Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Página 11 de 14 Anterior  1 ... 7 ... 10, 11, 12, 13, 14  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:54 am

Vendo-a atenta, ainda explicou:
- Em alguns casos, no planeamento reencarnatório, pais e mães amorosos, embora tristes, aceitam receber espíritos que necessitem contacto, por pouco tempo, com o corpo em formação durante a curta gestação.
Outros pais, no entanto, necessitam tão igualmente da experiência dolorosa do aborto espontâneo por provas ou expiações.
Existem ainda gestações em que, ao corpo, nenhum espírito esteve ligado e isso ocorre quando a experiência é útil tão somente aos pais4.
Adriana suspirou fundo, olhou a senhora nos olhos e agradeceu:
- Obrigada, dona Lia.
- Sou eu que agradeço por ter vindo aqui em busca de ajuda e ter tido a paciência de me ouvir e confiar a mim seus desafios.
A mulher se levantou, foi até a moça e a abraçou com carinho.
Ao sair da sala, Adriana encontrou leda no salão principal.
Sorriu ao vê-la acompanhada de Lia, pois imaginou que haviam conversado e sabia que aquela mulher poderia orientar sua amiga.
Discreta, sem qualquer comentário, leda convidou:
- Vamos comer alguma coisa?
Estou morrendo de fome.

2. Nota da Autora Espiritual: O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVIII - item 16 -Reconhece-se o Cristão Pelas Suas Obras.
3. N. A. E. Em O Livro dos Espíritos, Capítulo VII, Pergunta 359, fala a respeito desse assunto.
4. N. A. E. Outras informações a respeito podem ser encontradas em O Livro dos Espíritos -questões de 344 a 360.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:55 am

Capítulo 25 - Novos planos

Na casa de leda, Adriana contou toda a conversa.
- Eu sabia que, se conversasse com dona Lia, acenderia uma luz nessa escuridão.
- Ainda estou triste.
Não imagina o quanto isso dói.
Mas me sinto bem melhor após falar com ela.
Agora quero saber mais.
Ter mais conhecimento.
O que você me indica?
- Livros. Sem dúvida.
Acho que pode começar com as obras da Codificação Espírita.
Você é esperta. Lê bastante.
Sabe interpretar a leitura.
Não terá dificuldade.
Vou te emprestar O Livro dos Espíritos.
E também os livros do médium Chico Xavier, as obras do espírito André Luiz.
Comece pelo livro Nosso Lar.
É importante você também ir à casa espírita assistir às palestras, fazer cursos...
- Sabe, senti-me tão bem lá.
Nos últimos dias, estive tão péssima.
Agora estou diferente.
Não quero reclamar, mas...
No outro centro a que fui... Sei lá...
Não sei se foi a conversa com aquela mulher...
- Como a dona Lia te disse: perdoa.
Não dê importância ao que ela falou.
Coitada. Talvez, não estivesse preparada.
O que ela disse sobre o sofrimento dos abortados não é mentira.
Mas não era o caso de ela falar sobre isso sem falar em como resgatar ou harmonizar sua consciência.
Eu não sou pessoa com conhecimento suficiente nesse assunto, por isso não entrei em detalhes com você e quis que conversasse com alguém mais preparada do que eu.
- Mas a dona Lia foi realista.
Mesmo assim, não me senti tão mal.
- Foi a forma como ela falou.
Quando desenvolvemos amor, impregnamos esse sentimento em tudo o que fazemos, pensamos e falamos.
Então, qualquer assunto se torna suave.
Até mesmo os não agradáveis.
Um momento e lembrou:
- Ah! Vou te emprestar O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Esse seria bom você ler um trecho a cada dia e também...
A campainha tocou.
leda se levantou e disse:
- Pera!
Algum tempo e retornou dizendo de modo engraçado:
- Olha o que achei perdido aí no portão!
Fiquei com dó e trouxe pra dentro.
Eles riram.
Daniel foi até a irmã.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:55 am

Deu-lhe um beijo na testa e perguntou:
- Tudo bem?
- Sim. Agora estou melhor.
- Não se sentiu bem hoje?
- Fisicamente estou bem, mas minha cabeça estava...
Então fui ao centro espírita com a leda.
Ouvi uma palestrinha, recebi passe e conversei com uma senhora.
- Acabamos de chegar - contou leda.
A Dri gostou de lá.
Conheceu a dona Lia - sorriu.
- É sim. Senti-me bem.
Não sei explicar.
A leda vai me emprestar alguns livros. Vou ler.
Quero entender melhor tudo o que está acontecendo comigo.
Preciso dar um objectivo à minha vida.
Nada melhor do que ganhar conhecimento.
Quero assistir às palestras e fazer cursos da doutrina.
- Pode baixar livros da internet - o irmão sugeriu.
- Não. Não faça isso, Daniel.
O rapaz sacudiu os ombros num gesto de tanto faz e respondeu:
- Todo o mundo faz isso.
- Porque ainda não sabem, não tem ideia do que estão fazendo.
Baixar livros, músicas e filmes que estão livres na internet, é crime, mas não é só.
Se livros, músicas e filmes estão expostos gratuitamente na internet é pirataria, é crime nas Leis dos homens e nas de Deus.
Todo trabalho com música, filmes e livros gera empregos, desde os seus criadores até a loja, virtual ou física, onde eles são vendidos.
Por exemplo, o trabalho com uma obra literária oferece emprego a quem diagrama, revisa, publica.
Dá emprego a quem vende papel, a quem faz a arte das capas.
Dá emprego àqueles que trabalham nas gráficas, nas livrarias, na divulgação.
Até o faxineiro da livraria tem emprego por conta dos livros vendidos.
Emprego é algo que existe em prol da sociedade, da humanidade.
Ele qualifica, enobrece, profissionaliza, dá orgulho saudável, oferece honestidade, salário, dá estabilidade financeira e emocional, prosperidade, autoconfiança, benefícios trabalhistas como aposentadoria, diminui a criminalidade. - Observando o amigo pensativo, perguntou:
- Você gostaria que alguém reduzisse o valor do seu emprego ou diminuísse a importância de seu trabalho?
Daniel sorriu e respondeu sem graça:
- Não.
- É isso o que alguém faz quando baixa gratuitamente livro da internet.
Centenas, milhares de pessoas são prejudicadas por esse crime que, não só contribui para a degeneração do progresso literário, como também para a decadência trabalhista e ao insucesso de muita gente.
Cada livro baixado em pdf, dificulta a geração de empregos.
O mesmo acontece com músicas e filmes.
Lamentavelmente, pessoas instruídas deveriam saber disso e combater esse e outros tipos de crimes.
Mas, ao contrário, praticam e divulgam, abertamente, incentivando e até indicando sites criminosos que disponibilizam livros em pdf ou outro tipo de arquivo, gratuitamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:55 am

