Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:38 am

Vou chamar o médico! - saiu às pressas.
Após o médico examiná-lo, a família foi avisada e todos correram para o hospital.
Wagner não falava direito e tinha dificuldade para entender o que diziam perto dele.
Pareceu bem esquecido.
Vítima de uma amnésia dissociativa, que é o esquecimento parcial ou de todo um acontecimento que envolve algum trauma ou acidente sofrido.
Às vezes, fechava os olhos e dormia, quando alguém conversava com ele.
Seus movimentos estavam comprometidos.
Não conseguia ter coordenação.
Todos perceberam que ele se lembrou de Hilda no instante em que a viu, pois alargou um belo sorriso assim que viu seu rosto.
Ao olhar para o pai e as irmãs, pareceu não reconhecê-los.
Sorriu de forma diferente.
Em seguida, cerrou os olhos como se dormisse ou estivesse muito cansado.
A alegria não poderia ter sido maior.
O médico recomendou que o deixassem descansar.
Não deveriam forçá-lo tanto.
Emocionada, Wanda abraçou-se à Hilda e choraram.
Por ter ido ao hospital e ficado lá muito tempo, já era tarde quando Hilda decidiu ir embora.
Wanda não admitiu que ela pegasse a estrada e viajasse tanto devido à hora.
A mulher telefonou para sua irmã, que morava no litoral, mas ninguém atendeu.
Não havia ninguém em casa.
Por insistência de Wanda, Celine e Hernâni, Hilda aceitou dormir na casa da família.
Foi então que ligou para o celular do marido que concordou plenamente.
Disse que ele e o filho estariam bem.
Que ela poderia ficar tranquila.
Na manhã seguinte, Hilda lembrou-se de perguntar para Wanda:
- A Adriana ligou novamente?
- Menina!... Esqueci...
Ai, eu esqueci totalmente!
Não liguei o celular do meu irmão.
O pessoal do serviço dele sempre liga aqui pra casa do meu pai, então...
- Não tem o número dela, não é?
- Não. A chamada não ficou identificada.
Revirei o celular dele, mas não tem nenhuma Adriana nos contactos.
- Que pena...
Assim que chegar a São Paulo, vou ligar para a empresa e conseguir o telefone dela.
- Ai, que chato.
- Não se preocupe.
Você estava cuidando de muita coisa.
- A moça vai pensar que eu fiz pouco caso.
- A Adriana é uma pessoa muito boa.
Vai entender.
- Pelo jeito, meu irmão gostava dela, não é mesmo?
- Gostava sim - sorriu.
Agora preciso ir Wanda.
- Fica mais um pouco.
- Não posso mesmo.
Ele deve se recuperar rapidamente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:38 am

O Wagner tem muita força.
Venho visitá-lo no fim de semana.
- Venha sim.
Mas fique alguns dias.
Uma semana pelo menos.
Vai ser muito bom.
Hernâni chegou à sala e disse:
- Hilda, tenho muito o que lhe agradecer:
pela conversa com a Celine, por sua preocupação com o Wagner, pela consideração com a gente... Por tudo.
- Ora... Não tem de agradecer nada.
A Celine só está confusa.
Mas isso vai passar.
- Tenho de agradecer sim.
Muito obrigado por tudo.
Nossa casa é sua.
Quero que venha para ficar mais dias.
Será muito bom para todos nós.
Traga seu filho e seu marido.
- Agradeço o convite.
Embora duvide de que o Agenor vá querer vir.
Ele gosta de ficar recluso em casa.
- Mas você pode vir sem ele, não pode? - disse Wanda alegremente.
- Vamos ver...
Conversaram mais um pouco, Hilda se despediu e se foi.
Chegando à sua casa, Hilda sentia-se cansada da viagem.
Olhou em volta e percebeu alguma coisa estranha.
Tudo estava muito organizado.
Nem na pia havia copos ou xícaras para lavar.
Uma angústia invadiu sua alma.
A sombra do medo de ser traída novamente rondou seus pensamentos.
Pegou o celular e mandou mensagem para o filho Rodrigo.
Alguns instantes, que pareceram eternos, o rapaz respondeu:
Referiu-se à namorada.
Hilda foi para o seu quarto e a cama estava bem arrumada.
Exactamente como ela havia deixado.
Não gostaria de suspeitar indevidamente de Agenor, mas aquilo era muito estranho.
Lembrou-se de seus pedidos de desculpa e do juramento que fez a ela sobre nunca mais magoá-la nem traí-la.
Um suor gélido banhou suas mãos nervosas.
Não conseguia conter seus pensamentos acelerados, experimentando uma onda de raiva.
Agenor não poderia tê-la enganado.
Não de novo.
Ela não sabia como deveria agir.
Seria certo telefonar para ele e perguntar?
Ou isso seria ridículo?
Pegou o telefone e ligou para Lídia.
A amiga a ouviu, atentamente, e decidiram marcar encontro em um Café, no shopping.
Hilda estava aflita quando Lídia a viu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:38 am

Conversaram e a amiga comentou:
- Sabe quando a casa está estranha?
A impressão é que assim, que eu saí ontem cedo, depois do Agenor e do Rodrigo terem saído, ninguém mais voltou lá.
Tudo está do mesmo jeito.
- Conversou com o Agenor?
- Ontem liguei para o celular dele e avisei que ficaria em Peruíbe.
Depois disso, não liguei mais.
Pensei em ligar bem à noite lá para casa, mas...
Fiquei insegura. Poderia dar a impressão de que estava pegando no pé...
Sabe?
Breve pausa e confessou:
- Estou com medo de ser precipitada, impulsiva ou ridícula.
Preciso agir com inteligência.
- Vamos pensar...
- Lídia, não posso e não quero viver nessa eterna insegurança.
- Não deve viver assim.
O Agenor não pode dar motivos para que viva assim.
Muito embora, você não deva ser controladora.
- Não sei o que fazer.
- Terá de perguntar.
Um instante e propôs:
- Quer ir ao serviço dele?
- Não sei se devo - Hilda titubeou.
- Por que não deveria?
- Você vai comigo? - indagou em tom inseguro.
- Sou sua amiga, não sou? - respondeu Lídia com leve sorriso.
- Então vamos.
- Não quer almoçar antes?
- Não consigo pensar em comida.
Mas se você quiser, eu te espero.
- Não. Vamos embora.
Algum tempo depois, as amigas chegaram aonde o marido trabalhava.
No mesmo instante, o homem estacionava seu carro em uma das vagas que havia em frente à empresa.
Agenor desceu.
Do lado do passageiro também desceu uma moça risonha e muito bonita.
Hilda, tomada por uma sensação enervante, desceu do carro, atravessou a rua sem olhar para os lados.
Nem mesmo pareceu ouvir a buzina estridente que soou de um veículo que precisou parar subitamente para que ela passasse.
Chegando à calçada, ficou parada para ser vista.
Nesse instante, reparou que ele estava com a mesma roupa que o viu no dia anterior.
Foi aí que deduziu que não tinha voltado para casa, pois usava a mesma vestimenta.
O marido tomou um susto e disse sem que ela perguntasse:
- Não é o que você está pensando.
A moça, que o acompanhava, parou de sorrir e fez uma expressão surpresa ao suspirar fundo e lentamente.
- Não estou pensando nada - a voz da esposa soou estranhamente fria.
- Hilda, precisamos conversar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:38 am

- Não. Não precisamos - falou mecanicamente, sem pensar.
- Essa moça é uma cliente!
Precisamos ir até a seguradora e...
- Se precisassem, fossem cada um por seus meios.
Você não é motorista particular e, por ter um histórico comprometedor, deveria se poupar de situações suspeitas.
- Nós precisamos conversar! - foi firme.
- Não temos mais nada para conversar, Agenor.
Hilda deu as costas.
Atravessou a rua e entrou no carro de Lídia.
A amiga não esperou que Agenor se aproximasse.
Deu a partida no carro e se foram.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:39 am

