Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:55 am

Enquanto o pai conversava com o filho, Hilda, no quarto de Celine, ouvia todas as queixas desnecessárias da jovem.
- Ele é o queridinho! Sempre foi!
Não dão valor nem atenção a mim!
Não me valorizam!
E aí, mesmo matando minha mãe, a noiva e quase me matando, ele é o coitado!
Depois de falar muito, a jovem ofereceu pausa.
Sentou-se na cama, batendo o pé ou chacoalhando a perna em sinal de agitação e nervosismo.
Tranquila, Hilda puxou a cadeira da escrivaninha e se acomodou perto dela.
Entoando a voz com calma, perguntou com sensatez, relembrando a conversa que já tiveram:
- No que você acha que precisam te valorizar, Celine?
Não houve resposta.
- Para uma pessoa ser valorosa, ela precisa ter valores.
E para se ter valores, a pessoa precisa se empenhar e investir em si mesma.
É necessário estudo, conquistas realizações, produção.
Quando alguém fica focado, empenhado, estudando, conquistando diplomas, bom emprego, boa apresentação de si...
Quando a criatura se esforça para trabalhar em algo bom e em que acredita, ela tem sucesso e é produtiva.
Primeiro, ela não encontra tempo para ficar de olho no que os outros estão fazendo e segundo, vai conseguir chamar a atenção para si.
Vai ser valorizada sem ter que exigir reconhecimento.
- Até você, Hilda?!
- Acha que estou errada?
A jovem não respondeu.
- Pense um pouquinho, minha filha.
É como dizem, Celine:
as pessoas que se dão mal na vida acreditam no falso, duvidam do verdadeiro, valorizam o errado e abandonam o que é certo.
Pior ainda, quando se tornam improdutivas e acham que devem ser servidas e que têm toda a razão em tudo.
O que vai acontecer a essa pessoa é que, cada vez mais, as situações difíceis vão aumentar e ela vai acabar sozinha, porque ninguém vai ficar por muito tempo servindo-a do jeito que ela deseja.
A jovem permaneceu calada.
- A pessoa que quer ser valorizada, deve ser produtiva.
A que quer ser amada, deve dar amor e assim por diante.
Só recebemos da vida aquilo que oferecemos a ela.
- Ninguém me entende. Nem você.
Todo o mundo me critica e me despreza.
Não me dão valor.
- Olhe-se, Celine.
Veja como se veste, como fala.
Sempre existe uma agressividade ao olharmos para você.
- Sou verdadeira!
- É verdadeira ou agressiva?
Não houve resposta.
- Jesus nunca mentiu e nem por isso vivia agressivo ou era rude com os que se aproximavam dele.
Podemos falar tudo o que quisermos, mas só seremos ouvidos se houver educação, sensatez e prudência em nossas palavras.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:55 am

Quem quer ser valorizado, vai ter que se esforçar para fazer algo bom, produtivo e valoroso.
Ninguém é exaltado quando não produz coisa boa.
Não por muito tempo.
Dizendo isso, Hilda não esperou para ouvir mais nada e foi para a sala.
Só então cumprimentou Wagner:
- Oi, meu querido - abraçou-o com carinho.
Como você está?
O rapaz levantou os olhos marejados e forçou um sorriso ao responder:
- Estou levando... - ainda se sentia atordoado.
- E a Celine? - Hernâni perguntou.
- Deixei-a no quarto com algumas reflexões.
- Foi bom... Bom ela ter falado - disse Wagner lentamente.
Olhando para Adriana, pediu:
- Me conta o que aconteceu...
Conta tudo! - falou firme.
Hernâni olhou para a moça e acenou positivamente com a cabeça, consentindo que revelasse tudo.
Logo, ele e Hilda se entreolharam e os deixaram a sós.
Ao seu lado, pegando em sua mão, Adriana, nervosa, começou:
- Nós nos conhecemos na cafeteria, quando me jogou aquele suco de laranja - sorriu, mas com vontade de chorar.
Contou pormenores.
- Então você precisava vir para Peruíbe trazê-las.
Era seu aniversário.
Não tive mais notícias.
Contou mais detalhes até que revelou, chorando em alguns momentos:
- Fiz o exame e descobri que estava grávida de você.
Eu não sabia o que fazer!
Estava com medo e desesperada.
O Nicolas me ameaçava e dizia que iria nos matar.
Fiquei com medo por você.
Não tinha notícias suas... Não tinha nada... - chorou.
Acabei me casando com ele...
O rapaz respirou fundo.
Sentiu como se uma faca atravessasse seu peito.
Apesar disso, perguntou:
- Mesmo sabendo que esperava um filho meu?
- Sim... - ela chorou mais ainda.
- Está casada com outro e veio aqui me ver?! - indagou após organizar as ideias.
- Não! Fiquei casada por menos de um mês...
Vivi com ele menos de 15 dias...
Foram dias horríveis.
Ele me maltratava, me batia... e me obrigou a fazer um aborto - contou de uma só vez.
- Ah... não... - ele murmurou e deu um suspiro.
Soltou sua mão e virou o rosto franzido, parecendo sofrer com a notícia.
- Me perdoa, Wagner!...
Por favor!... Me perdoa!... - chorava em desespero.
Mesmo percebendo que ele não a encarava, prosseguiu:
- Passei muito mal. Tive hemorragia, febre...
Uma infecção e...
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:55 am

Por não terem notícias minhas, meu irmão e a leda foram até onde eu estava morando e me levaram para um hospital...
- Por que você tirou meu filho? - indagou com grande angústia na voz e semblante sofrido.
Ela chorou como nunca e pediu:
- Me escuta... Por favor...
Preciso te contar tudo - pediu, implorando.
O rapaz nada disse e ela prosseguiu:
- Fui para o hospital passando mal.
Depois meu irmão me levou de volta para a casa dos meus pais.
A dor do meu coração era bem pior do que qualquer dor física.
O arrependimento, a culpa, o remorso... - chorava, enquanto dizia.
Não existe coisa pior... Eu queria morrer...
A ideia de suicídio não saia da minha cabeça.
Quando colocavam os remédios para eu tomar, sempre pensava em engolir todos os comprimidos de uma só vez para morrer...
Você não saía da minha cabeça...
Pensava em como ia te encarar e dizer...
- Que matou... meu filho?... - indagou magoado, interrompendo-a.
- Me perdoa... Por favor.
Eu estava desesperada.
Ponha-se em meu lugar! - implorou.
Então...
- As coisas estão ficando mais claras...
Wagner a interrompeu novamente e ela ouviu:
- Me lembro da Sabrina. Éramos noivos.
Me apaixonei por você...
Respirou ofegante e esfregou o rosto.
Depois, olhou-a de modo indefinido.
- Lembrei... Na noite do acidente, nós nos encontramos.
Você iria terminar o noivado e acabar com a história do casamento.
Por que não fez o que combinamos?
- Tentei!...
Juro que tentei! - dizia em desespero, com lágrimas correndo em sua face pálida.
Já te contei.
Quando eu disse isso para o Nicolas, ele foi violento e me ameaçou.
Ameaçou você...
Depois do seu acidente, fiquei fragilizada...
Não tive forças pra mais nada.
Então descobri que estava grávida...
Contei pra ele para ver se assim desistia do casamento...
Mas foi ainda pior... Me perdoa, Wagner... Por favor...
- Estou passando mal... - falou lentamente e fechou os olhos por alguns minutos.
Respirava de forma ofegante.
- Quer que eu chame seu pai? - ficou atenta.
- Não... É algo estranho...
As imagens agora fazem sentido na minha cabeça...
Lembro que, no apartamento, briguei com minha irmã Celine, com a Sabrina e resolvi que viríamos pra cá...
Agora me lembro de tudo...
Breve pausa e clamou baixinho:
- Meu Deus! Meu Deus!... - precisou ser forte.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:55 am

