Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:33 am

- O que o senhor tem?
- Uma dor de cabeça horrível.
- Tenho dipirona aqui na minha bolsa.
Mas não tenho água - disse ela.
- Lembrei de uma farmácia que tem no shopping e acho que vou até lá - comentou enquanto dirigia.
Assim, compro água, tomo o remédio e como alguma coisa.
Não comi nada hoje.
- Nossa! Acho que é por isso que está com dor de cabeça.
- Não. Já acordei assim.
Tomei uma aspirina, mas não adiantou.
- Aquela rua é melhor para ir ao shopping.
Não vai entrar nela? - perguntou, por não vê-lo sinalizar a seta do veículo.
- Primeiro vou te levar para casa.
- Não. De jeito nenhum.
Primeiro vamos cuidar da sua dor.
Ele a olhou por alguns segundos e sorriu.
Por um instante, desejou que ficassem juntos por mais tempo e aquela era a oportunidade.
Rápido, Wagner desviou o veículo para o acesso que daria ao shopping e seguiu.
Demoraram a encontrar uma vaga, só estacionando o carro depois de algum tempo.
Desceram e foram directo à farmácia do estabelecimento.
Ele não quis pegar o remédio que ela ofereceu.
Disse que precisaria comprar mais para guardar em casa para qualquer emergência.
Após saírem da farmácia, foram até uma cafeteria, que ficava dentro de uma grande livraria e se acomodaram em uma mesa que vagou, milagrosamente.
Wagner a deixou ali sentada e encarou a fila para pedir duas bebidas achocolatadas bem quentes e uma garrafa de água, dois pedaços de bolo e pães de queijo.
Equilibrando o que podia, retornou à mesa, mas teve de fazer duas viagens.
- Nossa! Para que tudo isso? - ela sorriu e perguntou.
- Para nós - respondeu, abrindo a garrafa de água e tomando o remédio.
Pode pegar - e colocou a sua frente a caneca com a bebida.
- Acho que vou tomar só o chocolate que, mesmo assim, é enorme!
Já comi muito por hoje.
- É mesmo? - ele sorriu e se interessou.
Onde você foi?
- Hoje fomos entregar o restante dos convites de casamento.
Em cada casa de parente que fomos, ofereciam algo para comer, mesmo a gente recusando.
Quando me pegou no ponto, havia acabado de sair da casa dos meus tios.
- Você disse fomos.
Foi isso o que entendi?
- Ah... - ficou sem jeito.
Sim. Foi isso.
Eu e o Nicolas, meu noivo, fomos entregar os convites.
Passamos na casa do irmão dele, antes do almoço, e meu noivo começou a tomar cerveja.
Ficou com preguiça. Discutimos.
Fiquei com raiva e acabei entregando o restante sozinha.
- Por isso está assim tão... - não completou.
- O casamento está se aproximando.
Tem muita coisa acontecendo e estou me sentindo sobrecarregada.
- Seu apartamento já está pronto?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:33 am

- Sim. Quer dizer...
Faltam alguns detalhes.
Mas é que...
- Mas é quê?... - perguntou diante da demora.
- O Nicolas está muito folgado.
Está deixando muita coisa para eu resolver e estou irritada com isso.
Não pense que minha irritação é síndrome de noiva nervosa, não.
Não é isso.
- Não estou pensando nada.
Fique tranquila - Wagner sorriu e até se esqueceu da dor de cabeça.
- Sua noiva o pressiona? - perguntou bem directa.
- É... Bem... - titubeou.
Sorriu.
- As vezes, sim.
- O Nicolas diz que eu o pressiono.
Mas se não fico pedindo, ele não faz o que precisa.
- Entendo - ficou pensativo.
- Hoje mesmo, nós decidimos entregar todos os convites que restavam.
Nós não. Quer dizer, eu.
Se dependesse dele, muitos de nossos parentes não receberiam convite algum.
Adriana começou desabafar sobre seus desafios e contou:
- Fiquei irritada na casa do irmão dele.
Como se já não bastasse ter de tolerar meu pai bêbado, tive que ver aquela cena!
Ridícula! Ele bebeu e ficou naquele estado, sabe?
Falando mole, rindo à toa, me chamando de benzinho, contando piada e... - seus olhos ficaram marejados e se calou.
Passados alguns minutos, disse:
- Desculpe. Eu não deveria contar tudo isso para o senhor.
- Pode me chamar de Wagner.
Tire esse senhor.
Ao vê-la forçar um sorriso, ele sorriu também.
Diante do silêncio, o rapaz perguntou:
- Ele costuma fazer isso?
- Ele quem? - não sabia se falava de seu pai ou de seu noivo.
- Seu noivo.
Ele costuma beber e fazer isso?
- Não... - titubeou.
Era a casa do irmão dele, sabe?
É fim de semana.
Todo o mundo bebe um pouco e...
- Entendo - respirou fundo e se ajeitou na cadeira.
- Acho que estou com stress pré-casamento - sorriu.
- É muita coisa para você resolver sozinha.
Como se não bastasse, nos últimos dias, lá na empresa, a situação anda bem agitada.
- Um pouco.
Mas isso é assim mesmo.
Conversaram por longo tempo até Wagner olhar o relógio.
Ela fez o mesmo e se surpreendeu:
- Já é essa hora?! Pôxa vida!
- O papo estava tão bom que nem vimos o tempo passar.
Quer ir embora?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:34 am

- Preciso ir embora! - ressaltou.
Riu e se levantou.
- Amanhã preciso levantar bem cedo.
Não vou ter carona.
- Seu irmão não vai levá-la até o metrô?
- Não. Ele vai fazer um curso pela empresa e viaja para o Rio de Janeiro amanhã cedo.
Caminharam até o estacionamento e entraram no carro.
- E sua dor de cabeça? Passou?
- Passou sim. Ainda bem.
E... Obrigado pela companhia.
Foi bom conversarmos.
Eu estava me sentindo meio... - não completou.
- Deve ser chato morar sozinho, não é?
- Até que me adaptei bem, mas tem momentos que é bom ter companhia.
Estou um pouco estressado também.
Preciso de férias - sorriu.
Seus olhos se encontraram e sentiram algo estranho.
Uma emoção que não conseguiam descrever.
Adriana abaixou a cabeça, fugindo de seu olhar.
Wagner não temeu o que experimentava e a encarou.
Por fim, deu um suspiro e disse:
- Então vamos.
- Sim. Vamos.
Durante o caminho, encorajou-se e propôs:
- Posso passar em sua casa e te dar uma carona amanhã cedo?
- Não. De jeito nenhum - ela falou sem muita convicção.
Mas a ideia pareceu boa.
- Não será problema algum.
A que horas você sai de casa?
- Às seis.
- Então eu passarei lá.
É o horário que costumo sair.
- Não sei se isso está certo - a moça ficou insegura.
- Por que não estaria? - encarou-a.
Adriana não respondeu.
Quando chegou perto de onde morava, disse:
- Pode me deixar aqui.
Nem precisa entrar na minha rua.
Fica mais fácil para o senhor voltar.
- Você! - corrigiu-a e sorriu.
Pode me chamar de você quando não estivermos na empresa.
Lá, lógico, pelos modos conservadores da organização, será preciso.
- Certo - sorriu lindamente.
Seu rosto se iluminou. - Você.
Ele estacionou o carro onde ela pediu.
Entendeu que não gostaria de ser vista.
- Aqui está bom?
- Está óptimo!
- Quer que eu a pegue aqui amanhã?
- Sim. Será melhor.
A minha rua é bem estreita.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:34 am

