Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Página 8 de 14 Anterior  1 ... 5 ... 7, 8, 9 ... 14  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 9:22 am

Será necessário fazer a curetagem.
Sabia disso?
- O médico me disse. Estou com medo.
- O arrependimento é o primeiro passo para um novo começo.
Tristes daqueles que ainda não se arrependeram do que fizeram contra a natureza, pois estão longe do caminho de refazimento e harmonização.
- Eu sei que você entende muito sobre espiritismo...
O que me diz sobre o aborto?
- Nenhuma religião ou filosofia digna é a favor do aborto.
Ele sempre traz consequências tristes.
Mas eu acredito que toda a desarmonia que causamos, podemos, imediatamente, começar a harmonizar.
- Neste caso, como?
- O arrependimento sincero já é um começo.
Quando o experimenta verdadeiramente e deseja, de coração, consertar o que desajustou, tudo conspira para que se refaça e harmonize a situação.
- É muita dor.
Estou vivendo um momento medonho...
Sombrio - calou-se.
Se a sombra que vivemos é grande, devemos ter certeza de que a luz que a projecta é maior.
Todos nós temos a própria luz.
Adriana ignorava isso.
leda acreditou que aquele não seria um bom momento para falarem sobre aquele assunto.
A amiga precisava se refazer, por isso pediu:
- Tome os remédios. Está na hora.
Observou a outra a obedecer automaticamente e perguntou:
- Você consegue levantar ou quer que eu te traga o café aqui?
- Consigo levantar.
- Então, venha - e a amparou para que se levantasse.
Adriana foi ao banheiro e depois para a cozinha.
- Bom dia, filha.
Você está melhor?
- Bom dia, mãe. Estou bem.
- Trouxe pão quentinho.
Tinha essas broas de milho.
Comprei porque sei que você gosta.
Heloísa serviu café com leite na xícara da filha.
Tratava-a com carinho e bondade.
Percebeu sua fragilidade e abatimento.
Não imaginava a realidade por trás de tudo aquilo.
Daniel chegou à cozinha, cumprimentou a irmã e perguntou:
- Melhorou?
Ela respondeu com um aceno de cabeça.
Seus olhos ficaram marejados e não quis falar para não chorar mais.
Estava muito sensível.
- Calma, filha. Isso acontece.
Deus sabe o que faz - disse a mãe tocando-lhe a mão que estava sobre a mesa.
Adriana não resistiu e chorou.
Daniel e leda se entreolharam.
Sabiam o real motivo do choro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 9:22 am

Jaime entrou na cozinha.
Ele já sabia, por sua esposa, o que tinha acontecido.
Inesperadamente, o homem, que sempre foi rude, curvou-se e beijou a filha na testa e afagou-lhe as costas.
Adriana, num impulso, abraçou-o pela cintura e recostou o rosto em seu peito.
Sem palavras, o pai a acarinhou, depositando, naquele gesto, toda a generosidade que nunca havia expressado.
A filha chorou mais ainda.
Momentos depois, o pai, com voz rouca e grave, aconselhou:
- Toma o café que sua mãe fez pra você.
Precisa ficar forte.
Vendo-a afastar-se do abraço, o homem se sentou ao seu lado.
- Isso acontece. Mas...
Onde está o Nicolas?
Ele não deveria participar disso também?
Heloísa se remexeu e também quis saber:
- É mesmo. E ele?
Para não ver a irmã submetida a interrogatório, naquele momento, Daniel comentou:
- Ontem eu discuti com o Nicolas.
Acho que ele não gostou.
Chegamos lá e a Adriana não estava passando bem.
Achei que deveria ir ao médico, mas ele achou que não precisava porque já tinham ido.
Então discutimos.
Decidi pegar a Dri e levá-la ao hospital.
Fiz isso e não falei mais com ele.
- Fez muito bem! - exclamou o pai.
Se tá doente tem que ir no médico logo.
Mesmo que já tenha ido.
Se não melhorou, tem que voltar.
Mas ele deveria tá aqui com você.
- O Nicolas deve ter ficado triste com a perda do bebé.
Coitado - Heloísa disse.
- Não. Ele não ficou triste.
Podem ter certeza disso - respondeu Adriana sem encará-los.
- Está acontecendo alguma coisa, filha? - perguntou o pai.
- Está... - chorou.
Está sim. Mas agora não é um bom momento para falar nisso.
Eu preciso de um tempo.
Sentado à mesa a sua frente, o irmão lembrou:
- Você precisa ir ao médico o quanto antes.
Sabe disso.
- Sei. Mas hoje é sábado.
- Não encontramos qualquer cartão de plano de saúde em meio aos seus documentos.
Você tem algum plano? - tornou ele, mesmo sabendo que não.
- Não - respondeu constrangida.
leda, que ouvia tudo calada, sugeriu:
- Seria bom ir a um médico particular para agilizar a consulta, exames ou qualquer procedimento.
Hospital público demora muito.
- O que ainda precisa ser feito? - Heloísa quis saber.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 9:22 am

- Procedimento de limpeza do útero, feito em casos como o dela - respondeu a amiga.
Um bom médico ginecologista tem condições de realizar esse procedimento no próprio consultório.
- Vou dar um jeito.
Ainda tenho dinheiro guardado e... - Adriana disse desanimada.
- Eu te arrumo dinheiro.
Não se preocupe com isso - afirmou Daniel.
Só não conheço nenhum médico bom.
Não entendo disso.
- Eu conheço um óptimo médico.
Podemos ligar para ele na segunda-feira - propôs leda.
- Não é um procedimento que precisa ser urgente? - Heloísa indagou.
- Não tão urgente.
Mas precisa ser feito logo.
Foi isso o que o clínico geral disse - respondeu o rapaz.
- Filha, come a broa de milho - ofereceu a mãe.
- Não. Obrigada.
Não estou conseguindo comer.
- Então, toma um pouco mais de café com leite - sugeriu o pai.
- Não. Obrigada - respondeu, levantando-se.
Ajeitou o roupão e seguiu em direcção ao quarto.
Preocupada e sem dizer nada, leda a seguiu.
Aproveitando-se da ausência da filha, Jaime comentou:
- Não sei não.
Essa história num tá me cheirando bem.
Pro Nicolas não tá aqui, é porque não tá se importando com ela.
- Vai ver tiveram alguma briguinha - suspeitou a mulher.
- Brigar depois de quinze dias do casamento!
Se brigaram, essa briga foi mais feia do que imaginamos.
Pra ele não tá aqui com ela nem se importando... - tornou o senhor.
Depois pensou e quis saber:
- Então, pra perder o nené ela casou grávida. Não casou?
- Não! Acho que não - defendeu Heloísa.
- De quanto tempo ela tava? - tornou Jaime.
Ambos olharam para Daniel que se sentiu na obrigação de responder e justificou:
- Eu não sei de nada!
Só fiquei sabendo da gravidez ontem.
Breve pausa e contou:
- Mas pude perceber que ela e o Nicolas não estão se entendendo direito.
O filho tomou o último gole de café que restava na xícara e se levantou.
Não gostaria de ouvir qualquer outra especulação sobre o ocorrido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 9:23 am

