
Toma cuidado ao dirigir para não frear e deixá-las ir para o chão.
- Sim senhora! - concordou irónico.
- O edredom, que mandei lavar, está no porta-malas.
Não vai esquecer.
Estamos no inverno e a previsão do tempo disse que essa noite vai fazer bastante frio.
Olhando-o sobre os óculos, a mulher avisou:
- Coloque um terno mais quente amanhã ou um colete de lã.
Ou use um blêizer de lã.
Aquele cinza chumbo é ideal para esta estação.
- Mais alguma coisa? - questionou tentando ficar sério.
- Sua mãe ligou.
Anotei em sua agenda, mas pelo visto nem olhou.
Precisa comprar uma agenda para se lembrar de olhar na agenda.
- E ela?
- A agenda ou sua mãe?
- Minha mãe, lógico!
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 02, 2017 12:06 pm

- Eu disse que o senhor ligaria à noite.
Não se esqueça.
- Tenho de passar no mercado.
Estou sem nada em casa.
Hoje, de novo, tive de tomar café na rua.
- Isso serviu para valorizar sua mãe.
Se morasse com ela, não precisaria tomar café na rua.
- Mas meus pais moram no litoral!
- Óptimo para eles!
O senhor dá muito trabalho.
Um instante e disse:
- Ah! Havia me esquecido desses documentos aqui.
Assine-os, por favor.
Wagner voltou até a mesa, pegou os papéis e começou a ler.
- Ficou novamente sem almoçar hoje.
Depois reclama que o estômago está doendo - ela disse.
- Não tive tempo - murmurou.
Você viu como foi?
Aliás, hoje o dia foi bem difícil para mim.
Eu estava atrapalhado desde cedo.
Se não fosse a nova analista.
Essa moça salvou minha pele.
- E o senhor a dela.
- Como assim? - perguntou desconfiado, tirando os olhos do papel.
- Era o primeiro dia e a pobre contou que veio cedo, com medo de perder a hora.
Por isso foi tomar café aqui em frente.
De repente, um infeliz qualquer, entornou suco de laranja na coitada.
Ela chegou à secção toda molhada e manchada.
A blusa dela ficou encharcada desde o pescoço.
A Juçara, arrogante como é, nem quis ouvir direito e a mandou embora.
- Mandou de volta para casa, você quis dizer?
- Não. A Juçara a mandou embora.
Foi demitida! Eu vi.
- Não foi isso o que a Juçara me disse.
- Mas foi o que aconteceu.
Então a Adriana foi para o Departamento de Recursos Humanos.
Enquanto isso, o senhor descobriu que os relatórios não ficaram prontos e exigiu alguém para fazê-los.
A Juçara ligou para o RH e pediu, com urgência, a moça de volta à seção.
- A Juçara sabia que os relatórios não estavam prontos.
Como não providenciou alguém para fazer isso?!
Pedi a ela há três semanas! - ficou insatisfeito.
- A pior coisa aqui, doutor Wagner, é dar função a alguém só porque essa pessoa é conhecida ou parente de fulano ou beltrano.
Wagner colocou os papéis sobre a mesa e os assinou.
Depois, virou-se para a assistente e comentou:
- Não sei como resolver essa situação com a Juçara.
Por mim, ela já estaria fora do nosso quadro de funcionário.
Quer dizer que, se eu não fosse lá a moça seria demitida por bobagem?
- É. Foi o que eu disse.
Salvou a pele dela.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:02 am