Capítulo 23 - A sombra do medo

Lídia ficou surpresa com a frieza e seriedade da amiga que, dentro do carro, não deu uma única palavra, até ela perguntar:
- Você está bem?
- Sim. Estou consciente.
- Hilda, o que você vai fazer?
- Por favor, me leve para minha casa.
Lá vou pensar direito.
Lídia estava trémula.
Preocupada demais, principalmente, pela frieza que a amiga apresentava.
Ao ver o carro estacionado, Hilda desceu.
Pegou as chaves, abriu o portão e esperou por Lídia.
Entraram.
Chegando à sala, sentou-se no sofá e a amiga ao seu lado.
- Não acha melhor conversarem?
- Para quê? - Hilda perguntou.
Para ele tentar me iludir e fazer-me acreditar que não vai errar mais?
Deveria ter aproveitado a oportunidade que eu dei!
Poderíamos ter construído uma nova vida.
Assim como você e o Márcio fizeram.
- Não pude ouvir direito.
O que ele te disse exactamente?
- Que era uma cliente.
Que precisaram ir à seguradora.
Que não era nada do que eu estava pensando.
- E o que você pensou exactamente? - quis saber Lídia.
- Que ele deveria ter sido mais maduro, esperto, responsável, respeitoso comigo e não me dar qualquer motivo para desconfiança.
Lágrimas correram em sua face pálida.
Ela secou o rosto com as mãos e respirou fundo.
- Você está bem?
- Não. Estou péssima.
Com raiva. Não com raiva dele.
Com raiva de mim por ter escolhido uma pessoa tão pobre de espírito para ficar ao meu lado.
- É uma pena.
O Agenor é um fraco e confirmou isso agora.
Hilda respirou fundo.
Levantou-se e foi para o quarto, seguida pela amiga.
Retirou de dentro do armário uma mala de onde tirou outras duas.
Abriu-as sobre a cama e colocou dentro todas as coisas de Agenor que encontrou.
Percebendo que as malas não foram suficientes, pegou sacolas plásticas gigantes e acomodou o restante.
Com a ajuda de Lídia, pôs tudo próximo ao portão da entrada principal, do lado de dentro da residência.
Virando-se para a amiga, pediu:
- Se quiser, pode ir.
Não será bom se envolver ainda mais.
- Não. Eu fico com você.
Hilda a olhou por um momento, depois a abraçou forte.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:39 am

Ao se separarem, agradeceu:
- Obrigada.
É bom ter uma amiga ao lado em um momento como esse.
Quando Agenor chegou, abriu o portão da garagem e viu, no canto, perto do portão social, todas as suas coisas.
Ele colocou o carro para dentro da garagem, mas não conseguiu entrar na casa.
Hilda havia trancado todas as portas por dentro.
Tentou conversar, mas ela não respondeu.
Ficou nervoso.
A princípio, pediu que ela abrisse e o deixasse entrar, mas Hilda permaneceu calada.
Foi então que ele disse:
- Sabe por que eu saí com aquela moça?
Não esperou resposta.
- Porque ela é jovem, bonita, esperta e faz tudo o que um homem quer!
Fiquei realizado!
Você queria saber por que eu procurei outras mulheres?
Agora sabe. Elas são jovens, satisfazem um homem... realizam minhas fantasias...
Têm um corpo lindo!
Você até pode ser boa dona de casa, boa nisso ou naquilo, mas está velha.
Não tem mais vinte anos.
Não me satisfaz mais. Já, elas, não.
São atraentes, gostosas... - e discursou tudo o que podia, com baixeza, para magoá-la e entristecê-la.
Agenor cometia a pior das crueldades.
Falou e contou detalhes de sua traição e as razões infundadas dela.
Calada, Hilda ouviu e chorou.
Depois de horas, percebendo que não conseguiria conversar, ele desistiu.
Colocou suas coisas no carro e se foi.
Ao ouvir o veículo ir embora, Lídia se preocupou:
- Como você está?
- Péssima - murmurou.
- Para onde ele deve ter ido?
- Tomara que tenha ido pro inferno, que é de onde nunca deveria ter saído!
- Calma, Hilda.
- O Agenor... Quem diria?
Ainda não acredito... - dizia perplexa.
Nunca mais quero saber de homem na minha vida. Nunca mais!
Ela chorou um pouco mais e conversaram por algum tempo.
Separação sempre dilacera a alma e faz sofrer.
Embora Hilda fosse uma mulher forte, seu coração apertava, enquanto uma tristeza cruel castigava seus pensamentos.
A noite, a amiga tinha ido embora.
Quando Rodrigo chegou do serviço, estranhou ver a mãe com os olhos vermelhos.
Ela contou tudo o que havia acontecido.
O filho caçula, mesmo chocado com a notícia, sentou-se ao seu lado e repousou o braço em seus ombros.
Chorando em silêncio, a mãe inclinou-se e o abraçou.
Ficaram assim por algum tempo.
Então ela se afastou e disse:
- Eu não queria que fosse assim - seu olhar expressava uma tristeza infinita.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:39 am

- Mãe... Sei que sou novo demais.
Não tenho experiência, como vocês dizem, mas...
Na minha opinião, acredito que foi o melhor pra você.
- Como assim?
Acha que foi melhor ele ter me traído?
- Acho. Pelo menos, ele fez isso agora e não daqui a alguns anos.
O pai mostrou ser uma pessoa mesquinha, insensível, pobre.
Talvez, seja um cara safado mesmo.
Eu observei o seguinte:
depois de tudo o que nos contou sobre tê-lo pegado com outra, esperei que o pai se tornasse um homem melhor, mais presente ao seu lado.
Se tornasse aquela pessoa que errou, foi perdoada e depois disso ficou fazendo de tudo para o relacionamento dar certo.
Tudo mesmo. Se empenhasse mais em sair com você, te levar para passear.
Fazer programas agradáveis, como ir ao cinema, passear de mãos dadas no shopping, ir a um restaurante ou passear no parque.
Ele deveria querer ficar ao seu lado... Sei lá.
Se eu gostasse mesmo, de verdade de alguém e, por uma bobeira, tivesse pisado na bola e descobrisse que errei feio...
Se ela me perdoasse, eu iria me empenhar muito e fazer de tudo para que essa pessoa confiasse novamente em mim.
Não iria dar motivos, nem de longe, para que desconfiasse.
Procuraria melhorar, em todos os sentidos, a qualidade da nossa relação.
Mãe, pelo que eu percebi, não foi isso que o pai fez.
Ele ficou triste, com vergonha, mas não se empenhou em te mostrar e mostrar para os filhos que seria outro homem.
Deveria se tornar um cara mais presente, dedicado a você e mais disposto.
Grato pela nova oportunidade, pelo seu perdão...
Acredito que você fez o certo.
Na primeira vez, decidiu passar por cima de sua dor e dar uma chance a vocês.
Mas ele, logo de cara, não correspondeu. Agora chega!
Você não precisa mais viver a dor de ter passado por boba, de ter sido enganada...
Chega, né?!
- Rodrigo, e se o que ele me falou for verdade?
E se fosse uma cliente mesmo?
- Mãe, veja bem...
Foi como disse:
ele não é motorista particular e já tinha um histórico comprometedor.
Deveria ter se lembrado disso e não ter dado motivo para desconfiança.
Se foi verdade, o pai estava dando sorte para o azar.
Mas não acredito que seja.
Tanto que ele estava com a mesma roupa e depois te falou aquele monte de desaforos aqui na porta.
Ele pisou na bola sim.
Criou oportunidades, como a senhora sempre diz.
- Criando oportunidades... - forçou o sorriso, quando lembrou a conversa que havia tido com Wagner sobre atitudes que criavam situações.
- É isso mesmo - disse o rapaz.
- Faz algum tempo, eu falei muito com o Wagner sobre criar situações e oportunidades.
É verdade. Seu pai, talvez, não quisesse qualquer envolvimento, mas foi criando oportunidades e se envolveu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:39 am