Capítulo 19 - Wagner encontrando sua mãe

Wagner não conseguia entender a leveza que sentiu ao abrir os olhos e observar a tranquilidade existente a sua volta.
Havia uma calma impressionante.
A claridade perfeita não agredia sua visão.
Percebeu um vaso com flores brancas, pareciam ser rosas, sobre um móvel da mesma cor.
Pôde ouvir passos suaves e compassados vindos a sua direcção.
De imediato, não conseguiu reconhecer, mas, com a aproximação, teve certeza.
O rapaz alargou o sorriso e sentiu uma alegria indescritível.
- Vovó... Vovó Maria... - balbuciou.
Experimentou estranheza na voz, assim como na visão.
Tudo era diferente.
- Meu querido! Despertou enfim!
Wagner foi envolvido por uma emoção que não saberia descrever.
Precisou se controlar ou choraria.
Remexeu-se e teve um pouco de dificuldade para se sentar.
- Vovó, a senhora aqui? - estendeu-lhe as mãos.
- Quem você gostaria de ver? - sorriu e o abraçou de forma maternal.
Beijou-lhe a testa e apertou-o contra si por alguns instantes.
O rapaz, escondendo o rosto no abraço, chorou escondido.
- Quanto tempo, meu querido...
Eu desejaria que pudesse me perceber.
Afastando-se um pouco e recompondo as emoções, o rapaz disse, após organizar as ideias:
- Mas... vó!...
A senhora!... A senhora já morreu!
- A morte não existe, Wagner. Deixa disso.
- Então eu morri também! - deduziu.
A senhora sorriu ao responder:
- Ainda não.
- Eu sofri um acidente.
Lembro que estava indo para casa...
Minha mãe, a Celine e a Sabrina estavam comigo no carro.
Disso eu lembro.
Eu e minha irmã discutíamos...
Tudo fica confuso, mas ainda lembro de ver alguma coisa, a traseira de uma carreta.
Eu acho... E um barulho, a batida...
Vó! Eu morri!
- Não, menino!
Como disse, ainda não!
- E minha mãe? - perguntou, experimentando medo.
- Está melhor do que você.
Sem dúvida - riu.
Ela já veio te visitar.
- Além de mim, alguém se machucou?
- A Celine se feriu um pouco, mas já está em casa.
A Sabrina ficou revoltada com o acidente.
Pobre menina...
- Ela se feriu muito? - ele quis saber.
- Sabrina e sua mãe não sofreram nada.
Mas reagiram de modo muito diferente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 13, 2017 9:23 am

Sabe o que é, meu filho - contava com delicadeza -, o conhecimento, a moral e boas práticas dizem muito quando uma coisa assim acontece.
Sabrina era uma moça que vivia de ilusões.
Era imatura e achava que vivia encarnada a passeio - sorriu.
Demorou alguns instantes para Wagner organizar os pensamentos e perguntar.
- Vivia encarnada?!
Como assim vó?!
- Vivia. Agora vive, mas só que em outro plano.
Assim como eu - sorriu de modo sereno.
- A Sabrina morreu?!
- Não. Ela fez a passagem.
Desencarnou. Deixou de viver encarnada.
Mas está vivinha da silva!
O rapaz sentiu-se mal e a senhora sabia disso.
- Ora, menino!
Deixe disso! - falou mais séria.
- Eu matei a Sabrina...
- Não. Não matou a Sabrina nem sua mãe.
Elas continuam vivendo - disse firme, com todas as letras, e o observou.
Wagner ergueu o olhar e balbuciou:
- Minha mãe? Ela?... Não vó!
Não é possível... Onde está minha mãe?
- Nesse momento recebe instruções.
Ela está óptima! - sorriu.
Estou orgulhosa de minha filha.
No instante do desencarne, Ifigénia só pensou em ajudar você, sua irmã e a Sabrina, que ela não sabia que havia desencarnado.
Você tinha que ver! - falou animada e de um jeito engraçado.
Ela se levantou e correu para ajudá-los.
Foi graças a isso que o encontraram e a sua situação não ficou pior.
Se tivessem demorado em te socorrer...
Sua vontade, seu amor por você e sua irmã foram tão intensos que Ifigénia pôde ser vista e avisar os bombeiros onde encontrá-lo.
Só depois percebeu que tinha desencarnado.
Assim que chegou aqui, estava óptima!
Aí correu para o meu abraço...
Melhor ainda... Deixou-se socorrer.
Olha, ela se adaptou bem e, como vocês dizem, ficou numa boa! - riu.
- Mas, vovó, se estou aqui...
Então eu também morri!
- Não. Você está em coma e há bastante tempo.
Foi trazido para cá, um hospital espiritual, para se recuperar melhor e mais rápido.
É como quando se está dormindo.
Deixa-se o corpo e vai para junto de tudo o que o atrai ou para onde se quiser, quando se tem domínio.
É parecido com o estado de sono.
Não pode se demorar muito por aqui.
Precisa acordar logo.
Seu corpo de carne necessita despertar o quanto antes para não ficar com sequelas comprometedoras.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:36 am

- Porque vim para cá?
- Por merecimento.
Inconformada, a Sabrina, agora espírito, ficou por muito tempo ao seu lado no leito do hospital.
O que ela dizia perturbava sua consciência.
Por isso o trouxemos.
Daí que, quando a mãe dela o visitou no hospital terreno, Sabrina a seguiu e foi para a casa dos pais.
- Por que alguém não diz que ela morreu e a traz para cá junto com minha mãe e a senhora?
- Não é assim que funciona, meu querido.
A Sabrina não eleva os pensamentos.
Crê em Deus da boca pra fora.
Achava que ir à igreja, rezar o terço eram suficientes.
Sabe, no silêncio, pensando tudo o que é bom e justo, tudo o que é saudável e honesto, estamos mais ligados a Deus do que quando fazemos preces repetitivas, de palavras ao vento.
Um momento e contou:
- A Sabrina, pobre moça, foi socorrida, mas perdeu o controle. Desesperou-se.
Não atendia as solicitações dos socorristas.
Acabou vendo o corpo que pertenceu a ela.
Queria acordá-lo.
Xingava e ofendia os socorristas encarnados.
É... como chama mesmo?
Pensou: - Bombeiros! Sim!
Os anjos terrenos, como alguns são chamados.
Os abençoados bombeiros.
Daí, ela viu você e o seguiu para o hospital.
Ficou dias lá te importunando. Acusando.
Então, depois, seguiu a mãe e foi para a casa dos pais.
- Como ela está?
- Trancada no próprio quarto.
- Como? - ele não entendeu.
- Uma pessoa da família foi ao quarto que pertenceu a ela e Sabrina a seguiu.
A pessoa saiu do quarto e ela ficou presa lá.
Acredita que precisa usar a porta, mexer a maçaneta para a porta abrir, o que nunca vai conseguir.
Está se sentindo fraca, pois ainda acha que necessita da alimentação terrena.
Experimenta sofrimento físico, por causa dos machucados do acidente.
- Mas, vó!
Alguém precisa ir lá falar com ela!
- Pensa que Sabrina é o único caso assim?
Quanto engano, Wagner! Amparo ela tem.
Seu mentor está diuturnamente ao seu lado, embora ela não o veja.
Isso acontece por causa de sua revolta.
Ódio, raiva, contrariedade, por maldizer sobre as pessoas, sobre as experiências de vida...
Ela vai ver seu mentor e sair dessa condição somente quando cansar de sofrer e se recolher em prece verdadeira, ser humilde, pedir socorro e se lembrar de Deus.
Nem você nem ninguém vai conseguir ajudá-la.
O mentor dela já tem esse encargo.
- E minha mãe? Gostaria de vê-la.
- Vai ver. Ela não vai demorar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:36 am

