O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:11 pm

Estive pensando, se for verdade que cada um de nós tem uma missão aqui na terra, sinto que cumpri a minha.
Minha única preocupação é com você e Maria.
Embora você não saiba, há muito tempo, sabendo da minha idade e de que a qualquer momento poderia morrer, deixei, na segunda, gaveta da cómoda do meu quarto, uma carta para meus filhos, dizendo que, enquanto você viver, esta casa será sua e da Maria, para que você possa ter a tranquilidade necessária para criá-la.
Essa é a minha última vontade e sei que meus filhos a atenderão.
Eles não precisam do sítio.
Afinal, nunca gostaram dele e, agora, nem moram mais aqui na cidade.
— Após dizer isso, sorriu, fechou os olhos e deu o último suspiro.
— Ainda bem que ela pensou em você.
— Sim, ela pensou, mas os filhos não aceitaram.
Não tive como avisá-los da morte da mãe, pois não tinha o endereço.
Com a ajuda de Paco, chorando e sofrendo muito, enterrei-a.
Eu não me conformava por aquilo ter acontecido.
Ela era uma mulher tão boa.
Havia nos dado abrigo quando estávamos perdidos e sem um caminho.
Por que Deus estava fazendo aquilo comigo?
Por que havia me tirado Manolo e, agora, dona Isabel?
Eu não entendia e me revoltei novamente, mas, ao mesmo tempo, tinha Maria e precisava criá-la.
Continuei minha vida.
Passaram-se quinze dias, quando os filhos dela apareceram.
Francisco perguntou:
— Por que não nos avisou da morte da mamãe?
— Eu não tinha o endereço.
Não sabia para onde tinham mudado.
Apesar de estar muito triste com o que fizeram, ela falou até o último momento no quanto gosta de vocês.
— Ela não tinha motivo para ficar triste.
O dinheiro que levamos era nosso.
Afinal, quem comprou e cuidou deste sítio o tempo todo foi o nosso pai e o dinheiro tirado dele é nosso e não para ser dado a uma pessoa como você, que surgiu do nada só para explorar a nossa mãe.
— Nunca explorei sua mãe!
Ela nos recebeu, a mim e ao meu marido, nos deu carinho e amizade.
Embora nunca haja dinheiro suficiente para pagar o bem que ela nos fez, meu marido trabalhou muito para pagar sua bondade.
Ela foi um anjo em nossa vida e eu serei agradecida para sempre.
— Tudo bem que seja agradecida.
Não faz mais do que sua obrigação, mas agora chega!
Decidimos vender o sítio.
Como sabe, não moramos mais aqui na cidade e não temos como cuidar dele.
Estamos aqui parta lhe dizer que tem noventa dias para sair daqui.
Nenhum dia a mais.
— Sair daqui? Não tenho para onde ir!
Sou sozinha com a minha filha!
— A filha é sua, não nossa!
O problema é seu!
— Sua mãe deixou uma carta para que eu lhes entregasse.
Vou pegar.
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Ave sem Ninho

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:11 pm

— Entrei, voltei com a carta, entreguei a Francisco que, após ler entregou para o irmão que também leu.
Depois disso, um olhou para o outro.
Francisco, por ser o mais velho, disse:
— Não nos interessa o que fez para que nossa mãe escrevesse algo como isso.
Deve tê-la ameaçado de alguma maneira.
Ao ouvir aquilo, comecei a chorar, disse:
— Não fiz isso nem sabia dessa carta!
Sua mãe só me contou quando estava no hospital e no último momento...
— Não acredito nisso!
Além do mais, o que nossa mãe podia querer não importa mais!
Ela está morta e este sítio é nosso.
Precisamos de dinheiro, portanto, arrume um lugar para ir!
— Eles fizeram isso, Lola?
Leram a carta e, mesmo assim, não fizeram a última vontade da mãe?
— Não acreditaram que era vontade dela, Rafael.
Depois de Francisco dizer isso, saiu.
Eu fiquei desesperada.
Não tinha para onde ir e não sabia o que fazer da minha vida.
Fui procurar Paco e após lhe contar tudo, perguntei:
— O que vou fazer Paco?
Não tenho para onde ir...
— Eu esperava que isso acontecesse, Lola.
Conheço aqueles dois.
Nunca deram a menor atenção para os pais.
Nunca entendi a atitude deles.
Foram criados com carinho e atenção.
Nunca lhes faltou O que vestir ou comer.
Sempre puderam frequentar a escola, coisa difícil por aqui.
Os pais não se preocupam muito com a educação dos filhos.
Como eles próprios não sabem ler, acham que os filhos também não precisam.
Sabem que, assim como eles, só trabalharão na lavoura, portanto, não precisarão perder tempo indo para a escola.
Eu mesmo, só aprendi a ler por causa de uma nossa vizinha que me ensinou e contra a vontade de meu pai.
Dizia que, enquanto eu perdia tempo estudando, deixava de trabalhar.
Mesmo que eu estudasse só à noite.
— Sei como é, Lola.
Também não aprendi a ler.
Só sei assinar o meu nome.
— Também não sei Rafael.
Meu pai dizia que mulher não precisava ler, porque nasceu para cuidar da casa, do marido e dos filhos. — disse Carmem.
— Para ver como é, Carmem.
Não é só a mulher que não tem direitos, as crianças também não.
— Tem razão, Lola, mas o que aconteceu depois?
— Paco continuou falando:
— Dona Isabel foi uma óptima mãe e o seu Francisco também, um óptimo pai.
Esses meninos são muito gananciosos.
Gostaria de poder ajudá-la, mas, como sabe, minha casa é pequena para mim, minha mulher e meus filhos.
Não temos como abrigar você e a menina.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:12 pm

Tenha fé que alguma coisa vai acontecer para que tudo seja resolvido.
— Que situação, Lola!
O que você fez?
— Voltei para casa, Rafael.
Com Maria no colo, fiz a única coisa que poderia fazer.
Chorei e pedi a Deus que me ajudasse.
Embora tivesse me revoltado com a morte de dona Isabel, sabia que era o único que podia fazer alguma coisa por mim.
Sabia que, em último caso, precisaria voltar para casa, mas sabia também que meus pais não me receberiam.
Passaram-se três dias e eu ainda não havia encontrado uma solução.
Em uma manhã, o carteiro me entregou uma carta.
Era para dona Isabel, de uma amiga sua que morava no Brasil.
Dona Isabel já havia me falado sobre ela.
— A Maria Augusta foi para o Brasil.
Está gostando de morar lá.
— Assim que peguei a carta na mão, fiquei sem saber se devia abrir ou entregar para os filhos dela.
Voltei à casa de Paco e perguntei:
— O que acha que devo fazer Paco, abrir a carta ou entregar para os filhos dela?
— Acho que deve ler.
Afinal, eles nunca ligaram para a mãe, não deve lhes interessar o que uma amiga tinha para lhe contar.
— Nisso ele teve razão, Lola.
Você leu a carta?
— Naquele mesmo momento, abri a carta e li:
Querida amiga Isabel:
Estou lhe escrevendo para dizer das últimas novidades.
Estamos bem aqui.
No começo, foi difícil me adaptar, mas, com o tempo, aprendi a gostar desta terra e deste povo que é muito hospitaleiro.
Gostaria que viesse me visitar e descobrir as belezas desta terra.
Meu único problema continua sendo a comida, pois tenho problema com o idioma e, por mais que tente me comunicar com a cozinheira e ensinar-lhe, ainda não consegui.
O governo brasileiro, depois da abolição, precisa de mão-de-obra e está pagando para que as pessoas de outros países venham trabalhar aqui.
Estou lhe escrevendo para, além de lhe dar notícias, pedir para que me consiga uma boa cozinheira.
Sei que a situação na Espanha não esta boa e que muitos estão querendo sair daí e tentar a vida em outros lugares.
Se conseguir alguém, mande-me os documentos da pessoa que eu providenciarei tudo para que possa vir.
Quanto ao resto, está tudo bem.
Berenice está aí, morando com avó, mas, antes de se casar, está se preparando para vir nos visitar.
Estamos bem de saúde e meu marido, com a fazenda que comprou e plantando café, está ganhando muito dinheiro.
Sem mais, um abraço
Maria Augusta
— Assim que terminei de ler a carta, olhei para Paco, que disse:
— Olha aí a sua oportunidade, Lola!
Você sabe cozinhar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:12 pm