- Está bem.
Estarei aqui às seis - sentiu-se satisfeito.
- Certo. Obrigada - sorriu de modo que seu rosto ficou encantador.
- Eu que agradeço sua companhia - inclinou-se.
Puxou-a, suavemente pelo braço, e deu-lhe um beijo no rosto.
Não conseguiu controlar sua vontade de fazer aquilo.
Necessitava tocá-la, sentir seu perfume suave e recostar, mesmo que por alguns segundos, em sua face com o próprio rosto.
Uma atracção irresistível.
Adriana correspondeu e percebeu que ficaram encostados por segundos a mais do que comumente seria com outra pessoa.
Afastaram-se lentamente.
- Até amanhã.
Obrigada por tudo - sussurrou.
- Até... - murmurou, mesmo sabendo que ela não ia ouvir.
A moça saiu do carro e ele ficou olhando-a descer a ruazinha e sumir ao virar à direita.
Wagner recostou a cabeça no encosto do banco e sorriu.
Ambos experimentaram uma sensação que não saberiam explicar.
Sentiam-se extasiados.
No momento seguinte, manobrou o carro e se foi.
Ao chegar a sua casa, Adriana foi recebida com expectativa.
- Onde é que você estava menina?! - perguntou a mãe, vendo--a entrar na cozinha.
Daniel, Nicolas e leda ficaram olhando e esperando que ela dissesse algo.
- Nossa gente!
O que é isso?! - Adriana riu e tentou disfarçar.
Não esperava por aquilo.
Não sabia o que dizer.
Precisava inventar uma desculpa rapidamente.
- Veja que horas são! - exclamou o noivo.
Onde você estava?! - perguntou em tom rude.
- Encontrei uma amiga.
Ficamos papeando e saímos.
Fomos ao shopping.
- E por que não atendeu o celular?
Morri de ligar! - disse o rapaz exaltado.
Ela revirou a bolsa, pegou o aparelho e olhou.
- Ah! Acabou a bateria!
Não precisa ficar assim!
- Estou aqui plantado há um tempão te esperando!
- Você deveria estar comigo! Mas não.
Acabei de entregar os convites sozinha!
Estou com meus pés arrebentados.
Você encheu a cara e ficou feito um bode velho lá na casa do seu irmão.
Contando piada e falando besteiras! - alterou-se também.
- Eu disse pra esperar que iríamos juntos!
Você nem me ouviu!
- De que jeito iríamos juntos?
Com você embriagado e dirigindo?! Lógico que não!
Sem serem percebidos, Daniel e leda se levantaram e saíram.
Heloísa, para tranquilizar os ânimos, interferiu em tom ponderado.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:34 am

- Calma, vocês dois.
Não vai adiantar ficarem assim.
- Quer saber?!
Tô indo! - decidiu Nicolas nervoso.
- Vai! Vai mesmo!
Fuja depressa!
Não assuma sua responsabilidade!
Vai! - Adriana exclamou, irritada.
O noivo virou as costas e saiu.
A mãe olhou para a filha e balançou a cabeça negativamente.
- Ah! Mãe!... - reclamou.
- Você não deve fazer isso! - zangou-se.
Estão perto de se casar e você o trata assim!
A filha não deu importância.
Deixou-a falando sozinha.
Passou pela sala e nem olhou para a amiga que já estava deitada no sofá.
No quarto, viu o irmão fechando uma mala e não disse nada.
Daniel esperou alguns minutos e perguntou:
- Não acha que estão brigando demais nos últimos meses?
- É que o Nicolas está ficando muito teimoso e folgado!
- Isso ele sempre foi.
Só agora você está percebendo?
Tome cuidado com o que faz.
Com o tempo, costumamos aperfeiçoar nossos vícios e hábitos.
- Não enche, Daniel!
- Não vou.
Só queria te dar um toque.
A irmã pegou o que precisava e foi para o banheiro tomar banho.
Na manhã seguinte, na hora marcada, a moça estava no lugar combinado quando Wagner chegou.
Ele fez uma rápida parada e ela entrou ligeiramente no carro.
Cumprimentaram-se novamente com beijo no rosto e seguiram.
O rapaz tirou da estação de rádio, que só oferecia notícias, e colocou uma música.
- Adoro essa música - ela comentou e sorriu.
- Eu também - admirou.
E ontem? Acharam ruim por ter chegado tão tarde?
- Minha mãe estranhou.
Costumo telefonar quando demoro.
Acabou a bateria do meu celular.
Tentaram me ligar e não conseguiram.
Por isso se preocuparam.
- Precisamos ter o número do celular um do outro.
De repente acontece alguma coisa e precisamos conversar por causa do horário.
- Sim. Claro.
Pensei nisso hoje cedo.
Percebendo-a mais quieta, perguntou:
- Está tudo bem?
Aconteceu alguma coisa?
- Estou chateada. Mas não é nada.
- Como não é nada?
Se está magoada, é algo importante.
Tem de resolver.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:34 am

- Acabei discutindo novamente com o Nicolas, ontem à noite.
Se não se importar, não gostaria de falar sobre isso.
Ele respeitou sua vontade e conversaram sobre outras coisas, até que o rapaz lembrou:
- Na hora de ir embora, no fim do expediente, se você me esperar, eu te dou carona de volta.
- Não quero incomodar.
- Não é incómodo.
Olhou-a mais demoradamente.
Depois disse:
- É que não costumo sair no horário.
Sempre demoro um pouco mais.
O inconveniente é esse.
Adriana suspirou fundo e nada disse.
Chegaram ao estacionamento perto de onde trabalhavam e Wagner pediu:
- Passe-me o número do seu celular.
Ela disse e o rapaz agendou em seu aparelho.
No mesmo instante, ligou para ela e disse:
- Está tocando.
Agora você já tem o meu número - ficou satisfeito.
- É. Assim fica melhor.
Obrigada pela carona.
Você me ajudou muito.
O moço sorriu simplesmente e foram para a empresa.
O dia correu sem muitas novidades.
No fim do expediente, Wagner telefonou para o celular de Adriana e pediu que ela aguardasse.
Teria ainda algumas coisas para fazer, mas não deveria demorar.
Disse que ligaria depois para se encontrarem no estacionamento onde deixou o carro.
Aproveitando a tranquilidade, devido ao horário, o director chamou Hilda em sua sala e quis saber:
- Como você está?
- Ainda angustiada.
Mas tenha certeza de que isso não vai afectar o meu trabalho.
- Caramba, Hilda! - exclamou em tom moderado.
Estou preocupado com você.
Não com o serviço.
Não houve resposta, por isso perguntou:
- Conversou com o Agenor?
- Tentei. Ele disse que não está acontecendo nada.
Que está stressado. Só isso.
- Você acha que é só isso?
- Como vou saber, não é mesmo?
- Se eu puder ajudá-la em alguma coisa, é só dizer.
- Se for preciso... - forçou um sorriso e se levantou lentamente.
Hoje ele vem me buscar. - Nova pausa.
O senhor precisa de mais alguma coisa?
- Não, Hilda. Obrigado.
Pode ir - sentiu seu coração apertado.
Não desejaria vê-la sofrer.
Wagner esperou sua assistente se retirar.
Olhou o relógio e, em seguida, ligou para Adriana, pedindo que fosse para o estacionamento.
Sem demora, ele também foi.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:35 am