- Vó, eu desmanchei o noivado com a Sabrina.
A senhora deve saber.
Nós discutíamos dentro do carro.
Acho que foi por isso que o acidente aconteceu.
Eu fui imprudente e... - disse triste.
- Não, filho.
Aconteceu porque tinha de acontecer.
Embora sua irmã tenha toda a parcela de responsabilidade.
- A Celine?!
- Sim. Ela tirou sua atenção da direcção e diminuiu os seus reflexos quando bateu em sua cabeça, como se te desse um tapa, com o celular na mão.
Não se lembra?
- Sim... Agora estou lembrando...
- A Celine é quem precisa assumir a responsabilidade de seus actos.
Você só dirigia.
- De certa forma, vou viver com a culpa de minha mãe e a Sabrina terem morrido quando eu dirigia.
- Você vai conseguir trabalhar isso em sua consciência.
Aconteceu o que precisava acontecer.
Se houve culpados, foi quem deixou a carreta mal estacionada e sem sinalização e sua irmã pelos desejos cultivados há séculos.
O rapaz não prestou atenção ao que ela disse no final e perguntou:
- Estou em estado de coma há muito tempo?
A senhora riu e comentou:
- O tempo é algo muito relativo.
Não se preocupe com ele.
Porém, não precisa fazer hora por aqui - riu e ele achou graça.
Você tem muito ainda o que fazer.
- E a Adriana?! - lembrou-se num sobressalto.
Vó, eu conheci uma moça e...
Foi por ela que terminei meu noivado.
Estou preocupado com ela, vó!
- A Adriana cometeu um deslize bem sério ao anular uma existência confiada aos seus cuidados.
Isso vai colocar em prova sua alma, sua vontade e seu empenho.
Lamentações não resolvem problemas.
Precisamos de acções.
Deus é bom e, muitas vezes, nós nos surpreendemos quando Sua bondade nos oferece a oportunidade de prosseguir.
Você vai ficar triste com a Adriana.
- Eu? Ficar triste com ela? - riu e duvidou.
- Vai. Vai sim.
Mas será uma das pessoas capazes de ajudá-la e perdoar-lhe.
- Perdoar à Adriana?
Como assim?
- Vai saber.
Mas, em meio a isso, receberá uma bênção - sorriu bem alegre.
- Não estou entendendo nada, vó.
Do que a senhora está falando?
- De sua filha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:36 am

- Filha?! - sorriu incrédulo.
- Sim. Sua filha sobreviveu.
Existe muito empenho para que ela prossiga.
- Que filha, vó? - riu novamente.
- Vocês teriam um lindo casal de filhos.
Mas...
O menino não poderá vir, não junto com a menininha, nesse momento.
- Ei, vó!
Do que a senhora está falando? - sorriu sem entender.
- A Adriana está grávida!
Wagner ficou sério.
A sombra de uma preocupação pairou em seu rosto de fisionomia agradável.
- Mas é que... - tentou dizer algo.
Não conseguiu formular a frase.
Logo lembrou:
- Ela ia se casar, vó.
- E se casou.
- Como se casou?!!! - reagiu.
- E por isso que você precisa voltar logo.
Não fique fazendo hora por aqui, menino!
- Não! Não! Não, vó! Espere.
A Adriana não pode ter se casado.
Ela ia terminar tudo.
Ela terminou o noivado, não foi?
- Sua ausência e as circunstâncias enfrentadas com o noivo a deixaram insegura com a gravidez.
Sem coragem de assumir tudo sozinha, decidiu se casar, mesmo sabendo estar grávida de você.
- Ela sabe que os filhos são meus? - ficou sério por um instante.
Estou confuso.
Nem sei o que perguntar - franziu o rosto e passou a mão pela testa.
- Quer saber se ela tem certeza de que ficou grávida de você?
Sim. Isso ela tem.
Mas, por covardia, cometeu sérios enganos.
E você precisa ajudá-la.
Afinal, ela não foi irresponsável sozinha.
- Como vou poder ajudar, se agora ela está casada?! - enervou-se.
- Não sei.
Isso é você quem vai ter de descobrir.
Mas para isso precisa acordar.
- Estou ficando ansioso, vó!
Preocupado demais!
- Óptimo! - sorriu animada.
Um pouco de adrenalina naquele seu corpo estropiado vai ajudar! - gargalhou com gosto.
Wagner a olhou por um tempo e disse em tom de reclamação:
- Olha vó, a senhora não era assim.
- Aprendi muito, meu filho.
Aprendi que: a vida deve ser mais leve, mais suave e com muita responsabilidade.
- E é possível viver com responsabilidade e leveza?
- Mas é lógico que é!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:37 am

Sabe aquela frase do Mestre Jesus em que diz:
"Seja o seu falar sim, sim. Não, não".
- Sei.
- É isso. Precisamos ter conhecimento e ter posicionamento.
Quando temos conhecimento, sabemos o que é bom, útil e necessário para a nossa evolução.
Então, só resta dizer: sim ou não.
A dúvida, a ignorância e a falta de posicionamento, a falta de uma opinião firme, geralmente, nos metem em encrencas.
A aproximação de alguém chamou a atenção de ambos.
Sorrindo, Ifigénia chegou ao lado do filho com os braços já estendidos para um terno abraço.
- Mãe... - murmurou o rapaz.
- Meu filho... - envolveu-o com carinho.
Ficaram assim por longo tempo.
A emoção foi inevitável.
Ela se afastou um pouco, mas continuou acariciando o rosto do rapaz algumas vezes.
- Mãe, a vó me contou que a senhora...
- Não morri não - falou emocionada.
Estou aqui. Não está vendo?
- Mas não pode voltar para casa - expressou-se com um toque de tristeza e emotividade.
- Estou aprendendo que preciso viver de uma forma diferente agora.
Poderei visitá-los, sabia? - sorriu.
- Eu fui culpado.
Estava dirigindo e... - sentiu um peso de culpa misto à grande dor.
- Não, Wagner! Você não teve culpa.
Iria acontecer, filho.
Havia chegado a minha hora.
Se não fosse ali, naquele carro, seria em outro.
Mas, de certo, aconteceria por aqueles dias.
- Como vou viver com isso, mãe?
- Tudo vai ficar claro para você.
Um dia, vai.
Precisa se espiritualizar mais, meu filho.
- A senhora está falando igual à Hilda.
- São os chamados.
Hilda é uma criatura muito boa.
Foi uma mãe muito prestimosa para você e suas irmãs.
É uma pessoa querida que soube me perdoar.
- Do que a senhora está falando?
- Que ela tem toda a razão.
Hilda já foi sua mãe no passado.
E você precisa dar mais atenção ao seu lado religioso.
Ninguém é completo quando não investe em si.
Em todos os sentidos.
Ela poderá te ajudar a encontrar um caminho nesse sentido, principalmente agora.
Você e sua irmã precisam de espiritualização.
- Estou confuso.
A vó me disse que a Adriana está grávida e que se casou!
- Estou sabendo.
Mas você, seguindo um caminho de rectidão, será guiado para fazer o melhor.
- Eu sempre segui um caminho recto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:37 am

- Enchendo a cara como fez algumas vezes em seu apartamento? - perguntou a avó sem trégua.
Ora, meu filho!
Pensava que não estava fazendo mal a ninguém, né?!
Mas já estava fazendo mal ao corpo que lhe foi emprestado por Deus!
- Olha, vó... Veja bem...
- Filho - tornou Ifigénia -, eu não tenho muito tempo aqui.
Preciso ir. Cuide de você.
Sempre que possível, oriente sua irmã.
Não somos criaturas perfeitas, mas encarnamos para sermos melhores do que já somos, pois isso nos trará paz e não existe nada melhor do que ter paz.
Beijou-lhe a testa e disse:
- Agora preciso ir. Cuide-se.
- Mãe... - Wagner se emocionou.
Mãe... Me desculpa... Me perdoa, mãe...
- Do quê? - indagou emocionada e sorrindo.
- De tudo... - lágrimas correram em seu rosto.
Ifigénia tornou a beijá-lo na testa e a abraçá-lo.
Em seguida, despediu-se:
- Não há o que te desculpar.
Um dia, saberá a razão de ter sido assim.
Fica com Deus, meu filho.
Afastou-se lentamente e se foi.
Olhando para a senhora, Wagner perguntou:
- E agora, vó?
- Agora vê se volta e acorda.
Não tem mais nada a fazer aqui.
Seu mentor está te esperando lá.
- Como?
- Não está com sono?
- Estou.
- É seu corpo chamando.
Quem sabe, vai retornar do coma.
Precisa desejar isso.
Precisa voltar logo.
Ela o envolveu com um abraço e o rapaz se entregou a um sono irresistível.
Nem ouviu a prece sentida da avó.
No mesmo instante, no hospital onde Wagner estava internado, uma enfermeira prestava seus cuidados e conversava com ele.
- Agora vamos te barbear.
Vai ficar com uma aparência bem melhor.
Quando sua família chegar, vão dizer:
Nossa! Como ele está bonito hoje! - arremedava uma voz diferente, parecendo imitar outra pessoa.
Após alguns minutos, disse:
- Prontinho. Está ficando bem melhor.
Vamos pentear esse cabelo ou o que sobrou dele desse lado.
Que aliás, está precisando de um corte.
Está torto. Mas não tem problema.
Falou como se sussurrasse:
- Eu tirei os espelhos daqui para não ver - riu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:37 am