Aprendeu com dona Isabel.
Responda a essa carta e vá para o Brasil.
Dizem que é terra de oportunidades e que todos que vão para lá conseguem suas terras e ficam ricos!
— Ao ouvir aquilo, uma luz de esperança surgiu ao mesmo tempo em que fui tomada de muito medo.
— Tenho vontade de ir, Paco, mas tenho medo também.
Nunca saí daqui, não imagino como será a vida em outro lugar, muito menos em outro país.
E se não me acostumar em uma terra estranha?
— Claro que vai se acostumar, Lola!
Em todo lugar é a mesma coisa, pessoas acordam de manhã, tomam café e vão trabalhar.
É tudo igual! O que você tem aqui?
Não tem para onde ir com sua filha nem família para acolher você.
Não se preocupe com o futuro, ele virá de qualquer maneira e, quando chegar a hora, você resolve o que fazer.
Por enquanto, deve aproveitar essa oportunidade e seguir o caminho que lhe está sendo mostrado!
Faça isso, responda a essa carta, conte tudo o que aconteceu e o seu desejo de ir para lá.
Deus nunca abandona Seus filhos!
— De onde tirou essa ideia?
— Não sei, apenas dedução.
Se o pai, aqui da terra, está sempre ao lado do filho e não o abandona nunca, não se importando com o que o filho fez, imagine Deus.
Ele sempre estará ao nosso lado, Lola, nos amparando e nos mandando ajuda nos momentos difíceis.
Olhe o que está fazendo com você.
Olhe a porta que está abrindo.
Não pense muito! Aceite!
— Pensei por algum tempo, depois, disse:
— Você tem razão, Paco.
Nada mais me resta aqui.
Vou responder a carta e, assim como você disse, vou entregar tudo nas mãos de Deus.
Seja feita a Sua vontade.
— Assim que se fala Lola.
Sei que não vai se arrepender.
Tenho certeza de que, nessa terra, vai encontrar um homem que goste de você e da Maria e que vai proteger as duas.
— Não estou interessada em homem algum, Paco.
O único homem que amei foi o Manolo e ele foi embora.
No dia em que ele morreu, jurei que viveria somente para criar a minha filha e dar a ela todo o conforto que nunca tive.
É isso o que pretendo fazer.
— Não diga isso, Lola.
Você é muito jovem, tem uma vida toda pela frente e não vai poder ficar sozinha para sempre.
O ser humano não sabe viver sozinho precisa viver em grupo, ter uma companhia.
— Já tenho a Maria, não preciso de nada mais.
— Está bem, não vamos falar mais nisso.
O importante é que responda a essa carta e que vá para o Brasil.
O que vier depois será resolvido na hora.
— Tem razão, Paco.
Vou agora mesmo para casa responder a essa carta.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:12 pm

— Fui para casa.
Escrevi uma carta, contando tudo o que havia se passado na minha vida, de como dona Isabel havia nos acolhido, da morte de Manolo, da sua própria morte e da atitude dos filhos.
Contei que eles haviam roubado o dinheiro da plantação e que agora queriam vender o sítio, mesmo não atendendo ao último pedido da mãe.
Escrevi que estava sozinha no mundo e já que eu havia aprendido a cozinhar com dona Isabel, poderia ser a cozinheira de que ela precisava.
Escrevi também que, se ela me aceitasse, eu poderia ir, mas que não tinha dinheiro para a passagem do navio.
Escrevi o meu nome e o da Maria.
Esperançosa, mandei a carta junto com os nossos documentos e fiquei esperando a resposta.
— Pelo jeito, ela respondeu.
— Respondeu Rafael.
Quase dois meses depois, chegou uma carta.
Nela ela dizia da sua tristeza em saber que a amiga havia morrido, pois se conheciam desde a juventude.
Disse que queria, sim, que eu fosse para o Brasil trabalhar em sua casa.
Como eu havia lhe mandado os meus documentos, e com uma carta de chamada escrita por seu esposo, conseguira duas passagens que também estavam no envelope.
Disse para eu ir até as autoridades espanholas que elas providenciariam o meu passaporte com a minha fotografia e a da Maria e me indicariam o navio que deveria tomar.
Disse que, embora a nossa viagem fosse por conta do governo brasileiro, lhe garantiram que seria confortável.
Carmem começou a rir.
Eles estranharam.
Rafael perguntou:
— Por que está rindo, Carmem?
— Porque disseram que a viagem seria confortável, imagine se não fosse?
Os dois não se contiveram e começaram a rir também.
Depois, Rafael disse:
— Foi muito triste o que aconteceu com você, Lola, mas se nada disso tivesse acontecido, nós não teríamos nos conhecido.
Como o seu amigo Paco disse você encontrou um homem que gosta de você e da sua filha.
Prometo, mais uma vez, que farei tudo para que sejam felizes.
— Ele tem razão, Lola.
Conheço Rafael desde que nasci e sei que é um homem de bem e de palavra.
Tenho certeza de que será feliz ao lado dele.
Lola ficou calada, apenas olhou para ele e, com os olhos brilhantes de felicidade, sorriu.
Rafael beijou sua testa.
Ela, um pouco constrangida, levantou-se, pegou Maria que até o momento brincava com as outras crianças, mas por um motivo qualquer, começara a chorar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:12 pm

Triste notícia
O tempo foi passando lentamente.
De acordo com o comandante faltavam, agora, dez dias para chegarem ao Brasil.
As pessoas, embora não na mesma quantidade, continuavam adoecendo e morrendo.
Por várias vezes a cerimónia de jogar o corpo ao mar foi feita.
Lola e algumas outras mulheres continuavam cuidando dos doentes que ficavam juntos em um dos compartimentos na parte mais baixa do navio, separados dos que ainda estavam bem.
Enquanto ela cuidava dos doentes, Carmem e Rafael ficavam com Maria que se entregava a eles totalmente.
Carmem era quem, na maior parte do tempo, limpava, alimentava e fazia a menina dormir.
Lola se dedicava totalmente a ajudar os doentes.
Em uma manhã, após passar a noite toda cuidando dos doentes e de ter respirado, o tempo todo, aquele ar viciado e com cheiro de doença, Lola, cansada, sentiu vontade de ir até o convés.
Antes, passou pelo compartimento transformado em quarto, onde Carmem, seus irmãos, Rafael e Maria dormiam.
Em seguida, foi até o convés do navio.
Assim que se sentou no chão, sentiu uma brisa fresca sobre seu rosto e pôde respirar o ar puro.
Sorriu e sentiu um prazer enorme.
Como é bom respirar um ar puro.
Meu Deus, até quando essa doença vai durar?
Chega de tanto sofrimento, as pessoas que estão neste navio não merecem...
Depois de algum tempo e de ter respirado profundamente várias vezes, percebeu que seu corpo tremia, que estava suada e com dificuldade para respirar.
Levantou a manga da blusa que vestia e, aterrorizada, viu que seus braços estavam cobertos de pequenas manchas vermelhas.
Levantou um pouco a saia e teve a certeza daquilo que muito temia.
Suas pernas também estavam tomadas pelas manchas.
Assustada, pensou:
Meu Deus, estou com a doença!
Por tudo o que vi acontecer com as pessoas quando estas manchas começaram a aparecer, sei que não há cura!
Isso não pode estar acontecendo!
Não é justo!
Depois de tudo o que passei.
Logo agora, que estou prestes a reiniciar uma nova vida ao lado de Rafael!
Com a minha morte, o que vai ser da Maria?
Quem vai cuidar dela?
Ela não pode ficar sozinha...
Manolo me ajude a ficar boa.
Nossa filha precisa da minha presença.
Lembrou-se de todos os doentes de que havia cuidado e que haviam morrido.
Já vi muitos morrerem, sei que o sofrimento é terrível.
Por que isso teve de acontecer?
Estou com muito medo.
Sei que, como aconteceu com os outros, meu corpo também será jogado ao mar.
Isso na realidade não me importa o que me deixa mais triste é não poder acompanhar o crescimento da minha filha nem saber o que vai acontecer com ela.
Por favor, meu Deus, não permita que eu esteja com essa doença nem que eu morra.
Preciso criar a minha filha...
Por ter visto o sofrimento das pessoas, desesperada, chorava.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:12 pm