Tudo deu no que deu.
- Quando tudo aconteceu, da primeira vez, eu não tinha uma opinião formada.
Hoje tenho. O que fez foi o correto e tem o meu apoio.
Talvez, não seja tão fácil no começo, mas acredito que vai se refazer de tudo isso.
E ainda usar essa experiência infeliz para ser uma pessoa melhor do que já é.
Você é bonita! Inteligente!
Tem conteúdo! É produtiva!
- Estou desempregada, filho - falou com jeito mimoso e sorriu, quase se forçando a isso.
- Por enquanto, mãe!
Com seu currículo, eu diria que está tirando férias mais prolongadas.
- Você não imagina como toda essa situação dói - lágrimas correram.
Ficar imaginando seu marido com outra ou com outras...
Não existe coisa mais cruel e destrutiva.
Era uma mulher mais jovem, bonita...
Como se não bastasse eu ter visto, ele ainda me falou tudo aquilo.
- Mãe! Mãe! Mãe! Pare com isso!
O quanto antes parar de falar nisso e se focar na sua nova vida, melhor!
Segurando seu rosto com as mãos, olhando em seus olhos verdes, Rodrigo repetiu:
- Foque em sua nova vida de hoje em diante!
- Acho que ele foi para a casa dos seus avós.
- Não importa para onde ele foi! - enfatizava.
Desligue-se, mãe!
Não tem mais que se preocupar com ele, com a roupa dele, com o café dele, com a comida dele, com mais nada dele!
Agora é só você! E eu estou contigo, mãe!
Meus irmãos também! Tenho certeza!
Hilda se emocionou.
Estava fragilizada e abraçou-se ao filho.
- Obrigada, Rodrigo.
- Conte comigo, tá?
- Tá bom. - Afastaram-se.
Ela respirou fundo e tentou se recompor.
Para mudar de assunto, contou:
- Ia me esquecendo... O Wagner voltou do coma.
- Sério?! Que legal!
- Voltou sim.
Está um pouco confuso, coitado...
Fiquei tão comovida com ele.
Está tão magro, abatido, pálido...
Sorriu quando me viu.
- Ele disse alguma coisa ou se lembra do acidente?
- Tentou falar, mas ficou emocionado.
Percebi que está muito confuso.
Trocava as palavras e não coordenava as ideias.
Olhou para o pai e para as irmãs e não disse nada.
Tivemos a impressão de que não se lembrou deles.
O curioso foi ter chamado a enfermeira Sónia pelo nome, sem a conhecer.
Ela estava no quarto quando ele acordou e a chamou pelo nome.
Simples assim.
- Nossa! Como pode ser isso?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:40 am

- Acho que, enquanto estava em coma, ouviu o nome e por isso o repetiu.
É uma mulher gentil e que conversava muito com ele.
- Mãe, por que você não tira férias daqui de casa e fica alguns dias na praia?
- Como assim?
- Não tem de se preocupar comigo.
Eu fico na casa da Rafa.
A dona Clotilde me adora - riu.
E a senhora fica alguns dias na casa do Wagner.
Pode fazer companhia, dar uma assessoria, sei lá!
Gosta tanto dele e eles de você.
Seria como férias para ficar longe de toda a pressão que existe aqui.
Pelo menos, por enquanto.
Hilda ficou pensativa por alguns instantes.
Depois comentou:
- Gosto deles também.
Quero muito bem à Wanda, ao Wagner e à Celine.
São como meus filhos.
-Tô ficando com ciúme, hein! - falou brincando e rindo.
- Meu coração é grande.
Cabe todos vocês - abraçou-o e riram juntos.
Aquela noite foi uma das mais dolorosas na vida de Hilda.
Por mais que tentasse, não conseguia deixar de lembrar de tudo.
Seus pensamentos eram dor, mágoa, tristeza e solidão.
Em seu quarto, chorou sozinha.
Sentia-se abandonada, desamparada e experimentava uma angústia que crescia a cada instante.
Precisava suportar, com firmeza, tão rude golpe e recorreu à prece.
A princípio, não se concentrava.
Recordava situações, conversas, cenas, promessas, ofensas e tudo o que se referia a Agenor.
Insistiu. Várias vezes, forçava-se a prestar atenção em cada palavra de sua conversa com Deus.
Demorou, mas seu coração começou a ficar mais sereno.
Espíritos amigos, junto com seu mentor, envolveram-na com imensa generosidade e com vibrações ternas.
Inspiravam-na a pensamentos, atitudes e palavras evoluídas.
Causticar e prender imagens em lembranças tristes é sofrer em dobro e isso é desnecessário para a pessoa evoluída.
Sentiu um alento brando e bom.
Sabia que era assistida espiritualmente.
Deitou-se.
Embora a noite parecesse interminável, acreditou estar um pouco melhor.
Adriana foi à procura de informações para se separar de Nicolas.
No fórum, encontrou um advogado que iria auxiliá-la no divórcio.
Seu irmão havia indicado um, mas cobrava muito caro.
Desnecessário em seu caso.
Logicamente seria stressante.
Separação sempre o é.
Estava em casa de seus pais e muito triste.
Suas ideias eram envolvidas por energias inferiores.
Espíritos infelizes, revoltados com o aborto que ela tinha praticado contra o próprio filho, procuravam envolvê-la com toda sombra de dor.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:40 am

Adriana acariciava levemente a barriga, que ainda não estava definida e, em seu coração, podia sentir a vida que se iniciava.
Lágrimas grossas corriam lentas por sua face pálida.
Chorava arrependida.
Imaginava como tinha sido cruel seu ato abominável e não se perdoava.
O filho teria sentido dor? Medo?
Teria experimentado angústia infindável pelo que aconteceu?
Ela não saberia dizer.
Mas esses pensamentos macabros, como cenas de um filme de horror, passavam impiedosamente por sua cabeça, pois suas ideias estavam imantadas por espíritos inferiores.
Chorou. Um choro de remorso.
Culpa. Um arrependimento infeliz, só experimentado por mulheres a caminho da evolução que se deram conta do acto praticado.
Obsessores cruéis castigavam-na com cenas em um processo mental doloroso.
Começou a imaginar que o filho que esperava, gémeo do abortado, deveria sofrer os reflexos do aborto também.
Talvez, viesse imperfeito, deformado, com alguma síndrome irreversível por sua culpa, somando mais dor ao seu remorso.
Não há nada pior do que o arrependimento pelo que se praticou.
Porém, somente ele serve de alavanca para o refazimento e a evolução.
Sua mentora a envolveu com carinho.
Gostaria de guiá-la para que encontrasse uma solução.
O espírito Dione, sua mentora, abraçou-a tal qual mãe que deseja confortar a filha querida.
Adriana secou as lágrimas e se levantou.
Não desejava acordar o irmão, que dormia profundamente.
Tomou um copo com água e foi para a sala.
Sentou-se no sofá.
A luz acesa na cozinha deixava a sala na penumbra.
Algum tempo e Jaime se levantou.
Achou estranho encontrar a luz acesa e sem ninguém no ambiente.
Influenciado por seu mentor e por Dione, antes de apagá-la, olhou na sala para ver se havia alguém.
Viu o vulto da filha sentada no sofá.
Percebeu que ela não o tinha visto e ficou pensativo.
Não sabia se deveria ir até lá.
Um tanto atordoado, decidiu ir à sala.
A filha percebeu sua aproximação.
Secou as lágrimas.
Não gostaria de que a visse chorando.
- Perdeu o sono? - o pai perguntou.
- Perdi - respondeu tão somente.
- E o nené?
Após sorrir levemente, suspirou fundo e respondeu:
- Está bem.
- Então por que você tá chorando? - indagou e sentou-se ao seu lado.
- Porque estou arrependida, com remorso, medo, culpa...
- Arrependida do quê? - Jaime questionou, mesmo sabendo a razão.
- De ter tirado o outro bebé... - chorou.
Não paro de pensar nisso.
Às vezes, dá um medo tão grande desse aqui vir com problema - secou o rosto com as mãos.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:40 am