- E ela a minha.
É alguém com bastante conhecimento.
Foi o que percebi. Bem esperta.
- Coitada. - disse a mulher, inconformada.
Trabalhou o dia inteiro melada e molhada com aquele suco.
Deve ter sido horrível!
- Falando assim, você me deixa com mais peso na consciência, Hilda.
Foi sem querer.
Um cara ia levantando e para desviar dele, virei rápido.
Ela estava passando.
Eu não reparei que ela estava perto.
Então a bandeja virou.
- Espere aí!
Deixe-me ver se entendi - riu e ficou esperando mais explicações.
- Fui eu, Hilda! Fui eu!
Na cafeteria, logo cedo.
Eu que derramei suco nela.
Foi nesse momento que respingou café em minha gravata e o copo grande de suco virou - riu.
Ah!. Agora entendi - riu gostoso.
- Pobre coitada!
Já imaginou trabalhar sob esse ar condicionado horroroso, gelado e com a roupa melada e molhada?
E ainda sob pressão?!
- Tá bom, Hilda! Tá bom!
Já chega - falou colocando o paletó.
Tenho de passar no mercado.
Um momento e comentou:
- Sabe que a Adriana deu boas referências e estratégias para a promoção da propaganda do iogurte?
- É mesmo?!
Contou sobre a conversa que tiveram e a secretária opinou:
- Ela deveria ocupar o lugar da Juçara - riu.
- Também acho. Agora vou indo.
Até amanhã, Hilda!
- Devo vir amanhã ou estou demitida?
- Esqueceu que eu já te readmiti?
- Esqueci.
Quando ele ia saindo, a assistente lembrou:
- Liga para sua mãe! Ela vai ficar esperando!
- Tá! Se eu esquecer, você me lembra!
A mulher olhou sobre os óculos e pendeu com a cabeça negativamente ao sorrir.
Gostava muito de seu chefe.
Wagner era o mais novo director daquela empresa conservadora.
Um rapaz educado, bem polido e aprazível de se trabalhar.
Exigente quando necessário, lógico.
Dos trinta anos de serviços prestados ali, sem dúvida, Hilda acreditava que era a chefia mais agradável que secretariava.
Seu jeito jovial era contagiante e sua alegria, um dom.
Acompanhou-o desde quando o rapaz chegou ali como estagiário, cheio de dificuldades e ela o ajudou muito.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:03 am

Por tudo isso gostava dele.
Logicamente, perto dos demais, sempre se tratavam com a cordialidade exigida pela organização, mantendo a educação e a distância provocadas por suas colocações empresariais.
Porém, longe de todos, brincavam muito.
A caminho do apartamento, Wagner decidiu passar em uma grande rede de hipermercado.
Além de precisar de mantimentos, gostaria de confirmar os apontamentos feitos pela nova funcionária.
Com pequeno carrinho de compras, percorreu corredores, pegou o que desejava, além de observar como estavam dispostas as mercadorias da marca da empresa onde trabalhava.
Foi ao sector de refrigerados e precisou procurar pelos iogurtes, produto que provocou grande movimentação, naquele dia, na organização.
De facto. O que Adriana havia dito se confirmou.
Wagner não pensou duas vezes.
Pegou o celular, o mais discretamente possível, e tirou várias fotos das gôndolas e prateleiras.
Seriam provas precisas para suas acusações e brigas com o Departamento de Propaganda e Marketing.
Bianor, director dessa secção, não aceitaria seus apontamentos.
Sabia que iria precisar duelar muito com aquele homem teimoso.
Sorriu satisfeito ao conferir as fotos no aparelho.
Em seguida, foi embora.
Já era tarde quando Adriana chegou a sua casa.
Embora suas roupas estivessem secas, a blusa bege ainda exibia a mancha alaranjada do suco derramado naquela manhã.
Dona Heloísa, sua mãe, cumprimentou-a assim que a viu.
- Boa noite, filha. E aí?
Um momento e reparou:
- Que mancha é essa? - perguntou a senhora.
- Oi, mãe. Ah!. Nem te conto!.
- Como foi o primeiro dia?
A empresa é boa, né? - indagava sem esperar pela resposta da primeira pergunta.
- Hoje o dia foi tenso.
Tomei banho com um copo de suco de laranja.
Fui demitida e readmitida em menos de uma hora.
Descobri que o director da minha seção foi o idiota que derrubou suco em mim.
Não tomei café da manhã nem
almocei.
Comi um lanchinho e bebi café preto o dia inteiro.
Resumindo foi isso.
- Bem que eu mandei você tomar um café reforçado de manhã!
- Devia ter ouvido a senhora.
Mas. - sorriu ao falar.
- O que aconteceu? - tornou a mulher.
- Fui bem cedo para não perder tempo.
Não queria me atrasar por nada.
Afinal, era o primeiro dia.
Então. - contou detalhadamente todo o ocorrido.
A senhora ouviu com atenção.
Assim que a filha terminou a narrativa, sua mãe propôs:
- Vá tomar um banho quente para vir jantar cedo. Fiz uma sopa.