Tinha medo, não só pela dor que sabia, aconteceria, mas pela morte.
Sei o que vai me acontecer e toda a dor e sofrimento quer vou ter de passar até o último momento, mas minha preocupação maior é com Maria.
Ela é tão pequena.
Queria tanto vê-la crescer.
Não entendo como isso foi acontecer.
Sempre tive muito cuidado enquanto cuidava dos doentes.
Sempre mantive certa distância e coloquei um pano sobre o rosto para evitar respirar directamente o mesmo ar.
Achei que estava protegida, mas, pelo visto, não estava.
O que fiz de mal para merecer tanto sofrimento?
Tenho medo de morrer.
Não sei o que vai me acontecer depois da morte.
Será que vou para o céu ou para o inferno?
Não, para o inferno não posso ir.
Nunca fui má. Nunca fiz mal a ninguém.
Será que sou boa o bastante para ir para o céu?
Também acho que não.
Embora não seja má para ir para o inferno, também não sou boa o suficiente para ir para o céu.
Meu Deus do céu, o que vai acontecer comigo?
Impotente, continuou chorando.
Rafael acordou.
Sorriu ao ver que Maria segurava sua mão.
A menina também acordou, olhou para ele e, apertando ainda mais sua mão, sorriu.
Ele não pôde deixar de abraçá-la e de dizer:
— Você é muito querida.
Daqui para frente, vai ter uma vida cheia de felicidade, pois, no que depender de mim, farei de tudo para que isso aconteça.
Beijou sua testa e olhou para o lugar em que Lola costumava dormir.
Ao ver que ela não estava ali, pensou:
Ela deve estar cuidando dos doentes.
Estranho, pois, sempre pela manhã costuma pegar Maria para lhe dar algo para comer.
Levantou-se, pegou Maria pela mão e foi até onde os doentes ficavam, mas não viu Lola.
Subiu ao convés e, assim que saiu da escada, viu que ela estava ali.
Aproximou-se:
— Bom dia, Lola.
Quando acordei, procurei por você e não a encontrei.
Imaginei que estivesse aqui.
Ela olhou para ele e disse:
— Cheguei há pouco.
Ele, percebendo que ela chorava, preocupado, perguntou:
— O que aconteceu, Lola?
Por que está chorando?
Ela levantou a manga da blusa e nada precisou dizer.
Ele arregalou os olhos e, quase chorando, disse:
— Não pode ser, Lola!
Deve estar com alguma alergia!
— Sabe que não é alergia, Rafael.
Estou com a doença e como todos os outros também vou morrer.
— Não, Lola! Isso não pode acontecer!
Estamos indo para a terra das oportunidades, vamos nos casar, criar a Maria e ter outros filhos!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:13 pm

Desde que a vi tenho sonhado com isso!
Vamos começar uma vida e seremos felizes!
— Também tenho sonhado, mas parece que não nasci para ser feliz, Rafael.
Por que, na minha vida, foi sempre assim?
Por que, sempre que me julgo tranquila e feliz, algo acontece?
Tudo o que me aconteceu até agora foi triste, mas, embora estivesse sozinha, venci.
Agora é diferente. Tenho Maria.
Quando eu morrer, o que vai ser dela?
Não quero que seja levada a um orfanato.
Ela é tão pequena e querida.
Não merece ser criada por estranhos.
O que vou fazer, Rafael?
— Não, Lola, não fale assim!
Você não vai morrer!
Não pode morrer.
Vai criar a Maria e a verá se transformar em uma linda moça!
— Vimos muitos doentes, Rafael.
Sabemos que não há cura.
Sei que vou morrer e que meu corpo, como aconteceu com os outros, também será jogado ao mar.
Estou desesperada, pensando no quanto vou sofrer antes que isso aconteça.
— Não se preocupe Lola.
Essa doença não vai tomar conta do seu corpo, mas, se realmente ficar doente, ficarei ao seu lado e o meu amor fará com que se cure. Com o meu amor, sei que conseguirá resistir.
Faltam poucos dias para chegarmos e lá, com certeza, deve haver algum hospital para cuidar de você.
Resista só um pouco de tempo.
— Vou tentar, mas sabe que não vai adiantar...
Ele dizia aquelas palavras, mas seu coração estava apertado.
Sabia que Lola tinha razão, pois todos os que ficaram doentes, após sofrerem muito, morreram.
Realmente, não havia cura.
Estava desesperado, mas tentou disfarçar.
Estendeu os braços para que Lola se aconchegasse, mas, para sua surpresa, ela o afastou e, nervosa, disse:
— Não, Rafael, afaste-se de mim!
Você não pode ficar doente!
Não sabemos se essa doença é contagiosa, mas parece que é...
Rafael sabia que ela tinha razão, mas, mesmo assim, disse:
— Não sabemos se essa doença é contagiosa ou não.
A única coisa que sei é que não saberei viver sem você.
Portanto, não me importo de ficar doente e morrer, desde que continue com você...
Carmem também acordou e ao ver que nem Rafael nem Lola estavam nos seus lugares, levantou-se e foi à procura dos dois.
Logo os encontrou.
Ao se aproximar, viu que Lola chorava e pôde ouvir as últimas palavras dele.
Pelo semblante deles, percebeu que estavam preocupados, ou melhor, assustados.
Não podia imaginar o que estava acontecendo.
Preocupada, perguntou:
— O que aconteceu?
Por que está chorando, Lola, e você, Rafael, por que está tão preocupado?
Lola, que estava sentada, olhou para ela, sem responder.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:13 pm

Levantou a manga da blusa e mostrou o braço.
Carmem, embora não quisesse deixou transparecer em seu rosto o susto.
Queria dizer algo, mas não sabia o quê.
Ficou calada.
Lola, sabendo o que ela pensava, disse:
— É isso mesmo o que está pensando, Carmem.
Estou com a doença e vou morrer...
— Não, Lola! Isso não pode acontecer.
Você vai conseguir reagir. É jovem...
— Não precisa tentar me animar, Carmem.
Ninguém melhor do que eu sei que não há cura.
Já vimos várias vezes isso acontecer.
Todos os que ficaram doentes não conseguiram sobreviver.
Sabemos que vou morrer...
— Não, Lola.
Isso não pode acontecer!
Não é justo!
Você ficou o tempo todo cuidando dos doentes!
— Mas está acontecendo, Carmem.
Não entendo como pôde acontecer, pois tomei todos os cuidados.
Até a pouco, estava com medo morrer, mas agora não estou mais, pois sei que a morte é inevitável.
Minha única preocupação é Maria e o que vai ser dela.
Não quero que seja criada em um orfanato com pessoas estranhas.
Ela não merece isso, precisa de muito amor e carinho.
Somente essa está sendo a minha preocupação.
Carmem olhou para Rafael e percebeu que ele não estava em condições de falar. Disse:
— Fique calma, Lola.
Vamos cuidar de você e ficará bem e você mesma vai cuidar da Maria.
— Sabe que isso não é verdade, Carmem.
Não há cura, todas as pessoas que adoeceram morreram rapidamente.
— Sei disso, mas você é jovem e tem muita vontade de viver.
Vai ficar boa, mas se algo pior acontecer, Maria vai ficar bem!
Vamos cuidar dela, não é, Rafael?
Rafael não respondeu, pois ouvia a voz de Carmem distante e não prestou atenção ao que ela disse.
Estava desesperado, pensava:
Meu Deus, ela não pode morrer.
O que será da minha vida sem ela?
Isso não é justo.
Logo agora que nos encontramos e que temos tantos planos para o futuro.
Faça com que ela fique bem.
Carmem, percebendo que ele não a havia escutado, tornou a perguntar:
— Nada vai acontecer, não é, Rafael?
Lola vai conseguir superar, estamos quase chegando e ela vai ter ajuda, mas se algo acontecer, tomaremos conta da Maria e ela não vai precisar ir para um orfanato, não é?
Rafael, voltando de seus pensamentos ao ouvir o que Carmem perguntou, respondeu:
— Ela vai ficar boa, Carmem, nada vai acontecer!
Lola, que ainda chorava, disse:
— Não adianta tentarmos nos enganar, Rafael.
Já me conformei com minha morte, pois sei que não há alternativa, mas preciso saber como vai ficar a Maria.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 22, 2017 8:13 pm

