O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:53 pm

— Espero que esteja certo, pois minha família não tem para onde ir.
Não quero que nada aconteça a ela por aquilo que estou fazendo.
— Não se preocupe que nada vai acontecer com eles.
— Espero que esteja certo, mas, agora que você enfrentou seu pai e saiu da sua casa, o que vamos fazer?
— Vamos até sua casa, preciso conversar com seu pai e pedir sua mão em casamento.
— Você vai fazer isso?
— Claro que vou!
Tinha alguma dúvida sobre isso?
Até que eu resolva o que fazer com a nossa vida, pedirei ao seu pai que nos deixe ficar na sua casa por algum tempo.
Acha que ele vai concordar?
— Não sei Manolo.
Meu pai é muito rígido quanto a questões morais.
Assim que souber que estou esperando um filho, ficará possesso, não posso imaginar o que vai fazer.
Além do mais, você não pode ficar morando na nossa casa, pois ela, além de pequena, é muito pobre.
Não é lugar para você...
— Não se preocupe com isso, o meu lugar é ao seu lado seja onde for.
Não me importo em morar em casa simples.
Só quero ficar ao seu lado, nada mais.
— Está bem. Amo você e vou fazer o que quiser.
Vamos até a casa e ver o que meu pai diz.
Só quero lhe avisar que não deve esperar muito.
Ele dificilmente fará qualquer coisa que possa desgostar ao seu pai.
— Sei disso, mas precisamos saber o que ele vai fazer e isso só vai acontecer quando falarmos com ele.
Vamos para sua casa e veremos o que ele vai dizer.
Quando chegamos a casa, era um pouco mais das onze horas da manhã.
Meu pai, que havia trabalhado durante toda a manhã, estava no quintal, sentado em um banco com um prato de comida na mão.
Estranhou ao nos ver chegar, perguntou:
— O que está fazendo aqui Lola?
Não devia estar trabalhando?
— Ela não trabalha mais lá em casa, senhor José.
— Como não? Por quê?
— Porque vamos nos casar e ela não vai precisar trabalhar mais.
Meu pai levantou-se, assustado:
— Casar? O que está dizendo?
— Estou dizendo que vou me casar com sua filha e que é por isso que estou aqui
Quero pedir a mão dela em casamento.
Espero que aceite e nos abençoe.
— Abençoar?!
Acha que acredito que o senhor, sendo quem é, pode querer se casar com uma moça como a minha filha?
Pobre e sem instrução?
O senhor deve estar brincando!
Pois saiba que, embora pobre, sou uma pessoa honesta e não vou permitir que minha filha seja iludida pelo senhor! Lola!
Entre em casa e não saia até eu mandar!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:53 pm

Eu conhecia meu pai, sabia como levava a sério a moral.
Tremendo e sabendo que seria difícil fazer com que ele aceitasse a minha situação, chorando, entrei e fiquei ouvindo a conversa.
Manolo, mantendo calma, disse:
— Não estou iludindo sua filha.
Gosto dela e quero realmente me casar.
Estou aqui para pedir o seu consentimento, mas, se não der, não teremos alternativa a não ser irmos embora.
— Nunca! Minha filha não sair da minha casa sem estar casada para acompanhar o senhor nem outro qualquer!
Ela é minha filha e não pode fazer nada sem minha autorização!
Sou o pai dela!
Eu mando nela e na sua vida!
Ela vai fazer o que eu quiser!
— Sinto muito, mas sua autoridade terminou.
Ela está esperando um filho meu e, agora, é minha obrigação cuidar dos dois.
— Um filho? Está dizendo que ela está esperando um filho?
— Sim, por isso quero me casar para poder dar o meu nome a ela e à criança.
Ao lado de minha mãe, que apertava meu braço com força, vi que meu pai ficou vermelho.
Pareceu que todo o sangue de seu corpo subiu para a cabeça.
Nervoso, gritou:
— Lola!
Tremendo muito, pois sabia que, quando contrariado, ele se tornava violento, saí.
Fiquei junto a ele com a cabeça baixa.
Ele, gritando, disse:
— Levante a cabeça, olhe nos meus olhos!
Com muito esforço e tremendo de medo, levantei a cabeça e olhei em seus olhos.
Ele, ainda gritando e muito nervoso, perguntou:
— Lola! É verdade o que esse moço está dizendo?
— É, pai. Estou mesmo esperando uma criança.
— Como pôde fazer isso?
Não foi para isso que a criei!
Nunca pensei que minha filha se tornaria uma vagabunda!
Você sabe que, com essa sua atitude, enlameou o meu nome que, embora pobre, sempre foi honesto?
Eu sabia que ele, em parte, tinha razão.
Eu havia mesmo praticado um erro horrível.
Sem saber o que dizer, continuei calada e abaixei a cabeça.
Ele levantou o braço para me bater.
Manolo segurou sua mão:
— O senhor não vai bater nela!
Não vou permitir!
Ela agora está sob a minha responsabilidade!
Está esperando um filho meu!
Meu pai percebeu que, pela primeira vez, Manolo levantou a voz e que faria qualquer coisa para me proteger.
Abaixou o braço, perguntado:
— Seu pai sabe disso?
— Sim, sabe.
Acabei de conversar com ele.
— Ele aceitou?
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:54 pm

— Não, mas isso não me importa.
Gosto da sua filha e quero me casar com ela.
Meu pai, vermelho de ódio, voltou-se para mim e perguntou:
— Lola, você percebeu o que fez?
Dom António foi bom para mim, me recebeu aqui, deu trabalho e você paga dessa maneira?
O que acha que ele vai fazer agora?
Vai colocar todos nós para fora daqui!
O que eu e seus irmãos vamos fazer?
Sabe que não temos para onde ir!
— Não se preocupe com isso, senhor José, meu pai nada fará com o senhor nem com sua família.
Ele não os recebeu por bondade, mas porque precisa do seu trabalho quase escravo.
Como ele não aceitou o meu casamento, saí de casa e preciso de algum tempo para resolver o que fazer.
Quero saber se o senhor me acolhe na sua casa por esse tempo.
Prometo que não vai demorar muito.
— Aqui na minha casa? Nunca!
Se eu fizer isso, seu pai não vai me perdoar.
Além do mais, não quero, na minha casa, nem o senhor nem essa vagabunda que não é mais minha filha!
Pode, por favor, sair da minha casa e levar essa perdida com o senhor!
De hoje em diante, minha filha morreu e não me importa o que possa acontecer com ela!
— Está bem, vamos embora, mas não admito que fale assim da sua filha!
— Já disse que ela não é mais minha filha!
Ela acabou de morrer e já está enterrada!
Saia, por favor!
Minha mãe, que estava dentro de casa, saiu, veio para junto de nós e tentou interferir:
— Espere José, você está nervoso.
Ela é nossa filha não pode ser colocada na rua, ainda mais esperando uma criança.
Você precisa ajudar os dois.
Eles se gostam e o moço está com boas intenções...
Quer se casar com ela...
Ele olhou para ela com os olhos faiscando:
— Não lhe pedi opinião!
Fique no seu lugar!
Já mandei você ir para a cozinha lavar a louça!
Lá é o seu lugar!
Não aqui dando palpite no que não lhe diz respeito!
Ela olhou para mim, percebi que seus olhos estavam cheios de água, não só por minha causa, mas também pela humilhação que estava sentindo.
Eu sabia que, embora não gostasse, a vida era assim, a mulher nada representava.
Era apenas a reprodutora e a doméstica da casa.
Não tinha o direito de dar uma opinião nem de decidir.
Olhei para ela e sorri, tentando dar-lhe um pouco de tranquilidade.
Ela, com lágrimas nos olhos, sorriu e voltou para a cozinha.
Assim que ela se afastou, embora preocupada com o que meu pai e Manolo resolveriam, pensei:
Por que tem de ser assim?
Por que a mulher não pode ser dona da sua vida, do seu destino?
Deus queira que isso, um dia, mude.
Que a mulher possa ser considerada como gente, não como um animal sem vontade...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:54 pm