Breve pausa e prosseguiu:
- Mas os prejuízos não param por aí.
Livros espiritualistas ou espíritas, na maioria das vezes, têm seus direitos autorais destinados a instituições filantrópicas que cuidam de crianças, idosos ou mesmo adultos e famílias, sem condições mínimas de trabalho, para se proverem.
São pessoas verdadeiramente necessitadas e dependentes.
O que acontece é que esses sites criminosos pirateiam o livro, colocam à disposição na internet para ser baixado e destroem a única forma digna de ganho financeiro que essas pessoas possuem.
Como pessoas instruídas e espiritualizadas, devemos saber que existe Lei de Causa e Efeito - continuou leda.
São pequenos hábitos, gestos e feitos que constroem nossos caminhos.
Tudo o que fazemos e oferecemos volta multiplicado para nós.
Como podemos progredir financeira, moral e espiritualmente se tiramos dos outros a oportunidade de trabalho e progresso quando baixamos livros da internet, compramos CDs e DVDs piratas?
Como podemos desejar uma vida tranquila, se tiramos a tranquilidade de trabalhadores honestos e dignos quando baixamos, gratuitamente, livros da internet, compramos CDs e DVDs piratas?
Como podemos desejar que a miséria do mundo acabe se tiramos o meio lícito e honesto de direitos autorais doados a instituições filantrópicas quando baixamos livros espíritas ou espiritualistas, de graça, da internet, compramos CDs e DVDs espíritas também piratas?
Como podemos exigir honestidade de nossos políticos quando não somos honestos?
Porque pirataria é desonestidade.
Os controladores ou donos desses sites, na internet, que cometem o crime de dispor livros sem a devida autorização dos responsáveis, lucram sozinhos.
Ganham financeira e desonestamente sozinhos.
Alguns ainda têm a cara-de-pau de dizer que fazem isso porque os livros são caros e eles estão contribuindo para a divulgação e a cultura - falou de modo contrariado.
Coitados. Terão de harmonizar o que desarmonizaram.
Um instante e leda disse:
- Não precisamos nos unir ao que é ruim.
Não precisamos ser escravos de acções negativas.
Vamos ter de reparar tudo.
O bem-estar é nosso bem mais precioso e por essa razão necessitamos nos libertar de pensamentos, palavras e acções que não oferecem paz.
Breve pausa e reflectiu:
- Quem sabe, em reencarnação futura, eles não estarão em instituições filantrópicas para necessitarem das doações dos direitos autorais de livros. Não é mesmo?
- Credo, leda!
Para com isso! - exclamou Daniel.
- A consciência pesou, né? - ela riu de um jeito engraçado.
Eu ainda não falei tudo.
Existe ainda o lado espiritual atrás dessas práticas.
Que tipo de espírito está ligado ou está próximo de alguém que está fazendo pirataria, comprando CD ou DVD, baixando livros da internet?
Certamente, não é um espírito bom.
Os irmãos riram e Adriana pendeu com a cabeça positivamente.
- Quando oramos, sabemos que espíritos superiores estão ao nosso lado.
Então, quando cometemos esses delitos, devemos saber que são espíritos inferiores que nos acompanham.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 18, 2017 8:55 am

- Concordo - disse Daniel.
Vendo por esse lado...
- Falei tanto de harmonização com a dona Lia hoje que é inevitável a pergunta - Adriana riu ao indagar:
- O que faço para me harmonizar, caso tenha baixado um livro da internet e prejudicado muitas pessoas com esse crime?
- Compre o livro e doe para quem precisa ou presenteie alguém que você gosta - respondeu a amiga.
- Caramba!!! - exacerbou Daniel, que riu e se jogou para trás da cadeira.
- Verdade! - tornou leda, rindo.
Já imaginava a razão de tamanha exclamação.
- Como eu disse:
tudo o que fazemos e oferecemos
volta multiplicado para nós.
Quando se compra um DVD pirata, baixa livro ou coisa assim, você acha legal, acha que tirou vantagem.
Quanto engano, meu amigo!
Isso fica registado, inconscientemente.
O prejuízo que causou, cedo ou tarde, volta do mesmo jeito.
De repente, você é roubado, furtado...
Levam seu celular, furtam seu carro... Sei lá!
Acontece alguma coisa, que acha que foi injustiça com você, como lição ao prejuízo que causou.
- Droga... - murmurou o rapaz.
Por isso furtaram o pneu estepe do meu carro.
- Bem provável - leda riu.
- Roubaram o pneu? - a irmã se surpreendeu.
- Não sei como.
Só senti falta hoje quando precisei usar o estepe.
- Vai ter que comprar outro estepe para reparar o prejuízo que ofereceu ao universo com pirataria de CDs - disse leda ainda sorrindo.
- Como sabe que baixei música da internet?
- Eu vi aqueles CDs no seu carro.
Simples assim - tornou a amiga achando graça.
Logo disse:
- Vocês repararam que os vendedores de CDs e DVDs piratas geralmente são pobres coitados que nunca têm condições de se candidatarem a um emprego melhor?
Vivem nas ruas clandestinamente, com medo da polícia e da fiscalização.
Nunca têm lucro suficiente para uma vida melhor.
O mesmo acontece com o coitado que pirateia livros e os expõe na internet.
Prejuízo em cima de prejuízo. E se não o teve, terá.
- E as pessoas que compram produtos piratas ou baixam os livros em pdf da internet, elas percebem os prejuízos?
- Geralmente, eles começam de forma insignificante, como o estepe do Daniel.
Depois aumentam.
É a lei de causa e efeito.
A lei do retorno.
- Então preciso comprar dez livros, vinte CDs... - Daniel comentou em tom alegre.
- Vai mesmo? - perguntou a irmã.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:13 am

- Vou sim. Não quero ter furtado, novamente, o estepe, o celular, a blusa que deixei na cadeira na empresa...
Esses pequenos prejuízos me irritam.
- Eu mesma venho me corrigindo em muitos aspectos e pequenos hábitos.
Tudo o que é ruim começa aos poucos.
Ninguém acorda pela manhã e diz, inesperadamente:
"Hoje, vou roubar um celular."
Essa pessoa, provavelmente, começou vendo pai ou mãe baixando livros e dando prejuízos aos outros.
Viu pai, mãe e muitas outras pessoas em volta do vendedor de CDs e DVDs piratas comprando esses itens, dando prejuízos a muitos trabalhadores honestos que participam da construção do original.
E começou a achar isso normal.
Depois se apropriou de um lápis na escola e não se importou com o dano causado ao colega.
Provavelmente, pegou dinheiro da carteira dos pais, que não deram importância e não o repreenderam como deveriam.
Esses primeiros delitos, que não são repreendidos aumentam, crescem e são aperfeiçoados.
Com o tempo, podem virar furto e roubo de celular, carteira, carro, residência, banco...
Por quê? Porque a pessoa veio se aperfeiçoando no decorrer da vida.
Pais se esquecem de que filhos pequenos têm uma memória espectacular.
A criança aprende e aperfeiçoa o que vive.
Minha mãe, quando me levava à feira livre, sempre me dizia ao ver o vendedor de CDs piratas: "Isso é errado.
É crime. Comprar CDs piratas é prejudicar muitos trabalhadores honestos.
O furto de uma galinha e o furto de uma carteira com muito dinheiro são crimes que têm o mesmo peso perante Deus."
Fui crescendo com essa ideia.
Mesmo assim, baixei músicas... - sorriu de um jeito engraçado.
Depois fui filosofar a razão de alguns prejuízos.
Tive dois celulares furtados.
Um eu estava dentro do metrô.
O outro dentro do ônibus.
Depois fui roubada à mão armada.
O sujeito levou minha carteira.
Só não levou o celular, porque fui furtada na semana anterior e ainda não tinha comprado outro.
Não gostei da lesão financeira e fiquei muito assustada.
Hoje só tenho o que posso comprar.
Vivo tão bem - falou sorrindo, com leveza e consciência tranquila.
- Tudo o que você faz o Universo retribui.
- Exactamente Daniel. É a lei da atracção.
As pessoas têm a mania de dizer:
"só faço isso porque o outro faz."
"Não economizo água porque meu vizinho não economiza."
Se esquecem de que quem vai ter que prestar contas daquela acção errada do vizinho é ele.
Mas ela também terá que prestar contas da sua acção.
Daí suas práticas se tornam sem controle.
Hoje, você baixa livro, amanhã, compra CDs e DVDs piratas, faz gambiarra para ter TV por assinatura de graça, faz gambiarra para pagar menos água e gastar demais e ainda acha que está tirando vantagem, quando, na verdade, está se afundando em débitos futuros que, sem dúvida, terá de saldar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:14 am