A Carmem disse que vocês tomarão conta dela, posso confiar nisso?
— Você não pode morrer, Lola.
É o amor da minha vida!
É a mulher com quem sonhei a vida toda e que demorei tanto para encontrar...
— Esse também é o meu desejo, mas sabemos que ninguém que ficou doente resistiu, por isso preciso saber, você tomará conta da Maria?
— Você não vai morrer, mas se acontecer, claro que vou tomar conta dela, Lola!
Essa menina é como se fosse minha filha.
Vou fazer tudo para que seja feliz, mas, de preferência, ao seu lado.
Lola, por entre lágrimas, sorriu:
— Obrigada a vocês dois.
Não entendo por que isso está acontecendo, mas a minha maior preocupação é ela.
Sabendo que ficará bem, posso morrer tranquila.
Ele, com lágrimas nos olhos, tentou abraçá-la novamente, mas ela, outra vez, o afastou:
— Não, Rafael, nem você nem Carmem podem ficar doentes.
Precisam cuidar da Maria.
Ele não queria aceitar aquilo, mas sabia que ela tinha razão e que, infelizmente, não havia cura e que ela morreria logo.
Fazendo força para não deixar que lágrimas caíssem por seu rosto, disse:
— Está bem, Lola, se é assim que quer, vou cumprir o seu desejo.
Daqui para frente, ficaremos ao seu lado, mas tomando cuidado para não nos contagiar, não é, Carmem?
— Isso mesmo, Lola.
Vamos cuidar de você, mas distante o bastante e tomando cuidado para não nos contagiar.
Quanto à Maria, não se preocupe.
Ela vai ficar bem.
Agora, vou pegar um pouco de água e lavar os lugares onde as manchas estão.
Vamos rezar para que elas não aumentem.
— Obrigada, Carmem, mas, assim como eu, sabe que não vai adiantar.
Em breve essas manchas se transformarão em feridas.
A dor e a febre serão imensas.
Sei que chegará um momento que, por não suportar tanta dor, pedirei a Deus para morrer.
Já vimos isso acontecer muitas vezes.
— Não fale assim, Lola!
Com você vai ser diferente!
Você é forte e seu corpo vai reagir!
Impotente, Lola permaneceu calada, apenas sorriu.
Como o previsto, em poucos dias, as manchas tomou conta do corpo de Lola e se transformaram em bolhas.
A febre também aumentou.
Eles sabiam que o fim se aproximava.
Rafael estava inconsolável:
— Isso não pode estar acontecendo, Carmem!
Ela não pode morrer, não é justo!
Logo agora que parecia que minha vida tinha um sentido.
Não consigo me conformar...
Carmem, também chorando, tentava consolá-lo:
— Tem razão, Rafael, mas o que podemos fazer.
Tantos já ficaram doentes e morreram e nada pôde ser feito.
Também não entendo por que isso está acontecendo, também não acho justo, mas o que podemos fazer?
Ele ouvia, mas não conseguia se acalmar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:11 pm

— Sei que ela não está bem, e, embora não queira que eu me aproxime, vou até lá e vou ficar com ela, até o último momento.
Não quero desperdiçar um momento sequer que tiver para ficar ao seu lado.
— Ela não quer que nos aproximemos Rafael, e eu entendo seu motivo.
Sabe que vai morrer e tem medo de que Maria fique sozinha sem ter quem cuide dela e vá para um orfanato.
Ela confia em nós dois para que isso não aconteça.
Sabe que cuidaremos muito bem dela e que, em nossas mãos, estará protegida.
— Ela nunca irá para um orfanato!
Isso nunca vai acontecer, Carmem!
Vou cuidar dessa menina como se fosse minha filha e ao lado da Lola!
— Tomara que ela consiga sobreviver, mas se isso não acontecer, se Lola morrer, para que possa cuidar da Maria, você precisa estar vivo, Rafael.
— Você precisa me prometer uma coisa, Carmem.
— O quê? Pode falar.
— Não quero nem acredito que aconteça, mas se Lola morrer e acontecer alguma coisa comigo, promete que cuidará da Maria?
— Nada disso vai acontecer, Rafael!
Porém, se acontecer, claro que cuidarei dela e vou fazer tudo para que seja feliz, mas não será a mesma coisa.
Você ama Lola e sei que a amará a mesma maneira.
— Sei que você tem razão, mas não posso deixar que Lola morra sozinha.
Vou até lá.
— Não adianta Rafael.
A última notícia que tive foi a de que ela está com muita febre, quase inconsciente e delirando.
Não vai ver você ali.
— Não importa!
Quero desfrutar de sua presença até o último momento.
Sem que Carmem pudesse impedir, ele se levantou e desceu para o compartimento inferior, onde os doentes se encontravam.
Ao entrar no compartimento, ele pôde notar que já não havia muitas pessoas doentes como nos primeiros dias o que o levou a pensar:
Parece que a doença está indo embora.
Por que, meu Deus, teve de atacar Lola?
Ela não pode morrer, temos muita felicidade pela frente.
Viu Lola que estava deitada em uma esteira.
Aproximou-se e constatou que, como Carmem havia dito, ela realmente parecia inconsciente.
Ajoelhou-se e pegou sua mão.
Com a voz embargada, disse:
— Lola, estou aqui.
Como você está?
Ela estava olhando para o lado.
Pareceu não ouvir o que ele disse.
Para espanto dele, ela sorria.
Intrigado, perguntou:
— O que você está vendo, Lola?
Com quem está conversando?
Ela continuou da mesma maneira que estava.
Rafael, desesperado por entender que ela não estava bem e que o fim se aproximava, calou se e, segurando sua mão, começou a chorar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:11 pm

Lola, por sua vez, continuava olhando e, sorrindo, disse:
— Eu não posso morrer Manolo.
Preciso cuidar da Maria...
Ao ouvir aquilo, Rafael se assustou.
Ele não podia ver, mas ali, ao lado dela, estavam Manolo e dona Isabel que, com as mãos abertas, jogavam luzes brancas sobre ela.
Rafael não se conteve e perguntou:
— Com quem você está falando, Lola?
Ela, parecendo não ouvir, continuou na mesma posição anterior.
Ele percebeu que não adiantaria insistir, que ela já não estava mais ali.
Entendeu que nada mais lhe restava a fazer a não ser chorar e lamentar pelo amor perdido.
Continuou ali, ao lado dela, segurando sua mão e chorando.
Ela, sem que ele visse ou ouvisse, continuou olhando para Manolo que disse:
— Não se preocupe Lola.
Você está voltando para casa.
Eu e dona Isabel estamos aqui para levá-la com segurança.
Seu tempo terminou, já cumpriu sua missão. Está tudo bem.
Ela se mexeu com violência, o que assustou Rafael que, desesperado, perguntou:
— O que está acontecendo, Lola?
Ela não ouviu o que ele disse.
Continuou olhando para o mesmo ponto. Manolo continuou falando:
— Não se preocupe com Maria.
Ela está iniciando sua jornada que será longa.
Eu, você e dona Isabel a acompanhamos neste primeiro momento, mas, daqui para frente, terá de seguir o seu caminho.
Sua missão terminou no momento em que a entregou para Rafael e Carmem.
Cabe a eles darem a ela toda segurança.
Não sabemos se isso vai acontecer, mas estamos torcendo para que aconteça.
Tudo está certo, Lola.
Você teve uma vida terrena muito difícil, mas foi necessário para que os três pudessem se encontrar e, juntos, resgatar erros passados.
Tenha calma.
Já está quase na hora.
Quando chegarmos a casa, assim como aconteceu comigo, que também me revoltei por ter morrido e ter deixado você sozinha, conhecerá toda a história, entenderá e verá que foi necessário que tudo isso acontecesse.
Rafael não ouvia o que Manolo dizia, mas percebeu que as mãos de Lola foram ficando frias.
Desesperado, começou a esfregá-las para que se aquecessem, disse:
— Lola, meu amor, volte para mim!
Você não pode morrer.
Precisamos realizar os nossos sonhos.
Não saberei viver sem você...
Ela, parecendo ouvir o que ele disse, voltou os olhos para ele, sorriu e respirou fundo.
Ele percebeu que a mão dela amoleceu e que rosto começou a ficar branco, como se não houvesse mais sangue.
Não demorou muito para entender que ela havia morrido.
Seu desespero foi total.
Chorando, chamava-a e sacudia-a, tentando reanimá-la.
Ficou assim até que uma senhora que estava ali cuidando dos doentes se aproximou:
— Não adianta mais, Rafael. Ela se foi.
— Não pode ser dona Lúcia!
Ela não pode morrer!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:11 pm

Isso não é justo, não está certo?
— Você está nervoso e assustado.
Eu entendo, mas o tempo é o senhor de tudo.
Essa dor logo passará.
— Nunca vai passar!
Acabei de perder a única mulher que já amei e que amarei para o resto da minha vida!
Por mais que o tempo passe, isso não vai mudar!
Dona Isabel estendeu sua mão em direcção à garganta de Lúcia que, sem saber como ou por que, disse:
— Está bem, Rafael.
Chore e lamente tudo o que sentir e puder.
Você tem esse direito, mas, agora, acho melhor que se afaste daqui.
Embora pareça que a doença foi embora, ela é traiçoeira e você poderá atacado.
Suba para o convés e, olhando para o mar, diga adeus à Lola.
Deixe que vá em paz.
Não se esqueça de que, um dia, todos nós iremos também e nos reencontraremos com aqueles que foram na nossa frente.
Ninguém ficará aqui para sempre.
— Não quero sair daqui!
Quero ficar ao lado dela...
— Se quiser, pode ficar, mas nada mais poderá fazer e você ainda pode ficar doente.
Vá para cima e fique ao lado da menina dela.
Ela, sim, vai precisar do seu amor e protecção.
Quando Lola ainda estava consciente, ela me disse que você e Carmem prometeram que cuidariam da menina.
Faça isso, Rafael.
Assim, poderá demonstrar o amor que sente por ela.
Faça isso, cuide da menina, pois, somente dessa maneira, Lola ficará em paz.
Agora vá, pois, se continuar aqui e pegar a doença, não vai poder cumprir a última vontade dela.
Ele pensou por um curto tempo.
Depois, disse:
— A senhora tem razão, dona Lúcia.
Não posso ficar doente, preciso cuidar da Maria.
Falar muito sobre sua mãe e o quanto ela a amava.
No que depender de mim, ela crescerá feliz.
— É isso que tem de fazer, Rafael.
Não entendemos por que certas coisas acontecem, mas elas acontecem e só nos resta aceitar.
Eu mesma estou aqui cuidando das pessoas.
Não tenho medo de ficar doente, mas se acontecer será até bom.
Iniciei esta viagem com meu marido e quatro filhos.
Estávamos esperançosos, mas os cinco ficaram doentes e morreram.
Não sei o que vai ser da minha vida, sozinha, em uma terra estranha, mas o que posso fazer?
Por não entender o motivo de tudo isso ter acontecido e por saber que nada pode ser mudado, só me resta esperar e pedir a Deus para também ficar doente e morrer.
Porém, Deus é quem sabe.
Ao ouvir falar em Deus, Rafael olhou para ela que, parecendo saber o que ele estava pensando, disse:
— Não se revolte contra Deus, Rafael.
Ele sabe o que faz.
Se Lola teve de morrer, algum motivo deve existir.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:12 pm

Continue sua vida, cuide da menina.
Realmente, ele, que sempre acreditara em Deus, naquele momento estava revoltado e duvidando de sua existência, mas, diante do que ela disse se calou.
Continuou segurando a mão de Lola.
Dona Isabel recolheu a mão.
Rafael, nem por um segundo, poderia imaginar o que se passava com ela nem viu que, assim que ela deu o último suspiro, seu espírito se desprendeu do corpo e Manolo o segurou.
Com ela nos braços, ele e dona Isabel desapareceu.
Rafael ficou ali segurando a mão de Lola, deixando que lágrimas escorressem por seu rosto.
Olhava para aquele rosto sem vida que até poucos dias sorria e sonhava com o futuro.
Por mais o que dona Lúcia houvesse lhe dito, por mais que quisesse, não conseguia aceitar e pensava:
Isso não está certo.
Não podia ter acontecido...
Ao seu lado, sorrindo, sua mãe jogava sobre ele luzes brancas.
— Fique tranquilo, meu filho.
Não está sozinho.
Não poderei ficar aqui, mas, mesmo assim, sempre terá companhia.
Mandando um beijo com a ponta dos dedos e sorrindo, desapareceu.
Lúcia voltou a falar:
— Agora, Rafael, você precisa sair daqui.
Sabe o que precisa ser feito.
Vou preparar o corpo dela para que possamos lhe dar o último adeus.
— Ela vai ser jogada ao mar, dona Lúcia?
— Sabe que precisa ser assim.
Mesmo que pudesse ser diferente, não haveria lugar no navio para tantos corpos, mas não se preocupe.
Acredito que somente o corpo dela está aqui, sua alma deve ter ido para outro lugar e com certeza bem melhor do que este.
Ele sabia que ela estava certa no que dizia, pois ele mesmo havia dito aquelas mesmas coisas para Carmem, quando seus pais morreram.
Entretanto, naquele momento, seu coração estava apertado e era difícil aceitar.
Dona Lúcia, com carinho, segurou-o pelos ombros e o obrigou a levantar.
Ele, sem pensar que poderia também pegar a doença, deu um beijo na testa de Lola, levantou-se e se afastou em direcção à escada que o levaria para o convés.
Assim que surgiu no alto da escada, viu Carmem brincando com Maria.
Pela expressão do rosto dele, ela pôde deduzir o que havia acontecido.
Começou a chorar.
— Ela se foi, Rafael?
Ele, ainda com lágrimas, respondeu:
— Sim, Carmem, neste momento.
O que vai ser de mim agora?
Como vou viver sem ela?
Carmem não sabia o que dizer.
Já havia passado por aquilo e sabia como doía.
Abraçou-o e também começou a chorar.
Ficaram abraçados por algum tempo, tendo Maria no meio dos dois.
A menina não entendia o que estava acontecendo e nem podia imaginar que, daquele momento para frente, estava sozinha no mundo.
Ficaram abraçados e chorando por muito tempo.
Os outros passageiros foram se aproximando e tomando conhecimento do que havia acontecido.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:12 pm

Consternados, mas já acostumados com aquela cena, se afastavam e temiam ser o próximo.
Dona Lúcia, com carinho, preparou o corpo de Lola que, após uma breve oração feita pelo comandante, foi jogado ao mar.
Rafael queria gritar, impedir que aquilo acontecesse, mas sabia que nada poderia fazer.
Ele estava sozinho.
Olhou para Maria que estava perto de Carmem e pensou:
Nada pude fazer para evitar que isso acontecesse, meu amor, mas, neste momento, diante deste mar e deste sol, prometo que cuidarei de sua filha como se fosse minha e que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que ela seja feliz...
Depois do fim da pequena cerimónia, todos voltaram a ocupar seus lugares.
Estavam nervosos e assustados, pois faltavam ainda alguns dias para chegarem ao destino e temiam não conseguir terminai a viagem.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:12 pm

Acordo preocupante
Após a cerimónia, Rafael, no convés e com os olhos perdidos no horizonte, olhava o imenso oceano que parecia não ter fim.
Embora tivesse consciência de que tudo aquilo havia acontecido, sua cabeça e seu coração não conseguiam entender nem aceitar:
Isso não podia ter acontecido.
Aprendi, desde criança, que existe um Deus que é justo, Pai, e que está sempre ao nosso lado.
Tenho vontade de continuar acreditando, mas como posso fazer isso?
Como posso aceitar que Ele é pai, justo e que está sempre ao nosso lado, se permitiu algo como o que aconteceu aqui, neste navio?
Como permitiu que tantas pessoas que só estavam atrás de um pouco de felicidade sofressem da maneira como sofreram e continuam sofrendo?
Como pôde permitir que Lola morresse, logo agora depois de uma vida tão sofrida, tinha diante de si um futuro feliz ao meu lado?
Como posso acreditar nesse Deus que fez com que eu a conhecesse para depois tirá-la de mim?
Não! Não posso acreditar!
Não existe Deus algum, o que existe somos nós, pessoas que nascem, vivem e morrem e viram pó.
Nada mais!
Carmem, embora triste com tudo o que havia acontecido em sua vida cuidava de Maria, que dormia, e também pensava:
Agora, com a morte de Lola, Rafael vai sofrer muito, mas, com o tempo, ele vai esquecer e vai voltar a ter paz.
Quando meus pais morreram, também fiquei desesperada, mas, agora, vendo que não há nada que eu possa fazer, só me resta aceitar e seguir vivendo.
Porém, por mais que pense, não consigo entender por que tudo isto está acontecendo.
Tantas famílias desfeitas, tantas pessoas sozinhas.
Pessoas que estão indo para um país desconhecido sem saber realmente o que vão encontrar.
Como nunca fui educada para tomar decisão, como vou poder levar a minha vida e cuidar dos meus irmãos?
Olhou para Maria que, sonhando, sorria e continuou pensando:
Rafael também está lá pensando e tenho certeza de que, se não estiver pensando o mesmo que eu, deve estar pensando algo parecido.
O que será da nossa vida?
O que vamos encontrar quando chegarmos ao nosso destino?
Não sei...
não sei...
Maria acordou e começou a chorar.
Ela pegou a menina no colo e disse:
— Sei que está chorando por ter acordado e por não ver sua mãe.
Você não pode imaginar o que está acontecendo em sua vida nem o que será do seu futuro.
Está com fome?
Vou tentar encontrar algo para que você coma.
Sei que o que há aqui não é suficiente para que uma criança cresça saudável,
mas é tudo o que temos.
Segurando a menina pela mão, foi em busca de um dos tripulantes que, após ouvir o que ela disse, falou:
— Sabe que não temos muita comida, mas vou ver o quer posso fazer.
Saiu dali, pouco depois, voltou trazendo um pouco de sêmola e água.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:12 pm

Constrangido, disse:
— Foi a única coisa que consegui.
— Está bem e agradeço.
Embora não seja muito, servirá para que ela se alimente por algum tempo.
Ele sorriu sem vontade e saiu dali.
Carmem misturou a água na sêmola e deu para Maria, que comeu com vontade.
O tempo foi passando.
Carmem continuou cuidando de Maria e dos irmãos que, por serem jovens, estavam assustados com tudo o que havia acontecido.
Rafael, por sua vez, ficava calado o tempo todo, só pensando.
Na noite anterior à chegada, o comandante, do alto do navio, falou para aqueles que estavam no convés:
— Amanhã pela manhã, chegaremos ao porto.
Não posso lhes dizer o que vai acontecer com cada um, pois, nas outras viagens que fiz, não houve problema algum e, assim que chegamos, todos foram levados a um lugar e encaminhados ao destino.
Desta vez é diferente.
Com a doença que tomou conta do navio, serei obrigado a comunicar às autoridades e só elas saberão o que fazer.
É preciso que todos tenham seus documentos às mãos para que possam ser apresentados.
Quando terminou de falar, percebeu que as pessoas começaram a conversar entre si.
Por estar em um lugar mais alto, não conseguiu entender o que estava acontecendo.
Pediu a um dos tripulantes que estava ao seu lado para que descesse e fosse ver o que estava acontecendo.
O tripulante obedeceu, desceu e logo depois voltou, dizendo:
— Estão preocupados porque muitos, durante a tempestade, perderam os documentos.
Não sabem o que acontecerá com eles.
O comandante, com a voz grave, disse:
— Como havia dito, nunca em viagem alguma que fiz, tive problemas como tive nesta.
Não sei o que acontecerá com aqueles que não têm documentos, mas, assim que chegarmos, falarei com as autoridades, contarei o que aconteceu e, provavelmente, eles entenderão e darão documentos novos, bastando para isso que vocês dêem os seus nomes.
Abatidos e cansados, ouviram com felicidade o que ele disse.
Não sabiam o que encontrariam nem o que seria feito com eles, mas tinham esperança de que teriam assistência, um banho decente e, quem sabe, uma comida melhor.
Carmem e os irmãos também estavam felizes por terem conseguido chegar.
Rafael também estava e pensava:
Ainda bem que chegamos.
É uma pena, Lola, que você não está aqui para sentir a mesma emoção que estamos sentindo.
Eu, por minha vez, embora preferisse ter morrido também, vou continuar vivendo e cuidando de Maria.
Farei o possível para que ela tenha uma vida feliz.
Após abraçar os irmãos, Carmem olhou para Rafael para abraçá-lo também.
Percebeu que ele estava com o pensamento distante.
Ao lado de Maria, aproximou-se dele:
— Finalmente chegamos, Rafael.
Vamos torcer para que tudo o que foi prometido naqueles folhetos seja realmente verdade.
— Sim, Carmem, agora é que vamos ver.
— Rafael, estive pensando.
— Em que, Carmem?
— O que vamos fazer com a Maria?
— Ela vai ficar comigo e com você.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:13 pm

— Sim, mas como vamos fazer isso?
Ele pensou por um momento, depois disse:
— Vai ficar e pronto. Lola, antes de morrer, pediu que cuidássemos dela e é isso que vamos fazer.
— Claro que vamos cuidar dela, mas não pode ser assim, Rafael.
Se contarmos às autoridades que sua mãe morreu na viagem, eles vão levá-la para um orfanato.
— Eles não podem fazer isso, Carmem!
Lola, antes de morrer, pediu para que cuidássemos dela!
— Pode ser que eles aceitem a nossa palavra, mas se não aceitarem?
O que poderemos fazer?
Ele, ao mesmo tempo em que pensava, começou a ficar nervoso.
Carmem, também após pensar, disse:
— Só vejo uma solução, Rafael.
— Qual, Carmem?
— Como várias pessoas perderam os documentos na tempestade e o comandante disse que basta dizer os nomes e cada um terá novos documentos, podemos dizer que perdemos os documentos, que somos casados e que Maria é nossa filha.
— Isso não pode ser Carmem.
— Por que não?
— Se fizermos isso, estaremos casados e não acho justo com você.
— Não estou entendendo, Rafael.
— Sabe que, depois de casados, nunca mais poderemos nos separar.
Somos amigos, mas nunca poderemos viver como marido e mulher.
Você é jovem e bonita, se aparecer alguém de quem goste, não poderá se casar e seguir sua própria vida.
— Você acha que, depois de tudo o que passei, de ter sido dominada por meu pai, de nunca ter tido liberdade, vou querer me casar para ter um homem que comande a minha vida?
Isso não vai acontecer, nunca vou me casar.
— Está dizendo isso agora, mas, com o tempo, sentirá necessidade de ter alguém ao seu lado e, quando isso acontecer, estará presa a mim, que nunca poderei lhe dar amor.
Amizade, sim, mas amor, não, Carmem.
— Não estou pensando em nós, Rafael, mas na Maria.
Precisamos tomar uma decisão.
Depende disso o destino dela.
Não penso em me casar ou ao menos ter alguém, mas se, e quando acontecer, vamos encontrar uma solução.
Por enquanto, nossa prioridade é Maria.
Rafael estava confuso.
Sabia que uma decisão como aquela poderia afectar suas vidas para sempre.
Depois de pensar por um tempo, disse:
— Tem razão, Carmem.
Vamos fazer isso.
Maria estará protegida ao nosso lado e será criada com todo amor e carinho.
Carmem sorriu e abraçou Maria com mais força.
No dia seguinte, ao olharem para o horizonte, viram terras muito verdes, Rafael disse:
— Estamos chegando, Carmem.
Tomara que tudo dê certo.
Preciso ganhar muito dinheiro para dar a Maria tudo o que merece.
— Sinto que tudo vai dar certo, Rafael.
Vamos ganhar muito dinheiro e, depois, voltaremos para casa.
Com dinheiro, não existe melhor lugar para se viver.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:13 pm

Lá está a nossa raiz, os nossos amigos.
Um pouco mais tarde, viram que uma pequena cidade se aproximava. Viram casas e prédios baixos.
O navio atracou.
O comandante, daquele lugar alto no qual sempre conversava com os passageiros, avisou:
— Chegamos. Agora, precisamos desembarcar com calma.
Primeiro eu, para conversar com as autoridades.
Depois, todos desembarcarão e deverão ser encaminhados.
Os doentes vão desembarcar primeiro para que possam ser atendidos.
Depois, em ordem, será a vez de todos.
Espero que tudo o que passaram seja esquecido e que tenham muita sorte nessa terra.
Os passageiros estavam animados.
Pegaram suas coisas e ficaram Esperando a hora de poderem desembarcar.
Rafael, Carmem e seus irmãos permaneceram juntos.
Ela ficou o tempo todo com Maria segura pela mão.
Tinha avisado aos irmãos sobre o que ela e Rafael haviam combinado.
Eles, que também gostavam da menina, assim como todos os passageiros, concordaram e prometeram apoiar a história.
O comandante, como havia dito, foi o primeiro a desembarcar.
A escada de ferro do navio foi baixada.
Em terra, foi recebido por um policial.
Os passageiros, que a tudo acompanhavam, perceberam que, enquanto ele falava, o policial demonstrava preocupação em seu rosto.
Deduziram que devia ser por saber da doença que havia tomado conta do navio.
Ficaram conversando por um bom tempo, depois o policial se afastou e o comandante voltou para o navio.
Disse:
— Conversei com o policial responsável pelo desembarque de vocês e contei sobre a doença.
Ele ficou preocupado e foi perguntar aos seus superiores o que pode ser feito.
Ele disse que talvez não tenhamos ordem para desembarcar.
Vamos esperar que volte com uma solução que seja outra.
Ao ouvirem aquilo, um enorme murmurinho tomou conta do navio.
Todos, desesperados, falavam ao mesmo tempo.
O comandante, ao ver aquilo, disse:
— Eu disse que talvez isso possa acontecer.
Quem disse foi o policial, mas só quem poderá tomar essa decisão será um superior seu.
Vamos nos acalmar e esperar.
Aquilo fez com que os passageiros fossem tomados pelo desespero.
Não queriam nem imaginar ter de voltar naquele mesmo navio no qual haviam sofrido tanto e, o pior, deixarem seus sonhos para trás.
O tempo foi passando e o policial não voltava.
Algumas horas depois, embarcaram no navio cinco médicos acompanhados por enfermeiras que foram examinar aqueles que ainda estavam doentes.
Não eram muitos, mas precisavam de atenção.
Após examinar, um dos médicos, nervoso, disse ao comandante:
— Examinamos os doentes e deduzimos que, pior que a doença, é a condição de falta de higiene neste navio.
Como o senhor trouxe essas pessoas nessas condições?
— Pelo preço que me pagaram, não poderia oferecer coisa melhor.
Além do mais, meu navio é um cargueiro, não é de passageiro.
— Por isso mesmo, o senhor não deveria ter aceitado trazer pessoas.
Isso foi uma irresponsabilidade.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:13 pm

— Durante a viagem e diante da doença, também pensei isso, mas nunca havia acontecido coisa igual e já viajei muito.
— Bem, agora não adianta lamentar.
Não deveria, mas foi feito.
Ainda não sabemos que doença é essa.
Precisam ser feitos alguns exames.
Por enquanto, vou providenciar remédios para os doentes, assim, não sentirão tanta dor.
As enfermeiras os limparão e passarão pomadas nas lesões.
É preciso que o navio seja lavado e pintado.
Forneceremos cal para isso.
Os que estão doentes permanecerão aqui, só que em um compartimento mais limpo e arejado.
Quanto aos outros, não podemos permitir que desçam e tenham contacto com a população da cidade, mas também não poderão continuar no meio de tanta sujeira.
Continuarão no navio por mais alguns dias.
Veremos se a doença deixa de atacar, mas, diante das condições do navio, realmente isso não é possível, pois ela faz com que a doença tenha facilidade de se espalhar.
Precisamos providenciar um lugar para que possam ficar afastados, sim, mas com uma condição de vida melhor.
Vou comunicar aos meus superiores o que vi aqui e o senhor terá notícias do que foi decidido.
Aquilo fez com que os passageiros fossem tomados pelo desespero.
Não se imaginavam ter de ficar nem mais um minuto naquele mesmo navio no qual haviam sofrido tanto.
Mais de três horas depois, o comandante foi avisado que deveria descer.
Ele, sob os olhos nervosos e assustados dos passageiros, desceu.
Enquanto descia, os passageiros foram para o lado do navio em que ele descia e ficaram olhando.
Os passageiros viram que o primeiro policial, agora, estava acompanhado por mais dois homens.
Não conheciam a graduação dos policiais, mas, por seu uniforme, parecia ser uma autoridade maior.
Assim que o comandante chegou junto aos policiais, perguntou:
— O que foi decidido?
Meus passageiros podem desembarcar?
Aquele que, por suas estrelas, parecia ser o mais graduado, respondeu:
— Estivemos todo esse tempo tentando encontrar uma solução.
Algo como isto nunca havia acontecido.
Sabemos que não há como impedir que essas pessoas desçam nem podemos mandá-las de volta.
— Com certeza.
Isso não pode acontecer.
Eles sofreram muito durante a viagem e não conseguiriam.
— O senhor, como comandante, sabe bem o que eles passaram, nós só podemos imaginar.
Por isso, sabemos que não seria humano exigir isso deles.
O policial balançou a cabeça concordando e continuou falando:
— Por outro lado, também temos medo de que essa epidemia se espalhe pela cidade.
Depois de conversarmos muito, chegamos à conclusão de que, embora não seja o ideal, o melhor que podemos fazer é esperar que os médicos façam uma avaliação.
Só aí poderemos tomar providências.
Não temos como oferecer comida de qualidade para tantas pessoas, durante muito tempo.
Por isso, só podemos oferecer leite, café, açúcar, folhas e legumes para que possa ser preparada sopa.
Infelizmente, o tempo que ficarem aqui terão de se alimentar só com isso.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:13 pm

Não terão boa alimentação nem muito conforto, mas é tudo que, em uma emergência como esta, pode-se fazer.
Além do mais, embora tenham de sofrer por mais algum tempo, será melhor do que voltarem para a Espanha.
Logo mais, alguns médicos e enfermeiras subirão no navio para cuidarem dos doentes.
Os demais terão de esperar até que consigamos providenciar todo o necessário.
— Quanto tempo vai levar para que possam ser liberados?
— Não posso precisar, pois as providências que terão de ser tomadas são muitas.
Vai ser difícil transformamos os galpões em dormitórios, mas faremos o possível para que não demore muito.
— Depois que estiverem instalados, quanto tempo acha que vai levar para que possam seguir até os lugares de trabalho?
— Isso quem vai decidir serão os médicos.
Após dizer isso, despediu-se do comandante e foi embora.
O comandante retornou ao navio e, do mesmo lugar de sempre, comunicou aos passageiros aquilo que havia conversado.
Quando terminou, novamente o murmurinho recomeçou.
Alguns ficaram desesperados, pois não suportavam mais ficar no navio.
Outros também estavam desesperados, pois queriam pisar em terra firme.
Novamente, o comandante teve de tomar uma atitude firme e, com a voz grave, disse:
— Ninguém melhor do que eu, sabe o que estão sentindo, mas precisam entender que as autoridades brasileiras estão fazendo o melhor que podem.
Poderiam, simplesmente, impedir que desembarcássemos.
Ao contrário, resolveram nos ajudar da melhor maneira possível.
Precisamos ter um pouco mais de paciência.
Aos poucos, todos foram se acalmando.
Carmem, segurando Maria pela mão, disse:
— Como está difícil chegarmos à terra dos sonhos, Rafael.
Tomara que valha a pena.
— Tomara Carmem... Tomara...
Ficaram no navio.
Ansiosos e com paciência, que já quase não tinham mais.
Esperaram a notícia, tão desejada, de que poderiam desembarcar, pisar novamente na terra.
Algumas horas depois, os médicos e as enfermeiras voltaram e foram até os doentes.
Limparam e fizeram curativos nas feridas e deram remédios para que não sentissem mais dor.
Enquanto isso era feito, um dos médicos disse ao comandante:
— Estamos cuidando daqueles que apresentam sintomas.
Eles não poderão ter contacto com os demais passageiros.
As enfermeiras devidamente protegidas, cuidarão deles e os alimentarão.
Isso precisa ser feito para evitarmos futuros contágios.
Os demais, por enquanto não podem ter contacto com a população da cidade.
Precisarão ficar no navio por mais quarenta dias.
Só aí, se ninguém mais ficar doente, poderão desembarcar e ser encaminhados.
Providenciarei para que seja trazido para o navio água, sabão e bacias para que as pessoas possam tomar banho e lavar suas roupas.
Essas esteiras onde dormem precisam ser levadas a terra para serem queimadas.
Colchões estão sendo providenciados e, por isso, durante algum tempo, terão de dormir sem elas, mas sob roupas que cada um deve ter.
As roupas também terão de ser lavadas com água e sabão.
Como aqui o sol é forte, não terão problema algum para secar.
Vou comunicar aos meus superiores como tudo está encaminhando.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:13 pm

O senhor deve providenciar para que tudo o que eu falei seja cumprido, para o bem de todos. Logo terá notícias.
Os médicos desceram, as enfermeiras continuaram cuidando dos doentes.
O comandante comunicou aos passageiros o que havia conversado com o médico.
Claro que o desespero foi geral, mas, por outro lado, sabiam que não havia o que fazer.
Só restava esperar.
Tripulação e passageiros lavaram todo o navio e passaram uma mão de cal.
Com isso, esperavam que a doença não encontrasse um ambiente propício e fosse embora.
O trabalho ajudou a não sentirem, com tanta intensidade, o tempo passar.
Aquelas providências deram certo.
Muitos daqueles que chegaram doentes, vivendo em um ambiente limpo e com tratamento adequado, conseguiram sobreviver.
Rafael se entregou de corpo e alma ao trabalho.
Estava triste e sem vontade de conversar.
Carmem tentava fazer com que ele se animasse:
— Embora tenhamos de esperar mais alguns dias, Rafael, estamos aqui e teremos uma vida melhor.
Ao menos, temos sopa para comer e água para tomar banho.
Não suporto mais o cheiro de sujeira que sai, não só do meu corpo, como do de todos.
— Quando entrei neste navio, tinha muita esperança de encontrar a felicidade, mas essa esperança se foi, Carmem.
Sinto que sem Lola ao meu lado, nunca vou ser feliz.
— Não fale assim, Rafael.
Também perdi meus pais, fiquei sozinha com dois irmãos, quase crianças, mas não desanimei.
É impossível que não vamos ter um pouco de felicidade nesta vida.
— Já pensei várias vezes se vale a pena continuar vivendo.
Não sei, Carmem, sinto uma vontade imensa de morrer e ir me encontrar com a Lola.
O que mais posso esperar desta vida?
— Não sei o que podemos esperar, mas acho que devemos viver para ver.
— Não sei Carmem... Não sei.
Embora esteja vivo na realidade, minha vida terminou no dia em que Lola morreu.
Nada mais me resta...
Maria, que estava sentada no chão, ao lado deles, se levantou e, sorrindo, abriu os bracinhos para Rafael e jogou-se sobre ele que, surpreso, abraçou-a, chorando.
— Preciso viver por você, pequena...
Prometi a sua mãe...
A menina, embora não entendesse o que aquelas palavras queriam dizer, abraçou-o com força.
Carmem acompanhou aquela cena e não resistiu, também permitiu que lágrimas caíssem por seu rosto.
Sem alternativa, continuaram no navio.
Com as verduras e legumes oferecidos pelo governo brasileiro, alimentaram-se somente com sopa, mas, para eles que haviam passado tanta privação, parecia um manjar dos deuses.
Quase um mês se passou sem que houvesse notícia alguma de como ficariam.
Não houve mais casos de doença.
Aqueles que estavam doentes e morreram foram retirados.
Os outros continuaram sendo atendidos pelos médicos e enfermeiras.
Mesmo parecendo que nunca chegaria ao fim, a quarenta terminou.
No dia anterior, o policial embarcou e conversou com o comandante:
— Parece que a doença foi dizimada, pois não houve mais casos.
Os médicos autorizaram o desembarque.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:14 pm

O comandante ficou eufórico:
— Até que enfim!
Depois que desembarcarem, poderei seguir viagem!
Perdi muito tempo com esse povo todo!
Nunca mais vou carregar passageiros no meu navio. O dinheiro que me pagaram não compensou!
O policial, mesmo com raiva daquele homem que só pensava em dinheiro, continuou:
— Assim que desembarcarem, todos terão de mostrar os documentos para que possam entrar no país.
Alguns passageiros que estavam próximos e ouviram o que ele disse começaram a murmurar.
O policial, sem entender o que estava acontecendo, curioso, perguntou para o comandante:
— O que está acontecendo?
— Estão preocupados, pois alguns, durante a tempestade que tivemos de enfrentar, perderam seus documentos.
O policial pensou por algum tempo, depois, disse:
— Não precisam se preocupar.
Sabemos que todos são espanhóis e que se estão aqui é porque já têm um destino certo, algum tipo de contrato ou uma carta de chamada.
Quem tiver documentos, a carta ou o contrato de trabalho, deve apresentá-los.
Aquele que não tiver, dê o seu nome e providenciaremos novos documentos.
Todos respiraram aliviados.
Carmem olhou para Rafael e sorriu.
O plano deles estava dando certo.
O policial continuou:
— Assim que receberem os documentos, serão encaminhados a uma hospedaria destinada aos imigrantes que chegam.
Ficarão por uma noite e amanhã, bem cedo, serão levados até a estação de trem e seguirão para São Paulo.
De lá, cada um seguirá o seu destino.
Não se esqueçam de pegar os seus pertences.
Depois de dizer isso, sorriu e desceu do navio.
Novamente o murmurinho começou.
Só que, agora, era de euforia.
Felizes e com o coração cheio de esperança, começaram a arrumar seus pertences.
No dia seguinte, como o policial havia dito, logo pela manhã começaram a desembarcar.
Em mesas espalhadas, logo na saída, aqueles que tinham, apresentaram seus documentos, os que não, davam os nomes e uma autorização de entrada lhes era dada.
Quando chegou a vez de Rafael e Carmem, eles disseram que haviam perdido os documentos.
Um homem, falando em espanhol, perguntou:
— São uma família?
Carmem, seus irmãos e Rafael se olharam, ele respondeu:
— Sim. Eu, minha mulher, seus irmãos e nossa filha.
Meus sogros nos acompanhavam, mas morreram com a doença.
— Muito bem. Vocês ao menos sabem para onde estão indo?
— Sim, para a fazenda Pinheiral na cidade de Oeste Grande.
— Muitos estão indo para essa fazenda.
— O dono dela, antes de vir para o Brasil, morava em nossa cidade.
— Têm contrato de trabalho?
— Tinha, mas se perdeu junto com os outros documentos.
— Está bem. Os nomes, por favor.
Rafael deu seu próprio nome.
No de Carmem acrescentou o seu.
Os irmãos também deram seus próprios nomes e o de Maria recebeu o sobrenome de Rafael.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:14 pm

O homem foi anotando.
Colocou Rafael como chefe da família, Carmem como sua esposa e Maria como sua filha.
Os irmãos de Carmem, como uma nova família.
O homem entregou alguns papéis para Rafael, dizendo:
— Com estes documentos não terão problema algum.
Pela quantidade de pessoas que estão indo para essa fazenda, acredito que, quando chegarem a São Paulo, terá alguém para contactá-los e levá-los até ela, mas se não tiver ninguém, poderão ficar por alguns dias em uma hospedaria reservada para vocês até conseguirem entrar em contacto com seus empregadores.
— Obrigado, senhor.
O senhor sorriu e continuou:
— Agora sigam essa fila e chegarão à hospedaria.
Tanto as pessoas que os conheciam, por morarem na mesma cidade, como aqueles que não os conheciam, mesmo diante daquela mentira, entenderam e se calaram.
Conheceram Lola e sabiam que, antes de morrer, ela havia pedido para que eles tomassem conta da menina.
Com os documentos na mão, se retiraram, felizes.
Longe do homem, abraçaram-se, rindo. Rafael, abraçando Maria, disse rindo:
— Agora você é minha filha e será muito feliz!
Sempre estarei ao seu lado!
Vou cumprir o que prometi a sua mãe.
Agora, você precisa prestar bem atenção no que vou dizer.
Sabe que sua mãe está no céu, mas ela, antes de ir, pediu para eu e a Carmem cuidarmos de você.
Para que isso possa acontecer sem problema, e possa ficar ao nosso lado para sempre, de hoje em diante, você precisa me chamar de pai e Cármen de mãe.
Entendeu o que eu disse?
A menina, sem entender o que estava acontecendo, mas percebendo que ele estava feliz, riu e o abraçou com carinho.
— Está bem, pai.
Carmem ouviu e viu aquilo, mas permaneceu calada.
Maria, ainda rindo, voltou-se para ela e, abraçando-a, disse:
— Mãe...
Carmem, diante da felicidade de Rafael, abraçou-a e, sorrindo, disse:
— Sou sua mãe, Maria, e vou ser a melhor do mundo...
Juntos, seguiram para o local que lhes era indicado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 23, 2017 8:14 pm

Intenções reveladas
Seguindo a fila apontada pelo senhor, chegaram a um galpão grande com corredores separados por armários.
Em cada corredor, havia muitas camas.
As pessoas foram encaminhadas para um dos corredores.
Cada família tinha o direito de usar um dos armários, onde guardaram suas poucas coisas.
Rafael conduziu sua nova família.
Carmem, sempre segurando Maria pela mão, acompanhou Rafael e os irmãos.
Assim que chegaram às camas que seriam deles por aquela noite, Pepe, um dos irmãos de Carmem, se jogou sobre ela e disse feliz:
— Até que enfim uma cama decente para se dormir!
Minhas costas não aguentavam mais dormir naquele chão duro!
Todos riram e seguiram o exemplo dele.
Por alguns minutos, ficaram deitados, saboreando aquele momento de felicidade.
Após algum tempo, Carmem disse:
— Depois de me deitar em uma cama de verdade, o que mais desejo e preciso é tomar um banho decente.
— Todos nós precisamos, minha irmã.
— Será que tem um lugar reservado para isso, Rafael?
— Deve ter.
Esperem aqui, vou me informar.
— Está bem. Enquanto isso, vou abrir as malas e tirar algumas roupas para que possamos nos trocar.
Ainda bem que temos roupas limpas.
Como vamos ficar aqui só por um dia, não tirarei todas.
Pepe disse:
— Também vamos com você, Rafael.
Venha, Pedro. Vamos ver como é tudo por aqui.
Os homens saíram.
Carmem se levantou para pegar as roupas.
Maria continuou deitada sobre a cama.
— Agora você vai ficar bem quietinha.
Vou pegar um vestido bem bonito para você colocar.
A menina, sem entender o que estava acontecendo, obedeceu e ficou deitada, quieta, apenas observando tudo.
Depois de algum tempo, eles voltaram.
Rafael se aproximou da cama onde Carmem estava deitada ao lado de Maria.
Disse:
— Encontramos o lugar onde as pessoas tomam banho.
Tem um enorme fogão a lenha com caldeirões grandes onde a água fica esquentando.
Existem várias bacias.
Basta pegar a água, misturar com um pouco de água fria e levar para um compartimento separado por lonas.
Não é muito confortável, mas bem melhor do que o que tínhamos no navio.
Ao ouvir aquilo, Carmem se assustou:
— Separados por lona?
As pessoas não poderão nos ver?
— Sim, Carmem, basta levantar a lona, mas para que tenham tranquilidade, vamos para lá.
Enquanto um toma banho, o outro vai ficar tomando conta para que nada aconteça.
Embora soubessem que não era o ideal, sabiam também que não havia alternativa.
Precisavam urgente de um banho.
Pegaram suas roupas e foram para lá.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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