O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:56 pm

O Destino em suas Mãos
Elisa Masselli

Sinopse:
Esta é a história de alguns imigrantes espanhóis que vieram para o Brasil em busca de riqueza.
Assim que chegaram, viram seus sonhos destruídos, a vida de cada um precisava continuar.
Lola e Carmem, duas mulheres que ficaram sozinhas, tiveram de lutar contra o preconceito, o ciúme, o sentimento de posse e o apego a coisas e pessoas.
Aprenderam através de muito sofrimento, que as pessoas a quem amamos não nos pertencem, que são espíritos livres, com o direito de fazer suas próprias escolhas.
O mesmo acontece com as coisas das quais precisamos para viver, também não são nossas apenas nos foram emprestadas.
Ambas deviam conduzir Maria para que ela pudesse cumprir uma missão que serviria para o aperfeiçoamento da humanidade.
Rafael e Julian foram peças importantes nessa evolução e aperfeiçoamento.
Escolheram passar por um processo de auto-conhecimento e sofreram por isso, mas tiveram ao seu lado espíritos amigos, sempre dispostos a ajudá-los em todos os momentos.
Com o tempo, aprenderam que dinheiro sem amor não tem valor e que tinham O Destino Em Suas Mãos.

Sumário

Prólogo
Planeando o futuro
A tempestade
Contando a história
Incompreensão
A ajuda sempre chega
Uma porta que se abre
Triste notícia
Acordo preocupante
Intenções reveladas
Fim da viagem
Chegando ao destino
Início de uma nova vida
O despertar
Nunca estamos sós
Ajuda providencial
Dissimulação
A festa da colheita
Reencontro
Conversa definitiva
O pior dos sentimentos
Acerto de contas
Decisão inesperada
Dominada pelo mal
Momento de decisão
A verdade sempre aparece
Persuasão
Maldade final
Decisão de vida
O destino de cada um

Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:57 pm

Prólogo
No final do século dezanove e início do século vinte, a Europa passava por momentos difíceis.
Devido à pobreza do Estado, os impostos cresceram em demasia, tanto que muitos camponeses não tiveram como pagar suas dívidas e, por isso, perderam suas terras e, de um momento para outro, viram-se sem elas e sem um lugar para morar.
A pobreza, que já era grande, piorou e se espalhou por todos os países.
As pessoas não tinham trabalho e, sem terra para cultivar, não tinham comida também.
A situação era desesperadora.
Nessa mesma época, com o fim da escravidão e a dispersão dos escravos, o Brasil precisava de mão-de-obra para tocar suas lavouras.
Para conquistar essa mão-de-obra, foram mandados, para os países da Europa, folhetos, convidando os camponeses a irem trabalhar no Brasil, onde, além de emprego, poderiam conseguir propriedades, pois o Brasil era um país enorme, com muitas terras para serem cultivadas.
Os folhetos diziam que a viagem seria confortável e paga pelo governo brasileiro.
Muitos agricultores, empolgados pela propaganda, se aventuraram, já que, em seus países, não havia mais condição de vida.
Assim que faziam a opção pela viagem, recebiam a passagem para embarcar, mas só aí, na maioria das vezes, constatavam que os navios eram cargueiros, tendo alguns compartimentos internos transformados em dormitórios.
A cozinha, embora grande, só tinha capacidade para atender aos marinheiros que trabalhavam no navio.
Com mais de seiscentas pessoas a bordo, alimentá-las tornou-se um problema.
Por isso, na hora da refeição, quase sempre era servida uma sopa rala.
O reservatório de água fora construído para atender à tripulação, por esse motivo, a água também precisava ser poupada.
Os banhos só eram permitidos uma vez por semana e com uma certa quantidade de água.
As pessoas dormiam em esteiras estendidas por aqueles compartimentos transformados em quartos.
Neles, havia uma esteira para cada adulto, as crianças dormiam com os pais.
Por isso, a maioria dos viajantes preferia ficar no convés, onde podia respirar ar puro, indo para os "quartos" somente à noite.
Mesmo assim, apesar de todo desconforto, viajavam esperançosos em conseguir uma vida melhor.
A viagem, demorada e sofrida, estava sujeita às variações climáticas e às doenças.
Aqueles que ficavam doentes e morriam eram enrolados em lençóis e jogados ao mar.
Somente estes recebiam um lençol, os outros precisavam se abrigar com seus próprios cobertores.
A maioria não tinha cobertor algum e as famílias precisavam unir seus corpos para que pudessem se aquecer.
O sofrimento era muito, mas a promessa de um futuro melhor os impulsionava.
Sabiam que estavam indo em direcção à terra prometida.
Para eles, aquilo tudo, embora triste, lhes parecia belo e deslumbrante.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:57 pm

Planeando o futuro
Um navio navegava lentamente deixando atrás de si um extenso rastro de água branca formada pelas ondas que batiam sobre o casco.
O mar estava calmo, o que deixava tranquilas as pessoas que viajavam nele.
Essas pessoas haviam deixado sua pátria, a Espanha, atendendo aos apelos dos folhetos que as convidavam a ir a uma terra com muitas oportunidades.
Todos, por não terem mais o que perder, colocaram esperanças na nova terra e se aventuraram.
Entre eles, havia uma moça que tinha o nome de Dolores, mas, por todos, era chamada de Lola.
Trazia consigo uma menina com quase cinco anos idade e que estava sentada ao seu lado, tentando brincar com as outras crianças que, por serem mais velhas, não lhe davam muita atenção.
Às vezes, ela conseguia brincar também, mas era muito pequena e logo se cansava e corria para os braços da mãe que a afagava com carinho.
Lola estava feliz, pois havia conseguido, através de uma amiga e de cartas, um emprego como cozinheira em uma fazenda no Brasil.
Não conhecia as pessoas para as quais iria trabalhar, apenas sabia que eram muito ricas.
Como todos que faziam aquela viagem, ela também estava temerosa, mas, ao mesmo tempo, esperançosa por poder recomeçar.
Havia perdido tudo, estava sozinha, além de saber que, na Espanha, nada mais lhe restava.
Sua única esperança era essa nova terra.
Sentada no convés do navio e, enquanto via sua filha ali tentando brincar com outras crianças, olhava para o céu e seu coração batia forte.
A embarcação em que viajava, era um cargueiro que até então transportava grãos e fora transformado em um precário navio de passageiros.
Durante o dia, algumas pessoas ficavam ali, no convés, tomando sol e respirando ar puro.
Durante a noite, dormiam em esteiras espalhadas pelo chão dos quartos improvisados, onde era muito abafado, quente, ao mesmo tempo, muito húmido e com um forte cheiro de mofo.
Existia somente uma esteira por pessoa, as crianças dormiam com os pais.
Não havia muita água doce, a pouca que havia era usada para beber e preparar alimentação.
Por isso, só podiam tomar banho uma vez por semana e com pouca água.
Dormiam misturados homens e mulheres.
O lugar era irrespirável.
Apesar de todo o sofrimento, sentiam-se felizes, pois iam ao encontro de uma vida melhor, de um sonho.
Ouviram dizer que, naquela terra para onde estavam indo, poderiam trabalhar, conseguir muito dinheiro, terras e, assim, poderiam voltar para a Espanha, ricos.
Lola também ouvira aquilo, porém estava fazendo a viagem não para ficar rica, mas para poder recomeçar e dar uma vida melhor para a filha.
Todos que passavam por ela estranhavam.
Não entendiam como uma moça tão bonita podia estar viajando sozinha e com uma criança.
Aquilo era muito estranho, pois, naquele tempo, mulheres jamais poderiam sair de casa sozinha, muito menos fazer uma viagem como aquela.
Lola sabia o que pensavam, mas não se importava.
Somente ela conhecia o motivo de aquilo estar acontecendo e sabia que ninguém, por mais que quisesse, poderia ajudá-la.
Afagando os cabelos da menina, lembrou-se de tudo o que havia acontecido para que estivesse ali apenas com a filha.
Com os olhos perdidos no espaço, pensou:
Por que tudo aquilo teve de acontecer, Manolo?
Por que não pôde ser diferente?
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:57 pm