Um travo de amargura preenchia os sentimentos de Hilda.
Sentada ao lado do marido, que dirigia, não dizia uma palavra.
O casal chegou à casa onde morava e, com comportamento automático, Agenor ligou a televisão e foi para o quarto do casal.
A esposa o seguiu.
Entre eles, silêncio total.
Quando percebeu que ele entrou no banheiro para se barbear, ela foi até a cozinha.
Preparou arroz, lavou salada e colocou almôndegas para assar no forno.
Assim que ela o viu já barbeado e de banho tomado indo para a sala, pediu:
- Dê uma olhada no fogão, enquanto tomo banho?
Ele balançou a cabeça, mas nem olhou para a esposa.
Hilda tomou banho. Voltou.
Colocou algumas roupas na máquina de lavar e foi para a cozinha.
Arrumou a mesa e chamou o marido para jantar.
Podiam ouvir o som da televisão ligada.
Nada mais.
Uma quietude amarga reinava entre o casal.
A angústia era tanta que a mulher não conseguiu comer direito.
Mal tocou na comida.
Levantando-se, pegou duas laranjas, lavou-as e colocou sobre a mesa, ao lado do prato do marido, como de costume.
- O Rodrigo está demorando - ela comentou mais para puxar assunto do que por ser verdade.
- Vai ver foi se encontrar com a namorada.
- Acho que sim.
O marido se levantou, deixou o prato na pia.
Virou-se e saiu da cozinha.
Hilda o acompanhou com o olhar.
Rapidamente, ela lavou as louças e deixou escorrer antes de ir para a suíte do casal.
Lá, pôde vê-lo acabar de escovar os dentes.
Não suportando a pressão dos próprios pensamentos, perguntou:
- O que foi Agenor?
- Nada - respondeu com a voz abafada pela toalha, que secava o rosto.
- Nós precisamos conversar.
- Está tudo bem, mulher.
Não tem nada pra conversar.
Foi para a sala.
A esposa o seguiu.
Vendo-o sentado no sofá, mudando o canal da televisão, ela sentou-se ao seu lado e pediu:
- Agenor, olha para mim.
Ao invadir seus olhos, indagou:
O que está acontecendo?
- Já disse: nada - respondeu sério e com um tom frio na voz.
- São problemas na firma?
- Sim. Lá sempre tem problemas.
Agenor era aposentado e ainda trabalhava como corrector de seguros de carro.
- Temos trinta anos de casados.
Te conheço muito bem, pelo menos, eu acho que conheço... - duvidou.
Nos últimos tempos, você está muito diferente.
Nós dois resolvemos nossos problemas juntos.
Sempre conversamos, fomos amigos...
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:35 am

- E daí? O que quer que eu diga?
- Fale o que o está deixando assim quieto ou reclamando de coisas insignificantes.
Acha que seu comportamento está normal ultimamente? - foi firme.
- Estou sem vontade de conversar. Só isso.
- Não acha que precisa ir a um médico ou psicólogo?
Pode estar com algum transtorno emocional.
- Não tenho nada.
Estou cansado!
- Do quê? - perguntou com jeito meigo.
O marido a olhou por um momento e suspirou fundo, de modo enfadonho.
- Está cansado de mim? - foi directa.
Cansado do nosso casamento?
- Estou cansado de muitas coisas, Hilda - ficou zangado com o assunto.
- Olha aqui, Agenor - falou mais firme -, se está acontecendo algo, se você está insatisfeito com algo, por favor, vamos conversar.
Se está também se iludindo com alguém ou com alguma aventura, cuidado, porque se eu descobrir...
- O que é isso?!
Deixe de falar asneira!!! - exclamou rude.
- Não é asneira, não senhor!
Não queira me fazer de idiota!
Depois de tudo o que passamos juntos, de todo o apoio que eu sempre dei a você...
Depois que entreguei, gastei, usei toda a minha juventude com você, com o nosso casamento, dando minha vida, minha colaboração e meu trabalho a você e nossos filhos...
- Do que você está falando? - interrompeu.
- Para homens idiotas e egoístas é fácil dizer:
eu me cansei do casamento, depois de se casarem, terem todo o apoio e incentivo de uma mulher que o ajudou em tudo e, depois, quando está bem ou chega à meia idade, arranja uma vagabunda - falou com raiva.
É muito fácil dizer:
cansei do meu casamento! - falou com ironia.
A imaturidade, o egoísmo, a mediocridade não deixam esses idiotas observarem que, depois de tantos anos juntos, depois que a esposa deu a própria vida em benefício dele e do casamento, ele a torna descartável!
- Pare com isso!!! - exigiu com um grito.
O que quer fazer?!
- Eu é que te pergunto!
O que você quer fazer?!
O marido não respondeu e ficou olhando para a televisão.
- Estou falando com você, Agenor!
Ele desligou a TV.
Levantou-se e foi para o quarto.
Hilda ia atrás, mas escutou o barulho do portão electrónico da garagem que anunciou a chegada do filho caçula.
Muito nervosa, sentia-se tremer.
Um mal-estar tomou conta de seu corpo, enquanto seus pensamentos ficaram confusos.
Foi até a cozinha e bebeu um copo de água para se acalmar.
- Oi, mãe!
- Oi, Rodrigo.
Tudo bem? - foi ao seu encontro e o beijou.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:35 am

- Tudo.
- Você vai jantar?
- Não. Fui encontrar a Rafa na faculdade - referiu-se à namorada.
Tomamos um lanche...
Hilda começou a secar a louça que havia na pia e quase não prestou atenção na conversa do filho que contou algumas coisas corriqueiras e, depois, decidiu:
- Vou tomar um banho.
O rapaz não notou a tristeza e inquietude de sua mãe.
Após arrumar a cozinha, ela foi para a lavandaria estender as roupas, que já estavam lavadas pela máquina.
Lavou outras peças à mão e estendeu.
Só então foi descansar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:35 am

Capítulo 9 - Decepção com Nicolas

Daniel viajou a serviço para o Rio de Janeiro.
Aproveitando-se de sua ausência, leda foi dormir no quarto da amiga.
Mesmo sendo tarde da noite, ambas conversavam e Adriana contou sobre Wagner e finalizou:
- Então foi isso.
Ele me deu carona hoje cedo e pra voltar também.
- E isso é legal? - perguntou leda em tom preocupante, franzindo o rosto delicado.
- Como assim? Que pergunta é essa?
- Você acha que está certo?
E se o Nicolas vir vocês dois?
- Não tem como.
Ele não virá aqui à noite, tão menos de manhã tão cedo.
Breve pausa e concluiu:
- Não pensei muito quando o Wagner ofereceu carona.
Eu estava com raiva por causa das coisas que o Nicolas aprontou.
Meus pés estavam me matando.
Também fiquei sem graça de dizer que não aceitaria a carona.
Além do que, o lotação e o metrô lotados de manhã, ninguém merece!
Amanhã ele vai passar mais cedo para me pegar.
Precisa chegar um pouquinho antes.
Poderia vir junto e ficar no metrô.
- De jeito nenhum.
Primeiro, não teria cabimento.
Nem conheço o cara.
Segundo, ele teria de desviar do caminho de vocês.
Isso não seria justo. Fique tranquila.
Amanhã eu pego o lotação e vou directo para o metrô.
Quando observou a amiga programando o celular para despertar, Adriana quis saber:
- Conversou com sua irmã?
- Hoje, quando cheguei, fui lá pegar umas coisas e aproveitei para falar com ela. - leda deu um suspiro enfadado.
Depois, comentou em tom triste:
- É sempre a mesma coisa.
As mesmas promessas, os mesmos pedidos de desculpa...
Já perdi a esperança.
- Desde quando seus pais morreram, a Nuna - referiu-se à irmã de leda, que se chamava Núbia -, começou a andar com más companhias e vive de forma bem diferente.
Eu lembro de quando éramos crianças e brincávamos juntas.
Ela não era assim.
- É verdade - murmurou a amiga com uma nota de angústia na voz.
Às vezes, eu paro e lembro.
Nem acredito em tudo o que aconteceu.
Sinto tanta saudade daquele tempo - sua voz embargou e seus olhos marejaram.
Sentia o coração opresso e inseguro.
Ao perceber a sombra da tristeza que a envolvia, Adriana disse:
- A Núbia só é imatura. Vai passar.
- Ela é dois anos mais velha do que eu!
Tenho vinte e quatro! Esqueceu?!
- Temos vinte e quatro!
Nascemos no mesmo dia - sorriu e a outra correspondeu.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:35 am