Recordou de momentos importantes.
- Wagner... Por favor...
O que está acontecendo? - assustou-se com aquela reacção.
O rapaz a encarou e não contou o que era.
Tocou seu rosto com a palma da mão e ficou olhando-a por longo tempo.
Vendo-a chorar.
- O que sinto por você é muito forte, mas... Adriana...
- Fala! - pediu. Precisava de uma resposta.
Decidiu omitir, por algum tempo, sobre a gravidez para saber quais os sentimentos dele.
Não desejaria que ficasse com ela só por causa do filho que esperava.
Aquela era a hora da verdade.
- Estou tonto - murmurou.
Confuso... Não consigo coordenar direito minha... meus... pensamentos.
Mas eu lembro...
- Quer se deitar?
- Não.
- Quer que eu vá embora?
- Não - pendeu com a cabeça ao murmurar.
Um tanto descoordenado, esfregou o rosto com as mãos e recostou a cabeça no sofá.
Suspirou fundo e cerrou os olhos, tentando se acalmar.
Ela não sabia mais o que dizer.
Ficou ao lado, calada e esperando que ele se manifestasse.
Intuitivo, o cachorro foi para perto do dono.
Deu um grunhido e Wagner o olhou e lhe fez um carinho.
O cão esfregou-se nele por algum tempo e se sentou em baixo de sua perna estendida.
Aquilo distraiu o rapaz e sentiu-se mais leve ao recostar-se novamente no sofá.
Após algum tempo, Wagner abriu os olhos e a encarou de modo indefinido.
Erguendo a mão em sua direcção, tocou-a com carinho e a puxou para próximo de si.
Adriana recostou em seu peito, abraçou-o pela cintura e chorou ao sussurrar:
- Me perdoa...
O rapaz beijou, demoradamente, sua cabeça e afagou seu rosto.
Depois perguntou:
- Pretende ficar casada com o Nicolas? - pareceu não ter entendido.
- Já estamos divorciados - respondeu, encarando-o.
- Preciso de um tempo para organizar o que sinto, mas sei que... ...que amo muito você.
Estou triste, mas acho que isso vai passar.
Não é só com você...
Tem muita coisa que tô lembrando agora...
Se quiser ficar comigo...
- Eu te amo, Wagner.
Ele sorriu e a afagou com carinho.
Em seguida, ela pediu:
- Posso te contar o resto da minha história?
- Tem mais?...
- Sim, tem. E você precisa saber.
- Conta - encarou-a e ficou aguardando.
- No hospital, onde fui socorrida, não havia médico ou equipamento para exames especializados para que eu fizesse curetagem.
Uma limpeza do útero que deve ser realizada após o aborto.
Ainda bem. O médico que me atendeu pediu para eu procurar um hospital que tivesse esse tipo de atendimento o quanto antes.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:56 am

- Por que ainda bem?
- Eu queria morrer.
Não estava mais me importando comigo nem com minha saúde.
Demorei muito para procurar um médico e só o fiz por causa da insistência da leda.
Foi ela que agendou uma consulta em seu médico particular.
Fui à consulta e... - sorriu e chorou.
Não sabia como falar.
- Calma... Conta... - pediu, sem imaginar o que aguardava.
- Esse médico resolveu fazer um exame de ultra-sonografia para ver se estava tudo bem antes de fazer a curetagem e...
Esse exame mostrou que eu estava grávida.
Havia um coraçãozinho pulsando...
- Como assim?!...
- A gravidez era de gémeos em bolsas diferentes.
Um foi abortado sim, mas o outro não.
E a gravidez ia bem.
Está indo tudo bem... - emocionou-se.
- É... Eu... Não sei se entendi... - falou confuso.
Você está grávida?
- Estou - respondeu entre lágrimas.
Estou esperando um filho seu.
Wagner começou chorar quando a abraçou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:56 am

Capítulo 29 - Novos rumos

Enquanto Adriana e Wagner conversavam, Hilda e Hernâni foram para o quintal, em uma área avarandada perto da piscina.
Haviam se sentado em duas cadeiras que estavam em torno da mesa e o homem comentou:
- Está sendo difícil, Hilda.
Às vezes, acho que não vou suportar.
- Calma. Vai dar certo.
- A Celine está me tirando do sério.
Por outro lado, o Wagner me preocupa.
Agora que está em casa, preciso controlar a Celine para não agredir o irmão com suas colocações e argumentos que machucam.
A Wanda não pode me ajudar em tudo.
Nem posso exigir nada dela que tem feito muito.
Não estou dando conta dos negócios, desta casa, dos meus filhos...
Tem os médicos, o principal é o neuro, o fisioterapeuta, o fono... e sei lá mais o quê, que o Wagner precisa ir e...
E a Adriana grávida!
Tenho de me lembrar disso.
Colocou os cotovelos sobre a mesa e esfregou o rosto com as mãos.
Depois ficou segurando a cabeça e suspirou fundo.
- Todos temos nossos momentos difíceis em que a vida parece muito exigente e nós não damos conta.
- Não sei o que fazer, Hilda - encarou-a.
Meu filho desse jeito. A Celine não colabora.
As imobiliárias que tenho estão sem administração.
Nas mãos dos funcionários. O que faço?
- Entendo. A ausência da Ifigénia já apresenta seus reflexos, além da dor da saudade.
- Eu e a Ifigénia já estávamos separados - murmurou.
- Como assim? - indagou com tranquilidade.
Mas em seguida, acreditou ser indiscreta.
Hernâni pareceu não se importar com a pergunta e contou:
- Certa vez, eu a encontrei em atitude suspeita.
Acredito que estava me traindo.
Apesar de ela jurar que não.
Por causa dos filhos, eu propus que continuássemos juntos.
Dividíamos a mesma casa, mas não a mesma cama.
Ifigénia aceitou.
Por ser religiosa, acreditava que o casamento não devia ser desfeito.
- Seus filhos sabem? - perguntou baixinho.
- A Wanda sabe, pois ela estava comigo.
Isso foi há dez anos.
Nós dois vimos a Ifigénia se abraçando no carro com meu cunhado, viúvo de minha irmã.
- Meu Deus... - murmurou e lembrou-se de quando viu seu marido.
Sabia entender aquela experiência e dor.
- Você não imagina como é a decepção de ser traído.
É algo... - Breve pausa e respirou fundo.
A Wanda estava comigo e eu não fiz nada pensando nela.
Voltei para casa e esperei Ifigénia chegar.
Conversamos e ela disse...
Jurou que não tinha nada. Mas eu vi.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:56 am