O que vai ser da minha vida e da vida da nossa filha?
Tomara que consiga sobreviver e dar a ela uma vida melhor do que a minha...
Que ela possa ter a felicidade que nunca tive.
Sei que não vai ser fácil.
Meu Deus ajude-me para que tudo dê certo e eu possa recomeçar...
Lágrimas caíram por seu rosto.
Com as mãos, secou-as e continuou relembrando como era sua vida e no dia em que foi trabalhar na casa de Manolo:
Meu pai era agricultor e, como todos iguais a ele passavam por momentos difíceis.
Não conseguiu pagar os impostos que ficaram muito caros.
Em uma manhã, um homem veio até a casa e lhe deu um papel.
Ele não sabia ler, somente eu e meu irmão havíamos ido, por pouco tempo, à escola, pois precisávamos ajudar meu pai na lavoura, mas aprendemos a ler, não muito bem, mas o necessário para entender o que estava escrito naquele papel.
Eu li e depois disse ao meu pai:
— Pai, este papel está dizendo que o senhor tem um mês para pagar os impostos, se não o fizer, terá de abandonar a terra.
— Como? Não pode ser?
Não tenho todo esse dinheiro!
Para onde vamos?
Isso não pode estar acontecendo!
Estas terras sempre pertenceram a nossa família!
Meu avô, meu pai e eu nascemos aqui, não conhecemos outro lugar!
Não posso sair daqui!
Ficamos calados, pois não sabíamos o que responder.
Assim como ele, estávamos amedrontados e pensando o que seria do nosso futuro.
Apenas consegui dizer:
— Também não sei meu pai, mas é impossível que Deus vá nos abandonar...
Não sei por que falei aquelas palavras, mas senti uma enorme vontade de dizer.
Achava que, com elas, animaria meu pai, mas isso não aconteceu.
Ele saiu e foi para o quintal.
Ficou andando de um lado para outro.
Com os olhos, acompanhei seus movimentos.
Minha mãe, sempre calma e acreditando que Deus cuidava de todos nós, disse:
— Não se preocupe meu velho.
Lola tem razão, Deus não vai nos abandonar.
Ele está sempre cuidando dos Seus filhos e vai encontrar um caminho...
Meu pai, que havia voltado do quintal e estava entrando em casa, ao ouvir o que minha mãe disse, nervoso, gritou:
— Que Deus, mulher?
Deus não existe!
Olha a vida que sempre tivemos?
Sempre plantamos e colhemos só o necessário para a nossa sobrevivência!
Enquanto não temos nada, outros têm para jogar fora!
Isso é justo?
Onde está esse Deus que escolhe a quem vai dar tudo e a quem não dará nada!
Nunca mais venha me falar de Deus!
Minha mãe, calma como sempre, respondeu:
— Não sei qual é a razão de vivermos assim, só sei que algum motivo deve ter.
Não adianta se revoltar contra Deus, isso não vai fazer com que as coisas melhorem.
O melhor que tem a fazer é se acalmar e pensar no que vamos fazer.
Meu pai ouviu o que ela falou.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:57 pm

Desesperado, voltou outra vez para o quintal e continuou andando de um lado para outro.
Assim que saiu, minha mãe foi para seu quarto e, diante da imagem de Nossa Senhora, começou a rezar.
Lola estava longe dali, com os olhos parados em um ponto distante e só voltou à realidade, quando Maria começou a chorar.
Abraçou-a com carinho e a menina, sentindo-se protegida, parou de chorar e ficou ao seu lado olhando as crianças que brincavam.
Lola sorriu e continuou relembrando:
Eu era a mais velha de três irmãos e a única mulher.
Tinha dezoito anos e também estava com medo.
Embora nossa casa fosse pobre, era o nosso abrigo, a nossa segurança.
Por vários dias, meu pai ficou andando de um lado para outro, tentando encontrar uma solução ou, ao menos, um lugar para onde pudéssemos ir, já que o dinheiro para pagar os impostos, ele sabia, não conseguiria.
Por mais que pensasse, sabia que não poderia pedi-lo a ninguém, pois todos os seus conhecidos estavam na mesma situação que ele, aceitando qualquer emprego.
Muitos, até, somente para ter um lugar onde pudessem colocar a família.
Sabendo disso, meu pai falou revoltado:
— Não sei o que vai ser da nossa vida.
Não tenho dinheiro para pagar os impostos e não temos para onde ir.
O que foi que fiz para merecer uma vida como esta?
Por que, desde que nasci sempre tive de viver quase que na miséria?
O tempo foi passando.
O dia de sermos obrigados a abandonar nossa casa estava chegando e ele não havia encontrado solução alguma.
Ficava cada vez mais desesperado e revoltado.
Minha mãe tentava acalmá-lo:
— Não adianta ficar revoltado, meu velho.
Isso só vai fazer mal à sua saúde.
Não se preocupe, alguma coisa vai acontecer.
Não vamos ficar desamparados.
Deus vai nos ajudar...
Ele, cansado de ouvi-la sempre dizer aquilo, olhou para ela com raiva, calado, saiu de casa e foi para o quintal.
Ela o acompanhou com os olhos.
Sabia o que ele estava pensando.
Confiante, voltou a rezar.
Em uma manhã, depois de ter passado a noite toda andando pela casa, tomando café e fumando, ele saiu.
Assim que ele saiu, minha mãe voltou para seu quarto, ajoelhou-se e voltou a rezar.
Eu, que a acompanhei, também me ajoelhei e repeti o que ela disse:
— Meu Pai, por favor, não nos abandone neste momento.
Sabe que somos pessoa de bem e que não merecemos viver assim.
Somente o Seu amor e compaixão poderão nos ajudar...
Confio na Sua bondade...
Eu ouvi quando ela disse aquelas palavras, mas, como meu pai, também não acreditava que pudesse haver um Deus, porém, sem ter outra coisa para fazer, fiquei ao lado dela, ouvindo e repetindo suas orações.
Quando meu pai voltou, já eram quatro horas da tarde.
Estava feliz e disse, sorrindo:
— Conversei com Dom António e como ele me conhece, sabendo que sou trabalhador, disse que quer comprar as nossas terras pelo mesmo preço que venderíamos ao Estado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:57 pm

Eu nada sabia sobre negócios, mas não entendia a felicidade de meu pai.
Se vendêssemos as terras, para o Estado ou para Dom António, ficaríamos na mesma situação que pela manhã, pois o dinheiro que receberíamos não daria para comprar uma casa, muito menos outras terras.
As terras estavam sendo vendidas pelo valor dos impostos que meu pai devia.
Embora para alguns nada representasse, para meu pai era uma fortuna.
Vendendo ou não, não teríamos para onde ir.
Minha mãe parecendo ter tido o mesmo pensamento que eu, disse:
— Não entendo por que está tão feliz, pois continuamos da mesma maneira que estávamos pela manhã.
Se vendermos as terras, vamos ter de sair daqui sem ter para onde ir, pois o dinheiro que recebermos não vai dar para comprar outras terras ou ao menos uma casa pequena.
— Eu não disse tudo!
Se vendermos as terras para o Estado, ficaremos sem ter para onde ir, mas se vendermos para Dom António, embora seja pelo mesmo preço, ele disse que podemos ir morar e trabalhar na sua fazenda, pois lá há muita uva para ser plantada e colhida.
Vendendo para ele, vamos ter trabalho e uma casa para morar, mulher!
Por isso estou tão feliz!
A felicidade foi total.
Animados, pegamos as poucas coisas que tínhamos e nos mudamos.
A família de Dom António possuía uma imensa quantidade de terra cultivada por agricultores que recebiam uma miséria como salário.
Meu pai não se importou, pois dizia:
— Pouco é muito mais do que nada!
Assim que chegamos à fazenda, Dom António nos olhou e disse:
— Seja bem-vindo a nossa casa, senhor José.
Fez muito bem quando decidiu me vender suas terras.
Por isso, pode ficar sossegado, aqui tem trabalho e moradia garantidos.
Aqui, nesta fazenda, poderá viver em paz.
Meu pai sabia que o salário que ele ia pagar mal daria para comermos, mas como não havia outra maneira para sobreviver, disse:
— Obrigado, Dom António.
Não se preocupe, prometo que vou trabalhar muito.
— Sei disso, já o conheço há muito tempo.
Sua casa já está pronta à sua espera.
Olhando para todos nós, disse para um rapaz que estava ali:
— Juan, acompanhe o senhor António e sua família até a casa que você preparou.
Acompanhamos Juan.
A casa que estava reservada, como todas as outras, era pequena para uma família de cinco pessoas como a nossa, e mal conservada, mas era tudo o que poderíamos ter naquele momento.
Meu pai sabia disso e nós também.
Meu pai começou a trabalhar.
Eu e meu irmão Luiz o ajudávamos.
A vida era difícil, mas conseguíamos sobreviver.
Uma manhã, quando estávamos nos preparando para ir trabalhar, Juan, que era o secretário de Dom António, veio até a nossa casa.
Disse:
— Senhor José, a dona Maria das Graças mandou perguntar se o senhor pode deixar a Lola ir trabalhar lá na casa-grande.
— Por quê?
Ela já tem empregada.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:58 pm

