Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:07 am

- Como eu já te disse, se ela quiser, posso dar a maior força.
Poderá morar comigo.
Não vou me importar.
Adriana, sentada na cama, encolheu as pernas e remexeu-se ao perguntar:
- Por que você não se casa logo com a Lisa?
- Ainda não sei. - ele sorriu, detendo as palavras.
- Vocês se dão bem.
- Quero juntar uma grana, comprar uma casa.
Não me agrada morar de aluguel.
- Mas você já tem grana para comprar uma casa.
Deixa de ser regulado.
Você gosta dela? - tornou curiosa.
- Gosto. Mas é que. - riu.
No instante seguinte, pegou o travesseiro e atirou nela.
Adriana pegou o travesseiro no ar e riu gostoso, devolvendo-o em seguida.
- Você só está enrolando a menina!
Daniel se levantou, ainda ria quando saiu do quarto sem dizer nada.
Antes de ir dormir, Adriana foi à procura de sua mãe.
Encontrando-a na sala assistindo à televisão, perguntou:
- E aí?
- Tudo bem.
- E o pai?
- Sempre a mesma coisa.
Chegou daquele jeito, falou tudo o que queria, jantou e foi dormir.
- Em plena segunda-feira e já está enchendo a cara!
Imagine quando chegar o fim de semana.
- Seu pai sempre fez isso. Você sabe.
Deveria se acostumar.
Adriana ficou pensando no que o irmão havia dito.
De facto, sua mãe estava conformada com a situação e parecia se fazer de vítima. Isso era estranho.
- E o que a senhora vai fazer, mãe?
- Porque você e seu irmão ficam me fazendo cobranças? - a mulher perguntou.
- Porque a senhora é nossa mãe! - disse sussurrando.
Queremos seguir nossas vidas e não vamos ficar bem se soubermos que a senhora está se submetendo aos maus-tratos do pai.
Veja. Eu vou me casar daqui a três meses!
O Daniel disse que não aguenta mais continuar morando aqui!
Então, como vai ser?
- Case-se e siga a sua vida! - sussurrou no mesmo tom.
Deixe o Dani seguir a vida dele! Sejam felizes!
- Mas, mãe, a senhora não pode continuar vivendo dessa forma submissa.
A senhora é uma pessoa instruída.
Já está aposentada e ainda trabalha!
É produtiva, bonita, sensata.
Não quero que fique aqui, sofrendo desse jeito.
Eu não posso me casar e tentar viver a minha vida com tranquilidade imaginando que a senhora está.
Vivendo como vive! - falou, impostando piedade na voz e estampando, na face alva, um semblante preocupado.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:07 am

Heloísa, que estava sentada sobre as pernas e apoiada no braço do sofá, ajeitou-se ao lado da filha e virou-se.
Com olhar entristecido, fitou-a firme e pediu com voz branda:
- Sigam seus caminhos.
Lembre-se de que ficar com seu pai é escolha minha.
- Mas, mãe!.
- Não tem mas! É minha escolha.
Case-se e pronto!
Sentindo uma amargura indescritível, Adriana experimentou os olhos aquecerem por lágrimas que brotaram, mas não caíram.
Num impulso, abraçou-se a sua mãe e se apertaram com força e carinho.
O abraço durou alguns minutos.
Emocionadas, afastaram-se.
Com a voz trémula e tentando disfarçar o que sentia, Heloísa sugeriu:
- Vá se deitar, vai.
Amanhã precisa levantar cedo.
- Tá bom. Boa noite, mãe.
No instante seguinte, lembrou:
- Ah! Eu e o Daniel vamos deixar dinheiro para comprar um chuveiro novo.
Daria para a senhora fazer isso amanhã?
- Sim. Dá.
E quem vai colocar? Ele?
- Peça para o senhor Olímpio.
Vamos deixar dinheiro para pagar o serviço.
- Tudo bem. Pode deixar que amanhã cuido disso.
Sorriu e disse:
- Boa noite! Durma com Deus.
- Boa noite, mãe.
Ao entrar no quarto, em que dormia com o irmão, Adriana ouviu Daniel dizer:
- Espera aí. Ela está chegando.
Tchau! - ele falava ao celular da irmã.
Obviamente, havia atendido o aparelho.
Entregando o telefone para ela, avisou:
- É o Nicolas.
- Oi, amor! Tudo bem? - sorriu e entoou a voz de um jeito mimoso.
Sem que ela visse, Daniel franziu o semblante e, com uma careta, fez uma dublagem das palavras da irmã, como uma mímica para arremedá-la.
Rindo de si, o rapaz se deitou e virou para a parede, deixando-a conversar com o noivo.
No dia seguinte, Heloísa já havia preparado o desjejum de todos, quando os filhos levantaram.
Adriana, bem arrumada, sentou-se à mesa frente ao irmão para tomar café e perguntou:
- E o pai?
- Está dormindo - respondeu a senhora.
- Se continuar assim, vai ser demitido como foi dos outros empregos - disse a moça.
- Passe o leite - pediu o irmão.
Enquanto se servia, Daniel reclamou:
- Vou pedir um favor, maninha.
Da próxima vez que aquele sujeito ligar, vá atender em outro canto - embora brincando, falou sério.
- Ah. Não amola - ela riu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:07 am

- É sério! Eu estava dormindo quando seu celular me acordou.
Depois vocês ficaram tagarelando até!
- Daqui a alguns dias, você vai ficar livre de mim.
- Não vejo a hora - murmurou.
Riram.
Conversaram mais um pouco.
Estavam animados até que Jaime chegou à cozinha e trouxe consigo uma aura escura, e companheiros espirituais desarmónicos com o bem-estar dos filhos que, no mesmo instante, ficaram sérios.
Mesmo sem o efeito do álcool, espíritos que se compraziam na bebida o acompanhavam para incentivá-lo a beber mais, na primeira oportunidade.
- Por que não me acordou antes? - ele perguntou à esposa com modos rudes.
- Olha aqui, pai! - ressaltou Daniel, com firmeza.
Sabia que, sóbrio, seu pai não iria investir ou brigar.
- Cada um de nós tem que saber quais são as próprias responsabilidades e deveres nesta casa.
A mãe não é empregada de ninguém.
- É que ela acordou cedo.
Custava ter me chamado?
- Custava sim.
O senhor sabe o porquê de não ter acordado com o despertador, não sabe? - perguntou o filho no mesmo tom.
Não houve resposta.
No entanto, Heloísa justificou:
- Eu o chamei, Jaime.
Pensei que tivesse ouvido.
Vim fazer o café e você não levantou.
Adriana, que não gostava de se envolver, levantou-se e disse:
- Com licença gente.
Deixe-me escovar os dentes.
Não quero chegar atrasada.
- Quer uma carona até o metrô? - perguntou o irmão.
- Hoje quero sim! - alegrou-se.
- Então se apressa!
De cabeça baixa, parecendo envergonhado, o marido pediu:
- Me arruma algum remédio, aí, pra dor de cabeça.
A esposa ia se levantar, quando o filho se intrometeu:
- Não, né, mãe!
A senhora está tomando café igual a ele.
Por que deveria ir pegar se quem está com dor de cabeça é o pai?
- Num sei onde está os remédios - o homem retrucou, falando errado.
- Ali! - Daniel apontou. - Naquele armário.
Dentro de uma caixinha.
O senhor pode, muito bem, ir lá pegar.
Sem dizer nada, Jaime se levantou vagarosamente e foi a procura do remédio.
Daniel terminou seu café e foi se arrumar.
Ao se ver a sós com a esposa, o marido a olhou com ódio e comentou com a voz rouca, dizendo com os dentes cerrados:
- Olha como seu filho me trata.
Só porque é grandão, machão pensa que pode comigo.
Qualquer hora ele vai ver. E você também.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:07 am