Última edição por Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:04 am, editado 1 vez(es)
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:03 am

- O pai já chegou? - perguntou a moça, fechando o sorriso.
- Não. Nem ele nem o Daniel.
Não gosto quando seu irmão chega tarde.
- O trânsito está horrível, como sempre.
Deve ser por isso que ele ainda não chegou.
Vou tomar logo um banho para o chuveiro ficar livre.
- Vai lá!
Adriana foi para o quarto deixar sua bolsa, depois para o banheiro.
Quando estava no meio do banho, o chuveiro parou de esquentar.
Terminou o banho na água fria.
Ao sair, avisou sua mãe:
- Acho que o chuveiro queimou.
- Sério?! - ficou insatisfeita.
Falando ao mesmo tempo em que tremia o queixo para dar maior drama as suas condições, disse:
- Terminei o banho na água friiiiia_
- Vai logo secar esses cabelos, menina!
Ficar gelada desse jeito, vai te fazer mal!
Breve pausa e comentou:
- Quero ver como vai ser quando seu pai e seu irmão chegarem.
Vão reclamar até.
A moça não deu muita importância e foi para o quarto secar os cabelos.
Ao terminar, pegou a roupa que havia usado naquele dia e levou para a lavandaria.
Ao vê-la retornar, Heloísa perguntou:
- Deixou a roupa de molho?
- Deixei.
- Amanhã eu lavo - afirmou a mulher.
- A senhora não vai trabalhar amanhã cedo?
- Os alunos terão uma actividade em outra disciplina e eu troquei com a outra professora.
- Não sei como aguenta dar aulas, mãe. Deus me livre!
- É o que eu sei fazer.
Apesar das dificuldades de hoje em dia.
Até gosto do que faço.
Enquanto Adriana pegava um prato para se servir, seu irmão chegou.
- Oi! Oi! Nossa!
Que cheiro bom!
- Oi, filho! Estava preocupada com você.
Demorou tanto! - disse a mulher sentando-se à mesa.
- Hoje o dia foi terrível.
Como se não bastasse, peguei um trânsito!. - o rapaz reclamou.
- E vai ter que tomar banho frio - disse a irmã.
- Por quê?! - preocupou-se.
- O chuveiro queimou - Adriana respondeu.
- Tá de brincadeira?!
- Não mesmo.
O pior é que eu estava no meio do banho e nem tinha enxaguado a cabeça!
- Ah! Que droga viu! - o rapaz reclamou e seguiu para o quarto.
Postando preocupação na voz, Heloísa comentou:
- Quero ver na hora que seu pai chegar.
- O que tem? - perguntou a filha.
- Por causa do chuveiro queimado, ele é capaz de ficar falando a noite inteira.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:05 am