— A Lourdes ficou doente, precisa fazer uma operação e não vai poder trabalhar por um tempo.
Por isso, ela está precisando de uma empregada para cuidar da casa.
Ela disse que vai pagar separado.
— Não sei...
Lola nunca trabalhou em casa de família, não sei se vai conseguir...
— Não se preocupe com isso.
Ela aprende.
— Está bem.
Se vier um dinheiro a mais, sempre é bom.
Lola acompanhe Juan.
Amedrontada, acompanhei Juan.
Não conhecia a família.
Só havia visto dona Maria das Graças uma vez, no dia em que chegamos e fomos até a casa-grande para nos apresentar.
Depois, nunca mais nos aproximamos dali, mas precisava obedecer ao meu pai.
Com ele, não se discutia, apenas se obedecia.
Assim que cheguei à casa-grande, dona Maria das Graças me recebeu com um sorriso:
— Que bom que veio.
Estou precisando muito de sua ajuda.
— Desculpe senhora, mas nunca trabalhei em casa de família, não sei como fazer.
— Não se preocupe, a Lourdes, antes de ser operada, vai ensinar-lhe.
Logo aprenderá.
Como é o seu nome?
— Lola...
— Muito bem, Lola, entre e vá para a cozinha, conversar com a Lourdes.
Ela vai lhe dizer qual é o seu trabalho.
Comecei a trabalhar.
Lourdes, com muita paciência, me ensinou e, realmente, em pouco tempo eu já cuidava de todo o trabalho da casa.
Estava na cozinha, quando Dona Maria das Graças, acompanhada por um rapaz, entrou e disse:
— Lola, este é o meu filho Manolo.
Ele é muito exigente com a comida, por isso, trouxe-o para conhecê-la.
Eu, sem perceber, abaixei a cabeça, levantando somente os olhos para poder vê-lo.
Assim que nossos olhos se encontraram, senti um arrepio pelo corpo, parecia que eu já conhecia aquele moço, embora soubesse que era impossível, pois nunca eu estivera na fazenda, nem ele na minha casa.
Ele estendeu a mão:
— Muito prazer, Lola.
Espero que cozinhe bem.
Gosto muito de comer.
Trémula e envergonhada, estendi-lhe minha mão, que ele apertou com força.
Sem conseguir evitar, apertei sua mão também.
Ele, sorrindo, disse:
— Tenho certeza de que deve cozinhar muito bem.
Tímida, abaixei a cabeça e fiquei calada.
Eles saíram da cozinha e eu os acompanhei com os olhos, tentando fazer com que meu coração parasse de bater com tanta força.
— Está pensando na vida, Lola?
Lola voltou-se e viu Carmem, uma moça que também viajava e com a qual havia conversado por alguns minutos, assim que entraram no navio.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:58 pm

Ela sorriu e respondeu:
— Estou pensando no motivo pelo qual estou aqui neste navio, indo para um destino desconhecido.
— Por mais que pense Lola, no final, o motivo é o mesmo de todos os que estão aqui.
Pobreza, vontade de progredir e de ter uma vida melhor.
— Também tenho outro motivo.
— Qual?
— Um dia eu conto a você.
Esta viagem é longa, vamos ter tempo.
Você também está viajando sozinha, Carmem?
— Não, Lola.
Meus pais e dois irmãos, além de Rafael, nosso vizinho, também estão aqui.
Lola olhou para o lado onde ela apontava e viu um rapaz que também olhava para elas.
Os olhos se encontraram e sentiram uma estranha sensação.
Ele, com os dentes perfeitos, sorriu e acenou com a mão.
Ela, constrangida, também sorriu e respondeu ao aceno de mão.
Carmem, olhando para Rafael, disse:
— Venha se sentar connosco, Rafael.
Já que estamos no mesmo navio e que a viagem vai ser longa, é bom fazermos amizade, não é, Lola?
Lola, ainda impressionada com a beleza do rapaz e por aquilo que estava sentindo, timidamente, sorriu e respondeu:
— Sim, Carmem, é isso mesmo.
Como estou viajando sozinha com a minha filha, sei que vou precisar de amigos.
Rafael, sorrindo, levantou-se e se aproximou delas.
Ouviu o que Lola falou e, no mesmo momento, disse:
— Pois se esse é o seu problema, ele não existe mais.
Eu e a Carmem estaremos ao seu lado sempre que precisar, não é Carmem?
— Claro que sim, Rafael.
Já que estamos viajando para uma terra estranha, é bom termos amigos para podermos nos ajudar.
— Obrigada aos dois.
Quando resolvi fazer esta viagem, sabia que não seria fácil, pois minha menina é ainda muito pequena, mas agora, conhecendo vocês, sei que não estou mais sozinha e que se precisar terei a ajuda dos dois.
— Pode ter certeza disso.
Estive olhando sua menina, ela é muito bonita e esperta.
— É, sim, Rafael, e é toda a razão da minha vida.
Ficaram conversando por um longo tempo.
Falaram de como resolveram tentar uma nova vida e na esperança de dias melhores.
Logo, estavam rindo e sentiram que uma grande amizade surgia ali.
Depois de algum tempo, Lola disse:
— Agora, preciso dar comida para minha menina.
Está na hora de ela dormir.
Maria! Venha, Maria, vamos até a cozinha ver o que temos para comer.
Maria, que agora brincava com outras crianças, amuada, disse:
— Não tô com fome, mamãe...
— Sei que não está, mas não adianta.
Precisa comer. Precisa crescer...
Sem vontade, a menina acompanhou a mãe.
Rafael seguiu-a com os olhos e sorriu.
Ela é mesmo muito bonita.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:58 pm

O que será que aconteceu para uma moça como ela estar viajando, sozinha, somente com a filha?
Onde estará o marido?
Carmem, com os olhos, também acompanhou os movimentos de Lola e de Rafael.
Sorriu. Ele está gostando dela...
Lola, com um pano humedecido, deu um banho em Maria, depois lhe deu comida e colocou-a para dormir.
A menina não queria, chorou um pouco, mas acabou dormindo.
Lola, vendo que ela dormia tranquila, pensou:
O que vai ser da nossa vida, Maria?
Como será essa terra para onde estamos indo?
Será que não vou me arrepender de ter me arriscado nessa aventura?
Não sei... por outro lado, não tinha como continuar ali.... tudo , se acabou na minha vida e, se não fosse você, nem sei o que teria feito... meu Deus... preciso de ajuda para poder continuar... não me abandone...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:58 pm

A tempestade
Assim que Maria adormeceu, Lola acomodou-a sobre a esteira e deitou-se ao seu lado.
Olhando com carinho para a filha, voltou a relembrar o que havia acontecido.
Desde aquele dia na cozinha, Manolo não me deu paz.
Vivia me procurando pela casa e pedindo que eu fizesse isso ou aquilo.
Eu não podia me furtar, afinal, era a empregada.
Sempre que estava ao meu lado, ele dizia:
— Lola, estou apaixonado por você.
Quero me casar e ter uma família com você.
Eu sabia que aquilo não era verdade, que não passava de brincadeira, mas, no íntimo, me sentia feliz.
Eu me apaixonei assim que o vi pela primeira vez.
Em uma tarde, quando estava pendurando roupa no varal, sem que eu percebesse, ele se aproximou por trás, me abraçou e com carinho fez com que eu me virasse, me beijou ardentemente.
Correspondi àquele beijo, pois era o que eu mais queria.
Daquele dia em diante, sempre nos encontrávamos às escondidas e, a cada oportunidade, nos beijávamos.
O meu amor por ele era imenso.
Tanto que não me preocupava com o futuro, com o que poderia acontecer.
Enquanto me abraçava e beijava, ele dizia:
— Não fique com medo, Lola.
Sabe que estou dizendo a verdade.
Amo você e quero me casar.
— Não diga isso, Manolo.
Sabe que isso nunca será possível.
Seus pais não vão permitir.
Você é de uma família rica e eu não passo da filha de um agricultor e empregada de sua casa.
— Não me importo com o que meus pais pensam.
Amo você e quero me casar, ter filhos, formar uma família.
Isso ninguém vai impedir.
Eu ria, sabia que aquilo jamais aconteceria, mas não me importava, queria ficar ao lado dele para sempre.
O tempo foi passando.
Aqueles beijos que, a princípio, eram suficientes, com o tempo, foram tornando-se mais ardentes, até que um dia me entreguei totalmente.
Ele não me enganou, eu sabia o que estava fazendo.
Sabia que, se alguém descobrisse, eu seria execrada e expulsa não só da casa de Manolo, como também da casa de meu pai.
Ele jamais aceitaria uma filha que não fosse virgem, que não poderia se casar com um homem que ele escolhesse.
Em parte, ele tinha razão, pois homem algum se casaria com uma mulher usada, como diziam.
Quando eu falava dos meus temores, Manolo me abraçava e falava:
— Não fique preocupada, Lola.
Não posso assumir você agora, ainda não terminei meus estudos, mas, quando terminar, ninguém vai poder impedir que eu me case com você.
— Mas, se alguém descobrir?
— Se alguém descobrir, nos casaremos e, quando for minha mulher, ninguém poderá apontar você.
Confie em mim, Lola, ninguém poderá nos separar.
Ao ouvir aquilo, suspirei e dei-lhe um beijo.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:59 pm