- Lembra-se, na escola, quando nós dizíamos que éramos gémeas de mães diferentes?
Nossos colegas não entendiam nada!
Como gémeas de mães diferentes?
Eles perguntavam - riu gostoso.
Aí teve aquela menina que pensou que fôssemos gémeas de verdade e entendeu que nossa mãe tinha doado uma de nós - gargalhou.
- Lembro! Criança é boba, né?
Como era o nome dela mesmo? - Adriana riu ao perguntar.
- Não lembro.
Um momento e leda arriscou:
- Fabiana?
- Acho que era Fabíola.
A conversa ficou mais descontraída no instante em que passaram a recordar coisas da infância.
Amanhecia num ritmo lento.
Quando Adriana chegou ao lugar combinado, Wagner já estava esperando.
- Oi! Bom dia!
Cheguei atrasada? - perguntou, ao entrar no carro.
- Oi! - Num impulso o rapaz se inclinou para beijá-la no rosto.
Ela nem reparou, correspondendo automaticamente.
Distraída, tinha os pensamentos ocupados com outras preocupações.
- Bom dia! Não. Não se atrasou.
Fui eu quem chegou cedo demais.
- Ah! Bom!
- Perdoe-me por tê-la feito madrugar.
Mas tenho uma reunião importante.
Quero preparar alguns documentos antes e também não posso me atrasar.
Vai que acontece algum imprevisto no caminho e...
- Sem problemas.
- Já tomou café? - ele indagou enquanto dirigia.
- Sim já. E você?
- Tomei um suco de caixinha - riu.
Lembrou-se do dia em que o suco estava estragado e precisou tomar café na rua, entornando uma bandeja sobre ela.
Continuaram conversando animadamente até chegarem ao serviço.
No decorrer do dia, Adriana ligou para Nicolas.
- Você virá aqui ao centro da cidade na hora do almoço?
É isso? A mensagem que mandou não chegou completa.
Eu respondo e não vai.
- Sim, vou até aí.
Podemos almoçar juntos.
O que você acha? - o noivo convidou.
- Óptimo! Saio ao meio-dia.
- Essa hora estarei livre.
Te espero na portaria onde trabalha.
Conversaram um pouco mais e logo desligaram.
Ela olhou as horas.
O telefone de sua mesa tocou:
- Alô! - atendeu.
- Dona Adriana, aqui é a assistente do doutor Wagner.
A senhora poderia vir aqui à directoria, por favor?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:36 am

- Sim. Já estou subindo - achou a ligação estranha e aceitou de súbito.
- Obrigada - agradeceu a secretária.
Já, na sala da directoria do Departamento Comercial, a analista ficou apreensiva quando indicaram que se sentasse à mesa de reunião, junto a directores e alguns gerentes que estavam lá.
Adriana experimentou um frio invadindo sua alma ao notar que todos não tiravam os olhos dela.
Wagner, sorridente, justificou sua presença informando que a funcionária trabalhou na empresa concorrente.
Tinha conhecimento e inúmeras informações que seriam úteis e importantes para eles.
Adriana foi colocada a par da reunião.
Ouviu e opinou com sensatez.
Gostaram de suas ideias e informações precisas.
Já passavam das 13h quando a reunião terminou.
Todos haviam saído da sala quando Wagner pediu, discretamente, para que ela esperasse.
Ao se ver só com a funcionária, elogiou e agradeceu:
- Você foi óptima! Parabéns!
Agradeço seus apontamentos e ideias.
- Não foi nada - respondeu demonstrando um comportamento inquieto, mas ele não percebeu.
- Como concluímos, não basta o lançamento de novos produtos.
Temos de investir no marketing! - disse o director.
Seus olhos brilharam ao encará-la por alguns segundos.
Com jeito satisfeito, sem segurar o sorriso, convidou:
- Faço questão que almoce comigo.
Podemos ir àquele mesmo restaurante que fomos naquele primeiro dia.
Lá é mais tranquilo.
A preocupação de Adriana reflectiu em suas palavras:
- Eu havia combinado almoçar com o Nicolas.
Acho até que ele desistiu de me esperar.
Em tom moderado, ele lamentou:
- Pôxa... Sinto muito - ficou sem jeito.
Então vá lá.
Veja se ele ainda está te esperando.
Se não estiver... - sorriu de modo enigmático.
- Se não precisar mais de mim...
- Não. Obrigado por tudo - agradeceu sorridente.
Adriana sorriu e se retirou.
A caminho de sua sala, ligou o celular e leu as várias mensagens de seu noivo.
Pegou sua bolsa e foi para a portaria.
Ao vê-la, o noivo protestou:
- Caramba! Por que não responde?!
Algumas pessoas que estavam perto observaram a cena.
A moça sentiu-se envergonhada.
Recatada, comentou depois de lhe dar um rápido beijo nos lábios:
- Aconteceu de tudo.
Você nem imagina.
- Eu mandei mensagem! Te liguei!
Fiquei feito um idiota plantado aqui embaixo te esperando! - queixava-se à medida que caminhavam.
Nicolas ficou reclamando até entrarem em um pequeno restaurante.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:36 am

- Será que esse lugar é muito caro? - ele quis saber, enquanto procurava pelo cardápio que deveria estar colocado ali, logo na porta do estabelecimento.
- Não deve ser - a noiva respondeu.
Em seguida, zangou-se:
- Ai! Caramba, Nicolas!
A gente nunca sai sozinho para almoçar.
Quando temos oportunidade, você reclama, fica resmungando ou regulando por causa de preço! - exclamou, falando baixinho.
- Eu não estou resmungando.
Só não acho justo pagarmos um valor absurdo por pouca coisa - respondeu, olhando o cardápio colocado à porta do restaurante.
Ainda não esqueci aquele preço abusivo que pagamos por uma porção de batatas fritas.
Daria para comprar cinquenta quilos de batatas - exagerou.
Além do que, você demorou demais e agora não tenho muito tempo.
Então, não quero pagar um absurdo para ter que comer depressa e sair correndo.
- Ai, Nicolas! Por favor!
Pode deixar que eu mesma pago meu almoço - achou desaforo pagar o dele depois de tanta reclamação.
- Você tem que aprender a guardar dinheiro desde já.
Não é pagando o seu almoço que vai economizar para nós dois!
Ela parou frente ao noivo e disse firme:
- Se você quiser ir embora, tudo bem.
Vou almoçar sozinha!
- Sabe que acho uma boa ideia?!
Sem esperar que ela respondesse, decidiu:
- É isso mesmo o que vou fazer.
Já perdi a fome.
Estou mais para comer um lanche do que esses pratos caros daqui.
- Você não vai fazer isso, né? - indagou séria, quase irritada.
- Fazer o quê?
- Você não me fez vir correndo para me largar aqui e ir comer um lanche?
Nicolas envergou a boca, olhou o relógio e suspirou insatisfeito, enquanto Adriana cravou nele um olhar feroz, que continha toda sua contrariedade.
- Acho que tá tarde - ele balbuciou.
- Tudo bem. Não vamos discutir aqui.
Pode deixar. Vá embora que vou almoçar em outro lugar.
- Não vai ficar zangada se eu me for?
- Não. Já estou.
E você não vai conseguir mudar isso, mesmo que almoce comigo e pague a refeição.
O rapaz deu dois passos atrás e saiu do estabelecimento.
Ela o acompanhou.
- Tô em cima da hora - ele disse, ao olhar o relógio.
- E está me fazendo perder tempo, sabia?
Sem esperar por uma resposta, a jovem resolveu:
- Tudo bem. Vai indo.
À noite, conversamos.
- Então tá. Tchau - beijou-lhe os lábios rapidamente e se foi.
- Tchau - ela murmurou e se despediu.
Adriana sentiu um aperto no peito e a boca ressequida à medida que o via indo embora e ficava ali, parada, em pé na calçada.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:36 am

