Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:50 am

- Óptimo. Fez bem. Acho que é o melhor.
Pode ir embora. Não precisa ficar hoje.
- Não tem ninguém para ficar em meu lugar hoje, Wagner.
- Daremos um jeito. Não se preocupe.
Hilda se recompôs um pouco e perguntou:
- Então eu posso ir?
- Sem dúvida. Pode sim.
Confesso que estou abalado com o que te aconteceu.
Não esperava. Conheço o Agenor e...
Não consigo imaginar algo assim.
- Se não consegue, imagine eu?
Levantaram-se.
Wagner foi a sua direcção e a abraçou tal qual filho que envolve a mãe, e ela correspondeu.
Bem baixinho, o rapaz disse ao seu ouvido:
- À noite eu ligo pra você. Está bem?
- Tá bom... - chorou em silêncio.
Em seguida, perguntou:
- Tem certeza de que vai ficar bem sem mim?
Afastando-se do abraço, ele sorriu ao responder:
- Sim. Vou ficar bem.
Não se preocupe.
Se precisar, eu te ligo - sorriu com bondade, admirando sua preocupação.
- É hoje que sua mãe chega com sua irmã e a Sabrina.
- Sim. Talvez já estejam chegando.
E... Quanto ao noivado, estou decidido a terminar com a Sabrina.
- Mesmo? - indagou, mas não estava surpresa.
- Sim. Mesmo. Aconteceram algumas coisas.
Eu e a Adriana estamos nos entendendo.
- E o casamento dela? - quis saber.
- Ela vai terminar com o noivo.
Nós conversamos bastante. Parece loucura.
Tudo foi rápido demais. Porém...
Sentimos algo muito forte um pelo outro.
Não dá para explicar.
- Vocês dois estão se envolvendo, não é?
- Sim - sorriu sem jeito. - Estamos.
- Tenho percebido isso. Vá com calma.
Faça tudo de acordo com a ordem das coisas - aconselhou.
Melhor vocês terminarem com os compromissos que têm.
Depois começam uma nova etapa.
- Pode deixar.
- Boa sorte em suas decisões.
Estarei orando por você, Wagner. Sabe disso.
Olhou-o de modo maternal e forçou um sorriso ao passar a mão com carinho por seu rosto.
- Obrigado. Eu também estou torcendo por você.
Para que as coisas fiquem mais leves.
- De que jeito podem ficar mais leve?
Wagner sorriu com olhar piedoso, e encolheu levemente os ombros num gesto singular.
- Boa sorte, Hilda.
- Para você também - olhou-o por um instante e não gostou do que sentiu.
Experimentou uma dor no peito por causa dessa separação.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:50 am

Não queria ficar longe do rapaz nem daquela directoria.
Depois de tanto tempo, era a primeira, desde que ele assumiu o cargo, que ela o chamava pelo nome e dispensava tratamento de senhor, e o rapaz reparou isso.
A mulher forçou um sorriso, virou-se e se foi.
O ocorrido na vida da assistente deixou Wagner abalado. Não gostou de vê-la sofrendo tanto.
Ligou para o Departamento de Recursos Humanos a fim de que providenciassem uma nova assistente para substituir a sua. Mas não foi necessário, pois Hilda já havia feito isso. Outra pessoa começaria no dia imediato.
No horário do almoço, telefonou para Adriana. Conforme combinado, decidiram fazer a refeição juntos e bem mais tarde para diminuir o risco de encontrarem algum conhecido da empresa.
Enquanto almoçavam, Wagner comentou:
- Minha mãe ligou. Já chegaram.
- Você disse alguma coisa sobre nós?
- Não. Ainda não é o momento.
- Estou com um frio na barriga - ela disse com jeitinho de medo.
- Você está insegura sobre nós, Adriana?
Tem alguma dúvida sobre o que devemos fazer?
- Já está feito. Não está?
Wagner olhou em sua mão e não viu a aliança de noivado.
Usava um anel no lugar.
Talvez, para que a marca deixada não chamasse a atenção.
Ele também havia tirado a sua.
- Conversou com sua mãe sobre desmarcar o casamento?
- Não tive como.
Ando chegando muito tarde.
Ela já está dormindo. Vou falar hoje.
Vai ser difícil avisar um a um dos que receberam os convites de casamento.
Cancelar a festa...
Sentado a sua frente, o rapaz pegou em sua mão e, com voz confiante, disse:
- Vai dar tudo certo.
Melhor agora do que depois.
Você estava insegura quanto ao casamento.
Pelo que me contou o seu noivo...
- Ex-noivo! - corrigiu-o a tempo.
- Sim, ex-noivo - sorriu.
Ele vem se revelando uma pessoa bem diferente do que você imaginou.
- Isso é verdade. É que agora, por estarmos aqui juntos, eu me sinto mal porque o estou traindo.
- Você já decidiu que não quer mais ficar com ele.
Assim como eu já decidi não ficar mais com a Sabrina.
Então é questão de tempo.
Só o tempo de eles saberem e tudo estará resolvido.
Traição seria se continuássemos com nossos encontros e, ao mesmo tempo, compromissados com eles.
Conversaram um pouco mais. Almoçaram e se foram.
No fim do expediente, quando Wagner dirigia para levá-la para casa, conduzia o carro bem devagar.
Não queria chegar ao destino e disse:
- Não quero te deixar em casa - sorriu, ao comentar.
Você tem pressa para chegar?
- Não - sorriu com jeito meigo.
- Também não posso ir para o meu apartamento - ele sorriu e a encarou.
Sem dizer nada, entrou em uma rua e desviou-se do caminho que deveria fazer.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:50 am

Capítulo 11 - Difíceis decisões

Em sua casa, Hilda e Agenor ainda conversavam.
- Não precisa contar para os meninos.
Eu errei... Fui fraco...
Mas eles não precisam saber - pedia o marido em meio a longas pausas.
Não sei o que aconteceu.
Fiquei perturbado e...
- Por que não veio conversar comigo quando se sentiu perturbado?!
Não houve resposta.
- Você não tinha o direito de fazer isso! - exclamou chorando.
- Achei que só estaria prejudicando a mim.
Eu disse: que se dane.
Só estarei prejudicando a mim.
Sei lá o que me deu! Talvez...
- Talvez o quê?!
O que estava te faltando aqui em casa para ir procurar outra na rua?!
Sempre fui sua companheira, amiga...
Conversamos e decidimos tudo juntos!
Sempre encontrou a casa limpa e arrumada.
Tudo no lugar! Seus filhos bem cuidados!
Nunca fui mãe ou esposa ausente!
Eu me cuido! Nunca fui desleixada comigo!
Nunca fui mulher de inventar dor de cabeça para deixar de transar com você!
Sempre fui limpa!!! E só sua mulher!
Como pôde?!!! - gritou inconformada e aflita.
Ainda foi arrumar um lixo como a Almira!
Mulher casada!!!
Se foi capaz de sair com você, deve ter saído com outros também.
Sempre desconfiei dela!
Mas não me preocupei porque é problema dela!
Mas de você?!!!...
- Pare com isso!
Não sei o que me deu!
Talvez, eu quisesse uma aventura ou uma fantasia...
- Fantasiasse comigo!!!
Sempre nos demos muito bem na cama!!!
O que te faltou?!!
O que não encontrou comigo e foi procurar com uma vagabunda?!! - exigia respostas e, mesmo que elas viessem, não justificariam o erro de Agenor.
Breve pausa e, mais racional, perguntou em tom moderado:
- E a respeito de doença?!
Você pensou em doenças?!
Beijo transmite HPV que, para você não é nada, mas eu terei um câncer se você se contaminou com essa vagabunda!
Existem muitas outras doenças também!
Hepatite C se transmite com beijo também e nos condena pelo resto da vida a tomar remédios, fila de transplante de fígado, dor e sofrimento!
HIV não está rotulado na cara de ninguém!
Pensou nisso?!
Você usou preservativo?!
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:50 am