Aí, um dia, vai procurar emprego e não acha.
Quando acha, não tem um salário justo.
É demitido com frequência.
A pessoa não percebe que os pequenos prejuízos são resultados de acções que praticou.
- É uma boa reflexão.
Você deveria dar uma palestra no centro sobre isso - comentou Daniel.
- Nós construímos nossos caminhos diariamente com pensamentos, palavras e acções.
Se queremos prosperidade, temos de agir com honestidade - desfechou leda.
- Tudo bem! Tudo bem! Já entendi.
Você será a primeira pessoa a ganhar um livro e um CD pela aula que me deu.
Estou com a consciência pesada - o rapaz riu e fez um gesto engraçado.
- Já está ficando tarde.
Preciso ir - Adriana considerou, levantando-se.
- Não! Fiquem!
Vou pedir uma pizza - decidiu leda.
- Que tal irmos a uma pizzaria? - sugeriu Daniel, imaginando que Núbia pudesse aparecer e estragar o momento.
Eles se entreolharam e leda sacudiu os ombros como quem diz: tanto faz.
- Então vamos! - decidiu o rapaz.
- Preciso me trocar.
Podem esperar um pouquinho? - leda pediu.
- Aaaaahhhh não! Tô indo! - o rapaz brincou e se levantou.
- Ah! Espera sim.
Vou aproveitar e pegar os livros pra Dri.
Dizendo isso, a amiga foi para o quarto.
Após demorar um pouco, chamou pelo amigo com jeitinho:
- Daniel! Vem aqui um pouquinho, por favor!
Chegando ao quarto, ele viu leda se equilibrando na ondulação do colchão, na beirada da cama, esticando-se e com a mão estendida, segurando uma caixa dentro do guarda-roupa.
- O que você está tentando fazer? - ele riu.
Com a voz sufocada por ter de se esticar ao máximo, a moça respondeu:
- Pegar essa caixa sem a escada...
O rapaz foi até ela, entrou a sua frente, apanhou a caixa e colocou sobre a cama.
- Ai! Obrigada! - exclamou aliviada ao descer.
Era uma caixa florida e delicada.
Ela abriu a tampa e começou a procurar os livros que queria.
- Eu tenho o Evangelho ali... Mas é meu.
Sempre tenho outros sobrando para dar pra alguém... - dizia ao mesmo tempo em que procurava.
Enquanto isso, Daniel passou os olhos pelo quarto.
Era um cómodo grande típico de casa muito antiga.
Tinha uma janela enorme, daquelas que os vidros abrem para dentro do quarto e as venezianas para fora.
Mas estava tudo fechado.
As cortinas de renda suave, encolhidas nas laterais de forma graciosa por belos laçarotes, ficavam fofas e deixavam o forro aparecer.
Ele reparou também o ventilador no tecto.
Em uma cómoda de madeira e verniz escuro, havia um vaso com flores muito bonitas que o rapaz não saberia dizer o nome.
Elas reflectiam no espelho, cujo reflexo dava a impressão de haver mais.
Eram claras, alegres e harmonizavam-se com a cor clara e suave das paredes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:14 am

Combinando com a cómoda, havia a cama, um criado-mudo com um abajur delicado e um relógio digital ao lado.
Na beirada da cama, um tapete felpudo de lã.
O guarda-roupa, bem antigo como os outros móveis, também era de verniz e muito bem lustrado.
Sobre a cama, uma colcha delicada e o travesseiro com a fronha igual.
Duas almofadas graciosas pelas estampas floridas e um coelhinho de pelúcia entre elas.
Havia somente um armário que não combinava com aquilo tudo.
- É onde guardo alguns mantimentos.
- O quê? - ele perguntou.
- O armário. Você está olhando para ele e dizendo: Nossa! - arremedou.
Esse móvel não combina com nada!
O rapaz ofereceu agradável sorriso e ela tornou a explicar:
- Preciso deixar alguns mantimentos trancados aqui neste quarto, ou minha irmã...
Já sabe né?
- Pega para vender.
- É.
- Gostei do seu quarto.
É tudo bem arrumado. Tem até flores.
- Em algum lugar desta casa, eu preciso de um pouco de alegria e conforto.
O restante dela, que são as partes comuns que divido com minha irmã, não posso deixar como gostaria.
- Você é muito caprichosa - sorriu ao elogiar.
- Obrigada - ficou sem jeito e correspondeu ao sorriso.
- Por que não se muda daqui leda? - perguntou em tom solene, mesmo sabendo a resposta.
Talvez, quisesse fazê-la pensar no assunto.
- Vou fazer isso, Daniel - encarou-o por um segundo.
Mas não agora. Já te falei.
Estou me preparando. É algo que precisa ser planeado.
Sorriu de forma agradável e pediu:
- Agora, coloque a caixa de volta no lugar, por favor.
Já peguei o que precisava.
O rapaz assim o fez.
- Pronto! Mais alguma coisa, madame? - brincou.
- Não senhor! - correspondeu no mesmo tom.
- Só uma curiosidade... - tornou Daniel, antes de saírem do quarto.
Que flores são essas?
- Gérberas. Adoro gérberas! - sorriu ao ressaltar.
São consideradas flores nobres.
Bonitas, alegres e coloridas. Dão vida ao ambiente.
São procuradas por pessoas que desejam homenagear alguém devido a sua beleza e significado.
- Parecem margaridas.
- São da mesma família das margaridas e dos girassóis, pois as pétalas são bem semelhantes.
Conversavam corredor afora até chegarem à sala onde Adriana esperava.
- Gérberas... - o rapaz murmurou, sem ninguém ouvir.
Pareceu querer guardar o nome na memória.
- Vamos?! - leda chamou alegre.
- Sim. Vamos - a amiga concordou.
Naquela manhã de domingo, Lídia decidiu ir até a casa da amiga.
Muito abatida, Hilda a recebeu com grande indisposição.
- O que é isso, amiga?!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:14 am

Nunca te vi assim tão... - não quis dizer.
Qualquer palavra poderia deixar a outra mais deprimida.
- Estou me recuperando ainda.
Entra - Hilda convidou.
- Como estão as coisas?
- As coisas estão caminhando.
Vamos assinar o divórcio em breve.
Tudo já está sendo analisado pelo advogado.
- O que vão fazer com esta casa?
- Já foi colocada à venda.
Vou morar aqui por enquanto e...
Não sei o que fazer depois.
O Rodrigo trabalha e o que ele ganha não é justo que eu pegue para pagar aluguel.
Sou aposentada com aquele salário que não dá nem para os remédios contra osteoporose.
Preciso arrumar uma casa e não sei o que fazer.
Talvez, o que receba não dê para comprar outro imóvel.
Não aqui em São Paulo onde tudo é muito caro.
Mas não posso me mudar para o interior por causa do trabalho do meu filho.
Ele ainda mora comigo e isso seria injusto.
- E o dinheiro da casa de praia que vocês venderam?
- Ele disse que gastou tudo com despesas do carro, desta casa.
Lógico que é mentira.
Mas não tenho como provar e não quero criar mais problemas e dificuldades para nos separarmos.
Acredito que, de alguma forma, tudo vai melhorar quando eu não estiver mais ligada ao Agenor.
- Acho que você deveria lutar pelo que é seu!
Lutar pelos seus direitos!
- Tenho mais de cinquenta anos!
Embora o juiz me reconheça como pessoa capaz de me sustentar sozinha - falou com ironia.
Quem representa a justiça é injusto ao decretar algo assim.
Não me conhece nem sabe da minha vida nem das minhas lutas.
Principalmente neste país.
Sou aposentada.
Ganho uma miséria que não dá para pagar a medicação contra osteoporose.
Dei minha vida inteira em prol do que o meu marido fazia ou queria fazer.
Apoiei esse homem em tudo!
De repente, ele tem um surto, se desfaz de tudo o que lutamos por anos para conseguir, decide arranjar outras mulheres, acaba comigo... - sua voz embargou.
Estou tão desgastada, magoada, amargurada que prefiro me livrar de tudo isso e tentar procurar uma vida melhor a brigar por algo que não sei se vou ter sucesso.
Embora eu acredite que mereça ficar com uma parte maior, vou aceitar receber a metade.
O que é meu voltará de um jeito ou de outro.
Sei que ele vai gastar e acabar com a parte que lhe cabe rapidinho...
Será até capaz de vir pedir mais para mim.
- Você e o Agenor conversaram?
- Um pouco.
Ele está sempre falando de forma grosseira, rude...
Não é mais aquele homem atencioso e compreensivo.
Estranhamente, me trata como se eu fosse sua inimiga.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:14 am