Estava muito insatisfeita.
Lançou olhar para os edifícios espelhados que rasgavam o céu e reflectia os raios que roubavam o sol.
Era um dia ensolarado, apesar de bem frio, no interior dos edifícios e casas.
A moça suspirou fundo.
Não havia muito o que fazer.
Lembrou-se de Wagner.
Ele a convidou para ir ao restaurante onde almoçaram juntos pela primeira vez.
Ao se recordar disso, sorriu.
No momento seguinte, nublou o rosto com uma onda de contrariedade e se arrependeu por não ter aceitado seu convite naquele dia.
Deveria ter mandado mensagem para o noivo cancelando o almoço.
Assim não passaria por aquela contrariedade e decepção.
A raiva de Nicolas tomou conta de seus sentimentos e uma gota de vingança a dominou.
Sem demora, foi para o restaurante onde acreditava que seu chefe estaria.
Chegando lá, foi fácil encontrá-lo.
Ficou feliz, vendo o largo sorriso estampado no rosto atraente do rapaz.
O profissionalismo perdia espaço para a amizade que surgia.
Ela se aproximou da mesa e ele se levantou cortês e rápido, pedindo:
- Sente-se aqui!
Fique à vontade!
- Posso mesmo? - perguntou com jeitinho meigo.
- Claro.
Adriana trajava-se, como sempre, de modo muito elegante.
Usava uma saia preta de lã, rodada e comprida o suficiente para cobrir de leve o belo par de botas.
Um cinto largo marcava sua silhueta, apesar de ser coberto parcialmente por um blêizer de cor cinza.
Uma blusa clara de gola muito bonita, ficava ainda melhor pelo lenço comprido, simplesmente jogado sobre o pescoço e mais comprido do que o blêizer.
Seus cabelos compridos estavam presos como um coque bem fofo com pontas soltas que a deixavam com semblante leve e atraente.
As luzes feitas nos fios destacavam o brilho de um castanho natural.
Wagner não entendia o que era, só sabia dizer que todo aquele conjunto a tornava ainda mais bonita.
Ele estava começando a almoçar, pois seu prato havia acabado de chegar.
Por isso, perguntou:
- Você não almoçou?
- Acabou não dando certo.
Olhou para o lado, pegou o cardápio das mãos do garçom que havia se aproximado.
- Atrapalhei o seu encontro.
Perdoe-me - ele disse, mas não conseguia tirar o leve sorriso do rosto e a satisfação de seu olhar.
- Não. Que nada - respirou fundo e passou o olho pelas opções.
Apontando, mostrou ao garçom:
- Acho que vou querer esse filé, uma salada de legumes e um suco de laranja. Só isso.
Wagner percebeu uma nota de tristeza no semblante sério que se fez no belo rosto da moça, enquanto olhava o cardápio.
Após o garçom anotar o pedido e se virar, ele indagou:
- Está tudo bem?
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 07, 2017 10:36 am

Ela o encarou, ofereceu um sorriso e logo ficou séria novamente.
Em baixo volume de voz, comentou em tom melancólico:
- Tem dia que... Sei lá...
- O quê? - o rapaz quis saber, secando os lábios com um guardanapo.
- O Nicolas... Às vezes, ele parece imaturo demais.
Não se decide. Fica inseguro com bobagem.
Isso me incomoda. Nos últimos tempos, nós temos discutido muito.
Algumas coisas eu não me importo. São irrelevantes.
Mas têm outras que me deixam contrariada.
- Às vezes, eu e a Sabrina enfrentamos o mesmo problema.
Ela é imatura e inconsequente.
Preciso ficar sempre de olho.
- Sua noiva merece um desconto por ser mais nova.
Não conhece a movimentação da vida.
Não é experiente. Mas o Nicolas!
Por favor! - ressaltou com modo recatado.
Quanto mais se aproxima a data do casamento, mais...
- Mais o quê? - interessado e algo surpreso.
- Era para eu pegar férias antes do casamento.
Como fui demitida e, logo em seguida, surgiu a oportunidade de eu trabalhar na empresa, não pude me dar a esse luxo.
Então, muitas coisas no apartamento, na preparação do casamento, festa, convite estão ficando para eu resolver sozinha.
Daí que, na última hora, ele quer mudar isso ou aquilo.
Quer convidar amigos dele que não estão nem aí pra ele.
Já limitamos, ao máximo, o número de convidados.
Por mim, nem teríamos festa.
Mas, sabe como é... - ela parou o que dizia, pois o garçom foi servi-la.
Assim que o homem se afastou, disse:
- Tem coisinhas que acabam me magoando.
Outras, nem quero comentar.
Seus olhos brilharam e ficou quieta, bebericando o suco.
- Sei bem o que é isso.
Só que seu caso é complicado por estar com o casamento tão próximo.
Olhando-a firme, encorajou-se e foi bem directo:
- Está arrependida?
Adriana o encarou.
Suas almas se tocaram naquela troca de olhares.
Longos minutos e a moça disse num murmúrio:
- Não sei responder - só então abaixou o olhar.
Por sobre a mesa, num impulso, Wagner sobrepôs sua mão à dela, fazendo com que olhasse, novamente, para ele e indagou calmo:
- É tão sério assim?
Ela puxou a mão, abaixou a cabeça e respondeu:
- Não sei...
O silêncio foi absoluto por algum tempo.
E eles voltaram à refeição.
Depois de um tempo, a moça comentou:
- Não deveríamos falar sobre isso.
- Eu penso o contrário.
Acho que esse é o momento.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:47 am

- Porquê? - perguntou num sussurro.
Wagner se inclinou sobre a mesa e invadiu sua alma com o olhar, ao tomar coragem e dizer:
- Porque você não está feliz.
A agitação para os preparativos do casamento não a deixa criar coragem para observar tudo a sua volta e ver quem é, verdadeiramente, a pessoa com quem estará se casando.
Breve pausa para que ela reflectisse.
- Em outras palavras, está se distraindo com o que está fazendo e não tem força ou ousadia para colocar um basta na situação ou nas coisas que seu noivo faz e que a desagradam, por isso, fica contrariada sempre.
Acha que o relacionamento de vocês irá melhorar, mas não é isso o que está acontecendo.
Tem medo de que continue assim e piore com o tempo.
Está com medo também de encarar a realidade e ver exactamente quem ele é.
Qualquer coisinha que ele faz de bom, te dá esperança de que as coisas vão melhorar, mas não é isso o que acontece em seguida.
Não se sente mais ligada a essa pessoa e essa é a verdade da qual está fugindo.
Além disso, a verdade é que...
Deteve as palavras e num impulso, concluiu:
- Sente-se atraída por outro homem e é correspondida.
Assuma seus medos e descobrirá a verdade.
Silêncio.
Naquela troca de olhares sentiram seus corações baterem forte, talvez, no mesmo ritmo compassado.
Novamente, Wagner buscou pegar sua mão e ela deixou.
O calor daquele toque acalmou suas emoções e sentiu-se protegida.
Fugindo-lhe o olhar, Adriana balbuciou:
- O que está acontecendo?
- Você sabe e eu também sei exactamente o que está acontecendo - o rapaz sussurrou com voz grave.
- Wagner, por favor...
Eu vou me casar! - exclamou, falando baixinho e com expressão assustada.
- Eu também.
Estou noivo e de casamento marcado para o ano que vem.
Porém, não sei mais se é com a pessoa certa e você também tem a mesma dúvida.
Com voz trémula, Adriana o encarou e disse:
- Precisamos conversar.
- Sim. Precisamos muito - concordou sério e com convicção na voz firme.
A moça sentiu o coração, opresso e inseguro, batendo descompassado.
Mal conversaram depois disso.
Terminaram o almoço e voltaram para o serviço.
Na empresa, quase não conseguiam se concentrar no que faziam.
A tarde demorou muito a passar.
Era quase fim de expediente e Hilda, na sala do director, recolhia documentos para serem despachados.
Wagner entrou em sua sala.
Estava sério e ela também.
Demorou o director perceber o silêncio da secretária.
- Tudo bem com você, Hilda?
- Quase tudo. E o senhor?
Não estava com uma cara boa agora à tarde.
- Estou preocupado.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:47 am