Abaixou a cabeça e respondeu num murmúrio:
- Usei.
Um barulho e perceberam a chegada do filho mais novo, que colocava o carro na garagem.
Hilda secou o rosto com as mãos e respirou fundo, tentando disfarçar.
Não desejaria que Rodrigo a visse daquele jeito.
O rapaz entrou, cumprimentou-os e percebeu algo estranho:
- O que está acontecendo?
Os pais não responderam, e ele insistiu:
- O que aconteceu para vocês dois estarem com essas caras?
- É um problema sério entre mim e o seu pai.
Nós precisamos conversar. Só isso.
- Que problema, mãe? - indagou intrigado, olhando para um e para o outro.
- Está tudo bem, meu filho.
Vá tomar um banho para comer alguma coisa.
O moço obedeceu, mas não gostou do que sentiu.
Ao vê-lo se afastar, Hilda decidiu:
- Vou ligar pra Fátima e pro Rogério.
Vou pedir que venham aqui.
Não podemos adiar mais isso.
- Não precisamos contar pra eles.
- Pensasse em não destruir sua imagem de pai exemplar e homem respeitável antes de fazer tudo isso com você, comigo e com nossa família.
Agora, eu não quero e não vou suportar todo esse desgosto sozinha.
O marido abaixou a cabeça e nada disse.
Depois do jantar, os filhos Fátima e Rogério chegaram à casa dos pais.
Eles moravam bem perto.
Assim que entraram, sentiram um clima pesado.
Todos se reuniram à mesa da cozinha e Fátima, com um sorriso nervoso, perguntou:
- O que está acontecendo?
Por que tanto suspense?
- Porque não sei se continuo ou não casada com o pai de vocês.
Ele não foi fiel. Não me respeitou.
Não respeitou nosso casamento.
Eu o peguei com a Almira - Hilda revelou sem rodeios, embora seu coração estivesse apertado.
- O quê?!! Papai!!! - transtornada e incrédula, a filha praticamente gritou sob o efeito de um choque.
Agenor abaixou a cabeça.
Rogério também não acreditou, mas não se manifestou.
Só ficou olhando-o.
- O que você fez?! - indagou Rodrigo surpreso e assustado.
Hilda não conteve as lágrimas.
Fátima se levantou.
Sem acreditar no que ouvia, deu alguns passos negligentes e depois voltou para o seu lugar.
A filha falou muito. Não se conformava.
Fez várias perguntas semelhantes as da mãe e não houve resposta.
Hilda, mesmo com lágrimas que teimavam correr em sua face, pediu em tom brando:
- Fátima, pare com isso, por favor.
Nada do que diga vai resolver esta situação.
Subitamente, Rodrigo quis saber:
- O que vocês estão decidindo?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:51 am

Agenor, com as mãos trémulas e uma vibração nervosa na voz comentou:
- Eu propus a sua mãe que continuássemos.
Eu errei. Sei que errei.
Preciso que ela e vocês me perdoem.
Não sei o que aconteceu comigo.
Acabei me iludindo.
- O senhor não respeitou nossa mãe!
Não nos respeitou!!!
Como pôde fazer isso?!! - gritou Fátima, inconformada.
O senhor sempre teve ao seu lado uma mulher que o apoiou em tudo!!!
Sempre foi fiel, honesta!!!
Cuidou do senhor e de nós, da casa e sempre trabalhou para ajudar nas despesas!!!
- Calma, Fátima!
Isso não vai ajudar em nada!
Pare com isso! - pediu Rogério firme.
A irmã se sentou.
Apoiou os cotovelos na mesa, segurou a cabeça com as mãos e se calou por um momento até perguntar:
- Quanto tempo durou isso, pai?
- Não importa, Fátima.
Esses detalhes não importam.
Basta vocês saberem o que está acontecendo.
Se ficarmos comentando e detalhando sobre pormenores, vamos fazer filminhos e historinhas na nossa imaginação que só nos deixarão mais magoados e infelizes.
Isso não vai fazer o tempo voltar para corrigir a situação.
Nem amenizar o estrago sentimental - comentou Hilda.
- Eu quero saber! - insistiu a filha.
- E o que você vai fazer com essa informação?!
Para que precisa disso? - tornou a mãe firme.
- É verdade. Pare com isso, Fátima.
Você só está piorando as coisas - concordou Rogério.
Agenor levantou-se, lentamente, e foi para o quarto.
Rodrigo o acompanhou com o olhar e, em tom brando, inquiriu a mãe:
- O que você vai fazer?
- Sinceramente, não sei.
Vou precisar de um tempo para pensar.
Estou confusa... - lágrimas correram em sua face e ela secou com as mãos.
Não consigo organizar minhas ideias.
É uma sensação muito estranha.
Sentado ao seu lado, Rodrigo afagou suas costas e Hilda inclinou-se em seu ombro.
O filho a abraçou e ela chorou um pouco.
Ao se recompor e se afastar do abraço, Hilda disse:
- Achei que vocês precisavam saber.
- Claro, mãe - disse Rogério. - estamos do seu lado.
Porém, eu diria para a senhora pensar bem.
São muitos anos de casamento sólido, cumplicidade, amizade...
O pai nunca foi disso.
- Eu discordo! - protestou a irmã.
Você fala assim porque é homem!
Se o César - referiu-se ao marido - fizer isso, ele pode ir embora!
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:25 pm

Nem quero pensar!
Se eu souber ou desconfiar de uma traição...
Não aceito de jeito nenhum!
Como é que vou dormir com meu marido, sabendo que ele transou com outra?
Não vou aguentar! E acho que a mãe também não!
- É a mãe quem tem que decidir - opinou Rodrigo, o filho caçula.
A gente não pode dizer o que ela tem que fazer.
Afinal, quem vai dormir com ele, é ela.
Um breve momento e o caçula perguntou:
- Mãe, você já pensou em fazer exames?
Hilda não entendeu.
Experimentava uma confusão mental que não a deixava ser racional.
Por isso, perguntou:
- Exames? Que exames?
- Ora, mãe. Você sabe.
Se o pai se envolveu...
Se ele se relacionou com outra mulher, é importante vocês dois fazerem exames de laboratório para verem se não estão contaminados com HIV, HPV, Hepatite C, Tuberculose ou sei lá mais o quê.
- É mesmo, mãe! - concordou a filha.
Se aquela cadela, sem-vergonha estiver doente!...
- Não precisam chegar a tanto! - discordou Rogério.
- Lógico que sim!
Você está errado, cara! - protestou Rodrigo.
Eles precisam fazer exames o quanto antes.
Mesmo que tenha usado preservativo.
Esse método não é totalmente seguro.
Além disso, tem vírus que se transmite pelo beijo.
Não pode dar mole não!
Rogério se calou e começou a imaginar que se o pai estivesse contraído Hepatite C ou HIV, poderia ter passado esses vírus para sua mãe.
Olhou-a por um instante e ficou extremamente preocupado, mas não quis externar seus sentimentos.
Afinal, isso não ajudaria em nada.
- Precisa ir a um Posto de Saúde, mãe.
O Rodrigo lembrou muito bem.
A senhora e o pai precisam fazer exames o quanto antes.
- É assim, mãe:
você e o pai vão até um Posto de Saúde e perguntam se lá fazem exames de HIV.
Se não fizer, eles vão indicar onde é que se faz.
Daí, é colhida uma amostra de sangue. É rápido.
Alguns resultados, como o do HIV, saem em poucas horas.
Outros, um pouco mais demorados, saem em poucos dias.
Depois desse primeiro, vocês terão de retornar lá por mais duas vezes, para repetirem o exame para ver se o HIV não estava em estado indetectável.
- Meu Deus... Nem sei como fazer isso... - afligiu-se Hilda.
Ficou confusa.
Não sabia como enfrentar essa situação.
Ficou se imaginando.
Uma mulher que viveu de uma forma sempre tão correta passar por aquela situação tão humilhante e constrangedora.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:25 pm