Naquele momento, nada mais importava somente o nosso amor.
Estava distraída, pensando e não percebeu Rafael que se aproximou e, assustado, disse:
— Lola, precisa se abrigar e proteger sua filha!
— Por quê?
— Está se formando uma grande tempestade e o comandante avisou que devemos ficar aqui embaixo e nos proteger.
Disse que o navio vai balançar muito.
Venha, traga a menina para este canto.
Aqui estará mais protegida.
Antes que ela dissesse alguma coisa, ele pegou a menina no colo e ajudou-a a se levantar.
Lola, assustada com a atitude dele, carregou consigo a esteira onde dormia e a mala com as poucas roupas que tinha.
Estendeu a esteira no chão e sentou-se.
Rafael entregou-lhe a menina e sentou-se ao lado.
Aos poucos, as pessoas foram descendo e se acomodando.
Carmem, sentada do outro lado, na companhia dos pais e dos dois irmãos, seguia todos os movimentos de Rafael e sorria.
Ele está mesmo apaixonado...
Mesmo antes que todas as pessoas se acomodassem, a tempestade chegou.
O navio começou a balançar de um lado para outro.
Raios cortavam o céu e trovões soavam. Todos estavam assustados.
Os últimos a chegar, como os outros, foram para seus quartos improvisados e protegeram-se da melhor maneira possível.
No convés, o chão era feito de madeira e, por suas frestas, goteiras se formaram, a água entrava e molhava a todos.
Lola procurava proteger Maria da melhor maneira que conseguia.
Rafael, percebendo sua dificuldade, pegou a menina em seu colo e abraçou Lola que, tremendo de frio e de medo, aconchegou-se a ele.
O navio balançava de uma forma violenta para cima e para baixo e de um lado para outro.
Pessoas eram arremessadas umas sobre as outras.
Ouviam-se gritos desesperados e chamados por Deus e todos os santos.
Lola, assustada, gritou:
— Rafael!
Este navio vai virar e vamos morrer afogados!
— Não, isso não vai acontecer, Lola.
A tempestade vai passar logo e o mar voltará a ficar calmo.
Tente ficar calma e abraçada a mim.
Juntos, protegeremos a menina.
Enquanto dizia isso, ele abraçava com mais força as duas que também se abraçavam a ele.
Maria, como que por uma protecção desconhecida era a única criança que não chorava.
Sentia-se segura nos braços fortes de Rafael.
Lola, diferentemente da filha, chorava e rezava:
Meu Deus, não permita que nada de mal nos aconteça.
Todos os que vieram nesta viagem só estão fazendo isso por não encontrarem outro caminho, por desejarem seguir um sonho.
O Senhor sabe o quanto sofri, mereço uma oportunidade.
Proteja-nos, meu Deus.
Fazia mais de vinte minutos que a tempestade castigava a todos.
Porém para eles, pareciam horas.
Como se aquela prece fosse ouvida, a tempestade, aos poucos, foi passando, porém o navio continuou balançando.
Algumas pessoas passavam mal.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:59 pm

Quase duas horas depois, o navio voltou a sua velocidade normal e eles puderam se levantar e ajudar-se mutuamente.
Lola também se levantou.
Estava toda molhada.
Maria, não tanto, pois tanto ela como Rafael a haviam protegido com o corpo.
O casco estava todo molhado.
Poças de água se formaram.
Por todo lado, ratos e baratas, também assustados, corriam desesperados.
Todos procuravam se proteger deles.
Os homens os afastavam com os pés e as mãos.
As mulheres, além de procurar protecção, também gritavam, desesperadas, ao simples contacto deles.
Pessoas e malas boiavam.
As roupas, assim como eles, estavam todas molhadas.
Não tinham como se trocar.
Alguns marinheiros foram até os quartos e, parados nas portas disseram:
— Agora que a tempestade passou e o sol voltou a brilhar é preciso que todos subam para o convés e coloquem as roupas para secar.
Foi o que fizeram.
Aos poucos, foram subindo e se acomodando da melhor maneira possível sobre o casco ainda molhado.
Sabiam que logo estaria seco, pois o sol brilhava forte, como que se aquela tempestade não houvesse acontecido.
Lola tirou de sua mala a pouca roupa que tinha, sua e de Maria, e a foi estendendo à sua volta.
Lembrou-se do passaporte que estava em seu bolso, com a sua fotografia e a de Maria que estava em seu bolso.
Para sua tranquilidade, embora estivesse húmido, não havia se molhado nem estragado.
Com cuidado, colocou-o ao seu lado para que secasse totalmente.
— Rafael, ainda bem que o meu passaporte não molhou.
Sabe que na hora da tempestade nem me lembrei dele...
Já pensou o que eu faria quando chegasse ao porto e não tivesse um passaporte para apresentar?
O que ia acontecer?
Ele, que tirava do bolso interno do paletó o seu passaporte, sorrindo, disse:
— O meu passaporte também está seco, mas, mesmo que não estivesse não teria importância.
As autoridades encontrariam uma solução de como fazer com aqueles que perderam seus documentos.
Depois de chegar, de uma maneira ou de outra, teremos de entrar no país.
Deixe de se preocupar.
O importante é que consigamos chegar e recomeçar a vida.
Eu, você e a Maria.
Vamos ser uma família feliz, Lola, pode ter certeza disso.
No que depender de mim, vou fazer de tudo para que isso aconteça.
Ela estranhou, pois não haviam conversado sobre isso, mas sorriu ao ouvir aquelas palavras.
Era o que mais ansiava; poder ser feliz.
Maria recusava-se a sair do colo de Rafael que a abraçava com carinho.
Ao ver aquilo, Lola disse:
— Parece que ela gosta mesmo de você...
— Isso não me surpreende, pois também gosto muito dela.
Quando crescer, vai ser uma linda mulher.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:59 pm