Hilda deu um suspiro longo.
Recostou-se no sofá e fechou os olhos.
- Você pode ir morar com seus filhos.
A Fátima e o Rogério vão te apoiar e não vão negar um lugar para o Rodrigo.
- De jeito nenhum!
Eles precisam viver a vida deles.
Mesmo que eu não interfira no dia a dia da família deles, serei sempre uma sombra e uma preocupação dentro da casa deles.
Só viveria com um dos meus filhos caso estivesse dependente física ou mentalmente.
Ainda assim, gostaria que me colocassem em uma casa de repouso.
Não sou do tipo de mulher que nasceu para dar trabalho aos outros.
- Não acha que isso é orgulho? - Lídia indagou com brandura.
- Não. Acredito que sou capaz e determinada.
Tenho fé em Deus que a solução está a caminho e, quando surgir, vou aproveitá-la com capacidade e empenho.
O telefone celular de Lídia tocou.
Ela atendeu.
Conversou um pouco e desligou.
Voltando-se para a amiga, disse:
- Preciso ir. À noite, te ligo.
- Obrigada, Lídia.
É muito bom ter uma amiga nesse momento.
Despediram-se e a amiga se foi.
Hilda foi à cozinha, pegou uma caneca de chá e voltou para a sala.
Sentou-se no sofá e ficou olhando por todo o ambiente.
Reparou, pela milionésima vez, o quanto sua casa era bonita e agradável.
Iluminada e bem arejada.
A sala extensa, dois ambientes, ostentava uma bela e grande televisão, escolhida pelo marido.
Os sofás longos e confortáveis, que somavam oito lugares, enchiam o recinto.
Duas cadeiras, tipo poltronas, ficavam bem dispostas e alegravam o ambiente de cor neutra com o belo colorido, igual às almofadas do sofá.
Sobre alguns móveis, vasos delicados com florezinhas artificiais encantavam.
Porta-retratos com fotos do casal e dos filhos, com genro e nora, exibiam os registros de momentos felizes.
Olhou para a mesa redonda na sala de jantar e reparou que as flores, que antes duravam uma semana, permaneceram alegres por menos dias.
Elas murcharam.
Pareciam absorver sua tristeza.
Lágrimas rolaram dos olhos de Hilda.
Não acreditava no que lhe acontecia.
Ao ouvir um barulho vindo do corredor, secou o rosto com as mãos.
Rodrigo havia levantado.
Descalço, vestia calça comprida de um agasalho que se arrastava ao chão, estava sem camisa e se espreguiçando ao chegar perto da mãe.
- Bom dia - cumprimentou com a voz rouca e se curvou para beijá-la.
- Bom dia, filho - correspondeu e lhe fez um carinho no rosto.
- Ouvi conversa.
Quem estava aqui?
- A Lídia. Veio me ver.
O rapaz se sentou ao seu lado, pegou o controle remoto que se encontrava sobre a mesinha central e ligou a televisão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:15 am

Passou por vários canais e nada lhe agradou.
Desligou o aparelho.
Sem demora, a mãe sugeriu:
- Vai tomar café.
Já são quase dez horas.
- Mãe...
Esperou que a mulher o encarasse e contou:
- Desde sexta-feira estou meio engasgado pra te contar uma coisa.
Hilda sentiu-se gelar.
Um mal-estar percorreu seu corpo e sentiu-se mal.
Não disse nada, mas não suportaria mais surpresas desagradáveis.
Ficou firme.
Desejando que o filho contasse logo, perguntou:
- O que foi?
- É que... Surgiu uma oportunidade para eu ser promovido.
Recusei. Mas o director do jornal pediu para eu pensar melhor.
Tenho de dar uma resposta logo.
Hilda sentiu um alívio que não saberia explicar.
Quase se irritou.
Mesmo assim, calma, perguntou com ênfase:
- Como assim?!
Você recusou uma promoção?! Filho!
- Terei de ir para o Rio de Janeiro, mãe - ofereceu um sorriso.
Não posso fazer isso. E a senhora?
Lágrimas correram pela face de Hilda, que sorriu.
Ela afagou o ombro do rapaz e comentou:
- Rodrigo, estou emocionada com a sua forma de pensar, com sua consideração por mim e...
Nem sei o que dizer.
Mas não é assim que a vida funciona, meu filho.
Como é que vou viver feliz e realizada, sabendo que prejudiquei, de alguma forma, o seu sucesso, o seu progresso, a sua prosperidade?
Você não pode ficar aqui por minha causa!
- E o que você vai fazer, aqui, sozinha?
Se o pai estivesse aqui!...
- Rodrigo, preste atenção:
você tem de fazer o que é melhor para a sua vida! - enfatizou.
Precisa pensar no seu futuro.
Um momento e perguntou:
- E a Rafaela? Já comentou com ela?
- Eu...
Esfregou os cabelos já desarrumados, suspirou fundo, espreguiçou-se e comentou:
- É que, se eu aceitasse...
Pensei em casar com a Rafa - falou de modo tímido.
- Que óptimo, filho! Que maravilha!
Pense em seu futuro! No seu progresso!
A Rafa é uma boa moça.
Vocês têm tudo para darem certo e serem felizes.
- Mas e você, mãe?!
- Ainda não sei muito bem.
Agora, neste momento, ainda estou organizando minhas ideias.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:15 am

Talvez...
Fez breve pausa e revelou:
- Eu estava preocupada com você e seu trabalho.
Vamos ter de nos mudar daqui após a venda desta casa, sabe disso.
Não sei se o dinheiro que vamos receber dela vai dar para comprar outra.
Com certeza, não do mesmo tamanho nem neste bairro. Isso não.
Aluguer é algo bem difícil, sem fim e minha aposentadoria não daria para pagar um.
Se você, nesta etapa da vida, fosse se meter em aluguer para me ajudar, não iria prosperar.
Não como deveria.
Tenho um carro popular em bom estado e não gostaria de me desfazer dele.
Então... - fez longa pausa para concatenar os pensamentos.
- E o que vai fazer se eu for para o Rio de Janeiro?!
Como vai pagar aluguel?!
- Você indo para o Rio, as coisas mudam de figura.
Eu, sabendo que você está bem, pego o dinheiro que me restar desta casa e compro uma casinha no interior.
Algo só pra mim.
Dessa forma acho que dá.
Não pretendo ficar parada.
Vou arrumar algum trabalho.
Posso dar aulas particulares de inglês, francês ou italiano.
Dependendo do lugar, posso até dar aula em uma escola de idiomas - animou-se e sorriu.
- É uma aventura, mãe.
- E daí?! - sorriu.
Preciso fazer alguma coisa.
Construir um novo caminho.
Não quero e não vou depender de meus filhos.
Isso não é justo.
Se não conseguir, então sim, peço ajuda.
- Não sei... Estou preocupado.
- Eu também, Rodrigo.
Mas é o que nos resta fazer, filho.
Aceite a oferta de promoção.
Case-se. Vá para o Rio.
Assim estarei mais tranquila e livre para tocar minha vida.
Se eu ficar parada, chorando e dependente, ficarei maluca e só vou complicar a vida de vocês.
- Tem certeza, mãe?
- Tenho. Tenho sim.
- Vou falar com a Rafa... - riu.
Se ela quiser casar comigo...
- E se ela não quiser? - perguntou com delicadeza.
Talvez, para preveni-lo.
- Vai querer! - riu gostoso.
Duvido!
Um momento e considerou:
- Se não quiser, vou para o Rio assim mesmo.
Não posso me prender.
Será uma grande oportunidade.
A promoção, o salário, a experiência...
Não posso jogar essa chance fora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:15 am