Ajeitou-o na cama e arrumou o lençol que o cobria, colocando o braço do rapaz em posição que acreditava ser mais confortável.
Está precisando fazer academia, hein!
Vejam estes músculos - admirou-se.
Precisam ser tonificados. Não acha?
- Falando sozinha, Sónia?
- Bom dia, Alice! - cumprimentou a outra com jeito alegre.
- Não. Não estou falando sozinha.
Estou dizendo ao Wagner que ele precisa fazer academia.
Os braços estão perdendo o tónus muscular.
- Ela tem razão, Wagner.
Trate de se levantar logo daí e se cuidar - disse a outra enfermeira em tom igualmente alegre.
Um rapaz bonito e jovem, como você, precisa viver a vida!
Onde já se viu ficar trancafiado em um quarto como este?
Virando-se para a amiga, indagou:
- Perguntou a família de qual música ele mais gosta?
- Perguntei. A irmã disse que ia ver e trazer para colocarmos um pouquinho pra ele ouvir.
- Tem de ser o que ele gosta e, mesmo assim, bem pouquinho.
Vai que ele não aprecia e fica irritado.
- Verdade. Aí ele levanta só para dar bronca na gente - tornou Sónia em tom alegre.
Voltando-se para a amiga, comentou em tom mais ameno:
- É um moço tão bonito, não é?
- É sim. Tem a idade do meu filho - respondeu Alice.
- Foi um acidente muito grave.
A irmã contou que a mãe e a noiva dele morreram.
E ainda mais gente do outro carro.
- Sónia, você ainda sente aquele perfume neste quarto?
- Sinto. Ele recebe visitas espirituais tão boas...
Seu semblante fica mais sereno.
Eu gosto de ficar aqui nessas horas - sorriu.
Sinto uma coisa tão boa.
- Você chega a ver, Sónia? - a amiga quis saber.
- Não. Sinto que tem amigos e parentes dele aqui.
Sabe que, outro dia, a irmã mais velha esteve aqui e também sentiu o perfume.
Perguntou se era meu - riu.
- Eu sinto um bem-estar muito grande quando estou aqui.
Tem alguns pacientes que a gente quer sair de perto correndo. Dele não.
- Prontinho! - riu.
Agora você está de banho tomado, com roupa toda limpa e alimentado.
Tá certo que esta sonda aí não deixa sentir o gosto de nada.
Mas, - sussurrou de um jeito engraçado - à noite te trago uma pizza sem que ninguém saiba.
Viu? - sorriu e o afagou com carinho.
- Tchau, Wagner! - disse Alice.
Até daqui a pouco, meu querido.
Eu volto pra ver se você se comportou bem.
As enfermeiras se foram.
Elas não sabiam que o rapaz pôde ouvir toda a conversa.
Tentou se mexer, mas não conseguiu.
Não demorou e caiu, novamente, em sono.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:37 am

Não se lembraria daquilo quando acordasse.
Longe dali, Hilda recebia Lídia em sua casa.
Sentadas no sofá da sala, a amiga perguntou:
- Precisei vir aqui para saber como você está.
Não atende ao telefone nem responde aos meus recados.
- Desculpe-me. Não estou em meus melhores dias.
- E quando é que vai estar?
Não houve resposta e Lídia propôs:
- Vamos sair, ir ao shopping, tomar um café?...
- Não me sinto bem para isso.
Tudo o que vou fazer ou tudo o que vejo me faz lembrar o ocorrido.
Não estou com ânimo para nada.
- Entendo. Sei muito bem como é.
Se vai assistir a um filme, tem cenas de traição.
Se vai ver uma novela, tem uma trama de amiga que traiu a outra com o marido ou namorado.
Se vai para a internet, encontra postagens com sátiras sobre traição...
É tudo sem qualquer intuito benéfico ou que levante seu moral.
Tudo na gente dói.
- Você usou a palavra certa.
Dor. Tudo dói.
Ver uma cena sedutora me mostra o quanto não sou mais jovem e bonita.
Ouvir certos assuntos sobre pessoas que não são confiáveis, me agride.
Um filme, uma novela, um comercial me entristecem quando vejo cenas ou enredos de traição ou falando de mulher fácil.
- Sei como é. Sei muito bem.
- Então fico triste, desanimada e acreditando que poderá acontecer novamente.
Fico sentindo uma coisa...
- Sente uma expectativa, esperando pegá-lo novamente em um ato ou suspeita de traição.
- Sim, Lídia. Você sabe como é.
Isso tudo me deixa aflita, ansiosa e, ao mesmo tempo, sem vontade, sem ânimo.
- E como estão as coisas entre vocês dois?
- Tem hora que eu não aguento e acabo jogando na cara do Agenor tudo o que ele fez.
- E ele?
- Na maioria das vezes, não diz nada e sai de perto.
Em outros momentos, reage.
Quando eu faço isso, acabo me arrependendo - Hilda confessou.
- Você se arrepende porque se magoou.
Quando faz isso, quando joga na cara dele o que ele fez de errado, você se fere, se maltrata.
À medida que parar de acusá-lo, vai se sentir melhor.
Breve pausa e disse:
- Hilda tudo isso foi uma lição aprendida.
Você, assim como eu, foi traída pela pessoa em quem mais confiava na vida: seu marido.
Aliás, por duas pessoas em quem confiava: o marido e a amiga.
Entenderá, aos poucos, que quem não teve valor foi ele e não você.
Estará mais esperta e se, acontecer novamente, vai pegar, vai saber.
Não será mais enganada por ele nem por ninguém.
- Não vou aceitar isso novamente.
Eu me separo dele.
Já está sendo difícil desta vez, o que dirá uma segunda!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:38 am

Minha auto-estima acabou...
Como acha que me sinto?
- Sei exactamente como se sente.
Mas te digo, amiga, se você se valorizar, se admirar, se tratar bem, der importância a você, não ficará esperando reconhecimento nem valorização de mais ninguém.
Esperar valorização de outra pessoa é ser submissa e dependente.
Olhe para você, Hilda!
Uma mulher que sempre foi guerreira!
Trabalhou, construiu uma casa, criou filhos e formou todos!
- E fui traída... - murmurou.
- Foi porque o Agenor foi um fraco e incompetente, assim como o meu marido.
O Márcio se renovou, mostrou-se capaz de me proporcionar uma vida melhor e mais segura ao seu lado, em todos os sentidos.
O Agenor vai ter que fazer algo semelhante para te provar o mesmo.
Ele vai ter de se empenhar para que sejam felizes e tudo isso não passe de uma experiência amarga, difícil, mas possível de ser superada com dedicação de amor da parte dele e perdão da sua.
Você precisa ser mais forte e se reerguer.
Sair desse estado de autocomiseração, que é o mesmo que dizer:
"coitada de mim!
Sempre trabalhei, fui boa mulher, boa mãe, mas meu marido não me valorizou e me traiu" - arremedou com voz engraçada.
Pare com isso!
Você é uma mulher forte, lutadora e sabe disso.
Se nunca se reconheceu assim, este é o momento.
Levante a cabeça porque não foi você quem errou.
Reerga-se e comece a ajeitar as coisas pelo mais próximo.
Comece por você!
Vamos lá fazer essas unhas, dar um corte nos seus cabelos, comprar uma roupa nova...
Você nunca foi de se descuidar, por que vai fazer isso agora?
Hilda ergueu o olhar e deu um sorriso fraco.
Sem muito ânimo, perguntou:
- Será que consigo um horário no salão agora?
Lídia sorriu largamente, pegou o celular e avisou:
- Já estou ligando para o Paulinho! - exclamou animada.
Ao terminar a ligação, disse:
- Vamos agora! Ele teve uma desistência.
Vamos aproveitar.
A amiga se levantou e falou:
- Só vou pegar minha bolsa.
Passar aquela tarde em um salão de beleza foi muito bom para Hilda.
Ela conseguiu se distrair e rir um pouco.
Esqueceu-se, mesmo que por pouco tempo, do sofrimento causado pela traição.
Embora em seus olhos figurassem o tom do brilho da dor que maltratava as mais íntimas fibras do seu ser.
Depois, as amigas passaram em um shopping.
Compraram roupa e comeram alguma coisa enquanto conversaram sobre outros assuntos.
À noite, Hilda voltou para casa.
Estava com nova aparência.
Cabelos curtos, com cor e luzes que realçavam um brilho e uma imagem impecável.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:38 am