Ela nada disse.
Abaixou a cabeça e se levantou.
A caminho do metrô, Daniel brincou com sua irmã:
- Não vai tomar banho com suco hoje, não é?
- Nem brinca! - ela riu gostoso.
Ai!. Quando eu reconheci o homem e vi que era ele o director que tinha feito aquilo comigo na cafeteria.
Nem te conto!
- Deve ter ficado envergonhado, lógico!
- Acho que sim.
Quando foi apresentado como director de minha seção, nem acreditei.
Cheguei a duvidar que fosse ele, pois estava tão sério.
Mas a forma como me olhou.
Eu quase ri na frente de todo o mundo.
- Como ele reagiu?
Falou alguma coisa na hora?
- Ficou bem sério. Na dele.
Manteve toda a classe.
Depois, na sala dele, conversamos e só então riu um pouco.
Mesmo assim, com moderação.
Ele me pediu desculpas pelo suco.
Daí eu fiquei com vergonha, pois o tinha chamado de idiota e mandado olhar por onde andava. - riu.
Ele não esqueceu isso - gargalhou.
- Ele é véião?
- Nada! Deve ter a sua idade.
- Sério?! Director executivo de uma empresa como aquela, tendo cerca de trinta anos!
É de se admirar.
- Também achei.
Os demais directores são todos de meia idade.
Continuaram conversando até que o trânsito, que já se encontrava lento, parou totalmente.
- É. Eu estava adiantado - reclamou Daniel em tom insatisfeito.
Cada dia este trânsito está pior.
- Que droga, né?
E ainda teve que desviar do seu caminho para me levar ao metrô - a irmã reconheceu.
- É.
Seguiram lentamente e em silêncio até que Adriana olhou pela janela e viu o motorista do carro ao lado sorrir e acenar levemente com a cabeça, fazendo um cumprimento.
Naquele instante, seus olhos se arregalaram.
Sentiu a adrenalina ser injectada em seu corpo e experimentou o famoso frio na barriga.
Ela também sorriu, com delicadeza, e acenou levemente a cabeça.
Virando-se para seu irmão, falou baixinho, exibindo sua surpresa:
- É ele!
- Quem? - Daniel não entendeu.
- Meu director.
É ele aqui no carro ao lado - murmurou.
Ambos olharam na direcção de Wagner e, desta vez, foi Daniel quem cumprimentou da mesma forma.
Em seguida, Daniel voltou-se para a direcção do carro e sorriu de um modo diferente.
Havia um ar de molecagem em seu semblante, que se iluminou com um jeito maroto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 03, 2017 10:08 am

Tentando ser discreto, sussurrou ao sorrir e contar seus planos de maneira persuasiva:
- Bem que ele poderia te levar.
Aí eu pegaria aquele acesso e cairia na Marginal para Pinheiros - referiu-se à via e ao bairro para onde iria.
E continuou com o mesmo jeito de moleque quando disse:
- Abaixa o vidro aí e cumprimenta direito o cara.
- Nem pensar! Ficou louco?! - ela falou bem baixinho e muito contrariada.
- Fiquei. Claro que fiquei.
Hoje não posso me atrasar - afirmou sorrindo e falando entre os dentes para, talvez, deixá-la mais nervosa.
O irmão parecia se divertir com a situação.
- Se você fizer isso, eu desço deste carro e sigo a pé.
- Abre o vidro e conversa com o cara - tornou a pedir.
- Não! - ficou zangada.
Daniel accionou o vidro eléctrico da porta do passageiro, cujo botão também ficava do seu lado.
Mesmo vendo a irmã em desespero, gesticulou para Wagner.
Fez um gesto singular, ao erguer um braço e com a outra mão, bateu no relógio, indicando que o tempo passava e que estavam atrasados por causa do trânsito.
Wagner também sorriu.
Desceu o vidro de seu carro e reclamou, colocando a cabeça parcialmente para fora:
- Hoje está bem difícil mesmo!
Inclinando o corpo para o lado do banco onde estava a irmã e colocando a cabeça a frente dela, que permanecia imóvel, Daniel disse em voz alta para o outro ouvir:
- Acho que aconteceu algum acidente!
- Também acho! - Wagner gritou.
- Pior que vou deixá-la no metrô.
E ainda tenho que voltar pra pegar a marginal para ir para Pinheiros!
Justo hoje que não poderia me atrasar.
- Não vai para Paulista? - Wagner perguntou.
- Não. Vou só deixá-la no metrô.
Depois ainda vou pra Cidade Universitária - referiu-se à região para onde iria.
- Você não fez isso! - murmurou Adriana imóvel e incrédula.
Um momento pensativo e Wagner propôs:
- Se você não se importar, a Adriana pode vir comigo.
Assim você pega a ponte, logo ali na frente, e segue para Pinheiros.
Sem coragem de olhar para o director, a moça voltou-se para o irmão e disse baixinho e vagarosamente:
- Eu mesma vou matar você e usando as minhas próprias mãos!
- Desce do carro - o irmão murmurou, com um largo sorriso no rosto.
E toma cuidado com as motos! - exclamou Daniel rindo e falando entre os dentes.
Virando-se para o outro, agradeceu:
- Pôxa! Muito obrigado.
Não imagina como me ajudou!
- Venha, Adriana!
Toma cuidado com as motos! - pediu o director.
- Desce! - sussurrou o irmão exclamando e exigindo com um sorriso no rosto.
Observando-a quieta, Daniel deu-lhe um beliscão e a viu sobressaltar do banco.
Wagner notou o movimento brusco de Adriana e não entendeu.
Por isso, sorriu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:42 am

Como não haveria outro jeito, a moça fuzilou o irmão com os olhos e desceu do carro.
Aproveitando o trânsito parado, contornou o outro veículo enquanto Wagner abriu a porta para que ela entrasse.
Daniel sorriu largamente e, com jeito de molecagem, ainda pediu passagem para o Wagner, a sua direita, a fim de pegar o acesso viário de que precisava.
Adriana sentia-se esquentar.
Não sabia o que fazer nem como reagir.
O director percebeu seu constrangimento e a cumprimentou:
- Bom dia! Tudo bem?
- Bom dia - respondeu séria.
- Bem... Te dar uma carona é o mínimo que eu poderia fazer depois de ontem cedo - disse ao olhá-la de cima a baixo.
- O senhor não esqueceu? - tentou sorrir, envergonhada pelo que o irmão havia feito.
O rapaz sorriu largamente ao responder:
- Aquilo não é algo para se esquecer.
Mas fique tranquila.
Hoje já tomei café da manhã - ofereceu um sorriso bonito, que ela admirou sem comentar.
Ficaram em silêncio.
Não sabiam o que conversar.
O trânsito encontrava-se parado e ainda era possível ver o carro de Daniel tentar pegar o acesso para a marginal.
Adriana estava completamente sem assunto e ele percebeu.
Por um momento, o rapaz se questionou, em pensamento, se havia feito a coisa certa.
Afinal, mal a conhecia.
Além disso, era o director que chegaria à empresa acompanhado da analista recém-contratada.
Porém, já tinha feito.
Não podia mudar a situação.
Tentando relaxar, Wagner tirou do noticiário, na rádio CBN, e colocou uma música.
- Importa-se? - perguntou.
- Com o quê? - Adriana não entendeu.
Achava-se perdida em seus pensamentos.
- Com a música.
- Ah... Não. Gosto de música.
Algum tempo depois, o moço comentou:
- O seu noivo pegou o acesso para a Marginal Pinheiros só agora - havia reparado a aliança de noivado na mão direita da moça e deduziu que Daniel fosse o noivo.
- Ele não é meu noivo. É meu irmão.
- Irmão?! - achou graça.
Pensei que fosse seu noivo.
- Não. Mas acho que amanhã serei filha única.
Wagner riu.
Entendeu a situação e o que ocorreu no carro antes de ela descer.
Mesmo assim, perguntou:
- Por quê?
- Vou matá-lo hoje à noite quando chegar a minha casa.
Ele achou graça novamente e quis saber:
- Como foi que aconteceu? Você me viu.
Disse a ele que eu joguei suco em você ontem.
Ele estava atrasado e resolveu te despejar do carro?
- Foi mais ou menos isso - pareceu mais descontraída.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:42 am