- Se pensa assim, por que recusou a oferta, a princípio?
- Por você, né mãe!...
Tudo o que está vivendo...
Hilda o abraçou com carinho e se emocionaram.
Em seguida, afastando-se, ela disse:
- Olha... Vai dar tudo certo do jeito que tem de ser.
Fale com a Rafaela. Façam planos.
Vá em busca de prosperidade. Eu vou fazer o mesmo.
O filho olhou-a na alma através de seus olhos e comentou:
- Mãe... Você sempre foi um grande exemplo para nós.
Se sou um homem capaz, honesto, disciplinado... qualidades que só me fazem prosperar na vida, aprendi com você.
Em lágrimas, ela argumentou:
- Então, meu filho, inclua fidelidade nessa lista de qualidades.
Seja fiel e respeite sua esposa e companheira.
A dor de ser traída é tão cruel, tão intensa que ninguém merece experimentar.
- Pode deixar - sorriu.
Inclinou-se e a abraçou.
Levantando-se, disse:
- Vou almoçar na casa da Rafa.
Vem comigo?
Os pais dela gostam muito de você e vão achar legal sua presença.
- Hoje não, filho.
Preciso fazer uma coisa que estou adiando muito.
- Já sei! Visitar o Wagner!
- Não. Mas é algo ligado a ele.
- E como ele está? - o filho quis saber.
- Ligo todos os dias.
Você sabe - riu.
Ele está se recuperando aos poucos.
Não fala direito e demora a perceber as coisas ou a entender.
Fica confuso e ainda não reconhece todo o mundo.
Está sem coordenação motora.
Não tem equilíbrio para pegar as coisas.
- Lembrou-se do pai?
- Ainda não. Coitado do Hernâni.
- Quando ele vai receber alta?
- Provavelmente, na próxima semana.
É o que a Wanda acha.
- Você poderia tirar umas férias, mãe.
Ficar uns dias na casa da tia, lá na praia, e visitar o Wagner mais vezes.
Acho que isso iria te fazer bem.
- Não se tira férias indo para a casa dos outros - riu.
Não quero tirar o sossego de sua tia.
Além do mais...
- Já sei. Ela não aceitou muito bem sua separação. Não foi?
- Foi isso mesmo. Mas... - sorriu.
Vou pensar na possibilidade das férias.
Com toda a reviravolta em nossas vidas, não tenho onde passar o Natal.
A Fátima e o Rogério vão viajar no cruzeiro.
Você vai passar com a família da Rafaela. E eu...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:15 am

- É mesmo! Não! Não! Não vou!
- Vai sim!
Sei onde vou ficar nesse Natal.
- Na casa do Wagner?! - Rodrigo riu.
- É bem provável.
Quando fui convidada, recusei, mas agora...
Estou considerando a ideia.
Vou falar com a Wanda.
- Se estiver lá com eles, estarei tranquilo.
Hilda olhou o relógio e disse:
- Nossa! Já são onze horas!
- Vou me arrumar para ir pra casa da Rafa!
- Vai sim, filho. Vai sim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:16 am

Capítulo 26 - Hilda encontra Adriana

Bem no fim da tarde de domingo...
- Alô!
- Meu nome é Hilda, por favor, eu poderia falar com a Adriana?
- Hilda?! Hilda!
Ai, meu Deus! Hilda! - sentiu seu coração bater forte quando deduziu de quem se tratava.
Hilda, aqui é a Adriana.
É a respeito do Wagner?!
Como ele está?!
Por favor, me diga! - perguntou aflita.
- Ele está se recuperando.
E você? Como está? - indagou em tom tranquilo.
- Ai meu Deus... - começou a chorar.
Meu Deus... Me diga que ele está bem, por favor? - pedia com a voz trémula, como se implorasse.
Liguei para o telefone dele.
Conversei com a Wanda, mas depois ninguém mais me atendeu nem me deu notícias.
Por favor, me diga como ele está.
- Calma. Ele vai ficar bem.
O acidente foi muito grave.
O Wagner passou por duas cirurgias.
Acordou do coma há poucos dias.
Não está reconhecendo algumas pessoas nem se lembra do que aconteceu.
- O Wagner perdeu a memória?! - preocupou-se.
- Por enquanto, parte dela.
O médico disse que isso é mais ou menos comum em casos como o dele.
O cérebro é um órgão cheio de surpresas e mistérios.
Acredita-se que isso deva passar.
Ele deve se recuperar aos poucos.
Hilda ouviu a moça chorar baixinho e comentou:
- Desculpe-me por não ter ligado antes.
Tive problemas pessoais bem sérios. Fui demitida.
A Wanda me contou que você ligou, mas o telefone do Wagner acabou a bateria e ela não tinha carregador compatível.
Em meio a muito trabalho por causa do irmão no hospital, a morte da mãe e a vida pessoal, ela não teve como se preocupar com isso.
Só depois conseguiu carregar a bateria do celular, mas o seu número não aparecia.
Era um número restrito.
Eu não tinha seus contactos.
Além disso tudo, soube que você se casou e fiquei um tanto receosa de ligar.
Só agora, com a cabeça mais fria e com um pouco mais de tempo, entrei em contacto com uma amiga do Departamento de Recursos Humanos lá da empresa e ela me forneceu esse número.
Um instante e quis saber:
- Como você está, Adriana?
Diante do silêncio, interveio:
- Se não puder conversar, no momento, por causa de alguém ao seu lado ou do seu marido...
- Não... Não tenho marido... - falou emocionada por conversar com ela e ter as notícias que desejava.
Vou me divorciar na terça-feira.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:16 am

Aconteceu muita coisa...
Hilda ficou surpresa.
Não esperava por aquela notícia.
- Sinto muito, Adriana.
Eu também estou passando por um divórcio.
Sei, exactamente, o quanto isso é difícil.
Não importa se é um casamento de meses ou anos.
Sempre existe dor.
- Eu estou grávida do Wagner - falou subitamente.
- Como?! - a mulher se assustou.
Pensou ter ouvido errado.
- Eu estava grávida do Wagner.
Meu noivo descobriu tudo e disse que me mataria e mataria o Wagner.
Me casei forçada... - chorou.
Fiquei com medo...
Ele me agrediu e... Aconteceu tanta coisa...
- Calma. Agora está tudo bem, não está?
- Eu não deveria contar tudo isso por telefone, mas creio que alguém, próximo do Wagner, precisaria saber para não me deixar mais sem notícias.
Fiquei aflita!
- Onde você está morando?
- Por enquanto, na casa dos meus pais.
Não estou trabalhando no momento.
O Nicolas, meu... marido - titubeou, pensando no que ele seria - não sabe que estou grávida e não pode saber.
- Não estou entendendo.
Você me disse que ele descobriu.
- Descobriu, ou melhor...
Não conseguia coordenar as ideias por causa da emoção.
- Foi assim:
eu quis terminar tudo dias antes do casamento.
O Nicolas foi rude e me agrediu... - chorou.
Contei que estava grávida do Wagner.
Ele me obrigou a casar e...
Aconteceu muita coisa...
Eu... Eu perdi um bebé e... - estava emocionada.
Com a voz embargada, quase não conseguia falar.
Não queria contar que havia feito um aborto.
Toda a tristeza, a culpa, o remorso, a dor, o arrependimento e outros sentimentos afloraram.
- Sofri muito...
Mas depois, quando fiz um exame, descobri que eram gémeos.
Que havia perdido um, mas o outro, por ser de bolsa diferente, estava vivo e bem e...
Criei forças para me separar do Nicolas, por isso não quero que ele saiba que estou grávida.
- Certo. Entendi.
Precisamos conversar melhor, Adriana.
- Sim... Precisamos.
Por favor, precisamos sim.
Vivo aflita, querendo notícias do Wagner.
Conversaram mais um pouco.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:16 am