É inteligente também.
Não viu como se comportou durante a tempestade?
Embora assustada, não chorou.
É uma lutadora e pessoas lutadoras conseguem tudo o que querem na vida.
Ela vai ser feliz, Lola, pode ter certeza disso.
Lola sorriu.
Daquele dia em diante, Rafael ficou ao lado das duas.
Estava apaixonado e esperando chegarem ao Brasil para poder pedi-la em casamento.
Lola também, embora não quisesse e um dia houvesse jurado que nunca mais teria outro homem e que só se dedicaria à filha, ao ver como ele era carinhoso com ela e com Maria, também estava se apaixonando por ele.
Isso não pode estar acontecendo...
Não quero outro homem em minha vida...
Quero viver somente para minha filha...
Ela pensava isso, mas sentia que aquele amor não poderia ser evitado.
Algumas pessoas que passaram mal durante a tempestade foram colocadas deitadas e ajudadas por aqueles que estavam bem. Lola ajudava da melhor maneira que conseguia.
O navio continuava deslizando sobre o mar calmo.
Dias após a tempestade, algumas pessoas começaram a ter febre, o que assustou o comandante que disse:
— Elas precisam ser isoladas, o que menos quero que aconteça é uma epidemia que, se for aquela dos ratos, vai ser uma desgraça.
Todos se assustaram com aquelas palavras, mas afastaram os doentes e aqueles que estavam bem cuidavam deles.
Enquanto Rafael ficava com Maria, Lola cuidava dos enfermos.
Carmem também ajudava os doentes, principalmente sua mãe, que era a pior de todos.
Ela temia que sua mãe não resistisse.
Quando disse isso, Lola falou:
— Ela é forte, Carmem, vai se recuperar e logo estará bem.
Falava isso, mas sentia que os temores de Carmem tinham fundamento, pois sua mãe estava realmente muito mal.
A febre era tanta que ela já não reconhecia ninguém.
Muitas pessoas adoeceram.
A mãe de Carmem, como o previsto, realmente não resistiu e, dois dias depois, morreu.
O desespero foi geral, principalmente do comandante, pois já havia visto aquilo acontecer e temia pelo pior.
Para evitar que a doença se propagasse, o corpo da mãe de Carmem foi enrolado em um lençol branco e jogado ao mar.
O sofrimento de Carmem e de sua família era insuportável.
Ela chorava:
— Eu fui a culpada da sua morte...
— Por que está dizendo isso, Carmem?
— Ela não queria vir, Lola.
Dizia já estar velha para enfrentar uma viagem como esta, mas eu insisti.
Quando Rafael me falou do futuro que poderíamos ter na nova terra, me entusiasmei e quis fazer essa viagem.
Estávamos sem um lugar para morar.
Nossas terras haviam sido vendidas por um pouco mais do que o valor dos impostos.
O que sobrou foi muito pouco.
Sem uma terra para trabalhar e uma casa para morar, não conseguiríamos sobreviver por muito tempo.
Se não tivesse insistido, ela estaria viva...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:59 pm

— Você não tem culpa, Carmem.
Isso teria acontecido aqui ou lá.
Chegou a sua hora, é a vontade de Deus, precisamos aceitar...
— Deus, Lola? Que Deus?
Esse mesmo que nos deixou passar fome em nossa terra e nos obrigou a sair dela?
Esse Deus que mandou aquela tempestade?
Depois dela, a umidade e o mofo fizeram com que as pessoas ficassem doentes.
Esse mesmo Deus que não permitiu que eu enterrasse minha mãe e que ela fosse deixada sozinha no fundo do mar?
Não acredito em Deus, não acredito mesmo!
Ele nunca existiu, é pura invenção dos poderosos para manterem os pobres sob seu domínio!
— Pode ser que tenha razão e que Ele realmente não exista, Carmem, mas prefiro continuar tendo fé, pois ela é a única coisa que nos resta.
— Você pode continuar tendo fé, mas eu não tenho mais!
Estou farta desta vida de pobreza e sofrimento!
Por que alguns têm tantos e outros nada?
Não posso aceitar!
— Não sei essa resposta, só sei que deve existir algo além da morte.
Não sei se é Deus ou outra coisa qualquer, mas deve existir...
— Pois continue pensando assim!
Enquanto isso vai continuar vendo os mortos serem jogados ao mar.
Quantos sobreviverão?
— Ainda tenho fé.
Sei que, ao chegarmos, nossa vida mudará e teremos novas oportunidades de trabalho e felicidade...
Carmem estava revoltada e não conseguia mais ouvir aquela conversa.
Afastou-se e foi para junto de Rafael que brincava com Maria.
Assim que ela se aproximou, ele perguntou:
— Como você está Carmem?
— Pode imaginar.
Não entendo por que isso tinha de acontecer, por que minha mãe tinha de morrer e ser jogada ao mar sem ter o direito a uma sepultura, Rafael?
Não consigo me conformar.
— Entendo que seja difícil, mas a vida é mesmo assim.
Em um dia qualquer, todos vamos morrer, Carmem.
A hora de sua mãe chegou e ela não ia querer que você ficasse assim.
Com certeza, queria que continuasse a sua vida.
Uma vida melhor se aproxima.
No Brasil, teremos chances de felicidade, o que não acontecia mais na Espanha.
— Será que isso é verdade?
Será que realmente teremos essa chance?
— Claro que sim, Carmem!
O Luiz me escreveu, disse que conseguiu terras e que está ganhando muito dinheiro!
— Espero que esteja certo, mas tenho minhas dúvidas.
Os fazendeiros até pouco tempo, tinham escravos, não precisavam pagar para terem suas terras plantadas.
Será que se conformará em ter de nos pagar?
— Justamente por não terem mais escravos, é que precisam da nossa mão-de-obra e, portanto, sabem que precisam pagar.
Não se preocupe mais, Carmem, tudo vai ficar bem.
— Espero que tenha razão, mas só terei certeza depois que chegarmos lá.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 19, 2017 8:59 pm

— Eu, ao contrário, não tenho dúvida alguma.
Sei que tudo vai dar certo e que um dia voltaremos vitoriosos para a Espanha e poderemos viver tranquilos no nosso país.
— Você está bem com a Lola, está gostando mesmo dela, não é?
— Estou sim.
Ela, além de ser uma linda mulher, também é forte e corajosa.
Acredito que será uma óptima companheira.
— Desejo a vocês dois toda a felicidade do mundo.
Sabe o quanto gosto de você e como quero que seja feliz.
— Sei, sim, Carmem, e posso lhe garantir que é o mesmo que desejo a você.
Você é uma boa moça e muito bonita, merece toda a felicidade do mundo.
Tenho certeza de que vai conseguir.
Talvez esteja fazendo esta viagem somente para encontrar o amor de sua vida assim como aconteceu comigo e, quando isso acontecer, será muito feliz.
— Não penso nisso, só estou pensando em como será a nossa vida no Brasil.
Já conversou com Lola a respeito do seu amor?
— Ainda não.
Estou esperando o momento certo.
— Já descobriu por que ela está viajando sozinha?
Ela me disse que o marido morreu, mas não sei como, não acreditei muito.
Quando me disse isso, me pareceu um pouco distante, como se relembrasse alguma coisa que aconteceu e que a deixou muito triste.
— Também percebi isso, mas não me importa o que aconteceu antes, só me importa o futuro e este, quero passar ao lado dela e da Maria.
É uma menina linda, não é?
— Sim, é linda mesmo e muito inteligente.
— E forte também!
Você não viu, mas durante a tempestade, foi a única criança que não chorou.
Abraçou-se a mim e ficou quietinha.
— Em seus braços fortes, ela sentiu-se segura.
Lola também estava protegida por você.
Ficou o tempo todo, abraçada a você.
Apesar de todo aquele desespero, pude notar.
Acho que ela também está gostando de você, Rafael.
— Será, Carmem?
— Tenho certeza.
Pode conversar com ela e falar do seu amor.
Tenho certeza de que é o que ela está esperando.
— Não sei se é a hora.
Não será melhor esperar até chegarmos ao Brasil?
— Não espere.
Fale durante a viagem, assim, quando chegarem, poderão se apresentar como casados.
Muitas pessoas perderam os documentos, basta dizer que perderam os seus e tudo ficará bem.
Ela e Maria terão o seu nome.
Ouvi dizer que, para casados, as casas oferecidas são melhores.
Vocês poderão unir o útil ao agradável.
— Tem razão, hoje mesmo vou conversar com ela.
— Faça isso.
Você merece ser feliz.
— Você também, Carmem, sei que ainda vai encontrar o amor da sua vida.
— Tomara...
Acho difícil, mas tomara...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:51 pm

— Precisa acreditar.
Assim como o sol voltou a brilhar após a tempestade, também a nossa vida vai mudar quando chegarmos no Brasil.
Você vai ver como tudo vai dar certo.
Vamos ter a nossa terra, plantar e colher.
Pelo contrato, precisamos trabalhar até a primeira colheita, depois, se quisermos, poderemos ir embora.
Sabe que trabalho com ferro e que não sou bom agricultor, só tive de mentir que era para poder receber a passagem.
Por isso, assim que terminar o contrato vou tentar abrir o meu próprio negócio com ferro e fazer belos portões e portas, Carmem.
Eu e a Lola vamos nos casar, você, bonita como é, vai encontrar alguém que a ame e que a faça feliz.
— Não entendo como, depois de tudo o que passamos, pode ainda ter tanta esperança, Rafael.
— Precisamos ter esperança, Carmem.
Ela é a única coisa que nos resta.
Vamos recomeçar a vida em um país grande e bonito.
Dizem que seu povo é amigo e acolhedor.
Não podemos desanimar.
Não agora que estamos quase chegando e tão perto de encontrarmos a nossa felicidade.
Ao ver tanta esperança nos olhos dele, ela, por um tempo, não conseguiu emitir um som, apenas sorriu.
Depois disse:
— Espero que esteja certo Rafael.
Tem razão, merecemos ter essa felicidade sonhada por você.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:51 pm