Novo delineado nas sobrancelhas realçou seu rosto e deu luz aos seus olhos verdes que ficaram ainda mais bonitos com a sombra na mesma cor, mas em tons diferentes.
Os lábios finos, que desenhavam um perfeito coração, realçaram com a cor de um batom diferente.
Fátima foi visitá-la e se surpreendeu.
Embora a mãe fosse uma mulher madura, muito bonita, naquele dia estava ainda mais bela.
- Nossa! A senhora está bonita! - exclamou a filha, admirada.
Esse corte ficou óptimo!
A sobrancelha então!...
- A Lídia me levou ao cabeleireiro dela.
Você precisa conhecer o espaço.
É excelente! Dei tanta sorte.
Ela ligou e alguém desmarcou os horários e peguei todos! - riu.
Fiz cabelo, sobrancelhas, unhas das mãos e descobri uma podóloga sensacional.
Fiz o tratamento tradicional com reflexologia.
- Nossa!
- Reflexologia faz você ficar nas nuvens!
É uma delícia! - riu de um jeito engraçado.
É uma massagem óptima.
Saí de lá totalmente nova.
Adorei. Vou voltar lá sempre.
- Não vai mais na Sílvia?
- Ah... - fez um jeito engraçado. - Talvez...
Abrindo uma sacola, mostrou:
- Olha o que comprei no shopping.
- Que saia linda!
- E combina com essa blusa.
- Linda também - a filha gostou.
- Devem ficar óptimas com aqueles sapatos marrom. Sabe?
- Vai mesmo.
A moça sorriu.
Expressando generosidade no olhar, falou em tom brando:
- Estou gostando de te ver assim, mãe.
- Assim como? - indagou, como se não tivesse entendido.
- Assim... Assim... - riu e expressou-se com as mãos para ela.
Cuidando de você.
- Acha que não me cuidava?
- Sempre. Sempre te vi bonita e bem arrumada.
Até porque sua profissão exigia.
Mas hoje está diferente.
Não se arrumou toda para o trabalho.
Comprou roupas, mas não para ir pro serviço.
Fez isso para se sentir bem.
- Eu nem deveria ter gastado.
- Não é gasto, mãe. É investimento.
Investimento na sua auto-estima, no seu amor próprio.
E a senhora merece isso. Olha pra você!
É uma mulher bonita, inteligente, delicada, sensata, discreta...
Sabe se comportar, se arrumar, se vestir, falar...
No meio disso tudo, cuidou da gente... - Fátima se emocionou e sua voz embargou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:38 am

Hilda, ao seu lado, abraçou-a com ternura.
- Oh, filha... Obrigada.
Eu precisava ouvir isso.
Afastando-se do abraço, ainda disse:
- Sempre me senti um tanto culpada por ter de trabalhar e não poder ficar cuidando de vocês como queria.
- A senhora fez o melhor.
Nunca me senti sem mãe - riu.
Ia a todas as reuniões de pais no colégio.
Arrumava todas as nossas coisas.
Sempre encontrei roupas lavadas e passadas em minhas gavetas.
Sabe que, às vezes, tenho medo de não dar conta como a senhora fez e não conseguir ser uma mãe assim?
- Não diga isso.
Somos tão parecidas.
- Acha mesmo?
- Acho sim - Hilda sorriu.
Abraçaram-se novamente.
Em seguida, Fátima perguntou:
- E o Wagner?
Teve notícias dele?
A mãe olhou no relógio e disse:
- Daqui a pouco vou ligar para a Wanda.
Até onde eu soube, ele está no mesmo estado.
Saiu do CTI e está no quarto.
Estou pensando em ir pra lá amanhã.
- Sozinha?
- Quer ir comigo? - convidou esperançosa.
- Não. Não posso.
- Então vou sozinha.
- O pai não quer ir?
- Ele não gosta.
Foi comigo ao enterro da Ifigénia quase obrigado.
- A senhora não se incomoda por deixá-lo aqui, depois de tudo?
- Ele estará trabalhando e não vai poder ir.
Além disso, não posso me condenar a vigiá-lo.
Vou ficar neurótica e doente, se fizer isso.
Não podemos controlar ninguém.
Até porque, não vamos conseguir fazer isso e não vamos ter paz.
O Agenor, agora mais do que nunca, sabe que errou.
Eu espero que não repita o erro.
Já disse a ele que não vou dar outra chance.
Se acontecer novamente, vou descobrir e não vou querê-lo mais ao meu lado.
Isso ficou bem claro.
- Sabe, mãe, depois disso tudo que aconteceu, eu fiquei meio neurótica.
Fico imaginando que o César vai fazer o mesmo e...
O pai era um homem acima de qualquer suspeita! Como pôde?!
- Estamos aqui encarnados para trabalharmos as nossas imperfeições.
Todos nós, sem excepção, temos nosso lado fraco.
Uns trapaceiam, outros matam, existem os que querem levar vantagem em tudo, os que traem, aqueles que se inclinam a práticas sexuais de baixa moral...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:38 am

Cada um tem sua imperfeição e está encarnado para educá-la.
Normalmente, não sabemos qual é até fazermos besteira.
Muito provavelmente, seu pai não sabia qual era a imperfeição até não resistir à tentação e sair com outra mulher.
- Que era sua amiga! - falou em tom desapontado.
Frequentava nossa casa.
- Ela também não resistiu à tentação.
Traiu o marido e a amiga.
Agora eles terão de trabalhar isso neles mesmos.
Terão de resistir às próximas tentações.
Essa experiência foi uma prova e eles se reprovaram.
O tempo vai trazer outras provas, com toda a certeza.
Faço votos de que o seu pai se aprove no novo teste, na experiência que vai surgir.
Porque vai surgir.
Esse erro cometido abalou nosso casamento e magoou nossa família.
Ele sabe que provocou muita dor em nós.
O traidor nunca é feliz com o que fez e, geralmente, demora muito para se harmonizar com a própria consciência.
Ele nunca vai se orgulhar disso.
- Judas!
- O quê?
- Judas, aquele que traiu Jesus.
- Ele deve ter tido tanto arrependimento, não é filha?
- É.
- Com certeza.
Toda traição traz desestrutura e dor.
Então, vamos ter cuidado para não sermos nós aquele que trai e erra.
Vamos cuidar da nossa imperfeição e deixar que o outro cuide da dele.
- A senhora está tranquila com relação ao pai?
- Estou tranquila comigo.
Vou me empenhar para cuidar mais de mim e das minhas obrigações.
Ficar pronta para que, se alguém mais me trair, eu possa prosseguir sozinha.
Quando eu morrer, é de mim que terei de prestar contas a Deus.
É sobre meus actos e minhas acções e não dos outros.
Sempre dei o melhor de mim e tenho consciência limpa. Isso basta.
Por isso filha, te digo: cuide de você, dos seus deveres, do seu marido.
Viva com tranquilidade.
Seja honesta com sua consciência.
Não faça nada que possa se arrepender depois.
Pense, medite sobre atitudes impulsivas.
Não queira viver controlando o seu marido, porque não vai conseguir.
Mas, se algo acontecer, esteja pronta para decidir sobre o melhor para você.
Como a Lídia me disse:
sua felicidade não pode depender dos outros.
Para viver bem é preciso ser feliz consigo mesmo.
Não deixe sua felicidade e sua harmonia nas mãos dos outros.
Fátima sorriu e a abraçou.
Conversaram por mais algum tempo e a filha se foi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:38 am