Fátima, inconformada, não parava de falar.
Às vezes, balbuciava sem que os outros entendessem o que dizia.
- Seu pai precisa ir junto?
- Precisa. Ele principalmente.
De repente, ele se contaminou e você não - explicou o filho caçula.
- Pelo amor de Deus! - a mãe exclamou.
- Mãe! Isso é a realidade e terá de encará-la para não viver acovardada e com medo.
Medo nunca resolveu situação alguma.
Breve pausa e contou:
- Uma conhecida de um amigo meu, uma véiona, já com seus cinquenta...
- E cinquenta anos é véiona, Rodrigo?! - protestou a irmã.
Olha pra mãe!
- Sei lá... Foi o modo de falar.
A mulher foi contaminada pelo marido e contraiu HIV.
Ele traiu ela. Ela é bonitona.
Eu vi essa mulher de longe.
Daí que se separaram. Deu um pé no marido.
Contou pra mãe do meu amigo que está se tratando, tomando remédio para controlar a multiplicação do vírus do HIV no organismo, mas disse também que está saindo com todo homem que aparece:
casado, solteiro, viúvo...
O que aparecer. Disse que não tá nem aí!
Não exige uso de camisinha.
E os caras, por causa da boa impressão, da óptima aparência e da idade confiam nela e não usam preservativo.
A mulher ainda disse que, se ela pegou o vírus porque o marido saiu com outra, também tem o direito de fazer o mesmo.
- Ela não imagina a negatividade que está atraindo para si mesma.
Terá que harmonizar e corrigir tudo o que fez de errado.
Tudo o que fez sofrer - disse Hilda.
- Em outras palavras...
Na próxima encarnação, vai pagar na mesma moeda.
Idiota! - comentou Fátima.
- Já nos bastam as energias pesarosas dos nossos próprios problemas.
Não precisamos atrair a negatividade dos outros.
Deixe isso pra lá.
Tenho de pensar no que vou fazer - comentou Hilda, preocupada.
Depois contou:
- Hoje pedi férias no serviço.
Vou usar esse tempo para fazer esses exames, procurar meu médico e decidir o que fazer da minha vida.
- A primeira coisa a fazer é ir ao Posto de Saúde, mãe.
Esses exames são importantes.
Além do que, precisa ir ao ginecologista para ver outras doenças e pedir orientação - preocupou-se a filha.
- Claro. Primeiro no Posto, depois no meu médico - disse a mulher bem baixinho.
Abaixou a cabeça e, inconformada, perguntou no mesmo tom:
- O que deu nesse homem, meu Deus?
O que ele tinha na cabeça?
- Vai ver se desequilibrou psicologicamente - opinou Rogério, o filho mais velho.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:25 pm

- Só pode ser isso.
- Mas isso não dá o direito à traição! - protestou novamente Fátima, ainda alterada.
- O que você vai fazer, mãe? - quis saber Rodrigo.
- Vou começar pelo mais importante: a saúde.
Ver se não estamos infectados... - sua voz embargou.
Respirou fundo e disse:
- Depois... Bem...
Enquanto isso, vou pensando no que fazer.
Não é fácil ser traída pela pessoa que você tem a maior confiança do mundo...
E também a Almira...
- Cachorra! Sem-vergonha!
Vagabunda!... - xingou Fátima, irritada.
A senhora vai contar pro marido dela, não vai?
- Não. Não vou me envolver nisso.
- Como não, mãe?! Ele precisa saber!!!
- Não por mim!
E você não vai fazer nada, Fátima! - foi firme.
Isso é vingança e não vou me rebaixar a esse ponto.
O que tenho pra resolver é entre mim e seu pai.
- A senhora tem que contar! - insistiu.
- Não me pressione, Fátima!
Já tenho problemas demais.
Por que vou procurar outros?
- A senhora não quer ser pressionada, mesmo assim, vou dar minha opinião!
Não esperou e disse:
- A senhora não deveria continuar com ele!
É meu pai, mas perdeu todo o respeito comigo!
Não posso concordar que fique se submetendo a essa humilhação!
Ele não te merece!
Traiu a senhora e a todos nós!
O que mais pode esperar de um homem que engana, mente e trai?!
- Não é assim, Fátima! - interrompeu Rogério, o irmão mais velho.
Ele sempre foi bom pai.
Nunca deixou faltar nada em casa.
Sempre foi presente. Esteve do nosso lado.
- E do lado da mãe também.
É bom lembrar disso - argumentou Rodrigo.
- Isso mesmo. Eles têm muitos anos de casamento, amizade e cumplicidade.
Tudo precisa ser levado em consideração - tornou Rogério.
- Eu sei de tudo isso - Hilda comentou em tom cansado.
Parecia esgotada daquele assunto.
Fiz esta reunião para que soubessem o que está acontecendo.
Agora preciso pensar.
Amanhã cedo, quero ir ao Posto de Saúde fazer os tais exames.
Vou mesmo se ele não quiser.
Depois decido tudo isso.
- Não seja impulsiva, mãe - pediu Rogério.
- Pois eu acho que a mãe não tem o que pensar.
Deve mandá-lo embora desta casa e pedir o divórcio.
Se fizer isso, terá todo o meu apoio.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:26 pm

- Calma, Fátima.
Não faz pressão! - pediu Rodrigo.
A mãe vai pensar. Ela precisa de um tempo.
Independente do que decidir, terá meu apoio também.
- Obrigada pelo apoio.
Desculpe-me por trazer a todos esse problema tão difícil.
Mas eu precisava dividir com vocês.
- A senhora está bem?
Acha que pode ficar sozinha? - preocupou-se Rogério.
- Eu estou aqui, né, meu! - reclamou Rodrigo.
Ela não tá sozinha!
- Estou bem. Não se preocupem.
Só peço uma coisa a todos vocês: pelo menos, por enquanto, não comentem nada com ninguém.
Só contem para a Valéria e para o César e peçam segredo.
Não quero mais ninguém me fazendo perguntas ou falando de mim pelas costas.
- É isso mesmo.
Ninguém tem nada a ver com nossa vida - concordou Fátima.
- Então eu vou indo, mãe.
Já está tarde e a Valéria está sozinha.
Rogério se levantou, foi até ela e a beijou durante um abraço apertado.
- Pode contar comigo - cochichou em seu ouvido.
- Obrigada, filho.
- Eu também preciso ir.
Amanhã tenho de levantar cedo - decidiu Fátima que também a abraçou e beijou.
Qualquer coisa, liga lá em casa.
Ao ver os filhos na sala, prontos para irem, a mulher perguntou:
- Não vão se despedir de seu pai? - não gostaria que os filhos rejeitassem o pai.
Os irmãos se entreolharam. Não disseram nada.
Estavam chocados e confusos com o que souberam.
Rogério foi à direcção do quarto e a irmã o seguiu.
Voltaram. Beijaram Hilda mais uma vez e se foram.
Quando retornou do portão, Hilda ainda encontrou Rodrigo na sala.
O jovem se aproximou dela, pousou a mão em seu ombro e disse:
- Vou faltar no serviço para ir com vocês no Posto de Saúde amanhã.
- Não, filho. De jeito nenhum.
Eu e seu pai podemos fazer isso.
- Tem certeza?
- Sim, Rodrigo.
Pode ficar tranquilo.
O rapaz a beijou no rosto e foi para o seu quarto.
Hilda voltou para a cozinha.
Sozinha, experimentou uma crise de choro amargo.
Uma dor lancinante na alma manifestava a angústia cruel, castigando seu ser.
Ela não conseguia parar de pensar em tudo.
Sentia-se como se fosse enlouquecer.
Era bem tarde quando Adriana chegou a sua casa.
Preocupada, Heloísa foi ao seu encontro.
- Filha! Que demora!
- Precisei ficar até mais tarde.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:26 pm