- Mas a culpa não é toda sua.
Você tava acuada pelo Nicolas. Ele te forçou.
- Mesmo assim pai.
É uma dor, um remorso tão grande.
Fico imaginando se ele sofreu.
Como é que meu filho, morto por mim, está me vendo agora?
- Pede perdão pra Deus.
Pede perdão pro teu filho. Pros dois filhos.
Promete trabalhar esse erro moralmente e fazer alguma coisa que ajude você e outras crianças.
Acho que você tem que fazer algo de bom e superior a essa coisa ruim que fez.
- O quê? O que posso fazer de bom que seja superior ao crime que cometi?
- Você pode...
Jaime foi inspirado e disse:
- Fazer alerta para as outras mulheres não fazer o mesmo que você ou então cuidar de outras crianças ou de pessoas doentes.
Cuidar deles como se fosse seus filhos.
Embora errado, falava mansamente.
- Daí vai se sentir melhor.
Deus vai te perdoar e você vai se perdoar.
Vai achar um bom moço e, quem sabe, esse filho que você tirou vai te perdoar e vem de novo como seu filho.
A filha virou-se lentamente para ele e sentiu-se invadida por uma sensação leve e, indefinidamente, boa.
Não sabia descrever, apenas sentiu.
Apesar do coração ainda pesado e dolorido, acreditou que aquela era uma resposta para suas orações e pedido de perdão.
- Não sei por onde começar, pai.
- Procure um jeito. Fale com a leda.
Essa menina vale ouro.
Ela diz coisas que faz sentido para mim.
Dione a abraçou pelas costas e induziu seus pensamentos com a frase:
- Quando encontramos obstáculos e desafios, é porque a vida quer nos ensinar algo mais.
Adriana respirou fundo e disse:
- O senhor está sabendo que vou me separar do Nicolas?
- Eu ouvi vocês comentando.
Vai ser logo?
- Sim. Hoje em dia, tudo é bem rápido.
Ele está concordando com tudo.
Pedi para meu advogado dizer que, se ele concordar com tudo, não vou dar queixa por agressão e por me forçar a fazer o aborto.
Sei que fazer a denúncia seria o certo, mas quero me livrar dele.
Quero o que é meu de forma justa, pois o ajudei a conseguir metade de tudo aquilo.
O apartamento será vendido junto com tudo o que tem nele.
Dividiremos o valor.
Esse dinheiro deve ser o suficiente para eu me manter por um bom tempo ou mais.
- Você está fazendo o que é certo.
- Espero que sim.
O silêncio imperou por longos minutos.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:40 am

A filha olhou para o pai e decidiu comentar:
- Pai, sobre o assunto do Daniel...
O senhor e a mãe não falaram mais a respeito.
Aliás, pelo que percebo, nem conversam mais com ele.
O homem ficou inquieto.
Remexeu-se um pouco e suspirou fundo antes de dizer:
- O que eu teria para conversar?
- Não sei exactamente.
Talvez, falar que o considera como um filho ou que o facto de ele não ser seu filho biológico não importa, pois gosta dele como se fosse.
Uma conversa nesse sentido faria muito bem aos dois.
- Eu já pensei nisso.
Tentei falar com seu irmão, mas ele foi fazer uma coisa mais importante.
Não sou de conversar. Sabe disso.
É duro... Muito duro...
- O que é duro, pai?
- É duro saber que foi traído.
O que aconteceu com você, de engravidar de outro, mesmo sendo noiva, foi o que aconteceu com sua mãe.
Mas ela não teve carácter e disse que o filho era meu.
- Pai, isso já passou - expressou-se com jeito meigo.
A mãe ficou com medo.
Talvez, tenha ficado apavorada com a ideia de criar um filho sozinha.
Mesmo hoje em dia, isso não é fácil.
Naquela época então!
Há mais de trinta anos! - exclamou sussurrando.
Deve ter sido bem difícil para ela.
Sabe pai, a gente comete erros, faz burradas na vida e só depois entende que trocou os pés pelas mãos.
Só depois, descobrimos que agimos errado, magoamos a nós e aos outros.
No momento, o que fazemos não parece errado.
Isso é falta de evolução, falta de maturidade.
Sei exactamente o que a mãe sentiu. Perdoa, pai.
Liberte-se dessa mágoa, dessa coisa ruim. Liberte-se.
- Eu não devia ter contado isso.
Sabe, nesses anos todos, a única vez que entendi sua mãe foi quando você contou, daquele jeito, que gostou do outro e ficou grávida.
Odiei saber que o Nicolas bateu e te agrediu.
Odiei saber que ele fez você tirar o filho.
Não queria que você sofresse.
Só aí entendi sua mãe, eu acho.
- Conversem então!
- O que vou dizer?
- Se, em todos esses anos, o senhor ficou ao lado da mãe mesmo sabendo de tudo, se criou o Daniel como seu filho, então os ama, e eles precisam saber disso.
- Ora... - ficou sem jeito.
Fugiu ao olhar.
- É verdade, pai!
Vai ser bom para o senhor e para eles.
- Seu irmão nunca gostou de mim - Jaime falou em tom grave e baixo.
Quase inaudível.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:40 am

- Isso não é verdade.
O senhor é nosso pai e nós te amamos! - falou, murmurando.
- Vocês não gostam de mim...
- Claro que sim. Não diga isso.
Podemos não aprovar algum comportamento do senhor, mas nós o amamos sim!
- Não queria ser assim. Eu sempre...
- Sempre o que, pai? - tornou a filha no mesmo tom.
Sempre acha que vai largar a bebida, mas, depois, não resiste.
Era isso o que ia falar?
- Tá na hora de dormir - levantou-se.
- Pai - ao vê-lo olhar disse: -, o senhor pode se tratar.
Seria maravilhoso se mudasse de vida.
Aproveite essa revelação sobre o Daniel e se reconcilie com a mãe.
Diga ao Dani o quanto gosta dele.
Procure ajuda para se livrar desse vício e seja um novo homem.
Seria uma bênção. Não acha?
- Vai dormir. Vai...
Eu já estou indo.
Jaime se virou e seguiu corredor afora.
Adriana ficou pensativa.
Aquela era a primeira vez que conversava com seu pai daquela forma.
Acreditou que a maior frustração desse homem era sua mãe tê-lo traído e tentar enganá-lo.
Apesar do curto tempo, pôde sentir grande tristeza e um sentimento de inferioridade.
Percebeu que ele se sentia mal-amado e nada querido.
E isso precisava mudar.
Alguns dias se passaram...
Era um sábado de sol e temperatura agradável quando Adriana foi à casa de leda.
- Oi!
- Oi! Entra.
- Tá ocupada?
- Lavando minha roupa.
Mas já estou acabando. Entra.
Vem pra cá na lavandaria.
Preciso pôr no varal logo cedo, senão não seca - riu.
É difícil não ter máquina de lavar.
Centrifugar a roupa é tão bom.
Sai quase seca da máquina e não demora nada pra secar - disse, enquanto seguia para a lavandaria no quintal.
- Leva lá em casa e centrifuga lá.
- Não. É pouca coisa.
Um instante e quis saber:
- E aí? Novidades?
- Terça-feira assino o divórcio - Adriana contou.
- Já?! Tão rápido!
- Hoje em dia, se as partes estão de acordo, é bem rápido.
- O Nicolas não sabe que você está grávida, né?
- Não. Nem pode imaginar.
leda começou a pendurar as roupas no varal e a amiga ajudou.
- Dri, não acha que está na hora do Wagner ou da família dele saber?
- Sim. Mas vou esperar primeiro assinar o divórcio.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:41 am