Eu e minha filha vimos.
Não há como negar. Entende?
A Wanda sofreu muito... Eu também...
Enquanto conversavam, na espiritualidade, Ifigénia estava entristecida ao lado de Hernâni.
Quase em lágrimas, pousou a mão em seu ombro e pediu, mesmo sabendo que ele não poderia ouvi-la:
- Desculpe-me... Realmente não houve nada.
Eu aceitei uma carona.
Ficamos conversando e ele desabafou coisas pessoais.
Falou de sua tristeza pela perda de sua mulher.
Fui consolar e o abracei...
Beijei seu rosto.
Mas, naquela noite chuvosa, com os vidros embaçados, dentro do carro, certamente você e a nossa filha tiveram a impressão de outra coisa...
Eu e ele éramos bons amigos... Mas eu sei...
Sei que, por consequências do passado, tive de experimentar o que fiz a minha irmã sofrer.
Precisei passar por essa experiência que, encarnada, considerei injusta... - chorou.
Perdoe-me por fazê-lo sofrer assim.
Isso também deve ter uma explicação.
Indo para perto de Hilda, disse:
- Perdoe-me mais uma vez, minha irmã...
Cuide dele e dos meus, digo, dos nossos filhos...
O espírito Eser, seu mentor, aproximou-se e esclareceu:
- Nossa consciência nos atrai para as situações que precisamos harmonizar.
Por ter, em outra encarnação, testemunhado mentirosamente contra Hilda, que foi sua irmã, nesta última existência terrena, você e seu cunhado se atraíram para uma circunstância que, vista como enxergaram, parecia comprometedora.
- Fiquei magoada por ele não acreditar em mim.
Depois, desencarnada, vi a cena com o mesmo prisma.
Realmente, parecia que eu havia abraçado meu cunhado com outras intenções e que o havia beijado na boca.
Que vergonha...
- Lamento, Ifigénia.
Assim como você, Hernâni um dia saberá a verdade.
Certamente vai lamentar, mas também entender a razão de tudo.
Um instante e propôs:
- Agora precisamos ir.
Assim foi feito.
Hilda e Hernâni continuavam conversando quando ele insistiu em dizer:
- Não imagina como é cruel ver a pessoa que você mais confia, a mãe de seus filhos, com outro homem...
- Imagino sim.
Eu sei, exactamente, o que é isso.
Depois de trinta anos de casamento sólido, irrepreensível, peguei meu marido com outra.
Isso é cruel demais, principalmente depois de eu ter dado minha vida, minha juventude, minha saúde para cuidar dele, da casa, dos nossos filhos...
Trabalhando, economizando e... - Calou-se.
O homem se surpreendeu.
Conhecia a vida de Hilda.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:56 am

Um instante e ela continuou:
- Eu sei o que você passou.
Me propus ao perdão e decidimos prosseguir.
Mas ele não cooperou.
Estou me divorciando do Agenor depois de nova traição em tão pouco tempo.
Ele me disse coisas que... - seus olhos marejaram.
Hilda suspirou fundo e abaixou o olhar.
Depois contou com brevidade:
- Para piorar, minha casa está à venda.
Vou ter de mudar e, como se não bastasse, estou desempregada... - esboçou um sorriso quase irónico que logo se desfez.
- Meu filho caçula vai se casar e mudar para o Rio de Janeiro em breve.
Não quero incomodar meus filhos e ir morar com eles, tirando o sossego de todo o mundo.
Estou rezando para que consiga vender a casa onde moro e consiga, com a divisão de bens, comprar uma casinha, mesmo que seja no interior, para não pagar aluguel.
Na minha idade, vai ser bem difícil arrumar um emprego do mesmo nível, com o mesmo salário.
Penso em viver com minha aposentadoria e dar aulas de idiomas.
- Peruíbe é uma boa cidade litorânea - disse Hernâni com um toque de sugestão.
Tenho as imobiliárias e diversas opções de casas.
Um momento e perguntou:
- Você entende de imobiliária?
- Meu primeiro emprego foi em uma imobiliária - riu.
Eu tinha dezasseis anos!
Embora faça muito tempo...
Sou esperta e aprendo rápido.
Estou gostando da sugestão - sorriu e ficou atenta.
- Na verdade, Hilda... - pensou por um momento e falou:
- Passou uma avalanche de ideias na minha cabeça e...
Estou um tanto constrangido de falar, mas...
- Por favor! Diga!
Estou precisando de alguma coisa pra fazer na vida - disse, sorrindo.
- Sabe como é... - estava sem jeito.
Não estou cuidando muito bem dos negócios.
Como dizem:
"o gado só engorda sob os olhos do dono".
Ao mesmo tempo, preciso cuidar do Wagner, da Celine, desta casa...
Você vai ter que deixar sua casa.
Temos quartos sobrando e...
Se quiser morar aqui e me ajudar.
Temos a edícula - apontou.
Poderia deixar suas coisas lá.
- Posso morar na edícula e...
- Não. Não! Eu gostaria que me ajudasse com esta casa, com meus filhos.
Principalmente com o Wagner nessa primeira fase de recuperação, enquanto está muito dependente devido àquele aparelho na perna e falta de coordenação motora e verbal.
Precisará de muita ajuda.
Alguém que dirija, tenha paciência para médico, fisioterapias e outras coisas.
Enquanto isso, eu volto a tomar as rédeas dos meus negócios.
Quando meu filho estiver melhor e você se cansar de ser babá - sorriu -, poderá vir trabalhar comigo nas imobiliárias.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:57 am

Caso aqui não esteja bom o suficiente, podemos encontrar uma casa que te sirva.
O que me diz?
Quando a viu pensativa, lembrou:
- Lógico que vamos combinar um salário.
Afinal, será um grande trabalho ter de cuidar desta casa orientando os empregados e ajudar com o Wagner.
Sem entender a razão, Hilda, que não era emotiva, sentiu seus olhos aquecerem.
Olhou para o belo jardim, para a piscina e a área da churrasqueira.
Reparou, talvez pela primeira vez, o quanto aquela residência era aconchegante e bonita.
Deveria dar muito trabalho.
Aquele jardim, certamente, era cuidado por um profissional assim como a piscina, grande e muito limpa.
Aquela área era enorme, com mesas, cadeiras almofadadas, espreguiçadeiras e redes.
Tudo limpo e bonito.
Com um toque impecável de bom gosto.
Parecia até uma área de lazer preparada, caprichosamente, para fotos de revistas de casas e decorações.
Tudo aquilo era só o quintal.
O interior da residência, assim como a área avarandada na frente da casa, antes do portão da rua tinha, igualmente, o mesmo estilo requintado.
- Não sei... - murmurou.
Sentia-se em dúvida.
- Eu gostaria muito que aceitasse.
É uma pessoa respeitável, de nossa inteira confiança e meus filhos gostam muito de você.
Terá total autoridade para cuidar de tudo como se fosse seu.
Vamos combinar um bom salário.
Aceite, por favor.
Hilda não tinha muitas alternativas.
Sua situação era preocupante.
Havia orado por uma saída, por uma solução e aquela pareceu a melhor.
Encarando-o, sorriu e confirmou:
- Eu aceito. Quando posso começar?
- Quando quiser!
Quando quiser, Hilda! - ficou, verdadeiramente, satisfeito.
- Vou providenciar minha mudança, então! - riu.
Assim, a casa onde moro hoje ficará livre, na imobiliária, para visitação.
Não imagina como é desagradável receber interessados a toda hora.
- Sei como é! - riu.
- Só que acho que tenho muita coisa.
Vou ter de providenciar um caminhão de mudanças.
- Tenho contactos aqui.
Posso providenciar isso para você.
Certamente ficará mais barato.
Vamos conversando a respeito e, quando quiser, faremos sua mudança.
Ela sorriu com uma gota de apreensão e revelou:
- Estou com frio na barriga! - riu.
- Estou muito satisfeito!
Precisamos contar ao Wagner e à Celine.
Eles vão gostar.
Ambos pareceram ganhar vida por estarem resolvendo seus problemas.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:57 am