- Sobre a empresa? - a mulher perguntou, mas sabia que não era.
- Não.
Ele se acomodou em sua cadeira, olhou alguma coisa no computador ao lado e perguntou:
- E você? Como estão as coisas?
- Hoje, quer dizer, agora à noite vou fazer uma coisa.
- O quê?
- Eu falei com uma amiga sobre os problemas que estou tendo com o Agenor.
Somos amigas há muitos anos.
Desde a faculdade.
Ela vai me ajudar a segui-lo.
- Como assim?! - o chefe se surpreendeu.
- Hoje é um daqueles dias que meu marido arranja uma desculpa para não vir me pegar.
Eu até telefonei para outra amiga, a Almira.
Aquela que arrumei para trabalhar aqui há alguns anos.
Depois ela passou em um concurso público e saiu da empresa. Lembra?
- Mais ou menos...
- Eu liguei para a Almira, mas ela não me atendeu.
O telefone só deu caixa postal e não poderia deixar um recado desses, né?
Somos muito amigas.
Mas, como eu não poderia esperar muito, liguei para a Lídia, essa colega de faculdade.
Embora faça algum tempo que não nos falamos.
Ela deu uma sumida...
Conversamos e ela vai comigo seguir o meu marido.
- Acha que precisa fazer isso mesmo, Hilda?
- Sim. Eu acho.
Não vou continuar com essa dúvida, com essa angústia, com essa dor.
Não imagina como é...
Dei minha vida a esse homem e ao meu casamento.
Foram anos! Sempre trabalhei, cuidei dos nossos filhos.
Administrei meu lar, minha casa...
Lavei, passei, cozinhei, limpei...
Não mereço ser tratada com desprezo.
Exijo saber o que está acontecendo.
Se ele estiver depressivo, vamos procurar um tratamento.
Se não... Vamos procurar uma solução.
De uma coisa tenho certeza:
não vou aturar mais esse comportamento, ignorando a origem.
- Se eu puder ajudar... - Wagner ofereceu.
- Não posso colocar o senhor nessa situação.
Apesar de considerá-lo como um filho.
Não é justo nem correto te pedir qualquer coisa nesse sentido.
Não estou pedindo ajuda nem para meus filhos.
- Se precisar de algum dia de folga ou de qualquer outra coisa, é só falar.
- Obrigada. Se eu precisar, peço.
O senhor precisa de mim para mais alguma coisa?
Um travo na garganta deteve suas palavras por um momento.
Pensou em comentar sobre ele e Adriana.
Mas acreditou que a mulher já tinha problemas demais.
- Não. Pode ir.
Se precisar, pode me telefonar.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:48 am

- Obrigada. Até amanhã.
- Até amanhã, Hilda!
Wagner aguardou que ela saísse para pegar o celular e ligar para Adriana.
Estava com medo de que já tivesse ido embora.
Esperou um momento com o aparelho nas mãos frias e olhou o relógio verificando as horas.
Pensou na reacção da moça quando falou tudo aquilo.
Podia se lembrar de seus olhos castanhos e vivos, nublados pela dúvida de sentimentos que ignorava e temia experimentar.
Ela também havia se apaixonado por ele.
Tinha certeza disso.
O que fazer com aquele sentimento?
Lembrou-se da conversa que teve com Hilda sobre aquele assunto.
O principal conselho da mulher foi para que ele fosse responsável.
Se estivesse disposto a levar um relacionamento sério com Adriana, que fosse em frente.
Afinal, tanto ele quanto ela estavam noivos e iriam se casar.
Olhou para o celular e, mesmo sentindo um nó na garganta, um aperto no peito e a adrenalina em sua circulação, ligou.
- Alô! - ela atendeu.
- Sou eu.
Nós nos encontramos no estacionamento.
Já estou descendo.
- Tudo bem.
- Beijo...
Não houve resposta.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:48 am

Capítulo 10 - Resolução importante

Efeitos climáticos interferiram na temperatura e, mesmo estando frio, caiu uma chuva forte sobre a cidade, provocando um verdadeiro caos no trânsito.
Adriana e Wagner, presos no congestionamento, não sabiam o que fazer.
- Precisamos conversar e não podemos adiar isso - disse ele bem sério, olhando demoradamente para ela, enquanto esperava o semáforo abrir.
- Sim. Eu sei.
Só que estou com medo.
- O que acha de irmos para um barzinho ou restaurante aqui perto?
- E se formos vistos?
Isso não vai ficar bem.
O pessoal do serviço sempre se reúne em lugares assim e espera o trânsito melhorar.
Breve pausa e comentou:
- Não está certo o que estamos fazendo.
- E o que estamos fazendo de errado, Adriana? - olhou-a longamente.
Como não houve resposta, o rapaz sugeriu:
- Podemos ir para o meu apartamento.
Lá ficaremos sem qualquer preocupação de que alguém nos veja.
- Eu não sei se isso está certo - titubeou novamente.
- Por que não estaria?
Não vamos fazer nada demais. Só conversar.
Adriana não opinou e deixou-se levar.
Após seguirem a procissão de um grande e cruel congestionamento por causa da chuva, chegaram ao apartamento de Wagner.
Ele abriu a porta, acendeu as luzes e pediu:
- Entre e se sinta à vontade - sorriu generoso.
Adriana sentiu-se constrangida.
Em pensamento não acreditava que teve coragem de ir até a casa de um homem que morava sozinho.
Se sua mãe ou seu noivo ficassem sabendo disso, sem dúvida alguma iria dar muito o que falar.
- Obrigada - agradeceu e foi para junto de um sofá onde se acomodou.
- Quer um copo com água ou um refrigerante?
- Aceito um copo com água. Por favor.
Wagner foi até a cozinha e retornou com um copo com água e entregou em suas mãos.
- Obrigada.
Sem demora, elogiou:
- Belo apartamento!
- Obrigado. Bondade sua.
Tudo é muito simples porque não entendo nada de decoração.
Compro tudo da mesma cor ou quase - achou graça.
O sofá é marrom, com cortinas marrom, tapete marrom...
- Essas cortinas são bege - ela disse após tomar o último gole de água e riu.
- Não é marrom claro? - falou, achando graça.
- Não. São bege.
- Ainda bem que sou director comercial.
Se dependesse de decoração pra sobreviver... - riu.
Um instante e pediu:
- Dê-me licença um minutinho.
Só vou deixar esse paletó lá dentro.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:48 am