O Daniel, meu irmão, estava se atrasando por minha causa.
Eu vi o senhor e disse a ele quem era.
Então, quis que me desse carona.
Eu não queria, mas ele insistiu.
Abaixou o vidro do carro e começou com aquela conversa.
Desculpe-me. Estou envergonhada.
- Que nada.
Seu irmão só não queria se atrasar.
- O Daniel é muito pontual.
Gosta de tudo certinho.
- E você, também?
- Também - sorriu lindamente.
Seguiram um pouco mais e Wagner perguntou:
- E o seu noivo? Faz o quê?
- O Nicolas trabalha na empresa que eu saí.
Souberam que estamos noivos e que vamos nos casar em três meses e...
Fui demitida. Normas da empresa.
- Aaaah! Então, ontem, quando me disse que não sabia a razão de ter sido demitida, mentiu? - riu.
- Não exactamente - respondeu com um sorriso gracioso.
- Explique-se - sorriu e olhou-a demoradamente.
- Eu fui, simplesmente, demitida junto com outras três pessoas.
Não me disseram a razão.
Mas, conversando com pessoas conhecidas que trabalham nos Recursos Humanos, fiquei sabendo que foi por estar noiva de outro funcionário.
- Sei.
Breve pausa e indagou, embora ela já tivesse dito:
- Vai se casar em três meses?
- Sim. Vou.
- Já está mobiliando a casa?
- Um apartamento, na verdade.
É, sim, já está mobiliado.
- Há quanto tempo estão noivos?
- Três anos entre namoro e noivado.
- Pôxa! - ele se mostrou admirado.
- Por quê? - não entendeu sua admiração.
- É por isso que minha noiva está zangada - sorriu.
- Por quê? - ficou curiosa.
- Porque, entre namoro e noivado, já se passaram muitos anos... - riu novamente.
Não quis dizer há quanto tempo era compromissado.
- E por que não se casam?
No mesmo instante, Adriana se achou muito atrevida com a pergunta.
Afinal, Wagner era seu director.
Estava sendo muito indiscreta.
Por isso, desculpou-se:
- Perdão. Eu não quis ser invasiva ou desrespeitosa.
- Não foi.
Nós não nos casamos porque ela resolveu fazer faculdade mais tarde e eu achei melhor que terminasse o curso.
Assim ganharíamos tempo para comprarmos um apartamento e ajeitarmos mais a vida.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:43 am

Ano que vem nos casamos.
Já estamos ajeitando tudo - sorriu com uma expressão diferente no olhar.
Uma espécie de saudade.
- Nós nos vemos tão pouco...
Um momento e relatou:
- Nós nos conhecemos desde criança - sorriu.
Estudávamos na mesma escola.
Wagner a olhou por um instante e pôde ver sua feição agradável.
Adriana pareceu interessada e ele viu um brilho curioso e vivaz em seu olhar.
Sabia que mulher, geralmente, é romântica e gosta de uma história de amor.
Por isso resolveu contar a sua:
- A Sabrina é cinco anos mais nova do que eu.
Quando eu era adolescente, fiz muito bullying com ela - riu.
Um dia, nós nos encontramos.
Era meu último ano do colégio ou ensino médio, como é chamado hoje.
Ela trabalhava para o evento de formatura.
Comissão de formatura.
A minha formatura... - achou graça.
Precisei tratar de vários assuntos com ela e...
Nós nos aproximamos e...
Eu já não era mais o menino bobo e imaturo de antes.
Por sorte, ela não guardou rancor.
Nós nos aproximamos e começamos a namorar.
Vim fazer faculdade em São Paulo e comecei a trabalhar aqui.
- O senhor não é de São Paulo? - admirou-se.
- Não. Sou de Peruíbe.
Cidade litorânea. Sul do estado de São Paulo.
Conhece?
- Conheço. É uma cidade praiana linda!
- É mesmo. Bem planeada.
A Sabrina, minha noiva, ficou lá e eu vim pra cá.
Arrumei emprego e continuei estudando.
Só nos vemos em alguns fins de semana.
Nem sempre dá para viajar. Acaba ficando caro.
- Quando ela terminar a faculdade, deve vir para São Paulo, não é mesmo?
- E virá casada - sorriu.
- Seus pais moram em Peruíbe?
- Moram.
- O senhor não tem família aqui?
- Não. Ninguém.
Sorriu ao lembrar:
- A Hilda, minha assistente executiva, é como uma mãe para mim.
Sempre foi. Desde que a conheci, na empresa, quando eu era estagiário...
Pensou em contar que já havia morado na casa da Hilda, mas achou que não seria conveniente.
Então, omitiu.
- Depois de um tempo na empresa, comprei um apartamento e moro sozinho.
No começo, foi complicado.
Estranhei muito.
Hoje, já estou acostumado.
Se bem que tem dia que não tenho nada para o café da manhã porque esqueci de comprar.
Aí tenho de tomar café na rua e derrubar suco em alguém para animar meu dia.
Riram e continuaram conversando até chegarem ao destino.

1. Nota da Médium: Efeitos e prejuízos físicos e espirituais do álcool é explicado com detalhes no livro: O Resgate de uma Vida - da mesma autora espiritual.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:43 am

Capítulo 4 - Criando oportunidades

Wagner deixou o carro no estacionamento de sempre.
Cumprimentou os manobristas, e um deles perguntou:
- Vai ser lavagem completa hoje, chefe?
Wagner olhou para o veículo, observou seu estado e confirmou:
- Sim. Capricha, hein!
- Pode deixar, chefe!
Quando saíram do estacionamento, caminharam lado a lado pela calçada.
O rapaz olhou o relógio e comentou:
- Pensei que fôssemos nos atrasar, mas deu tempo.
- O trânsito estava terrível.
- Foi por causa daquele acidente.
Depois que passamos por ele, o tráfego fluiu.
Assim que chegaram próximo ao prédio onde trabalhavam, Adriana, que não aguentava a pressão dos próprios pensamentos, disse em tom nervoso:
- Olha, doutor Wagner...
Eu peço desculpas, novamente, pelo que meu irmão fez hoje cedo.
Foi bem desagradável e estou muito envergonhada.
- Está tudo bem, Adriana.
Não se preocupe - sorriu, achando graça de seu constrangimento e nervosismo.
Ao se aproximarem das catracas, que ficavam na portaria do edifício, o crachá da moça não funcionou. Por isso não conseguia entrar.
O rapaz parou ao lado e, com seu crachá na mão, ficou aguardando.
Ele poderia ter passado na catraca ao lado, mas não quis.
Decidiu esperar para ver como aquilo se resolveria.
Adriana tentou várias vezes.
Mudou de catraca, mas seu crachá não liberava a passagem.
Vagarosamente, um segurança se aproximou e a moça se queixou:
- Bom dia. Não sei por que não está funcionando.
- Bom dia - respondeu o homem que pegou o crachá da mão da jovem e tentou, ele mesmo, liberar a passagem.
É. Não está funcionando.
Observando o nome e a foto de Adriana, pediu:
- A senhora tem um documento com foto, por favor?
Ela abriu a bolsa e começou a revirar, procurando sua carteira.
Diante da demora, ficou inquieta, tentando disfarçar o nervosismo.
- Pôxa vida! - murmurou baixinho.
Não... Não estou encontrando e...
Ai, meu Deus! - falou mais alto.
- Algum problema, dona Adriana? - Wagner perguntou, tomando uma postura conservadora e formal, o que era exigido pela empresa.
- Não estou encontrando minha carteira e...
Olhou para ele expressando aflição, parecendo pedir ajuda.
O director virou-se para o segurança, que o conhecia de muito tempo, e pediu:
- Pode liberar a entrada da dona Adriana.
Ela trabalha na minha directoria.
- Sim senhor - concordou o homem que foi até uma mesa, pegou um cartão de liberação da catraca e deixou a funcionária entrar.
Nitidamente nervosa, ela agradeceu e caminhou a passos lentos para o hall onde ficavam os elevadores.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:43 am