Percebendo que nada mais poderíamos fazer ali, Manolo pegou em minha mão e disse:
— Está bem. Já que o senhor quer assim, estamos indo embora.
Quando encontrarmos um lugar para ficar, mandarei avisá-lo para que saiba onde sua filha está.
— Não precisa se dar a esse trabalho!
Já lhe disse que, de hoje em diante, não tenho mais filha!
Ela morreu e está enterrada.
Aquelas palavras entraram em meus ouvidos como se fossem flechas.
Senti vontade de me ajoelhar e pedir perdão.
Quando Manolo percebeu a minha intenção, segurou com força meu braço:
— Vamos embora Lola.
Nada mais temos para fazer aqui.
Sem saber o que fazer, olhei mais uma vez para meu pai que permanecia com o rosto crispado e para minha mãe que, por detrás da janela acompanhava toda a conversa.
Percebi que ela chorava.
Entendi sua impotência.
Sorri e, com a ponta dos dedos, mandei-lhe um beijo.
Ela, com lágrimas nos olhos, também sorriu e retribuiu.
— No que está pensando, Lola?
Ela, que estava com o pensamento distante, olhou para Rafael que perguntava e respondeu:
— Em nada, apenas em como a vida pode mudar de repente.
— Está certa.
Em um momento estamos bem e em outro tudo muda.
Ainda bem que algumas vezes é para melhor.
— Por que está dizendo isso, Rafael?
— Quando decidi fazer esta viagem, era porque estava desesperado, sem trabalho, sem futuro e nunca imaginei que encontraria você e que sentiria esperança novamente.
— Minha mãe sempre diz que a vida é como uma roda, que algumas vezes estamos em cima e outras, embaixo.
Rafael deu uma gargalhada.
— Por que está rindo, Rafael?
— Se isso for verdade, estive sempre por baixo na roda.
Minha vida sempre foi de muito sacrifício.
Nunca tive um momento de paz e felicidade, a não ser agora.
Acho que minha roda está subindo e logo chegará ao alto.
Não sei por que, mas estou sentindo que agora chegou a minha vez.
Agora quem riu foi Lola:
— Sabe que estou sentindo o mesmo.
Sinto que a seu lado e ao da Maria, também vou, finalmente, ter um pouco de felicidade.
— Claro que vai!
Tem alguma dúvida?
— Não sei, diante de um futuro tão bom, chego a sentir medo.
— Pois não tenha medo, Lola!
Nada vai impedir que fiquemos juntos nem que sejamos felizes!
— Está bem, mas, antes, você precisa saber o que aconteceu na minha vida e o porquê de eu estar aqui, sem marido, somente com a Maria.
— Quer saber com sinceridade, isso não me importa.
Só sei que está aqui e que vou fazer tudo para que seja feliz.
— Eu preciso lhe contar tudo.
Só assim vamos poder começar uma vida, sem segredos e com confiança.
— Está bem, se isso lhe fizer bem, pode contar.
Sorrindo e com carinho deu um beijo em sua testa.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 20, 2017 7:54 pm

Nesse momento, Carmem, com Maria chorando nos braços, se aproximou:
— Ainda bem que acordou Lola.
Maria está impaciente perguntando pela mãe.
Já não sabia mais o que fazer para que ela parasse de chorar.
— Por que não me acordou Carmem?
— Vim aqui, várias vezes.
Sabia que estavam cansados pela noite que passaram.
Dormiam tão profundamente que não tive coragem de acordar vocês.
— Obrigada, Carmem, por ter ficado com a Maria.
Eu estava realmente cansada e precisava dormir.
Lola se levantou, pegou Maria e beijou-a:
— Não precisa chorar, Maria.
Mamãe está aqui e vai ficar para sempre, até que você cresça e tenha seu marido e filhos.
Assim que Maria se viu nos braços da mãe, parou de chorar.
Lola, segurando-a pela mão, saiu dali e foi lhe dar comida.
Carmem, com os olhos, acompanhou Lola se afastando, depois, sentou-se ao lado de Rafael e disse:
— Ela é uma boa moça.
Estou feliz que estejam se gostando.
Ele suspirou fundo e, sorrindo, disse:
— Também estou feliz, Carmem.
Assim que a vi, meu coração bateu forte, senti que queria que ela fosse minha mulher e que vivesse ao meu lado até o fim dos meus dias.
Acho que, agora, finalmente, serei feliz.
— Estou torcendo para que tudo dê certo.
Nós nos conhecemos desde criança, sou sua amiga e só desejo a sua felicidade.
— Obrigado, Carmem, não poderia esperar outra coisa de você.
Sei que é minha amiga.
Como você está?
— Pode imaginar.
Estou perdida, sem rumo.
Ao contrário de você, parece que minha vida está cada vez pior.
Por mais que pense, não entendo por que isso acontece.
Por que tudo que tento fazer nunca dá certo?
Não sei o que fazer com meus irmãos.
Eles são ainda tão jovens.
— Já lhe disse para não se preocupar.
Eu e a Lola estaremos sempre ao seu lado e daremos toda assistência a vocês.
Essa terra para onde estamos indo, segundo soube, tem muitas oportunidades para aqueles que querem trabalhar.
Sei que você e seus irmãos não têm medo do trabalho.
Tudo vai ficar bem.
— Como bem, Rafael? Perdi meus pais.
O corpo deles foi jogado ao mar e nunca poderei visitar suas sepulturas.
— Não sei Carmem, mas acho que a alma não fica presa na sepultura.
Acho que lá só fica o corpo.
Não seria justo para a alma ficar presa, depois de uma vida tão sofrida como a de seus pais.
Por isso, não precisa visitar a sepultura.
Lá não tem nada, apenas pense com saudade neles.
Foram boas pessoas.
Ouvi dizer que cada um tem uma missão para cumprir, se isso for verdade, eles cumpriram bem a deles.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:44 pm

— Acredita mesmo nisso?
— Alguém, não me lembro quem, no dia em que minha mãe morreu, disse isso.
Naquele dia, eu estava triste e desesperado e não dei muita atenção, mas hoje acho que até pode ser.
Ela, também assim como seus pais, cumpriu bem sua missão, por isso, deve estar em um lugar melhor que a sepultura.
— Seria bom se isso fosse verdade.
Que a alma realmente continuasse, mas não acredito nisso, acho que quando a gente morre, acaba tudo e só resta o pó.
— Pois eu não. Acho que, se fosse assim, seria muito triste e realmente Deus não existiria.
Não seria justo alguém viver com toda dificuldade, sofrer todo tipo de privação e, quando morrer, tudo se acabar.
— Depois de tudo o que passou, do que viu acontecer neste maldito navio, ainda acredita em Deus, Rafael?
— Sim Carmem, acredito.
Não sei se é Deus, mas acho que uma força maior nos protege e nos conduz.
— Onde aprendeu essas coisas, na igreja?
— Não. Sabe que não sou de ir muito à igreja.
Não sei como, apenas sinto.
Ainda mais agora que encontrei a Lola, só pode ser coisa de Deus, do destino, sei lá, só sei que estou feliz demais para ficar triste com esse tipo de pensamento.
Só quero ser feliz ao lado dela e da Maria e de todos os outros filhos que vamos ter.
— Espero que sejam felizes.
Agora vou para junto dos meus irmãos.
Eles também estão desesperados.
— Faça isso.
Eles estão mesmo precisando de companhia.
Carmem se levantou e se afastou.
Rafael continuou ali, sentado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:44 pm

A ajuda sempre chega
Lola pegou um pouco de sêmola, colocou em um prato, acrescentou água e um pouco de açúcar, mexeu bem e deu para Maria.
Enquanto a menina comia, ela pensava:
Sei que isso não é alimento para você, minha filha, mas é só o que tenho.
Quando chegarmos ao nosso destino, você comerá tudo o que é bom e do que gosta.
Esse tempo ruim vai passar...
Rafael, após conversar com Carmem, ficou com os olhos fechados, pensando no futuro.
Quando decidi fazer esta viagem, jamais poderia imaginar que encontraria Lola e que me apaixonaria por ela.
É uma mulher maravilhosa.
Sinto que ao seu lado serei feliz.
Vou ver onde está.
Meu único desejo é o de me casar com ela e protegê-la em todos os momentos.
Levantou-se e foi em busca de Lola.
Ela terminava de dar comida para Maria que, pelo choro manhoso, demonstrava que queria dormir.
Lola que, desde o começo da doença, evitava que Maria ficasse junto aos doentes, estava sentada em uma sombra.
Ele se aproximou:
— Parece que ela está com sono, não é, Lola?
— Está, sim, Rafael.
Essa comida que estou lhe dando não é suficiente, mas é tudo o que tenho.
Logo estaremos em terra e isso mudará.
Ela poderá tomar leite e ter uma alimentação saudável.
Quando decidi fazer esta viagem, embora soubesse que seria difícil, não imaginava que fosse tanto e que não haveria uma alimentação decente.
Nós, os adultos, conseguimos superar, mas as crianças precisam se alimentar bem.
Minha esperança é que cheguemos logo em terra e que, em breve, tenhamos uma boa cama para dormir, boa alimentação e água pata tomar um banho decente.
Maria, apesar de tudo, está reagindo bem.
— Ela é valente Lola.
Puxou a quem, a você ou ao pai?
Lola sorriu, sabia que, embora não admitisse, ele desejava saber o havia se passado em sua vida.
Sorriu enquanto dizia:
— Vou lhe contar o que aconteceu.
— Não precisa Lola.
Só se isso não lhe trouxer sofrimento.
— Não traz Rafael.
Não posso negar que sofri muito, mas tudo já foi superado.
Agora, só penso no meu futuro ao lado da minha filha e no desejo de que ela seja feliz.
Ele sorriu e disse:
— Não se esqueça de me incluir nesses planos.
Ela também sorriu, mas permaneceu calada.
Algum tempo depois, começou a contar o que havia acontecido.
Contou até o momento em que foram expulsos por seu pai.
Continuou:
— Sem destino, saímos dali.
Como brigou com o pai, Manolo não teve tempo de pegar dinheiro algum e só tinha alguns trocados.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:44 pm