- Claro. Fique à vontade.
Antes de ir para o quarto, Wagner ligou o aparelho de som em uma estação onde tocava músicas tranquilas.
Adriana se levantou, colocou sua bolsa no assento de uma cadeira da sala de jantar e tirou o blêizer que vestia e o lenço que enlaçava seu pescoço e os pendurou no encosto da mesma cadeira.
Ali dentro, estava quente para ficar com aqueles trajes.
Voltou para o sofá.
Olhou, novamente, todo o ambiente e reparou que a mesinha central de madeira tinha o verniz marcado por manchas de copos e jarras.
Suspirou fundo.
Estava insegura por estar ali.
Wagner retornou. Havia trocado de roupa.
Vestia um moletom e camiseta de mangas compridas que arregaçou até os cotovelos.
Sorriu ao passar por ela e foi para a cozinha sem dizer nada.
Voltou com copos e latas de refrigerantes e um pacote de salgadinhos, colocando tudo sobre a mesinha manchada.
Sentou-se ao lado de Adriana e curvou-se para abrir as latas de refrigerante.
Serviu-os nos copos, entregando um na mão da moça.
- Obrigada.
- Gosta de salgadinho de batata? - perguntou, rasgando o saco.
- Sim. Obrigada.
Daqui a pouco eu pego - disse, quando ele ofereceu.
Conversaram sobre o que estava tocando.
- Nossa! Elton John!
Embora seja antiga, amo essa música - ela admitiu.
- Eu também.
Falaram sobre música algum tempo até que...
- Adriana, estou procurando entender o que está acontecendo entre nós.
- Estou com muito medo, Wagner - disse murmurando.
Havia um tom aflito em sua voz e uma preocupação em seu rosto delicado.
- Desde quando a conheci, tento entender meus sentimentos.
Uma pessoa conhecida, em quem confio muito, disse que eu precisava me conhecer para entender o que quero, mesmo que para isso precisasse ser honesto com a Sabrina e dar um tempo em nosso noivado.
Pelo facto de seu casamento ser para daqui a pouco...
Não tenho tanto tempo assim.
Por outro lado, pelo que conversamos, não a vejo tão certa ou tão segura do que quer.
Você está em dúvida quanto ao seu casamento.
Sentou-se mais próximo dela e a olhou nos olhos, aguardando-a dizer algo.
Fugindo-lhe ao olhar, colocou o copo sobre a mesinha e disse:
- Não sei o que está acontecendo comigo.
Comecei a observar muito o Nicolas, analisar seus valores e nosso envolvimento.
Sinto--me insegura sim, mas...
- Preciso ser sincero. Quero conhecer você.
Como é que posso pedir que termine com seu casamento para ficar comigo e me dar uma chance?
Não houve resposta.
Ela só o encarou novamente.
Então ele argumentou:
- Não nos conhecemos e precisamos fazer isso.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:48 am

Como é que posso terminar um noivado de tantos anos e?... - não completou.
Porém, quando a vejo, quando conversamos, só quero ficar com você.
- Eu também - balbuciou e abaixou o olhar.
Às vezes, fico pensando e me pergunto: como é que posso estar com alguém, no caso o Nicolas, gostando de outra pessoa?
- Você gosta de mim? - o rapaz sorriu, ao perguntar baixinho.
- Gosto - correspondeu e admitiu.
Wagner ousou tocar seu rosto angelical com as costas de sua mão.
O barulho da chuva na vidraça e a música suave deixavam o ambiente calmo e os corações brandos.
Adriana fechou os olhos, apreciando o carinho.
Ele tacteou seus lábios e pousou a mão na face quase fria da moça.
Como desejou aquele momento.
Desde que a conheceu, sonhou em poder estar tão perto e sentir sua pele macia com o toque de seus dedos.
Com um movimento suave, ainda de olhos fechados, Adriana encolheu suavemente o pescoço e prendeu a mão do rapaz entre o rosto e ombro.
Um sentimento poderoso tomou conta de Wagner que lhe acariciou a nuca e se aproximou, beijando-a nos lábios com carinho.
No primeiro instante, Adriana se surpreendeu, mas logo se entregou ao beijo e ao abraço envolvente.
Após algum tempo em que ele beijou-lhe a boca, o rosto e vendo-a balbuciar em meio a suspiros rápidos:
- Não... Não... Não... Por favor...
Ele parou e a puxou para um abraço apertado.
Agasalhando-a em seu peito, embalou-a com carinho.
Com a voz abafada, a moça murmurou:
- O que estamos fazendo?
- Admitindo que não conseguimos ficar longe um do outro.
- Isso não é certo, Wagner.
Eu sou noiva! - afastou-se um pouco e procurou seus olhos.
O rapaz a puxou para si, aninhando-a em seus braços, como quem segura uma criança com ternura, e começou afagar seus cabelos, enquanto a contemplava e sorria.
- Vamos pensar em alguma coisa...
Só que depois.
Agora, quero sentir você aqui, como se esse momento fosse eterno.
Gosto muito de você...
- Eu também... - ela tornou a murmurar.
Wagner a olhou com carinho e deu-lhe longo beijo de amor.
Para que não houvesse preocupações, Adriana havia telefonado para sua mãe, dizendo que estava na empresa resolvendo um problema e chegaria bem mais tarde.
Heloísa não se importou, pois a filha disse que a empresa pagaria um táxi para ela retornar.
Passava das duas horas da manhã, quando chegou a sua casa e ninguém soube disso.
A semana foi passando...
Em uma manhã, conforme horário combinado, Wagner estava sorridente, esperando-a no carro.
- Bom dia! - exclamou ao vê-la entrar.
- Bom dia! - cumprimentou alegre.
Eles se inclinaram e se beijaram nos lábios com amor.
O rapaz fez-lhe um carinho suave e demorado no rosto, encantando-se com seu semblante luminoso.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:49 am

Depois perguntou:
- Dormiu bem?
- Não dormi.
- Nem eu - Achou graça.
Ligou o carro e foi dirigindo.
- Pensou no que conversamos?
- Muito. Pensei muito.
- Eu estou decidido.
Hoje minha mãe, minha irmã e a Sabrina chegam como te falei.
Vou ser sincero com a Sabrina e terminar tudo.
- Não acha melhor vocês voltarem para o litoral e dizer isso para ela lá?
- E como vou tratá-la aqui?
Você quer que eu a beije na boca e a abrace...
Adriana não gostou e expressou com um aceno negativo de cabeça.
Ele ainda disse:
- O que te falei é sério.
Você está decidida ou não?
- Claro! Estou!
Embora nunca tenha sentido tanto medo em minha vida.
Vou conversar com o Nicolas no sábado.
- Sábado ainda?! - o rapaz protestou.
- Não vamos nos ver até lá.
Faz mais de uma semana que não o vejo.
Não posso simplesmente telefonar e dizer que terminei tudo com ele.
Tenho muito a fazer.
O casamento marcado!
Convites distribuídos, padrinhos, familiares...
Será um escândalo sem tamanho!
- Sim. Lógico - olhou e sorriu, expressando um traço de piedade no semblante.
Parado em um semáforo, Wagner fez um afago em seu rosto e a puxou para um beijo rápido.
Depois disse:
- Eu adoro você.
- Eu também - sorriu com graciosidade.
- Você é meu melhor presente de aniversário. Sabia?
- Está fazendo aniversário?!
Não me contou!
- Farei no sábado.
Ela recostou em seu ombro e ficou planejando um presente, mas não disse nada.
Ao chegarem à empresa, mantiveram a postura exigida pela organização.
Seus corações batiam fortes e não esqueciam tudo o que havia acontecido nas últimas semanas, junto à decisão mais importante de suas vidas.
Wagner estampava no rosto uma fisionomia alegre, reflexo de sua satisfação.
Passando pela antessala da directoria, observou que Hilda não estava.
Estranhou o computador da assistente estar desligado.
Foi para sua sala.
Pouco tempo depois, a secretária apareceu.
- Bom dia, doutor Wagner.
- Bom dia, Hilda! Tudo bem?
- Sim. O senhor tem uma reunião com a equipe de marketing hoje às 9h.
- Certo. Já vi aqui - referiu-se à agenda.
Mas não foi isso o que perguntei.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:49 am