Adriana, sentada à mesa e já fazendo a refeição, parou, olhou para a mãe e comentou:
- Acho que está mais que na hora da senhora se impor um pouco.
Desde quando me conheço por gente, o pai nos ofende, maltrata e é rude.
Sempre vivemos com medo dele, do que pode falar ou fazer.
Vivemos oprimidos.
- Em outras palavras, nossa casa sempre foi um campo de batalhas, né, filha?
Eu nunca soube resolver essa situação.
As vezes, me sinto fracassada.
A mulher deteve as palavras.
Sua voz calou-se com um travo de amargura e decepção.
Um semblante triste moldurou sua face, que pareceu nublar.
- Depois que eu me casar, como vai ser, mãe?
- Talvez ele melhore e.
Adriana não deixou sua mãe terminar o que dizia e a interrompeu, alterando o tom de voz:
- O pai nunca vai melhorar se a senhora continuar como é!
A senhora abaixa a cabeça para tudo o que ele fala e faz!
Por que faz isso, mãe?
- Já conversamos sobre isso muitas vezes e nunca encontramos solução.
Levantando-se, sem terminar a refeição, colocou sua cadeira no lugar e respirou fundo.
Com jeito insatisfeito ainda disse:
- Quando terminar, deixe o prato na pia, que depois eu lavo.
Adriana ficou chateada.
Não era isso o que queria.
Heloísa não gostava de falar sobre aquele assunto.
Jaime, seu marido, era um homem grosseiro, rude.
Alguém difícil de conversar.
Talvez, tivesse seus motivos, mas não os revelava directamente.
Sempre enfrentou transtornos no casamento por conta do génio hostil e, muitas vezes, violento do esposo.
Com o olhar entristecido, a filha acompanhou seus passos até a pia e depois a viu sumir no corredor.
Não demorou e Adriana terminou a sopa.
Seus pensamentos causticavam com aquele assunto, mas nada poderia fazer.
Foi até a pia, lavou os pratos e os talheres e os deixou escorrendo.
Depois foi para o quarto que dividia com o irmão.
Daniel já havia tomado banho e, ao vê-lo, ela brincou:
- A água estava óptima!
Não estava?
- Nem brinca! Que horror!
Detesto água fria. Detesto frio.
Odeio quando o chuveiro queima.
- Você tem dinheiro? - ela quis saber.
- Para quê? Está precisando?
- Tá na hora de comprar outro chuveiro, né?
- Não tenho ideia de quanto custa. Será que é caro?
- Não, se dividirmos.
Cada um paga metade.
- Será que precisa comprar outro?
Não seria só trocar a resistência desse aí?
- Esse chuveiro está velho demais.
Joga água pra todo lado e não esquenta direito.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:05 am

- Verdade. Tudo bem - ele concordou.
Compra que depois te dou o dinheiro.
- Amanhã a mãe não vai trabalhar.
Vou pedir para ela comprar e a noite você troca, tá?
- Não, né! - reclamou.
e for trocar o chuveiro vou ter que desligar a energia.
Como é que vou enxergar à noite? Fica difícil.
Diz pra mãe chamar o senhor Olímpio pra fazer isso durante o dia.
Ele é electricista, encanador e faz esse tipo de serviço pra todo o mundo.
- Mas tem que pagar! - a irmã exclamou.
- A gente paga!
Fica mais fácil do que eu tentar fazer isso quando chegar à noite.
- O pai também, né.
Bem que ele poderia ajudar um pouco mais.
- Olha, Adriana, faz tempo que eu não conto com o pai para mais nada.
Até esqueço dele.
- É nosso pai.
Não pode falar assim.
- Pai? Que pai? - ele perguntou, parecendo zangado.
Pai que é pai, cuida, orienta, educa, oferece amor e carinho.
O que recebemos desse homem que só nos agrediu e desprezou?!
Breve pausa e Daniel disse ainda:
- Eu já saí de casa uma vez e só voltei por causa sua e da mãe.
Mas pra te dizer a verdade.
Tá bem difícil ficar aqui.
- Não fale assim.
Ele parou com o que fazia, olhou-a firme nos olhos e perguntou em tom sério:
- Quer que eu minta?
Um momento e prosseguiu:
- Veja bem, Adriana, desde sempre, a mãe se submete ao pai.
Ele, por sua vez, não muda.
Já propus a ela que fosse embora daqui.
Mas não. Ela não aceita.
Então eu peguei minhas coisas e fui embora.
Mesmo quando estava morando sozinho, também propus para vocês duas que fossem morar comigo.
Não aceitaram.
- Não ia deixar a mãe, aqui, sozinha!
- Foi então que o pai piorou!
Aí vocês me pediram para voltar.
- Aí ficou tudo bem.
- Tudo bem?! - ele exclamou.
Você chama tudo bem o jeito que ele age?
Acha que é normal?
A irmã não disse nada.
Sabia que ele estava certo.
- Quero ver como vai ser depois que você se casar.
Muito provavelmente eu não vou suportar ficar aqui.
- Você vai embora?!
E a mãe?! - perguntou ela de um jeito melancólico.
- A mãe vai ter que decidir o que fazer da própria vida.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:05 am