Sério, ao seu lado, Wagner, olhando para o indicador dos andares na parede, disse sem encará-la:
- Quer dizer que, se não fosse seu irmão ter pedido carona hoje cedo, você teria chegado ao metrô e precisaria retornar a pé para sua casa, pois não teria como pagar a passagem. Certo?
- Sim senhor.
Eu teria de retornar para casa - concordou em tom inconformado.
Esqueci carteira, cartão, bilhete, crachá, documentos... Tudo.
Não tenho um único centavo! - murmurou, exclamando.
- Como foi acontecer isso? - perguntou curioso e sorrindo, sem encará-la.
- Eu troquei de bolsa, pois... - calou-se.
- Pois?... - ele quis saber diante da demora.
- A bolsa que eu usei ontem ficou molhada com suco de laranja - respondeu baixinho com um sorriso nos lábios.
Sem olhá-la ainda, ele riu com discrição e pendeu com a cabeça positivamente fitando as portas fechadas a sua frente.
Quando o elevador chegou, entraram juntos com outras pessoas e não foi dito mais nada.
Já em seu andar, passou por sua secretária, que o cumprimentou:
- Bom dia, doutor Wagner!
- Bom dia, Hilda! Venha até minha sala, por favor - solicitou, enquanto caminhava sem olhar para a assistente.
A mulher o acompanhou e fechou a porta assim que entrou.
O director pegou o celular e disse:
- Nem sei direito como se faz isso, mas...
Tem algumas fotos aqui e eu queria que você desse um jeito de copiar e mandar revelar.
- Todas? - ela quis saber.
- É... Acho que sim.
Nem sei mais o que tem aí.
Ontem eu fui ao mercado e fiz aquilo que te falei.
- Tirou fotos dos iogurtes nas prateleiras?
- Tirei. A dona Adriana tem razão.
Toda a razão.
Precisamos preparar alguns relatórios sobre isso e anexar as fotos.
Quero que agende uma reunião com o pessoal do marketing e da produção também.
Depois veja a cotação de vendas.
Quero isso para antes da reunião.
Verifique se os demonstrativos...
- Calma... Espere aí - pediu a mulher, com voz branda.
Estou anotando, mas...
Pelo menos hoje, vá devagar porque eu esqueci meus óculos.
Estou lenta para ler e escrever.
Depois de fazer as anotações, ela avisou:
- Seu almoço com os directores da rede de hipermercados foi cancelado e reagendado para a próxima terça-feira. E...
- E?...
- Não estou conseguindo ler.
Esqueci meus óculos...
Que coisa... Nem a própria letra...
Escrevi isso ontem - falou baixinho, em tom agradável.
Quando a assistente disse isso novamente, Wagner se lembrou de Adriana que tinha esquecido a carteira.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:43 am

Ele sorriu sem perceber.
De imediato, ficou pensando que a funcionária não teria dinheiro para almoçar nem para ir embora.
De certa forma, a culpa por aquilo ter acontecido, talvez, fosse dele.
Foi por tê-la molhado que precisou trocar de bolsa e esqueceu a carteira.
- Está feliz? - perguntou a secretária.
- Feliz? Eu? - indagou, parecendo surpreso com a pergunta.
- Sim. Feliz.
Está rindo à toa, e eu não contei nenhuma piada.
- É que eu me lembrei de uma coisa.
- Se for engraçada, pode me contar.
Estou precisando rir também.
- Então eu aconselho que vá ao teatro assistir a uma boa comédia, Hilda.
Eu não sou palhaço! - brincou.
- É que parece - murmurou.
- Por quê? - riu ao indagar.
Ficou imaginando o que ela inventaria.
A assistente o olhou de cima a baixo e respondeu:
- Porque essa gravata não combina com nada.
Ela é pior do que a que eu comprei ontem.
Quer usar a de ontem? Eu guardei.
- Não é pior não!
- Não discuta comigo.
O senhor sabe que eu sempre tenho razão.
Agora... Com licença.
Vou cuidar da minha vida e do meu trabalho.
Wagner riu ao vê-la sair.
Mas pegou a ponta da gravata e olhou, demoradamente, para ter uma opinião melhor.
No decorrer da manhã, durante as poucas pausas no trabalho, ele sempre se lembrava de Adriana e do que aconteceu.
Em alguns momentos, achava graça ao recordar a feição da moça e de seu constrangimento com o que o irmão havia feito.
Em outros, preocupava-se por ela não ter dinheiro para almoçar nem retornar para casa, embora não fosse de sua conta.
Aquilo começou a incomodá-lo.
Passou a experimentar um sentimento de culpa misturado à ansiedade.
Ficou imaginando como ela poderia resolver a situação.
A hora do almoço já havia avançado e o director não tinha ido fazer a refeição.
Demorou demais com alguns assuntos que analisava.
Apesar disso, recordava-se da funcionária e gostaria de saber o que ela tinha feito.
Não conseguindo se conter, Wagner saiu de sua sala e passou pela mesa de sua assistente, que não estava.
Imaginou que Hilda deveria ter ido almoçar.
Inquieto, foi até a sala onde os analistas ficavam.
Para seu alívio, a gerente daquele sector também não se encontrava.
A seção estava praticamente vazia.
Se encontrasse Juçara, não saberia justificar sua presença ali.
Ele olhou em volta e, por sobre as divisórias, viu o topo de uma cabeça no lugar onde Adriana se sentou no dia anterior.
Aproximou-se. Sem perceber, sorriu quando confirmou, pelas costas, que se tratava da funcionária que queria ver.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:44 am

Sem ser visto, chegou bem perto e perguntou em tom brando:
- A senhora não foi almoçar?
Apesar do susto, Adriana se conteve.
Virou-se rápido e sorriu ao responder:
- Não senhor.
Para justificar sua presença no sector, indagou para disfarçar:
- E a dona Juçara?
- Não chegou do almoço.
Mas deve voltar logo - olhou o relógio.
Wagner fez o mesmo. Eram 13h45min.
O rapaz respirou fundo. Espargiu o olhar enquanto pensava e decidia. Então pediu:
- Daria para a senhora vir até minha sala, por favor?
- Sim senhor - concordou, levantando-se.
A analista o acompanhou até o outro andar.
Já na sala da directoria, ele sentiu-se à vontade para falar de uma forma diferente e dispensou o tratamento formal, chamando-a directo pelo nome:
- Sente-se, Adriana.
A funcionária obedeceu, enquanto o director contornava sua mesa.
Acomodado na cadeira, com semblante sério, olhou-a directamente e comentou:
- Ontem fui ao mercado e segui suas sugestões para observar os produtos nas prateleiras.
- E então? - indagou com expectativa.
- Estou documentando tudo para apresentar na próxima reunião.
A dona Hilda já mandou revelar as fotos.
Pegou um envelope amarelo que a secretária trouxe, o qual nem havia aberto, e entregou à Adriana.
Veja você mesma.
A moça abriu e começou a passar pelas fotografias, olhando, demoradamente, uma a uma.
Bem discreta, sorriu.
Ele percebeu algo enigmático que não pôde entender.
Adriana colocou as fotos de volta no envelope e perguntou:
- O senhor vai anexar tudo?
Digo, todas as fotos?
- Sim. Tenho que apresentar provas do que digo e...
Não acha que seja o ideal?
- Sim. Sem dúvidas, mas...
Seria bom o senhor olhar tudo antes de anexar o envelope todo.
Não acha? - sorriu, contorcendo o rosto, como se segurasse a risada de algo muito engraçado.
Wagner ficou desconfiado.
Pegou o envelope de fotografias das mãos da moça, abriu-o e começou a olhar.
Assim que passaram as fotos tiradas no mercado, surgiram outras que nada tinham a ver com o que queria.
Eram fotografias de seu cachorro, que vivia na casa de seus pais.
Várias. Logo surgiram outras:
dele mesmo e algumas de sua noiva.
Nada comprometedor, porém engraçadas.
Ele sentiu o rosto queimar.
Sorriu e pendeu a cabeça negativamente.
Ficou sem graça.
- Bem eu... Lógico.
Vou seleccionar as fotos.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:44 am