Será melhor.
Acabando de estender as roupas, leda a chamou:
- Agora vem. Vou fazer um...
Café não, né?
- Melhor um chá - Adriana propôs e sorriu.
- Isso. Vou fazer um chá e torrar pão com margarina na frigideira - sorriu.
Na cozinha, enquanto preparava o que queria, notou que a amiga estava muito quieta.
- O que foi, Dri?
Estou te achando tão murcha.
- Medo.
- Medo?!
- Sim, leda.
Medo do divórcio, do filho a caminho, do sumiço do Wagner...
Se ele estivesse bem, já teria me procurado. Não acha?
- Não sei dizer, amiga.
Não é bom fazermos suposições.
Nas suposições, sofremos com algo que não aconteceu e provavelmente não acontecerá.
Depois, descobrimos que foi à toa.
O ideal seria entrar em contacto com a família.
Assim que o divórcio sair, o advogado pode requerer o endereço dele lá na empresa onde trabalharam.
Ou isso pode ser feito de modo informal também, com um amigo, sei lá...
Quando olhou para Adriana, viu-a com lágrimas correndo no rosto.
- Dri... - foi para perto da amiga.
O que foi? - afagou-lhe o ombro e o rosto.
- Sinto um medo...
Uma coisa tão triste, tão ruim...
Como vou encarar o Wagner?
Matei um filho dele...
Pensei em não contar, mas...
Omissão também é mentira e eu não quero mais omitir nem mentir nada em minha vida.
Mentirinha também é mentira.
Não é justo nem leal.
- Não sofra por isso.
Quando contar, ele pode entender.
Daí sofreu sem razão.
Só deixou o neném nervoso.
Você está indo ao médico e fazendo tudo direitinho?
- Preciso marcar para levar os exames.
Mas quero deixar para a outra semana.
Preciso resolver outras coisas para me ver livre do Nicolas.
- Entendo. - Voltou para junto da chaleira que fervia.
Preparou o chá e torrou os pães com margarina.
Estendeu uma toalha na mesa e, após servir a amiga, acomodou-se.
- Só um pouco de chá. Obrigada.
- Perguntou para o bebé se ele quer pão? - leda brincou para ver a outra sorrir.
- Não. Acho que ele não quer - sorriu.
- E então! Será que a próxima ultra-sonografia vai dar para saber o que é? - perguntou para fugir de assunto que deixasse a amiga triste.
- Não sei. Não tenho ideia.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 17, 2017 9:41 am

- Acho muito legal essa expectativa!
- Eu também.
Gostaria de saber se é menino ou menina com o Wagner ao lado - Adriana abaixou o olhar.
Percebendo-a ainda triste, propôs:
- Quer ir ao centro espírita hoje comigo?
- Não sei se quero...
Você sabe como fiquei mal quando fui conversar com aquela mulher, lá, naquele centro espírita, que te falei.
Isso me deixou tão...
- Dri, ela era uma pessoa sem instrução.
Eu disse que deveria ir aonde conheço, na casa que frequento.
Lá, garanto que será uma pessoa que, além de instruída, é amável e compreensiva.
Vai saber te orientar.
- Você não me fala nada sobre esse assunto.
Quero saber se meu filho sofreu!
- Não me sinto preparada para conversar sobre aborto.
Melhor uma pessoa mais experiente na vida e em Doutrina Espírita.
Um instante e convidou, novamente:
- Vamos comigo ao centro que frequento, vai!
Pelo menos, para se sentir melhor.
Nem precisa conversar nada com ninguém.
Vai ouvir uma palestrinha bem curtinha depois da leitura do Evangelho.
Em seguida, tem os passes e acabou.
Vai te fazer bem. Garanto.
O espírito Dione abraçou sua pupila pelas costas e lhe passou energias salutares.
- Então... Acho que vou... - disse sem convicção.
- Ai! Que bom! - alegrou-se leda e serviu-lhe mais chá.
Depois de um gole da bebida, Adriana interessou-se:
- E a Núbia?
- Não aparece há cinco dias.
Embora eu esteja acostumada, ainda assim me preocupo.
Fico com o coração apertado, sabe?
- Sei. De coração apertado eu entendo.
Breve pausa e contou:
- Emocionalmente, não me sinto bem, leda.
Acredito piamente que isso acontece porque tirei o nené... - Seus olhos lacrimejaram.
É um arrependimento tão grande...
Tão intenso... Me culpo o tempo todo.
Se não fosse por este bebé aqui, preferiria morrer...
- Não pense assim.
Se existem dois erros que não podemos praticar são:
aborto e suicídio.
Se já fez um e está arrependida...
Não queira se arrepender mais ainda.
Eu acredito que você pode reverter essa situação.
- Será? Eu me sinto desanimada, desmotivada.
Não tenho vontade para nada.
- Isso vai passar.
Deus, além de bom, é justo.
Sabe, Dri, nunca pratiquei o aborto nem incentivei alguém a fazer.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:52 am

Mas também já cometi meus enganos.
Senti remorso, culpa...
Algo tão intenso e acreditei que nunca iria me recuperar, na época.
Ficava triste, deprê...
Não tinha vontade pra nada.
Pensava muito nos meus pais.
Queria entender por que os dois precisaram se separar, por que precisaram morrer.
Eu sempre vivia à sombra do medo.
Aí conheci a Doutrina Espírita.
- Eu lembro. Fui ao centro com você as primeiras vezes.
- Foi pena você não ter continuado.
Não sei o que me forçou a ir - riu.
Cheguei a pensar que era minha mãe...
Para ver se eu dava um rumo bom à minha vida - emocionou-se.
- E era eu sim, minha filha - disse o espírito que foi mãe de leda e a abraçou com carinho.
Queria que tivesse noção da espiritualidade, além de respostas às suas perguntas.
Eu te induzi por amor.
leda secou o rosto, sorriu e continuou:
- No começo, ia me arrastando, mas ia!
Nós nascemos para vencer.
Quando nós nos determinamos a fazer algo bom e saudável, começamos a alimentar a certeza da vitória - sorriu e viu a amiga corresponder.
É difícil sair do estado triste?
- Levante-se e faça alguma coisa boa e produtiva para criar outro estado emocional.
Está decepcionada com você?
- Faça algo que tenha orgulho de si.
O que te impede?
- Como assim?
- O que te impede de fazer algo bom e saudável por si mesma?
- Não sei. Talvez, eu não saiba por onde começar.
- Então vamos ao centro comigo hoje e diga a Deus:
Pai, quero começar de novo.
Por favor, me guie, me oriente, me faça entender e agir para o bem e com amor.
Deixe de viver à sombra do medo.
Reaja! Tome uma atitude!
Adriana sorriu.
- Está bem. Vou sim.
- Óptimo!
- Agora preciso ir.
Mais tarde eu volto para irmos ao centro - decidiu a amiga.
Adriana voltou mais animada para sua casa, mas, ao entrar, experimentou novos pensamentos causticantes.
Espíritos inferiores, ligados à acção do aborto, acompanhavam-na, alimentando com energias negativas todas as ideias infelizes que geravam em sua mente.
"Eu deveria morrer...
Por quê? Por quê?
Por que matei meu filho?" - indagava Adriana em pensamento, repetindo, pela milionésima vez, a mesma pergunta sem resposta.
"Mereço sofrer. Sou uma infeliz.
Se não fosse por estar grávida..."
Chorou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:52 am

O arrependimento cruel cravava uma angústia infindável em seu coração.
- "Matei meu filho...
O filho de quem amei...
Ai, meu Deus! Me perdoa!"
- Calma. Persista mais um pouco.
Mais um pouco e as forças do amor e da bondade chegarão para que consiga se reerguer e trabalhar - dizia sua mentora Dione.
"Meu Deus! Me ajuda!
Me ensina um jeito de reverter isso!
Me dê uma luz!
Uma ideia para eu não sofrer tanto assim!..."
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:52 am