Para mudar de assunto, Adriana perguntou:
- Falou com o Daniel?
Ele me mandou uma mensagem.
- Mensagem! Mensagem!
Eu quero é ouvir a voz do meu filho.
Ele também mandou mensagem dizendo que estava no hotel.
Na mesma hora, peguei o telefone e liguei pra ele.
Não sei como vocês conseguem se comunicar só com isso.
Sem demora, Heloísa comentou, parecendo insatisfeita:
- A leda voltou para a casa dela.
- Ela ia ficar até o Daniel voltar do Rio! - estranhou.
- Adivinha!... A Lisa apareceu aqui.
Quando encontrou a leda dormindo na cama do seu irmão...
Nem te conto!
Perguntou se ela não tinha casa, disse que a cama era do namorado dela, que nem ela dormia aqui...
Falou daquele jeito. Você sabe.
- A Lisa é um saco!
A senhora não falou nada?
- Vou brigar com a namorada do seu irmão?
- A leda é mais chegada do que ela! - exclamou insatisfeita.
- Eu não posso maltratá-la.
A leda é como uma filha para mim, mas a Lisa é namorada do Daniel e é ciumenta.
Fico em uma situação difícil.
Conversei com ela com jeitinho, mas não adiantou.
A leda, você sabe, não fez questão de ficar.
Ela é esperta. A Núbia está naqueles dias mais favoráveis.
- Ela não tem o direito de se meter aqui em casa.
A leda é minha amiga e o quarto é meu.
Que droga, hein!
Breve pausa e perguntou:
- E o pai?
- Já está dormindo.
Heloísa expressou fisionomia triste ao dizer:
- Chegou com novidades.
- Foi demitido?! - adivinhou a filha.
- Foi - confirmou e envergou a boca demonstrando frustração.
- Não é possível - reclamou a filha.
A senhora contou para o Daniel?
- Não. Ele está longe.
Não vai adiantar ficar preocupado com o que nós passamos aqui.
Não há nada que ele possa resolver.
- E o pai, bebeu?
- Hoje não. Mas amanhã ou depois...
- Vou tomar um banho - decidiu Adriana.
- Vai jantar?
Quer que eu esquente comida?
- Não. Obrigada.
- Você está chegando muito tarde - a mãe reclamou.
- É só por esses dias.
Estamos empenhados em um projecto novo - mentiu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:26 pm

Por isso falou em tom baixo, sem olhar nos olhos de sua mãe.
Deixe tomar banho logo.
Heloísa ficou arrumando algumas coisas na cozinha.
Passado o tempo necessário ao banho, a filha retornou.
- Não vai querer comer nada mesmo?
- Não. Só vim tomar água - Adriana sentia-se ansiosa, mas não queria demonstrar.
Pegou um copo com água, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa.
Tentava manter uma aparência natural para disfarçar o nervosismo.
Como dizer a sua mãe que decidiu terminar um noivado cujo casamento estava marcado e tão perto?
Quando Heloísa ia sair da cozinha, a filha chamou:
- Mãe...
Ao vê-la retornar, pediu:
- Senta aí um pouquinho.
A mulher obedeceu e acomodou-se na cadeira a sua frente.
A moça bebeu um gole de água e enquanto girava o copo com a ponta dos dedos, disse:
- Mãe eu preciso falar com a senhora.
- O que foi? Algum problema?
- É que... Sabe mãe...
As coisas entre mim e o Nicolas não estão muito boas - disse olhando para o copo, sem encarar a mãe.
Diante da longa pausa, Heloísa franziu o semblante e inquiriu:
- E isso quer dizer o quê?
- Eu não sei.
Estou vendo muitas incompatibilidades.
Estou insegura, mãe.
- Adriana! O casamento está aí! - sussurrou, muito surpresa.
- Eu sei! É por isso que estou assim aflita! - respondeu no mesmo tom.
- Mas só agora, depois de tudo pronto, você viu isso?! - enervou-se.
- Ai, mãe... Não me censura.
Não deixe as coisas piores do que estão.
- Conversa resolve tudo.
Você e o Nicolas precisam conversar! Entenderem-se!
Não podem desmanchar o casamento nos pés do altar!
- Ai, mãe... Eu não sei!
O Nicolas está cada dia mais egoísta.
Quase não saímos mais porque ele quer economizar.
Fica regulando pagar até um sorvete!
Nem para passear no shopping me leva.
Diz que eu vou querer comprar alguma coisinha.
Se vou comprar, é com meu dinheiro!
A senhora viu quanta coisa usada ele levou para o nosso apartamento novo?!
Até o enxoval! Por favor, né!
Quando vi que ele aceitou aquelas toalhas de banho usadas da mãe dele!...
Isso para eu não comprar as novas que tinha visto!
A mãe ficou incrédula.
Somente olhava para a filha.
- Ele levou abridor de garrafas, espremedor de batatas e muitas outras coisinhas usadas pra lá.
Tapete... - a moça prosseguiu. - E sabe o que foi pior?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:27 pm

A mãe pendeu com a cabeça negativamente e a filha respondeu:
- Foi quando ele disse para mim que não quer ter filhos de jeito nenhum - olhou fixamente nos olhos da mãe.
A mulher respirou fundo e disse:
- Você sabia disso.
Não é novidade o Nicolas não querer filhos.
Também isso não é o fim do mundo.
Com o tempo, ele muda de ideia.
- E se não mudar?
- Adriana!... Você sabia!
- Mas no começo, quando ele falava disso, era de brincadeira, rindo.
Agora é diferente.
Perto dos outros, fala como se estivesse brincando, quando estamos sozinhos, é de outro jeito.
Por algumas vezes, vimos crianças dando aqueles shows e fazendo os pais passarem vergonha, sabe?
Ele riu e falou: por isso não quero filhos nem em sonho.
Eu nem levei a sério. Mas...
Quando a gente estava decorando o apartamento, falou que o outro quarto ele queria fazer um escritório.
Pensava em voltar a estudar, pois como não teríamos filhos, o ideal era isso.
Eu fiquei decepcionada. Frustrada!
E não paro de pensar nisso!
- E só ficou pensando?
Por que não conversou com ele?
- Não sei. Tentei dizer que eu gosto de crianças e que... mas foi aí que ele respondeu: nem vem!
Breve pausa e contou:
- Nos últimos tempos, começou beber pra mais e...
Ai, mãe!... Não sei...
- Pense bem, Adriana.
Não faça nenhuma loucura.
Você vai se casar e vai dar tudo certo.
Isso passa. É crise de noiva.
Não tinha reparado em nada disso antes, não é mesmo?
Ele também está nervoso com o casamento.
É comum. Ele vai melhorar.
- E se não melhorar? - não esperou pela resposta.
Sempre fiquei esperando melhorar.
Fiquei acreditando que iria ser diferente.
Ele melhorava um pouquinho, eu me enchia de esperança.
Daí, de repente, algo acontecia novamente e me frustrava.
Estou insegura, mãe!
- Essa insegurança vai passar.
Isso se resolve depois do casamento.
- Mãe, a senhora não está entendendo.
- Pense nos parentes, nos padrinhos, nos presentes entregues.
Pense no escândalo que vai ser!
Na vergonha que vai passar! - irritou-se.
- Estou com medo.
Mas preciso tomar uma decisão.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:27 pm