Olhando para a funcionária, viu que a moça abaixou a cabeça e tentava disfarçar o sorriso.
- Desculpe-me.
Eu... - ela ensaiou dizer, mas não segurou o riso.
Ai... Perdoe-me.
- Não. A culpa é da dona Hilda.
Adriana ficou séria ao vê-lo falar de um modo denotando gravidade.
Não sabia que se tratava de uma brincadeira.
Vendo-a intrigada, mudou de assunto e perguntou:
- Você não almoçou hoje, não é mesmo?
- Muitos imprevistos vêm acontecendo comigo nos últimos dois dias.
Isso não é normal.
Primeiro, não tenho dinheiro para almoçar.
Segundo, vai ficar bem desagradável pedir dinheiro emprestado para alguém logo no segundo dia de serviço.
Não conheço ninguém.
E... Terceiro, se eu sair, será muito complicado entrar na empresa de novo e passar pela portaria.
O RH está resolvendo o problema com meu crachá.
Wagner pensou por um momento sobre o que já havia decidido e convidou:
- Vamos almoçar - levantou-se.
- Mas...
- Hoje você vem comigo.
Quero mais informações sobre o nosso concorrente e sei que isso você tem - sorriu.
Estando comigo, não terá problemas na portaria para entrar e nem precisará pagar a conta.
Nem ele mesmo entendeu como pôde fazer aquele convite daquela forma.
A moça, também surpresa, ficou confusa.
Mesmo assim, pôs-se em pé e aceitou, pedindo:
- Deixe-me passar na minha sala para pegar minha bolsa.
- Precisa mesmo dela? - ele sorriu.
Afinal, está sem carteira e sem documento.
- É mesmo.
Durante o almoço, o principal assunto foi sobre a empresa concorrente onde Adriana havia trabalhado.
O director ficava atento a todas as informações possíveis.
Vez e outra riam de algum assunto e faziam planos estratégicos.
Adriana era esperta.
Sabia falar e se comportar de forma bem discreta.
Parecia escolher cada palavra e ele reparou isso.
Muito educada, em determinado momento, ela pediu licença e foi até a toalete.
Sozinho à mesa, Wagner fez sinal ao garçom que o conhecia, pois costumava almoçar ali com certa frequência.
- Você me traz uma água, por favor - ele pediu, vendo o homem se aproximar.
Enquanto anotava, o garçom indagou:
- Sua noiva vai querer o mesmo?
- Não... Ela... Não sei.
Traga a água depois eu pergunto a ela.
- Só um momento - disse e se afastou.
Wagner olhou para a própria mão e observou sua aliança de noivado.
Nesse momento, Adriana retornou e se acomodou a sua frente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:44 am

Ele olhou para a mão da moça e comentou:
- Você reparou que as nossas alianças são iguais?
Ela olhou para a própria mão.
Reparou os frisos e os desenhos da aliança.
Depois para a mão dele e sorriu, respondendo:
- Não. Eu não tinha reparado.
São idênticas!
- Pois é. O garçom reparou - ficou sem graça.
Não sabia o que dizer.
O garçom serviu a água e Wagner questionou:
- Quer uma água ou mais alguma coisa?
- Não. Obrigada.
- Podemos pedir a conta? - indagou educado.
- Sim. Claro.
Virando-se para o homem, solicitou:
- Você traz a conta pra gente, por favor.
- Só um minuto.
Wagner serviu-se com a água e Adriana ficou em silêncio, observando o pouco movimento do local, até que a conta chegou e o rapaz pagou.
Levantaram-se e, quando iam saindo do restaurante, ele quis saber:
- Você mora na Zona Norte, não é?
- Sim. Moro.
- Como pretende ir embora?
- Liguei para meu irmão, mas não consegui falar com ele.
Mais tarde vou tentar de novo e ver se ele dá um jeito de passar aqui para me levar.
- Mas é muito contramão. Não acha?
- Não tenho alternativa - disse.
- Eu também moro na Zona Norte.
Posso te dar uma carona.
Afinal, estou me sentindo responsável por você ter esquecido sua carteira.
- Não se preocupe.
Nem pense assim. Fui distraída.
Meu irmão ficou me apressando para sair hoje cedo e, na pressa de trocar de bolsa, não prestei atenção.
- Mesmo assim, aceite a carona.
Não é nada demais.
A ansiedade tomou conta de Adriana.
Não sabia dizer se aquilo estava certo.
Pensou por um momento.
Seria difícil Daniel passar lá para pegá-la no trabalho.
Sabia disso.
Alguns instantes e respondeu, perguntando:
- Não vou incomodar?
- Não - sorriu de modo agradável.
- Então, por força das circunstâncias, eu preciso aceitar.
- Quando eu for embora, te ligo.
Geralmente, isso acontece bem depois do fim do expediente - riu.
- Por mim, tudo bem.
O expediente já havia terminado.
Muitos funcionários tinham ido embora.
Na sala da directoria, Hilda apresentava ao chefe alguns documentos e o fazia assinar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:44 am

- A sua noiva ligou.
Pedi para que retornasse a ligação para ela assim que chegou do almoço.
- E eu não retornei? - falou sério, mas com um toque de brincadeira na voz.
- Não. Apesar de eu tê-lo avisado duas vezes.
- Ligo quando chegar ao ap - referiu-se ao apartamento.
Breve instante e disse:
- A propósito, Hilda, você está demitida.
- Por que, agora? - indagou com muita naturalidade.
- Você revelou todas as fotos do meu celular.
- E não foi isso o que me pediu?
- Por que não separou as fotos?
Eu queria só as que tirei no mercado.
- O senhor não pediu isso - respondeu friamente.
- Fui mostrá-las e estava certo de que só havia as que tirei no mercado.
Mas não, você deixou as fotos particulares junto.
- Quem mandou mostrar a língua, fazer careta, fazer coraçãozinho com as mãos...
Que bonitinho! Adorei aquela.
Até mandei fazer uma cópia para mim - riu com gosto.
Em seguida, fechou o sorriso e franziu o rosto ao completar:
- Se bem que tem outras ali que...
Deixar o cachorro lamber sua boca... Que nojo!
E ainda fez selfie beijando sua noiva daquele jeito...
Que indecência!
- Não tinha indecência nenhuma! - defendeu-se.
Então você tinha visto as fotos e sabia?!
- Sabia - respondeu com tranquilidade, enquanto finalizava seu trabalho.
- E por que não me falou?
- Porque o senhor não me perguntou - respondia de modo friamente engraçado.
- E não tinha indecência nenhuma, tá bom?
Você está demitida, Hilda!
- Sim senhor.
Mais alguma coisa? - quis saber, fazendo menção de se retirar.
- Não esqueça seus óculos amanhã.
- Amanhã eu não venho.
- Por quê? - indagou com ironia.
Sabia que ela iria brincar.
- Porque fui demitida.
- Terá de vir para assinar a rescisão contratual.
- Sim senhor.
Não vou esquecer meus óculos para isso.
Mais alguma coisa?
O rapaz pensou por um minuto, respirou fundo e disse em tom mais sereno:
- Você já vai embora?
- Não. Quer conversar?
- Sente-se, Hilda.
A assistente acomodou-se na cadeira a sua frente e colocou a pasta sobre a mesa.
Respirou fundo e, parecendo outra pessoa, não a assistente executiva da directoria, indagou:
- O que está acontecendo? - olhou-o de um modo maternal.
- Sabe a Adriana?
- A funcionária nova?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:45 am