Ainda segurando firme em minha mão, disse:
— Lola, sabe que, daqui para frente, teremos de enfrentar um tempo difícil, mas logo passará.
Vamos até a cidade.
Lá, tenho um amigo que poderá nos dar abrigo por um tempo e me ajudar a encontrar um trabalho.
— Trabalhar em que, Manolo?
Você, durante sua vida, somente estudou e ainda não terminou.
O que acha que poderá fazer?
— Não sei Lola, mas sinto que alguma coisa vai aparecer.
Vamos, continue andando.
Não se preocupe, antes de o nosso filho nascer, teremos uma casa para morar e comida não vai lhe faltar.
Ele ou ela será feliz.
Pode ter certeza disso que estou lhe dizendo.
— Eu, não sei por que, acreditei naquilo que ele disse e, também segurando sua mão com força, confiante o acompanhei.
Embora fosse cedo, o sol estava forte e, por muitas vezes, tivemos de parar sob uma árvore para descansar.
Embora não demonstrasse, eu sabia que ele estava preocupado, mas permaneci calada.
A hora do almoço chegou.
Comecei a ficar com fome, mas, sabendo que não havia o que comer me calei.
Ele, entendendo a minha situação e querendo me animar, perguntou:
— Lola, como você quer que eu construa a nossa casa?
— Como casa, Manolo?
Estamos caminhando sem destino.
Como construir uma casa?
— Não custa sonhar, Lola!
Hoje estamos nesta situação, mas tudo vai mudar!
Encontraremos um lugar para ficar, arrumarei um emprego e construirei uma casa!
Por isso quero saber como você quer que ela seja.
— Entendi o que ele estava fazendo, Rafael, e resolvi entrar na brincadeira.
Pensei um pouco, depois disse:
— Quero uma casa toda branca e com as janelas pintadas em azul.
Não precisa ser muito grande.
Uma sala para eu colocar uma mesa bem grande de madeira de lei.
Uma cristaleira para eu colocar os cristais que vou ter.
Um quarto para a nossa criança que está vindo.
Quero um berço bonito.
Vou colocar um véu sobre ele para os mosquitos não a incomodarem.
Claro que quero o nosso quarto.
Este precisa ser bem espaçoso.
As paredes precisam ser pintadas de verde bem claro.
Na cama, vou colocar uma colcha de cetim verde também só que um pouquinho mais escuro.
O quintal precisa ser grande.
Quero fazer a minha horta e ter muitas árvores frutíferas.
Ela deve ser toda cercada com muros brancos e um portão azul.
— Ele começou a rir e disse:
— Só isso?
Quer uma casa simples assim?
— Comecei a rir Rafael, sabendo que ele estava sendo irónico e continuei a brincadeira.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:45 pm

— Pode ser simples para você, mas, para mim, que sempre morei em casa muito pobre, seria como se morasse em um castelo.
— Está bem. Um dia terá sua casa e vai ser da maneira como sonhou.
— Eu sorri feliz.
Desejava ardentemente uma casa como aquela, mas sabia que, naquele momento, era impossível.
Continuamos andando e chegamos em frente a um portão de uma casa mal pintada e com uma pequena cerca feita com bambu.
Manolo disse:
— Lola, sei que está com fome, mas, como sabe, por enquanto, não temos o que comer, mas logo tudo isso passará.
Vamos pedir um pouco de água nesta casa.
— Paramos. Manolo bateu palmas.
Da porta que, provavelmente, deveria ser da sala, uma senhora apareceu.
De longe, nos olhou e se aproximou:
— Posso ajudar?
— Manolo, ainda segurando minha mão, respondeu:
— Desculpe senhora, mas estamos viajando, o sol está forte e estamos com sede.
Será que poderia nos dar um pouco de água para bebermos?
Ela nos olhou e, sorrindo, respondeu:
— Claro que sim.
Esperem um pouco, vou buscar.
— Ela entrou e nós nos sentamos em um pequeno banco feito sobre um tronco de árvore que havia do lado de fora do portão.
Estávamos não só cansados, mas com fome também.
Minutos depois, ela voltou, trazendo uma leiteira e duas canecas de alumínio.
A água estava fresca, provavelmente ela havia tirado de uma moringa.
Aquela água, enquanto descia por nossas gargantas, era com se fosse o maná dos deuses.
Enquanto bebíamos, ela continuou a nos olhar.
Quando lhe devolvemos as canecas, ela disse:
— Vocês são muito jovens.
Está parecendo que estão fugindo de casa.
É isso que está acontecendo?
— Manolo olhou para mim, sorriu e respondeu:
— Não, senhora.
Não estamos fugindo, estamos indo embora.
Fomos expulsos.
Nossos pais não aceitam o nosso amor.
São dominados pelo preconceito.
Sendo assim, como não queremos ficar separados, não nos restou alternativa e aqui estamos, indo para um destino ainda não bem definido, mas sempre juntos.
— Ela ouviu com atenção.
Enquanto ele falava, ela não moveu um músculo do rosto.
Assim que ele terminou de falar, ela disse:
— Pelo que estou vendo, da maneira como o senhor está vestido e da maneira como você também está vestida, pode-se dizer que são de classe social diferente.
Esse foi o motivo de seus pais não terem aceitado?
Foi a diferença social?
— Manolo, com a voz firme, respondeu:
— Sim, senhora.
Infelizmente, foi esse o motivo.
Meu pai tem um nome conhecido e poderoso, julga-se, por isso, quase um Deus.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:45 pm

Eu não me importo com nome, só quero ficar ao lado de Lola, a mulher que amo e que escolhi para me casar e com quem quero ficar para o resto da minha vida.
Ele nos expulsou, mas isso não tem importância.
Assim que chegarmos à cidade, vou conversar com um amigo e ele me arranjará um trabalho.
— Parece que estão, mesmo, dispostos a ficar juntos.
— Estamos sim e nada nem ninguém vai impedir que isso aconteça.
— Está bem, moço.
Pelo visto, além de sede, devem estar com fome também.
Entrem. Vou lhes preparar um prato de comida.
Não é muito, mas o suficiente para que consigam chegar à cidade.
— Entramos e, intimamente, agradecemos a Deus por aquela mulher que Ele havia colocado no nosso caminho.
Assim que entramos por aquela porta por onde ela havia saído, constatamos que realmente era a sala.
Em seguida, nos levou até a cozinha e nos mostrou duas cadeiras junto a uma mesa.
Voltou-se para o fogão de lenha e começou a mexer nas panelas que estavam sobre ele.
Eu, sem saber o que dizer, olhei para Manolo.
Ele também permaneceu calado, mas pegou minha mão e, sorrindo, beijou-a.
Logo depois, a senhora nos apresentou dois pratos contendo batata e verduras cozidas e um pedaço de carne.
Enquanto colocava os pratos sobre a mesa, disse:
— Desculpe, mas só tenho isso para oferecer.
Espero que consiga sustentar vocês por algum tempo.
— Felizes por estarmos diante de um prato com comida, nada dissemos, apenas começamos a comer.
Era uma comida simples, mas saborosa e representou muito para nós.
Enquanto comíamos, ela ficou junto a pia lavando louça.
Percebemos que fez aquilo para que nos sentíssemos bem.
Quando terminamos, ela, enquanto recolhia os pratos, disse:
— Enquanto comiam, estive pensando.
Minutos antes de chegarem, eu estava pensando que precisava tomar uma providência para que minhas terras não continuassem abandonadas.
Sou viúva, meu marido morreu faz seis anos.
Ele trabalhava na Prefeitura, por isso, recebo uma pequena pensão.
Mesmo trabalhando na Prefeitura, ele, com a ajuda de meus dois filhos, plantava e, depois de tirar o nosso sustento, vendia o resto na cidade.
Só tive dois filhos que se casaram, moram na cidade e também trabalham na Prefeitura.
Desde que se casaram, nunca mais se interessaram pelo sítio ou plantação.
Eles querem vender as terras e me levar para morar na cidade com eles, mas eu não quero.
Não vou vender minhas terras nem sair da minha casa.
Aqui me sinto em segurança.
Eu e meu marido trabalhamos muito para consegui-la e só sairei daqui quando morrer.
Meus filhos, de vez quando, aparecem por aqui, eu entendo que não possam vir mais vezes, pois sei que têm suas famílias, suas próprias vidas e não me importo.
Sei que se precisar, eles me acudirão.
Meu marido morreu e eu, sozinha, não tive como cuidar da casa e da plantação e tudo, como podem ver, está abandonado.
Você é forte e, como me parece que estão caminhando sem destino, poderiam morar aqui comigo.
Além de eu não ficar mais sozinha, teriam um tecto para ficar.
Tenho dois quartos e só preciso de um.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:45 pm