Capítulo 20 - Uma nova vida

Adriana acordou, mas não estava com a menor vontade de sair da cama.
A semana passou e não foi à consulta médica agendada pela amiga que teve de remarcá-la.
Embora desejasse ficar em casa, precisava ir ao médico.
Já havia adiado demais.
Os medicamentos indicados acabaram e não saberia dizer se estava bem sem eles.
As vezes, pensava que não. Desejava que não.
Era como se quisesse ser punida pelo aborto que fez.
Foi com muito sacrifício que saiu da cama.
Sentia-se fraca e tonta.
leda, sua mãe e seu irmão tinham ido trabalhar.
Talvez, seu pai estivesse dormindo.
Não saberia dizer.
Na geladeira, viu um bilhete enorme.
Alguém pregou com fita adesiva uma folha bem grande com os seguintes dizeres escritos em letras garrafais:
"Você tem "médico às 11h".
Sobre a mesa um cheque em branco assinado por seu irmão.
Combinaram que ele pagaria a consulta.
Pegou a garrafa térmica e balançou certificando-se de que havia café.
Desvirou a xícara emborcada no pires, encheu de café e tomou um gole.
Estava quase frio e horrível.
Mordeu um biscoito que também não pareceu bom: mole e velho.
Sentiu-se enjoada. Nada era bom.
Levantou e decidiu tomar um banho.
Afinal, daquele dia não poderia passar.
Precisava ir à consulta médica.
Seu coração apertou nesse momento.
Como encarar o médico e contar que fez um aborto?
Como dizer que foi capaz de matar um filho?
O arrependimento é o pior fantasma.
Ele nos assombra e fere sem que o vejamos.
Se pudesse voltar atrás.
Se pudesse, por um só segundo, fazer o tempo voltar...
Abriria mão da própria vida, se fosse preciso, para deixar seu filho viver.
Enfrentaria o Nicolas, a família e tudo o que pudesse vir.
Somente naquele momento algumas coisas ficaram bem claras.
Como é que muitas mulheres podem ser a favor do aborto e dizer que são donas de seus corpos?
Só podemos nos considerar donos do que levamos connosco após a morte do corpo: a consciência.
Por isso devemos estar em paz com ela.
Não somos donos de nosso corpo.
Ele nos foi emprestado por Deus para que experimentássemos a vida e pudéssemos evoluir.
Evolução é Lei Divina.
Buscamos evoluir porque evoluir traz felicidade.
É impossível viver estagnado e feliz.
Se não era dona de seu corpo, como poderia ser dona daquele que estava se formando dentro de si?
Era em tudo isso que Adriana pensava, enquanto tomava banho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:39 am

Lembrou-se de Nicolas.
Covarde por tudo o que a obrigou a fazer.
Muito provavelmente, foi por medo de seu irmão que ele não deu sinal de vida.
Nem quis saber se ela estava bem.
Iria pedir o divórcio.
Isso era certo.
Procurou uma roupa das que leda, usando a chave que estava em sua bolsa, pegou em seu apartamento, um dia em que Nicolas se encontrava no trabalho.
Sentiu-se tonta, novamente, e quase caiu.
Sentou-se na cama.
Com dificuldade, vestiu a roupa.
Achou que a tontura era por não ter comido direito.
Aliás, não se alimentou bem nos últimos dias.
Estava totalmente inapetente.
Foi até a cozinha, novamente, para tentar comer alguma coisa.
Não deveria sair em jejum.
Nada que havia sobre a mesa chamava sua atenção.
Lembrou-se de que, no dia anterior, sua mãe tinha feito arroz doce polvilhado com canela. Ela adorava.
Abriu a geladeira, pegou um pote com o doce, tirou algumas colheradas que pôs em um pires e esquentou no micro-ondas.
A boca encheu de água, enquanto esperava aquecer e ficava olhando o pratinho girar no aparelho.
Comeu algumas colheradas e isso a fez se sentir bem melhor.
Certamente seu mal-estar era fome.
Escovou os dentes e olhou no relógio.
Precisava ir. Chegar cedo ao consultório seria ideal.
Algum tempo depois, Adriana estava angustiada, enquanto aguardava na sala de espera.
Ela acreditava que seria um exame de rotina e, qualquer procedimento, agendado para outro dia.
Não tinha a menor ideia de como ia ser.
Seu nome foi chamado e entrou na sala do médico.
Era um senhor de meia idade.
Sério, com os óculos na ponta do nariz.
Lia os dados em sua ficha.
- Bom dia dona, Adriana.
- Bom dia, doutor.
- Em que posso ajudá-la?
- Eu...
Um sentimento forte tomou conta de suas palavras.
Não suportou e chorou.
Mesmo com lágrimas correndo pelo rosto e voz trémula, entrecortada pela emoção, contou:
- Tenho vinte e quatro anos.
Fiquei grávida e...
Não era do meu noivo.
Ele ficou sabendo dias antes do nosso casamento.
Nós nos casamos mesmo assim e... - não conseguia falar.
- A senhora pensa em fazer um aborto? É isso?
Ela não respondeu e o médico, em tom brando, informou:
- Dona Adriana, não sou o profissional nem a pessoa indicada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:39 am

Não sinto muito em lhe dizer isso, pois eu não realizo esse procedimento.
Até hoje, com mais de trinta anos de profissão, eu nunca tive uma paciente feliz por ter feito um aborto, longe daqui, claro.
- E eu sou mais uma - disse chorando.
Fiz um aborto e estou arrependida.
O médico suspirou fundo e perguntou:
- Há quanto tempo?
- Quase dez dias, hoje. Não passei bem.
Tive febre e hemorragia forte.
Fui atendida em um hospital público.
Tomei estes medicamentos - colocou as bulas sobre a mesa.
O médico olhou e perguntou:
- Sente dores?
Tem algum sangramento?
- Sinto dores e muita tontura. Sangramento não.
Estou angustiada, doutor. Arrependida.
Agora sei que preciso fazer uma limpeza no útero.
- Uma curetagem. Sim. Precisa.
Mas, a princípio, vamos fazer uma ultra-sonografia.
Vou chamar minha assistente e ela vai prepará-la na outra sala.
O homem pegou o telefone e chamou a enfermeira, que não demorou a aparecer.
Adriana, deitada em uma maca, permanecia tensa, enquanto realizava o exame de imagem.
A enfermeira, assistente do médico, era uma mulher simpática, de sorriso agradável que ficava a seu lado o tempo inteiro.
E o médico permanecia muito calado.
O exame parecia demorar demais.
Ela acreditava. Até que o doutor pediu:
- Olhe ali, no monitor, dona Adriana.
Ela se virou e ele apontou, indicando com o cursor na tela do computador:
- A senhora está vendo aqui?
- - Sim.
- Isso é um leve batimento cardíaco de uma vida que tem cerca de sete semanas.
- Eu... Não estou entendendo...
- A senhora teve um aborto sim, mas por serem gémeos de placentas separadas... - sorriu.
Um ainda está aqui.
E, pelo visto, a gestação evolui bem.
Lágrimas correram pelos cantos dos olhos de Adriana que perdeu a fala e sorriu em meio ao choro silencioso.
Ficou muito emocionada e verdadeiramente feliz.
- A Cíntia vai ajudá-la a se levantar.
Vamos conversar na outra sala.
Após o médico sair, Adriana não conseguia tirar o sorriso do rosto e parar as lágrimas de alegria dos olhos.
- Pelo visto, a senhora está feliz.
- Estou. Estou muito feliz.
É como se Deus tivesse me dado uma chance.
Novamente, frente à mesa do médico, secando os olhos com um lencinho, Adriana sorriu, perguntando ainda incrédula:
- Isso é possível, doutor?
- Claro. Não muito raro em caso de aborto entre gémeos que não dividem a mesma placenta com aborto espontâneo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 14, 2017 11:39 am