Depois Hilda sugeriu:
- Na terça-feira, você assina o divórcio.
Então, na quarta-feira, podemos ir para Peruíbe.
Acho que o Wagner vai gostar de te ver.
Não sei se ele está em condições de saber de tudo isso que me contou.
Acho que é muita emoção para o estado dele.
Vamos conversar com o médico e ver o que ele fala.
- Sim! Sim! Sim! Claro!...
Oh meu Deus! - Chorou.
Obrigada, Hilda! Muito obrigada!
- Não me agradeça por isso, querida.
Gosto muito daquele menino e quero vê-lo bem.
Fique com os meus contactos.
Qualquer novidade, me telefona.
- Sim. Claro. Obrigada.
Conversaram, trocaram contactos e desligaram.
Daniel chegou ao quarto e encontrou a irmã chorando e rindo ao mesmo tempo.
- Eih!... - exclamou sussurrando.
O que foi?
Ela contou transbordando emoção.
- Então, na quarta-feira, vamos lá.
- Uauü! Já que o cara não morreu no acidente, vocês duas querem matá-lo de qualquer jeito!
Já pensou chegar lá e dizer:
Você vai ser pai!!! - enfatizou e riu com gosto.
Eu morreria!!!
- Não brinca, Dani.
- Uma dica - disse mais sério -, não conte nada para mais ninguém sobre você ir visitar o Wagner.
- Nem para a mãe? - ela indagou, estranhando a sugestão.
Olhando-a nos olhos, o irmão afirmou:
- Ninguém. Espere seu divórcio sair.
Só por precaução.
Aprenda a fazer uma coisa de cada vez e a não contar sua vida para todo o mundo.
- Certo. Você tem razão.
- E o bebé está bem?
- Está - ela sorriu ao responder.
Daniel mexeu em algumas coisas e, dissimulando, perguntou:
- Pensei que a leda estivesse aqui.
- Não. Ela não veio aqui hoje.
- Passei na casa dela e não estava.
Adriana iluminou o rosto com um sorriso e comentou em tom provocante:
- Estou vendo que está interessado, hein!
- Não! Nada disso - ficou inquieto.
- Sei. É por isso que está indo com frequência à casa dela, chamando para comer pizza, ir a um barzinho, ver apartamento...
Além de irem e voltarem todos os dias juntos... - riu.
- Foi só por eu não ter companhia.
Quanto a irmos trabalhar, não tenho opção a não ser levá-la - envergou a boca segurando o sorriso e fugiu o olhar.
Não queria admitir que a irmã estivesse certa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:16 am

Um instante e comentou:
- Nossa! O quarto dela é tão arrumado!
Simples e bonito.
- Ela é muito caprichosa e limpa.
O resto da casa não tem nada por causa da irmã.
Nem televisão ela pode ter.
- Ela não arruma o quarto só esperando que alguém vá lá... como algumas pessoas.
- Isso é indirecta?
- Não. De jeito algum - riu.
A leda deveria mudar dali.
- Está guardando uma grana para isso.
Breve momento e, vendo-o quieto, perguntou de modo travesso:
- Oh, Dani! Por que você não chega de uma vez na leda?
Vocês formam um casal tão bonito!
- Ah! Não enche! - saiu do quarto e ela riu.
Na sala, Daniel encontrou seu pai agitado.
Jaime mexia nas coisas da estante com modos nervosos.
A televisão estava desligada.
O filho pegou o controle remoto para ligar o aparelho e reparou seu estado.
- O que foi?
- Nada. Não é nada.
Não tenho nada.
- Está procurando alguma coisa? - o rapaz perguntou.
- É... Não.
- Aconteceu alguma coisa? - tornou Daniel com jeito paciente.
- Não. Nada. Nada não.
O homem tentou se aquietar e se sentou no sofá.
Com jeito frenético, mexia com as mãos e também roía as unhas, tentando prestar atenção na TV.
Daniel percebeu-o sóbrio.
Não via o pai embriagado há alguns dias e desconfiou de que aquele estado alterado deveria ser por essa razão.
Desligando a televisão, o que surpreendeu o homem, o rapaz virou-se para ele e perguntou:
- O senhor está bem inquieto.
Quer conversar?
- Não sei sobre o que a gente poderia conversar.
- Sobre o senhor não beber há alguns dias.
Eu percebi isso e estou achando muito legal.
Aquela frase pareceu cair em cima de Jaime como um balde de água gelada.
- Você... Percebeu?! Percebeu é?
Percebeu que eu não bebi?!
- Sim. E faz alguns dias.
Jaime, parecendo nervoso, sentou-se na beirada do sofá.
Apoiou os cotovelos nos joelhos e segurou a cabeça com as mãos, depois que alinhou os ralos cabelos com os dedos.
- Tá difícil - murmurou.
Tá muito difícil.
Dá uma coisa... Um desespero...
Sinto tremores nas mãos, nas pernas.
Um tremor forte no peito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:16 am

Parece que vou ficar louco.
Não consigo me concentrar nas coisas.
Esqueço o que vou fazer.
Sei que se eu beber, isso tudo passa, mas não consigo beber só um golinho.
Se começar, não paro.
Daniel, embora sentado em outro sofá, remexeu-se e ficou mais perto de Jaime.
- Pai, o que o senhor está fazendo é uma vitória! - exclamou sussurrando e sorrindo.
O senhor está admitindo o vício, a necessidade do álcool.
Não pode entregar os pontos e perder essa batalha.
Para isso vai precisar de ajuda.
Inesperadamente, Jaime começou a chorar de modo compulsivo.
O filho, bem próximo, afagou-lhe o ombro e as costas em sinal de apoio.
- Quero mudar... Ser diferente.
Ser alguém que você e sua irmã não tenham vergonha...
Tenho vergonha de vocês terem vergonha de mim.
Sabe como é?
- Eu entendo e vou ficar orgulhoso se o senhor aceitar ajuda para vencer essa doença.
- Que doença? - perguntou, secando o rosto com as mãos.
- Alcoolismo é uma doença progressiva.
Uma doença física, emocional, mental e espiritual, pai.
Precisa ser tratada e, para isso, é necessário ajuda.
- E que ajuda?
- Eu quero te ajudar.
Podemos procurar um grupo de apoio, médico psiquiatra, psicólogo, nutricionista, tratamentos terapêuticos alternativos...
Tudo o que for necessário.
Mas é preciso que o senhor queira.
- Eu fui na igreja católica aqui perto.
Assisti uma reunião lá do AA - referiu-se aos Alcoólicos Anónimos, falando de modo informal.
Mas fiquei com vergonha e saí de lá sem falar com ninguém.
Com jeito generoso na imposição da voz grave, Daniel sorriu ao dizer:
- Procurou ajuda e teve vergonha?!
Pai! - enfatizou.
O senhor deveria ter orgulho da sua coragem!
Veja o que fez! - O homem o olhou e pareceu mais atento.
Daniel prosseguiu:
- Decidiu dar um basta a essa escravidão, que é o álcool.
Decidiu se libertar dessas algemas doentias da bebida alcoólica.
Isso é razão para ter orgulho!
Que coragem! Estou admirado por sua coragem!
- Será?!
- Sem dúvida, pai!
Estou começando a ficar orgulhoso do senhor! - sorriu satisfeito.
O homem sorriu levemente e contou:
- Mas eu saí correndo.
E agora pra voltar lá?
- Vai ser a coisa mais fácil!
- Você acha? Acha mesmo?! - Jaime duvidou.
- Vai sim. Se quiser vou com o senhor - o rapaz decidiu.
Lágrimas fizeram os olhos de Jaime brilharem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 9:17 am

