O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:38 pm

Após tomarem banho e com roupas limpas, foram encaminhados até outro galpão, onde havia grandes mesas e bancos feitos de madeira.
Viram que uma enorme fila se formava diante de outra mesa, também muito grande, e que as pessoas, com pratos nas mãos, passavam. Entraram na fila.
No início da mesa, havia tigelas feitas de barro e colheres.
Cada um deles pegou uma tigela e uma colher e continuou seguindo a fila.
Sobre a mesa, havia vários caldeirões e panelas.
Conforme iam passando, mulheres colocavam sopa em seus pratos.
Embora fosse apenas sopa, ela não era rala, mas com muitos legumes e folhas.
— Esta sopa parece estar muito boa.
— Tem razão, Pepe.
Melhor do que aquela que temos comido desde que embarcamos no navio.
— Preferia algumas tortilhas e um copo com vinho.
— Eu também, mas depois de toda fome que passamos no navio, qualquer prato de sopa como este será bem-vindo.
As mulheres que serviam comida conversavam entre si.
Eles não entendiam uma palavra e perceberam que teriam outro problema pela frente: aprender o idioma.
Com as tigelas nas mãos, foram até uma das mesas, sentaram-se e começaram a comer.
Enquanto comia, Rafael disse:
— Vocês viram que aquelas mulheres conversavam e que não entendemos palavra alguma.
Assim que chegarmos à fazenda, vamos precisar aprender o idioma, senão, tudo será mais difícil.
— Será que vamos aprender Rafael?
— Vamos, não, Pedro, precisamos.
Sem o idioma, não conseguimos nos comunicar e, sem comunicação, não conseguiremos nada.
— Será que na fazenda tem alguém que vai nos ensinar?
— Deve ter, Carmem.
Não se esqueça de que o dono é espanhol e deve se lembrar da dificuldade que teve quando chegou aqui sem saber falar português.
— Tem razão, Rafael.
Ele deve se lembrar.
Mas, mesmo assim, acho difícil aprender...
— Difícil deve ser, mas nada é impossível.
Nós vamos aprender, Carmem.
Precisamos vencer nesta terra e voltar para a Espanha, vitoriosos.
Preciso ganhar muito dinheiro para dar à Maria tudo o que ela merece e que prometi a Lola.
Sei que ela, de onde estiver, deve estar nos ajudando.
Carmem, ao ouvir aquilo, permaneceu calada, apenas balançou a cabeça concordando.
Depois que terminaram de comer, Pepe disse:
— Vamos caminhar um pouco? Gostaria de ver como é a cidade.
— Vamos, sim, não temos outra coisa para fazer. Também quero conhecer a cidade.
Levantaram-se e começaram a caminhar.
Queriam ver o máximo que pudessem.
Maria, dando as mãos para Carmem e Rafael, caminhava no meio deles.
Carmem disse:
— Estamos aqui, Rafael, será que tudo vai dar certo?
— Tem de dar, Carmem.
Depois de tudo o que passamos, não seria justo se não desse.
Saíram do galpão e foram para a cidade para ver o que havia.
Caminharam bastante.
Para eles, tudo era novidade.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:39 pm

Perceberam que a cidade era pequena, com poucas casas, mas, ao longe, viram uma serra colorida por flores e folhas muito verdes.
— Será que vamos ter de subir essa serra, Rafael?
— Vamos, sim.
São Paulo fica lá no alto.
— Como vai ser feito?
— O homem disse que seria por trem, você não se lembra?
— Será que vai demorar muito tempo?
— Não sei, precisamos esperar até amanhã.
— Não vejo a hora de chegarmos à fazenda e podermos começar a nossa vida.
Tomara que aqui, consigamos muito mais do que tínhamos na Espanha.
Pedro, ao ouvir o que ela disse, sério, falou:
— Qualquer coisa que conseguirmos aqui, Carmem, será muito mais do que tínhamos...
— Tem razão, Pedro...
Depois de andarem bastante e verem tudo o que podia ser visto, voltaram para o galpão onde estavam as camas.
À noitinha, voltaram ao galpão restaurante para comer, só que dessa vez não foi servida sopa, mas uma comida que, para eles, era estranha.
No lugar das tigelas, havia pratos, garfos e facas.
Ao passarem pelas mulheres que serviam a comida, ficaram olhando.
A primeira mulher colocou um pouco de arroz.
A segunda jogou feijão por cima e a terceira um pedaço de carne cozida com batatas.
Com o prato na mão, procuraram um lugar em uma das grandes mesas feitas com tábuas.
Encontraram e se sentaram.
Olhando para o prato Pepe agoniado, perguntou:
— Que comida é essa, Rafael?
— Não sei, mas, como não tem outra, precisamos comer.
— Pelo menos conhecemos a batata.
Começaram comendo, primeiro, as batatas.
Como elas estavam saborosas pelo molho da carne, comeram a carne e, por fim o arroz e o feijão.
Quando terminaram, um olhou para o outro.
Pepe foi quem disse:
— Afinal, embora a aparência seja feia, a comida é boa.
— Tem razão, Pepe, bem melhor do que a sopa que temos comido.
Após comerem, foram para o galpão onde estavam as camas.
Deitaram-se.
Naquela noite, nenhum dos passageiros do navio conseguiu dormir.
Depois de todo o sofrimento por que passaram durante a viagem, finalmente estavam em terra firme, longe dos perigos do mar e bem perto de realizarem seus sonhos.
Rafael, deitado de barriga para cima, olhando o tecto, também pensava:
Lola quando resolvi vir para cá, nunca imaginei que a encontraria, mas a encontrei e tivemos um breve momento juntos e que foram de esperança e de felicidade.
Infelizmente, a nossa esperança, os nossos sonhos não deram certo.
Não sei qual foi o motivo de você ter ido embora.
Sinto tanta saudade.
Queria estar ao seu lado.
Por que Lola, por que você teve de morrer? Não entendo.
Só de uma coisa posso ter certeza, sua filha será muito feliz.
Ela é sua lembrança viva.
Nunca me casarei e viverei somente para ela.
Assim, quando eu morrer, poderemos nos encontrar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:39 pm

Infelizmente, você teve de ir na minha frente, mas sei que, um dia, irei também.
Para ser sincero, não vejo a hora que esse dia chegue.
Carmem deitada ao lado de Maria, também pensava:
Finalmente chegamos e, se nada mais acontecer, meu sonho foi realizado.
Estou casada com Rafael.
Isso, desde que eu era pequena, foi sempre o que mais desejei.
Ele nunca demonstrou ter além de amizade por mim, mas, agora estamos casados.
Com o tempo, ele vai descobrir que me ama, vai ser o meu marido de verdade e vai me enxergar como mulher.
Nesse dia, serei a mulher mais feliz do mundo.
Quando me lembro da tristeza que fiquei quando ele me disse que ia embora da Espanha, que ia para um país distante e que talvez nunca mais voltasse.
Fiquei desesperada.
Não suportava a ideia de não o ver nunca mais.
Lembro-me de que, após chorar muito, tive uma ideia.
Fui até meu pai e disse:
— Pai o Rafael está indo para o Brasil.
— Brasil, onde fica isso?
— Não sei bem, mas parece que é na América do Sul.
Ele disse que lá vai poder ganhar muito dinheiro e que, por força de um contrato, vai trabalhar por um ano em uma fazenda.
Depois, com o dinheiro que ganhar durante esse ano, vai para uma cidade grande.
Quer montar o seu negócio com ferro.
— Ele trabalha muito bem com ferro, mas isso é sonho, minha filha.
Pobre não fica rico em lugar nenhum do mundo.
— Não, pai! Ele disse que viu alguns folhetos.
O país é muito grande, tem muita terra e pouca gente para cultivar.
Ele disse que todos os que foram para lá estão ricos.
— Isso é sonho minha filha, somente isso.
— Não é não, pai!
Nós também podíamos ir.
— Está louca!
Com a minha idade como vou me aventurar dessa maneira?
— Velho nada, pai.
Aqui não temos mais nada.
Perdemos nossas terras e logo seremos expulsos da nossa casa.
Quando isso acontecer, não teremos onde morar.
Lá existe uma esperança.
Vamos com ele, pai..
— Não, Carmem!
Isso não é possível.
— Porquê, pai?
— Já lhe disse, estou muito velho e você e seus irmãos são ainda crianças.
Além do mais, não quero morrer longe daqui.
— Por isso mesmo que devemos ir, pai.
O senhor diz que é muito velho, mas não é.
Nem fale nessa coisa de morrer!
Vai viver muito tempo ainda!
Não tem nem cinquenta anos.
Eu e os meninos somos jovens e poderemos trabalhar muito.
Com o nosso trabalho, vamos conseguir muito dinheiro e poderemos voltar.
Com dinheiro, o senhor poderá comprar um sítio maior do que este!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:39 pm