— Manolo olhou para mim e, pelo brilho dos meus olhos, percebeu que eu concordaria.
Eu estava cansada e, como ela disse, não tínhamos mesmo um lugar para ir.
Se o amigo de Manolo não nos ajudasse, não imaginaria como seria.
Ele também, sabendo disso, disse:
— A senhora tem razão.
Estamos indo para a cidade, mas não sabemos se realmente encontraremos um lugar para ficar.
Se a senhora quiser nos dar essa chance, ficaremos aqui e eu trabalharei na plantação e na casa também.
A senhora não vai se arrepender.
— Sei disso, meu filho.
Assim que os vi, percebi que eram pessoas de bem e que, se ficarem aqui, tudo será diferente.
Não precisarei mais me preocupar com a solidão nem com minha plantação.
— Só podemos agradecer senhora, mas, antes de ficarmos, precisamos lhe contar que Lola está esperando uma criança.
— Isso, para mim, não será problema algum.
Ao contrário, faz tempo que eu não ouço o choro e a risada de uma criança aqui nesta casa.
Essa criança será bem-vinda e, na medida do possível, terá tudo o que precisar além de muito amor.
— Ficamos ali.
Manolo, como havia dito e embora nunca antes houvesse trabalhado, muito menos em um serviço pesado, para minha surpresa se dedicou muito.
Cuidou da terra, plantou, fez alguns pequenos reparos na casa, pintou.
Em pouco tempo, ela não lembrava nem de longe aquela que encontramos pela primeira vez.
Dona Isabel estava feliz e nós também.
Ela me ensinou a bordar, fazer tricô e croché e, juntas, preparamos o enxoval da Maria.
Seus filhos, durante o tempo em que estivemos ali, só apareceram uma vez e ao verem como o sítio se encontrava, admiraram-se:
— Mãe, como tudo está bonito por aqui!
Parece que a plantação vai render muito!
— Vai sim. Manolo e Lola estão trabalhando muito.
— Isso é muito bom, pois, além do bom trabalho que estão fazendo, ficamos sossegados em saber que a senhora não está sozinha.
— Também estou mais tranquila.
— Daquele dia em diante, Rafael, eles nunca mais voltaram.
Manolo construiu um galinheiro, comprou galinhas que, durante o dia, andavam pelo quintal e, à noite, dormiam no galinheiro.
Com isso, tínhamos ovos e carne.
Construiu também um chiqueiro, comprou dois pequenos leitões que seriam engordados.
A ideia era que, quando estivessem no ponto, fossem mortos.
Uma parte da carne seria salgada e guardada para o nosso uso e a outra seria vendida.
Plantou trigo que crescia além do imaginado, o que demonstrava que a colheita seria boa e que, quando fosse feita, teríamos um bom dinheiro.
Rafael, que a ouvia com atenção, interrompeu-a:
— Se tudo estava tão bem, se Manolo assumiu você e a criança, não entendo qual é o motivo de ele não estar aqui ao seu lado, Lola...
— A vida é estranha, Rafael.
No mesmo instante em que estamos bem, ela pode dar uma volta e tudo mudar.
É aquela história da roda.
Foi isso o que aconteceu.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:45 pm

Desde que chegamos à casa de dona Isabel, a roda começou a subir e ficou no alto por um bom tempo, mas, depois começou a descer novamente.
— O que aconteceu, Lola?
— Faltavam dois meses para Maria nascer.
Manolo havia calculado que, assim que ela nascesse, seria a hora de fazer a colheita.
Eu passava bem.
Todo mês íamos à cidade fazer consulta.
Manolo, todas as manhãs após tomar café, ia para a plantação.
Eu, no início, o acompanhava, mas como faltava pouco tempo para a criança nascer e como eu estava muito pesada, tanto ele como dona Isabel me proibiram.
Ele ia sozinho pela manhã e só voltava na hora do almoço.
Naquele dia, quando chegou a hora do almoço, ele não voltou.
A princípio, ficamos preocupadas, mas dona Isabel disse:
— Não precisa ficar nervosa, Lola.
Conhece o seu marido.
Enquanto não terminar o trabalho, não vai sair da plantação.
Deve estar chegando.
— Eu sabia que ela tinha razão, pois Manolo era mesmo assim.
Esperamos até as duas horas da tarde.
Vendo que ele não chegava, resolvemos ir até lá.
Assim que chegamos, percorremos os corredores plantados e, de longe vimos Manolo deitado.
Corremos para ele e, após chamar muito, dona Isabel colocou a mão no pescoço dele.
Chorando disse:
— Ele está morto, Lola.
— Ao ouvir aquilo, não quis acreditar.
Parecia que eu estava sonhando.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Desesperada e, com dificuldade, baixei e comecei a chamar por ele.
Eu chorava, gritava e o sacudia:
— O que aconteceu, dona Isabel?
Por que ele morreu?
— Ao perceber o meu desespero, embora entendesse, sabia que nada mais poderia ser feito.
Colocou as mãos em meus ombros e me ajudou a levantar.
Depois, disse:
— Não sei o que aconteceu, mas nada mais podemos fazer Lola.
Vamos para casa.
Vou pedir ao Paco que vá chamar a polícia.
Só eles podem responder a essa pergunta.
Rafael, ao ouvir aquilo, nervoso, perguntou:
— Nossa Lola!
Como isso foi acontecer?
— Também não sabia e não entendia Rafael.
Como dona Isabel disse, ela chamou o Paco, nosso vizinho, contou o que aconteceu e pediu que fosse até a cidade chamar a polícia.
A polícia veio, levou o corpo de Manolo e, um dia depois, constatou-se que ele havia tido um ataque no coração.
Provavelmente, ele sofria de algum mal ou talvez tenha sido o esforço sob o sol forte.
Eles não tinham certeza, mas também não me importava.
A única coisa que eu sabia era que Manolo estava morto e que eu estava sozinha com uma criança que ia nascer.
Pode imaginar o meu desespero.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:45 pm

Pedi a Paco que fosse até a fazenda avisar aos meus pais e aos pais de Manolo o acontecido.
Ele foi e quando voltou, disse:
— O pai de Manolo disse que ele não conhece Manolo algum e que não tem filho.
Disse que seu filho morreu no momento em que saiu de sua casa para ficar com você.
— Embora eu soubesse que a sua reacção poderia ser essa, pedi que Paco fosse avisá-lo apenas por obrigação.
Sabia que ele era um homem muito orgulhoso, jamais perdoaria ao filho, não por ter saído de casa, mas, sim, por não ter feito sua vontade e ter desobedecido a uma ordem sua.
Perguntei:
— E a mãe dele, o que disse Paco?
— Quando ouviu o que eu falei, começou a chorar e queria vir imediatamente, mas o pai dele, com ódio na voz, gritou:
— Não sei por que está chorando, Graça?
Essa pessoa que morreu é um estranho!
— É nosso filho, António...
— Já lhe disse que não temos filho algum!
Aquele que tinha morreu no dia em que saiu desta casa!
— Eu, com tristeza, ouvi aquilo e disse:
— Eu imaginava que essa seria sua reacção, Paco, mas achei que deveria avisá-lo.
Sinto pena de dona Maria das Graças que não vai poder dar o último adeus para o filho.
Posso imaginar o que está sentindo.
Até quando a mulher será tratada como uma coisa, como uma doméstica sem salário?
— Não, sei Lola, mas é muito triste mesmo.
Embora seja homem, também julgo um exagero como a mulher é tratada.
— Você é diferente, Paco.
Está sempre disposto a nos ajudar.
— Tem razão, Lola.
Gosto de dona Isabel como se fosse minha mãe e agora, depois que você veio para cá, gosto da mesma maneira de você, como se fosse minha irmã, assim como gostava do Manolo.
Minha mulher entende toda essa atenção que tenho para com vocês e não se incomoda.
Ela também gosta de dona Isabel.
Nasci aqui e fui estudar na cidade.
Lá conheci minha mulher, nos casamos e continuamos ali.
Minha mãe morreu, queria que meu pai fosse morar comigo, mas ele não quis.
Um dia, recebi uma carta de dona Isabel, dizendo que ele estava muito doente.
Viemos o mais rápido possível.
Quando chegamos, constatei que ele, realmente, estava muito mal.
Dona Isabel ficou ao seu lado durante todo o tempo.
Cuidou com muito carinho.
Por mais que eu faça, nunca poderei lhe pagar.
Depois que ele morreu, viemos morar aqui e nunca mais iremos embora.
— Tenho certeza de que ela não quer pagamento algum.
Fez com seu pai o mesmo que fez comigo e Manolo.
Quando percebeu que precisávamos de ajuda, nos acolheu sem nada perguntar.
Acho que ela nasceu para ajudar as pessoas em momentos críticos da vida.
— Também penso assim, Lola.
— Contou aos meus pais?
— Sim, e a resposta foi à mesma.
Seu pai disse quase a mesma coisa, não entendo como as pessoas podem agir dessa maneira, nem diante da morte permitem que seu orgulho seja afastado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:46 pm