Contando a história
Os dias foram passando.
As pessoas continuaram a ficar doentes, algumas morreram e, como aconteceu com a mãe de Carmem, também, sem ter outra solução, foram jogadas ao mar.
Em uma tarde, após passar o dia inteiro cuidando dos doentes, Lola, cansada, estava sentada no convés olhando para o céu que tinha poucas nuvens, mas brilhante pela luz forte do sol.
Rafael se aproximou:
— Como você está Lola?
Deve estar muito cansada.
— Estou cansada sim, mas bem.
Estou mais tranquila, pois parece que a febre está passando.
Já há alguns dias, ninguém fica com ela.
Acho que o perigo passou.
Tomara, porque é muito triste ver as pessoas ficarem doentes e não ter como ajudá-las.
— Ainda bem que ninguém está ficando doente, Lola.
Muitos morreram e já foi o suficiente.
Chega de tanta dor.
— O que mais me deixa triste e desesperada é a impotência diante da morte, nada podemos fazer para evitá-la, isso me traz muita dor.
Portanto, cuidar dos doentes é a única coisa que podemos fazer, não é?
— Sim, diante de tanto sofrimento, somente o que podemos fazer é cuidar bem delas, Lola.
— Tem razão, Rafael, e o que mais me dói é saber que essas pessoas não conseguiram realizar o desejo de ir para uma terra boa, onde acreditavam, assim como nós, que teriam toda a felicidade do mundo.
Isso não é justo!
— É verdade, Lola, mas o que podemos fazer.
A vida é mesmo assim.
— Sim, a vida é mesmo assim, mas, às vezes, sinto que algo está errado.
— O quê, Lola?
— Não entendo por que algumas pessoas têm a vida tão diferente das outras.
Algumas são ricas, bonitas e conseguem tudo o que desejam, outras, nada têm e, por mais que lutem, nunca conseguem realizar um sonho qualquer.
Por que isso acontece, Rafael?
— Também, algumas vezes, já pensei sobre isso, mas não encontrei resposta.
No final, só posso dizer que Deus é quem sabe das coisas, a nós, só resta esperar e procurar viver da melhor maneira possível.
— Sim, Rafael, só Ele é quem sabe das coisas.
Como você disse, vamos entregar nossa vida nas mãos Dele.
— Tem razão, é a única coisa que podemos fazer.
Rafael olhou para Maria que brincava com uma boneca de tecido feita por Lola.
Comentou:
— Maria está muito bem, não é, Lola?
Ela, na sua inocência, não percebe o que está acontecendo.
— Graças a Deus que ela não percebe o que está acontecendo, agradeço também por não ter tido a febre.
Agora, acho que o perigo passou.
Não sei como agradecer a você e a Carmem por terem cuidado dela todo esse tempo e tentarem deixá-la afastada o máximo possível dos doentes.
— Não foi trabalho algum.
Gostamos muito dela e só cuidamos porque você estava cuidando dos doentes.
Era o mínimo que poderíamos fazer.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:51 pm

— Apesar de eu ter cuidado deles, não adiantou muito, pois todos que ficaram doentes morreram.
— Adiantou, sim, Lola!
Mesmo que tenham morrido, você estava ao lado deles, dando-lhes conforto e carinho.
— Tentei fazer o melhor, mas gostaria de poder ter ajudado mais.
— Você ajudou Lola.
Eles, tendo você ao seu lado, morreram em paz.
— Infelizmente, nada mais pude fazer...
Ele fixou um tempo com os olhos perdidos no espaço, depois, disse:
— Não sei se é hora, mas preciso lhe dizer uma coisa, Lola.
— O quê, Rafael?
Pode dizer.
— Desde o primeiro dia em que a vi, me apaixonei.
Estive esperando este tempo todo para me declarar.
Agora que tudo está passando e estamos quase chegando ao nosso destino, acho que chegou a hora de eu lhe fazer uma pergunta.
— Que pergunta?
— Quer se casar comigo?
Lola levou um susto.
Também estava apaixonada por ele, mas não pensou que ele se declararia daquela maneira.
Emocionada, respondeu:
— Não sei o que dizer.
Também gostei de você, mas jurei que nunca mais deixaria me envolver por homem algum.
Pretendo viver somente para Maria.
— Você é muito jovem para tomar uma decisão como essa.
Não sei o que aconteceu em sua vida e não me interessa.
Gosto de você e quero que seja minha mulher.
Desejo viver ao seu lado e ajudá-la a cuidar de Maria.
Se aceitar o meu pedido, vou fazer tudo para sermos felizes.
— Não sei... não sei... já sofri tanto...
— Isso foi no passado.
Daqui para frente, vai ser diferente.
Sei que na realidade, não sabemos o que nos espera no futuro, mas, seja o que for quero estar ao seu lado.
Sei que, juntos, seremos felizes e conseguiremos ultrapassar qualquer dificuldade.
Aceite o meu pedido, Lola... garanto que não se arrependerá.
— Embora não quisesse, assim que o vi, também gostei de você, mas, mesmo assim, estou com medo...
— Não sei o que fizeram com você, mas o que passou, passou, daqui para frente, uma nova vida surge para nós.
Vamos pedir ao comandante que nos case.
Ele pode fazer isso.
Assim, quando chegarmos, poderemos nos apresentar como marido e mulher.
Ela pensou por algum tempo. Depois disse:
— Está bem. Aceito seu pedido, mas é preciso que lhe conte o que aconteceu em minha vida, o porquê de eu estar viajando sozinha, somente com minha filha.
— Para mim, não fará a menor diferença.
Não me interessa.
O que passou, passou e só me interessa daqui para frente.
Porém, se quiser, se achar necessário, conte.
Ouvirei com atenção.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:52 pm

— Preciso contar.
Se vamos ficar juntos, não quero que haja segredo algum.
Precisamos sempre ser sinceros um com o outro.
— Está bem.
Embora saiba que não fará diferença alguma, ouvirei o que quer dizer.
Lola contou até o momento em que Manolo estava se preparando para partir.
Continuou:
— Estávamos felizes.
Eu me sentia a mulher mais feliz deste mundo.
Faltavam dez dias para ele partir, quando descobri que estava grávida.
Aquilo me tomou de surpresa, pois, durante todo o tempo em que nos encontramos, nunca havia pensado nem passado pela minha cabeça que eu poderia ficar grávida.
Assustada, disse para Manolo:
— Estou grávida.
— Como? Grávida?!
— Sim, acabei de saber.
Não sei o que vamos fazer.
— Não se preocupe com isso.
Vou conversar com meus pais, nos casaremos e tudo ficará bem.
Sei que eles ficarão felizes em saber que serão avós e, juntos, criaremos a nossa criança.
— Será que eles entenderão e me aceitarão?
Sabe que não sou a mulher com quem eles sonharam para você...
— Isso não importa.
Eu vou escolher a mulher com quem quero ficar.
Embora, hoje em dia, isso seja normal, não vou permitir que meus pais interfiram na minha vida.
Eles sabem disso.
Meu pai quer que eu me case com a filha de um rico fazendeiro, mas já lhe disse que não farei isso, pois ela não é a mulher com quem quero me casar.
Desde que a conheci, soube que era com você que eu queria ficar, Lola.
— Tomara que eles entendam e me aceitem...
— Eles, a princípio, ficarão bravos, mas com o tempo terão de aceitar.
Sei que, embora, para nós, pareça que estejam errados, para eles não.
Você sabe que sempre foi assim, os pais que escolhem com quem os filhos se casam, mas, com os meus, será diferente.
Eles me amam e assim que tiverem a certeza de que nos amamos de verdade e de que o nosso casamento será o melhor que poderia me acontecer, aceitarão e seremos felizes para sempre.
— Eu ouvi aquilo e fiquei tranquila.
Sabia que Manolo me amava e que aquele amor enfrentaria qualquer dificuldade, mas...
— Mas o quê, Lola?
O que aconteceu?
Ele não cumpriu o prometido?
— Cumpriu! Manolo me pegou pela mão e fomos conversar com seus pais.
Assim que entramos, os encontramos sentados em poltronas na sala de estar.
Ainda segurando minha mão, Manolo me puxou e nos aproximamos.
Seus pais acompanharam nossos movimentos com os olhos.
Dom António, nervoso, levantou-se e perguntou, gritando:
— Que significa isto, Manolo?
— Precisamos conversar com o senhor e com a mamãe, papai.
— Precisamos?
O que está fazendo com essa moça e segurando-a pela mão?
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:52 pm