- Já conversou com ele?
- Não.
- Então nem pense em falar.
Isso é medo de assumir responsabilidade.
Afinal, querendo ou não, você estará se tornando independente.
Com encargos e deveres.
Vai se acostumar.
Não é nenhum bicho de sete cabeças.
- Não sei... - Adriana pensou em contar que estava apaixonada por Wagner, mas não ousou.
Ficou amedrontada.
- O que eu faço, mãe?
- Se ficarmos pensando, não casamos.
Isso vai passar.
Veja, hoje em dia, é difícil encontrar um rapaz que queira se casar e assumir responsabilidade.
Você deu sorte. Veja a leda.
Está sozinha. Nem namorado tem.
- Não me compare a ninguém, por favor.
- Não estou comparando. Só comentando.
Casamento está cada vez mais difícil.
Aceite o Nicolas como ele é.
- Mas, mãe!...
- Filha! E se você estiver errada?! - ficou zangada.
Queria que aceitasse sua opinião.
- Com o tempo, ele diz que se enganou e vai mudar de ideia, querer filhos.
Pense bem. Não está dando uma chance para o Nicolas.
Está faltando conversa entre vocês.
Fale sobre as coisas usadas que ele está levando.
Diz que tem dinheiro para comprar novas.
- Não é só isso.
Ele anda muito estúpido.
- Porque está nervoso!
Você não está dando uma oportunidade ao rapaz!
Se você tivesse visto tudo isso há um ano!
Mas só agora! Nas vésperas do casamento! - a mãe, bem nervosa, teceu longo discurso.
Adriana deu um suspiro e bebeu um pouco mais de água.
Sentiu-se dominada por uma contrariedade angustiante.
- Pense, filha!
Isso é loucura!
- Tudo bem, mãe.
Eu vou pensar - cedeu para que o assunto não se alongasse.
Levantou-se, colocou o copo na pia e foi se deitar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:27 pm

Capítulo 12 - Escolhas constroem caminhos

Assim que chegou ao seu apartamento, Wagner forçou um sorriso ao ver sua mãe, a irmã e a noiva.
Abraçou e cumprimentou todas.
Beijando levemente os lábios de Sabrina, que notou certa frieza e distanciamento.
Ifigénia, mãe do rapaz, sem perceber, não deixou que a atenção se focasse nisso, pois começou a contar situações engraçadas que ocorreram na chegada.
O filho, por sua vez, ofereceu-lhe toda a atenção para ficar longe de Sabrina.
- Quer dizer que não pararam.
Mal chegaram aqui, deixaram as coisas e foram bater pernas? - disse ele, rindo.
- Eu falei pra elas:
se vamos embora na sexta-feira à noite, precisamos aproveitar.
Algum tempo depois, Wagner tomou banho e foi para a sala.
A empolgação da chegada havia amainado.
Ele fazia de tudo para não estar a sós com Sabrina, que queria muito permanecer junto dele.
Ora pegava em seu braço e recostava em seu ombro, ora pegava em sua mão.
Entretanto, na primeira chance, ele se distanciava, não lhe dando atenção.
A moça percebia que havia algo estranho, mas não tinha como comentar.
Bem depois, Wagner foi para a pequena sacada do apartamento.
Não só em busca de ar.
Pretendia desacelerar os pensamentos que o torturavam.
Gostaria de estar com Adriana.
Não parava de pensar nela.
Não desejava que Sabrina estivesse ali.
Precisava acabar com o noivado e não sabia como.
O facto de terem um compromisso tão longo incomodava.
Porém, estava certo de que não sentia mais nada pela moça.
Chegar ali e ter de beijá-la nos lábios, mesmo que rapidamente, incomodou-o muito.
Não era essa a sua vontade.
De certa forma, sentia-se como se traísse Adriana.
Traindo seus próprios sentimentos e princípios.
O rapaz segurava firme, com ambas as mãos, a grade do peitoril e puxou o ar para os pulmões, soltando rapidamente.
Sabia que era um erro Sabrina ali.
Necessitava terminar tudo com ela, mas não naquele momento.
Não naqueles dias.
Seria muito melhor se estivessem na cidade onde ela morava.
Deveria ter sido mais enérgico para que não viessem.
Porém, como dizer não a sua mãe?
- Oi...
A voz de Sabrina soou doce ao seu lado, entretanto amargava, como um fel, seus sentimentos.
Como dizer que não gostaria de abraçá-la nem beijá-la?
Como justificar sua frieza?
Ela passou a mão fina em suas costas e isso o incomodou.
- Tudo bem com você? - perguntou, ao vê-lo muito calado.
- Tudo - respondeu com a voz grave e semblante sério.
Sem encará-la.
- Vi que comprou cortinas e tapetes - riu.
Desejava puxar algum assunto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:27 pm

- É comprei.
- Como estão as coisas na empresa?
- Tudo bem - respondeu com olhar distante para as luzes miúdas da cidade grande, que piscavam ao longe, sem se virar para ela em momento algum.
- Wagner, olha pra mim - pediu.
O rapaz respirou fundo, tomou postura, deixando somente uma mão no peitoril e a olhou sério com uma sombra de insatisfação no semblante.
- O que foi, amor? - perguntou com voz doce.
Por não haver resposta, ela o envolveu pela cintura.
Antes de recostar o rosto em seu peito, Wagner, com delicadeza, segurou as mãos que o abraçavam e afastou-se um pouco.
- Por que fez isso? - perguntou, ao sentir uma faca transpassando seu peito.
O que está acontecendo com você?
- Não sei se é comigo, Sabrina.
- Com quem então?!
- Fale baixo - ele murmurou, ao pedir.
- Quero saber! Eu exijo!
O que está acontecendo?!
- Eu não sei. Quer dizer... - titubeou.
Aquilo seria mais difícil do que imaginou.
No segundo seguinte, encorajou-se e disse:
- Estou diferente.
Pensando diferente e não sei explicar.
Os meus sentimentos por você não são mais os mesmos.
Faz algum tempo que precisava te dizer isso.
Por essa razão, eu não queria que viesse para São Paulo.
Gostaria de ter conversado com você lá - referiu-se à cidade de Peruíbe.
- Como assim?! - tremia e perguntava incrédula.
- Não dá mais... - olhou em seus olhos e falou brandamente.
- Você não pode fazer isso comigo!
- Você tem toda razão.
Não posso mais te enganar - foi firme.
- O sentimento que eu tinha acabou.
Não posso fazer nada.
Num impulso, a moça foi para a sala.
Ela chorava ao mesmo tempo em que balbuciava algumas palavras demonstrando sua contrariedade.
Ifigénia, em outro cómodo, escutou e foi ver o que era.
- O que está acontecendo aqui? - quis saber a mulher.
- O Wagner... Ele terminou comigo!... - revelou Sabrina, em pranto.
A mãe olhou para o filho, enquanto abraçava a jovem.
Insatisfeito, ele envergou a boca para baixo.
Após respirar fundo, disse:
- Eu não queria que vocês viessem pra cá por causa disso.
Eu ia terminar com ela, mas não aqui.
Não hoje. Mas não tive alternativa, né?!
- Energúmeno! Imbecil!
Então por que não esperou a gente voltar pra casa?! - interferiu a irmã, ofendendo-o.
- Cala a boca, Celine!
Você nem sabe o que está falando! - Wagner reclamou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:28 pm

- Você não podia ter feito isso comigo... - balbuciava Sabrina no abraço com Ifigénia.
Depois de tantos anos... - chorava.
Estamos noivos!
O casamento está marcado pro ano que vem...
- Eu não podia continuar te enganando!
Era isso o que queria?! - falou firme e nervoso.
- Pronto, idiota!
Acabou com nosso passeio! - exclamou Celine, falando de um jeito agressivo.
Gostou?! Tá bom agora?!
Era isso o que queria?!
- Pra começar nem queria vocês aqui.
Primeiro, porque você não tem freio nem educação.
Olhando-a, esbravejou:
- Você é uma criatura irresponsável e improdutiva, que leva a vida enchendo o saco dos outros.
Segundo, porque eu não queria criar esse clima com a Sabrina aqui.
Além disso...
- Calma, filho. Calma... - pediu Ifigénia mais ponderada.
Não diga coisas de que possa se arrepender.
Wagner suspirou fundo mais uma vez.
Virou as costas e foi para o quarto.
Não quis conversar com mais ninguém.
Contrariado, nervoso e irritado, não conseguiu dormir.
No começo da madrugada, mandou mensagem para Adriana, também insone, e decidiram se encontrar.
Aproveitando que todos dormiam, o rapaz se arrumou e saiu de seu apartamento sem que ninguém percebesse.
Passou na casa de Adriana e a pegou.
Conversaram e ele comentou:
- Então foi isso.
O clima ficou tenso.
Longa pausa e perguntou:
- Você conversou com sua mãe?
- Conversei. Falei tudo e... - contou.
Minha mãe não quer que eu termine.
Quer que eu converse com ele para acertarmos as coisas.
- E você? - indagou em tom preocupado.
- Disse que ia pensar, só para ela não esticar mais o assunto.
Eu não tenho muito o que conversar com ele.
Preciso fazer exactamente o que você fez.
Wagner a puxou para um abraço.
Envolveu-a com ternura e a beijou na testa.
Depois disse:
- Isso tudo vai passar.
E, quando passar, será só eu e você.
Então vamos pensar na nossa vida - sorriu generoso.
Em meio a um semblante de satisfação por estar com ela, planeou em tom de felicidade:
- Você quer ter uma casa nova com tudo novo?
Nós teremos! Quer ter filhos?
Nós teremos! Eu te adoro, Adriana... - declarou-se em tom romântico.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:28 pm