Ao chegarem à sala, encontraram Adriana e o rapaz com os olhos vermelhos.
Estavam abraçados e chorando.
- O que foi? - perguntou o pai, preocupado.
A moça se afastou do abraço, secou o rosto com as mãos e revelou:
- Contei tudo a ele.
- Vou ser pai... - Wagner riu ao dizer.
- Vai, meu filho.
Vai sim - disse o senhor, aliviado.
- Vou melhorar pra cuidar do meu filho.
Vou sim...
Antes da chegada de Hilda e Hernâni, Wagner e Adriana decidiram que mais ninguém precisaria saber sobre o aborto.
Aquele era um assunto triste e que só dizia respeito aos dois.
Não adiantaria outras pessoas ficarem sabendo.
- Tenho outra notícia que também vai te animar!
Quando viu o filho encará-lo, contou:
- Hilda virá morar aqui em casa.
Ficará em um dos quartos vazios que vou pedir para a empregada arrumar o quanto antes.
Como ela precisa se mudar da casa em que mora, vai trazer suas coisas e deixar na edícula.
Vamos combinar um salário e ela vai ajudar a administrar tudo por aqui.
Quando você melhorar e ela se cansar de nós - olhou para a mulher -, vamos arrumar uma casa aqui perto e ela vai trabalhar comigo na imobiliária.
Wagner estendeu a mão para Hilda que a segurou.
Ela se aproximou do rapaz, sentou-se e o beijou com carinho.
Olharam-se e sorriram.
Não demorou e Celine chegou à sala.
- Quanta emoção!
Qual é a boa? - a jovem perguntou em tom agressivo.
Minha mãe morreu por culpa desse aí e vocês estão rindo?
- Celine, não vamos!...
- Pai... Pai... - Wagner chamou.
O homem parou com o que dizia e o filho prosseguiu:
- Ela está assim por remorso. Deixa quieto.
A irmã respirou fundo e o encarou.
Havia grande perspectiva em seu
Eu lembrei... Lembrei-me de tudo.
Wagner a encarou firme.
Mesmo falando com certa demora, revelou:
- Eu dirigia... Conversava e mandava a Celine parar com as provocações...
Ela empurrou meu banco algumas vezes.
Em dado momento... a Celine bateu na minha cabeça com alguma coisa e... no mesmo instante eu vi o carro da minha frente desviar e a batida...
- Ele está mentindo!!! - a jovem gritou.
Ele é mentiroso!!!
Calmo e olhando fixamente para a irmã, o rapaz confirmou:
- Não estou. Você sabe que digo a verdade.
Foi você que tirou minha atenção quando me bateu com alguma coisa...
Eu lembro...
- Mentiroso!!! - gritou e saiu correndo.
- Celine!!! Celine!!! - chamou o pai.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:57 am

- Deixa pai... Não vai adiantar...
- Que bom você ter lembrado, Wagner - disse Hilda.
- Acho que me lembro de tudo... ou quase...
Pelo menos, eu sei quem sou.
- Vou conversar com sua irmã.
- Melhor não, Hernâni - aconselhou Hilda.
Não é um bom momento.
Não vai adiantar. Você sabe.
- Então foi ela?
Ela quem tirou sua atenção e...
O filho abaixou a cabeça e lágrimas correram em sua face.
Ao seu lado, Adriana secou seu rosto com as mãos e Hilda disse:
- Eu sentia que tinha algo errado na versão da Celine.
Porém, não imaginava que era tão sério.
- Eu discutia com ela e com a Sabrina, mas a Celine me bateu com algo...
Tenho certeza... Mas...
Era eu quem dirigia...
- Lamento filho, mas não vou poder fazer nada quanto a isso.
Tudo não passou de um acidente, de uma fatalidade.
Apesar de conhecer sua irmã, tenho certeza de que ela não queria que terminasse como terminou.
- Eu sei...
A cada minuto, Wagner parecia mais consciente.
Todas as boas novidades lhe deram força e ânimo.
Hernâni e o filho pediram que Adriana também se mudasse para lá.
A moça relutou.
Foi firme e não aceitou.
Então, o pai do rapaz sugeriu que ela ficasse morando no apartamento do filho.
Parecendo uma oferta razoável, ela disse que iria pensar.
Ao chegar a São Paulo, Adriana conversava com Daniel a respeito de tudo.
- Contei tudo. Foi difícil, doloroso...
Ele acabou se lembrando de tudo.
Do acidente, da irmã que bateu nele...
- Que menina irresponsável! - Daniel considerou.
- Ela é terrível. Tem que ver.
- E sobre o aborto. Você contou?
- Sim. Exactamente como aconteceu.
Sentiu um travo na voz, mas prosseguiu:
- Por um instante pensei que o Wagner não iria me perdoar.
Ele ficou tão triste, tão decepcionado...
Não tem coisa pior do que ver alguém que ama se decepcionar com você.
Um momento e comentou:
- Sabe Dani, acho que nunca vou conseguir arrancar toda essa angústia de dentro de mim.
E, pior de tudo, isso é por minha culpa.
- Com o tempo isso passa.
- Não sei não.
- E o que decidiram fazer?
- Ele pareceu compreender e querer ficar ao meu lado.
- Não acha precipitado demais?
Não conhece o Wagner o suficiente.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:57 am

- Acho mesmo que não.
Descubro, a cada dia, que ninguém conhece ninguém.
Nunca somos capazes de saber, exactamente, o que uma pessoa é capaz de fazer.
Veja o Nicolas.
Pensei que o conhecesse, mas não precisou muito para se revelar uma criatura cruel...
Veja a mãe...
Sempre achamos que ela era a vítima nessa situação toda e o pai, o carrasco.
Na verdade, as atitudes dela colaboraram para a fraqueza dele se refugiar na bebida.
Só agora, que tudo foi exposto, que o pai decidiu se resgatar.
Breve pausa e observou:
- Olhe para você. Sempre teve qualquer uma.
Sempre achei que, quando fosse se casar, iria arrumar uma safada qualquer para isso.
A leda esteve sempre aqui em casa, desde sempre e você nunca olhou para ela e, hoje, está aí correndo atrás.
- Porque ela está dando uma de difícil - sorriu.
- Não. É porque, com ela, você viu a oportunidade de uma vida melhor, mais equilibrada e saudável.
- É verdade - o irmão concordou.
- Sei que conheço pouco o Wagner.
Também sei que não conhecemos totalmente ninguém.
Não vou construir uma nova vida apoiada na dele.
Vou construir uma vida firme e sólida para mim, pensando em fazer isso ao lado dele.
Sempre pronta para assumir minhas responsabilidades e arcar com os meus compromissos, caso ele não possa me acompanhar por qualquer razão.
- Vai aceitar o convite de morar no apartamento dele?
- Acho que vou sim.
Aquele dia, na discussão com a mãe, ficou claro que ela não apoiou minha atitude, lógico.
Fui realmente irresponsável e devo assumir as consequências dos meus actos.
Por outro lado, vejo também que, não só eu fui precipitada e irresponsável, mas também o Wagner tem metade dessa parcela de culpa.
Eu não iria conceber um filho sozinha.
Então, juntos, deveremos assumir tudo.
Não é justo querer dividir o peso das nossas responsabilidades com quem não tem nada com isso.
Devo me mudar para o apartamento dele sim.
Trabalhar na loja até o bebé nascer, enquanto aguardo o Wagner se recuperar.
- Talvez, a recuperação total demore. Não acha?
- Talvez.
A primeira vez que o vi no hospital, não acreditei que se recuperasse.
Mas agora... Ele mudou muito.
Senti uma melhora após toda a discussão com a irmã e a notícia de que vai ser pai...
Não sei dizer, mas...
Sinto que algo mudou.
- É questão de tempo - disse o irmão para animá-la.
Tudo vai dar certo como tem de ser.
Ela o olhou com serenidade e sorriu.
Depois perguntou:
- E você e a leda?
Daniel sorriu de modo agradável e disse:
- Consegui um jeito de chamar a atenção dela. - Contou o que vinha fazendo.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:58 am