Capítulo 24 - Uma luz chamada esperança

Adriana foi à casa espírita onde havia actividade para a Evangelização Infantil e Mocidade Espírita.
Programações comuns em muitos centros espíritas para a evangelização em diferentes idades.
As mães das crianças, enquanto aguardavam, ouviram a leitura de um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo e depois a explicação.
leda, acompanhada da amiga, chegou e foi recebida com muito carinho.
Apresentou Adriana para alguns companheiros da instituição e depois pediu que se sentasse onde preferisse no salão principal.
Em seguida, foi até a livraria devolver um livro que pegou emprestado.
Sozinha, Adriana ainda lutava com os pensamentos infernais de culpa e arrependimento que a assombravam ininterruptamente.
leda voltou.
Conversou um pouco com ela e logo foi para outra sala onde dava aula de Evangelização Infantil.
Tristeza infindável e intensa pesava em seu coração, quando a movimentação de pais se iniciou no salão.
Mulheres a cumprimentavam e sorriam.
Sentavam-se ao seu lado e algumas, em silêncio, fechavam os olhos como que em prece, ligando-se ao Alto, entrando em contacto com energias sublimes.
A moça sabia que eram mães, avós ou parentes próximos das crianças que estavam em outra sala, na Evangelização.
Ficou-se imaginando ali, esperando seu filho ou filha educando-se na religiosidade.
Sabia que deveriam ser dois.
Mas um ela havia matado.
A jovem engoliu a seco.
Discretamente, enxugou as lágrimas que arderam em seus olhos e teimaram cair.
Após algum tempo, e uma senhora de cabelos curtos e bem ajeitados, de posse de algumas folhas, foi à frente.
Desejou boa tarde e conversou um pouco sobre as actividades da casa espírita.
Depois pediu para elevarem os pensamentos e fez linda prece.
Em seguida, leu um trecho curto de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVIII - Muitos os chamados e poucos os escolhidos.
Adriana quase não atentava para a leitura.
Enquanto que Dione, sua mentora, a envolvia com fluidos superiores, buscando libertá-la, a princípio, dos próprios pensamentos inferiores, resultado do peso da consciência provocado pela culpa.
Durante a leitura, o espírito Dione repetiu, de pensamento a pensamento, frases importantes para sua pupila.
"Procurai os verdadeiros cristãos e os reconhecereis pelas suas obras.
Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos2".
Ao final da leitura, a senhora ofereceu explicações compatíveis ao texto.
Realizaram vibrações e prece.
Aqueles que aceitaram, dirigiram-se à câmara de passes para recebê-lo.
Adriana seguiu os demais.
Recebeu o passe e retornou para o salão, ficando à espera de leda, enquanto os pais foram para o pátio, cantina ou livraria à espera das crianças.
Sentada em uma cadeira próxima ao corredor, ela correspondeu ao sorriso da mesma senhora que realizou a leitura do Evangelho.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:53 am

Aproximando-se, a mulher perguntou:
- Você é amiga da leda e irmã do Daniel, não é mesmo?
- Sim. Sou - sorriu com leveza.
- Adoro a leda e gostei muito do seu irmão.
Sinta-se bem-vinda a esta casa espírita.
- Obrigada.
A senhora esfregou levemente o ombro da jovem, mas quando fez menção de se afastar, Adriana a chamou:
- Por favor...
- Sim - voltou e sorriu.
- Ouvi suas explicações sobre o texto e gostaria de fazer uma pergunta.
- Sim, querida. Claro.
O que quer saber?
- A senhora disse que os verdadeiros cristãos são reconhecidos por suas obras.
E que uma árvore boa não pode dar maus frutos.
- Sim. Eu disse.
- E se eu me considerar cristã e cometer pecados mortais?
Se eu tiver cometido um pecado que não tem perdão?
Como fica?
A mulher ofereceu um sorriso simpático e perguntou com doçura no tom de voz:
- Qual é o seu nome, querida?
- Adriana.
- O meu é Lia.
Olhando-a mais de perto, pôde ver seus olhos empoçados em lágrimas que quase rolaram.
Inspirada por seu mentor, a senhora percebeu que a moça trazia um peso imenso no coração.
Acreditou que seria melhor irem para outro lugar.
- Acho que poderíamos ir para aquela sala conversarmos um pouco.
Ficaríamos mais à vontade.
Com gesto automático e influenciada por sua mentora, Adriana pareceu nem pensar no convite.
Levantou-se e a seguiu.
Entraram em uma pequena sala onde podia-se ouvir uma música suave em baixo volume.
Lia fechou a porta e pediu para que a jovem se acomodasse em uma das cadeiras que havia em frente à mesa que ela contornou.
Sentando-se, a senhora perguntou:
- Em que eu posso te ajudar?
Mentores e espíritos amigos sustentavam o lugar com energias salutares.
Espíritos menos esclarecidos, que acompanhavam a jovem, não estavam presentes.
Afugentaram-se pelas vibrações superiores existentes no local.
Adriana sentiu um nó na garganta.
Não deteve algumas lágrimas e mesmo assim disse:
- Eu cometi um pecado mortal...
Sofro muito por causa disso - chorou um pouco.
Tomou fôlego e contou sua história.
Lia ouviu-a atentamente até que Adriana perguntou:
- O que posso fazer para reparar o meu erro?
Será que existe alguma possibilidade de eu ajudar o filho que matei?
- Sabe querida, realmente o aborto é um acto muito sério e preocupante.
- É um crime! - clamou em pranto.
- A partir do momento em que acreditamos na vida antes da vida e após a morte, entendemos que devemos defender a existência de um ser vivo desde o instante da concepção.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:53 am

A moça secou o rosto com um lenço de papel que tirou de uma caixinha sobre a mesa, respirou fundo e contou:
- A culpa, a dor, o arrependimento é tanto que, um dia, saí de casa sem rumo.
Acabei entrando em uma igreja e o padre, que me ouviu em confissão, disse que cometi um pecado mortal.
O pior dos pecados... - chorou.
Após se recompor um pouco, prosseguiu:
- Ele ainda disse que, talvez, Deus tivesse me dado uma nova chance, pois ainda estou grávida.
Falou para eu ser muito boa para, pelo menos, ir para o purgatório e aguardar o juízo final.
Mesmo assim...
Não disse nada mais que aliviasse minha alma.
Saí de lá atordoada. Derrotada.
Andei sei lá por onde e cheguei a outro centro espírita, parecido com este.
Conversei com uma senhora.
Ela me ouviu, disse que meu filho abortado sofreu horrores.
Que ele sentiu, a sangue frio, todo o processo do aborto...
O soluço travou sua voz. Chorou.
- Que ele está revoltado e sofrendo ainda...
Não aguentei. Levantei e a deixei falando sozinha...
Fiquei desesperada.
Pegou mais lenços, secou o rosto e o nariz.
Sem encarar a senhora, admitiu:
- Sei que errei. Fiz meu filho sofrer.
Talvez esteja sofrendo ainda.
Mas para que me torturar ainda mais?
Isso não vai adiantar.
O que eu quero é saber como posso consertar toda essa burrada que eu fiz!...
Sinto um desespero muito grande!
A senhora entende?
Matei meu filho com o aborto, mas... E agora?
Lia se levantou.
Saiu da sala e retornou rapidamente com um copo com água e ofereceu à Adriana que aceitou.
A mulher esperou que ela se recompusesse e explicou:
- Perdoe.
- O quê? - olhou-a sem entender.
- Perdoe aqueles que não são capazes de entender sua dor e seu remorso.
Perdoe aqueles que a culpam por não terem capacidade, competência ou aptidão de perceber que está cansada da dor e quer reparar o que fez.
Sabe, querida, nós geralmente encontramos, nas pessoas que julgam e condenam, almas sem evolução e que têm muito a aprender.
Elas ainda não sabem, sequer, imaginar a dor do outro e pensam, talvez, que explicações rudes esclarecem e consolam.
Mas não é assim que deve acontecer.
- Cometi um crime? Não foi?
- Eu já presenciei palestrantes espíritas que, na tentativa de esclarecer sobre o aborto, acabaram por levar mulheres a crises de desespero e remorso, quando falaram sobre esse acto.
É lógico que o esclarecimento é necessário.
Não podemos esconder a verdade.
Por isso, eu gostaria que você prestasse muita atenção ao que vou te falar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:53 am