— Pare de pensar nisso, Carmem.
Não vou sair daqui.
Embora ele dissesse aquilo, não parei de sonhar.
Não conseguia suportar a ideia de ficar longe de Rafael, muito menos de não o ver nunca mais.
Resolvi que, se meus irmãos me ajudassem, tudo seria mais fácil.
Pensando assim, fui conversar com eles:
— Pedro, Pepe.
O Rafael vai para o Brasil.
Nós podíamos ir junto!
— Brasil? O que ele vai fazer lá?
— Ficar rico, Pepe!
— Ficar rico, como?
— Lá tem muita terra para ser cultivada e poucos trabalhadores.
Ele disse que muitos que foram já conseguiram suas próprias terras!
— É verdade?
— Ele disse que sim.
Está entusiasmado.
Também aqui não temos mais futuro algum.
Sabe como está difícil.
Quem sabe se, indo para lá, não consigamos uma vida melhor!
Eles pensaram por um tempo. Pepe disse:
— Não sei, Carmem.
A ideia parece ser boa.
Aqui não temos mais nada.
Mas o pai nunca vai querer ir e muito menos vai nos deixar ir sozinhos.
— Sei disso, mas se todos falarmos com ele, vai ter de aceitar.
Deixe isso por minha conta.
O importante é que queiram ir e que me ajudem a convencer o pai.
— Não sei não, tenho só quinze anos.
Não sei se vou conseguir viver em um país estranho.
— Por isso mesmo, Pepe!
Por ter só quinze anos é que deve ir.
Tem muito tempo pela frente.
É forte, poderá trabalhar bastante e conseguir muito dinheiro!
Você também, Pedro.
Com treze anos, poderá voltar para cá, comprar um sítio só seu, um cavalo, uma carroça nova e quem sabe até tua carruagem!
Já imaginaram a cara das mocinhas quando virem vocês andando de carruagem só suas?
Eu sabia que aquilo que estava dizendo era o sonho de todo adolescente.
Por isso, insisti por muitos dias, até que concordaram.
Juntos, fomos falar com meu pai.
— Pai, eu e os meninos estivemos conversando e não achamos justo que o senhor faça com que percamos a oportunidade de ficarmos ricos.
— O que está falando, Carmem?
— Estou falando que, se formos para o Brasil, poderemos ficar ricos e, dentro de alguns anos, vamos voltar com muito dinheiro.
— Você enlouqueceu, mesmo! Já conversamos sobre isso.
É impossível!
— Impossível, por quê?
— Já lhe disse que estou velho e que não posso me aventurar em uma viagem como essa!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:39 pm

— Não está velho, nada, pai!
Ainda é forte e poderá trabalhar muito!
— Não posso fazer isso...
— Pode, sim, pai!
Sei que não vai se arrepender!
Os meninos acompanhavam a conversa. Em dado momento, Pepe disse:
— Pai, sabe que aqui não temos futuro algum.
Por isso, se existe mesmo a oportunidade de ficarmos ricos, o senhor não pode impedir.
Não queremos ser como o senhor que trabalhou a vida toda e não conseguiu nada e que agora perdeu suas terras e a casa em que mora e que construiu com tanto trabalho.
Precisamos ir...
Ao ouvir aquilo, meu pai, ficou pensativo, depois disse:
— Está bem, vou pensar.
Depois eu dou uma resposta.
Saiu da cozinha onde estávamos e foi para o quarto.
Nós ficamos esperando, cruzando os dedos para que aceitasse.
Durante quatro dias, ele ficou pensativo e quase não falava.
Eu não toquei mais no assunto e, seguindo o meu conselho, meus irmãos também não.
No quinto dia, logo pela manhã enquanto tomávamos café, ele, com o rosto sério, disse:
— Pensei bastante a respeito dessa viagem que querem fazer.
Para mim, é uma loucura, pois estou velho, mas, para vocês que são jovens, pode representar um futuro melhor.
Não sei se o que estão dizendo é verdade.
Se realmente existe tanto dinheiro assim nesse país, nem se dará certo, mas se é o que desejam, que seja feito.
Não tenho o direito de impedir que vocês, meus filhos, tenham a oportunidade de ter uma vida melhor do que foi a minha.
Vamos vender tudo o que restou de móveis e animais.
Vamos nos aventurar nessa viagem.
Deus é quem sabe o que vai acontecer, se é para o melhor ou pior.
Sem conseguir nos conter, nos atiramos sobre ele e o beijamos com carinho.
Minha mãe, que acompanhou tudo o que aconteceu, embora não pudesse dar opinião por ser mulher, também estava com medo, mas sabia que era a única saída que havia para uma vida melhor.
Eu não cabia em mim de felicidade.
Além de não ficar longe de Rafael, poderia, com o tempo, conquistá-lo.
Muitas vezes me senti culpada pela morte deles.
Sei que, se tivessem continuado na Espanha, não teriam morrido.
Depois de muito pensar, resolvi que vou aceitar o que todos dizem:
foi a vontade de Deus e todos morrem na hora certa.
Não entendo por que isso aconteceu e não aceito, mas nada posso fazer.
Sinto falta deles, porém a vida precisa continuar.
Neste momento, o que mais me interessa é conquistar Rafael e fazer com que se torne meu marido de verdade.
Maria, que estava deitada ao lado dela, se mexeu:
Ela olhou para a menina e continuou pensando:
Ainda bem que sua mãe morreu.
Com sua morte e deixando você, me deu a oportunidade de realizar meu sonho.
O que me preocupa agora é a sua presença.
Sei que, enquanto estiver por perto, Rafael não vai esquecer sua mãe.
Preciso pensar em uma maneira de tirar você da nossa vida para sempre.
Assim que chegarmos à fazenda, me dedicarei a isso...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:40 pm

Rafael, que estava deitado na outra cama, viu quando Maria se mexeu e perguntou:
— Ela está bem, Carmem?
Tentando evitar dizer o que ela pensava realmente, respondeu:
— Está, sim, Rafael Não se preocupe.
É uma menina muito forte e lutadora.
— É verdade, Carmem.
Tão forte como foi sua mãe.
Embora esteja feliz por estar aqui, também estou triste pela Lola não estar aqui ao meu lado.
Sinto que nunca mais vou conseguir gostar de outra pessoa.
Por isso decidi que me dedicarei totalmente a Maria.
Vou viver por ela, para que cresça e seja feliz.
Aquelas palavras pareceram flechas que a atingiam mortalmente, mas, disfarçando o que sentia e pensava, disse:
— Faça isso, Rafael... faça isso.
Agora, vamos tentar dormir.
Amanhã, teremos um dia longo.
A viagem parece ser demorada.
— Tem razão.
Pelo menos agora, estamos perto.
Sinto que assim que chegarmos à fazenda, nossa vida mudará.
— Espero que seja para melhor, Rafael.
— Vai ser, Carmem.
Tomara que esta noite passe bem depressa.
Carmem sorriu e, olhando para Maria que dormia, pensou:
Não tem jeito mesmo, preciso encontrar uma maneira de tirar você da nossa vida.
Só assim ele vai se esquecer da sua mãe.
Olhando para Rafael que estava com os olhos fechados, pensou:
Pode pensar o que quiser, mas tenho certeza de que vou fazer com que me ame e seja meu marido de verdade, você vai ver...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:40 pm