- Fosse um bombom ou uma caixa...
Um enfeitinho, uma flor... Um ursinho...
Arranjei um monte de coisas e dava para ela de manhã e à noite.
- E ela? - sorriu interessada.
- Ficou na dela.
Até que um dia eu não tinha nada para dar.
Fiquei até sem jeito.
Mas, de repente, me deu um estalo e então pedi para que fechasse os olhos e dei um beijo no rosto dela.
Ela perguntou por quê.
E eu disse que era para representar o quanto gostava dela - riu.
Me achei meio bobo.
Mas foi um sentimento gostoso.
O dia que o amor sair de moda, o mundo estará perdido.
- E ela? - sorriu, contente com o que ouvia.
- Falou: “Que droga, Daniel!" - arremedou e riu.
- E depois? - perguntou, curiosa, animada e sorridente.
- Não sei. Acho que vou até lá daqui a pouco.
Ela não está vindo aqui e estou preocupado.
- Mandou mensagem?
- Não. Vou lá sem avisar.
Quero conversar com ela.
- Vai sim. Eu ia ligar pra ela, mas...
- Deixa pra depois - Daniel sorriu e saiu do quarto.
Na casa de leda, Daniel estranhou a demora para ser atendido.
Pulou o portão que era baixo e foi bater à porta.
Depois de algum tempo, Núbia atendeu.
- Oi - cumprimentou.
- E sua irmã? - o rapaz perguntou.
- Oi. Tá aí.
Entra - pediu e virou as costas deixando o moço parado com a porta aberta.
Ele entrou e foi directo para o quarto da leda.
Achou estranho ao vê-la deitada e encolhida.
Foi até a cama e procurou ver seu rosto, levantando a colcha que o cobria parcialmente.
- leda? - chamou baixinho.
- Dani... - murmurou, chorando.
- O que foi? - preocupou-se.
- Pedi pra minha irmã te chamar...
Que bom que veio... - gemia e chorava.
- O que aconteceu? - ficou assustado com seu estado.
Nunca a tinha visto assim.
- Não estou aguentando...
Sinto uma dor na barriga... - gemeu baixinho.
Aqui do lado... ela desce pra perna e repuxa e... Estou com febre...
- Onde está sua bolsa?
Seus documentos?
- Ali... - apontou.
Parecia fazer grande sacrifício para falar e se movimentar.
Daniel tirou a coberta que a envolvia e a ajudou a se sentar.
leda não conseguia erguer o corpo nem andar direito.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:58 am

Chorava em silêncio, tamanha era a dor.
O rapaz a calçou, vestiu-lhe uma blusa e a levou para a sala.
- Fique aqui.
Vou buscar meu carro para te levar pro hospital do convénio.
Ela não disse nada. Só chorava de dor.
Ele pegou seu carro e não avisou nada em sua casa.
Não queria demorar e achou que sua irmã ou sua mãe pudessem fazê-lo perder tempo.
Quando retornou, encontrou-a encolhida sobre o sofá e Núbia não se importou com a situação.
Imediatamente, levou-a ao hospital.
leda foi submetida a uma cirurgia de emergência.
Sofreu uma apendicite.
Daniel acompanhou tudo.
Somente então ligou para Adriana e contou o que havia acontecido.
No dia em que recebeu alta, leda foi para sua casa com a ajuda de Daniel que a levou.
Ao chegarem, a imagem de seu quarto a deixou desolada.
Seu único refúgio e lugar seguro havia sido invadido pela irmã.
Precisando de dinheiro para sustentar o vício, Núbia pegou o que pôde do quarto de leda.
Roupas, tapete, abajur, objectos de decoração, cortinas, cobertas...
Tudo o que pôde. O que não levou, quebrou.
Os móveis de verniz lustrados estavam com gavetas e portas danificadas.
Paredes pichadas e sujas.
Até o ventilador de tecto havia sido arrancado.
Daniel ficou tão surpreso quanto leda.
Andando com dificuldade, a moça se sentou na cama revirada e pegou um ursinho de pelúcia que ele havia lhe dado e o abraçou forte junto ao peito, apoiando o queixo nele.
Com os olhos cheios de lágrimas, observou todo o seu quarto destruído e lamentou num murmúrio:
- Não... Ela não podia ter feito isso... - chorou em silêncio.
Contendo sua raiva, o rapaz sentou-se ao seu lado e passou a mão em suas costas, perguntando firme:
- Chega, não é, leda?
Encarando-o com lágrimas no rosto, indagou com voz fraca:
- O que vou fazer, Daniel?
- Vem comigo. Fica comigo.
Vou cuidar de você.
Procurando abraçá-la com cuidado, envolveu-a com carinho e a recostou em seu peito.
leda chorou por algum tempo.
Quando a viu se recompor, o rapaz sugeriu:
- O meu apartamento está pintado.
Tem cama, sofá... É... - sorriu.
Tem uma cozinha com fogão e o gás está ligado.
A lavandaria tem máquina de lavar, varal e secadora - riu.
Sabia que eram coisas construindo um caminho de que ela sentia falta.
- Não tem mesa, tapete nem cortina na sala, mas dá para providenciar.
Vamos pra lá?
Posso pegar suas roupas aqui e... - olhou em volta.
Pelo menos pegar o que sobrou - falou com ar de riso para ser cómico e procurar animá-la.
A jovem sorriu, mas seu rosto se contorceu novamente.
Com voz fraca, disse:
- Eu não gostaria que fosse assim...
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:58 am

- Então gostaria que fosse? - sorriu, ao perguntar em tom amoroso.
Ela ergueu o olhar.
Daniel secou as lágrimas de seu rosto com a mão.
Tirou-lhe os cabelos da face e lhe fez um carinho.
- Não tenho o direito de te usar.
- Não está me usando.
Respirou fundo e afirmou calmo e convicto:
- leda, estou gostando muito de você.
Quero te ajudar.
Mas não se sinta na obrigação de ter de retribuir com qualquer coisa que não queira.
Vamos para o apartamento.
Você ficará tranquila e acomodada.
Vai se recuperar e depois poderá fazer o que quiser.
- Daniel... Eu também gosto muito de você.
Mas não podemos começar dessa forma.
Não posso ir para o seu apartamento e...
Não é certo. Se puder me ajudar a ir para a casa de sua mãe...
Tenho certeza de que a dona Heloísa vai me acolher, pelo menos, nesse período de recuperação.
- Não tem ninguém lá agora.
Estão todos trabalhando.
- Tem você que faltou no serviço pra me buscar no hospital.
- Tudo bem - ele sorriu e concordou.
Está certo.
Levantando-se, estendeu a mão para ajudá-la a se erguer.
Mesmo com dificuldade, leda abraçou o ursinho e amparou-se em Daniel que a ajudou a ir para o carro e para a casa de sua mãe.
Por insistência de Heloísa e Adriana, leda se mudou e passou a morar com eles.
Ela e Daniel começaram a namorar.
A moça ainda estava se recuperando da cirurgia, quando Jaime a viu trazendo algumas roupas que recolheu do varal.
- Não devia tá fazendo isso!
Você sabia que não devia tá fazendo isso?!
- Não é nada de mais, seu Jaime.
É só a roupa que recolhi - justificou.
Na cozinha, Heloísa se alertou para o que acontecia e reclamou:
- Já te falei, leda.
Pare quieta, para se recuperar direito!
Você precisa de repouso!
- Estou bem melhor, dona Heloísa.
Não se preocupe.
- Eu disse pra ela que não devia fazer isso - tornou o senhor.
- É muito ruim ficar parada e sem fazer nada.
É horrível - a moça sorriu.
- Mas é só por um tempo, menina!
Custa fazer repouso direito?! - zangou-se a senhora, pegando as roupas de seus braços.
- É... Heloísa tem razão - disse o homem.
leda se sentou à mesa e passou a ajudar a senhora a dobrar as roupas.
Jaime, observando a cena, comentou:
- Vamos perder uma filha e ganhar outra.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:23 am