— Também não entendo Paco, mas o que há de se fazer.
Cumpri minha obrigação, o resto fica por conta dele.
E minha mãe, o que disse?
— Coitada dela.
Tentou falar, mas seu pai também não permitiu.
Disse que dependiam do pai do Manolo para viverem ali e que, de maneira alguma, faria algo que o desagradasse.
Sua mãe entrou em casa depois, chorando e, disfarçando, saiu e me deu este dinheiro.
Ela não disse nada, deduzi que é para você.
— Coitada da minha mãe e o mesmo posso dizer também do meu pai.
Ele tem razão, precisa do trabalho e de um lugar para morar.
Fui eu que me afastei da família, por isso tenho de encarar, sozinha, o meu destino.
— Por tudo o que me contou você não teve outro caminho.
Não se culpe Lola, é muito jovem, tem a vida toda pela frente.
Deus não pode ficar distante por tanto tempo.
Logo tudo passará e você nem acreditará que passou por tudo isso.
O que importa, agora, é essa criança nascer e, tomara, com saúde.
Ela vai preencher sua vida.
Tenha fé, Lola...
— Eu ouvia o que Paco dizia Rafael, mas aquelas palavras nada representavam.
Estava revoltada.
Ele me falava para ter fé em um Deus em que, após a morte de Manolo, eu já não acreditava mais.
Ele, realmente, não poderia existir, pois, se existisse, não permitiria que um homem orgulhoso e pretensioso como o pai de Manolo tivesse tudo na vida e meu pai, que sempre fora honesto e trabalhador, não tivesse nada.
Não permitiria jamais que Manolo morresse e que eu ficasse sozinha com uma criança que estava para nascer.
Como acreditar em um Deus mau como aquele?
Naquele momento e até agora, não entendo, mas fiquei calada, sabia que Paco não entenderia o que eu estava pensando.
— Tudo o que está me contando, Lola, é compreensível.
Você, realmente, teve motivo para estar revoltada.
Acho que todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, pensam assim, mas não posso deixar de estar de acordo com Paco, realmente, tudo passa.
Hoje, você está aqui e eu estou feliz por isso.
Quer continuar contando o que se passou depois?
Se não quiser, pode deixar para outra hora.
Sinto que essas lembranças fazem mal a você.
— Preciso contar tudo, Rafael.
Realmente, as lembranças me trazem tristeza, mas sei que preciso continuar.
Agora, ao seu lado, acho que encontrarei um pouco de paz.
— Pode ter certeza disso.
No que depender de mim, nunca mais vai ter motivo para chorar.
— Sinto que está dizendo a verdade.
Vou continuar. Manolo foi enterrado.
Enquanto a terra era jogada sobre seu caixão pobre, eu parecia estar sonhando e achava que, a qualquer momento, ele acordaria.
Não queria aceitar que aquilo estava realmente acontecendo.
Não acreditava que estava sozinha com uma criança prestes a nascer.
Durante muitos dias, chorei sem parar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:46 pm

Dona Isabel permitiu que eu expressasse minha dor, até que um dia disse:
— Sei o que está sentindo Lola.
Seu marido foi embora, mas, antes, lhe deixou uma criança a quem deve amar.
Se continuar chorando assim, só poderá fazer mal a ela que não tem culpa do que aconteceu.
De hoje EM diante, precisa pensar só nela.
Esperar que ela nasça e lhe dar todo o carinho que puder.
Essa será a única maneira de homenagear Manolo.
Infelizmente, a vida é mesmo assim.
Um dia, todos morrerão.
— Ouvi o que ela disse e entendi que tinha razão, Rafael.
Meu marido fora embora, mas minha criança estava vindo e precisava ter carinho e atenção.
Eu sabia disso, mas, ao mesmo tempo, sentia que não poderia criá-la, pois não tinha mais vontade de viver.
Sentia que não poderia lhe dar amor, pois, dentro de mim, esse sentimento não existia mais.
Só tinha muita revolta por tudo o que havia acontecido comigo.
Desde o momento em que nasci nunca havia sido feliz.
Os poucos momentos de felicidade que passei foram ao lado de Manolo, mas, agora, ele não estava mais ali.
Embora não contasse para dona Isabel, pensei:
Não quero mais viver, mas sei que essa criança vai nascer e precisa viver.
Sei que não tenho o direito de impedir que isso aconteça, mas, assim que ela nascer, vou pegar o veneno de rato que Manolo tem guardado e terminar com esta vida cheia de sofrimento.
Morrendo, vou me encontrar com ele.
A criança será criada, com muito carinho, por dona Isabel e sei que ficará muito bem.
Embora dona Isabel e Paco digam o contrário, eu é que não posso continuar minha vida sem Manolo...
Neste momento, só quero morrer...
— Daquele dia em diante, fiquei ansiosa, esperando o nascimento dela.
O tempo todo pensava em Manolo.
Não conseguia esquecê-lo por um instante sequer.
Contava os dias que, para mim, passavam lentamente.
Sabia que meu sofrimento terminaria assim que eu morresse e fosse ao encontro dele.
Pensava:
Falta pouco tempo, Manolo, logo mais vou estar ao seu lado.
— Pensou isso Lola?
Pensou em se matar?
Em abandonar sua filha?
— Pensei Rafael.
Com a morte de Manolo, para mim, nada mais restava.
Quanto a abandonar a minha filha, eu ainda não a conhecia, mas pensei sim.
Não entendia o porquê de aquilo ter acontecido nem de Deus haver permitido que ele morresse, já que nos amávamos tanto e estávamos esperando uma criança.
Conversando com dona Isabel, ela disse:
— Não adianta ficarmos perguntando o porquê das coisas, Lola.
Elas simplesmente acontecem.
Não sei, mas acho que temos um tempo de vida e acho que, nesse tempo, precisamos cumprir uma missão e, quando essa missão é cumprida, nada mais nos resta a fazer nesta terra a não ser voltamos para o Pai.
— Missão? Que missão, dona Isabel?
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:46 pm

Mesmo que isso fosse verdade, não posso aceitar, pois a missão de Manolo estava apenas começando, ele precisava ficar ao meu lado para criarmos a nossa criança.
— Não sei Lola, mas talvez a missão dele fosse a de permitir que essa criança nascesse, foi a de ser pai dela.
— Ao ouvir aquilo, fiquei pensando por um instante e disse:
— A senhora nunca me disse que tinha uma religião.
Nunca a vi se arrumando para ir à igreja.
Onde ouviu isso?
— Não tenho religião mesmo.
Quando criança, frequentava a igreja, mas, quando cresci, ela deixou de me dar às respostas que procurava, por isso, deixei de frequentar, mas não de acreditar em Deus e nos Santos.
Quanto ao lugar onde eu ouvi isso, não sei...
Não tenho a menor ideia.
Talvez não tenha ouvido, apenas sentindo.
— Ouvi o que ela disse Rafael e, embora não concordasse com aquela teoria, sabia que nada poderia fazer.
Achava errada, pois, para mim, Manolo não havia cumprido sua missão.
Eu estava sozinha com uma criança que não conheceria seu pai nem sua mãe, pois, assim que ela nascesse eu me mataria.
Já estava decidido e nada faria com que eu mudasse de ideia.
Para mim, aquilo não estava certo e eu passei não só a não acreditar em religião, como no próprio Deus.
Coloquei em dúvida sua existência.
— Diante de tudo o que me contou, não posso condená-la por isso.
Realmente, foi muito triste.
Mesmo assim, não entendo o porquê de você querer se matar, achando que ia encontrar com seu marido.
— Por que não acredita nisso, Rafael?
Se existe uma alma, ela está em algum lugar e é para lá que todos vamos, não é?
— Acredito que sim, mas acredito também que existe uma enorme diferença entre morrer naturalmente, como aconteceu com seu marido, e tirar a nossa própria vida.
Não sei qual foi o motivo que fez com que você mudasse de ideia, mas graças a Deus isso aconteceu.
Ainda não me disse o motivo de estar aqui, sozinha, somente com sua filha.
Dona Isabel me pareceu ser uma boa pessoa e, com certeza, deve ter-lhe dado todo apoio, por que não continuou ao lado dela?
— Tem razão, Rafael, ela realmente foi uma mãe para mim, mas a vida nem sempre é como imaginamos ou desejamos.
Minha roda continuou descendo.
O tempo foi passando.
Embora triste, eu esperava com ansiedade que a criança nascesse, pois, assim, poderia completar o meu plano.
Em uma manhã, acordei com uma forte dor na barriga, pelos meus sintomas, dona Isabel disse:
— Não se preocupe Lola, é assim mesmo.
Prepare-se, pois a dor que vai sentir, nunca imaginou que poderia existir, mas, ao mesmo tempo, assim que vir o rostinho da criança, essa dor passará.
Vou pedir ao Paco que vá chamar dona Anita.
Ela está aguardando o nosso chamado.
Não se preocupe, ela é a parteira daqui e já ajudou muitas crianças a nascer.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:46 pm