Olhando-a nos olhos, aproximou-se lentamente e murmurou ao roçar seus lábios com os dela:
- O que você quiser, nós teremos... - beijou-a com todo o carinho, abraçando-a com amor.
Pela primeira vez, em tantos anos de serviço naquela empresa, Wagner perdeu a hora e chegou atrasado.
Adriana também.
Ele não precisou se justificar.
Mas ela inventou uma desculpa qualquer por chegar depois do almoço.
Naquele dia, não se viram durante o curto expediente.
Só se encontraram para irem embora.
Era bem tarde, quando Adriana chegou à casa de leda.
- Oi! Tudo bem?
- Entra aí, Dri!
Estou arrumando umas coisas aqui...
- Você deveria estar lá em casa.
A Lisa não tinha o direito de te falar tudo aquilo.
- Tô de boa. Não esquenta.
Foram para o quarto da amiga e, sentando-se na cama, com as pernas cruzadas, Adriana comentou:
- Menina! Preciso falar com você! - cochichou.
- Fala aí!
- Sabe o Wagner?
- Sei.
- Aconteceu o seguinte...
Depois de actualizar a amiga sobre o que estava acontecendo, Adriana disse:
- Então é isso.
Eu decidi que quero terminar com o Nicolas.
leda ficou quieta.
Havia um toque de perplexidade em seu semblante.
Porém, não manifestou seu assombro.
Depois de uma pausa considerável, falou em tom ponderado:
- Não acha que deveria terminar primeiro com o Nicolas antes de dormir com o Wagner?
- Acho. Você tem razão.
E que a gente estava no apartamento dele e...
Tudo foi acontecendo tão...
Eu senti algo que nunca tinha sentido antes!
Eu adoro o Wagner!
É uma coisa muito forte!
Mais forte do que nós!
- Dri, você mal conhece o cara.
Toma cuidado. Nem sabe se ele está a fim de você mesmo.
- Ontem ele terminou o noivado.
Quer prova maior do que essa?
- Terminou?! Assim?!...
De repente?!
- Terminou. Assim. De repente.
- Uau! Não sei o que te dizer.
A amiga pensou um pouco.
Chegou a duvidar do Wagner.
Como é que Adriana poderia ter certeza sobre o que o rapaz tinha contado?
Talvez, não fosse apropriado colocar essa dúvida para a amiga.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:28 pm

Com jeitinho, disse:
- Sabe, não sou uma referência muito boa pra namoro...
- O que eu faço, leda?
- Ah! Pera!
Você chegou aqui toda decidida e pergunta o que fazer?
Dá um tempo!
Pelo visto não quer palpite.
Está querendo aprovação para o que fez.
Sou sua amiga.
Vou te apoiar, embora ache loucura fazer as coisas do jeito que está fazendo.
- Por que loucura, leda?
- Porque acho que deveria ser mais cautelosa.
Sabe, Dri, depois das enrascadas que me meti, decidi que tudo o que fosse fazer, em minha vida, deveria ser muito bem equilibrado e planeado.
Prefiro uma vida morna, monótona e sem graça a uma cheia de aventuras irresponsáveis que me dão dores de cabeça, atacam os nervos, fico deprê ou ansiosa.
Hoje, tô fora disso. Aprendi.
- Credo! Você tem vinte e quatro anos e fala como uma velha!
- Minhas experiências me amadureceram.
Lembra quando comecei a namorar aquele carinha assim que meus pais morreram?
A amiga pendeu positivamente com a cabeça.
- Vagabundo. Não queria trabalhar.
Eu ficava com pena dele por não arrumar emprego.
Dizia: coitado!...
Ele encostou aqui em casa e viveu às minhas custas.
Com jeitinho manhoso, dando uma de pobrezinho, acabou com os recursos que meus pais tinham deixado no banco.
Toda a poupança foi embora.
Ele trabalhava num bico aqui, outro ali...
Quando isso acontecia, eu ficava toda feliz! - ironizou.
Cheia de esperança.
Acreditava que a coisa estava andando.
Mas não. O sujeito pintou e bordou.
Com ele aprendi a beber e fumar.
Enchia a cara! Depois ficava de ressaca.
Perdi um ano na escola e um ano e meio da minha vida junto com esse sujeito.
Quando o dinheiro acabou, ele ficou meio que exigindo comer e beber melhor...
Na verdade, ele não exigia.
Fazia cara de coitado e dizia:
"bem que a gente podia ter uma caminha pra fazer churrasco...
Um dinheirinho para comprar uma cerveja..."
Fez uma expressão de insatisfação e concluiu:
- Foi difícil eu acordar e, mais difícil ainda, cortar as visitas do sujeito daqui.
Você lembra?
- Lembro.
- Quando nós estamos fazendo coisa errada, não enxergamos.
Só depois é que percebemos o quanto fomos idiotas e demos sorte para o azar.
Sua mãe até chegou a falar comigo, mas eu não liguei.
Depois que o cara foi embora, minha irmã começou a fazer o mesmo.
Trouxe um sujeito pra frequentar aqui.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:28 pm

Eu não podia falar nada, pois tinha feito o mesmo.
Então, comecei a trabalhar e voltei a estudar.
No serviço, conheci um cretino que se dizia apaixonado por mim. Casado.
Pai de dois filhos! - exclamou indignada.
Eu, idiota, acreditei que estava gostando dele.
Acreditei que ele tinha problemas em casa, que ia deixar a esposa, que ia abandonar os filhos...
Acreditei... Acreditei... Acreditei.
Não vi que eu estava me desvalorizando, me subjugando, perdendo o meu tempo e sendo usada.
Quando a gente não se valoriza e não se ama, faz caca, pra não dizer nome pior.
Quando não nos amamos só temos prejuízos.
E lá se foi mais um ano da minha vida!
Droga! Até que eu entendi que só poderia e deveria acreditar em mim.
Fiquei com tanto ódio de mim quando vi que me sujeitava a tantas aflições.
O preservativo furava e eu com medo de estar grávida, de contrair doenças...
Depois corria lá no Posto de Saúde e ficava torcendo para que os exames dessem negativos.
Minha vida era um inferno.
- Eu lembro.
- Lógico que lembra.
Quantas vezes fui chorar, no seu ombro, por tudo o que estava acontecendo.
Não admitia que eu fosse a errada.
Queria que o cara deixasse a mulher e os filhos para ficar comigo!
Que absurdo! Eu era tão fraca, coitada, infeliz que ficava correndo atrás de homem casado!
Queria que desse certo comigo, que ele me amasse e me respeitasse.
Não via que o infeliz não era capaz de amar e respeitar a esposa e os filhos, quanto mais uma amante!
Porque quem fica com homem casado não é namorada, é amante.
É a outra. Aí olhei no espelho e falei:
"Ei! Imbecil! Você mesma! Acorda!
Vê se se valoriza!
Se você não se valorizar, ninguém mais vai fazer isso."
- Lembro quando me contou isso.
- Quando desejei, quando quis de verdade, abandonei tudo!...
Parei de fumar, de beber e procurei o que era mais saudável.
Minha vida ficou mais leve.
Eu não tinha que me preocupar com tanta coisa.
Namorei, mas não foi nada sério, porque vi que o cara não era sério.
Passei a escolher melhor para construir novos caminhos.
Passei a ter carácter e princípios. Ser prudente.
Quando nós nos tratamos com carinho e respeito, ensinamos aos outros como devem nos tratar.
A verdade é essa.
Tudo o que vou fazer, hoje em dia, eu me pergunto:
é honesto, justo e correto?
- Sei...
- Então, Dri, hoje, eu não me entregaria assim como você fez.
Sei lá... O destino é certo, porém, muitas vezes, por impulsividade, estragamos a jornada.
- Você acha que estou estragando tudo?
- Não acho nada.
Sou sua amiga e o que é bom para mim pode não ser para você.
Eu penso que, no seu lugar, com a maturidade que tenho hoje, faria uma coisa de cada vez.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 09, 2017 12:29 pm