- Ela mesma.
- O que tem? - Hilda quis saber.
- Hoje de manhã eu estava preso no trânsito e quando olhei para o lado... - contou tudo o que aconteceu.
Depois desfechou:
- Acabei me oferecendo para levá-la para casa.
Afinal eu me senti responsável por tudo o que aconteceu - Terminou de falar e ficou aguardando.
A pausa foi longa e os minutos eternos antes da manifestação sensata da mulher:
- Como sempre, serei bem sincera.
O senhor sabe.
- Acabe com esse senhor, Hilda.
Eu já te pedi isso.
- Sim senhor - ela sorriu com expressão amável e de quem era muito experiente.
Depois disse:
- O senhor não é responsável pelo que ela esqueceu.
Afinal, essa moça deveria ter conferido seus pertences antes de vir trabalhar.
Eu também esqueci meus óculos em outra bolsa e o senhor não jogou suco em mim.
Ao vê-lo sorrir, prosseguiu:
- O que está fazendo é criando situações ou criando oportunidades para que haja uma proximidade entre vocês.
Aliás, eu diria que, tanto o senhor quanto ela, criaram oportunidades que os estão atraindo.
- Não. Foi casual - defendeu-se.
- Não concordo com sua opinião.
Não existe casualidade neste caso.
Existem oportunidades que podem aproveitar ou não.
Aconteceu a casualidade e vocês se viram no trânsito parado.
O irmão dela estava querendo se livrar do compromisso de ter que levá-la até o metro e, praticamente, ele te passou esse encargo.
Até aí eu diria que tudo bem. Mas...
Por que o senhor parou lá nas catracas para ver o que aconteceria?
Ele não respondeu e Hilda continuou:
- Poderia ter seguido em frente.
Acredito que nunca tenha parado na portaria para acompanhar dificuldades que, rotineiramente, acontecem ali.
Silêncio.
- O senhor parou lá para criar nova oportunidade de aproximação.
E digo mais.
Ela poderia ter solucionado o problema da refeição, se tivesse pedido dinheiro para alguém.
É algo chato, por não conhecer o pessoal, porém duvido de que não a fossem socorrer.
Quem sabe, lá no fundo, a Adriana imaginasse que o senhor ficaria com remorso porque ela contou que ficou sem dinheiro porque trocou a bolsa que foi molhada com o bendito suco por sua culpa ou descuido.
Se tivesse se virado sozinha e ido almoçar, não a encontraria na secção quando desceu até lá.
Não é mesmo?
Aí, para criar nova oportunidade de aproximação, convidou-a para vir até sua sala e depois para almoçar.
Como se não bastasse, ofereceu levá-la para casa no final do expediente quando poderia ter-lhe emprestado dinheiro.
Longa pausa.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:45 am

A questão é: precisa ser realista e sincero consigo mesmo.
O que o senhor está querendo?
- Como assim? - franziu a testa e agitou leve e rapidamente a cabeça.
- Não queira se enganar.
O senhor está criando oportunidades de se aproximar dessa moça.
Por quê? - não houve resposta.
São com criações de oportunidades assim que as pessoas se aproximam.
Observe que esperou que o horário do almoço avançasse para ir até a sala dos analistas, pois sabia que não haveria quase ninguém lá.
Convidou-a para vir aqui, em sua sala, para que o tempo passasse e o pessoal retornasse para a seção.
Daqui, convidou-a para saírem e fazerem a refeição.
Nem a deixou ir pegar a bolsa para que ninguém a visse sair.
Procurou um restaurante vazio, para não serem vistos.
Com tudo isso, o senhor criou oportunidades de ficarem juntos e sozinhos de forma consciente ou inconsciente.
Isso estaria certo.
Não haveria qualquer problema se ela não fosse se casar daqui a três meses e o senhor não fosse noivo com planos de se casar no próximo ano.
Seria uma história bem legal e bonita se nenhum dos dois tivesse compromisso, com aliança no dedo, e tentando esconder o que estão fazendo das pessoas com as quais têm compromisso.
Longa pausa e comentou:
- Se o meu marido se aproximar de uma colega e começar a criar oportunidades, eu vou ficar preocupada, ou melhor, vou ficar atenta.
É uma aproximação hoje, outra amanhã...
Um bate papo hoje, outro amanhã...
Uma coincidência hoje, outra amanhã...
Essas coisinhas - disse em tom irónico -, vão aproximando as pessoas.
Criando atracções, pensamentos semelhantes e ilusórios, posso garantir.
Daqui a pouco um vai dizer:
Eu me identifico com ele.
E o outro dirá: Ela me compreende... - Arremedou.
Só que se esquecem de que todo começo é assim.
Nós sempre nos identificamos e gostamos no começo, porque toda novidade parece boa.
Nós só vamos conhecer o outro, de verdade, com o passar do tempo.
Somente com o passar dos anos, as pessoas se revelam e mostram quem são.
Vejo muitos namoros, noivados e casamentos se desfazendo porque um dos dois começou a criar ilusões com relação à outra pessoa desconhecida.
Então começa a criar oportunidades, como essa que criou.
Quando se está na fase do namoro ou noivado, eu diria que esse é o momento para os testes, para as provas.
Mas, quando se tem algo mais sólido, uma união estável, um casamento, é bom parar e ser realista.
Como dizia minha avó: "tudo o que é novo cheira bem".
Por causa da ilusão, o marido ou a esposa começa a criar oportunidades e acaba, muitas vezes, estragando a própria vida e a vida do outro.
Depois, descobre que não era isso o que queria.
Descobre que se enganou e quer voltar atrás para remendar a relação.
Entende que errou.
O pior é, mesmo que o outro o aceite, a relação nunca mais será a mesma.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:45 am

- Acho que você está sendo muito radical, Hilda.
Pensou tudo isso sozinha ou leu em algum manual? - falou em tom brando, porém intrigado.
Quer dizer que, se eu namorar ou for noivo estou confinado, pelo resto da vida, à outra pessoa?
Isso não é certo! - balançou-se na cadeira, girando de um lado para outro.
- Eu não disse isso.
Acho que não me entendeu.
- Seja clara. Por favor.
- Se tiver compromisso, deve ter respeito por essa pessoa.
Criar oportunidades e situações com alguém, é desrespeito.
Vejo que o senhor e a Adriana estão criando oportunidades de uma aproximação sem respeitar o compromisso que têm com outra pessoa.
O senhor está se preocupando com ela, algo que não é correto porque tem compromisso com a Sabrina.
Ela, aceitando as suas ofertas, também não é correto, porque tem um noivo.
Agora vamos lá!
Suponhamos que a Adriana seja a Sabrina, sua noiva.
Ela se vê com dificuldades, dá uma de vítima e aceita do chefe tudo o que aceitou até agora.
Além disso, até permitiu que esse chefe, no segundo dia de serviço, a levasse para casa.
O senhor ficaria feliz com a situação?
- Não - foi rápido e sincero.
- Suponhamos que a Sabrina fizesse o que o senhor fez.
Pagasse o almoço para um funcionário, chamasse o moço para ir a sua sala com a desculpa de falar sobre a empresa concorrente e desse carona para o rapaz.
O senhor ficaria feliz se sua noiva tivesse as suas atitudes para com outro homem?
- Também não - sentiu-se envergonhado.
Wagner respirou fundo e pareceu inquieto, remexendo-se na cadeira.
Hilda sorriu de modo enigmático.
Havia atingido seu objectivo.
Mesmo assim, ainda disse:
- Eu tenho certeza de que o noivo da Adriana iria responder a mesma coisa. -
Longa pausa.
- O que o senhor precisa é estar ciente do que está fazendo e saber aonde é que quer chegar.
Essa moça mexeu com o senhor.
Ela, por alguma razão, chamou a sua atenção. Certo?
- É verdade. Desde que a vi na secção...
Não sei explicar o que aconteceu.
Toda a história da cafeteria não sai da minha cabeça.
- Mesmo sem ter uma explicação justa e honesta, pense o seguinte:
Eu estou criando situações e oportunidades de aproximação para quê?
Eu quero me aproximar dessa pessoa, mas estou disposto a assumir as consequências?
Se eu acabar com o casamento dessa moça, estou disposto a terminar com meu noivado para ficar com ela?
Ou tudo isso não passa de uma aventura?
Breve pausa em que ficou esperando por uma resposta que não aconteceu.
- Se for aventura, sugiro que tome cuidado.
Vidas e destinos estão em jogo.
Muitas vezes, o egoísmo e o orgulho, mascarados de desejo e vontade sem explicação, são capazes de destruir a nossa vida e a vida dos outros.
Nova pausa.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:46 am