Lia aguardou alguns segundos até ver Adriana bem atenta.
Envolvida, pareceu bem mais calma e a senhora disse:
- Hoje em dia, existe muita polémica a respeito do aborto.
Há movimentos pró e contra.
Os que são a favor do aborto se apegam a uma única expressão:
"Somos donos do nosso corpo".
Fora esse, não possuem nenhum outro argumento que seja claro, defensável e útil.
Por outro lado, nós, espíritas, sabemos que a Doutrina Espírita é contrária a qualquer forma de interrupção da vida.
Principalmente, o aborto.
Salvo apenas quando a mãe corre algum risco de morte3.
- Mesmo quando a gravidez é resultado de estupro ou quando o feto tem lesões ou que dificilmente tem a chance de sobreviver?
- Sim. Mesmo em casos de deformidades, poucas chances de sobrevivência ou estupro.
É importante nós considerarmos que, em qualquer um desses casos, existe um espírito, um ser, uma vida, um bebé.
Um bebé que não é culpado pela violência do estupro e que poderá vir ao mundo servindo de instrumento de amor à mãezinha querida.
O correto, pelas Leis Divinas, seria ela procurar cuidar e amar o filho que lhe foi confiado.
Mas, se não conseguir, pode lhe dar a vida e entregá-lo, por meio da doação, a pais caridosos capazes de amá-lo.
- Mas e aqueles que têm probleminha ou pouca chance de sobreviver? - indagou novamente Adriana na tentativa, talvez, de encontrar uma justificativa.
Lia esboçou leve e quase imperceptível sorriso ao se lembrar da resposta da questão 360 de O Livro dos Espíritos:
- "Porque não respeitar as obras da Criação, algumas vezes incompletas, por vontade do Criador"?
Não houve resposta.
Esperou um momento e completou:
- Existem muitos espíritos querendo reencarnar.
Todos merecem viver com seus desafios e o quanto for preciso.
Mesmo que seja só por horas, dias, meses ou anos.
Podem ser espíritos necessitados de pouco tempo de vida no ventre materno ou fora dele.
Espíritos ansiosos por aliviar suas faltas, arrependidos de seus erros e que necessitam tanto de um corpinho imperfeito para harmonizar, mostrar sua força por meio da luta diária para vencer desafios.
Ou ainda, espíritos que se submetem à existência reencarnatória difícil como provas para eles e para os pais.
Observando a moça pensativa, a mulher perguntou:
- Acaso nós temos o direito de eutanasiar, matar nosso filho de cinco, seis ou dez anos de idade caso ele sofra um acidente e fique com problemas motores ou mentais?
Não houve resposta.
Lia explicou:
- Somente ser contra o aborto não é suficiente.
Precisamos entender todo o processo da vida para termos argumentos a fim de defender essa tese.
A partir do momento da concepção, existe um ser cheio de vida, ansioso pelo amor de sua mãe para guiá-lo e fortalecê-lo na experiência de vida.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:53 am

Quando viu lágrimas correrem pela face pálida de Adriana, falou com voz mansa e ponderada:
- Os defensores do aborto não consideram os prejuízos emocionais e espirituais para a mãe e para o bebé.
Se não houvesse prejuízo algum, incontáveis mulheres, assim como você, não estariam sentindo essa dor após o acto.
Todas as mulheres, cedo ou tarde, vão experimentar essa dor, essa culpa.
Quanto mais tarde, pior.
Além disso - prosseguiu em tom brando -, o aborto pode oferecer vários danos ao corpo feminino como:
infecção, obstrução das trompas, insuficiência do colo do útero, lesão no intestino ou na bexiga, hemorragias, graves complicações em uma próxima gravidez, esterilidade e, incontáveis vezes, leva à morte.
Aqueles que tentam, de maneira inquisidora, mostrar o quanto o aborto é cruel, não percebem a sua própria crueldade.
Como eu disse - continuou Lia -, não podemos esconder a verdade, mas precisamos mostrar alternativas de refazimento e reversão desse acto.
- E existe?
Existe um jeito de reverter um crime como esse?
- Tem de existir ou Deus não seria bom e justo.
Sabe filha, eu gosto de lembrar que a culpa pelo aborto não pode sobrecair somente na mulher.
Na grande maioria, os namorados, maridos e pais são responsáveis por essa prática.
Muito provavelmente, a mulher não faria o aborto se recebesse apoio, compreensão e ajuda.
Os namorados ou maridos são homens fracos e incapazes de entender ou apoiar.
Os pais, por outro lado, por causa do orgulho, só pensam na vergonha ou nas despesas.
Precisamos de conscientização.
- Não fosse o Nicolas, eu jamais teria ido sozinha àquele lugar.
Ele me pressionou, me agrediu... - chorou.
- Adriana, Deus sabe exactamente tudo e leva em consideração o desespero e a verdade na ignorância, pois estava te acompanhando.
A Criação vivenciou tudo junto com você.
É impossível esconder algo do Pai Criador.
- Eu não tinha ideia...
Não sabia o que estava fazendo no sentido moral e espiritual.
Mas, de alguma forma, sentia algo errado.
Nunca tive orientação sobre o crime do aborto.
- As parcelas de culpa e de reparo são de acordo com o grau de intenção, desespero e conhecimento.
Não podemos exigir de ninguém.
Por isso, querida, não podemos julgar.
Devemos aprender com Jesus a orientar, não julgar e amparar.
- Sou um monstro.
- Não, meu bem.
Você não é um monstro.
Estamos aqui reencarnados para aprendermos, saldarmos nossas dívidas e evoluirmos.
Se ainda reencarnamos é porque a nossa história pessoal, de incontáveis vidas passadas, foi repleta de erros e bem comprometedora.
Hoje é o passado do amanhã.
Para sermos felizes, temos de acertar e nos corrigir agora.
Fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para não sofrermos tanto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:54 am