Daniel se levantou e o puxou para um abraço, que foi correspondido.
Afastando-se, o filho quis saber:
- Quando será a próxima reunião?
- Na terça-feira.
- Sabe como funciona?
Quanto é que paga?
- Eles dizem que é uma irmandade.
Que não tem que pagar taxa nenhuma nem mensalidades.
Nunca! Que eles não estão ligados a nenhuma seita ou religião.
Para fazer essas reuniões, usam os centros comunitários, hospitais, igrejas crentes ou católicas ou qualquer espaço por causa do espaço do lugar e porque é fácil conhecer.
Mas não tem ligação com nada.
A única coisa que precisa é o membro querer parar de beber.
São homens e mulheres que se reúnem para se apoiarem.
Falar das experiências para resolver os problemas e ajudar outros a se recuperar do alcoolismo - comentou com jeito simples e falando errado, como sempre.
Eu ouvi um lá dizer que, mesmo a gente tendo perdido o controle para controlar a bebida, todos têm um período que quer parar de beber.
E devemos aproveitar esse período pra procurar toda ajuda possível.
Lá tem gente de toda idade.
Tem adolescente também.
O pessoal de lá disse que o grupo ajuda a gente sim, mas muitos ainda precisam de acompanhamento de profissional para se garantir.
Acho que é isso que você falou dos médicos aí.
Ah! E disseram que garantem o anonimato.
- Só foi lá uma vez e voltou tão bem informado assim?! - admirou-se e sorriu.
O senhor está bem disposto e interessado.
Acho que devemos aproveitar esse período de querer se ajudar, mudar de vida, deixar a dependência.
Um momento e falou de modo generoso:
- Pai, sei que em caso de vícios, seja ele qual for, mas, principalmente, os vícios de dependência química, a religiosidade é um auxílio muito importante.
Tenho companheiros de serviço que já foram dependentes de drogas, de álcool e, todos eles me disseram que a religião ajudou muito.
Embora o AA não seja uma entidade religiosa, acredito que não haja problema o senhor frequentar algum lugar.
- Eu rezo.
- Sim. Eu sei.
Mas rezar não é suficiente.
É necessário uma...
- Frequência em algum lugar - disse ao interrompê-lo.
- Isso mesmo.
- Eu fui lá na igreja e fiquei um tempo lá e gostei.
Também vejo a leda falando em Centro Espírita e tenho curiosidade.
Não sei do que vou gostar.
- Deus é um só.
Seu coração é que encontra o melhor caminho até Ele para que se ligue.
Vá à igreja, à casa espírita, ao centro de umbanda, à igreja crente ou evangélica...
Não importa. O importante é sua fé, sem prejuízo próprio ou incómodo aos outros.
Religando-se a Deus terá força, coragem e determinação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 9:08 am

Poderá e deverá recorrer a Ele nos momentos em que sentir fraqueza, dúvida ou tentação.
Isso é o que ouvi de conhecidos com desafios assim.
- Eu quero que esse tremor passe.
Esse tremor vai passar?
- A medida que seu corpo se limpar do álcool, sim.
Creio que vai passar.
Isso mostra a dependência física.
É o corpo exigindo a bebida alcoólica.
O senhor deu alguns passos, abaixou o olhar e ficou pensativo.
Depois disse:
- Então vou aguentar.
É. Vou aguentar sim.
Eu posso aguentar isso.
Vou aguentar, né?
- Vai sim, pai.
O senhor é um homem forte.
Se me permitir, eu gostaria de levá-lo a um médico e, talvez, a um psicólogo.
Algo para auxiliar nesse processo.
- Médico? Psicólogo?
- Sim. Um bom médico psiquiatra, talvez, indique alguma medicação.
De preferência uma medicação natural, antroposófica, que não vicia, para ajudar essa ansiedade e diminuir os tremores.
- Antro... o quê?
- Médico antroposófico.
Medicina antroposófica.
Deixe-me tentar explicar... - pensou e respondeu de modo simples para ele entender:
- Os medicamentos antroposóficos são totalmente naturais.
São feitos a partir de minerais, vegetais ou animais, nunca de plantas geneticamente modificadas.
Os medicamentos antroposóficos nunca são sintéticos, embora o médico antroposófico possa recorrer a remédios alopáticos, se necessário.
Esse tipo de tratamento tem sua abordagem, ou melhor, o seu olhar e seus fundamentos em um entendimento espiritual-científico do ser humano.
Dentro desse tipo de tratamento, o médico considera a doença e o bem-estar situações ligadas à mente, corpo e espírito.
Somos vistos como um todo.
Não se tratam os factores que causam a doença. Vai além.
Eu já me tratei com esse tipo de medicina e gostei muito.
Embora ainda seja um pouco cara, vale a pena tentar por não causar vício nem intoxicar o corpo.
- É, tem que ser natural.
Chega de vício, né? Chega de vício.
Nada mais de vício.
- Vamos procurar.
Vai dar certo, pai - Daniel sorriu de modo agradável.
Jaime se sentou novamente e o filho percebeu que ele queria conversar mais alguma coisa.
- Obrigado viu...
Obrigado, Daniel - falou baixinho.
Eu peço desculpas por todos esses anos que bebi. Desculpa viu.
- Não precisa se desculpar se vai se recuperar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 9:08 am

- É. Eu vou. Vou conseguir.
E desculpa também por eu não ser o seu pai...
Acho que se eu fosse seu pai você seria um fracassado igual eu.
Olha só você! Um homem grandão, bonito, educado...
Sabe conversar, fala direito...
Se eu fosse seu pai...
- O senhor é meu pai - disse firme ao olhá-lo nos olhos quando se sentou ao seu lado e ficou praticamente à frente dele.
Suspirou fundo e disse:
- Eu tenho o que preciso e mereço para evoluir.
Não seria o que sou se minha vida fosse diferente.
Usando como desculpa as experiências que tive, eu poderia ter feito tudo errado.
Bebido, fumado, jogado... Mas não.
- Não vai querer conhecer seu pai?
- Já o conheço muito bem porque vivo e convivo com ele.
Meu pai é o senhor.
Jaime, com olhos lacrimejados, tentou se levantar, mas o filho o segurou e o puxou para si, beijando seu rosto.
Emocionaram-se.
Logo se afastaram do abraço e Jaime decidiu:
- Preciso ir deitar, viu?
Preciso dormir.
Acordo bem cedo - levantou-se.
Deu dois passos e afirmou:
- Eu gosto de você.
Gosto de ter você como filho - emocionou-se e se virou.
- Pai - esperou que ele olhasse e pediu - converse com a mãe.
Se vocês se entenderem, vai ser melhor para o senhor e para ela.
Quando perdoamos, a vida fica mais leve.
- Tá. Vou ver - seguiu para o quarto.
Daniel sorriu.
Sentiu uma leveza inexplicável nos sentimentos.
Invadido por uma sensação boa, quis dividi-la.
Lembrou-se de leda.
Pegou o celular e mandou uma mensagem:
"Tá em casa?"
"Oi!" .
'Tá sozinha?"
"Posso ir até aí?"
"É rápido."
"Quer que eu te ligue?"
"Tenho de levantar cedo."
Não demorou e o rapaz estava na casa de leda.
- Oi. Entra.
Ele a cumprimentou e entrou.
Procurou por um sofá e se sentou sem que ela oferecesse.
- Quer um chá? - a moça perguntou.
- Não. Não quero te dar trabalho.
- Trabalho algum. Já está pronto.
- Então quero! - alegrou-se.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 9:09 am