Teria certeza de que gosto do Wagner.
Teria certeza de que não quero ficar mais com o Nicolas e terminaria o noivado, desmarcando o casamento.
Só então começaria um relacionamento com o Wagner.
Mas... Sei lá.
Você é quem tem de escolher.
Se acha que está tudo certo do jeito que está...
Adriana ficou pensativa.
Na espiritualidade, Dione mentora de Adriana, conversava com Naum, mentor de leda:
- Agradeço a inspiração a sua protegida.
Se Adriana aceitar essas orientações, seus caminhos serão mais leves.
- Não me agradeça.
Você já me auxiliou muito também.
São as escolhas que constroem os caminhos que nos levam ao nosso destino.
Como mentores, podemos e devemos inspirar, vibrar, envolver, mas não interferir no livre-arbítrio, no poder de escolha.
Os encarnados precisam entender que é necessário pensar nas consequências de todos os actos.
Normalmente, a impulsividade nos leva a cometer erros.
Enquanto isso, as moças conversavam:
- leda, enquanto estou com ele tudo fica tão... - sorriu docemente, encantada com o que vivia.
Ai!... Eu não sei dizer.
Jogou--se para trás, deitando na cama.
- Nunca senti isso antes.
A amiga sorriu. Ficou feliz por ela.
- Estou torcendo para que você termine logo com o Nicolas.
- Nem me fala - tornou séria.
Em pensar no casamento, nos convidados, padrinhos...
Ai, meu Deus! Não sei por onde começar - ficou preocupada.
- Tem que começar pelo noivo!
Sem dúvida alguma - orientou firme.
- Sinto um frio na barriga.
Estou tão nervosa.
- Amiga! Vamos pensar!
Você não pode adiar isso por mais tempo! - falou firme.
- Eu sei. Nem quero adiar mais.
Quando estou com o Wagner, isso me incomoda tanto.
Não sou nenhuma sem-vergonha para andar com um sendo noiva de outro.
- Eu também não me achava sem-vergonha quando fui amante de homem casado.
Mas estava sendo.
Ora! Por favor, Dri!...
Termine logo com isso! - sussurrou.
Nesse instante, o celular de Adriana tocou.
Verificando o visor, disse:
- É minha mãe. - Atendeu: - Oi!
- Dri, está muito tarde! - reclamou Heloísa.
- Já vou. Estou indo.
- Não demora.
- Tá bom - desligou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 10, 2017 9:35 am

Virando-se para leda, pediu:
- Preciso te pedir uma coisa.
- Se estiver ao meu alcance...
- Posso dormir aqui?
Quer dizer... - riu.
- Ah... leda... Não consigo mentir pra você - falou com jeito mimado.
- Pera! Deixe ver se entendi:
você quer dizer pra sua mãe que vai dormir aqui, mas, na verdade, vai se encontrar com o Wagner?
Com jeitinho suplicante, sorrindo generosamente, falou com meiguice:
- Por favorzinho...
- Sabe que não vou te dizer não, né?
Mas acho que está dando sorte pro azar.
- Então vamos lá em casa comigo pegar minhas coisas.
Sua irmã não tá aí, né?
- Não. A Nuna não aparece desde ontem.
- Ela é fogo, hein!
- Dri, por que, em vez de sair com o Wagner, você não procura o Nicolas e resolve isso de uma vez?
- O Wagner vai viajar.
Precisa levar a mãe de volta.
Querem passar o aniversário dele lá em Peruíbe.
Terei o fim de semana todo para resolver isso com o Nicolas.
leda não gostou, mas não disse nada.
Foram até a casa de Adriana, que morava há dois quarteirões dali.
Pegaram o que era preciso e retornaram para a casa da amiga.
Adriana mandou mensagem para Wagner dizendo onde estava e, imediatamente, o rapaz se trocou e foi encontrá-la.
Parando o carro no lugar de costume, aguardou a jovem, que não demorou.
Entrou no veículo e se foram.
Era sexta-feira e o expediente já havia encerrado.
Wagner pediu para Adriana encontrá-lo no estacionamento, e ela o fez.
Envolvidos por sentimentos fortes, que não sabiam explicar, ao se virem dentro do carro, não resistiram e se beijaram.
Não se importaram se algum conhecido da empresa poderia vê-los.
Wagner fez-lhe um carinho na face e parou, perdendo o olhar em seu rosto delicado.
- Te adoro! Sabia? - murmurou com um toque amável na voz.
- Eu também - disse no mesmo tom.
O rapaz suspirou fundo e sorriu, dizendo:
- Vamos para um cantinho sossegado.
- Vamos - sorriu e concordou.
Pouco depois, deitados na cama de um motel, Wagner abraçava Adriana, que recostava em seu peito.
Ele fixava o olhar no tecto, observando, através do reflexo no espelho, a silhueta de sua amada que o envolvia com carinho.
Enquanto o silêncio dominou por longo tempo, o rapaz fazia delicados carinhos em círculos, com as pontas dos dedos, nas costas mal cobertas pelo lençol.
Estava adormecida e ele ficou olhando-a, contemplando sua face bela e delicada.
Sorrindo, por estar feliz com aquele instante, começou afagar-lhe os cabelos.
Depois tocou seu rosto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 10, 2017 9:35 am

Adriana deu um suspiro e abriu os olhos.
Por um instante, não sabia onde estava.
Em seguida, sorriu e o abraçou mais forte.
- Daqui a pouco precisamos ir.
Vou viajar ainda hoje - lembrou.
- É mesmo. Também preciso ir.
- Gostaria de te levar comigo.
- Quer dizer que vai passar seu aniversário longe de mim?
- Só desta vez - Wagner sorriu e fez-lhe um afago.
Na verdade, não quero ir.
Se não tivesse que levá-las, ficaria aqui.
- A sua mãe reclamou sobre você ter terminado o noivado com a Sabrina?
- Ela perguntou se eu estava certo do que queria.
Disse que sim.
Então quis saber se tinha outra pessoa.
Eu disse que sim.
Depois disso, não falou mais nada.
Um instante e comentou mais sério:
- Você precisa falar logo com o Nicolas.
Essa situação está me incomodando muito.
- Eu sei. Incomoda a mim também.
Amanhã à tarde vou terminar tudo.
Acabar com isso de uma vez.
Não será fácil. Com o casamento tão próximo...
Padrinhos, convidados, festa...
Quando penso em tudo isso, sinto um frio na barriga.
- Vai dar tudo certo, desde que você esteja segura do que quer e seja firme.
- Estou segura.
Quero ficar com você.
Wagner se aproximou, beijou-lhe os lábios e murmurou:
- Eu te amo.
- Eu te amo também.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 10, 2017 9:35 am

Capítulo 13 - Viagem interrompida

Wagner deixou Adriana na casa de sua amiga e foi para seu apartamento onde sua mãe, irmã e Sabrina esperavam.
O clima não estava nada bom.
A ex-noiva, com olhos inchados e nariz vermelho, ainda não conseguia deixar de chorar.
Vez e outra, lágrimas teimosas rolavam em sua face.
Celine, por sua vez, provocava o irmão com comentários e críticas desrespeitosas sobre ele ter estragado o passeio de todas.
Somente Ifigénia parecia controlada.
Embora tivesse o coração apertado, sem saber a razão.
As malas prontas foram deixadas no pequeno corredor.
O rapaz precisou se desviar delas para passar.
- Nossa, filho! Você chegou tarde.
Pensei que fôssemos viajar mais cedo.
- Oi, mãe - beijou-a no rosto e nada disse.
Wagner trazia nas mãos duas sacolas de papelão com a estampa de lojas de shopping.
- HuummmL. Ganhou presentes pelo aniversário amanhã, foi? - Celine perguntou em tom de deboche.
- É. Ganhei.
- De quem? - tornou a irmã em tom irónico e de modo indiscreto.
- Lá na empresa.
- Aí tem dois presentes.
Um da empresa e o outro de quem?
Da outra? Já arranjou outra?! - riu com deboche.
Sabrina começou a chorar e foi para um dos quartos.
O rapaz, nitidamente irritado, suspirou fundo e nada respondeu.
- Celine! Por favor! - Ifigénia repreendeu.
Virando-se para o filho, propôs.
- Toma um banho.
Eu fiz um lanche e suco.
Seria bom você comer antes de pegarmos a estrada.
- Não, obrigado.
Não quero comer nada.
- Não tá vendo, mãe?!
Ele já tomou banho e comeu no motel!
Tava com a outra, né?!
Num gesto súbito, completamente inesperado, que surpreendeu até a si mesmo, Wagner segurou Celine pelo braço e a chacoalhou forte, dizendo com os dentes cerrados e voz grave:
- Cale a sua boca ou eu!...
- Me solta! Qual é?!
Deu pra bater em mulher?!
O irmão a soltou com um empurrão e Celine não parou de reclamar.
- Parem com isso vocês dois!
Ifigénia gritou e foi até a filha.
Acção rara de se ver: foi enérgica.
Segurando-a pelo braço, foi firme:
- Cale a boca Celine! Você pediu isso!
- Vai ficar do lado dele agora, é?! - exclamou de um jeito agressivo e irritante pela voz estridente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 10, 2017 9:35 am

- Se você der mais um pio, quem vai bater em você sou eu! - tornou a mãe.
Wagner andou de um lado para outro.
Parou, voltou-se para a mãe e falou em tom nervoso:
- Por favor, vamos embora logo.
Só vou me trocar.
Arrume tudo o que é de vocês e vamos levar logo lá pro carro.
Assim foi feito.
No carro, Celine ocupou o banco atrás do irmão.
Ifigénia sentou-se na frente, ao lado do filho, que dirigia, e Sabrina sentou-se atrás da senhora.
Durante boa parte da viagem, o silêncio foi fúnebre.
Após descerem a Serra do Mar, pegaram uma rodovia em linha recta sentido ao litoral sul do estado de São Paulo.
O tilintar do celular de Celine anunciou a chegada de uma mensagem.
A jovem olhou e passou a mexer no aparelho.
- Se for sua irmã, responda que estamos chegando - disse Ifigénia, sem olhar para trás.
- É ela mesma.
Como adivinhou?
Sem esperar por uma resposta, comentou:
- Eu disse que estamos passando por Itanhaém - referiu-se a uma cidade próxima.
Alguns instantes e Celine riu ao contar:
- A Wanda não acreditou que o Wagner terminou o noivado! - gargalhou.
Havia mandado um texto dizendo para a irmã o que havia acontecido.
- Quer parar com isso, Celine!!! - Wagner deu um grito, enquanto dirigia.
- Paro se quiser!
Você não manda em mim!
Você faz besteira e não quer que os outros fiquem sabendo, é?!
Sabrina, sentindo-se ofendida e humilhada, reagiu:
- Que você é insensível, isso não resta a menor dúvida, Wagner!
- O que você queria, Sabrina?!
Ser enganada?! Traída?!
Isso estaria bom para você?! - indagou o rapaz, inconformado com aquela situação.
- Traída ela foi.
Ou você não chegaria como chegou hoje - tornou a irmã provocante.
- Celine, pare com isso! - olhou-a pelo retrovisor e exigiu.
- Com cara de motel! Tá bom?!
Foi assim que chegou no apartamento hoje e ontem.
Nem pra dar um tempo só por estarmos lá - respondeu agressiva e empurrou o banco, em que o irmão sentava, com os joelhos para incomodá-lo.
- Vamos parar com isso?! - exigiu Ifigénia.
- Sabe, mãe, faltaram umas boas palmadas pra essa menina, viu?
Ainda está em tempo!
- Ah! É?! E quem é que vai se atrever a me dar essas palmadas?! Você?!
A discussão começou dentro do carro.
Espíritos inferiores, agitados, que os acompanhavam desde o apartamento, instigavam a briga.
Em determinado momento, Celine, gritando e gesticulando, bateu na cabeça de seu irmão com o aparelho celular que estava em sua mão.
Mal puderam ouvir o cantar de pneus e grande estrondo.
Em seguida, outro veículo se chocou atrás do carro de Wagner, pressionando-o mais ainda na carroceria de uma carreta.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 10, 2017 9:36 am

Ifigénia sentiu-se jogada longe e rolou no asfalto.
Ficou muito tonta e, por um momento, sentiu dores por todo o corpo.
Sua visão ficou turva e muito diferente.
Com dificuldade, levantou-se vagarosamente, e murmurou:
- Meu Deus... Me ajude...
Sentiu-se envolvida com o amparo de mãos invisíveis.
Cambaleando, caminhou lentamente para junto do carro ou do que sobrou dele.
- Meu Deus! Meus filhos!
Onde estão meus filhos?! - perguntou assustada.
Junto às ferragens, viu Celine remexendo-se e balbuciando algo que ela não conseguia entender.
- Filha! Minha filha! - exclamou a mulher em desespero, tocando a face da moça.
- Mãe... Mamãe...
- Calma, meu amor.
Você vai ficar bem. Calma - pediu chorosa e preocupada, enquanto acariciava a testa de Celine e segurava sua mão.
- Mãe... Me ajuda, mãe!
Me ajuda! Me tira daqui!... - chorava a jovem em desespero.
Não consigo sair. Estou presa!
- Calma, minha filha.
A ajuda já está vindo.
Sem poder se mexer, Celine erguia olhar suplicante para sua mãe que nada podia fazer para ajudá-la.
Ifigénia, em pranto silencioso, olhou ao redor à procura do filho.
Estava bem escuro na rodovia.
Outros veículos começaram a parar e ofereciam a luz dos faróis que clareava um pouco mais o local.
Com dificuldade, ela pôde ver Wagner imóvel, inconsciente e coberto de sangue.
- Meu Deus! Meu filho!
Ajudem meu filho! - implorava Ifigénia para as poucas pessoas que se aproximavam.
Tentou tocá-lo, mas seu braço não alcançava o rapaz.
- Por favor! - gritava em desespero.
Ajudem meus filhos!
As pessoas pegavam seus celulares e ligavam para o serviço de emergência.
Era tudo o que podiam fazer.
Ela voltou até Celine e pediu:
- Calma, filha. Fique calma, viu? - chorava.
Vai chegar ajuda.
Tocou novamente na face da jovem, enxugando suas lágrimas.
- Mãe... Não me deixe sozinha.
Não se afaste de mim...
- Calma. Estou aqui.
Não vou te deixar.
Ifigénia olhou para o lado e viu Sabrina também imóvel e coberta de sangue.
Tentou alcançá-la e tocá-la com a mão, mas não conseguia por causa das ferragens.
O carro estava retorcido.
As pessoas que se aproximavam não conseguiam ver Wagner sob o amontoado de ferro, socado debaixo da carroceria de uma carreta, e Ifigénia percebeu isso.
As luzes e sirenes dos carros da polícia foram percebidas, causando um pouco de alívio ao seu coração aflito.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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