- Eu não quero perdão.
Se souber que Deus me perdoou, ainda assim, estarei arrependida e sofrerei dor na consciência ao pensar que esquartejei meu filho.
Se tivesse um jeito de fazer o tempo voltar...
Mas não existe essa possibilidade.
Eu quero corrigir o que fiz, resgatar o meu erro, reverter tudo isso.
Mas como? - falou de modo comovente e sincero.
- Que bênção ouvir isso! - sorriu com feição que emanava esperança.
Sabe, Adriana, muitas pessoas querem perdão pelos erros cometidos.
Somente aqueles que buscam aprimoramento e evolução conseguem pensar como você.
Sabe querida, Deus não perdoa nem castiga.
Somos nós que nos castigamos e nos atraímos para prejuízos de todas as espécies quando descobrimos que nossos pensamentos e acções foram contrários às Leis da Criação.
Também somos nós que nos perdoamos, mas só conseguimos fazer isso quando temos a consciência tranquila pelo equilíbrio que buscamos por meio de novas e saudáveis realizações.
Deus não terá lucro algum, a humanidade não terá lucro algum se você for castigada e punida pelo aborto que realizou.
No entanto, sem dúvida alguma, você receberá todas as bênçãos possíveis se, e somente se, começar a vencer obstáculos e reverter o que fez.
- Como?! Diga-me como posso reverter o que fiz?
Sinto um desespero tão grande, tão intenso...
Uma culpa muito cruel.
Eu não sabia, antes de fazer o aborto, que esse sentimento de culpa, de arrependimento era tão terrível.
Não imaginava que meu filhinho sofreria com o aborto que pratiquei.
Não sabia que o espírito se ligava ao corpo no momento da concepção.
Se eu soubesse...
O olhar maternal de Lia fixou-se em Adriana e comentou:
- O arrependimento dos erros é uma coisa muito boa.
É o primeiro sentimento que exibe nossa evolução.
Mas isso só não é suficiente.
Você não vai se ajudar nem ajudar seu filhinho se ficar somente arrependida.
Na espiritualidade, existe um planeamento antes de nascermos, mais conhecido como planeamento reencarnatório e a ligação psíquica do espírito com seus pais antecede muito a sua ligação com a célula-ovo fecundada, ou seja, o óvulo fecundado pelo espermatozóide.
Quando ocorre o aborto, todo o trabalho de um planeamento reencarnatório foi prejudicado e comprometido.
É preciso que você se movimente e faça algo que possa harmonizar isso.
Os espíritos amigos, que te acompanham, que ajudaram, fizeram e sustentaram todo esse planeamento vão te apoiar.
- Então me diga um meio para eu reverter o que fiz - dizia de modo suplicante.
- Cada caso é um caso.
Cada pessoa encontra um meio diferente de resgatar, reverter ou harmonizar o que desarmonizou.
- Não entendo nada de Espiritismo ou reencarnação, mas não acredito que meu filho aceite reencarnar novamente comigo.
Até porque, muito possivelmente, o pai dele, o Wagner, se estiver bem, quando souber, não vai querer ficar comigo.
- Não fique ansiosa tentando prever ou controlar o futuro.
O futuro só pertence a Deus, porém ele depende de nossos pensamentos, palavras e acções de agora, no presente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:54 am

Ofereceu breve pausa e, por um segundo, rogou inspiração para orientar naquele caso tão delicado.
Envolvida por seu mentor, Lia disse:
- Existem mulheres que praticam o aborto e ficam arrependidas, tristes e depressivas pelo resto da vida.
Nada fazem para harmonizar o que desarmonizaram.
Outras, não ligam e levam a vida acreditando que suas acções não prejudicaram ninguém.
Que o corpo dela é dela. Quanto engano.
Tudo o que temos neste mundo nos foi emprestado pela Criação. Tudo.
Exactamente tudo! Incluindo nosso corpo, perfeito ou não.
Nosso corpo nos foi emprestado para nos aperfeiçoarmos como espírito.
A única coisa que levaremos connosco ao desencarnar é a consciência repleta de nossas realizações.
Desencarnados é que vamos nos deparar com o que fizemos de errado e contra as Leis Universais da Criação.
Incontáveis e indizíveis são o número de espíritos desencarnados que se deparam com o sofrimento consciencial e com as consequências cruéis pelo ato do aborto, por seus corações endurecidos, quando encarnados, que defenderam esse acto ou o praticaram.
Fez breve pausa.
- Outras mulheres, ainda encarnadas, arrependidas por suas práticas, procuraram harmonizar, reverter ou resgatar essa acção.
Sem dúvida alguma, foram amparadas e muitas obtiveram êxito e evolução bem maior do que se não tivessem praticado esse acto.
Mas foi preciso muita coragem, determinação e empenho.
Dessas últimas, cada uma encontrou um meio, um jeito diferente de agir melhor e evoluir por meio de trabalho, caridade e amor.
Algumas, prejudicadas no corpo físico pelo aborto, não podendo ter filhos, partiram para a adopção, orando encontrar o filho abortado.
Tratando como filhos do coração.
- É possível, por meio da adoçam, receber o filho que abortamos?
- Nada é impossível para Deus.
Silêncio.
Vendo-a atenta, prosseguiu:
- Outras mulheres, por falta de condições de adoçam, decidiram se dedicar a trabalhos voluntários em orfanatos, hospitais, instituições que cuidam de crianças com necessidades especiais onde é preciso a presença amiga e querida de alguém.
Você não imagina como hospitais infantis, como o do câncer, por exemplo, como orfanatos carecem de voluntárias e trabalhadoras, não visitantes, para auxiliar com carinho e boa vontade.
Existem até aquelas que puderam ter seus próprios filhos ou mesmo tiveram filhos do coração, pela adoçam, e estudaram, ganharam conhecimento, armaram-se de amor, bom ânimo, delicadeza e boa vontade e decidiram ser palestrantes e defensoras da vida, orientando o quanto puderam, muitas outras pessoas que, como você, ainda dizem:
"Se eu soubesse..."
Fez breve pausa e prosseguiu:
- Se essas mulheres soubessem, tivessem ideia do tamanho dessa dor, assim como você, teriam enfrentado seus namorados, maridos, pais e outras dificuldades.
Teriam enfrentado medos, dúvidas para deixarem seu filho nascer.
Sabe querida, pouquíssimas pessoas são posicionadas, ou seja, têm opinião firme sobre o aborto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:54 am

Isso acontece por falta de orientação, religiosidade e argumentos como lhe expus.
Poucos são os corajosos que defendem a vida, têm entendimento, argumentos filosóficos e religiosidade para elucidarem o crime que é o aborto.
Adriana suspirou fundo e ficou reflexiva por alguns instantes.
Depois perguntou:
- Se eu tomar um desses caminhos, poderei ajudar meu filho?
Quero tê-lo comigo e aliviar minha dor.
- Se não fizer nada, aí sim, tenho certeza de que não vai ajudar seu filho nem tê-lo contigo nem aliviar sua dor.
- Tenho muito o que aprender.
Preciso de conhecimento para entender e saber o que preciso fazer.
Tenho boa vontade.
- Li uma frase ali fora na parede que diz:
"Fora da caridade não há salvação".
Amor é caridade. Trabalho é caridade.
Orientação para o bem é caridade.
Empenho no bem é caridade. Instrução é caridade.
Portanto, devemos salvar nossas almas e consciências com atitudes caridosas.
Existem várias formas de fazer isso, sem falar em dinheiro.
Mas sim na doação de si mesmo.
Dinheiro, algumas vezes, não é caridade, pois o beneficiado pode usá-lo para o mal, para o que não presta, não é bom nem saudável para ele e para os outros.
Dinheiro, também, causa acomodação.
E o doador, sem dúvida, é responsável pelo que proporcionou.
Todos nós seremos responsáveis por nossos actos.
Até os de doações.
Por isso, a melhor doação é ofertar trabalho, informação, instrução e incentivo para o bem.
A mulher sorriu.
Pela primeira vez, Adriana esboçou um sorriso e, embora seu coração estivesse opresso, nele nasceu uma luz chamada: esperança.
Alguns instantes reflectindo e a moça perguntou:
- A senhora disse que muitos espíritos querem reencarnar.
Se é assim, por que acontece o aborto espontâneo?
- Existem inúmeras razões para que o aborto espontâneo ocorra.
Tudo é de acordo com a história de vida de cada um, em incontáveis experiências corpóreas.
Mesmo que não pareça aos encarnados, a ligação com o corpo em formação, geralmente, visa ao melhoramento ou aperfeiçoamento do espírito ligado ao óvulo, embrião ou feto que sofre o aborto espontâneo.
Qualquer gestação, seja de horas, dias, semanas ou meses que, aparentemente, possa parecer um fracasso por causa do aborto espontâneo, serve de enorme benefício evolutivo ao espírito para a reconstituição de seu corpo espiritual, de acordo com suas provas ou expiações.
Embora cada caso seja um caso - Lia prosseguiu -, existem abortos espontâneos também quando, durante a gestação, ocorrem acidentes que comprometem o corpo em formação e o espírito ligado a ele não necessita daquela experiência que poderá ser penosa, desnecessária ou que comprometa sua tarefa terrena, inviabilizando seu nascimento em um corpo saudável.
Quando não existe a necessidade de provas ou expiações em corpo incompatível, o espírito reencarnante, desde que tenha elevação a ponto de escolher, pode recuar no reencarne.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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