— É justamente por isso que estamos aqui.
Eu quero me casar com a Lola e vim pedir a sua bênção.
— Casar! O que está dizendo?
Casar com uma serviçal, meu filho?
Nunca, nunca!
— Sei que o senhor agora não está entendendo nem aceitando, mas sei também que, com o tempo, entenderá e aceitará Lola e o nosso filho que vai nascer.
Sei que vamos ser felizes e que é isso o que o senhor quer, a minha felicidade.
— Dona Maria das Graças que até agora permanecia sentada, levantou-se rapidamente e também perguntou:
— Um filho? Está dizendo que ela está esperando um filho seu?
— Exactamente isso, mamãe.
Ela está esperando um filho e eu estou muito feliz.
Por isso, quero me casar com ela e dar um nome para essa criança.
— O pai dele ficou furioso e gritou:
— Meu nome?
Acha que vou dar meu nome para uma criança qualquer que nem tenho certeza de que seja meu neto mesmo?
Você sabe ou imagina o que o nosso nome significa, Manolo?
Você sabe o quanto ele é respeitado?
— Sei que para o senhor isso tem muito valor, papai, mas para mim é simplesmente um nome, nada, além disso.
— Não, não é só isso, não senhor!
Nosso nome é o mais respeitado neste lugar e em muitos outros!
Como posso chegar aos meus amigos e dizer que meu filho se casou com uma camponesa sem ter onde cair morta?
Você louco mesmo, Manolo!
— Não me importa o que as pessoas possam pensar ou dizer, papai!
Amo Lola e quero me casar e ser feliz ao lado dela e do nosso filho!
— Manolo disse isso segurando forte a minha mão, que tremia muito.
Seu pai olhou para mim e gritou com fúria:
— Você foi muito inteligente, menina, conseguiu envolver o meu filho e ele ingénuo como é, se deixou levar por seus encantos.
Ele é ingénuo, mas eu não.
Não vou permitir que ele cometa essa loucura!
Quanto quer para deixá-lo livre?
Posso lhe dar dinheiro suficiente para ir embora desta cidade e ter uma boa vida onde quiser, você e essa sua cria!
Quanto quer?
Pode pedir o valor que quiser!
Eu pago!
— Ao ouvir aquilo, embora tentasse segurar, não consegui e lágrimas começaram a cair por meu rosto.
Antes que Manolo ou eu dissesse alguma coisa, dona Maria das Graças, calma, disse:
— Espere aí, António, você está nervoso e se esquecendo do principal, da felicidade do nosso filho e dessa criança que está vindo e que não tem culpa alguma.
Essa criança é nossa neta, António...
Não podemos abandoná-la...
— Nossa neta?
Como pode dizer isso, Graça?
Não sabe com quantos homens essa aí se deitou!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:52 pm

— Manolo se ofendeu e correu em minha defesa:
— Não admito que o senhor diga isso a respeito da mulher com quem vou me casar, com a sua aprovação ou não.
— Dona Maria das Graças, desesperada, voltou a intervir:
— Espere meu filho, tenha calma, pois se essa conversa continuar assim, não poderá dar bom resultado.
Vamos nos acalmar e encontrar uma solução que faça a todos felizes...
— Cale a boca, mulher!
Quem lhe autorizou a se intrometer em uma conversa como essa?
Você não tem que dar palpite algum, tem apenas que ouvir e aceitar a minha decisão!
Quem manda nesta casa sou eu, mais ninguém, entendeu?
Vá para a cozinha junto às empregadas, lá é o seu lugar!
Esse assunto é meu!
— Para meu desespero, vi que dona Maria das Graças, chorando, abaixou a cabeça e saiu da sala.
Manolo, alterado disse:
— O senhor pode mandar nesta casa, na mamãe, nos seus empregados, mas não na minha vida!
Quem manda nela sou eu e vou me casar com Lola, queira o senhor ou não!
— Vai se casar?
Pois faça isso e não terá um tostão meu!
Hoje mesmo vou ao tabelião e mandarei que tire o seu nome do meu testamento!
Viva com aquilo que ganhar com o seu trabalho!
Com aquilo que sabe fazer!
Que é nada! Durante toda sua vida, viveu do meu dinheiro, só estudando!
Agora, chega!
Saia da minha casa e só volte quando pensar bem e entender que está estragando sua vida por uma mulher que não vale nada e que por qualquer tostão se entregaria a você ou a outro qualquer!
— Manolo, ainda segurando minha mão, ficou calado e me arrastou dali.
Eu, chorando, o acompanhei.
— Se ele saiu com você dali, por que está fazendo esta viagem sozinha, apenas com sua filha?
Lola ia responder, mas Carmem se aproximou e, assustada, disse:
— Lola, Rafael, meu pai está com a febre, será que ele também vai morrer?
Imediatamente, os dois se levantaram e foram para junto do pai de Carmem, que realmente tremia muito e delirava.
Lola olhou para Rafael e ele entendeu aquele olhar, não havia o que fazer.
Eles sabiam que o velho senhor, assim como havia acontecido com os outros, também morreria.
Carmem também sabia disso e, desesperada, começou a chorar:
— Ele não pode morrer, Lola.
Minha mãe já foi jogada ao mar e agora, se acontecer o mesmo com ele, só restarão meus irmãos e eu.
O que vamos fazer?
Nunca tomamos decisão alguma sem eles, foi papai quem sempre decidiu a nossa vida...
— Fique calma, Carmem.
Seu pai é forte, pode ser que ele consiga sobreviver, alguns estão conseguindo.
— Sim, mas todos são jovens e fortes, ele já está velho, sei que vai morrer.
Além disso, quem garante que aqueles que estão resistindo continuarão assim até chegarmos ao porto?
— Tem razão, não há garantia alguma, mas vamos rezar para que eles consigam e seu pai também.
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Ave sem Ninho

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:52 pm

Precisamos cuidar dele da maneira que pudermos e esperar que se recupere.
— Lola está certa, Carmem.
Não adianta se desesperar.
Vamos cuidar dele e esperar a vontade de Deus...
— Que Deus, Rafael?
O mesmo Deus que fez com que todos chegassem a um extremo de pobreza que nos obrigou a abandonar as nossas casas e terras?
O mesmo Deus que permitiu que tantas pessoas já tão sofridas pegassem essa maldita febre, morressem e fossem jogadas ao mar como animais, sem ter um túmulo onde as pessoas que as amam possam rezar e chorar ou simplesmente acender uma vela?
Não posso acreditar nesse Deus!
Ele nunca me deu nada, apenas tirou tudo.
Aliás, o pouco que eu tinha!
Não posso rezar, só posso amaldiçoar esse Deus!
— Você está nervosa, Carmem, e não sabe o que está dizendo.
Fique com Maria, eu cuido do seu pai.
Você não está em condições.
Sabe que farei tudo o que puder e que estiver ao meu alcance.
— É isso mesmo, Carmem.
Você está nervosa, tente se acalmar.
Embora não seja o ideal, é a única coisa que podemos fazer.
Fique com Maria.
Eu e a Lola cuidaremos do seu pai.
Carmem, chorando, pegou Maria dos braços de Lola e se afastou.
Lola e Rafael foram até onde o pai de Carmem estava.
Ela, olhando primeiro para o senhor, depois para Rafael, abaixou-se, colocou a mão na testa do velho senhor.
Levantou-se, molhou um pano branco com água e colocou sobre a testa dele.
Fechou os olhos e começou a rezar.
Rafael também se abaixou, perguntando:
— O que você acha Lola, ele está mal?
Ela respondeu baixinho:
— Está sim, Rafael, acho que não vai resistir...
— Isso é terrível.
Carmem já está revoltada o suficiente.
Não sei o que vai fazer.
— Também sinto isso, mas, se pensarmos bem, ela tem razão.
Já sofremos tanto, fomos obrigados a abandonar nossas casas, terras e até o país e agora toda essa dor e tristeza.
Tantos sonhos desfeitos...
— Infelizmente, o que está dizendo é a verdade, Lola, mas nada há o que se fazer.
Sei que vai cuidar dele o melhor possível.
— Com certeza, eu vou cuidar.
Agora, vá até onde a Carmem está e converse com ela.
Está precisando de uma palavra amiga.
Embora eu só a tenha conhecido agora, me considero sua amiga e, depois que tudo isto terminar, vou ficar ao seu lado.
Ainda bem que estamos indo para a mesma fazenda.
Vamos estar sempre juntos, não é?
— Claro que sim.
Os irmãos dela são ainda muito jovens, não saberiam viver sem o pai para encaminhá-los.
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Ave sem Ninho