Nem eu nem você podemos interferir.
Se ela quiser, pode até morar comigo.
Mas duvido que vá.
Adriana respirou fundo e ficou olhando-o.
Não demorou e escutaram o vozerio vindo de outro cómodo da casa.
Aquilo indicava que o pai havia chegado e estava insatisfeito.
- Ele chegou - disse a irmã.
Daniel a olhou sério.
Pegou um suéter de lã e vestiu.
Respirou fundo, alinhou os cabelos com as mãos e saiu do quarto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:05 am

Capítulo 3 - Conhecendo-se melhor

Daniel chegou à cozinha onde sua mãe se encontrava de cabeça baixa.
Seu pai ia e vinha de um corredorzinho que servia de passagem para a lavandaria.
O homem reclamava por causa do chuveiro queimado e de tudo mais que acontecia.
Estava sob efeito de bebida alcoólica e ainda não tinha visto o filho.
- Esta casa é uma droga!
Uma porcaria!
Sabe o que é uma porcaria?!
É uma porcaria!
Uma droga!
Cê tá entendendo? É.
Você não serve pra nada!
Tenho uma mulher inútil!
Imprestável! - falava trôpego.
De modo irritadiço.
Depois de um dia difícil.
Difícil, viu?
Você entendeu?
Entendeu?! - e enfiou a cabeça pela porta da cozinha.
Nesse momento, Daniel estava perto do fogão servindo-se da sopa que havia na panela.
Quando o viu, Jaime arregalou os olhos e parou com o que dizia.
O rapaz sentou-se à mesa. Não falou nada.
Heloísa se aproximou com uma cestinha e ofereceu:
- Quer pão, filho?
- Quero sim. Obrigado - respondeu baixinho.
Naquele instante, o pai adentrou a cozinha.
Olhando para o rapaz, reclamou:
- O chuveiro queimou!
Sabia que o chuveiro queimou?! - perguntou, agora de um jeito menos agressivo.
- Sei sim. Eu tomei banho frio e a Adriana também.
- Mas hoje tá frio!
Eu não quero tomar banho frio!
Tá muito frio!
- Um banho frio iria te fazer bem, Jaime - comentou a esposa.
- Por quê? Por que ia me fazer bem?
Você tá querendo dizer o quê?!
- Não estou insinuando nada.
Vai tomar banho e depois vem jantar - tornou ela.
- Insinuando?! Insinuando.
Insinuando. Viu?!
Ao passar pelo filho, que estava sentado, deu-lhe um tapa leve nas costas e repetiu:
- Insinuando! Ela fala difícil!
Só porque é professora.
Uma professorinha.
Apontou ao repetir:
- Uma professorinha, aí ÓL.
Pensa que eu não sei.
Não sei o que é insinuando?!
Mas eu sei! Eu sei, tá bom!
Sei sim. Sei o que é insinuando! - falava bem devagar a palavra que tanto o incomodou.
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:06 am