Fim da viagem
Embora não fosse o desejo deles, a noite demorou a passar.
Dormiam e acordavam a todo instante.
Estavam ansiosos para, finalmente, chegarem ao destino e poderem ganhar muito dinheiro, pois, só assim, poderiam voltar.
Rafael, olhando para o lado e vendo Maria dormir, pensou:
Se sua mãe estivesse aqui, estaria muito feliz e eu também.
Não sei por que você nasceu e perdeu os pais tão cedo.
Não sei por que veio parar nos meus braços, mas não importa.
Você é minha filha e a amo muito.
Maria, parecendo ouvir o que ele pensava, se mexeu na cama e sorriu.
Ele também sorriu e continuou pensando:
Você está sonhando, minha pequena.
Continue a sonhar com uma vida maravilhosa que eu vou tentar dar a você...
Finalmente, o dia amanheceu.
Antes da hora marcada, todos os que chegaram no cargueiro estavam prontos para seguirem viagem. Rafael e Carmem também.
Ela terminou de vestir Maria e, vendo que Rafael olhava, abraçou a menina e a beijou, demonstrando carinho e amor quer na realidade não sentia.
Ele, ao ver aquela cena, sorriu e disse:
— Você gosta muito dela, não é, Carmem?
Ela, vendo que atingira o que desejava, sorriu, abraçou Maria novamente e respondeu:
— Como poderia deixar de gostar?
Ela é tão linda! É a minha filha!
— Minha também.
Vamos fazer de tudo para que ela seja feliz, não é?
— Claro, Rafael.
Tudo o que estiver ao meu alcance, eu vou fazer.
Agora, vamos pegar as malas e ver para onde temos de ir.
Rafael pegou duas malas.
Carmem seguiu, segurando Maria pela mão.
Pepe e Pedro também estavam prontos.
Pegaram o resto das coisas e, com os corações cheios de esperança, foram até o galpão restaurante, onde estava sendo servido café e pão com manteiga.
Após tomarem café, foram encaminhados até a estação de trem, onde embarcariam rumo a São Paulo, cidade que eles não conheciam e que só tinham visto onde ficava através de um mapa que acompanhava os folhetos de propaganda.
Dos muitos que haviam feito contrato com o dono da fazenda Pinheiral e embarcado no cargueiro, sobraram apenas dezoito.
Os outros não conseguiram chegar.
Durante a viagem, morreram no navio.
Na estação, enquanto esperavam o trem, ouviram um dos passageiros perguntar a um funcionário que passava por ali:
— O trem vai demorar muito para chegar a São Paulo?
— Vai, sim, moço.
O motor a vapor não tem força para subir a serra.
É preciso amarrar o trem que sobe no trem que desce e um vai segurando o outro.
Isso demora muito porque precisa ser feito bem devagar.
— Um segura o outro?
E se soltar.
— Não solta, não moço.
É bem amarrado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:40 pm

Rafael, que ouvia a conversa, ficou pensando de que maneira aquilo poderia acontecer.
Olhou para o lado em que a serra se encontrava e, embora já a tivesse visto antes, só aí notou como ela era alta.
Bem, não sei como isso acontece.
Como um trem pode segurar o outro, mas logo mais vou saber.
Falta pouco tempo para embarcarmos.
Logo depois, todos embarcaram e o trem saiu lentamente da estação.
Embora os passageiros não pudessem ver como era um preso ao outro, notaram que ele subia a serra bem devagar.
Enquanto subia, eles observavam a paisagem colorida por folhas verdes e flores coloridas.
Não houve ninguém que não se deslumbrasse com aquela paisagem.
Uma das senhoras, emocionada, disse:
— Parece uma colcha de retalhos! É lindo!
Não sabiam precisar quanto tempo havia demorado a subida, também aquilo não os preocupava, pois a viagem estava sendo agradável.
Finalmente, o trem começou a deslizar em um terreno plano.
Algum tempo depois, chegaram a uma estação onde foram informados de que deveriam descer.
Desceram do trem.
Algumas pessoas corriam para outras que as estavam esperando na estação.
Outras se reuniam em grupos à espera de que alguém da fazenda para onde deveriam ir estivesse à espera deles.
Rafael juntou-se àqueles que iam para a mesma fazenda e ficaram esperando alguém aparecer.
Ficaram ali, conversando e ansiosos, aguardando.
Todos falavam de seus sonhos e do desejo que tinham de voltar para a Espanha, só que com muito dinheiro.
Viram um negro, trazendo uma placa nas mãos e, levantando-a para o alto, andava no meio da multidão.
A maioria não sabia ler, mas aquilo que estava escrito na placa, todos conheciam: Fazenda Pinheiral.
Juntos, acenaram para o negro que, sorrindo com dentes muito brancos aproximou-se, dizendo:
— Ainda bem que encontrei vocês.
Meu nome é Tonhão.
Eu me atrasei um pouco.
O senhor Pablo mandou que eu viesse até aqui para buscar vocês.
Ele está ansioso para que cheguem logo.
Tem muito trabalho lá na fazenda.
Pegou na mão de cada um, cumprimentando-os, depois disse:
— O trem que vai para Oeste Grande só chega amanhã cedo.
Por isso vamos ter de passar a noite aqui.
Procurem descansar, pois vamos viajar por quase oito horas.
Um deles perguntou:
— Onde vamos ficar?
— Tem uma hospedaria para vocês ficarem.
Eu não posso, mas estou em um hotel lá perto.
Vou levar vocês até a hospedaria e amanhã a gente se encontra às cinco horas.
Ninguém pode perder a hora, porque o trem sai na hora certa e quem não estiver aqui, vai ficar para trás.
Todos riram.
Sabiam que não perderiam a hora.
Depois de tanto tempo e sofrimento, isso não aconteceria.
Seguiram o negro que os levou até um galpão um pouco maior do que aquele onde tinham ficado.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:40 pm

Mostraram o papel que haviam recebido e puderam entrar.
Lá dentro, constataram que era praticamente igual ao outro.
Havia grandes corredores separados por armários.
Foram encaminhados até as camas em que ficariam.
Já conheciam a rotina.
Sabiam que devia haver lugar para tomar banho e um restaurante para serem alimentados.
Assim que chegaram, Carmem, segurando Maria pela mão e após se sentar, disse:
— Mais um dia, Rafael, parece que nunca vamos chegar...
— Agora está perto, Carmem.
O pior já passou.
Amanhã, estaremos na fazenda.
O dia e a noite demoraram a passar, mas, como já estavam acostumados e, durante a viagem, aprenderam a ter paciência, esperaram chegar a hora de irem para a estação.
Todos os que iam para o mesmo lugar, reuniram-se e foram juntos para a estação que ficava bem perto.
Quando chegaram, encontraram Tonhão, que os recebeu com o mesmo sorriso:
— Chegaram na hora.
Estão todos aqui? Com a cabeça, disseram que sim.
— Está bem.
Logo mais o trem vai chegar e poderemos ir embora.
Sentem-se nos bancos.
Não vai ter para todos, por isso, mulheres e crianças primeiro. — disse, rindo.
O trem chegou e eles, em ordem, foram entrando e se acomodando.
As poucas crianças, fizeram questão de se sentar às janelas, o que os adultos, embora sem vontade, permitiram.
Todos queriam ver a paisagem, conhecer aquele país tão elogiado nos folhetos.
Carmem sentou-se ao lado de Maria e junto à janela.
Rafael sentou-se em frente a ela.
Maria olhou para ele, estendeu os bracinhos.
Ele, com carinho, pegou-a, abraçou-a e disse:
— Você é linda, mesmo!
Parece com sua mãe.
É uma pena que ela não está aqui, mas sei que estará sempre ao nosso lado, nos amando como nós ainda a amamos, não é? — a menina sorriu e acenou com a cabeça.
Depois, voltou a olhar pela janela.
Carmem ouviu aquilo e sentiu um arrepio correr por sua espinha, pensou:
Essa menina é realmente muito parecida com a mãe.
Acho que quanto mais for crescendo, mais parecida vai ficar.
Se ela continuar ao nosso lado, Rafael nunca vai se esquecer de Lola e não vai querer viver comigo como marido.
Preciso dar um jeito nessa situação.
Enquanto o trem andava, Rafael ficou brincando com Maria.
Levantou-se, andou com ela pelo vagão.
Ela, sorridente, mexia com as pessoas, que ao verem uma criança tão linda e inteligente como aquela, não conseguiam deixar de rir e brincar com ela.
Depois de andar bastante com Maria, Rafael voltou para junto de Carmem.
Sentou-se e colocando a menina ao lado dela, disse:
— Carmem, preciso agradecer a você por ter tido a ideia de mentirmos que éramos casado para podermos ficar com a Maria.
Se não tivéssemos feito isso, não sei onde ela estaria agora.
Ela, beijando o rosto de Maria, disse:
— Era a única coisa que podíamos fazer.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:41 pm

Se não fosse isso, agora, ela não estaria aqui ao nosso lado.
Teria sido mandada para um orfanato.
— Tem razão, mas sabemos que o que fizemos poderá trazer consequências.
— Que consequência, Rafael?
— Eu já decidi a minha vida.
Nunca mais vou me interessar por mulher alguma.
Não quero me casar.
Vou viver somente para criar Maria.
Quanto a você, ainda é jovem e bonita.
Poderá, a qualquer momento, encontrar um homem de quem goste e que goste de você também e com queira se casar.
Sendo casada comigo, vai complicar.
Ela começou a rir.
A vontade que sentiu foi de falar que não queria outro homem, que o homem de sua vida era ele, mas se conteve e disse:
— Já lhe falei que nunca vou me casar, Rafael.
Vou viver somente para o trabalho, dar uma educação e uma boa vida para meus irmãos e ajudar você a criar a Maria.
É tudo o que quero.
— Você diz isso agora, mas não sabemos o que vai acontecer no futuro.
— Nada vai acontecer, Rafael.
Tudo vai continuar como está agora.
Continuaremos juntos, é só isso que importa.
Você me ajuda com meus irmãos e eu o ajudo com a Maria.
— Está bem. Sei que, por hora, pensa assim, mas, se aparecer um homem na sua vida, basta me contar.
Conversarei com ele e contarei o que aconteceu.
Direi que, embora estejamos casados no papel, nunca tivemos uma vida como marido e mulher.
Se ele gostar mesmo de você, entenderá.
Ela, abraçando e beijando a menina novamente, disse:
— Não vamos nos preocupar com isso, agora, Rafael.
Isso não vai acontecer, mas, se acontecer, na hora certa, vamos saber o que fazer.
Por enquanto, só o que interessa é o nosso trabalho e o muito dinheiro que vamos ganhar e os cuidados com essa coisa linda!
Voltou a beijar a menina e, enquanto fazia isso, pensou:
Nada disso vai acontecer, porque você vai ser meu marido de verdade!
Para isso, estou disposta a fazer qualquer coisa.
Estamos juntos e nunca mais vamos nos separar!
Rafael sorriu feliz, ao ver o carinho dela para com Maria.
Um dos passageiros perguntou:
— Tonhão, disseram que tem muito trabalho na fazenda, é verdade?
— E dinheiro também! — disse outro.
Tonhão olhou para um e para outro e respondeu:
— Trabalho tem bastante, mas dinheiro... não sei não...
— Como, não? Os folhetos diziam que havia muito dinheiro!
— Diziam, é?
Todos os que estavam no vagão voltaram-se para Tonhão, que continuou:
— Já vi muitos que vieram de países distantes achando que aqui ficariam ricos, mas não ficaram não.
Aqueles que conseguiram, foram embora para uma cidade maior, outros, não tendo como ir embora, ficaram por aqui mesmo.
Os passageiros, assustados, ficaram olhando para ele.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:46 pm

— Quando chegou a proposta de trabalho, o senhor Pablo disse que a fazenda era muito grande e por isso precisava de muitos trabalhadores.
— A fazenda é grande mesmo.
O patrão tinha mais de cem escravos, mas, quando veio a liberdade, todos foram embora.
Por isso, ele precisa de muita gente para tocar a lavoura.
Desorientados, uns olharam para os outros e permaneceram calados.
Rafael olhou para Carmem e seus irmãos que também estavam atónitos e assustados.
Ela perguntou:
— Será que é verdade, Rafael?
Será que não vamos conseguir ganhar muito dinheiro?
Será que todo o sofrimento desta viagem foi para nada?
— Não sei, Carmem.
Agora não tem volta.
Precisamos chegar para ver.
— E se for verdade, o que vamos fazer?
Não temos como voltar para a Espanha!
Não sobrou dinheiro algum!
— Fique calma.
Vamos esperar para ver o que acontece.
Estamos quase chegando.
Depois de conversarmos com o senhor Pablo, vamos ver o que pode ser feito.
Ela sabia que ele estava certo.
Nada poderia ser feito naquele momento.
Preocupada, ficou olhando pela janela do trem que seguia lentamente.
Estava muito calor.
Todos começaram a abrir as janelas.
A fumaça que saía da chaminé da máquina do trem entrou no vagão.
Eles ficaram com as roupas e rostos pretos de fuligem, mas não se importaram, pois estavam perto de realizarem seu sonho.
Eram quase três horas da tarde, quando o trem parou mais uma vez.
Tonhão levantou-se e disse:
— Chegamos.
É aqui nesta estação que vamos descer.
Peguem suas coisas e fiquem todos juntos na estação.
Temos ainda um longo caminho para percorrer antes de chegar à fazenda.
Todos, agora sem muito entusiasmo, obedeceram e, em ordem, desceram.
Assim que desceram, o trem partiu e eles, com os olhos, o acompanharam.
Seguindo Tonhão, saíram da estação.
Já lá fora, ele disse:
— A fazenda fica a quase duas horas daqui, andando a pé.
Como tem muita gente, não dava para mandar transporte.
Por isso, vamos ter de andar.
Cansados, preocupados e agora sem saber se tinham feito o melhor, concordaram e começaram a caminhar.
O sol estava forte e o dia quente, o que fazia com que a caminhada se tornasse cansativa.
Tiveram de parar várias vezes.
Sentiam necessidade de beber água, mas não havia.
Passaram por um rio com água cristalina.
Tonhão disse:
— Se quiserem, podem beber desta água, ela é boa.
Vem de uma nascente aqui perto.
Eles não resistiram e foram até a água.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:47 pm

Alguns beberam, lavaram mãos e rostos.
Carmem e as outras mães que tinham crianças pequenas as banharam.
Os irmãos de Carmem e outros jovens como eles entraram na água.
Ficaram parados ali por mais de uma hora.
Em seguida, continuaram a caminhada que parecia interminável.
Caminharam por mais de meia hora, quando, finalmente viram, ao longe, uma casa que parecia ter muitos quartos.
Ela era branca e suas janelas, pintadas de azul.
Tonhão disse:
— Ali está a casa-grande da fazenda.
Agora falta pouco e vocês poderão descansar.
Embora desanimados com o que estava acontecendo, ficaram felizes por, finalmente, após tanto sofrimento e tantas vidas perdidas, chegarem ao destino.
Uns ajudando aos outros, continuaram caminhando e sendo castigados por aquele sol forte ao qual não estavam acostumados.
Chegaram frente a um portão grande.
Tonhão o abriu e todos puderam entrar naquela que fora o motivo de se lançarem em uma aventura e de terem deixado seu país com o sonho de felicidade e riqueza.
Após caminharem mais ou menos cinquenta metros, chegaram diante de um grande pátio em frente a uma escada que levava à porta principal da casa.
Tonhão novamente se dirigiu a eles:
— Agora podem se sentar aí no chão mesmo.
Todos se sentaram. Não só por Tonhão ter dito, mas por estarem exaustos, com sede e fome.
Olhavam-se, desacreditando de tudo o que estava acontecendo.
Aquilo não era o que esperavam encontrar no país das oportunidades.
Abatidos e fracos, ficaram olhando para a casa que, por fora, parecia ser muito grande e confortável.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:47 pm

Chegando ao destino
Logo a porta principal da casa se abriu e dela saiu Pablo, o dono das terras, um homem forte e bem vestido.
Ao seu lado, estava uma senhora, também bem vestida.
Do alto da escada podiam ver todas aquelas pessoas com as roupas sujas e com aparência cansada.
Sorriu e com a voz imponente e falando em espanhol, disse:
— Ainda bem que chegaram!
Sejam bem-vindos!
Meu nome é Pablo, sou o dono da fazenda.
Esta é minha esposa, Maria Augusta.
Soube que tiveram alguns contratempos durante a viagem, mas tudo isso vai passar.
Quando enviei o agenciador para conseguir trabalhadores, foi porque tenho muitas terras e preciso plantar.
Os negros foram embora e aqui não há quem queira trabalhar.
Eu mandei o agenciador dizer que todos vocês poderiam trabalhar e receber um salário.
Isso é verdade.
Mas, enquanto viajavam para cá, fiquei pensando que se eu desse um salário, alguns trabalhariam mais que os outros, por isso resolvi que ao invés de pagar um salário, vou dar um pedaço de terra para cada família.
Ao ouvir aquilo, embora cansados, ficaram animados e começaram a conversar entre si.
Rafael perguntou:
— O senhor vai mesmo nos dar terras?
— Não, meu jovem.
Vou alugar a vocês.
As terras continuarão sendo minhas.
Todos poderão trabalhar.
Plantarão e o que colherem será dividido metade para vocês e metade para mim.
— Metade? Por quê?
— Será o pagamento do aluguel pelas terras.
— Pensamos que nos daria a terra.
— Ora, meu jovem, quem daria terras?
Elas me custaram dinheiro e foram caras.
Aqui, diferente da Espanha, vocês poderão trabalhar e ter uma vida melhor do que aquela que tinham lá.
— Da maneira como está falando, nunca conseguiremos ter as nossas próprias terras.
Somente trabalharemos nela?
— Vocês terão oportunidade de comprar suas próprias terras, basta, para isso, que, depois da colheita, economizem tudo o que puderem e guardem o dinheiro.
Logo terão o suficiente para comprar as terras que quiserem.
Este país é grande!
Tem muita terra para ser cultivada.
Aquelas palavras fizeram com que todos se animassem novamente.
O homem continuou:
— Todos vocês, junto com os meus trabalhadores, dividirão um pedaço da terra em partes iguais e dependerá de cada família de como se empenharão.
Quanto mais plantar, mais vai colher e mais dinheiro vai ter.
A animação foi geral.
Todos conversavam e riam.
Então era verdade mesmo, naquele país iam ficar ricos e poderiam voltar para a Espanha levando muito dinheiro.
Para isso, bastava só trabalhar.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:47 pm

Quando decidiram fazer a viagem, sabiam disso e não tinham medo do trabalho.
Dentre todos, somente Rafael não estava tão animado.
Perguntou:
— Por tudo o que o senhor disse, vamos plantar e, se trabalharmos muito, depois da colheita, vamos ter dinheiro.
Não temos medo do trabalho, mas como vamos viver até lá?
— Não se preocupe com isso.
Aqui na fazenda, tem um armazém com alimentos, roupas, calçados, enfim tudo o que precisam para viver.
Durante o plantio e enquanto esperam a colheita, poderão comprar aquilo que quiserem.
Tudo o que comprarem será marcado em uma caderneta e só pagarão depois da colheita, na hora da divisão do dinheiro.
Como estão vendo, estou facilitando a vida para todos vocês.
Pablo falava com animação, o que fez com que todos ficassem animados também.
Ele continuou:
— Como não sabia quantos conseguiriam chegar até aqui, não preparei casas.
Por isso, ficarão no galpão que era a senzala, onde os negros ficavam.
Apontou com a mão e eles, ao longe, viram um grande galpão.
Olhando para aquele outro lado, podem ver aquela mata.
Ali será feita a plantação, mas para isso é preciso limpar o terreno.
As árvores precisam ser cortadas e o terreno, capinado.
Poderão aproveitar os troncos e galhos das árvores que, depois de misturados com barro, servirão para que as casas sejam construídas.
Garanto que, dependendo do capricho de cada um, poderão construir belas casas.
Cada família poderá construir a sua própria ou todos poderão construir juntos.
Isso vai depender de vocês.
Depende também de cada família, o tempo que levará para ter sua casa.
Estou vendo que trouxeram crianças pequenas.
Isso não é bom, pois elas, além de não poderem trabalhar, ainda dificultam o trabalho das mães.
Se eu soubesse que tinham crianças pequenas, não teria contratado seus pais.
Porém, já que estão aqui que fiquem.
Voltando a falar das casas, claro que terão de pagar um pequeno aluguel por elas.
Rafael, preocupado, perguntou:
— Vamos ter de pagar aluguel?
Assim não vai sobrar dinheiro algum...
— Claro que vão ter de pagar, ninguém mora de graça, não é?
Mas não precisa se preocupar.
A colheita vai dar muito dinheiro e, no final dela, sobrará muito.
Carmem que, calada, a tudo ouvia, falou baixinho:
— Vamos ter de pagar por uma casa feita de madeira e barro, Rafael?
Nunca vi uma casa assim...
— Também nunca vi, mas, agora, precisamos aceitar tudo o que ele nos oferece.
Nada mais temos para fazer.
Ela sabia que ele tinha razão, por isso se calou e ouviu quando Rafael perguntou:
— Como poderemos construir casas de madeira e barro se nunca vimos ou moramos em uma?
Não saberemos como fazer...
— Não se preocupe com isso.
Tenho aqui muitos homens que sabem como fazer.
Eles ensinarão a vocês.
Amanhã, quando o armazém abrir, poderão comprar serrotes, enxadas e pás para a derrubada da mata.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 24, 2017 7:48 pm

— Nós vamos ter de comprar?
— Claro que sim, vocês não são os donos da terra e da plantação?
Novamente olharam-se.
Pablo continuou:
— Bem, parece que já disse tudo.
Agora, Tonhão vai levá-los até a senzala.
Lá poderão descansar o resto do dia e amanhã, bem cedo, começaremos a limpar a mata para, depois, dividirmos as terras.
Hoje, mandei que fosse feita sopa para que todos pudessem se alimentar.
A partir de amanhã, poderão comprar no armazém.
Enquanto as casas não ficam prontas, poderão cozinhar em um fogão a lenha que está perto da senzala.
Bem, acho que já disse tudo.
Até mais, bom trabalho e boa colheita para todos.
Dona Maria Augusta que, até aí permaneceu calada, disse:
— Eu estou esperando uma moça chamada Lola que vinha no mesmo navio.
Ela está aqui?
Carmem olhou para Rafael que respondeu:
— Não, senhora.
Infelizmente ela não conseguiu chegar, morreu no navio.
— E a menina dela, está aqui?
Carmem, ao ouvir aquilo, sentiu um arrepio correr por sua espinha e, antes que Rafael respondesse, disse:
— Não, senhora.
A menina morreu também.
Todos que estavam ali conheceram Lola e sabiam que era mentira, mas como, desde o início, haviam concordado em mentir, se calaram.
Maria Augusta demonstrou no rosto um sentimento de tristeza, mas ficou calada e, sob o olhar de todos, se afastou.
Tonhão, com aquele seu sorriso de sempre, disse:
— Agora, meu povo, vamos ver onde vocês vão dormir.
Sigam-me, por favor...
Novamente eles os seguiram.
Andaram dez minutos, passaram por um grande fogão, onde a lenha queimava alta.
Viram que, sobre ele, havia dois caldeirões enormes que ferviam.
Pelo cheiro, perceberam que se tratava da sopa da qual Pablo havia falado.
Em seguida, chegaram diante de um grande galpão.
Entraram. O que viram lá os assustou.
O galpão, construído com madeira e barro, e coberto com uma espécie de grama que, mais tarde, vieram a saber que se chamava sapé.
Tinha grandes frestas por onde, quando chovesse, com certeza entraria água.
O chão de terra pisada estava muito sujo.
Em um dos cantos havia uma pilha de esteiras sujas e usadas.
Era um lugar em que, na Espanha, nem os bichos ficariam.
Tonhão, que já havia visto muitas vezes aquela cena, de outros imigrantes que vieram antes, disse:
— É aqui que vão ficar até construírem as casa.
Vai depender de cada um quanto tempo vai demorar.
Ficaram revoltados.
Julian, um dos imigrantes, alto, moreno, forte e com a idade mais ou menos igual à de Rafael, nervoso, disse:
— Não vamos ficar em um lugar como este!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:20 pm

Na Espanha nem porco dorme em um lugar sujo como este!
Tonhão olhou para ele e, agora, sem sorrir, com rosto crispado e a voz firme, disse:
— Isso é lá na sua terra.
Por que não ficou lá?
O que veio fazer aqui? Eu sei.
Lá vocês não tinham trabalho... não tinham como sobreviver... não é?
— É verdade, mas não viemos para cá para sermos tratados como bichos!
— Sei que não vieram.
Acharam que iam vir para cá, ganhar terras, ficar rico e poder voltar, mas a coisa não é bem assim.
Vocês vão ter de trabalhar muito para conseguirem o que pensaram que encontrariam aqui..
Julian, mais nervoso ainda, disse:
— O agenciador disse que este país é muito grande e que tem muita terra!
— O país é grande, como o patrão disse.
Tem muita terra, sim, mas cada pedaço de terra tem um dono e ninguém vai dar de mão beijada, não.
Todos que possuem terras pagaram por elas.
Julian, ao ouvir aquilo, olhou para os outros e gritou:
— Fomos enganados!
Nada do que disseram é verdade!
Os outros também estavam revoltados.
Tonhão, ao ver aquela reacção e já estando acostumado com aquela atitude, gritou mais alto:
— O negócio é o seguinte.
Ninguém aqui é escravo, está amarrado em correntes ou é prisioneiro.
Tem duas coisas que vocês podem fazer.
Primeiro, entrar na senzala, escolher um lugar para ficar até as casas ficarem prontas.
Cada um pega uma esteira e se acomoda.
Lá naquele canto, tem sabão de soda, quem quiser, pode ir até o rio tomar banho.
Ele não é fundo, não.
Como já viram, não tem cobertor, também não vão precisar porque aqui faz muito calor, mas se alguém sentir frio, amanhã, pode ir ao armazém comprar.
Lá tem cobertor muito bom.
Depois, como o patrão é muito bom, mandou preparar uma sopa para que todos possam tomar uma tigela.
Hoje vocês vão comer só isso, mas, a partir de amanhã, poderão ir até o armazém e comprar o que quiserem.
Aqueles que resolverem ficar, amanhã bem cedo irão para a lavoura, depois, à tarde, quando terminarem o serviço, poderão ir até a mata escolher as árvores que querem derrubar para pegar os troncos e os galhos.
Assim, as casas logo estarão prontas.
Segunda coisa que podem fazer é ir embora, ninguém vai impedir.
O patrão não se importa, porque sabe que lá na terra de vocês têm muitos que estão querendo vir para cá e ficar ricos.
Vocês é que precisam escolher o que fazer.
Novamente uns olharam para os outros.
Julian, adivinhando o que estavam pensando, disse:
— Ouviram o que ele disse.
Pelo que parece, fomos enganados.
Precisamos decidir o que fazer.
— Não temos como ir embora, Julian!
Não temos dinheiro!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:20 pm

Tudo o que tínhamos foi gasto com a viagem! Sem dinheiro, para onde poderemos ir?
— Sei disso, Rafael.
Vejo que vamos ter de ficar aqui, trabalhar até conseguirmos dinheiro para ir embora.
— Por enquanto é somente isso que podemos fazer.
Alguém deseja falar alguma coisa?
Ninguém se apresentou, pois todos estavam na mesma situação.
Tonhão, vendo que estavam todos calados, disse:
— Bem, agora que já decidiram o que fazer, podem entrar na senzala.
Impotentes diante daquela situação, entraram na senzala.
Pegaram as esteiras e escolheram o lugar onde iam ficar.
Cada um pegou um pedaço de sabão e foi para o rio.
Além de cansados, estavam pretos de fuligem.
Entraram na água que, por causa do sol quente, estava morna.
Tomaram banho com a roupa sobre o corpo e aproveitaram para lavá-las também.
Depois do banho, com as roupas ainda molhadas sobre o corpo, foram para junto do fogão, tomar sopa.
A sopa era rala e quase sem tempero, mas para eles que estavam com muita fome, estava boa.
Após tomarem a sopa, começaram a andar pela fazenda para que as roupas secassem com o sol.
Também queriam conhecer tudo.
Carmem, com Maria ao seu lado, caminhou junto a Rafael e disse:
— Rafael, agora que estamos aqui e vimos que não era nada do que imaginávamos, o que vamos fazer?
— Precisamos continuar aqui até conseguirmos um pouco de dinheiro.
Depois, veremos o que fazer.
Por enquanto, nada pode ser feito.
O homem disse que vai nos dar um pedaço de terra para plantarmos.
Eu, o Pepe e o Pedro, se trabalharmos muito, quando chegar a colheita, pagamos a metade do dono e, com o que sobrar, poderemos ir embora.
— Embora para onde, Rafael?
— Não sei, Carmem, talvez para a Capital ou outra fazenda que nos dê um melhor meio de vida.
Quando chegar a hora, resolveremos.
Julian, que caminhava logo atrás deles, se aproximou:
— O que está achando de tudo isso, Rafael?
— Está ruim, Julian.
Tenho a impressão de que essa viagem foi inútil, mas o que há de se fazer.
Agora que estamos aqui, precisamos dançar de acordo com a música.
— Tem razão. Estive pensando e tenho uma proposta para lhe fazer.
— Que proposta?
— Como sabe, eu viajava com meus três irmãos, mas, infelizmente eles morreram no navio.
Estou sozinho.
O dono da fazenda disse que vai nos dar um pedaço de terra.
Poderíamos juntar as nossas e todos trabalharmos juntos, assim, teremos mais dinheiro na colheita, que acha?
Rafael, que conhecia Julian desde criança, pensou um pouco e respondeu:
— Acho que é uma boa ideia.
Quanto mais terras plantarmos, mais dinheiro vamos ganhar.
— Está feito, se o homem der mesmo a terra, vamos ficar juntos.
— Estamos cansados da longa viagem de trem e da caminhada.
Agora que já está anoitecendo, acho melhor irmos para aquele galpão imundo, dormirmos, porque amanhã será um dia de muito trabalho.
Foi o que fizeram.
Entraram na senzala, olharam para o lugar onde estavam as esteiras.
Não havia cobertor, mas também não estava frio.
Deitaram-se.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:21 pm

Início de uma nova vida
Embora estivessem acostumados a dormir em esteiras, pois passaram muitos dias no navio, não conseguiram dormir bem.
Além da frustração por verem seus sonhos desfeitos, o corpo todo doía.
Às cinco horas da manhã, Tonhão entrou na senzala:
— Bom dia, gente!
Está na hora, temos muito trabalho!
A maioria deles já estava em pé.
Estavam com fome, mas não sabiam como seria.
Tonhão, parecendo adivinhar o que eles pensavam, disse:
— O armazém já está aberto.
Quem quiser pode ir até lá e comprar tudo o que precisar.
Trouxe uma carroça para que possam carregar tudo.
Sei que algumas mulheres sabem fazer pão.
Podem comprar a farinha e, atrás da senzala, tem um forno onde poderão assar.
Realmente, ele tinha razão, a maioria das mulheres sabia fazer pão.
Animados, homens, mulheres e crianças acompanharam Tonhão o armazém.
Lá tinha de tudo.
Desde alimentos até roupas e calçados.
Depois de tanto tempo de privação, sem terem comido algo decente, ao ver toda aquela carne salgada, ovos, frutas e verduras, quase perderam a razão.
Pegaram tudo o que tinham vontade.
No quintal, galinhas ciscavam por toda parte. Tonhão disse:
— Aquele que quiser pode levar uma dessas galinhas.
Elas estão aí para serem mortas e comidas.
Claro que cada uma tem um preço.
Eles não se importaram.
A vontade de comer era tanta que pegaram algumas galinhas.
Tonhão apontou para um rolo de tecido.
Era listado de várias cores.
Disse:
— Este tecido serve para fazer colchão e travesseiro.
Tem linha, agulhas e tesouras.
Ali, naqueles sacos, têm palha e folhas secas para que possam encher.
Tem também cobertores, lençóis, fronhas e toalhas de banho.
Aquele que quiser, poderá comprar.
Só de se imaginarem dormindo em um colchão macio, com lençóis limpos, não pensaram nem por um instante e todos começaram a pegar os pedaços de tecido que o rapaz que ficava no armazém ia cortando, os cobertores e lençóis.
Tonhão voltou a dizer:
— Não se esqueçam de levar as pás, os serrotes e as enxadas.
Claro que tudo o que pegavam era marcado em uma caderneta.
Tudo o que compraram não coube na carroça, por isso, algumas coisas foram carregadas dentro de sacos de estopa.
Chegaram novamente à senzala.
Foram ver o forno do qual Tonhão havia falado.
Constataram que ele era grande e que poderiam ser assados muitos pães.
A lenha devia ter queimado durante a noite toda, porque ele estava quente, pronto para ser usado.
Ao lado dele, havia uma mesa enorme, onde a massa poderia ser feita.
Fizeram chá que tomaram com leite.
Comeram alguns biscoitos de polvilho.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:21 pm

Embora fosse pouco, era muito mais do que comeram durante a viagem.
Antes de sair com os homens, Tonhão disse para as mulheres:
— Sei que vocês estão loucas de vontade de assar pão.
Espero que para a hora do almoço já estejam prontos.
Os homens, carregando as pás, os serrotes e as enxadas acompanharam Tonhão e mais alguns trabalhadores da fazenda.
As mulheres decidiram que, enquanto as casas não ficassem prontas e não tivessem seus próprios fogões, o melhor seria que todos comessem juntos.
Para isso os alimentos comprados foram divididos.
Três mulheres se prontificaram em fazer o pão.
As outras foram para a senzala, pegaram todas as esteiras e tudo o mais que estava lá dentro e levaram para fora.
Com as esteiras nas mãos, foram até o rio e, usando sabão de soda, as lavaram e colocaram para secar ao sol, que acabava de nascer.
Sabiam que logo ele ficaria forte e as esteiras secariam rapidamente.
Voltaram para a senzala. Com vassouras feitas de galhos de árvore e folhas, varreram e limparam tudo da melhor maneira possível.
Depois, juntas, sentaram-se no chão do terreiro e começaram a costurar os colchões.
Por terem de dormir todos juntos, resolveram que os colchões deveriam ser de solteiro.
Assim, evitariam constrangimentos.
Enquanto a massa crescia para ser assada, as três mulheres mataram quatro galinhas e as colocaram em grandes panelas para cozinhar.
Em outra panela, colocaram água para fazer macarrão.
Carmem, enquanto costurava e olhava Maria que brincava com as outras crianças, pensava:
Isto aqui está bem longe daquilo que imaginei ou com o que sonhei, mas não me importo.
O que interessa é que estou casada com Rafael e que viverei com ele para o resto da minha vida.
Sei que este casamento é de mentira, mas vai ser por pouco tempo.
Logo mais vai ser meu marido de verdade.
E, quando isso acontecer, vou ser a mulher mais feliz do mundo!
Olhou para Maria que ria feliz:
Meu único problema é essa menina.
Enquanto ela estiver por perto, Rafael não vai conseguir se esquecer da Lola.
A manhã passou.
Na hora do almoço, os homens voltaram.
Estavam suados e cansados.
Carregavam troncos e galhos de árvores que foram empilhados no terreno.
Ao verem a comida que elas haviam preparado, sorriram.
Um deles, abraçando a mulher que era uma das cozinheiras, disse:
— Finalmente uma comida decente!
E foi feita pela minha mulher!
Não existe nada melhor nesta vida!
Os maridos das outras duas disseram.
— Pelas nossas também e elas, sim, são as melhores cozinheiras do mundo!
Com pratos feitos de barro, aproximaram-se do fogão e pegaram aquela comida que há muito não viam e comeram com vontade.
À noite, assim que se deitaram nos colchões macios e forrados com lençol limpo, sentiram-se as pessoas mais felizes deste mundo.
Essa rotina durou mais de três meses, quando uns ajudando aos outros terminaram a última casa.
A terra já estava pronta para o plantio.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:21 pm

Logo mais, poderia se dividida.
A felicidade que cada um sentia de poder estar em sua própria casa fez com que até se esquecessem de que seus sonhos eram outros.
As casas foram feitas com troncos, galhos que, preenchidos com barro, davam uma relativa protecção contra o frio e a chuva.
Foram cobertas com aquela mesma grama que tinham visto na senzala.
Ao ver a cara de espanto deles quando lhes disseram que as casas seriam cobertas com aquela grama, Tonhão disse:
— Não se preocupem.
Na casa de vocês não vai entrar água quando chover.
Embora sejam cobertas com sapé, ele ainda é novo e vai dar toda protecção.
Desconfiados, mas sem alternativa, continuaram o trabalho.
As casas foram construídas na forma de um grande quadrado, com outro menor, ao lado, que seria a cozinha.
Nela, seria construído o fogão a lenha, feito de barro.
No quadrado grande, colocaram uma mesa com as cadeiras necessárias para cada família e, do outro lado, as camas.
Todos os móveis foram feitos também com troncos de árvores e galhos fortes.
Do lado de fora, construíram os banheiros.
Era um espaço pequeno com um buraco no chão e um engradado de madeira onde as pessoas colocavam os pés e, com muita dificuldade, faziam suas necessidades.
Para o banho, havia sempre um caldeirão cheio de água que ficava sobre um dos lados do fogão a lenha.
Aqueles que queriam podiam tomar banho no rio.
Foram construídas duas casas, uma ao lado da outra.
Uma para Rafael, Carmem e Maria, outra, para Pepe, Pedro e Julian.
Na hora de receber a casa, Rafael disse para Carmem.
— Carmem, não acha melhor contarmos a verdade?
Dizermos que não somos casados?
Assim, você poderá morar com seus irmãos.
Eu e a Maria ficaremos morando com Julian.
Carmem, embora não demonstrasse, ficou apavorada com aquela ideia e pensou:
Isso não pode acontecer!
Ele precisa ficar ao meu lado, pois, se isso não acontecer, não vou ter a oportunidade de conquistá-lo e de me tornar sua mulher!
Com a voz calma, disse:
— Não podemos fazer isso, Rafael.
Maria só está connosco, porque mentimos.
Se dissermos a verdade, o senhor Pablo pode tirá-la de nós.
Sabe que ele não gosta de crianças, pois elas, além de não poderem trabalhar, ainda dificultam que as mães trabalhem.
Vamos continuar da maneira como estamos e ele nunca descobrirá e a Maria continuará ao nosso lado.
Ele pensou por um tempo, depois disse:
— Realmente, você tem razão.
Ele já disse que se soubesse que viriam crianças pequenas, não teria contratado seus pais.
Vamos continuar como estamos.
Ela sorriu, intimamente, e ficou calada.
Cada um recebeu sua casa.
Embora nunca tivessem visto uma casa construída como aquela, para eles representava um lugar que os abrigaria, mas não acreditavam que os protegeria totalmente da chuva do frio.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:21 pm

Apesar de saber que não era aquilo com que haviam sonhado, naquela noite, fizeram uma fogueira, compraram bebida no armazém fizeram uma festa.
No dia seguinte, após e apesar da noite de festa, todos se levantaram muito cedo.
Estavam ansiosos para começarem a plantar.
Sabiam que, depois de plantar, colheriam e, assim, teriam dinheiro para ir embora.
Estavam ainda tomando café, quando Tonhão chegou:
— Bom dia, gente!
Todos, não com muita vontade, responderam:
— Bom dia.
Tonhão olhou à sua volta e viu que o terreno todo estava desarrumado.
Restos de comida e bebidas demonstravam que a festa havia sido boa.
Com um sorriso malicioso, disse:
— Parece que a festança foi boa mesmo.
Bem que eu queria ter vindo, mas não fui convidado...
Todos ouviram o que ele disse, mas não responderam.
Ele continuou:
— Bem, o patrão mandou que eu dividisse a terra.
Cada família vai receber um pedaço.
Aqueles que estão sozinhos devem se juntar tom outros para receber um pedaço só.
Agora, quero que façam uma fila.
As famílias devem permanecer juntas e deste lado.
Aqueles que estão sozinhos, fiquem deste.
Logo todos estavam em fila.
Carmem, Rafael e Maria ficaram de um lado.
Pedro, Pepe e Julian do outro.
Tonhão estendeu um grande papel sobre o chão.
Nesse papel estava desenhada toda a terra com algumas divisões por metragem.
Ele foi mostrando, a cada um, o lugar onde deveriam cercar e plantar.
Depois da divisão, Tonhão disse:
— O patrão mandou dizer também que cada um vai receber de acordo com o que colher.
Por isso, se quiserem ter bastante dinheiro no fim da colheita é melhor começarem logo.
Lá no armazém tem sacos com sementes.
Cada saco que comprarem será marcado na caderneta de vocês.
Metade será pago pelo patrão, a outra metade por vocês.
Julian o que menos se conformava com aquela situação, perguntou:
— Nós vamos ter de pagar a metade das sementes?
— Claro que sim.
Vocês não querem receber metade da colheita?
— Sim.
— Então, precisam pagar metade das sementes.
— Isso não está certo!
— Se acha que não está certo, pode pegar suas coisas e ir embora.
Ninguém vai impedir que faça isso.
Tonhão, Julian e todos lá sabiam que, embora quisessem, ninguém poderia sair.
Julian se calou.
Imediatamente, em silêncio, todos foram se dirigindo para o armazém.
Assim que chegaram, pegaram os sacos com as sementes, assinaram a caderneta e foram para o local que já estava limpo e pronto para começar a semeadura.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:22 pm

O despertar
Lola abriu os olhos.
Olhou à sua volta e viu que estava em um quarto desconhecido.
Assustada, sentou-se na cama e continuou olhando e pensando:
Que quarto é este?
As paredes são pintadas de verde.
A colcha também. Nossa!
Este quarto é igual àquele que eu disse a Manolo que queria, naquele dia, quando estávamos andando sem destino, logo depois que ele brigou com o pai.
Como pode ser isso?
— Eu não disse que ia lhe dar a casa com que sonhava?
Ela ouviu a voz, mas não acreditou.
Voltou-se e, para sua surpresa lá estava ele, feliz e sorridente.
Abriu os braços para ela que, chorando e rindo ao mesmo tempo, correu para a porta onde ele estava.
Abraçaram-se com muita saudade e amor.
Os dois choravam.
Naquele momento esqueceram-se de onde estavam e daquilo que havia acontecido.
Ficaram assim por muito tempo.
Depois se afastaram.
Surpresa e curiosa, Lola perguntou:
— Que lugar é este, Manolo?
Como vim parar aqui?
— Este é o quarto que você desejou ter.
Aliás, não só o quarto, mas a casa toda.
Venha, vou lhe mostrar.
Ela se olhou e viu que estava vestida com uma camisola também Verde. Disse:
— Não posso sair vestida dessa maneira, Manolo!
Preciso me vestir.
— Depois poderá usar a roupa que quiser.
Ali naquele armário há roupas que eram suas e novas, mas, agora, venha ver a casa.
Não se preocupe, estamos sozinhos.
Empolgada, ela o acompanhou.
Ele segurava sua mão.
Abriu a porta do quarto e viram-se diante de uma sala grande com móveis construídos em madeira de lei.
Depois, foram para a cozinha e, finalmente, para o quintal, onde havia uma horta muito verde de folhas e legumes.
Logo à frente, um pomar com árvores frutíferas.
Lola não cabia em si de tanta felicidade. Disse:
— Manolo, tudo aqui é igual ao que sonhei!
Não falta um detalhe!
— Sei disso, levei um bom tempo para que tudo fosse construído.
Queria que ficasse tudo pronto para quando você chegasse.
Ela se afastou e ficou olhando, um pouco distante.
— Espere, Manolo.
Como pode estar aqui?
Você morreu!
Ele começou a rir:
— Acha que estou morto? — perguntou, rindo.
— Parece que não, mas sei que está, fui ao seu enterro.
Nunca poderia me esquecer daquele dia...
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:22 pm

— Você, naquele dia, enterrou o meu corpo, mas o meu espírito está vivo, bem vivo.
— Não estou entendendo.
Como pode ser apenas um espírito, se você está igualzinho ao que era antes?
— E você também...
— Eu?
— Sim, lembra-se da doença no navio?
Como se fosse um raio, ela lembrou e, imediatamente, entrou em desespero.
Chorando, perguntou:
— Eu morri, Manolo?
A Maria... onde está a Maria?
Ele voltou a abraçá-la e respondeu:
— Acalme-se, por enquanto ela está bem.
Rafael e Carmem estão cuidando dela.
— Eles não morreram com a doença? Estão vivos?
— Não morreram. Estão vivos e bem.
Maria também está bem ao lado de Rafael.
Ele cuida dela como se fosse sua filha.
— Eles conseguiram chegar à fazenda?
— Sim. Estão vivendo a vida que escolheram.
— Quero ver a Maria, Manolo!
— Você vai ver. Não se preocupe.
Por enquanto, ela está bem.
Tenho estado ao seu lado todos os dias.
— Por enquanto? O que quer dizer com isso?
— Ela tem um longo caminho a percorrer.
Nasceu com uma missão especial, mas, antes de conseguir cumprir o destinado, vai ter de passar por muita coisa.
— Não estou entendendo o que está dizendo...
— Não se preocupe.
Por hora, aproveite para admirar tudo o que tem aqui.
Quando cheguei, também fiquei assustado e levou um tempo para me acalmar.
Ainda bem que tinha a minha avó que estava me esperando e me esclareceu.
— Como posso não me preocupar se estou distante da minha filha?
— Está distante, mas poderá vê-la sempre que quiser.
Vamos entrar.
Troque de roupa e vamos andar pela cidade.
Posso lhe garantir que nunca viu um lugar como este.
— Não estou entendendo uma coisa, Manolo.
— O quê?
— Você diz que estou morta, mas sinto meu corpo, sinto as mesmas sensações de fome e frio.
— É assim mesmo.
Seu corpo, embora não seja mais de carne, mantém a mesma forma e, por algum tempo, vai sentir as mesmas necessidades de antes.
— Como?
— Isso é difícil de explicar, mas também não importa.
O que importa é que estamos juntos e vamos fazer o possível para ajudar Maria na sua missão.
— Ela vai conseguir?
— Não sei. Vai depender do que vai acontecer agora.
Ela, além de uma missão que tem para cumprir quando ficar moça, neste momento tem outra pela qual vai ter de passar.
Depende de como se sair agora, para que possa seguir.
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:22 pm

— Não entendo, Manolo.
Como ela pode resolver alguma coisa?
Ela não passa de uma criança!
— Hoje seu espírito está vivendo em um corpo de criança, mas ela já teve muitas vidas anteriores e, nessas vidas, cometeu muitos erros ou enganos.
Precisa resgatá-los.
— Não estou entendendo.
Vidas passadas, o que é isso que está dizendo, Manolo?
— Sei que é complicado.
Quando vivos, na Terra, nunca pensamos que isso poderia existir.
Aprendemos que, depois da morte, se ia para o céu ou para o inferno.
Nunca nos disseram que, ao morrer, iríamos para um lugar onde a vida continuaria e poderíamos escolher trabalhar para nos aperfeiçoar.
— Trabalhar? Aperfeiçoar?
A cada palavra que diz, fico mais confusa.
— Sei disso. Porém, imagine que, se, ao morrer, fôssemos realmente para um céu, onde não teríamos nada para fazer, onde ficaríamos eternamente rezando, em estado de graça.
Conhecendo-nos como nos conhecemos, acredita que seríamos felizes?
Ela pensou um pouco.
Rindo, respondeu:
— Tem razão... não sei se eu conseguiria ficar feliz sem ter o que fazer...
— Está vendo? Deus, o nosso criador, pensou em tudo.
Ele tudo faz para que sejamos felizes e nos dá todas as ferramentas para que isso aconteça.
— Não estou entendendo o que está dizendo, Manolo, nem sei se é verdade, mas não posso negar que existe uma lógica...
— Não precisa entender tudo.
Isso, com o tempo, vai acontecer, mas, agora, quero levar você a um lugar.
Sei que vai ficar feliz.
Vá, troque de roupa.
— Espere, Manolo.
Você disse que eu estou morta.
Você também, sendo assim, onde está dona Isabel? Ela deve estar aqui também.
— Não sei, Lola.
Nem todos vão para o mesmo lugar.
Vamos procurar saber onde ela está, mas, agora, vamos.
Sei que vai gostar do que vou lhe mostrar.
— Está bem. Mas, antes de ir para qualquer lugar, quero ver a Maria.
Quero ver com meus próprios olhos como ela está.
— Nós iremos logo, mas antes quero que veja uma coisa.
Ela sorriu:
— Está bem, conhecendo você como conheço, sei que não vai desistir de me mostrar essa coisa que parece ser tão importante.
Vou com você, mas precisa me prometer que, depois, vamos ver Maria.
— Claro que vou levar você.
Também estou com saudade dela.
Entraram em casa.
Manolo abriu a porta do armário e ela pôde ver que havia muitos vestidos.
Alguns, ela conhecia, eram escuros, como costumava usar.
Outros eram diferentes, coloridos e estampados.
Ela ficou encantada:
— Estes vestidos são lindos, Manolo!
Nunca usei um estampado como este!
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 25, 2017 7:22 pm

— Pois agora pode usar.
Escolha o que quiser, eles são seus.
Ela pegou um com estampa em azul, branco e um tom de rosa claro.
Depois, ele lhe mostrou onde ficava o banheiro.
Ela entrou e, para sua surpresa, tudo era igual.
Não havia diferença alguma daqueles banheiros que existiam na Terra.
Só que, nesse, havia uma pia com torneira e um chuveiro, coisas que ela não conhecia.
Ele abriu a torneira e pediu a ela que colocasse a mão.
Ela colocou e, encantada, percebeu que a água que saía dela era quente.
Espantada, disse:
— Nossa, Manolo, a água já sai quente?
Nunca tinha visto algo igual...
— Tem mais para ver. Olhe.
Abriu o chuveiro e ela ficou espantada ao ver a água caindo de cima e com toda aquela intensidade.
— Para que serve toda essa água, Manolo?
— Para tomar banho.
Você, aqui, não precisa tomar banho em bacias, como está acostumada.
Pode tomar banho em pé e com água limpa escorrendo por seu corpo.
— Nunca imaginei que algo assim pudesse existir.
— Você vai ver muita coisa que não conhece e vai se surpreender cada vez mais.
Mas, agora, apresse-se. — disse, rindo.
Em pouco tempo, ela estava pronta.
Manolo não pôde deixar de dizer:
— Você está linda, Lola, e amo você sempre mais.
Ela sorriu, lisonjeada, deu um beijo no seu rosto e, abraçados, saíram.
Quando chegaram à frente do portão da casa, Lola se voltou, olhou para ela e, feliz, disse:
— É mesmo a casa com que sempre sonhei, Manolo...
— Agora, esta é toda sua.
— Estou contente por tudo o que está me acontecendo.
Estar com você nesta casa com que sempre sonhei é maravilhoso!
Se não fosse por causa de Maria, diria que nunca estive tão feliz, mas, ao mesmo limpo, não acho justo.
— O que não acha justo?
— Por que tudo isso não aconteceu quando eu estava viva?
Por que tive de passar por tanta coisa e ter morrido tão cedo, deixando nossa filha sozinha?
Nós não poderíamos ter tudo isto enquanto estávamos lá?
Todos, na Terra, não poderiam ter a mesma vida que aqui?
Por que alguns passam por tanto sofrimento e não têm nada e outros, além de não sofrerem, têm muito, tudo do que precisam e até mais?
Não entendo, Manolo.
Não consigo entender.
— Não estou surpreso por você estar fazendo essas perguntas.
Também, quando cheguei aqui, fiz as mesmas.
— Teve alguma resposta?
Conseguiu entender?
— Sim. Fui esclarecido e, para minha surpresa, fiquei sabendo que cada um escolhe a vida que quer ter na Terra.
— O que está dizendo, Manolo?
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Re: O Destino em suas Mãos / Elisa Masselli

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