- Não vamos perder uma filha! - Heloísa protestou.
Ela vai se mudar para a casa do rapaz, pai do filho dela.
Mas não vai deixar de ser nossa filha.
- Tô falando porque a leda vai morar aqui agora.
- É só por esse período de recuperação, seu Jaime.
- É lógico que você vai morar aqui mesmo depois.
Não tem cabimento voltar a viver com a desregulada da sua irmã! - indignou-se Heloísa.
Onde já se viu?!
Você doente, com febre, rolando de dor e a menina não liga pra ninguém!
Se o Dani não fosse lá!...
- Na verdade, depois disso que aconteceu, estou com medo de voltar pra lá.
Vi o quanto a Núbia está afectada pelo uso de entorpecentes - a moça comentou e baixou a cabeça.
- Não se preocupa com isso não.
Você é como nossa filha.
Vai ficar com a gente, morando aqui - Jaime disse.
- É uma situação complicada.
Principalmente agora...
- Diz isso porque está namorando o Daniel?
Ora, menina! - a senhora riu.
O Dani também está falando em ir morar no tal apartamento que comprou.
Enquanto vocês não se casam - achou graça -, poderá ficar com o quarto deles.
- É! Isso você pode! - concordou o senhor.
Em seguida, ele quis saber:
- Vocês se conhecem muito.
Por que não casam logo?
leda sorriu e comentou:
- Eu prefiro esperar um pouco mais.
- Por que, leda? - indagou a mulher.
- Não sei. Talvez... - deteve as palavras.
Nunca tive boas referências.
Vi o quanto minha mãe sofreu e se magoou por causa do meu pai.
Na teoria, nas novelas, nos livros a separação, o divórcio é fácil, legal e vira até piada.
Mas, na vida real, é algo que traz muita dor.
Aquela conversa mole de "Estou me separando da sua mãe e não de vocês", não existe.
No começo, tudo bem.
Depois não deu para aparecer em um aniversário, no Natal...
As férias que deveriam ser com ele não podem acontecer e...
Distância total.
Tenho medo de passar por isso.
Já vi muitos homens cafajestes, desonestos...
- Mas o Daniel não é assim - Jaime defendeu.
Meu filho é um bom homem.
Heloísa olhou para o marido e ficou admirada de vê-lo falar bem do rapaz.
- Tudo é questão de conversar, de se conhecerem e se entenderem.
Conversa é a principal atitude em um casamento - disse a senhora.
- É verdade - concordou Jaime que olhou para a esposa.
Estou aprendendo isso na terapia. Lá no grupo também.
Depois que comecei a conversar, as coisas estão mudando.
- Por que você não fez isso antes? - a esposa perguntou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:24 am

- Porque eu não sabia.
Tem coisa simples que a gente não sabe fazer.
Se tivesse feito, seria diferente. Não acha?
- É que quando ia conversar, você sempre estava bêbado ou mal humorado por causa do efeito da bebida.
- Agora num tô mais bêbado.
Tô limpo há mais de um mês.
Quase dois! Tô fazendo tratamento.
Tô trabalhando.
Fez breve pausa e prosseguiu:
- Tem hora que quero alguém pra conversar e você não diz nada.
- Por que não começa uma conversa? - perguntou Heloísa.
- Porque agora é você quem tá de cara feia.
Um momento e propôs:
- Será que dá pra gente ser diferente?
- Depois de tudo o que passamos?
- É. Depois de tudo o que passamos - ele concordou.
Se a gente aguentou ficar junto depois de tudo...
Acho que podemos ficar junto e ser diferente.
Diferente do que sempre foi.
A esposa abaixou a cabeça e disse:
- Preciso que me perdoe por tudo.
Eu tentei te enganar.
Sempre neguei sobre o Daniel ser filho de outro homem, mas...
Eu deveria ter sido tão corajosa quanto a Adriana.
Mas fui fraca.
- O Daniel é meu filho. Tenho orgulho dele.
É um bom homem. Num bebe nem fuma...
Eu que criei ele. Pai é quem cria.
Eu também preciso que me perdoe por tudo o que fiz nesses anos todos e...
A mulher ficou olhando-o. Estava surpresa.
Encararam-se por alguns instantes.
Jaime se aproximou e disse em tom brando:
- Eu só entendi você depois de tudo o que aconteceu com a Adriana.
Sei que ela não foi correta com o noivo. Traiu ele.
Mas consegui entender ela e você.
Não gostei do que o Nicolas fez com a nossa filha.
Não precisava isso.
Então eu vi que eu fui como ele.
Maltratei você todos esses anos...
Fui covarde e bebia...
Enchia a cara porque não aguentava saber que fui traído...
Tive certeza que fui traído quando o Daniel nasceu e vi que ele era muito diferente de nós dois.
Depois, quando a Adriana nasceu e era bem diferente do irmão...
Fiquei louco. Errei por não querer mais conversar com você.
Em vez disso, fiquei te maltratando todos esses anos.
- A culpa foi minha também.
Não tive coragem de dizer a verdade e nunca toquei no assunto.
Preciso que me perdoe.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:24 am

- Preciso que me perdoe também.
Breve pausa e perguntou:
- Vamos começar de novo? - ele a olhou e ficou esperando.
Heloísa o encarou ao indagar:
- Como?
- Ora! Vamos conversar diferente.
Como agora. A gente pode sair, passear...
Eu sempre quis passear junto com você, do seu lado... - sorriu.
Gosto quando cê tá arrumada.
Fica bonita... - falou sem jeito.
Quero passear do seu lado.
- Eu também... - correspondeu ao sorriso.
Sabe Jaime, para uma vida melhor, não basta só um querer.
É preciso que os dois queiram, que os dois se empenhem.
Se você estiver disposto, podemos ser diferentes.
- Estou disposto.
Podemos começar amanhã.
Você vai no AA comigo?
- Vou. Mas podemos começar hoje!
Vamos jantar só nós dois?
- E os meninos?
- Já jantaram.
O Daniel ia passar no apartamento e a Adriana está arrumando as coisas dela para ir pro apartamento do Wagner.
A leda... - olhou em volta.
Só então se lembrou da moça e percebeu que ela já havia se retirado da cozinha sem que eles notassem.
Heloísa sorriu ao dizer:
- A leda está no quarto com a Dri.
- Vamos jantar então.
O que tem hoje?
- Sopa! - ela riu gostoso.
- Eu gosto muito da sua sopa - foi para perto de Heloísa, afagou suas costas e beijou seu rosto.
A esposa lhe fez um carinho.
Sorriu e foi arrumar a mesa para jantarem e o marido a ajudou.
No quarto com leda, Adriana comentava:
- Poderia casar logo com o Dani.
- Você está igual ao seu pai.
- Eu soube que o Dani te propôs isso.
- Eu quero esperar só um pouco mais.
- Mas se conhecem há tanto tempo!
Não têm que namorar tanto!
- Talvez me sinta insegura.
Não só pela referência que tenho dos meus pais.
Na minha vida, só encontrei homens que não prestavam.
Foram aproveitadores, cafajestes, desonestos...
Até que entendi que era eu quem permitia que isso acontecesse.
Se eu não tivesse deixado o cara entrar na minha vida daquela
forma, tudo aquilo não teria acontecido.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:24 am