- Mas, se tiver certeza do que quer, vá em frente.
Se descobrir que essa moça é tudo o que sempre quis e por ela está disposto a enfrentar tudo e todos, vá em frente!
Faça tudo para construir um novo caminho com ela ao seu lado.
Mas seja honesto com quem o senhor já assumiu um compromisso.
Se preciso for, dê um tempo com a Sabrina.
Não aja pelas costas.
Somos responsáveis por aqueles que cativamos.
Seja sincero e respeitoso consigo mesmo.
Não traia sua consciência.
Eu acredito, piamente, que tudo o que fazemos aos outros de prejudicial recebemos de volta nesta ou em outra vida, se não corrigirmos.
Por isso, seja fiel às suas promessas e aos seus compromissos assumidos, pois sua palavra deve ter um teor sagrado que compromete a sua honra.
Isso se chama princípios éticos.
A mentira traz sempre consequências cruéis para os que as experimentam.
Seja para os que mentem ou para os que são enganados.
Isso gera reajuste e harmonização a fazer, pois ninguém pode driblar a justiça de Deus.
Wagner pareceu hipnotizado ao encará-la.
Depois de algum tempo, confessou:
- Essa moça mexeu muito comigo.
Essa é a verdade.
- Terá, então, de analisar os próprios sentimentos.
- Se eu ficar analisando meus sentimentos, será que vai dar tempo?
Ela vai se casar em três meses! - jogou-se para o encosto da cadeira e ficou se balançando, demonstrando insatisfação.
- O senhor está vivendo um conflito.
Conflitos são bons para saber o que queremos, se estamos no caminho certo, quem somos e do que somos capazes.
Se der um tempo com a Sabrina, vai precisar investir na Adriana, ter coragem de destruir o casamento da moça e com a certeza de que quer ficar com ela.
Se a fizer desmanchar o casamento e depois não a quiser, como vai ser?
Pode ocorrer que descubra que o que sente é uma ilusão, uma fantasia.
Pode descobrir que está enganado e que quer continuar com a Sabrina.
- E como é que vou saber o que quero?
- O tempo lhe dirá.
Peça a Deus que o oriente.
- Lá vem você de novo - murmurou. Ela
Esperava por aquilo.
Wagner comentou:
- Não sei por que eu te conto essas coisas, Hilda!
- O senhor é meu filho que nasceu em outra família.
Não consegue viver sem mim - sorriu.
- Estou começando a acreditar nisso - riu junto.
Apeguei--me muito a você desde que era só um estagiário. Lembra?
- Como não?! Eu o considero muito.
Gostaria de descobrir qual nossa ligação no passado.
Creio que deva ter sido meu filho.
Eu o considero muito - disse e foi se levantando e pegando a pasta.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 04, 2017 8:46 am

- Vou te dar uma carona hoje.
Pelo visto, seu marido não virá buscá-la.
- Eu aceito. O Agenor me ligou.
Disse que levou o carro na revisão e precisou trocar uma peça que não chegou a tempo.
O serviço só ficará pronto amanhã.
Por estar sem carro, ele vai directo para casa.
Ao vê-la sorrir de um jeito maroto, o rapaz perguntou:
- O que foi, Hilda?
Que sorriso é esse?
- Estou vendo que já está querendo corrigir a situação que criou.
Dando-me carona, terá mais uma companhia em seu carro e não ficará tão mal levar a moça - riu.
- Vai se arrumar para irmos, vai!
Ela saiu rindo e não disse mais nada.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:30 am

Capítulo 5 - A inconveniência da mentira

Ao irem embora, Adriana pareceu mais tranquila quando viu que a assistente do director também dependeria da carona.
No estacionamento, falaram a respeito de onde a analista morava.
Não teria jeito, Hilda residia mais perto.
Logo, Wagner a deixaria em casa primeiro.
Assim foi feito.
A conversa, durante o caminho, foi sobre serviço até Hilda descer.
Em seguida, o assunto mudou para família.
- Então você só tem um irmão e a partir de amanhã pretende ser filha única?
- Wagner perguntou brincando e sorriu.
- Sim. Só tenho um irmão.
Porém estou reconsiderando o facto de trucidá-lo hoje - sorriu de um jeito delicado.
Se o Daniel não tivesse, digamos... forçado o senhor a me oferecer carona, eu só teria descoberto que não estava com minha carteira no metrô.
Teria chegado muito atrasada ou até faltado em meu segundo dia de serviço.
- A Hilda costuma dizer que existe um bem nos males da vida.
- Vou começar a pensar sobre isso.
Um instante e quis saber:
- O senhor tem irmãos?
- Tenho duas irmãs.
A mais velha, Wanda, tem trinta e quatro anos.
Casada e com dois filhos.
A Celine, mais nova do que eu dez anos.
Tem dezanove anos.
É mimada, chata, dependente emocional...
Uma coisinha insuportável.
Acredita que tudo e todos devam ficar a sua disposição.
Ela é bem diferente de mim e da Wanda.
Acho que faltaram algumas palmadas em sua educação.
Não houve comentário.
Ele ofereceu breve pausa e se interessou:
- Você e seu irmão se dão bem?
- Sim. Nós nos damos muito bem.
Quando éramos pequenos, brigávamos muito.
Logicamente ele, por ser maior e mais velho, acabava me batendo e eu o ofendia.
Fazia de tudo para magoá-lo, mesmo sabendo que ia apanhar ou me dar mal depois.
- Fazia bullying com ele?
Adriana riu gostoso ao concordar:
- Mais ou menos isso.
Fisicamente, não somos muito parecidos.
Acho que o Daniel puxou à família distante de minha mãe.
Então eu dizia que ele não era meu irmão.
Que foi achado na lata do lixo.
Ele ficava furioso e me batia, e eu o mordia, claro. - riu ao contar.
Na adolescência, isso acabou.
Passamos a ser mais civilizados.
O Dani quis namorar uma amiga que eu tinha e dei a maior força.
Desde então, nós nos tornamos amigos.
- Você mora com seus pais e irmão?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:30 am

- Moro.
- Como se sente ao pensar em sair da casa de seus pais para se casar? - o rapaz indagou curioso, observando sua feição enquanto estavam parados em um semáforo.
- Às vezes, dá um frio na barriga - confessou.
- Não se acha preparada para assumir os encargos e responsabilidade de uma casa?
- Não tenho medo de assumir responsabilidade.
Na verdade... - deteve as palavras e ficou pensativa por um momento.
Acho que me preocupo com minha mãe - pareceu entristecer quando seu rosto anuviou o sorriso.
- Por que se preocupa com sua mãe?
Adriana encorajou-se.
Não costumava falar sobre aquilo.
Olhando-o, revelou:
- Meu pai tem problemas com alcoolismo.
Ele é um homem rude.
O meu irmão, que já saiu de casa uma vez, está se preparando para ir embora novamente.
Eu temo por minha mãe.
- Alcoolismo é uma doença, já tentaram orientá-lo a procurar um tratamento?
- Já. Nem imagina quantas vezes.
- Como sua mãe reage? - ele se interessou.
- Não sei como aguenta nem por que tolera meu pai.
Se não fosse por ela, eu já teria saído de casa.
Acho... Tenho dó de meu pai.
Acho que ele é um coitado.
Um fraco. Tenho a impressão que ele não tem qualquer sentimento por nós.
Se tivesse, procuraria se ajudar e se recuperar.
Por causa de minha mãe, fico receosa de me casar e ter de deixá-la lá sozinha.
Só por isso.
O silêncio vigorou por algum tempo.
Wagner se sentiu incomodado com o vazio que ficou no ar.
Estavam parados em um semáforo quando o rapaz decidiu colocar uma música.
Em seguida, comentou:
- Eu estranhei muito quando precisei morar sozinho.
Sentia falta da movimentação que tinha na casa dos meus pais - sorriu.
- Senti falta até dos pegas com a Celine - riu.
Não foi fácil me acostumar.
Quantas vezes me esqueci de comprar as coisas de que uma casa precisa.
Você nem imagina.
Desde quando comecei a trabalhar nesta empresa e conheci a Hilda, ela tem me ajudado muito.
Ela se tornou aquela mãezona, sabe? - olhou-a por um instante e voltou a dirigir.
- Gostei muito dela.
Percebi que o trata com atenção.
- É mesmo.
Às vezes, parece que nem minha mãe me trata assim.
Ao entrar em uma avenida larga, Wagner perguntou:
- Estamos perto, não é?
- Sim! - Adriana tinha se esquecido de que o rapaz não conhecia direito o caminho de sua casa.
Vire a próxima à direita - pediu, e ele obedeceu.
Agora... Ali em baixo à direita novamente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:30 am