Não pensa que eu sou analfabeto não.
Porque eu sei o que é insinuando!
- Jaime, por favor, vá tomar banho e vem tomar um prato de sopa.
- Por que é que só tem sopa?! Eu trabalho!
Ponho dinheiro em casa!
Dinheiro nessa droga dessa casa!
Viu? E aí.
Quando eu chego, não tem chuveiro quente e só tem sopa!
Sopa! Viu? Só tem sopa!
O homem não percebia o quanto sua conversa era desagradável e seus modos desprezíveis.
Seu jeito mole e enfático de falar era desconexo e irritava em demasia.
A pessoa alcoolizada perde a noção do bom senso, a razão, não só pelo efeito que o álcool proporciona ao organismo, mas também pela influência espiritual de entidades inferiores, escravizadas, quando encarnada, pela bebida alcoólica.
Tais espíritos vampirizam todo aquele que ingere bebida alcoólica e ainda o influência em pensamento, palavras e ações1.
Inúmeras atitudes tomadas sob o efeito do álcool, certamente, não aconteceriam se a pessoa estivesse em seu estado normal.
O pior é, depois, deparar-se com a vergonha, a responsabilidade e o arrependimento.
Daniel, insatisfeito com a situação, respirou fundo, ergueu o tronco e, com o olhar, procurou pelo pai.
Percebendo que o rapaz ia falar alguma coisa, a mãe, sentada à lateral da mesa, sobrepôs a mão em seu braço e sinalizou negativamente com a cabeça ao espremer os olhos, pedindo, silenciosamente, para que não dissesse nada.
- Eu não falo insinuando, mas eu trabalho e ponho dinheiro em casa!
Deveria ter comida e banho quente nesta droga desta casa!
Porque eu trago dinheiro.
Dinheiro pra dentro de casa - dizendo isso, o senhor seguiu pelo corredor em direcção ao quarto.
Os companheiros espirituais o seguiram, enquanto o mentor de Daniel o envolvia pedindo:
- Calma. Não reaja.
Não vai adiantar.
O rapaz acabou de engolir um pedaço de pão e, em voz baixa, perguntou:
- A senhora vai levar essa vida até quando?
- É o seu pai! - sussurrou.
- Estou crescido, mãe.
Não preciso de pai. Não como ele.
Já falamos e fizemos de tudo para ajudá-lo.
Nós o levamos ao Alcoólicos Anónimos, mas não adiantou.
Sabe por que o pai não muda?
Não esperou pela resposta e prosseguiu:
- Não muda porque ele tem o que deseja.
- E o que ele deseja?
- Tudo e todos o servindo.
Tudo e todos com medo dele.
Principalmente a senhora.
Se ele ficasse sozinho, é provável que procurasse ajuda.
Talvez, quisesse se regenerar para ter a senhora de volta, não sei.
Vendo-a reflexiva, perguntou:
- Quantos anos de casados vocês têm?
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:06 am