Aprendeu com sua mãe que havia aprendido com a sua.
Foi ela quem me ajudou com meus dois filhos.
Tudo vai ficar bem.
Não vejo a hora de ver o rostinho da criança.
— Eu sorri pela animação dela.
Estava aliviada, pois, para mim meu momento havia chegado ao fim.
Depois que a criança nascesse eu me mataria.
Não sentia curiosidade nem de olhar para seu rosto.
Ela não me interessava e nada representava para mim.
Eu havia traçado o meu destino e nada faria com que mudasse.
— Como pôde pensar isso, Lola?
— Hoje também não entendo, mas, naquele tempo, eu achava que seria a única solução.
Sentia o peito apertado, e, às vezes, parecia que não conseguia respirar.
Meu único pensamento era só o de estar ao lado de Manolo.
— Ainda bem que não levou esse plano à frente.
— Realmente. Sempre que olho para Maria, sinto remorso por ter pensado aquilo.
Dona Anita chegou acompanhada por Paco.
Ficou ao meu lado durante todo o dia.
A dor era imensa, muitas vezes achei que não ia aguentar, mas dona Isabel segurava minha mão e dizia:
— Tenha calma, Lola.
Aguente mais um pouco.
Logo terá a sua criança nos braços e nem se lembrará dessa dor.
— Era quase meia-noite quando, finalmente, Maria nasceu.
Ela demorou um pouco para chorar, até que deu uma espécie de grunhido.
Eu estava feliz por ter cumprido aquilo que eu julgava ser minha missão:
permitir que ela nascesse, mas sabia que meu papel terminava ali e que também não era obrigada a ficar com ela, não que não quisesse, mas por sentir que minha vida havia terminado e que ela seria mais feliz sem minha tristeza, pois sendo criada por dona Isabel, só conheceria alegria e felicidade.
O quarto era iluminado por lampiões e lamparinas a querosene, cuja luz tremulava pelas paredes.
Como não queria olhar para a criança, desviei meu olhar para a janela e vi que, apesar da falta de luz, ele estava iluminado pela lua que, naquele momento estava sobre a janela.
As estrelas ao lado da lua piscavam e me pareceu que dançavam.
Fiquei encantada com aquela visão.
Dona Isabel parecendo saber das minhas intenções, pegou a menina no colo, deu a volta e colocou-a sobre o meu peito.
Eu, que olhava para a janela, continuei.
Ela também olhou para a janela e disse:
— Olhe Lola, que bela noite!
Olhe como a lua e as estrelas estão lindas!
Parece que estão saudando a vinda da sua filha!
Acho que ela vai sei muito feliz e vai fazer outros felizes também.
Esta menina é abençoada, Lola!
— Maria, chorando, colocou sua mãozinha sobre o meu peito.
Não dá para descrever a emoção que senti.
Segurei-a pelo corpinho, olhei em seu rostinho e, naquele momento, percebi que nada poderia me afastar daquela criança.
Chorando, aconcheguei-a ao meu peito e disse:
— Dona Isabel, a senhora tinha razão, não existe felicidade maior do que a de se ter uma criança nos braços.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:46 pm

Vou cuidar dela, ela vai crescer e se tornar uma linda mulher.
Como a senhora disse, ela é a única coisa que me restou de Manolo, vou amá-la muito, muito, muito...
— Ainda bem que isso aconteceu, não foi?
— Foi sim, Rafael, hoje, quando me lembro daquele dia e no que pensava fazer, sinto um arrepio pelo corpo e peço perdão a Deus.
Minha filha está linda.
Agora, nessa nova terra para onde estamos indo, sei que seremos felizes.
— Pode ter certeza de que será sim, e tudo o que depender de mim vou fazer para que isso aconteça.
Amo você e amo Maria também.
Os caminhos estão se abrindo, a roda da nossa vida está subindo novamente e ficará no alto por muito tempo, você vai ver!
Juntos, conseguiremos tudo o que desejarmos.
— Você é muito bom, Rafael.
Novamente, preciso agradecer a Deus por tê-lo colocado em minha vida.
Antes que Lola dissesse algo, Carmem se aproximou:
— Parece que a conversa está boa...
— Está sim, Carmem.
Lola está me contando a sua vida e o motivo de estar viajando sozinha com a Maria.
Você não pode imaginar o que ela já passou.
— Gostaria de conhecer sua história, Lola.
Confesso que estou curiosa, pois não é comum se ver uma mulher sozinha, sem um marido.
— Sente-se, Carmem. Vou contar.
Não é nada demais, somente a vida foi que me conduziu até aqui.
Carmem sentou-se ao lado deles.
Maria brincava com as outras crianças.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:47 pm

Uma porta que se abre
Lola tornou a contar até o momento em que Maria havia nascido.
Rafael já sabia da história, mas, mesmo assim, continuou ouvindo com atenção.
Quando terminou de contar, Carmem, emocionada, disse:
— Nossa Lola!
Por quanta coisa você passou.
Quando vi você sozinha fazendo essa viagem, nunca imaginei que tivesse passado por tanta coisa.
— Quando estava passando, também achava que era muito, mas, hoje, vejo que não foi tanto assim.
No momento de maior tristeza, sem um caminho para eu e Manolo seguirmos, apareceu em nossa vida dona Isabel, um anjo que Deus nos mandou.
Ao lado dela, tivemos momentos de paz e tranquilidade e Maria pôde nascer.
— Sim, mas seu marido não precisava ter morrido...
— Nisso você tem razão, Carmem, mas quem somos nós para tentar entender os motivos de Deus...
— Deus? Não sei como ainda pode acreditar Nele!
— Como não acreditar Nele, Carmem?
— Você não viu o que passamos aqui?
Não viu as pessoas ficarem doentes, em poucos dias morrerem e serem jogadas ao mar sem o direito a uma sepultura?
Não viu a pobreza em que, assim como nós, todos sempre viveram?
Não viu seu marido morrer e você ficar sozinha com uma filha para criar!
Como pode existir um Deus, Lola?
Aquele que dizem ser o Pai de todos, se Ele permite que alguns tenham tudo e outros nada!
Que as mulheres sejam tratadas como animais, não como seres humanos, assim como aconteceu com sua mãe e a mãe de Manolo e tantas outras.
Com minha mãe foi a mesma coisa e comigo também.
Não fui preparada para enfrentar um momento como este.
Não sei o que fazer com meus irmãos.
Não sei o que dizer.
Se eu tivesse sido criada de modo diferente, hoje não estaria tão insegura e com medo do futuro.
— Não se preocupe com seus irmãos, eu estarei ao lado deles e lhes ensinarei o trabalho e, quando precisar, vou ter com eles uma conversa de homem.
Eles ficarão bem e você também, Carmem.
É bonita e encontrará um homem para se casar e ter alguém que cuide de todos.
— Não acabei de dizer que não quero isso, Rafael?
Não quero um homem para cuidar de mim.
Quero eu mesma cuidar de mim!
Preciso provar a mim mesma que isso é possível.
De tudo isso, a única coisa certa é que estou sozinha no mundo e responsável por meus irmãos que ainda são quase crianças.
De agora em diante, eu sou a dona da minha vida e ninguém mandará nela!
Desculpe-me, Lola, mas não posso acreditar em Deus ou em nada parecido.
— Pois eu, apesar de tudo, continuo acreditando.
Acho que nossa vida é comandada por uma força maior, que temos de passar alguns momentos de tristeza e sofrimento, mas nesses momentos, aprendemos nos modificamos e caminhamos para o bem ou para o mal.
Todo sofrimento por que passei me conduziu até aqui.
Não sei, ainda, como será a minha vida, mas estou com o coração cheio de esperança.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 21, 2017 7:47 pm

Sinto que, daqui para frente, tudo será para o melhor.
Acho que já usei toda minha cota de sofrimento e só mereço a felicidade.
Carmem, se não pensarmos assim, se não tivermos esperança no futuro, não conseguiremos sobreviver.
— Penso igual a ela, Carmem.
Nós não podemos ter nascido do nada e sem propósito.
Deve existir uma razão, também não sei qual, mas que existe, existe.
Deus, com toda sua sabedoria, não nos colocaria no mundo apenas para viver e morrer.
Precisa existir algo mais.
Além do mais, o homem só protege a mulher, porque vocês são frágeis e precisam de protecção.
— Quem disse isso, Rafael?
Nosso corpo pode ser frágil, mas nossa cabeça é igual à de qualquer homem.
Pensa e sonha igual.
Acho que temos a mesma capacidade de escolher o caminho que desejarmos
— Está certa em pensar assim, mas sabe que, entre pensar e realizar existe uma distância considerável.
A mulher é frágil e precisa de protecção.
Você não pode negar que ela não tem a mesma força física que os homens.
— Pode não ter a mesma força física, mas pensa igual ou melhor que eles.
Pode decidir o que quer fazer com a sua vida, fazer suas escolhas.
O cérebro é igual, Rafael.
— Não sei, não.
Acho que, embora não queira admitir, existi uma grande diferença entre os dois, mas isso não quer dizer que sejam tratadas como escravas, mas que precisa de protecção, isso precisa.
— Pois continue pensando assim, Rafael.
Eu mudei...
Sou outra pessoa e tenho fé que, um dia, tudo isso mudará.
Chegará o tempo em que a mulher será responsável por sua vida, poderá se casar com quem quiser, trabalhar, ter seu dinheiro, enfim, ser independente.
Esse dia há de chegar, Rafael...
Há de chegar...
— Sabe muito bem que isso que está dizendo não passa de um sonho, de uma utopia, Carmem.
Esse dia jamais chegará.
A mulher é e continuará para sempre sendo dependente de um homem.
— Eu não serei mais, Rafael!
Disso pode ter certeza!
— Está bem, Carmem.
Entendo o que está sentindo.
Vamos esperar para ver o que acontece, mas, no momento, estou mais interessado em saber o motivo de você, Lola, estar viajando sozinha, pois, por tudo o que contou, morava com dona Isabel e ela, da maneira como gostava de você e da Maria, jamais permitiria que fizesse uma viagem como esta.
— Não permitiria mesmo, mas a vida nem sempre é como a gente quer ou imagina.
Muita coisa aconteceu até que eu chegasse aqui.
— O que aconteceu?
— Vou contar Carmem.
Depois que Maria nasceu toda nossa atenção foi voltada para ela.
Manolo havia trabalhado muito.
A plantação de trigo estava linda.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:10 pm

Chegou a hora da colheita.
Eu e dona Isabel não conseguiríamos fazer esse trabalho.
Embora Paco quisesse ajudar, também não podia, pois precisava cuidar de sua própria plantação.
Dona Isabel resolveu ir até a cidade e conversar com seus filhos.
Assim que chegou, reuniu-os e disse:
— Vocês foram até o sítio e viram como a plantação está bonita.
Foi tudo obra do Manolo.
Agora, chegou a hora de colher e ele não está mais lá para fazer isso.
Estou aqui para propor uma coisa a vocês.
— O que, mamãe?
— A colheita precisa ser feita.
Vocês são meus filhos e sei que, se quiserem, podem tirar alguns dias de férias e contratar alguns homens para fazer a colheita.
Quando tudo estiver colhido, vocês vendem e me dão o dinheiro.
Assim vou poder ficar tranquila por mais um ano e não precisarei incomodar vocês.
— Mas, mamãe, sabe que não gostamos do trabalho no sítio...
— Sei disso, mas é uma emergência.
A plantação está bonita e vai dar um bom dinheiro.
Com ele, eu e a Lola vamos ficar bem e poderemos cuidar da Maria com tranquilidade.
Depois da colheita e que tudo for vendido, com esse dinheiro, posso contratar alguém para plantar novamente e ainda guardarei um pouco.
Assim, na próxima colheita, não precisarei incomodar mais vocês.
Mas, hoje, preciso da ajuda de vocês.
Não vejo outra solução.
— Eles, a contragosto, atenderam ao seu pedido.
Contrataram alguns homens e, em pouco tempo, tudo havia sido colhido.
Como dona Isabel havia previsto, a colheita foi boa.
Quando estavam colocando as últimas sacas na carroça, Francisco, um de seus filhos disse:
— A senhora tinha razão, mamãe, a colheita foi boa mesmo e vai dar um bom dinheiro.
Vamos levar para vender, depois, voltaremos com o dinheiro.
— Façam isso, meus filhos.
Estou muito feliz e seu pai também ficaria, pois, apesar de trabalhar muito, nunca conseguiu uma colheita como esta.
— Eles ensacaram todo o trigo e partiram.
Dona Isabel ficou esperando que retornassem com o dinheiro.
Passaram-se dez dias e nada.
Preocupada, me disse:
— Eles devem ter tido algum problema com a venda, Lola.
Estou preocupada.
Vou até a cidade para ver o que aconteceu.
— Eu também estava preocupada e concordei.
Ela pediu ao Paco que a levasse até a cidade, já que ele possuía uma carroça.
Eu queria ir junto, mas ela achou melhor que eu ficasse com Maria em casa, pois ela era muito pequena e uma viagem como aquela, embora não fosse muita longa, com certeza a cansaria.
Concordei. No dia seguinte, bem cedinho ela subiu na carroça e, acompanhada por Paco, foi para a cidade.
Eu preocupada, fiquei em casa esperando sua volta.
Estava com um mau pressentimento e fiquei rezando, pedindo a Deus que nada de ruim tivesse acontecido com eles.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:10 pm

A manhã demorou a passar.
Eu fiquei cuidando de Maria, mas com os olhos presos na estrada, esperando a volta deles.
Isso só aconteceu quase à uma hora da tarde.
Assim que se aproximaram, pela expressão do rosto de dona Isabel e de Paco e vendo que ela estava com os olhos vermelhos de chorar, me aproximei:
— O que aconteceu, dona Isabel?
Por que demoraram tanto e por que está com os olhos vermelhos de chorar?
Aconteceu alguma coisa com um de seus filhos?
— Ela me olhou e, sorrindo, disse:
— Vamos entrar Lola.
Estou cansada e, depois de tomar um pouco de água, contarei o que aconteceu.
— Paco, também com o rosto crispado, se despediu e foi para sua casa.
Eu e ela entramos.
Depois de tomar água, ela começou a falar:
— Assim que chegamos à cidade, fomos para a casa dos meus filhos.
Como você sabe, eles moram vizinhos.
Assim que chegamos, estranhei ao ver que as casas pareciam abandonadas.
Mesmo assim, bati palmas, mas ninguém atendeu.
Quem saiu na janela foi a Joana, vizinha deles que estranhou em me ver ali e, intrigada, perguntou:
— O que aconteceu, dona Isabel?
A senhora não sabia que seus filhos mudaram?
— Ao ouvir aquela pergunta, um arrepio percorreu meu corpo, com a voz embargada, perguntei:
— Eles se mudaram?
— Sim, disseram que a senhora havia lhes dado o dinheiro da colheita para que se mudassem.
Abandonaram o emprego dizendo que, com o dinheiro, abririam seu próprio negócio na Capital.
— O que está me dizendo, Joana?
— Estou dizendo o que aconteceu.
Faz uma semana que foram embora.
A senhora não sabia?
— Não, eu não sabia, mas está bem.
Eles, com certeza, fizeram o melhor e têm razão.
Com o dinheiro, poderão melhorar de vida.
— Ela percebeu a minha frustração, mas se calou e, sem saber o que dizer nos despedimos e viemos embora.
Durante a volta, só chorei por não acreditar que aquilo havia acontecido, que meus filhos, apesar de saberem da necessidade que eu tinha do dinheiro, não se importaram e me roubaram.
Estou triste, porque eles não precisavam ter feito isso.
Se essa era a vontade deles, se queriam ir embora da cidade, bastava me dizer e, como toda mãe, eu lhes daria o dinheiro.
Não precisavam ter me roubado...
— Ao ouvir aquilo, fiquei sem saber o que dizer.
Também não entendia que um filho pudesse roubar sua mãe, mas havia acontecido.
Tentei argumentar.
— Não faz mal, dona Isabel.
Vamos sobreviver.
Temos um resto da colheita, galinhas, uma horta e com o leite que o Paco nos fornece, não precisamos de nada mais.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:10 pm

— Eles fizeram isso Lola?
Roubaram a própria mãe?
— Fizeram Carmem.
Roubaram a mãe e foram embora da cidade.
— Como pode acontecer uma coisa como essa?
Como um filho pode roubar uma mãe, ainda mais sendo idosa?
— Não sei Rafael, mas aconteceu.
Eles pegaram o dinheiro e desapareceram sem deixar endereço.
— É difícil, para mim, acreditar que uma coisa como essa possa acontecer.
Como ela ficou?
— Pode imaginar Carmem.
Daquele dia em diante, deixou de ser a mulher que sempre fora.
Quase não falava e ficava pelos cantos chorando.
Eu não sabia o que fazer.
Lembrava-me de quando Manolo morreu e das coisas que ela me dizia, mas eu não tinha a mesma facilidade com as palavras como ela e não sabia como consolá-la.
Além do mais, sabia que nada que dissesse poderia fazer com que se conformasse pois, o que aconteceu, o que os filhos fizeram foi muita maldade com uma mulher tão boa como aquela.
— O que aconteceu depois, ela morreu?
— Não, não morreu.
Ficou assim por alguns dias.
Eu, sem saber o que fazer apenas a observava.
Até que em uma noite, Maria acordou chorando.
Eu e dona Isabel nos assustamos, pois ela costumava dormir a noite toda.
Levantamos e constatamos que a menina ardia em febre.
Ficamos assustadas, pois era alta madrugada, não tínhamos como ir até a cidade.
Dona Isabel sabia que, se precisasse, Paco nos levaria, mas não quis incomodá-lo, pois sabia que ele teria de trabalhar no dia seguinte.
Disse:
— Vamos fazer um chá e, assim que amanhecer vamos ver o que fazer e, se não houver alternativa, se ela não melhorar, pedirei ao Paco que nos leve até a cidade.
— Foi o que fizemos, demos o chá e, em poucos minutos, Maria estava dormido.
Ficamos acordadas por mais um pouco de tempo e vendo que a febre baixara e que ela estava bem, fomos nos deitar novamente.
No dia seguinte, Maria acordou bem, como se nada houvesse acontecido.
Ficamos aliviadas.
Percebi, naquela manhã, que dona Isabel brincou com Maria e conversou muito comigo.
Ela voltou a ser como antes.
Fiquei feliz, pois estava triste por ela e não sabia o que fazer.
Depois de alguns dias, perguntei:
— Dona Isabel, fiquei preocupada de ver a senhora chorando pelos cantos.
Estou feliz por ver que está bem, mas preciso confessar que estou curiosa.
O que fez com que a senhora voltasse a ser como antes?
— Quando vi Maria doente, lembrei-me de quantas vezes meus filhos ficaram doentes e eu me apavorei.
Lembrei-me daqueles dias e em como eu ficava feliz quando eles se recuperavam.
Fiz a minha parte, Lola.
Criei, dei carinho e amor.
Cabe a cada um deles fazer sua parte.
Não entendo por que fizeram isso, se eu fosse aquele tipo de mãe que fica cobrando dos filhos dedicação total durante a vida toda, por ter tido trabalho ou sofrido para criá-lo e por se julgar ter sido uma boa mãe, eu atenderia, mas nunca fui assim.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:11 pm

Sempre achei que ser boa mãe não devia ser qualidade, mas, sim, obrigação.
Eles nasceram porque eu quis.
O mínimo que eu poderia fazer era dar-lhes toda assistência, amor e carinho, e tudo que estivesse ao meu alcance para o bem-estar deles.
Por isso achava que não tinha o direito de lhes cobrar coisa alguma.
Embora tenha dado tudo de mim, sabia que, um dia, teriam suas famílias e eu, embora continuasse sendo amada, passaria a um segundo plano.
Deixei que vivessem suas vidas da maneira como quisessem.
Sabia que muitas vezes eles errariam nas escolhas e sofreriam, mas sabia também que tudo isso seria necessário para que eles crescessem e aprendessem a escolher melhor.
Eles sempre souberam que, quando algo não desse certo, eu estaria pronta a acolhê-los sem nada perguntar ou cobrar, simplesmente amar.
Por me lembrar de tudo isso, foi que decidi não ficar mais triste.
Enquanto eu viver, ajudarei você a cuidar da Maria com todo carinho.
Quando eu morrer, continue dando a ela o melhor de você e, se quando ela crescer, for ingrata, assim como os meus filhos foram, nada poderá fazer, mas agora, cumpra a sua obrigação, para quando, e se, acontecer, possa se sentir tranquila e falar como eu estou fazendo agora:
fiz a minha parte e entreguei nas mãos de Deus.
— Ela disse isso, Lola?
Disse que ser mãe não é qualidade, mas, sim, obrigação?
— Disse Carmem.
Ela dizia que teve os filhos porque quis e, portanto, devia a eles todo carinho e atenção e que nunca lhes cobraria ou obrigaria que tivessem por ela os mesmos sentimentos.
Cabia a eles darem isso de boa vontade e não obrigados.
— Bem, se pensarmos dessa maneira, ela tem razão.
Os filhos nascem porque os pais querem e devem gostar dos pais porque querem, não por obrigação.
Não entendo como ela pensava e falava assim, em um tempo como este, em que a mulher não tem direito algum, nem mesmo o de pensar e dar uma opinião.
— Ela é especial.
Às vezes, acho que ela nasceu cem anos antes do nosso tempo, Carmem.
Acho que Deus, de vez em quando, faz com que nasça pessoas como ela, para nos ajudar a caminhar.
— Tem razão Lola.
O que aconteceu depois?
Desculpe, mas estou curiosa.
Já que estava vivendo com ela, tinha amor e segurança, por que está aqui sozinha?
— A vida nem sempre é como a gente imagina ou deseja.
Dona Isabel cuidava de Maria com todo carinho.
Eu voltei à plantação e, dentro das minhas possibilidades, iniciei o plantio da nova safra.
O trabalho era pesado, mas eu não me importava.
Trabalhava o dia inteiro.
Algumas vezes, à tarde, depois de cuidar de sua plantação, Paco vinha até o sítio para nos ajudar.
Sua esposa, que também gostava muito de dona Isabel, não se importava e até, quando podia, nos ajudava também.
Costurava para fora e, com isso, ganhava algum dinheiro para ajudar nas despesas.
Tudo corria bem.
Nunca mais conseguimos contratar alguém para o plantio nem para a colheita, mas com o que conseguíamos, mais a pensão que ela recebia, vivíamos relativamente bem.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:11 pm

Com o tempo, dona Isabel deixou de falar e, quem sabe, até de pensar nos filhos.
Estávamos bem. Maria crescia forte e bonita.
Suas gracinhas faziam com que ríssemos e esquecêssemos nossos problemas.
Maria ia fazer quatro anos.
Eu e dona Isabel estávamos pensando em fazer um bolo para que as crianças de Paco cantassem parabéns.
Maria estava animada com a sua festa.
Tudo corria bem até que, em uma manhã, dona Isabel acordou com uma forte dor de cabeça.
Tomou um chá, mas a dor não passou.
À tarde, sem aguentar mais a dor, pediu que eu fosse chamar o Paco.
Assim fiz e ele atendeu imediatamente.
Colocou-a na carroça e foram para hospital que havia na cidade.
Demoraram muito. Ele voltou sozinho.
Assustada, perguntei:
— O que aconteceu, Paco, onde está dona Isabel?
— O médico não sabe o que ela tem Lola, e me chamando à parte, disse que, pelo sintoma, desconfia de que esteja com um tumor ou coágulo na cabeça.
Eu não sabia o que era aquilo e perguntei ao doutor o que era aquilo.
Ele explicou que é uma bolha de ar que se forma e percorre o corpo e, às vezes, se aloja na cabeça.
É um caso muito sério.
Um dia, talvez se encontre um remédio para isso, mas, hoje não há nenhum.
Perguntei o que podíamos fazer e ele respondeu que nada, só mesmo esperar e ver se o próprio corpo responde e afasta essa doença.
— O que mais, Paco?
— Disse que ela é uma mulher forte e pode resistir.
Disse que ia dar um remédio para acalmar a dor.
— Ouvi aquilo e fiquei assustada.
Eu adorava dona Isabel e a considerava como se fosse minha mãe.
Não conseguia me imaginar vivendo sem ela por perto.
— Não era para menos, também teria ficado preocupada, Lola.
Posso imaginar o seu desespero.
— Foi isso mesmo que aconteceu, Carmem.
Fiquei desesperada.
Não só por ela ser a minha única companhia, mas também pelo muito que gostava dela.
Mas essa preocupação não adiantou.
Três dias depois, com muita dor, ela morreu.
O médico nos avisou que sua situação havia piorado, por isso deixei a Maria com a esposa do Paco e fui para o hospital.
Fiquei ao seu lado.
Ela ficou o tempo todo adormecida, mas, de um momento para o outro, abriu os olhos.
Ao me ver ali, sorriu e disse:
— Lola, você está aqui?
Com quem está a Maria?
— Não se preocupe dona Isabel, ela está com Dora.
Como está se sentindo?
— Estou bem. Sonhei com meu marido, ele sorria feliz.
— A senhora vai ficar boa bem depressa e logo vai voltar para casa.
— Não, Lola. Sinto que não vou voltar para casa.
Estou velha e cansada.
Acho que está na hora de eu ir ao encontro do meu marido.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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