Na verdade, não me valorizei.
Por isso, quero ir devagar com seu irmão.
- Ele gosta tanto de você.
- E eu dele. O Daniel precisa entender que, se for para ficarmos juntos, ele vai ter que ser maduro e não aprontar como fazia.
- Acho que ele amadureceu muito, leda.
Ele gosta mesmo de você. Dá pra ver isso.
- Mesmo assim, prefiro esperar.
Ele disse que vai se mudar para o apartamento.
Assim eu fico aqui com seus pais, pois você vai mudar para o apartamento do Wagner.
- Vou sim. Já está tudo arrumado.
- E o Wagner? Como está?
- Recuperando-se.
Está fazendo vários tratamentos.
Fisioterapia, fono...
Agora tirou o gesso, mas ainda está com aquele aparelho horroroso.
Dessa forma, as terapias ficam mais intensivas.
Sua fala está melhorando, apesar de comprometida ainda.
Ficamos com medo de o seu lado cognitivo ter sido afectado no acidente.
Mas o raciocínio está bem normal. Graças a Deus.
- Ele já se lembra de tudo?
- Praticamente de tudo.
Tem coisas que ainda não recorda direito.
Mas são situações sem grande importância.
Ainda bem que se lembra de nós - riu.
Já pensou se esquecer de mim? - O sorriso de Adriana se fechou.
- O que foi?
- Lembrei uma coisa...
- O quê? - leda quis saber.
- O aborto que fiz... - quase chorou.
- Agora, com o apoio do Wagner, vai se sentir mais fortalecida.
- Não é bem assim. Ele ficou triste.
Precisava ver.
Pensei que não fosse me perdoar. Mas...
É uma dor que... Eu não tinha a menor ideia que essa dor pudesse existir... - Adriana chorou.
- Ei!... Não fica assim... - aproximou-se e abraçou a amiga por um instante.
- Não tem como ser diferente.
Não importa quanto tempo se passe.
É algo triste.
É uma culpa cruel... - suspirou fundo e secou o rosto com as mãos.
Se eu tivesse encontrado alguém que me dissesse que faria tão mal a mim e ao meu filho...
Se eu soubesse que carregaria esse sentimento de culpa...
Tudo seria diferente agora.
Depois que esse filho nascer, vou olhar para ele ou para ela e sempre pensar:
deveria ter outro ou outra igual, da mesma idade... - chorou.
Em cada aniversário, na escola, nos passeios...
Vou olhar e dizer para mim:
teria outro fazendo tudo isso junto.
- Olha, Dri, tudo bem que você errou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:24 am

Mas, pense que, com isso, está se tornando uma pessoa melhor.
Está estudando a Doutrina Espírita, pensando em fazer um alerta a outras pessoas que não têm conhecimento.
A sua actuação, por causa do seu sofrimento,
é a construção de uma base sólida para uma nova pessoa amanhã.
Só depende de você.
Toda a grande estrutura precisa de uma grande base.
Os mais altos edifícios precisam de um grande alicerce.
Pessoas que sabem o que é sofrer e usam suas experiências em prol do benefício alheio, tornam-se úteis a Deus.
Leve luz onde há trevas.
- Esse é o meu objectivo.
Forçando um sorriso e respirando fundo para mudar de assunto, disse:
- Bem... Preciso me concentrar na minha mudança para o apartamento do Wagner.
Já levei quase tudo o que vou precisar.
Amanhã já vou dormir lá.
- E o sexo do bebé?
Não vai querer saber ainda?
- Não. Enquanto o Wagner não puder ir comigo fazer o pré-natal, não vou querer saber.
Ele está animado pra vir pra cá por causa disso.
Não fala em outra coisa.
- E o enxoval do bebé?
- O que comprei, já levei pra lá.
Tudo em cores neutras. Está lindo!
- Vi poucas coisas que você me mostrou - leda sorriu e acariciou a barriga da amiga.
Está ficando tão linda! - admirou.
Abraçaram-se.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:24 am

Capítulo 30 - O pulsar de dois corações

Algum tempo depois...
Em casa de Hernâni, o filho já se recuperava muito bem.
Wagner queria ir para São Paulo, voltar para o seu apartamento, mas ainda não havia sido liberado pelo médico e fazia tratamentos.
- Quero voltar a trabalhar, cuidar da Adriana.
Daqui a pouco o bebé vai nascer.
Preciso estar ao lado dela.
Ela está morando sozinha!
- Calma, filho.
De que jeito quer voltar?
Ainda usando esse aparelho horroroso na perna?
Você está de licença médica.
Não se recuperou totalmente.
Anda de muletas ou cadeira de rodas.
- Também sei que ainda não falo direito, mas melhorei muito.
- Precisa se recuperar bem.
Comprar um outro carro que o seguro pagou...
Voltar a dirigir.
Uma coisa de casa vez - alertou o pai, querendo que fosse realista.
Realmente o rapaz não tinha qualquer condição de estar sozinho.
Sempre precisava de ajuda para tudo.
- Voltar a dirigir... - murmurou e ficou pensativo.
Ainda falava um pouco devagar.
- Quando me lembro do acidente...
Sempre penso que poderia ter sido de outro jeito.
- Foi um acidente que precisava acontecer.
Embora sua irmã tenha colaborado.
- Não temos como saber, pai.
Eu dirigia o carro que matou a mãe e a Sabrina.
Vou ter que viver com esse peso.
O senhor não sabe como é.
- Foi um acidente!
Se a culpa foi de alguém...
Se a Celine não tivesse agredido você, talvez... - não completou.
Ainda é agressiva e...
Não sei mais o que fazer com ela - Hernâni desabafou.
Estou tentando ensinar, alertar, fazê-la compreender, mas...
- Ela é maior de idade.
Não pode fazer muita coisa.
Como é que vai trancá-la aqui em casa?
- Quero ver quando... - o senhor deteve as palavras.
- Quando o quê? - o filho quis saber.
- Wagner... - O homem encorajou-se.
Suspirou fundo e desabafou:
- Qualquer hora você vai ter de saber mesmo e...
- O quê?
- É sobre mim e a Hilda. Nós...
O rapaz tentou segurar o sorriso, mas não conseguiu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:25 am

Seu rosto se contorceu e ele abaixou a cabeça para que o pai não visse.
Tentou disfarçar e acariciou o cachorro, sempre ao seu lado.
Hernâni ficou nervoso e revelou de uma vez:
- Eu e a Hilda estamos nos gostando e pensamos em ficar juntos.
- Não vá fazer da Hilda uma mulher indigna, pai!
Case-se com ela logo! - exclamou ironicamente ao brincar.
- E quem falou que não vamos nos casar? - sorriu, aliviado com a reacção do outro.
O filho começou a rir e disse:
- Que bom. Fico feliz por vocês dois.
Gosto muito da Hilda.
Sem jeito, falando baixo, o senhor considerou:
- É que sua mãe morreu há tão pouco tempo e...
É uma situação tão difícil.
- Entendo. Por um lado, você ficou viúvo há poucos meses.
Ela se divorciou também há poucos meses...
Mas... Vocês não são tão jovens, não têm todo o tempo do mundo e precisam aproveitar a vida. Não é isso?
- Sim. É isso sim.
Breve pausa e perguntou:
- O que me diz?
- Está pedindo conselho para mim?!
Ora, pai! - riu.
A mãe foi uma grande mulher.
Sempre cuidou bem de nós, do senhor, da casa...
O senhor sempre foi óptimo marido e pai.
Mas não pode cultuar a imagem da mãe de forma doentia.
Ela não está mais aqui.
Seria um desrespeito se tivesse e eu não concordaria se a situação de vocês não fosse legal.
Não é o caso. Ninguém, nunca, vai substituir a mãe.
Entendo que a Hilda é uma outra pessoa e que não vai tentar fazer isso.
Daqui a pouco eu me caso e vou embora.
Isso é questão de dias!
A Wanda tem a casa dela, os filhos e o marido.
A Celine... Bem, dela eu não sei.
Mas o senhor precisa de uma companhia, de alguém com quem dividir o espaço desta casa, cuidar das coisas junto com o senhor.
A solidão é uma coisa triste, pai.
Conheço muito bem a Hilda.
Ela é uma óptima pessoa.
Por que não deveriam se unir? O que os impede?
- A língua do povo - falou baixinho.
A família... Seus tios, primos...
- Não são eles que virão aqui te ajudar, fazer companhia, cuidar de suas coisas, cuidar do senhor quando precisar.
Não ligue para essas pessoas.
Não deve satisfações a elas.
Na verdade, não deve satisfações nem aos seus filhos.
- Têm os filhos dela.
Não sabemos como vão reagir.
Você pensa assim. Mas suas irmãs... Não sei.
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:25 am

- Os filhos dela são gente fina.
Minhas irmãs... Elas gostam muito da Hilda.
Percebo isso - Wagner lembrou.
Não acho que seriam contra e, mesmo se forem, não importa.
- Importa sim. Para nós dois, importa.
- A Hilda é uma pessoa maravilhosa.
Como eu disse, sei que ela nunca vai ocupar o lugar da minha mãe, mas a tenho como uma.
Principalmente agora que cuidou e cuida de mim...
Coisa que só uma mãe faria.
No começo, eu ficava até constrangido, mas... Nossa!
O que ela faz por mim...
Um instante, e considerou:
- A Hilda é a pessoa certa.
- Eu sei disso.
Vejo o quanto ela se dedica a você e a sua irmã.
Até a Wanda ela ajuda, de vez em quando, para olhar os meninos.
- Então não se preocupe.
Não perca tempo.
Fale com a Wanda e com a Celine.
Elas...
- O que tem a Celine aí?! - perguntou a jovem que chegou e não sabia sobre o que estavam conversando.
Com jeito rebelde, um tanto agressivo, jogou-se no sofá e ficou à espera de resposta.
- Eu estava aqui falando para o seu irmão que... - Hernâni ficou nervoso.
Não só o assunto o deixou assim.
Nunca sabia qual a reacção da filha e isso o estressava.
- É o seguinte! - Wagner foi directo e tomou a frente.
O pai e a Hilda vão se casar.
Celine olhou para um depois para o outro e comentou com jeito irónico:
- Tá bom. Mas se virar chifrudo novamente...
Se acontecer, toma uma atitude de homem e dê um pé nela!
- O que é isso, Celine?! - o irmão protestou.
- Coitado de você, Wagner.
É sempre o último a saber... - gargalhou, levantou-se e foi para o quarto.
Hernâni abaixou a cabeça e não disse nada. Estava em choque.
- Pai! Que história é essa?
Como deixa que ela fale assim com o senhor?
- Sempre acreditei que só a Wanda soubesse.
- Como?! Não estou entendendo!...
O pai contou-lhe tudo e desfechou:
- A Celine tinha dez anos.
Acho que ouviu a minha conversa com sua mãe, na época, mas não tive certeza.
Wagner ficou decepcionado.
Triste perguntou:
- Será que a Wanda não contou?
- Não. Tenho certeza de que não.
Se ela fosse contar, seria para você.
São mais unidos.
Pensou um pouco e concluiu:
- Isso justifica a revolta da Celine.
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:25 am

Sua mãe deveria desconfiar que ela soubesse de tudo e, por isso, cedia aos seus caprichos e a mimava tanto.
Somente isso justifica a rebeldia da Celine e sua mãe tratá-la como sempre tratou.
Wagner sentiu-se mal.
Não esperava por aquela revelação.
Nunca poderia imaginar uma situação daquela. Justo sua mãe.
Com uma amargura que não demonstrava, aconselhou:
- Case-se com a Hilda e vá ser feliz - sorriu e apoiou a mão em seu ombro.
- Quer marcar a data de casamento junto comigo?
- Sério?!
- Por que não? - o senhor sorriu.
Aliás, você e a Adriana estão adiando muito.
- Vamos lá! Eu quero sim.
Vou falar com a Dri.
- Vou falar com a Hilda.
Foi assim que, após um mês, os casamentos aconteceram.
Sempre agressiva e sem se importar com os que viviam junto a ela, Celine atraía, para si, companhias espirituais inferiores.
Nesta existência terrena, ela não necessitaria de tais atracções que a carregavam para amarguras.
Em busca de rebeldia, aventura ou algo que mostrasse sua liberdade e liderança, típica pessoa que diz:
"faço o que eu quero e não o que me orientam", Celine se envolveu com amigos irresponsáveis.
Seu mentor, além do espírito que foi sua mãe e sua avó, tentou inspirá-la, mas foi em vão.
A jovem e alguns amigos alugaram um barco e foram para alto mar.
Usaram entorpecentes que os deixaram alterados, falsamente alegres.
A irresponsabilidade aumentou.
Celine caiu no mar.
Demoraram muito tempo para sentir sua falta.
Buscas foram feitas e encontraram seu corpo somente no dia seguinte.
Para Hernâni, não houve dor maior em sua vida.
Hilda o amparou e ficou ao seu lado o quanto foi preciso.
Todos sabiam que o pai havia feito de tudo para ajudar a filha, que se negou às orientações recebidas.
Foi difícil para o espírito Ifigénia, mas ela achava-se determinada a se elevar para ajudar a filha que ficaria, por algum tempo, em estado consciencial difícil.
Três anos depois...
Hilda estava com uma bela aparência, reflectindo a jovialidade e a alegria de sua alma.
Bem vestida e perfumada, sorriu largamente ao ver Lídia, sua melhor amiga, a certa distância.
Os sons dos saltos altos estalando acelerados pela corridinha no piso de granito do shopping, misturados aos gritinhos contidos de felicidade, antecederam ao abraço caloroso e animado, chamando a atenção de algumas pessoas que sorriram ao verem a cena.
- Ah!... Como é bom te ver!
Quanto tempo, Hilda!
Pegando na mão da amiga, se afastou e admirou:
- Como você está linda! Gostei dos cabelos!
Gostei de tudo! - riu gostoso.
- Você também está maravilhosa! - disse ao enlaçar seu braço e puxá-la para que caminhassem para uma cafeteria no shopping.
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 11:25 am

- Como estão as coisas? - Lídia quis saber.
Acomodadas em uma mesa, Hilda contou:
- Tanta coisa aconteceu, menina!
Por telefone nem sempre dá para actualizar os factos.
Até porque você só viaja, né?! - sorriu com jeitinho mimoso.
- Verdade. Eu e o Márcio decidimos fazer duas viagens por ano.
Agora com os filhos criados, crescidos, casados, estamos livres!
Mas... Conte-me, como você está?!
E seu marido?
- Eu e o Hernâni estamos bem. Graças a Deus!
Sempre estamos viajando, passeando um pouco.
Falei pra ele que agora é a fase de desacelerar um pouco com o trabalho e pensar mais em nós.
Somos só nós dois.
Quem mais aparece lá em casa é a Wanda.
Nós nos damos tão bem! - sorriu alegre.
- E o Wagner e a Adriana?
Faz tempo que não falo com ela.
- Estão muito bem.
A filhinha deles está tão linda!
Uma gracinha!
- Vi pelas fotos que me mandou.
Ela é linda mesmo.
Como se parece com ele, né?
- Ali não tem nada da Adriana - riu.
Cristiane saiu toda ao pai!
Tá tão esperta! Tem de ver!
Já está na escolinha.
Ela me chama de vovó... - fez um jeitinho mimoso ao encolher os ombros e sorrir.
A Fátima está com ciúme - riu.
- É mesmo! E o nené da sua filha?
- É tão fofinho! Está lindo!
Fez três meses. Com aqueles olhos de jabuticabas!...
Tenho netos lindos! Estou muito orgulhosa de mim!
Eu não imaginava que iria ser uma avó tão coruja.
Sabe que até os filhos da Wanda me chamam de vovó?
- É mesmo?!
- Chamam sim! E eu adoooooro!...
- O Wagner se recuperou bem, né?
- O primeiro ano, após o acidente, foi bem complicado.
Ele só voltou a trabalhar mais de dois anos depois!
Precisou de muitos médicos e fisioterapias.
Nossa, coitado!
- Agora já está trabalhando? - Lídia perguntou.
- Graças a Deus, sim.
Voltou para a mesma empresa e está na mesma directoria.
Ele era óptimo no que fazia e a organização reconheceu isso.
Quem o viu na cama do hospital daquele jeito, não acredita que é o mesmo homem.
- A Adriana está bem?
Nunca mais falei com ela, menina!
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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