Quero saber de você.
Sei que seguiu o Agenor e não pegou nada naquele dia.
Falou que iria tentar de novo.
Como está essa situação?
Séria, a mulher o encarou.
Respirou fundo e disse:
- Não é um bom momento para conversarmos sobre isso.
- O que aconteceu? - insistiu em tom solene.
- Eu não gostaria de falar sobre esse assunto, mas... - sua voz embargou.
Já que insiste em saber...
Sentou-se na cadeira em frente à mesa do director.
Ao vê-lo sério, sentar-se também, revelou:
- Estou decidindo se me separo do Agenor ou não.
- O que aconteceu Hilda? - indagou comovido por vê-la daquele jeito.
Ela abaixou a cabeça e contou:
- Ontem eu saí daqui e a Lídia me pegou com o carro dela.
Sabe que o Agenor é aposentado e ainda trabalha com seguros de carro.
Tem um sócio e tudo mais...
- Sim. Eu sei. Conheço bem sua vida, sua casa...
Já morei lá.
- Então nós saímos daqui e fomos até onde ele tem o escritório.
Novamente, esperamos bastante tempo.
Para minha surpresa, ele saiu do escritório acompanhado de uma mulher.
Estavam de mãos dadas, brincando e correndo da chuva.
Na frente do prédio do escritório, tem três vagas para carros e eles entraram em um deles.
Eu tive a impressão de conhecer a mulher, mas a chuva e os vidros embaçados não me deixaram ver direito.
Fez breve pausa e respirou fundo.
Depois, prosseguiu:
- A Lídia, indignada, foi esperta e os seguiu.
Eu comecei a me sentir mal. Muito mal.
Uma coisa estranha que jamais experimentei.
Nós duas o seguimos... - chorou.
Wagner se levantou, procurou por uma caixa de lenço de papel em uma de suas gavetas, pegou-a e levou até a mulher.
Sentou-se na cadeira ao lado e colocou a mão em seu ombro em sinal de apoio.
Alguns instantes e ela murmurou:
- Depois de tantos anos...
Não imagina quanta dor... Sabe por quê?
Porque foram anos de entrega, cumplicidade, amizade...
Nesses anos todos, entreguei minha vida, minha jovialidade... - lágrimas corriam por seu rosto.
Foram dias e noites dedicados a um casamento, a um único homem...
Aos nossos filhos... A nossa casa...
Só quem é honesto e respeitoso pode entender a dor que sinto.
Ser traída por um ignorante...
Ser traída por um conhecido, mas com o qual não se tem ligação, é uma coisa.
Mas... Ser traída por alguém com quem você diria ser tão honesto, tão respeitoso, tão fiel quanto você!
É a pior coisa do mundo.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:49 am

E o pior é ser traída duas vezes.
Sempre esperamos a traição de inimigos, nunca de amigos...
- Como assim Hilda?
O que aconteceu?
Até onde você o seguiu?
- Eu e a Lídia esperamos que eles saíssem do motel.
Assim que pegaram a avenida, ela deu uma fechada no carro.
Aí eu desci... Chovia muito.
Foi bom porque eles não viram que eu estava chorando.
O céu chorava por mim. - Wagner ficou penalizado.
Imaginou o sofrimento que ela experimentava.
A secretária prosseguiu:
- Ele desceu do carro às pressas e se assustou comigo.
Falou um monte de coisa que eu nem lembro.
Então fui até a janela e olhei para ver quem era a sem-vergonha que estava com ele.
Foi então que vi a Almira. Minha melhor amiga.
Tão amiga que era ela que eu ia chamar para ir comigo seguir o Agenor.
Mas, como ela não atendeu o telefone, chamei a Lídia... - Hilda teve uma crise de choro.
- Que tola eu fui! Idiota...
- Não diga isso - ele disse.
Levantou-se, pegou um copo com água e deu para ela.
As mãos dela estavam trémulas e geladas.
Wagner não sabia o que dizer.
Reconhecia os valores pessoais daquela mulher e acreditava que não deveria passar por aquilo.
- O que você disse a ele? - ousou perguntar.
- Nada. Não disse nada.
Olhei bem para o Agenor e para a outra...
Virei as costas e entrei no carro.
A Lídia falou por mim.
Ela o chamou de canalha, cafajeste, daí em diante e falou o mesmo para a outra também. Ficou nervosa.
Depois fomos para a casa dela.
Lá conversamos.
O marido dela chegou e ficou sabendo de tudo.
Ele se indignou também. Conhece o Agenor.
Frequentávamos o mesmo clube e...
Depois eles me levaram para casa.
Ela silenciou.
Querendo saber mais, Wagner perguntou:
- E quando chegou a sua casa?
- Já era bem tarde.
O Agenor se trancou no quarto comigo.
Falou que nunca tinha me traído antes com outra.
Chorou, implorou, pediu perdão...
Contou que a Almira teve problemas com o seguro do carro e o procurou.
Ele foi levar alguns papéis na casa dela para assinar e então começaram se aproximar.
Lembro quando ele contou isso.
Foi cerca de um ano.
Não me importei porque sempre confiei na moral do meu marido.
Um homem religioso, católico, de ir todo domingo à igreja.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 08, 2017 10:49 am

Breve pausa.
Bebeu mais um pouco de água e procurou se recompor.
Depois contou:
- Sou Espírita e ele nunca se importou.
Sempre me acompanhou ao centro.
Ouvia palestras, gostava.
Sabia e sabe das consequências de reparação para aqueles que traem suas promessas, suas consciências e de outros...
Secou os olhos e o nariz com um lencinho.
O pior da traição é recebê-la de quem não se espera. É uma dor...
Uma coisa constante no peito, na alma...
Estou sem dormir.
Fiquei a noite toda imaginando...
Fazendo filminho, na minha cabeça, de meu marido me traindo.
Não se importando comigo...
Não dá para segurar os pensamentos.
É impossível. Não tem como parar de pensar...
- O que você vai fazer agora?
- Sentar e conversar com meus filhos.
Embora o Agenor tenha implorado para eu não fazer isso.
Acho que ele não quer perder a imagem de pai exemplar - falou com ironia.
- Pensa em se separar?
- Não sei - olhou-o por um momento e chorou.
Estou confusa. Muito confusa.
Não paro de pensar nisso tudo.
Minha cabeça está um inferno.
Por um momento, penso que foram trinta anos.
Filhos, amizade, cumplicidade...
Depois, também penso que por tudo isso que vivemos ele deveria ter me respeitado.
Ele disse que foi fraqueza.
Não sabe explicar o que deu nele.
Eu acho que foi egoísmo.
Se o Agenor não tivesse sido egoísta, teria pensado em mim, na nossa vida, no nosso casamento.
Teria pensado nas consequências. Mas não.
Deve ter dito, no momento da empolgação: que se dane!
Breve pausa.
- Quem diz: que se dane! É egoísta.
Não pensa em nada nem ninguém, muito menos nas consequências.
Depois, quando tiver dificuldades pela encrenca em que se meteu e pelas energias que atraiu, aí sim vai querer ajuda de alguma forma.
Só então vai pensar em Deus ou naqueles que se danaram por causa dele ou do que ele fez.
- Hilda eu sinto muito.
Nem sei o que te dizer.
- Está doendo, Wagner! - olhou-o com expressão sofrida.
É uma dor como nunca imaginei.
Eu preferiria que meu marido tivesse me matado a ter me traído - chorou.
- Acho que você precisa tirar um dia de folga.
Você não acha?
- Preciso de férias. Já tenho duas acumuladas.
Agora cedo, passei no RH e já fiz pedido em carácter de urgência.
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Re: Construindo um caminho - Schellida / Eliana Machado Coelho

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