- Sua idade. Você sabe.
- Nesses anos todos, depois de ter feito tanto por esse homem, a senhora não conseguiu fazer com que ele mudasse, então seu método não funcionou.
É provável que precise de algo novo.
Se a senhora não tem culpa pela bebedeira dele, é preciso mudar.
- Fazer o quê?
- Fazer algo por si, mãe.
Cuidar da senhora, da sua saúde, da sua aparência.
Um curso, talvez!. Viaje!
A senhora é jovem, bonita, educada, sensata.
Faça algo por si, mãe.
Invista em si! - enfatizou, falando baixinho.
- Quando fizer isso, provavelmente, ele vai querer deixar o vício e ser alguém melhor.
Quem sabe tenha que dar exemplo.
A não ser que se sinta culpada, de alguma forma, pelo vício dele.
- O que vai ser de seu pai se eu abandoná-lo?
Daniel olhou em seus olhos e perguntou:
- O que vai ser da senhora se continuar com ele?
Não houve resposta.
O silêncio foi absoluto até Jaime retornar à cozinha.
Ele se encontrava menos eufórico.
Sentou-se à mesa e a mulher, que já estava em pé, serviu-o com a sopa.
Ao experimentar a primeira colherada, o marido reclamou:
- Está sem sal.
Ela foi até o armário, pegou o saleiro e colocou a sua frente.
- Eu gosto de comer comida de verdade.
Não gosto de sopa.
Pra mim, isso é água quente com coisa boiando.
Ninguém disse mais nada.
Daniel foi para o quarto.
A irmã estava conversando com sua amiga através de mensagens pelo celular.
Ao terminar, Adriana perguntou:
- E aí?
- Você ouviu, né?
- Um pouco. Não pude prestar atenção.
Um momento e comentou:
- O pai não muda mesmo. É só beber.
- Mesmo quando não bebe, ele sempre incomoda.
Fala o que não deve.
É difícil conviver com alguém assim tão inconveniente.
É uma pessoa que, além de ser ignorante, não ter razão no que diz, fala demais e ainda bebe.
Por outro lado, a mãe se submete ao que ele faz e isso dá força para que ele continue sendo como é.
Às vezes, penso que a mãe tem grande parcela de culpa por ele ser assim.
Ela age de forma suspeita e incorrecta quando não toma uma atitude.
Parece que deve alguma coisa.
- Do que você está falando?
- Da mãe não tomar uma atitude.
É como se ela se sentisse culpada.
Talvez, tenha feito algo que o levasse a beber tanto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:06 am

Embora um erro não justifique o outro.
Às vezes, acho que ela se faz de vítima.
Será que é vítima mesmo?
- Não estou te entendendo.
- Deixa pra lá.
Mudando de assunto, Daniel quis saber:
- E então? Como foi o seu primeiro dia na nova empresa?
- AaaaahL. Nem te conto! - riu.
O irmão sorriu pelo jeito engraçado que Adriana fez.
Sentou-se na cama, frente a ela e ouviu, atentamente, todas as novidades que a irmã tinha para contar.
Assim que ela terminou, o rapaz disse:
- Foi bom. Você mostrou eficiência, logo de cara.
Isso impressiona, sabia?
- Quando o homem me chamou pra ir conversar na sala dele, pensei que algo tivesse dado errado.
- Que nada! Ele quer informações sobre o concorrente.
Afinal, você trabalhou lá por um bom tempo.
Vai ter muito o que contar.
- Quando quiser, vou contar mesmo.
Achei muito injusta a minha demissão.
- Não pense assim. A empresa agiu correctamente.
As organizações não costumam ter parentes no quadro de funcionários.
Você e o Nicolas vão se casar.
Era esperado que um de vocês fosse demitido.
Ainda bem que foi você.
- Não achei justo porque trabalhávamos em departamentos bem diferentes e distantes.
Mas. Agora não importa.
Já estou com emprego novo e estou bem satisfeita.
Apesar de não ter ido muito com a cara da gerente.
Ela é tão metida!.
O irmão riu e Adriana ressaltou:
- Verdade! Sabe aquela pessoa que dá uma de que entende de tudo, sabe de tudo, mas, na verdade, é incompetente total?
Pessoa arrogante que se acha com toda a razão?
- Sei.
- É ela! Mas não tem nada não.
Estou acostumada com gente assim.
Vou me adaptar bem.
- É assim que se fala!
Não temos que mudar o trabalho ou as pessoas a nossa volta.
Precisamos é nos adaptar ao ambiente.
O silêncio reinou por alguns instantes, até que Adriana perguntou:
- E você, Dani?
- O que tenho eu? - olhou desconfiado.
- Nos últimos tempos, você está tão quieto, calado.
- Já te disse. Não está sendo confortável viver aqui.
- Depois que eu me casar, você pretende mesmo sair de casa de novo como me falou?
- Não pretendo. Eu vou sair. Não dá mais.
- E a mãe?
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