Ele seguiu a orientação e a moça avisou:
- É logo ali.
Em frente daquela árvore florida.
Wagner parou o carro atrás de um veículo estacionado.
Olhou para a casa ainda em construção, com laje e algumas paredes com tijolos à mostra e sem pintura.
- É aqui?
- Sim. É aqui que eu moro - sentiu-se envergonhada, por um instante, pelo estado da casa.
- Considere-se entregue - ele brincou.
E não esqueça da carteira amanhã.
- Não! Não vou esquecer! - sorriu lindamente.
O rapaz invadiu seus olhos e prendeu-se por alguns segundos no brilho que irradiou.
Algo que não soube explicar.
Sentiu-se estranhamente confuso e despediu-se ligeiro:
- Até amanhã, Adriana.
- Até amanhã. Obrigada por tudo, doutor Wagner.
Ele fugiu de seu olhar, e a moça desceu do carro.
Após manobrar o veículo, ela ficou olhando-o ir embora até virar a rua.
Quando se virou para sua casa, Nicolas, seu noivo, estava abrindo o portão.
Era um rapaz de aparência simpática e sorridente.
Bonito. Pele morena como se estivesse bem bronzeada.
Olhos verdes e ainda mais chamativos pelos cílios longos.
Magro e alto, não possuía corpo atlético.
Abrindo o portão, afastou-se para a noiva entrar e a cumprimentou com um beijo rápido nos lábios.
- Oi! Tudo bem? - o rapaz quis saber.
- Tudo. E você?
Veio mais cedo!
- Eu ia directo para o apartamento, mas lembrei de pegar aquele tapete que você queria levar pra lá.
- Já pegou? Está lá no meu quarto - a moça dizia, enquanto caminhava pelo corredor externo.
- Não. Não peguei. Acabei de chegar.
Quando entrei, vi o carro parando atrás do meu e voltei para ver quem era.
Já na sala, Adriana comentou:
- Aconteceu uma hoje!
Nem te conto!
Ontem eu te falei que fiquei encharcada com suco, não foi? - sorriu sem graça.
- Foi. E aí?
- Daí eu troquei de bolsa.
Hoje cedo, o Daniel me deu uma carona e... - Pensou rápido.
Talvez, não ficasse bem dizer que pegou carona com seu chefe logo cedo e também de volta para casa, por isso mentiu:
- Eu fiquei sem dinheiro.
Só tinha alguns trocados soltos na bolsa para pegar o metro e ir trabalhar.
Se eu voltasse, perderia a hora.
No fim do expediente, meu chefe, que já iria dar carona para a secretária dele, porque mora aqui na Zona Norte, aproveitou e me trouxe também.
Sabe, a Hilda, assistente dele, é uma senhora tão legal!
Ela mora aqui perto - disse para deixar claro que havia mais alguém no carro durante a carona.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:31 am

- Deveria ter me ligado.
Eu iria te buscar.
- E fazê-lo atravessar a cidade?
Você trabalha em Guarulhos! - referiu-se a outro município da Grande São Paulo.
E minha mãe? Não está em casa? - queria mudar de assunto.
Aquele a incomodava.
- Está lá nos fundos - Nicolas respondeu.
Me recebeu e, quando eu fui ver quem chegava, ela disse que precisava colocar não sei o que, não sei onde - riu.
Mas... Me dá logo o tapete que vou lá pro ap, senão fica tarde.
- Claro. Vem aqui pegar.
- Você não quer ir comigo?
Te deixo aqui depois - Nicolas convidou.
- Não. Hoje estou tão cansada!
- E com fome, né? Não teve dinheiro pra almoçar - o noivo supôs.
- Não... - falou em tom fraco por mentir novamente.
Nicolas pegou o tapete e se despediu:
- Vou indo. Amanhã passo aqui - Beijou-a rapidamente.
- Tchau.
Saindo corredor afora, disse enquanto andava:
- Te ligo depois.
- Tá bom.
Adriana o acompanhou até o portão e o rapaz se foi.
Voltando para dentro de casa, encontrou com sua mãe que já estava na cozinha.
- Oi, filha. Demorou, hein!
- Oi, mãe - respondeu desanimada.
- Onde está o Nicolas?
- Já foi. Ele só veio pegar o tapete.
O silêncio pairou no ar por algum tempo até Heloísa querer saber:
- O que aconteceu, Adriana?
Você está com uma cara...
A filha a olhou demoradamente e disse:
- Eu precisei mentir pro Nicolas e não me senti bem.
Me deu uma coisa tão ruim...
- Você mentiu, por quê? - a senhora quis saber.
- Hoje cedo... - contou tudo.
Sobre a mesa, a mulher dobrava algumas roupas que havia recolhido do varal, enquanto prestava atenção ao que a filha narrava.
Assim que Adriana terminou, a senhora opinou:
- Quando nós não queremos que as pessoas mais próximas saibam o que estamos fazendo, é porque o que fazemos não é correto.
Sei disso por experiência de vida.
Se você achou melhor mentir para o Nicolas, é porque sabe que fez algo que não devia.
- Mãe, pelo amor de Deus!
Não aconteceu nada!
A senhora está falando como se eu tivesse cometido um crime!
- Não precisa se alterar, Adriana! - foi firme.
Se você tivesse repleta de razão, não teria mentido.
- A senhora, falando desse jeito, faz com que me sinta pior do que já estou.
- Eu não quero que se sinta melhor ou pior.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:31 am

Quero que aprenda a ser correta.
Respeite a pessoa que escolheu para estar ao seu lado.
Esse tal director é noivo e você também.
Vai saber se esse tal director não quer só o que interessa e depois sair fora.
Aliança no dedo não prende nem homem casado!
O sujeito pode ter o compromisso que for, mas quando é safado, malandro...
Já sabe! Falta pouco para se casar.
Acho bom tomar cuidado para não estragar tudo.
- Nossa mãe! Que dramalhão!
Se eu soubesse, não teria contado nada! - exclamou nervosa e foi para o quarto.
Adriana ficou quieta pelo resto da noite.
Nem conversou direito com o irmão, na hora em que ele chegou.
Todos jantavam em silêncio quando Daniel perguntou à irmã:
- E lá no serviço? Tudo bem?
Ela olhou séria e respondeu simplesmente:
- Tá. Tudo bem.
- É por isso que está animada desse jeito? - tornou o rapaz.
- Estou cansada. Só isso - disse e se levantou.
Colocou o prato na pia e foi para o quarto.
Daniel olhou para a mãe e falou:
- Eu disse alguma coisa errada?
- Não. Foi ela quem fez alguma coisa errada - respondeu insatisfeita.
Assim que terminou a refeição o rapaz se levantou e, após deixar o prato na pia, foi para o quarto.
Adriana mexia em suas coisas e se organizava para o dia seguinte.
O irmão se sentou na cama dele e, depois de observá-la quieta por longo tempo, indagou:
- O que está rolando?
Brigou com o Nicolas?
- Não. Não tá rolando nada.
- E por que você está assim? - tornou o rapaz.
- Tudo começou por causa da carona que você fez o doutor Wagner me dar.
A culpa foi sua.
- Minha?! Endoidou?! - exclamou e riu.
- Por eu ter chegado de carona no serviço, só lá, na portaria, percebi que esqueci minha carteira.
Então... - contou tudo novamente.
Daniel ouviu atentamente. Depois opinou:
- Legal você ter descoberto que não fez algo correto quando mentiu.
A mãe tem razão.
Quando não se quer que os outros saibam o que fizemos, é porque não fizemos coisa boa.
Normalmente, quando temos orgulho de algo, contamos para todo o mundo.
- Eu não deveria ter pegado carona nem almoçado com ele.
- Agora está feito.
Eu só acho que você está dando muita importância ao que aconteceu.
O caso não precisa de tanta valorização assim.
Desde que não tenha significado nada.
- E não significou!!!
Mas que saco! - ficou zangada e se expressou sem controlo das emoções.
- Então por que está tão nervosa com tudo isso?
- Não estou nervosa!!! - gritou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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