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:52 pm

— É verdade...
Mas nós lhes daremos toda a assistência de que precisarem.
Agora, vá até lá.
Rafael se levantou e foi para junto de Carmem, que olhava Maria brincar com as outras crianças.
— Ele não está bem, Carmem, precisa se preparar.
— Como me preparar, Rafael?
Quando meu pai decidiu fazer esta viagem, foi pensando no nosso bem.
Ele sempre dirigiu a nossa vida.
Como vamos fazer para viver sem ele?
Nem eu nem meus irmãos temos experiência alguma da vida e do trabalho.
Por que está acontecendo isso com a gente, Rafael?
O que fizemos para merecer tanto sofrimento?
— Não sei responder, Carmem.
Só sei dizer que todas as pessoas que conhecemos estão na mesma situação.
Às vezes chego a pensar igual a você, parece que Deus se esqueceu de todos nós.
— Ele não existe, Rafael!
— Está bem, mas, agora, fique calma, estaremos sempre ao seu lado e ao de seus irmãos.
Estamos indo para a mesma fazenda, eu vou orientar seus irmãos para o trabalho.
No final, tudo vai passar e a vida vai continuar.
Carmem secou o rosto com as mãos e disse:
— Obrigada, Rafael.
Sei que sempre estarão ao meu lado.
Só posso agradecer por você ter vindo junto connosco nesta viagem e eu ter conhecido Lola.
Ela é uma boa amiga.
— É sim e pode ter certeza de que ela vai fazer tudo o que puder para ajudar o seu pai.
Carmem ia dizer alguma coisa, mas Maria se aproximou correndo e se abraçou a ela que, abraçando a menina, recomeçou a chorar.
Rafael, percebendo que Carmem se distrairia com a menina, se afastou e foi para junto de Lola, que continuava ao lado do pai de Carmem.
— Como ele está Lola?
— Nada bem.
Acho que ele não vai passar desta noite.
Precisamos estar preparados para ficar ao lado de Carmem e de seus irmãos.
Ainda bem que, segundo o comandante, faltam menos de quinze dias para chegarmos.
Isso é bom, pois se alguém mais ficar doente, em terra vai ser mais fácil receber atendimento.
— Vamos esperar que os dias que faltam passem depressa, Lola...
Durante o resto daquele dia e toda a noite, Lola e Rafael
ficaram ao lado do velho senhor.
Carmem, que não suportava ver o pai naquelas condições, ficou ao lado dos irmãos, cuidando de Maria, que, inocente queria brincar.
Não eram ainda seis horas da manhã, quando o senhor deu o último suspiro.
Lola, chorando pela impotência diante da morte e pela falta de atendimento médico que tanto ele como todos os outros tiveram, começou a chorar.
Rafael se afastou e foi avisar a Carmem, seus irmãos e ao comandante do navio que, nervoso, disse:
— Se eu soubesse que aceitando vocês no meu navio isso poderia acontecer, jamais teria aceitado a proposta!
No final, o dinheiro que vou receber não vai valer à pena.
Meu navio está contaminado, nem sei o quanto vou gastar para que ele possa navegar novamente.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:53 pm

— Desculpe senhor, mas essa doença chegou ao navio, devido à falta de condições e de higiene.
O senhor deveria, ao invés de ficar preocupado só com o dinheiro que ia receber, se preocupar em dar uma melhor condição para aqueles que iam fazer essa viagem.
Ao ouvir aquilo, o comandante ficou furioso e gritou:
— O senhor sabe que eu sou o comandante, portanto sou a lei neste navio e não aceito que venha me criticar!
Pelo dinheiro que me pagaram, não poderia oferecer nada melhor!
Agora, vamos fazer o que tem de ser feito.
Rafael, ao mesmo tempo em que ficou nervoso com o que ele disse, entendeu sua situação.
Afinal, aquele era o seu meio de ganhar dinheiro para sustentar sua família e, no final, ele também era uma vítima como eles.
Carmem e os irmãos, embora chorassem, sabiam que nada poderia ser feito.
A mesma cerimónia que ocorrera tantas vezes voltou a acontecer.
O corpo do senhor, após uma breve oração, foi jogado ao mar.
Carmem, durante todo o tempo, ficou calada e não permitiu que lágrima alguma caísse de seus olhos.
Lola, cansada por todo o tempo em que ficou ao lado do doente, durante a cerimónia, chorando, pensou:
Por que, meu Deus?
Por que tudo isso está acontecendo?
Por que tanto sofrimento?
Somos pessoas simples, nunca fizemos mal algum a ninguém...
Não merecemos tanto sofrimento...
Após a cerimónia, todos os que a acompanharam voltaram aos seus lugares.
Estavam em silêncio, não tinham o que falar.
De todas as pessoas que embarcaram cheios de esperança, mais da metade havia morrido e o restante estava apavorado, com medo de também ser acometido por aquela febre, já que havia pouca chance de sobrevivência.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:53 pm

Incompreensão
Lola, cansada por ter passado a noite toda em claro, recostou-se na rede, sem perceber, adormeceu.
Rafael, ao vê-la dormindo, sorriu e deitou-se ao seu lado, abraçou-a e adormeceu também.
Carmem, que estava brincando com Maria no convés, desceu para falar com Lola.
Ao vê-la dormindo abraçada a Rafael, voltou para o convés e continuou brincando com a menina.
Depois de algum tempo, Lola acordou.
Ao ver Rafael ao seu lado, sorriu e pensou:
Ele é um bom homem.
Sinto que, ao seu lado, vou, finalmente, ser feliz.
Ele gosta da Maria e ela dele.
Pensar que tudo poderia ter sido diferente.
Que hoje eu poderia estar ao lado de Manolo...
Sei que seríamos felizes...
Ele bem que tentou, mas não conseguiu.
Quando me lembro daquele dia, meu corpo todo treme.
Quando saímos da casa de seu pai, ele, tranquilo, disse:
— Lola, não importa o que meu pai diga, vou ficar com você e com nossa criança que está chegando.
— Não acho certo você brigar com seu pai por minha causa.
Em parte ele tem razão.
Sou apenas a filha de um agricultor e você tem um bom sangue e um nome respeitável que não pode ser dado a qualquer uma...
— Como pode dizer isso?
Você não é qualquer uma, é a mulher que amo e com quem quero passar o resto da minha vida!
Esse negócio de sangue, de nome, é tudo bobagem, porque, no final, tanto o sangue do meu pai como o do seu, tanto o meu nome quanto o seu, vão para o mesmo lugar, todos morrem e o nome, com o tempo, desaparece também, Lola!
Acredito que estamos nesta terra para sermos felizes e sei que só serei feliz ao seu lado e ao da nossa criança.
Nós nos amamos e nada nem ninguém vai poder mudar isso ou impedir!
Vamos ser felizes, você vai ver!
Eu gostei de ouvir o que ele disse, mas, ao mesmo tempo, senti muito medo.
Desde o início, sempre soube que aquele amor era impossível.
Disse:
— Tenho medo de que seu pai queira se vingar no meu e nos expulse da fazenda.
Se isso acontecer, não sei o que vai acontecer.
Meu pai, com certeza, vai ficar muito bravo quando descobrir o que aconteceu.
Ele respeita muito o seu por ter nos recebido na fazenda, nos dado trabalho quando não tínhamos para onde ir.
Se seu pai o expulsar por minha causa, ele vai me odiar e me expulsar de casa e eu nunca vou me perdoar, Manolo...
— Fique tranquila, Lola.
Meu pai não vai mandar o seu embora.
Ele não os recebeu porque é bom ou porque gosta do seu pai.
Ele os recebeu porque precisa de mão-de-obra barata e, na situação em que seu pai chegou, exigiria pouco para trabalhar.
Ele sabia que seu pai, agradecido, trabalharia com vontade e não se importaria com o quanto receberia por isso.
Ele poderá fazer tudo contra nós, mas nada contra a sua família.
Não é o seu pai que precisa dele, ao contrário, é o meu que precisa do seu pai.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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