Porém, mais raro em caso de aborto provocado por perfuração.
- Estou feliz por saber que estou grávida, mas isso não diminui, nem um pouco, meu sentimento de culpa.
Doutor, eu quero esse filho com todas as forças do meu coração.
- Óptimo! - sorriu.
- E os remédios que tomei?
Isso pode prejudicar esse bebé?
O médico olhou novamente as bulas e falou com tranquilidade:
- Não vamos nos preocupar com isso agora.
- Certo. Entendo - dizia com uma ponta de preocupação.
- Vai fazer o pré-natal aqui comigo?
- Vou sim senhor.
- Óptimo! Fico feliz em saber disso, pois vamos começá-lo desde já.
Vamos preparar um pré-natal bem equilibrado.
A senhora está disposta a isso, não é?
- Claro! Por favor, me ajude.
Eu quero muito esse filho!
Ele é muito importante para mim.
- Excelente! Vou pedir alguns exames laboratoriais.
Como obstetra, vou te passar essa lista nutricional para uma alimentação balanceada.
Não use entorpecentes. Não fume.
Não ingira bebida alcoólica.
Bebida alcoólica não resolve problema e cigarro não acalma. São vícios.
Não use medicamento sem me consultar ou avisar o médico ou o odontologista que está grávida.
E me traga esses exames o quanto antes.
As dores que diz sentir, se não são fortes, vamos considerar normais, devido ao procedimento abortivo realizado.
Se houver hemorragia, hospital com urgência e me telefone.
Ficará com todos os meus contactos.
Pode me ligar a qualquer hora.
- Certo.
- Alguma dúvida?
- No momento, só a surpresa - riu.
- Quero que faça anotações de todas as dúvidas, por mais que pareçam bobas e me traga na próxima consulta.
- Doutor, eu vou me divorciar.
Acredito que será um período stressante.
O senhor tem alguma recomendação?
- stresse sempre faz mal à mãe e ao filho.
Se o divórcio vai acontecer de qualquer jeito, deixe acontecer sem se stressar.
Se quer seu filho com saúde, pense nele e ignore problemas.
- Certo. Entendi - riu.
Estou tão feliz!
- Parabéns! Que venha uma criança que a complete e realize.
- Obrigada, doutor. Muito obrigada.
Conversaram por mais algum tempo.
Depois, Adriana se foi.
Ela saiu do consultório feliz e atordoada.
Não sabia o que fazer.
Em alguns momentos, não acreditava no que estava acontecendo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 10:21 am

Lembrou-se de Wagner.
O que ele diria, se soubesse?
Um dia, ele havia dito que a faria feliz e teriam quantos filhos ela quisesse.
Seus pensamentos ficaram mais saudáveis com a nova realidade.
Sem dúvida, ainda lamentava sua atitude egoísta.
Estava triste pela vida que tirou.
Contudo, aquela era uma nova chance.
Uma oportunidade ímpar para reverter o erro cometido.
Ao chegar à casa de seus pais, não cabia em si de tamanha felicidade.
Sentiu-se tonta, mas agora sabia o que era.
Ao entrar, encontrou seu pai mexendo na cozinha.
- Ah!... É você?
- Oi, pai.
- Oi. Eu até esqueci que vinha pra casa.
Tô esquentando almoço. Você quer?
- Sim. Vou comer um pouquinho - foi para o banheiro se lavar.
Depois voltou.
Preparou um prato que aqueceu no micro-ondas.
Sentou-se frente a seu pai e perguntou:
- Como foi o dia?
- Arrumei emprego.
Acabei de saber - sorriu.
- Parabéns, pai!
Que bom! Onde?
- Lá perto da Avenida Guilherme Cotching.
É de porteiro de um edifício chique.
Vou ter que usar uniforme e tudo.
É de uma empresa contratada.
- Que bom, pai. Estou feliz.
Alguns instantes e falou:
- O senhor é um homem educado, gentil.
Vai ficar bastante tempo nesse emprego, ou até se aposentar nele, se for o senhor mesmo.
Sem a bebida.
Ele abaixou a cabeça e não disse nada.
A filha ainda falou com jeitinho:
- Eu gostaria muito de ter orgulho do senhor.
Silêncio.
Uma onda de alegria invadiu os sentimentos de Adriana.
Desejaria dividir com alguém a notícia sobre a gravidez e pensou em contar para seu pai.
Mas como explicar que o filho que esperava não era de seu marido?
No mesmo instante, aquela sensação de felicidade se transformou em ansiedade.
Precisaria contar para todos.
Aquilo não era algo para esconder por muito tempo.
"Estou grávida de sete semanas!
Quase dois meses!" - pensou e sorriu.
Lembrou-se de Wagner, de seu sorriso, de seus planos, da sua voz grave e bonita.
Tinha de ter notícias dele.
- "Será que ele ainda está em coma? Será que não..." - não ousou dar asas à imaginação.
Não quis pensar no pior.
Sabia que, se ele estivesse bem, já teria lhe telefonado.
Terminaram a refeição em silêncio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 10:21 am

À noite, quando Adriana ouviu um barulho que denunciou a chegada de Daniel e sua mãe, correu para vê-los.
- Oi, filha! Fiquei preocupada com você.
Tentei ligar, mas meu celular acabou a bateria.
- Oi, mãe. Estou bem.
- Como foi lá no médico? - o irmão perguntou.
- Eu dei seu cheque.
Anotei o valor e deixei lá em cima da cómoda.
- E o que ele disse? - tornou o rapaz.
- Que estou bem.
Preciso fazer alguns exames laboratoriais e retornar.
- Fiquei preocupada com você, filha.
E se precisasse realizar algum procedimento que necessitasse de acompanhante?
Só hoje pensei nisso.
- Deu tudo certo, mãe.
- Vou tomar um banho - decidiu Daniel, sem dar mais atenção ao assunto.
- Eu fiz o jantar.
Não sei se ficou bom - a moça avisou.
- Nem preciso ver. Sei que ficou óptimo.
Só de me poupar deste trabalho...
Um instante e Heloísa disse:
- Eu não queria deixá-la chateada.
Sei que está triste por causa do bebé, mas a gente precisa saber. E o Nicolas?
- Sei dele tanto quanto a senhora.
Ele não me ligou nem me procurou.
- Vocês não estão se dando bem, não é? - fez uma feição insatisfeita.
- Não. Nada bem.
Estou decidida a me divorciar dele.
- Não, filha! Espere um pouco!
Vocês não têm nem um mês de casados!
Isso não pode acontecer! Você deveria...
- Espera, mãe! Por favor!
- Vocês precisam conversar!
Não é assim que se resolvem as coisas! - a mulher pareceu inconformada.
Lembrando-se da recomendação do médico, Adriana procurou não se exaltar.
Ia responder, mas controlou a impulsividade.
Respirou fundo e disse em tom tranquilo:
- Depois do jantar a gente conversa, mãe.
Agora não estou me sentindo bem para falar sobre isso.
Heloísa, com expressão preocupada, não disse mais nada.
Só acompanhou com o olhar a filha indo para o quarto.
Aproveitando que seu irmão estava no banho, Adriana mandou mensagem para a amiga:
"Acabei de chegar. Vem aqui você.
Como foi no médico? Está bem?"
"Estou. Preciso de você aqui, agora!
Veeeem, vai!!!"
"Vem aqui você, Dri."
Não demorou muito e estavam no quarto conversando.
A presença de Daniel inibiu um pouco o assunto, mas, assim que ele saiu, leda perguntou:
- E lá? Como foi?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 10:21 am