- Vou pegar.
- Não. Vamos tomar aí na cozinha - levantou-se e a seguiu.
O rapaz se sentou à mesa e ela colocou uma caneca cheia de chá a sua frente.
- O que foi? - ela sorriu ao perguntar.
Parece tão... Agitado, seria a palavra certa?
- Foi uma coisa boa que aconteceu.
Meu pai se abriu comigo.
Nós conversamos e... - contou tudo.
- Pôxa! Que bacana! - leda ficou legitimamente feliz.
Acho que, agora, o senhor Jaime quer mudar de verdade.
- Não sei o porquê, mas eu também senti isso.
Ele estava diferente.
- O alcoolismo é uma doença terrível.
Embora doença, a pessoa não deve se acomodar e se sentir vítima fatal.
Não há fatalidade quando temos uma chance de superar o mal que nos ataca.
Não estamos fadados a sofrer eternamente, se houver uma oportunidade de sermos melhores.
Uma vida melhor só depende da nossa atitude diante da dificuldade.
- Verdade.
- Estou gostando da sua posição diante de tudo isso.
Você poderia se revoltar, ficar indignado, mas não.
Entendeu que não adiantaria nada - sorriu com leveza.
Daniel retribuiu o sorriso e comentou:
- Outro dia, quando fui ao centro com você, um palestrante disse:
tudo é útil em nossa vida e nada é por acaso, até aquilo que mais nos incomoda serve para nosso aperfeiçoamento.
Breve pausa e comentou:
- Não sei exactamente a razão de o senhor Jaime ser meu pai.
Se Deus permitiu, isso é útil para minha evolução e sou eu que preciso enxergar em que essa condição vai me fazer ser melhor.
Se der as costas a ele, estarei fazendo mal a mim e a minha consciência.
- Que legal, Dani!
Você aprendeu rápido! - riu.
- Quero ajudá-lo, leda.
Se ele estiver bem, ficarei melhor.
- Sem dúvida.
Até porque você será o instrumento que o ajudou a ficar bem.
Mas faça isso sem se prejudicar.
- Claro.
Um instante e disse:
- Acho que vou colocá-lo no plano de saúde que tenho.
Assim ele terá acesso a médicos, psicólogos, nutricionistas, terapias alternativas...
Sei lá mais o quê.
O plano que tenho é muito bom.
- Isso vai ajudar mesmo.
E sua mãe?
- O que tem ela?
- Disse alguma coisa? - leda perguntou.
- Não. Você acha que ela precisa opinar?
- Não sei de nada.
Nem mesmo sei por que perguntei isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 9:09 am

- E sua irmã? Nada?
- Nada. Não apareceu ainda - suspirou fundo e demonstrou não querer falar do assunto.
leda se levantou.
Foi até o fogão, pegou a chaleira e se serviu com mais chá.
Enquanto isso, ele a seguiu com o olhar.
Voltou. Colocou sua caneca sobre a mesa.
Ao ir pegar a caneca de Daniel para servi-lo, o rapaz colocou a mão sobre a dela para impedi-la.
Aquele toque pareceu diferente quando ele segurou demoradamente sua mão, ao mesmo tempo em que se levantou e ficou a sua frente.
leda mostrou-se surpresa e o olhou firme.
Seus corações bateram forte, talvez, no mesmo compasso.
O rapaz levou a mão até seu rosto delicado e a tocou.
Mas ela deu um passo para trás e fugiu do carinho.
Suspirando fundo, decidiu:
- Bem, Daniel.
Já está tarde. Não é mesmo?
- leda...
- Olha... Amanhã temos de levantar cedo e...
- leda, olha pra mim - pediu ao ir em sua direcção.
- Daniel... Por favor.
Não vá atrapalhar nossa amizade.
- Nossa amizade já está atrapalhada desde aquele dia no hospital, onde ficamos abraçados.
Não percebeu?
- Percebi que você é meu amigo.
Nós nos conhecemos desde criança.
Nunca nos demos muito bem.
Brigamos demais.
Só nos últimos tempos, a coisa melhorou.
Não vá estragar isso. Por favor.
- Eu gosto de você.
- Você está enganado! - afastou-se, sem encará-lo.
O rapaz se aproximou novamente.
Tocou seu ombro e falou firme:
- Olha pra mim!
leda o encarou.
Seu coração batia forte.
Ela tentava disfarçar a respiração quase ofegante.
- Daniel... Por favor, vá embora.
- Por que está fazendo isso? - perguntou com generosidade, mas não houve resposta.
Ela abaixou o olhar.
- Vamos dar uma chance para nós? - propôs no mesmo tom amoroso.
- Não existe nós, Daniel.
Você é quem está forçando uma situação.
- Qual é, leda?! - ficou contrariado.
- Amanhã conversamos. Vá embora.
Muito descontente ele se foi.
Nem se despediu.
Já em sua casa, no quarto que dividia com sua irmã, Daniel achava-se insatisfeito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 9:09 am

Mexia em suas coisas com jeito abrupto e Adriana, mesmo imantada ao livro que lia, percebeu e quis saber:
- O que foi? - não era comum vê-lo assim.
- Nada - respondeu secamente.
- Algum bicho te mordeu? - ela brincou.
Zangado, o irmão perguntou:
- Qual é a da leda, hein?!
- Como assim? - estranhou.
Adriana não entendeu o que estava acontecendo.
- Mina folgada!
- O que ela fez? - não houve resposta.
Vocês brigaram? - quis saber.
- Ela me mandou embora da casa dela - murmurou contrariado.
- E o que você fez para merecer isso? - ficou curiosa e sorriu.
- Ah!... Não enche você também.
- Já sei! - deduziu sorrindo.
Foi chegar nela e ela te deu o fora!
- Qual é hein, Dri?!
Vai começar, é?!
- Sabe o que é, Dani?
A leda já sofreu muito com amor.
Teve seu coração partido.
Ficou frustrada, arrependida, contrariada...
Acho que não quer sofrer de novo.
O rapaz se sentou em sua cama e a olhou.
Trazia o rosto sisudo ao perguntar:
- E vai querer ficar assim pelo resto da vida?
Eu também já me frustrei, fiquei arrependido, fiz burrada, magoei e fui magoado...
- Se ela perceber que é sério da sua parte, acho que poderá ter uma chance.
Ela só não quer ser um passatempo.
Até porque você sempre tirou uma com ela.
Nunca a levou a sério. Tirava onda...
- Era brincadeira! - defendeu-se.
- Agora recebe o troco.
O rapaz nada disse.
Ficou pensativo e ela perguntou mais séria:
- Está gostando dela, não é?
- Ela parece legal.
Depois que começamos a ir e voltar juntos do serviço, passamos a conversar mais.
Percebi que a leda é bem madura, consciente, séria.
Pessoa que sabe o que quer e o que ela quer é coisa boa, honesta, digna, correta...
- Se gostou disso tudo, mostra pra ela que não quer usá-la ou brincar com seus sentimentos.
- Como? - perguntou baixinho.
- Homem é tudo a mesma porcaria! - murmurou, mas ele ouviu.
- Ah! Qual é? Você também!
- Caramba, Daniel!
Acorda! - ficou brava.
- Não sei como mostrar pra ela que estou falando sério.
Droga! É isso!
- De tanto não levar nada a sério, o dia que é preciso ser verdadeiro não sabe como fazer, né?!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74808
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 11 de 14 Anterior  1 ... 7 ... 10, 11, 12, 13, 14  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum