Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:31 am

Daniel riu e perguntou, talvez, para vê-la mais descontrolada:
- Que reacção é essa, então?
O que está sentindo?
- Raiva por ter mentido!
Raiva porque você e a mãe ficam me culpando.
- Ah... Dê o caso por encerrado.
Não cometa mais o mesmo engano e esquece.
Pronto - para o rapaz era simples.
- Não é assim, Daniel!
- Como não é assim?
- Ah! Sei lá!
- Não estou entendendo, Dri.
Por que você está valorizando tanto o que aconteceu?
Parece até que o caso significou alguma coisa...
- Não significou nada! Eu já disse!
Vamos acabar com esse assunto, tá?
Fica quieto, vai!
Não quero ouvir mais nada!
O irmão silenciou.
Pegou o celular e começou a mexer.
Adriana parecia bem insatisfeita e demonstrava isso em seus gestos ao lidar com os objectos.
Quando algo caiu ao chão, ela reclamou:
- Droga!
Um instante se queixou:
- Você e a mãe parecem que não entendem!
Nova pausa e o irmão não se manifestou.
- O facto é que, por causa de vocês dois, eu fico com mais remorso ainda.
Silêncio.
- Você não entende porque não viveu a situação.
O irmão pareceu nem ouvi-la.
Ele não disse mais nada, como ela havia pedido.
A campainha tocou e puderam escutar, mas não se incomodaram em ir atender.
Sem demora, leda chegou ao quarto cuja porta estava aberta.
- Oi! Oi! Oi! E aí? - sorriu.
Daniel, ao ver a melhor amiga de sua irmã, perguntou:
- E aí, leda? Ficou sem casa de novo?
- Ah... Não brinca, Dani.
- Ai, Daniel!
Como você é grosso! - a irmã protestou.
- Só estou brincando...
Qual é? - ele riu.
- Falei com sua mãe e ela deixou que eu dormisse aqui.
- Não foi pra faculdade hoje? - indagou o rapaz.
- Estou de férias.
Entrando, foi se acomodando aos pés da cama da amiga.
Por vê-la sisuda, disse baixinho:
- E aí?
- Tudo bem.
leda observou-a por mais tempo e reparou:
- Você está com uma cara...
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:31 am

A amiga não respondeu, e Daniel decidiu falar com jeito de molecagem:
- Não mexe com ela hoje.
Chegou a rosnar.
Daqui a pouco vai latir e morder! - riu.
- Não enche!
Dá pra parar?!! - Adriana gritou.
Ele riu, levantou-se e saiu do quarto.
Vendo a amiga com jeito nervoso a outra tentou falar de outro assunto para distraí-la:
- Hoje, quando fui almoçar, vi alguns objectos de decoração tão lindos!
É uma loja nova que abriu lá perto de onde trabalho.
Lembrei de você.
Se quiser, podemos ir lá. Vai adorar!
- leda... Feche a porta, por favor.
A moça obedeceu e, ao se sentar novamente, perguntou:
- O que tá acontecendo?
- Tudo - disse e se sentou na cama de seu irmão, frente à colega.
Em seguida, contou o que havia acontecido nos últimos dois dias.
- Não foi uma coisa legal você ter mentido.
Mas creio que foi preciso.
Não poderia dizer a verdade, pois o Nicolas iria ficar magoado, com ciúme. Sei lá...
Se fosse ele que tivesse dado carona pra uma moça, nas mesmas circunstâncias, você não ficaria gostando.
- É. Eu sei disso.
Quando vi, já estava acontecendo.
- A mentira é uma inconveniência, mas, algumas vezes, infelizmente, necessária.
Porém, não se pode ficar mentindo um pouquinho ali, outro pouquinho aqui...
É horrível ter que inventar outra mentira, para encobrir a primeira.
Torna-se um vício e a gente não se sente bem.
- É verdade.
- Acha que o tal Wagner está dando em cima de você?
- Acho que não - Adriana respondeu, mas ficou insegura.
- Eu acho que sim.
Talvez não tão descaradamente. Mas...
- Será?! - Adriana ficou pensativa.
Havia achado tudo muito casual.
Apesar disso, depois do que sua mãe e a melhor amiga disseram, começou a ter dúvidas.
- O senhor Wagner não parece o tipo de homem safado.
- Por que o chama de senhor?
Quantos anos acha que o cara tem?
- Vinte e nove.
- Está bem informada, hein! - leda riu para brincar e descontrair.
- Ai! Você também?!
Fiquei sabendo porque ele disse que tem uma irmã de dezanove anos e que é dez anos mais nova. Só isso.
- Por que o chama de senhor?
- Normas da empresa.
Mas, quando estava sozinho comigo e com a assistente, ele nos chamava pelo nome.
Sem formalidades.
Porém, sempre bem educado.
- Ele é bonitão? - riu ao fazer um jeito que exibiu curiosidade.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:32 am

- É - riu junto.
É sim. Para um sujeito que mora sozinho, anda muito bem arrumado.
Suas roupas são bem passadas.
Bem barbeado. Cheiroso...
Deve usar perfume ou colónia de marca muito boa!
- Como ele é? - perguntou e remexeu-se, fazendo um jeito engraçado.
- Alto. Da altura do Nicolas.
Só que mais forte.
Acho que deve malhar.
Só que é bem branco. Da minha cor.
Tem o rosto bonito.
Olhos e cabelos castanhos claros e... Liso - riu.
Quando ele está nervoso, fica penteando os cabelos com os dedos.
É engraçado ver.
Tem uma voz grave, bonita e é bem educado.
Tem um olhar profundo.
Fixa nos olhos da gente e parece que invade a alma.
Sabe como é?
- Sei.
Silenciaram.
Adriana trocou o sorriso por uma feição séria.
Talvez, preocupada e a amiga notou.
- O que foi?
- Nada.
- Te conheço desde o berçário, Dri.
Que cara é essa?
- Ah!... Sei lá!
- Ficou mexida com o cara?
- Ai, leda... - murmurou entristecida.
Senti um negócio estranho.
Não estou conseguindo... - calou-se.
- ...parar de pensar nele - leda completou.
- É estranho isso. Não é?
- Acho que ele te impressionou.
É um homem bonito, jovem, com um belo emprego... Solteiro...
- Noivo. E eu também.
- Mas não estão casados e você tem consciência disso. Porém...
- O quê? - Adriana indagou.
- Devem satisfação e respeito aos respectivos noivos e isso a deixa magoada com você mesma.
- Eu sei, né!
Eu sei. Mas...
- Dri, talvez isso esteja acontecendo por causa do Nicolas.
- Como assim?
- Você me contou que, nos últimos meses, acha ele estranho.
Sempre ocupado com outras coisas - disse leda.
- Isso mesmo.
As coisas estão meio frias entre a gente.
Meio não. Bastante frias.
Sei lá... Ele está grosseiro.
Não me dá atenção.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:32 am

Reclama quando compro coisas com meu dinheiro.
Fica socado na casa dos irmãos dele e enche a cara.
Não gosto quando ele bebe.
Já chega o problema que temos com o meu pai.
Será que vou ter que aguentar marido bêbado?
Breve pausa e considerou:
- Às vezes, penso que é por causa do casamento.
Muita tensão, muitos assuntos.
Nossa! Estamos tão sobrecarregados.
Mas e depois de casar? Como vai ser?
Ele não é um cara carinhoso nem atencioso e isso me incomoda.
Fala coisas que me magoam...
Às vezes, não é nem o que fala, mas como fala.
- Acho que vocês precisam conversar, Dri.
Se tem tantas reclamações assim, não pode deixar desse jeito.
As pessoas não mudam para melhor ou pior depois do casamento.
Elas, geralmente, aperfeiçoam o que já são.
Adriana olhou fixamente para a amiga e ficou pensativa.
Aquilo a deixou preocupada.
Naquele instante, Daniel bateu à porta e a amiga respondeu:
- Entra!
No quarto, o rapaz falou:
- Minha mãe já arrumou o sofá lá na sala.
leda ofereceu um sorriso constrangido e comentou:
- Devo perturbar muito vocês com isso, né?
- Por que não se muda de uma vez pra cá? - ele perguntou.
- Ai, Daniel!
Como você é grosso! - a irmã reclamou.
- Grosso?! Eu?!...
Não estou me queixando nem sendo mal educado. Ao contrário.
Nunca achei ruim a leda dormir aqui.
Mas percebi que, nos últimos tempos, isso está virando rotina.
Até a mãe já a convidou pra morar aqui.
- Acho que não teria cabimento - a amiga disse.
- Por que não? - tornou ele.
Vamos ser realistas.
Desde que seus pais morreram, sua irmã adoptou uma vida bem...
Diferente. Até quando você vai ficar fugindo do que ela apronta?
- Até eu terminar a faculdade e arrumar um emprego melhor para poder sair de casa.
- Falta pouco para terminar a faculdade.
Poderia vir morar aqui - falou Adriana.
- Daqui três meses você se casa, Dri.
Se eu vier morar aqui, acho que a Lisa vai me matar. Não é, Daniel?
- Mata nada! - riu.
- Vamos lá pra sala, vai - pediu Adriana, levantando-se.
- Boa noite, Daniel.
- Boa noite.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:32 am

Capítulo 6

Insatisfação com o compromisso assumido
Quando chegou ao seu apartamento, Wagner tomou um banho e depois telefonou para sua noiva.
Conversaram por muito tempo e ele disse que iria vê-la no próximo fim de semana.
Assim que se despediram, ligou a televisão e foi preparar um lanche para comer.
Ficou satisfeito ao encontrar alimentos na cozinha.
Fez um lanche com pão de forma e um copo de suco e foi comer frente à TV.
Ao terminar, colocou o prato e o copo sobre a mesinha central que tinha várias manchas circulares dos diversos vasilhames suados que escorreram e marcaram o verniz.
Sentiu-se tomado por uma angústia inexplicável.
Começou a pensar em tudo o que Hilda havia dito.
Não era correto se interessar por outra mulher, uma vez que já era noivo.
Trazia esses princípios de família.
Embora visse muitos homens traírem suas namoradas, noivas e esposas.
Ele não aprovava isso.
Por um momento se perguntou em pensamento:
"Eu gosto da Sabrina ou me acostumei a ela?"
Não soube responder.
Mas logo tentou se conformar:
- "Sou homem. Isso é normal.
Não fiz nada demais".
Levantou-se e desligou a televisão.
Levou o prato e o copo para a cozinha, lavou-os e deixou escorrendo.
Apagou as luzes e foi tacteando as paredes até achar o interruptor do quarto.
Escovou os dentes e se deitou.
Porém, não conseguiu pegar no sono de imediato.
E a noite foi longa...
Na manhã seguinte, leda levantou cedo e ajudou Heloísa a preparar o desjejum.
Quando Daniel chegou à cozinha, admirou:
- Pão fresco!
Adoro pão fresco!
- Bom dia, filho.
Só tem pão fresco porque a leda foi buscar.
- Bom dia, mãe!
Bom dia, leda! - o rapaz cumprimentou.
Dormiu bem? - perguntou para a amiga.
- Dormi.
- Dormiu nada! - ele exclamou brincando.
Aquele sofá é horroroso!
Não minta, vai!
A moça sorriu, simplesmente, e não respondeu nada.
- Sua irmã já acordou? - quis saber a mãe.
- Já, mas está enrolando - tornou a falar animado.
Depois fica atrasada e quer carona.
- Quem vai me dar carona? - perguntou Adriana ao entrar na cozinha.
- Até o metrô e se você se apressar - respondeu ele, falando de boca cheia.
- Bom dia, mãe! Bom dia, leda! - disse Adriana.
Ambas responderam.
Nesse instante, Jaime chegou à cozinha e murmurou um bom dia que foi respondido no mesmo tom.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:32 am

Imediatamente, o ambiente impregnou-se de uma energia densa de insatisfação.
Um silêncio fúnebre reinava, até Heloísa perguntar:
- Você vem pra cá hoje, novamente, não é, leda?
- Acho que sim.
Se a senhora não se importar... - respondeu timidamente.
- Quando foi que me importei? - a mulher falou sorrindo, parecendo brincar.
Não houve resposta.
Em seguida, disse:
- Vou te dar a chave do portão.
A da porta da cozinha vou deixar escondida no lugar de sempre. Certo?
- Certo. Eu encontro.
Obrigada - tornou a moça muito educada.
- Aproveita, leda, e manda fazer uma cópia de cada chave.
Você já é da família e tá sempre precisando.
Não sai daqui - sugeriu Daniel.
- Ai, Daniel!
Como você é grosso! - reclamou a irmã.
- E não é mesmo? - tornou ele de modo simples.
- É mesmo. Faça cópias.
Assim fica mais fácil - concordou a senhora.
- Não, gente.
Não precisa - constrangeu-se leda.
- Seria bom.
De repente sua irmã resolve aprontar das dela e você chega aqui e não tem ninguém - disse Daniel.
- A senhora vai chegar mais cedo hoje, mãe? - quis saber Adriana.
- Pretendo. Por quê?
- Nada... Só pra saber - respondeu a filha.
- E lá no banco onde você trabalha, leda?
Como estão as coisas? - Daniel indagou.
- É um bom lugar.
Apenas o salário não corresponde à responsabilidade.
Mas prefiro deixar como está.
Não é momento para mudar de emprego.
- É seu último ano de faculdade, não é? - tornou ele.
- Na verdade, quando eu voltar das férias, será o último semestre - sorriu.
- Eu não vejo a hora de terminar.
- Lá, na empresa onde eu trabalho, surgiu uma vaga para Analista de Mercado.
O salário é muito bom, embora seja necessário ter curso superior completo.
Posso ver com o director da secção se você preenche os requisitos, por estar quase no final da faculdade.
- Só que é bem longe, não é? - perguntou a moça.
- Sim. Mas, com o salário que pagam, você pode comprar um carro.
No começo, posso te dar carona também.
- Você é Engenheiro de Produção, não é?
- Sou - afirmou ele.
- É para trabalhar junto com você? - quis saber.
- Não. Essa vaga é para outra directoria.
- Comecei a ficar bem interessada - sorriu e seus olhos brilharam.
Vou passar meu currículo por e-mail.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:33 am

Converse com o director do sector e, se ele quiser...
Mas lembre-se de que vou precisar de carona.
- Te dou carona, mas não pode se atrasar.
Passe seu currículo ainda hoje.
- Fechado - ficou satisfeita e sorriu.
Daniel se levantou, colocou sua xícara e talheres na pia e disse:
- Se vocês duas querem carona até o metrô, acho bom se apressarem - e foi para o quarto.
- Eu já estou pronta - animou-se leda, levantando-se.
- Huuummm. - murmurou Adriana, engolindo o último gole de café com leite.
- Estou indo!
Estavam no carro de Daniel que conduzia o veículo até o metrô, quando leda brincou:
- Vamos olhar para os lados e ver se o director da Dri não está por aqui.
- Nem brinca! Parem com isso!
Daniel riu e, apesar do pedido da irmã, começou a provocá-la, demonstrando que estava procurando alguém.
Em seu carro, indo para o serviço, Wagner não deixava de pensar na possibilidade de, novamente, encontrar Adriana no carro de seu irmão, fazendo o mesmo trajecto.
Mas isso não aconteceu.
Os dias foram passando...
No fim de semana, Wagner estava na casa de seus pais quando sua noiva chegou, querendo vê-lo.
Era uma manhã fria e o nevoeiro dificultava a visibilidade.
Apesar disso, eles foram caminhar pela praia de mãos dadas.
- Como estão as coisas lá na empresa? - Sabrina perguntou.
- Bem. Muita competitividade.
Isso é normal - respondeu com simplicidade.
Assim que eu terminar a faculdade, no fim do ano, quero que me ajude a arrumar uma empresa considerável para trabalhar lá em São Paulo.
Você tem muitos contactos.
Daí eu posso ir para lá e vamos começar a cuidar das coisas.
- Que coisas?
- Ora! Como que coisas?!
Não vamos nos casar?! - a noiva parou e o olhou de frente.
- Ah! Sim. Mas não temos muita coisa para cuidar.
- Como não, Wagner?!
- Acho que não temos.
- Precisamos dar uma mexida naquele apartamento.
Decorar legal...
Ele voltou a caminhar e considerou:
- O apartamento está legal.
Não precisa de nada.
- É muito vazio e sem graça.
Nem cortinas você colocou.
E ainda bem. Porque... - riu.
Você não tem muito bom gosto. Não é mesmo?
- Tem cortinas sim. Eu coloquei.
Dizendo isso, o rapaz silenciou.
Não estava disposto a conversar, principalmente, a respeito de casamento.
Continuou andando vagarosamente e olhando para o mar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:33 am

Sabrina não quis perceber e continuou planejando:
- Sabe no que eu estava pensando?
Não houve resposta.
- Em chamar aqueles meus primos de Santos - referiu-se à cidade - para serem meus padrinhos.
Eu e a Renata nos damos tão bem!
Estou pensando também em termos seis casais de padrinhos.
Três meus e três seus.
O que você acha?
- Pode ser.
- A Lucélia, aquela minha amiga, e o marido.
Embora eu não tope muito o Aguinaldo.
O que você acha dele?
- De quem? - realmente o noivo estava completamente alheio ao que ela dizia.
- Do Aguinaldo.
- Que Aguinaldo?
- O marido da Lucélia!
Parou de caminhar e segurou sua mão para que não continuasse.
Sabrina, irritada, perguntou:
- Wagner, você não está nem aí para o que estou falando, não é?
- Estou... Estou preocupado com outra coisa.
- É mais importante do que o nosso casamento, por acaso?! - falou de modo rude.
O rapaz a olhou nos olhos e respondeu bem sério:
- Talvez seja.
Estou preocupado com meu trabalho - disse e deu alguns passos.
Ela ficou a sua frente, fazendo-o parar.
Com postura enérgica e mãos na cintura, indagou firme:
- E desde quando o seu trabalho é mais importante do que o nosso casamento?
- Desde que ele tenha de sustentar o nosso casamento - respondeu sério.
Se eu não estiver empregado e ganhando bem, é bom não casarmos.
Não acha? - perguntou enérgico e tornou a andar sem esperar por réplica.
A noiva sentiu-se contrariada. Nada disse.
Voltaram a caminhar, lado a lado, observando a neblina se dissipar para o sul em direcção à bela paisagem da Serra da Jureia.
Após o almoço, a casa dos pais de Wagner ainda se achava repleta de parentes.
Tios e primos haviam se reunido ali para um churrasco.
Era uma bela residência.
Grande, com área de lazer consideravelmente ampla e confortável.
Devido à época do ano, a piscina não estava convidativa, embora o sol radioso esquentasse bem naquela hora do dia.
Era um daqueles veranicos de inverno.
Wagner, com o rosto coberto por uma pequena toalha, estica-se em uma espreguiçadeira e se esquentava ao sol.
Wanda, sua irmã mais velha, aproximou-se.
Puxou uma cadeira, sentou-se ao seu lado e disse só para ele ouvir:
- Tão quieto...
- O quê? - perguntou, erguendo a ponta da toalha que cobria os olhos.
Ajeitando-se, virou em sua direcção.
- Você. Está tão quieto.
O irmão se remexeu, ergueu o encosto da cadeira e se sentou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:33 am

Respirou fundo e comentou:
- Não tem uma única vez que eu venho para casa e que a mãe não chama a família inteira para vir aqui.
Eu esperava ficar sozinho. Descansar um pouco.
Como se não bastasse a agitação de São Paulo, chego aqui e tenho de ouvir todo o mundo.
Seria tão bom um pouco de sossego.
- Você nunca se queixou disso.
O irmão nada disse e Wanda observou:
- Está tudo bem?
- Está - respondeu rápido e sério.
- Não parece.
Um instante e perguntou:
- Você e a Sabrina brigaram?
- Não. Quer dizer... - breve pausa.
Depois desabafou:
- Ela não dá um tempo!
Não para de falar em padrinhos e casamento.
Não dá uma trégua!
Estou começando a achar que essa história de ter noivado e marcado casamento... - estava insatisfeito e deteve as palavras.
- Você nunca reclamou disso também - falou com brandura, mas com um tom de preocupação.
Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu que vim para casa pra descansar - havia um toque irritado em sua voz.
Não queria meus primos falando que eu não deveria ter comprado essa marca de carro nem a tia reparando que emagreci.
Muito menos a Sabrina fazendo lista de padrinhos e presentes.
Como se não bastasse, a Celine veio me dizer que quer ficar uma semana em São Paulo, no meu apartamento, e junto com a Sabrina.
A irmã riu e o rapaz perguntou contrariado:
- Já imaginou isso?! - Não houve resposta.
- Em vez de ter vindo descansar, vim aqui pra me irritar!
- Nossa família sempre foi assim e você nunca reclamou. Tem certeza de que é só isso?
- Lá vem você também - resmungou e se levantou, afastando-se da irmã.
No decorrer do dia, todos percebiam que Wagner procurava ficar sozinho.
Distante de tudo.
Até que se refugiou em seu quarto onde ligou o som em volume baixo, dividiu a cama com seu cachorro que, apesar de ter grande porte, deixou-o ficar deitado ao seu lado.
O animal demonstrava compreender sua angústia.
Olhando-o nos olhos com um toque de solidariedade.
- E, amigão, só você mesmo para me entender.
Não é? - O cachorro se remexeu e deu um grunhido baixinho.
Wagner afagou sua cabeça e sorriu.
Passado algum tempo, Sabrina foi até seu quarto e ele não conseguiu disfarçar a feição de insatisfação.
- O que foi, amor?
- O que foi o quê?
- Você está tão quieto.
Mal-humorado.
Aconteceu alguma coisa? - perguntou e sentou-se na beirada da cama ao lado dele.
O noivo acariciava o cachorro e fitava o animal quieto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 05, 2017 9:33 am

Só depois de longa pausa, respondeu:
- Eu só quero ficar quieto. Só isso.
Ela começou a lhe fazer afagos nos cabelos e isso o incomodou.
Percebendo algo estranho, indagou mais enérgica:
- O que foi, Wagner?!
O que está acontecendo?!
- Nada. Por que insiste nisso?! - sua insatisfação era nítida.
Sentou-se, fazendo um sinal para o cachorro se levantar e descer da cama.
- Tenho o direito de saber por que você está assim.
Ele não disse nada, e a moça comentou:
- A Celine já te falou que nós duas vamos para São Paulo ficar lá uma semana e...
- O que pretendem fazer lá? - interrompeu-a.
Eu estarei trabalhando.
Vão me deixar preocupado com vocês duas.
Minha irmã não tem um pingo de juízo e você não vai conseguir controlá-la!
Isso não vai dar certo.
Eu não quero que vocês vão!
- Nossa! Precisa falar desse jeito?
- Preciso sim.
Preciso deixar bem claro que não quero vocês lá.
- Não estou entendendo por que você está desse jeito!
- Que jeito?! - ele levantou-se ao perguntar.
- Insatisfeito e irritado!
Esse é o jeito!
O que está acontecendo!
O rapaz respirou fundo e falou, parecendo mais calmo, mas na verdade, continha ao máximo sua insatisfação.
- Não está acontecendo nada.
Eu só quero ficar sozinho e quieto e você não está respeitando isso - respondeu sem encará-la.
A noiva se levantou e, magoada, saiu do quarto sem dizer nada.
Naquele mesmo fim de noite, Adriana e o noivo escreviam nos convites de casamento que seriam distribuídos em breve.
Sentados à mesa da cozinha da casa da noiva, estavam atentos à lista e aos nomes dos convidados.
Observando a delicadeza do envelope, leda sorriu ao comentar:
- Que lindo! Nossa!
Gostei desses detalhes - apontou com delicadeza.
- Eu achei que deu um toque diferente, não foi? - perguntou Adriana satisfeita.
- Deu sim. Ficou óptimo.
Quando vão começar a distribuir? - tornou a outra.
- Acho que daqui a um mês, mais ou menos.
Naquele instante, Jaime chegou.
Pela forma como bateu a porta principal, Adriana olhou para o noivo demonstrando que havia algo que alterava o estado de seu pai.
- Que coisa, né?! - reclamou Nicolas visivelmente insatisfeito.
Acho bom terminar isso outra hora - ele sugeriu.
As amigas começaram a recolher os convites e colocá-los de volta na caixa.
Nicolas se levantou e ficou inquieto.
Um sentimento de decepção e raiva ficou estampado no olhar de Adriana quando viu o pai cambaleando ao entrar na cozinha.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:52 am

Falando com voz mole, Jaime perguntou:
- Cade sua mãe?
- Está no quarto - respondeu a filha.
- Eu tô indo, Dri - decidiu o noivo.
- Não. Fica aí.
Vamos pedir uma pizza.
- Não. Tô indo. Amanhã te ligo.
Curvando-se, beijou-a rapidamente e se despediu de forma geral:
- Boa noite! - virou-se e se foi.
- Só porque eu cheguei, ele tá indo embora - reclamou, falando trôpego.
Tão vendo? Tão vendo, né?
Cês tão vendo? Eu não disse nada!
Nada mesmo! Quando eu reclamo... - quase caiu ao esbarrar em uma cadeira.
Opa! - cambaleou. - Também...
Essa casa é uma bagunça.
As cadeira num fica no lugar certo, que é embaixo da mesa - falava errado.
Heloísa, atraída pelo falatório do marido, chegou à cozinha e murmurou:
- Mais uma vez...
- O que é?
O que você tá resmungando aí?!
Pensa que não ouvi? Eu ouvi!
Você tá falando de mim.
- Vamos, Jaime.
Venha tomar um banho - propôs a mulher.
- Banho?! Por que é que eu preciso de um banho?!
A filha havia recolhido seus convites de casamento e ia saindo da cozinha, junto com a amiga, quando o pai perguntou:
- O que é isso?
O que tão me escondendo?
- Não estamos escondendo nada, pai.
- Tão! Tão sim!
Vocês me deixam de lado!
- Vai, Adriana.
Vai pro quarto - pediu a mãe.
- E você ainda dá razão pra ela!
A culpa é sua dos seus filhos me maltratar.
Porque eu sou deixado de lado nesta casa!
Esta porcaria de casa.
Esta casa que não tá terminada!
Você sabia que esta casa não tá terminada?
Pois é!... Falta terminar...
Jaime continuou falando de modo desordenado.
Seus pensamentos achavam-se confusos, desconexos.
Cada vez mais, perdia o respeito e a razão.
- Se você bebesse menos e trabalhasse mais, talvez, nós tivéssemos dinheiro para terminarmos essa casa.
Mas não. Sempre é demitido porque enche a cara - reclamou Heloísa.
- Não fala assim comigo!
Sou seu marido!
Sou o homem da casa!
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:53 am

- Não adianta ser o homem da casa se não se dá valor quando bebe e perde o respeito de seus filhos - revidou a esposa.
- Cala a boca!
Olha lá como fala comigo!
Cê precisa me respeitar.
- Se você se respeitasse, Jaime, os outros também o respeitariam.
Mas esse não é o caso.
O marido a pegou pelos braços e a empurrou até que as costas de Heloísa fossem pressionadas contra a parede.
Corpulento, usou seu peso para inibi-la de qualquer defesa e, com voz rouca e grave, além de trôpega, falou enquanto a mulher podia sentir o bafo horrível, resultado da bebida alcoólica ingerida.
- Olha aqui! - falou em tom grave, porém baixo.
Cê não pensa que sou bobo, porque eu não sou.
Sou... Sou o dono desta casa e você e o seu filho...
Tá entendendo?
Você e seu filho não são nada aqui.
Você cala essa boca.
Tá entendendo?
Cala essa sua boca!
Cê sabe que tenho muito pra dizer.
Cê num é a santa que eles pensa não.
Ela o empurrou, mas Jaime a segurou pelo braço e não a deixou se afastar.
- Qualquer hora eu conto tudo! - dizia com voz abafada.
Você vai me pagar!
Heloísa tentou sair de onde estava, mas não tinha força suficiente para se soltar do marido.
Remexendo-se, sentia seu braço arder com o apertão.
Começou empurrá-lo com a outra mão.
De repente, a voz grave de Daniel soou num grito:
- O que está acontecendo aqui?! - questionou ao presenciar a cena.
Antes que o rapaz fosse à direcção do casal, Jaime largou a esposa, empurrando-a para o lado.
Aproximando-se de sua mãe, o filho tocou-a no ombro enquanto Heloísa esfregava levemente o braço.
Temeroso, Jaime se acuou no canto perto da pia.
Mesmo de cabeça baixa, procurava ver onde Daniel estava.
Era uma atitude de medo e covardia.
Falando baixinho, a mãe sobrepôs sua mão a do filho e disse:
- Tudo bem.
Está tudo bem.
- Não está nada bem, não!!! - vociferou o rapaz.
- Daniel, por favor, filho... - pediu a mulher, fazendo-o encará-la.
Os olhos do rapaz expressavam contrariedade.
Com modos extremamente gentis, a mãe disse:
- Vai tomar um banho e vem comer alguma coisa. Vai.
Novamente, o moço olhou para Jaime e o mediu de cima a baixo.
Respirou fundo e saiu da cozinha.
Chegando ao quarto que dividia com a irmã, viu a porta fechada.
Bateu, mas não esperou.
Encontrou Adriana e leda mexendo ainda nos convites.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:53 am

- Vocês duas não ouviram nada, não é?! - zangou-se.
- Ai que susto!
O que foi? - a irmã quis saber.
- O pai! Ele estava apertando o braço da mãe.
- Ele chegou bêbado, mas... - tornou ela.
- Olha, Dri, se a mãe não tomar uma atitude, se ela não tiver uma postura...
Não sei o que pode acontecer!
- Ele não te enfrenta, né?
- Claro que não!
Bêbado é sempre covarde!
Daniel, com jeito brusco, jogou uma jaqueta sobre a cama e desabafou:
- Tenho vontade de...
- Nada disso, Daniel.
Por pior que ele seja, é o seu pai - argumentou a amiga, tentando acalmar a situação.
- Você não imagina como é, leda!
Tem hora que dá uma vontade de...
- Se fizer qualquer coisa contra ele, estará se prejudicando - tornou a moça.
- E quando não estivermos aqui?
Como vai ser?
O rapaz, com jeito contrariado, sentou-se na cama e não disse mais nada.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:53 am

Capítulo 7 - Hilda em dificuldades

Os dias foram passando rapidamente.
Já fazia tempo que Wagner não ficava tão próximo de Adriana na empresa.
Mesmo assim, sempre que podia, ele ia até a gerência onde ela trabalhava e a observava de longe.
Quando ela o via, o rapaz oferecia um sorriso discreto e a moça correspondia.
Era sempre algo bem reservado.
Não havia razão para se aproximar.
Naquela tarde, a assistente arrumava, sobre a mesa da directoria, alguns documentos e encontrou o envelope de fotografias.
Ela o separou com a intenção de pedir a seu chefe, mais uma vez, que o levasse embora.
Naquele instante, Wagner adentrou a sala.
Vendo Hilda ajeitando suas coisas, disse:
- Ah! Você está aí!
- Precisa de alguma coisa?
- Preciso dos relatórios financeiros.
- Já estão aqui.
Acabei de trazer.
O director se aproximou, afastou a cadeira da mesa e ficou em pé, quase ao lado de Hilda, observando os papéis.
- Que óptimo! - ele considerou ao ler.
- Mais alguma coisa?
- Não.
- Estas fotos ainda estão aqui.
Precisa levá-las embora.
Wagner observou o envelope em sua mão e suspirou fundo ao pegá-lo, expressando insatisfação.
- Está tudo bem? - a assistente quis saber.
- Está - afirmou em tom desanimado.
- Não parece.
O rapaz ficou pensativo.
Sem demora, disse:
- Estou precisando de uma diarista.
Você conhece mais alguma?
- E a última que arrumei?
- Não aparece há três semanas.
Não ligou nem deu satisfações.
- Ligou para ela?
- Sim. Só deu caixa postal.
Deixei recado, mas não retornou.
- Vou ver com a minha diarista.
Se ela tiver dia disponível na semana, eu aviso.
- Pode até ser de sábado, tá?
Estou desesperado.
- Certo.
Alguns segundos e perguntou:
- Sua irmã não virá para São Paulo?
- Deixei bem claro que não quero a Celine nem a Sabrina aqui.
- Nem a Sabrina?
- Ora, Hilda!
O que elas ficarão fazendo aqui enquanto eu estiver trabalhando?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:53 am

- Poderiam passear.
- Passear sozinhas?
Aqui não tem lugar para passear.
- Não seja injusto com esta cidade - ela sorriu.
- Essa ideia não me agrada.
A Sabrina ficou zangada, por eu não querê-la aqui, mas...
Ah! Tá louco, viu!
Hilda deu um sorriso discreto e quis saber:
- Está tudo bem com vocês?
- Não sei. Não sei dizer se está tudo bem entre nós.
Quando converso com a Sabrina, mesmo por telefone, acabo me irritando.
Algo sempre me deixa insatisfeito.
Fez longa pausa.
Depois declarou:
- Estou pensando em dar um tempo.
- Um tempo? - perguntou, mesmo entendendo o que ele havia dito.
- Não me sinto mais tão animado com esse noivado, com a ideia de casamento.
Comecei a pensar que...
Eu e a Sabrina namoramos há tantos anos que...
- Quê?...
- Que nos acostumamos um ao outro.
Você acha que isso pode acontecer?
- Acostumar com uma pessoa é algo normal.
Estou casada há trinta anos e me acostumei com meu marido.
Nem por isso, penso em dar um tempo no meu casamento - ela riu.
- Ah, Hilda! Você me entendeu.
Nem sei por que fico conversando isso tudo com você - ficou melindrado.
- Posso fazer uma pergunta pessoal?- ela sorriu, enquanto aguardava a resposta.
- Pode. Vai lá!
- Por que, morando aqui em São Paulo, continuou, por tanto tempo, namorando a Sabrina que mora tão longe?
- Por quê? Ora! Por quê?... - titubeou.
Ela sempre foi uma boa moça.
É de família. Não é uma qualquer.
Quando um homem equilibrado pensa em casamento, ele deseja uma mulher respeitável, honesta, fiel...
Para que, juntos, construam uma família.
Foi isso o que aprendi com meus pais.
- Outras moças, aqui em São Paulo, nunca o atraíram?
Tem moças bonitas aqui na empresa.
Elas nunca chamaram sua atenção?
- Lógico, né! - riu.
Mulheres bonitas, chamativas atraem e... - sorriu.
Aonde você quer chegar, Hilda?
- Mas nenhuma dessas mulheres bonitas chamou sua atenção o suficiente para repensar o seu noivado?
- Não. Lógico que não.
As mulheres que conheci aqui não... - queria rir e contorcia a boca ao falar.
Digamos que não são pra mim...
Pelo menos, não são para me casar.
É só para... passar um tempo. Entende?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:54 am

- Todo homem é cafajeste - Hilda sorriu e sussurrou em tom inaudível.
- O que disse? - não havia escutado.
- Então me diga:
vai dar um tempo com a Sabrina só para dar um tempo?
Ou apareceu alguém que pode ser a mulher pela qual pode pensar em um compromisso sério?
Wagner fechou o sorriso e nada respondeu por longo tempo.
Até que resolveu:
- Vamos embora, Hilda.
O Agenor vem buscá-la hoje?
- Não.
- Então eu a levo.
Ele decidiu sentindo uma inquietude, como uma sombra de preocupação indefinida no olhar.
A mulher expressou um semblante enigmático, quase sorrindo.
Sabia que o rapaz iria reflectir sobre o que havia dito.
Ela pegou os papéis de que precisava e se arrumou para irem embora.
Sábado de manhã...
Wagner assustou-se com o toque do celular.
Acordou desorientado.
Pegou o aparelho sem saber que horas eram.
Era uma daquelas manhãs de que não se lembrava nem mesmo qual o dia da semana, onde se está ou o próprio nome.
No primeiro instante, pensou que havia perdido a hora do serviço, pois, ao olhar no visor do telefone, viu que era sua assistente quem ligava.
- Alô! - atendeu com a voz rouca e muito assonorentado.
Nem acendeu a luz.
- Bom dia, doutor Wagner!
Acredito tê-lo acordado! - exclamou a secretária com um toque de ironia na voz.
Pareceu sentir prazer ao fazer aquilo.
- Bom dia, Hilda.
Você me acordou sim.
Eu... - gaguejou.
- Tenho uma diarista para hoje, ou melhor, para agora.
Posso levá-la aí?
- Que dia é hoje? - ele estava confuso.
- Sábado.
São exactamente sete horas da manhã.
- Sábado... É... Sim.
Pode. Pode trazê-la.
- Até mais.
Desligaram.
Assonorentado, levantou-se e foi se trocar.
Depois fez um café.
Algum tempo se passou e Hilda chegou com a profissional esperada.
Após apresentá-la, a diarista foi para a área de serviço pegar os produtos e materiais de limpeza para começar o trabalho.
Wagner serviu para Hilda uma caneca de café e foram para a sala de estar.
Ela se sentou em um sofá e ele em uma cadeira, ficando quase de frente para ela.
- Você vai gostar do serviço da Fran.
Ela trabalha direitinho.
É bem quieta e discreta também.
Apesar da idade, dá conta muito bem do serviço.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:54 am

- Ela só tem dia no sábado?
- Disse que poderia ser aos sábados!
- Certo. Tudo bem - ele se conformou.
- Fale com ela.
Se alguém desistir de seus serviços durante a semana, você fica com o dia.
Ela é uma pessoa de confiança.
Pode deixar as chaves na portaria.
Mas vê se não deixa tudo jogado pelo apartamento.
Isso dificulta a limpeza.
Dá trabalho e demora mais.
Principalmente porque a diarista não sabe o que fazer com as coisas jogadas.
- Sim senhora - ironizou.
Depois eu falo com ela.
Breve instante em que tomou um gole do café quente, e perguntou:
- Preciso te pagar o táxi.
Você veio de táxi, não foi?
- Sim. Viemos sim.
É muito difícil encontrar uma vaga para estacionar aqui perto.
Bebericou o último gole de café e decidiu:
- Agora preciso ir.
Obrigada pelo café.
Estava óptimo!
- Eu a levo em casa.
- Eu aceito - sorriu.
- Deixe-me só apanhar uma jaqueta.
Wagner foi até o quarto e, rapidamente, retornou vestido com uma jaqueta e com as chaves do carro nas mãos.
Pegou a carteira, tirou uma nota de cinquenta e deu a ela.
- Depois te dou o troco - disse a assistente.
- Tudo bem. Vamos?
- Deixe-me só dar um tchau para a Fran.
Ela se despediu da diarista e se foram.
Enquanto dirigia, o rapaz percebeu-a muito calada e perguntou:
- Algum problema, Hilda?
- Não. Tudo bem.
- Você está tão quieta.
Está diferente hoje.
Longo silêncio e ele insistiu novamente:
- Aconteceu alguma coisa?
A mulher ficou um pouco pensativa, depois respondeu.
- Estou preocupada com uma coisa.
- Deve ser uma coisa séria.
Não é comum vê-la assim.
O que aconteceu?
Será que eu posso ajudar?
- É com meu marido - murmurou.
- O que tem o Agenor?
- Está diferente.
- Diferente como? - ele perguntou interessado.
- Diferente...
Irritado, insatisfeito.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:54 am

- Com o quê?
- Com qualquer coisa.
Tudo está sendo feito exactamente do mesmo jeito há mais de trinta anos e ele nunca reclamou.
Agora... Qualquer coisa é motivo de resmungar, reclamar, fazer cara feia.
Fala comigo sempre de um modo exigente e descontente.
Ou não fala.
- Desde quando ele está assim? - preocupou-se o rapaz.
- Desde que vendemos a casa na praia.
- Você não queria vender a casa, né?
- Não. Foi ele quem insistiu.
Não sei o que deu naquele homem.
Ou vendia a casa ou morria.
- Vocês estão com problemas financeiros?
Desculpe-me perguntar. Pode ser isso.
- Não. Tudo bem.
Financeiramente, as coisas estão sob controle. Mas...
- Mas, o quê? - insistiu diante da demora.
- Mas entre nós...
Breve pausa e considerou:
- Acho que não deveria comentar isso.
- Por que não?!
- O senhor é meu chefe!
- Deixe de ser besta, Hilda! - perdeu a compostura de tão irritado.
Eu sempre me abri com você que sempre me ajudou quando precisei.
Morei até em sua casa! Qual é?!
Nova pausa.
- Estou percebendo que você está angustiada e quero ajudar.
- Sim. Estou angustiada - ela admitiu.
- Desconfiada ou angustiada?
- Como assim? - a mulher indagou, confusa.
- Desculpe-me ser directo.
Você está desconfiada do Agenor?
- Não.
Pensou por um instante e respondeu:
- Pelo menos, até agora, não estava.
Mas agora comecei a pensar nisso.
- Caramba!... Desculpe-me, Hilda!
Eu não queria te dar essa ideia.
- Não! O Agenor não iria fazer uma coisa dessa.
Dizendo isso, olhou demoradamente para Wagner.
Estavam parados no semáforo.
Só depois de alguém buzinar, ele voltou-se para a direcção.
O silêncio foi absoluto até chegarem à residência onde a assistente morava.
- Pronto! Chegamos! - exclamou, tentando disfarçar sua preocupação.
Arrependeu-se da suspeita que levantou.
- Obrigada por me trazer.
Depois te dou o troco do táxi.
- Sou eu que agradeço por você se dar a esse trabalho todo.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:54 am

Olhou-a nos olhos e perguntou:
- Você está bem?
- Lógico que estou.
- Quer conversar um pouquinho? - o rapaz insistiu.
- Não sei se é um bom momento para conversarmos - falou com tristeza na voz.
- Eu te conheço, Hilda.
Você está precisando conversar.
- Estou confusa e atordoada.
O que eu posso fazer? - engoliu seco.
Olhou em volta para tentar disfarçar.
Ele não sabia o que responder e aconselhou:
- Conversem.
- Já tentei isso.
Qualquer conversa que puxo, ele se mostra insatisfeito.
Não sei mais o que fazer.
Não acredito que o Agenor seja tão cafajeste assim, mas...
Quando lembro aqueles homens, aparentemente respeitáveis, lá na empresa...
Casados...
E com lindas famílias, mas são calhordas para traírem e se envolverem com tudo o que não presta, incluindo prostitutas no horário do almoço...
Ninguém diria que eles são desprezíveis.
As esposas e filhos poriam suas mãos no fogo por eles.
Qualquer um poria.
Até eu, se não soubesse de tanta
sujeira.
Não conhecemos ninguém, até sabermos do que o outro é capaz.
Fico pensando e... - não terminou o que ia dizer.
- Contou para os seus filhos? - Wagner perguntou com jeitinho.
- Comentei com minha filha e com a Valéria, minha nora.
Com o Rogério e com o Rodrigo não.
- O Rodrigo, por morar com vocês, não percebeu nada?
- Talvez sim.
Disse algo por uma ou duas vezes sobre o pai estar estranho, nervoso.
Ele trabalha. Chega tarde.
Moço mais novo do que você.
Não vai reparar muito nessas coisas.
Você o conhece bem. É desligado.
- Você é uma mulher inteligente, esperta e corajosa.
Vai saber resolver isso.
Talvez, o Agenor esteja com algum problema pessoal.
- Qual problema pessoal não pode ser dividido com a esposa?
Wagner a observou por longo tempo.
Não sabia responder.
Encarando-o, ofereceu sorriso forçado e disse:
- Desculpe-me.
Não queria incomodá-lo com isso.
- Você não me incomoda.
Ela abriu a porta do carro para descer.
Ele segurou seu braço e a puxou dando-lhe um beijo na face.
A mulher lhe fez um afago maternal no rosto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:54 am

Sorriu e desceu após murmurar:
- Vai com Deus.
- Amém.
O rapaz suspirou fundo.
Sentiu-se insatisfeito.
Considerava Hilda como uma parenta.
Mais até do que alguns familiares.
Não desejaria vê-la sofrer.
Respirou fundo novamente.
Esfregou as mãos ao mesmo tempo em que as assoprou para aquecê-las.
Ligou o carro e se foi.
A caminho de seu apartamento, lembrou-se que Adriana morava ali perto.
Ficou inquieto com essa recordação e ansioso com a ideia de passar próximo a sua casa para vê-la.
Não resistiu.
Horas depois, em seu apartamento, estava frustrado por não ter conseguido vê-la.
No final da tarde, a diarista havia terminado o serviço e se foi.
Uma angústia o dominou.
Wagner largou-se no sofá.
Tentava calar os pensamentos acelerados.
Impossível.
Incomodou-se com os ruídos advindos de outros apartamentos.
Eram pisadas, som alto ou risos e gritinhos de crianças.
Irritou-se.
Foi até a geladeira, pegou uma lata de cerveja, abriu e voltou para a sala.
Ligou a TV. Com o controle remoto na mão, começou a passar os canais enquanto bebericava na lata.
Nada prendia sua atenção por muito tempo.
Nenhum programa interessava.
Um companheiro espiritual, que não tinha qualquer ligação com o rapaz, mas havia como que se imantado à lata de cerveja, esperando a oportunidade de sugar a energia espiritual de qualquer encarnado disposto a ingerir a bebida alcoólica, estava ali.
O abrir daquele recipiente o fez se ligar a Wagner que passou a acreditar ficar mais relaxado com a bebida.
Nesse instante, o celular tocou.
O moço olhou o visor e sentiu-se muito insatisfeito.
Decidiu não atender.
Logo o aparelho silenciou.
Não demorou e, novamente, o toque insistente do telefone começou.
Verificando quem era, decidiu atender.
- Oi, mãe - cumprimentou sem ânimo.
- Oi, filho! Tudo bem?
- Sim. Tudo bem. E aí?
- Quem está aí com você?
- Ninguém. É a TV ligada.
- Parece que está dando uma festa.
- É a TV - repetiu irritado. Pegou o controle e abaixou o volume. - E aí?
Está todo mundo bem? - ele perguntou mais por obrigação do que por interesse.
- Sim. Todos estão bem.
Eu liguei porque fiquei preocupada.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:55 am

A Sabrina me ligou e disse que tentou falar com você várias vezes hoje, mas o seu telefone só chamava.
- É... Eu saí e esqueci o aparelho aqui no ap.
Acabei de chegar - mentiu.
- Então liga pra ela, Wagner.
- Tá bom. Depois eu ligo.
Foi só por isso que a senhora ligou?
- A Celine gostaria de passar uns dias aí e...
Abruptamente, o filho a interrompeu:
- Ah, mãe! Qual é?!
Eu já disse que não tenho tempo.
Não vai ser uma boa a Celine ficar aqui, no meu apartamento e...
- Eu vou ficar com ela, Wagner! - interrompeu-o.
Seria só por três dias.
Preciso mesmo fazer algumas compras.
Então, aproveitaremos para passear um pouco nos shoppings, parques e...
- São Paulo não tem nada pra ver! - foi rude.
- Como não, filho?!
Conheço essa cidade muito bem.
Você não está querendo que eu vá aí? - perguntou para fazer chantagem.
Wagner suspirou fundo, e ela pôde ouvir o barulho de sua respiração.
- Família é fogo, meu amigo! - comentou o espírito que havia se atraído a ele.
Só enche o saco! Só usam você!
Logicamente, o rapaz não pôde ouvi-lo, mas sentiu suas vibrações.
Insatisfeito, perguntou completamente desmotivado:
- Quando pretendem vir?
- Na outra semana.
Penso em ir quarta-feira de manhã.
Na sexta à noite, você traz a gente de volta.
Ficaremos só três dias. Não mais.
Sábado precisamos estar aqui! - falou com um tom bem animado.
Era aniversário do rapaz.
- Como virão pra cá?
De ônibus? - quis saber, pois sua mãe e irmã não dirigiam em estradas.
Temiam, pois não tinham prática.
- Sim. Seu pai vai nos levar até a rodoviária daqui e, quando chegarmos a São Paulo, pegaremos um táxi até onde você mora e voltamos com você. Tudo bem?
- Tudo bem, se a senhora vier junto.
Mas veja lá!
Não dê folga pra Celine!
Ela é muito folgada!
- Ai, Wagner! Deixe de ser implicante com sua irmã.
- Tá. Tudo bem.
- Não se esqueça de deixar as chaves na portaria, viu?
- Tá bom - respondia com contrariedade no tom da voz.
- Eu ligo para você não esquecer.
- Tá. Tudo bem.
- Agora vai e liga pra Sabrina.
Ela está esperando.
- Tá. Valeu, mãe! - queria desligar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:55 am

- Beijo, filho!
Fica com Deus, viu?
- A senhora também.
- Eu ligo na semana pra gente combinar.
- Tá. Tá bom... Tchau - queria dispensá-la o quanto antes.
- Tchau! Fica com Deus! - ela repetiu.
- Obrigado. A senhora também.
E desligou rapidamente para sua mãe não esticar o assunto por mais tempo.
- Saco! - resmungou e acabou tomando todo o resto de cerveja.
- E aí, cara?! Acabou?! - disse o novo companheiro espiritual.
Expressando-se com ginga de malandro.
Qual é, meu amigo?!
Pensei que você fosse melhor que isso.
Por isso segui você quando comprou as latinhas.
Vamos lá! Eu sei que tem mais de onde veio esta!
Vai! Vamos!
Uma vontade inexplicável de tomar mais cerveja se intensificou.
Nesse instante, Fábio, mentor de Wagner, alertou-o:
- Melhor parar por aí, meu filho.
Todo excesso é prejudicial.
É importante manter o controle e o domínio sobre você mesmo.
Não se importando com a intuição recebida, Wagner não resistiu.
Foi à cozinha, pegou outra lata e abriu.
Foi até o armário, apanhou um pacotinho de amendoim, rasgou--o nos dentes e voltou para a sala comendo o petisco e bebericando novamente.
- Aeeehhh! Agora melhorou, cara!
Além do bebis tem comis - gargalhou e juntou-se, novamente, ao rapaz, sentando-se ao lado dele como se estivesse encarnado e fosse seu melhor amigo.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Capítulo 8 - Atracção irresistível

Uma luz fria rasgou a janela e se entremeou pelas cortinas da sala.
Wagner espremeu um dos olhos e mal conseguiu abrir o outro por causa da claridade.
Remexeu-se no sofá e experimentou o corpo dolorido.
Sua cabeça rodava.
Sentou-se.
Esfregou o rosto com as mãos e sentiu um gosto amargo na boca. A cabeça doía.
Olhou para as várias latas de cerveja amassadas sobre a mesinha central e também viu o saco de amendoim vazio.
Admirou-se por ter bebido tudo aquilo e entendeu a razão da dor de cabeça.
Olhou o relógio. 10 horas da manhã.
Na televisão, passava um filme e ele demorou para encontrar o controle remoto a fim de desligar o aparelho que havia ficado ligado a noite toda.
Levantou-se. Parecia que a sala girava, enquanto a dor de cabeça aumentava assustadoramente.
Ele não bebia com frequência.
Não estava acostumado àquilo.
Decidiu procurar um remédio e custou muito para achar.
Não havia nenhum sal de frutas em casa.
Só uma aspirina que tentou engolir a seco e precisou correr para a cozinha e beber um copo de água, pois o comprimido não passou na garganta.
Fez uma careta.
Sentiu um incómodo na garganta como se o comprimido ainda estivesse ali.
- Droga!... - murmurou reclamando.
Procurou por uma sacolinha, daquelas de mercado, a fim de usar como saco de lixo para recolher as latas, porém não achou.
Ele tinha certeza de que deveriam estar por ali, pois havia ido ao mercado.
Acreditou que a mulher que limpou o apartamento, no dia anterior, teria guardado.
Na lavandaria, encontrou uma sacola de mercado com todas as outras dentro.
Pegou uma.
Foi até a sala e recolheu as latas vazias sobre a mesa.
O tinir do metal foi um barulho que pareceu alto e o incomodou pela dor de cabeça.
Ainda achava-se tonto.
- Não devia ter bebido tanto.
Eu te avisei - disse seu mentor ao vê-lo atordoado e passando mal pelo excesso de bebida.
- É... Eu não devia ter bebido tanto - repetiu, a seu modo, a orientação do mentor, mesmo sem tê-lo ouvido.
- Bebeu desnecessariamente.
Pensou que iria relaxar, mas olhe só agora.
O relaxamento provocado pela bebida é ilusório e temporário.
Quando o efeito do álcool passa, o mal-estar e o arrependimento são certos.
Além de não ter solucionado o que precisa, os pensamentos ficaram mais confusos, o organismo debilitado e a alma encarcerada na angústia - disse ainda o mentor, enquanto o via recolher as latas e jogar no lixo.
Wagner arrependeu-se por ter bebido devido ao mal-estar e a dor de cabeça que experimentava.
Foi para seu quarto e decidiu tomar um banho demorado.
Ao sair do chuveiro, ouviu seu telefone tocar.
Enrolado em uma toalha, foi até a sala para pegá-lo.
Olhou o visor.
Não queria atender, mas não ficava bem ignorar Sabrina novamente.
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Ave sem Ninho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:55 am

Havia esquecido de telefonar para ela como sua mãe tinha pedido.
- Alô?
- Wagner!
- Eu.
- Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Sua mãe disse que você ia me ligar.
Fiquei esperando!
- Eu dormi assistindo à TV.
- Fiquei chateada.
De tarde, liguei quatro vezes e você não atendeu.
- Eu esqueci o celular aqui no ap.
Saí e...
- Onde foi?
- Fui levar a Hilda até a casa dela.
Ela me fez um grande favor ontem - contou.
- Nossa! Mas eu liguei a tarde inteira.
- Demorei para chegar. Fiquei enrolando.
A empregada estava aqui limpando e dei uma volta para ela terminar.
Não queria ficar aqui com ela.
- Ai! Estou tão contente!
Sua mãe me disse, hoje cedo, que você concordou em ficarmos aí alguns dias.
- Você vem também?!
- Lógico! Por quê?
Não quer que eu vá?
- Bem... É que...
Não é muita gente?
Só tenho dois colchões no outro quarto.
- Não tem problema - falou com mimo na voz.
Eu durmo no sofá. Aí... de madrugada, damos uma fugidinha - riu.
Wagner respirou fundo e comentou:
- Minha mãe vai estar aqui, né, Sabrina.
- O que foi? - ela o percebeu insatisfeito.
Parece que não gostou da ideia.
Está acontecendo alguma coisa?
- Ah... Não começa!
Não está acontecendo nada!
- Você está muito esquisito.
- Estou com uma dor de cabeça terrível.
- Toma um remédio! - a noiva sugeriu.
- Já tomei. Não passou.
Vou ter de ir até a farmácia para comprar alguma outra coisa.
- Você comeu ou bebeu algo que não deveria?
- Acho que sim.
- O quê?
Intolerante para falar com ela sobre aquele assunto, disse:
- Sabrina, eu acabei de tomar um banho quente.
Estou enrolado em uma toalha.
Está frio.
Preciso me trocar e sair para comprar um remédio.
Você se importa de conversarmos depois?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 06, 2017 8:55 am

- Nossa! Precisa falar assim? - magoou-se.
Vai lá.
- Desculpe, tá?
É que estou com a cabeça estourando.
- Tudo bem. Tchau.
Depois nos falamos.
- Até mais.
- Beijo! - ela mandou.
- Beijo - ele respondeu sem ânimo.
- Eu te amo...
- Eu também - murmurou quase automaticamente, mas contrariado, e desligou.
Trocou-se e saiu.
Era fim da tarde quando Adriana saia da casa de seus tios, em um bairro próximo de onde morava.
Ela fazia a entrega dos convites de casamento sozinha.
Estava chateada.
Havia saído pela manhã com Nicolas para que, juntos, levassem os convites.
Porém, antes da hora do almoço, ao passarem na casa do irmão de seu noivo, o rapaz começou a beber e ficou totalmente indisposto para acompanhá-la na entrega dos demais.
Adriana ficou zangada e acabaram discutindo.
Ela o deixou na casa do futuro cunhado e decidiu, sozinha, levar os que ainda restavam para aquele dia.
Parou em um ponto de ônibus, esperando um lotação, que demorava bastante.
Havia andado muito. Estava cansada.
Em pé, trocava o peso de uma perna para outra para aliviar os pés massacrados por um sapato que não deveria ter usado.
Pensou que fosse andar de carro, junto com o noivo, por isso os colocou.
Por ser domingo, passando da hora do almoço, a avenida se quase sem movimento.
No sentido oposto de onde se encontrava, um veículo parou, abaixou o vidro e o condutor sorriu e gritou:
- Adriana!
Olhou. Era Wagner.
Ele fez um sinal com a mão para que o esperasse.
Dirigiu e logo à frente manobrou o automóvel.
Voltou e parou onde ela estava.
Surpresa, cumprimentou-o quando se aproximou do carro a sua frente:
- Oi! O senhor por aqui?!
- É... Eu...
Para onde você vai? - ele quis saber quando quase se deitou no banco do carona para perguntar.
- Vou para minha casa.
- Entra aí!
Te dou uma carona.
A moça não pensou duas vezes.
Seus pés a matavam.
Abriu a porta do carro e se sentiu aliviada demais ao se sentar.
- Oi! Tudo bem? - o rapaz perguntou.
- Tudo. E o senhor?
- Nada bem.
Estava procurando uma farmácia aberta.
Olhei e te vi no ponto.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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