- Você não imagina! - sussurrou.
Ninguém imagina - sorriu.
- Está me deixando preocupada - leda sorriu e ficou na expectativa.
- Tenho orado muito.
Pedido a Deus perdão pela minha falha, pelo meu crime.
Pedi um jeito de reparar o que fiz e você não imagina!
Um instante e disse menos empolgada:
- Lógico que preciso fazer muito mais para reparar, mas...
- Ai! Por favor, conta logo! - pediu aflita e falando baixinho.
- Estou grávida.
leda ficou séria, pareceu petrificada.
Após um momento, perguntou:
- Tem certeza?
- Tenho. Fiz uma ultra-sonografia e nela apareceu leve batimento cardíaco de sete semanas.
O rosto de leda se iluminou com um lindo sorriso e seus olhos ficaram marejados.
Pegando as mãos de Adriana, quis saber:
- Então não houve aborto?
- Infelizmente sim. Houve.
Mas eram gémeos em placentas diferentes.
Quando um foi tirado, o outro não foi visto e permaneceu intacto.
- Ai, meu Deus! - abraçou-se à amiga.
Choraram de alegria e Adriana, com voz abafada pelo abraço, disse:
- Não imagina como estou feliz.
Apesar de metade de mim, chorar.
Acredito que Deus me deu uma chance para eu começar a reverter meu erro.
- Sim. Creio que sim, amiga.
Afastaram-se e Adriana, secando os olhos, comentou:
- Agora preciso contar tudo para minha família.
- Sim. É o certo a fazer.
E eu vou estar junto dando a maior força! - sorriu.
- Obrigada. Sabia que poderia contar com você.
É por isso que te chamei.
Gostaria que ficasse ao meu lado.
- E o Nicolas?
- Simplesmente vou pedir o divórcio.
Não quero que ele saiba da gravidez antes disso.
- Concordo. E o Wagner?
- Estou com medo de ter notícias ruins ou de ele não me querer mais.
Afinal de contas, eu me casei com outro.
Traí nosso compromisso e nossas promessas.
E tirei um filho dele.
- Mas está esperando outro.
Ele precisa saber de toda a verdade.
Não podemos viver de mentirinhas ou de meias verdades.
Você vai ser forte e contar tudo.
Pense em uma coisa de cada vez.
Primeiro, conte a novidade para sua família e peça segredo.
Depois, pense no divórcio.
E, depois, no Wagner.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 10:22 am

- É verdade.
Você tem razão. Como sempre - sorriu docemente, enquanto a encarava.
Uma coisa de cada vez.
As amigas se abraçaram com carinho e ficaram mais algum tempo conversando.
Logo após o jantar, Adriana sentia um tremor correndo dentro de si.
Era o medo de dar a notícia de que precisava.
Quando viu seu irmão se levantando, falou:
- Daniel, não saia.
Preciso conversar com todos juntos.
- Vai vir com a história do divórcio novamente?!
Não tem nem um mês de casada, menina!
Você e o Nicolas precisam conversar!
- Espera, mãe.
Por favor, me ouça primeiro - disse a filha com voz terna.
Daniel voltou a se sentar e Jaime opinou:
- Se ela não quer mais ficar casada, não fique.
Aquele cara num ligou nem apareceu aqui pra vê ela.
Que marido é esse?
- Ele está chateado porque ela perdeu o bebé.
Ele tem esse direito - defendeu Heloísa.
Desconfiando de algo, Daniel pediu:
- Vamos deixar a Adriana falar?
Silêncio.
Adriana sentiu o coração bater forte.
Piscou os olhos mais demoradamente e respirou fundo.
Sentiu a garganta ressequida e as mãos gélidas.
Um torpor a estonteou, mas tomou coragem e contou:
- Há alguns meses, meu noivado com o Nicolas não estava nada bem.
Ele começou a ficar distante.
Tornou-se egoísta. Passou a beber muito.
Não ligava para mim...
A lista de reclamações era imensa nem vale a pena comentar.
Por causa do casamento marcado, eu não dei tanta atenção ao que acontecia, mas não deixei de perceber.
Sempre dizia para mim mesma:
"Ele vai mudar. Vai ser melhor.
Vai ser diferente."
Só que isso não acontecia.
Eu ficava desgostosa e angustiada.
Nesse mesmo tempo, conheci um outro rapaz que também era noivo e estava de casamento marcado.
- Não acredito no que estou ouvindo - a mãe ficou contrariada e resmungou.
- Calma, mãe.
Deixa a Adriana contar! - Daniel falou firme.
Novamente silêncio e a moça contou:
- O nome desse rapaz é Wagner.
Ele trabalhava comigo.
Em pouco tempo, nós nos conhecemos e nos apaixonamos.
Percebi que o Nicolas não tinha mais nada a ver comigo ou com os meus ideais.
E o Wagner sentia o mesmo com relação ao noivado dele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 15, 2017 10:22 am

Fomos nos conhecendo melhor e nos aproximando ainda mais.
- Que absurdo! - protestou a senhora em tom grave e baixo.
A filha não se importou e prosseguiu:
- Eu e o Wagner decidimos terminar os compromissos que tínhamos.
Ele chegou para a noiva e acabou tudo.
Eu não consegui me encontrar com o Nicolas que não vinha me ver nem ia ao apartamento junto comigo.
Ligava e o irmão dele dizia que ele tinha enchido a cara ou não tinha chegado em casa...
Por mim, o noivado estava terminado.
Só faltava cancelar o casamento e tudo mais.
Conversei sobre isso com a mãe que não gostou nada da ideia.
- Não gostei mesmo!
Que palhaçada você pensava que estava fazendo?
- Mas eu e o Wagner nos amávamos.
Faltava pouco tempo para meu casamento e ia falar com o Nicolas que estava tudo acabado.
O Wagner, quando ia para a casa dos pais, que moram no litoral, sofreu um acidente muito sério.
A mãe e a ex-noiva morreram na hora.
A irmã mais nova ficou machucada, mas está bem.
Ele sofreu um traumatismo craniano.
Precisou de cirurgia e entrou em coma.
Liguei, conversei com a Wanda, irmã mais velha dele.
Mas depois não consegui mais contacto.
Entrei em choque. Fiquei desesperada.
Atordoada. Fui conversar com o Nicolas e terminar tudo.
Ele virou uma fera.
Mostrou um lado dele que nunca imaginei existir.
Chegou a me agredir...
- O quê?! - perguntou o irmão, franzindo o semblante.
- Sim. Chegou a me agredir e me ameaçou de morte.
Ameaçou a mim, ao Wagner e a qualquer outra pessoa que se metesse no meio.
Ele ficou transtornado e não quis que terminássemos.
Foi por isso que não contei para vocês.
Principalmente... - tomou fôlego.
Principalmente quando eu contei que estava grávida do Wagner.
- O que você disse?! Filha!
Como foi isso?!
Como você... - a mãe ficou em choque.
- Deixa ela contar!!! - exigiu Jaime muito interessado.
Embora não parecesse zangado com a filha.
- Isso mesmo. Fiquei grávida do Wagner.
Desesperada pelo estado dele, por não ter notícias da família, por estar grávida e ameaçada, não sabia o que fazer.
O Nicolas não quis terminar e cancelar o casamento.
Não queria se envergonhar perante a família e os amigos, apesar de saber que estava grávida de outro homem.
Ele me ameaçou mais ainda.
Atordoada, acabei me casando.
Depois do casamento, tudo ficou pior a cada dia.
Ele exigiu que eu fizesse um aborto.
Não queria, mas as agressões começaram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 8 de 14 Anterior  1 ... 5 ... 7, 8, 9 ... 14  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum