CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:14 am

CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO
FRANCISCO CANDIDO XAVIER

Pelo Espírito Humberto de Campos

Sumário
AO LEITOR
01 - DE UM CASARÃO DO OUTRO MUNDO
02 - CARTA AOS QUE FICARAM
03 - AOS MEUS FILHOS
04 - NA MANSÃO DOS MORTOS
05 - JUDAS ESCARIOTES
06 - AOS QUE AINDA SE ACHAM NAS SOMBRAS DO MUNDO
07 - A SUAVE COMPENSAÇÃO
08 - DO ALÉM TÚMULO
09 - OH! JERUSALÉM ... JERUSALÉM ...
10 - FALANDO A PIRATININGA
11 - CORAÇÃO DE MÃE
12 - O "TÊTE À TÊTE" DAS SOMBRAS
13 - NO DIA DA PÁTRIA
14 - UM CÉPTICO
15 - A ORDEM DO MESTRE
16 - A PASSAGEM DE RICHET
17 - HAUPTMANN
18 - A CASA DE ISMAEL
19- CARTA A MARIA LACERDA DE MOURA
20 - PEDRO, O APÓSTOLO
21 - O GRANDE MISSIONÁRIO
22 - A LENDA DAS LÁGRIMAS
23 - CARTA ABERTA AO SR. PREFEITO DO RIO DE JANEIRO
24 - A PAZ E A VERDADE
25 - SÓCRATES
26 - ESCREVENDO A JESUS
27 - A MAIOR MENSAGEM
28 - RESPONDENDO A UMA CARTA
29 - TIRADENTES
30 - O PROBLEMA DA LONGEVIDADE
31 - O ELOGIO DO OPERÁRIO
32 - ANIVERSÁRIO DO BRASIL
33 - UMA VENERÁVEL INSTITUIÇÃO
34 - CARTA A MINHA MÃE
35 - TRAGO-LHE O MEU ADEUS SEM PROMETER VOLTAR BREVE
EM FRATERNAL SAUDAÇÃO A HUMBERTO DE CAMPOS
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Ave sem Ninho

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:14 am

AO LEITOR
Por enquanto, poucos intelectuais, na Terra, são susceptíveis de considerar a possibilidade de escreverem um livro, depois de “mortos”.
Eu mesmo, em toda a bagagem de minha produção Literária no mundo, nunca deixei transparecer qualquer Laivo de crença nesse sentido.
Apegando-me ao resignado materialismo dos meus últimos tempos, desalentado em face dos problemas transcendentes do Além-Túmulo, não tive coragem de enfrentá-los, como, um dia, fizeram Medeiros e Albuquerque e Coelho Neto, receoso do fracasso de que deram testemunho, como marinheiros inquietos e imprudentes, regressando ao porto árido dos preconceitos humanos, mal se haviam feito de vela ao grande oficia das expressões fenoménicas da doutrina, onde os espíritas sinceros, desassombrados e incompreendidos, são aqueles arrojados e rudes navegadores da Escola de Sagres que, à força de sacrifícios e abnegações, acabaram suas actividades descobrindo um novo continente para o mundo, dilatando as suas esperanças e santificando os seus trabalhos.
Dentro da sinceridade que me caracterizava, não perdi ensejos para afirmar as minhas dúvidas, expressando mesmo a minha descrença acerca da sobrevivência espiritual, desacoroçoado de qualquer possibilidade de viver além dos meus ossos e das minhas células doentes...
É verdade que os assuntos de Espiritismo seduziam a minha imaginação, com a perspectiva de um mundo melhor do que esse, onde todos os sonhos das criaturas caminham para a morte; sua literatura fascinava o meu pensamento com o magnetismo suave da esperança, mas a fé não conseguia florescer no meu coração de homem triste, sepultado nas experiências difíceis e dolorosas.
Os livros da doutrina eram para o meu espírito como soberbos poemas de um idealismo superior do mundo subjectivo, sem qualquer feição de realidade prática, onde eu afundava as minhas faculdades de análise nas ficções encantadoras; suas promessas e sua mística de consolos eram o brando anestésico que conseguira aliviar muitos corações infortunados e doloridos, mas o meu era já inacessível à actuação do sedativo maravilhoso, e o pior enfermo é sempre aquele que já experimentou a acção de todos os específicos conhecidos.
Em 1932, um dos meus companheiros da Academia de Letras solicitou minha atenção para o texto do “Parnaso de Além-Túmulo”.
As rimas do outro mundo enfileiravam-se com a sua pureza originária nessa antologia dos mortos, através da mediunidade de Francisco Xavier, o caixeiro humilde de Pedro Leopoldo, impressionando os conhecedores das expressões estilísticas da língua portuguesa.
Por minha vez, procurei ouvir a palavra de Augusto de Lima, a respeito do facto insólito, mas o grande amigo se esquivou ao assunto, afirmando:
- “Certamente, entre as novidades da minha terra, Pedro Leopoldo concorre com um novo Barão de Munchhausen.”
A verdade, porém, é que pude atravessar as águas pesadas e escuras do Aqueronte e voltar do mundo das sombras, testemunhando a grande e consoladora verdade.
É incontestável que nem todos me puderam receber, segundo as realidades da sobrevivência.
A visita de um “morto”, na maioria das hipóteses, constitui sempre um fato importuno e desagradável.
Para os vivos, que pautam a existência pelo pentagrama das convenções sociais, o morto com as suas verdades será invariavelmente um fantasma importuno, e temos de acomodar os imperativos da lógica às concepções do tempo em que se vive.
Seitas essas considerações, eis-me diante do Leitor, com um livro de crónicas de Além Túmulo.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:15 am

Desta vez, não tenho necessidade de mandar os originais de minha produção literária a determinada casa editora, obedecendo a dispositivos contratuais, ressalvando-se a minha estima sincera pelo meu grande amigo José Olímpio.
A Lei já não cogita mais da minha existência, pois, do contrário, as actividades e os possíveis direitos dos mortos representariam séria ameaça à tranquilidade dos vivos.
Enquanto aí consumia o fosfato do cérebro para acudir aos imperativos do estômago, posso agora dar o volume sem retribuição monetária.
O médium está satisfeito com a sua vela singela, dentro da pauta evangélica do “dai de graça o que de graça recebestes” e a Federação Espírita Brasileira, instituição venerável que o Prefeito Pedro Ernesto reconheceu de utilidade pública, cuja Livraria vai imprimir o meu pensamento, é sobejamente conhecida no Rio de Janeiro, pelas suas respeitáveis finalidades sociais, pela sua assistência aos Necessitados, pelo seu programa cristão, cheio de renúncias e abnegações santificadoras.
Aí está o Livro com a minha Lembrança humilde.
Que ele possa receber a bênção de Deus, constituindo um conforto para os aflitos e para os tristes do microcosmo onde vivi.
Que não se precipitem em suas apreciações os que não me puderem compreender.
A morte será a mesma para todos.
A cada qual será reservado um bangaló subterrâneo e a sentença clara da justiça celeste.
Quanto aos espíritos superiores da crítica contemporânea, cristalizados nas concepções da época, que esperem pacientemente pelo Juízo Final, com as suas milagrosas revelações.
Não serei eu quem Lhes vá esclarecer o entendimento, contando quantos pares de meias usou em toda a vida, ou descobrindo o número exacto de seus anos, através de mesas festivas e alegres.
Aguardem com calma o toque de reunir das trombetas de Josafá.

Humberto de Campos.
Pedro Leopoldo, 25 de junho de 1937.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:15 am

01 - DE UM CASARÃO DO OUTRO MUNDO
27 de março de 1935

Muitas vezes pensei que outras fossem as surpresas que aguardassem um morto, depois de entregar à terra os seus despojos.
Como um menino que vai pela primeira vez a uma feira de amostras, imaginava o conhecido chaveiro dos grandes palácios celestiais.
Via S. Pedro de mãos enclavinhadas debaixo do queixo.
Óculos de tartaruga, como os de Nilo Peçanha, assestados no nariz, percorrendo com as suas vistas sonolentas e cansadas, os estudos técnicos, os relatórios, os mapas e livros imensos, enunciadores do movimento das almas que regressavam da Terra, como destacado amanuense de secretaria.
Presumia-o um velhote bem conservado, igual aos senadores do tempo da monarquia no Brasil, cofiando os longos bigodes e os fios grisalhos da barba respeitável.
Talvez que o bom apóstolo, desentulhando o baú de suas memórias, me contasse algo de novo:
algumas anedotas a respeito de sua vida, segundo a versão popular; factos do seu tempo de pescarias, certamente cheios das estroinices de rapazola.
As jovens de Séforis e de Cafarnaum, na Galileia, eram criaturas tentadoras com os seus lábios de romã amadurecida.
S. Pedro por certo diria algo de suas aventuras, ocorridas, está claro, antes da sua conversão à doutrina do Nazareno.
Não encontrei, porém, o chaveiro do Céu.
Nessa decepção, cheguei a supor que a região dos bem-aventurados deveria ficar encravada em alguma cordilheira de nuvens inacessíveis.
Tratava-se, certamente, de um recanto de maravilhas, onde todos os lugares tomariam denominações religiosas, na sua mais alta expressão simbólica:
Praça das Almas Benditas, Avenida das Potências Angélicas.
No coração da cidade prodigiosa, em paços resplandecentes, Santa Cecília deveria tanger a sua harpa acompanhando o coro das onze mil virgens, cantando ao som de harmonias deliciosas para acalentar o sono das filhas de Aqueronte e da Noite, a fim de que não viessem, com as suas achas incandescentes e víboras malditas, perturbar a paz dos que ali esqueciam os sofrimentos, em repouso beatífico.
De vez em quando se organizaram, nessa região maravilhosa, solenidades e festas comemorativas dos mais importantes acontecimentos da Igreja.
Os papas desencarnados seriam os oficiantes das missas e Te-Deuns de grande gala, a que compareceriam todos os santos do calendário;
S. Francisco Xavier, com o mesmo hábito esfarrapado com que andou pregando nas Índias;
S. José, na sua indumentária de carpinteiro;
S. Sebastião na sua armadura de soldado romano;
Santa Clara, com seu perfil lindo e severo de madona, sustentada pelas mãos minúsculas e inquietas dos arcanjos, como rosas de carne loura.
As almas bem conceituadas representariam, nas galerias deslumbrantes, os santos que a Igreja inventou para o seu hagiológio.
Mas... não me foi possível encontrar o Céu.
Julguei, então, que os espíritas estavam mais acertados em seus pareceres.
Deveria reencontrar os que haviam abandonado as suas carcaças na Terra, continuando a mesma vida.
Busquei relacionar-me com as falanges de brasileiros emigrados do outro mundo.
Idealizei a sociedade antiga, os patrícios ilustres aí refugiados, imaginando encontrá-los em uma residência principesca como a do Marquês de Abrantes, instalada na antiga chácara de Dona Carlota, em Botafogo, onde recebiam a mais fina flor da sociedade carioca das últimas décadas do segundo reinado, cujas reuniões, compostas de fidalgos escravocratas da época, ofuscavam a simplicidade monacal dos Paços de S. Cristóvão.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:15 am

E pensei de mim para comigo:
Os rabinos do Sinédrio, que exararam a sentença condenatória de Jesus-Cristo, quererão saber as novidades de Hitler, na sua fúria contra os judeus.
Os remanescentes do príncipe de Bismarck, que perderam a última guerra, desejariam saber qual a situação dos negócios franco-alemães.
Contaria aos israelitas a história da esterilização, e aos seguidores do ilustre filho de schoenhausen as questões do plebiscito do Sarre.
Cada bem-aventurado me viria fazer uma solicitação, às quais eu atenderia com as habilidades de um porta-novas acostumado aos prazeres maliciosos do boato.
Enganara-me, todavia.
Ninguém de preocupava com a Terra, ou com as coisas da sua gente.
Tranquilizem-se, contudo, os que ficaram, porque, se não encontrei o Padre Eterno com as suas longas barbas de neve, como se fossem feitas de paina alva e macia, segundo as gravuras católicas, não vi também o Diabo.
Logo que tomei conta de mim, conduziram-me a um solar confortável, como a Casa dos Bernardelli, na praia de Copacabana.
Semelhante a uma abadia de frades na Estíria, espanta-me o seu aspecto imponente e grandioso.
Procurei saber nos anais desse casarão do outro mundo as notícias relativas ao planeta terreno.
Examinei os seus infólios.
Nenhum relato havia a respeito dos santos da corte celestial, como eu os imaginava, nem alusões a Mefistófeles e ao Amaldiçoado.
Ignorava-se a história do fruto proibido a condenação dos anjos rebelados, o decreto do dilúvio, as espantosas visões do evangelista no Apocalipse.
As religiões estão na Terra muito prejudicadas pelo abuso dos símbolos.
Poucos factos relacionados com elas estavam naqueles documentos.
O nosso muno é insignificante demais, pelo que pude observar na outra vida.
Conforta-me, porém, haver descoberto alguns amigos velhos, entre muitas caras novas.
Encontrei o Emílio radicalmente transformado.
Contudo, às vezes, faz questão de aparecer-me de ventre rotundo e rosto bonacheirão, como recebia os amigos na Pascoal, para falar da vida alheia.
- “Ah! Filho- exclama sempre -, há momentos nos quais eu desejaria descer ao Rio, como o homem invisível de Wells, e dar muita paulada nos bandidos de nossa terra.”
E, na graça de quem, esvaziando copos, andou enchendo o tonel das Danaides, desfolha o caderno de suas anedotas mais recentes.
A vida, entretanto, não é mais idêntica à da Terra.
Novos hábitos.
Novas preocupações e panoramas novos.
A minha situação é a de um enfermo pobre que se visse de uma hora para outra em luxuosa estação de águas, com as despesas custeadas pelos amigos.
Restabelecendo a saúde, estudo e medito.
E meu coração, ao descerrar as folhas diferentes dos compêndios do infinito, pulsa como o do estudante novo.
Sinto-me novamente na infância.
Calço os meus tamanquinhos, visto as minhas calças curtas, arranjo-me à pressa, com a má vontade dos garotos incorrigíveis, e vejo-me outra vez diante da Mestra Sinhá, que me olha com indulgência, através de sua tristeza de virgem desamada, e repito, apontando as letras na cartilha:
_ A B C...A B C D E ...
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:15 am

Ah!! Meu Deus, estou aprendendo agora os luminosos alfabetos que os teus imensos escreveram com giz de ouro resplandecente os livros da Natureza.
Faz-me novamente menino para compreender a lição que me ensina!
Sei hoje, relendo os capítulos da tua glória, por que vicejam na Terra os cardos e os jasmineiros, os cedros e as ervas, por que vivem os bons e os maus, recebendo, numa actividade promíscua da tua casa.
Não trago do mundo, Senhor, nenhuma oferenda para a tua grandeza!
Não possuo senão o coração, exausto de sentir e bater, como um vaso de iniquidades.
Mas, no dia em que te lembrares do mísero pecador que te contempla no teu doce mistério como lâmpada de luz eterna, em torno da qual bailam os sis como pirilampos acesos dentro da noite, fecha os teus olhos misericordiosos para as minhas fraquezas e deixa cair nesse vaso imundo uma raiz de açucenas.
Então, Senhor, como já puseste lume nos meus olhos, que ainda choram, plantarás o lírio da paz no meu coração que ainda sofre e ainda ama.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:16 am

02 - CARTA AOS QUE FICARAM
28 de Março de 1935

No antigo Paço da Boa vista, nas audiências dos sábados, quando recebia toda gente, atendeu D. Pedro II a um negro velho, de carapinha branca, e em cujo rosto, enrugado pelo frio de muitos invernos, se descobria o sinal de muita penas e muitos maus-tratos.
-Ah! Meu Senhor grande - exclamou o infeliz - como é duro ser escravo!...
O magnânimo imperador encarou suas mãos cansadas no leme da direcção do povo e aquelas outras, engelhadas, na excrescência dos calos adquiridos na rude tarefa das senzalas, e tranquilizando-o comovido:
-Ó meu filho, tem paciência!
Também sou escravo dos meus deveres e eles são bem pesados...
Teus infortúnios vão diminuir...
E mandou libertar o preto.
Mais tarde, nos primeiros tempos do seu desterro, o bondoso monarca, a bordo do Alagoas, recebeu a visita do seu ex-ministro; às primeiras interpelações de Ouro Preto, respondeu-lhe o grande exilado:
-Em suma, estou satisfeito e tranquilo.
E, aludindo à sua expatriação:
É a minha carta de alforria...
Agora posso ir onde quero.
A coroa era pesada demais para a cabeça do monarca republicano.
Aos que perguntarem no mundo sobre a minha posição em face da morte, direi que ele teve para mim a fulguração de um Treze de Maio para os filhos de Angola.
A morte não veio buscar a minha alma, quando esta se comprazia nas redes douradas da ilusão.
A sua tesoura não me cortou fios da mocidade e de sonho, porque eu não possuía senão neves brancas à espera do sol para se desfazerem.
O gelo dos meus desenganos necessitava desse calor de realidade, que a morte espalha no caminho em que passa com a sua foice derrubadora.
Resisti, porém ao seu cerco como Aquiles no heroísmo indomável de quem vê a destruição de suas muralhas e redutos.
Na minha trincheira de sacos de água quente, eu a vi chegar quase todos os dias...
Mirava-me nas pupilas chamejantes dos seus olhos, pedindo-lhe complacência e ela me sorria consoladora nas suas promessas.
Eu não podia, porém adivinhar o seu fundo mistério, porque a dúvida obsidiava o meu espírito, enrodilhando-se no meu raciocínio como tentáculos de um polvo.
E, na alegria bárbara, sentia-me encurralado no sofrimento, como um lutador romano aureolado de rosas.
Triunfava da morte e como Ajax recolhi as últimas esperanças no rochedo da minha dor, desafiando o tridente dos deuses.
A minha excessiva vigilância trouxe-me a insónia, que arruinou a tranquilidade dos meus últimos dias.
Perseguido pela surdez, já os meus olhos se apagavam como as derradeiras luzes de um navio soçobrando em mar encapelado no silêncio da noite.
Sombra, movendo- se dentro das sombras, não me acovardei diante do abismo.
Sem esmorecimentos atirei-me ao combate, não para repelir mouros na costa, mas para erguer muito alto o coração, retalhado nas pedras do caminho como um livro de experiências para os que vinham depois dos meus passos, ou como a réstia luminosa que os faroleiros desabotoam na superfície das águas, prevenindo os incautos dos perigos das sirtes traiçoeiras do oceano.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:16 am

Muitos me supuseram corroído da lepra e de vermina como se fosse Bento de Labre, raspando-me com a escudela de Jó.
Eu, porém estava apenas reflectindo a claridade das estrelas do meu imenso crepúsculo.
Quando, me encontrava nessa faina de semear a resignação, a primeira e última flor dos que atravessam o deserto das incertezas da vida, a morte abeirou-se do meu leito; devagarinho, como alguém que temesse acordar um menino doente.
Esperou que tapassem com anestesia todas as janelas e interstícios dos meus sentimentos.
E quando o caos mais absoluto no meu cérebro, záz!
Cortou as algemas a que me conservava retido por amor aos outros condenados, irmãos meus, reclusos no calabouço da vida.
Adormeci nos seus braços como um ébrio nas mãos de uma deusa.
Despertando dessa letargia momentânea, compreendi a realidade da vida, que eu negara, além dos ossos que se enfeitam com os cravos rubros da carne.
-Humberto!... Humberto... exclamou uma voz longínqua - recebe os que te enviam da Terra!
Arregalei os olhos com horror e com enfado:
-Não! Não quero saber de panegíricos e agora não me interessam as seções necrológicas dos jornais.
Enganas-te - repetiu - as homenagens da convenção não se equilibram até aqui.
A hipocrisia é como certos micróbios de vida muito efémera.
Toma as preces que se elevaram por ti a Deus, dos peitos sufocados, onde penetraste com as tuas exortações e conselhos.
O sofrimento retornou sobre o teu coração um cântaro de mel.
Vi descer de um ponto indeterminado do espaço, braçadas de flores inebriantes como se fossem feitas de neblina resplandecente, e escutei, envolvendo o meu nome pobre, orações tecidas com suavidade e doçura.
Ah! Eu não vira o céu e a sua corte de bem-aventurados; mas Deus receberia aquelas deprecações no seu sólio de estrelas encantadas como a hóstia
simbólica do catolicismo se perfuma na onda envolvente dos aromas de um turíbulo.
Nossa Senhora deveria ouvi-las no seu trono de jasmins bordados de ouro, contornado dos anjos que eternizam a sua glória.
Aspirei com força aqueles perfumes.
Pude locomover-me para investigar o reino das sobras, onde penso sem miolos na cabeça.
Amava e ainda sofria, reconhecendo-me no pórtico de uma nova luta.
Encontrei alguns amigos a quem apertei fraternalmente as mãos. E voltei cá.
Voltei para falar com os humildes e infortunados, confundidos na poeira da estrada de suas existências, como frangalhos de papel, rodopiando ao vento.
Voltei para dizer aos que não pude interpretar no meu cepticismo de sofredor:
-Não sois os candidatos ao casarão da Praia Vermelha.[Hospício Nacional].
Plantai pois nas almas a palmeira da esperança.
Mais tarde ela descobrirá sobre as vossas cabeças encanecidas os seus leques enseivados e verdes...
E posso acrescentar, como o neto de Marco Aurélio, no tocante à morte que me arrebatou da prisão nevoenta da Terra:
-É a minha carta de alforria...
Agora posso ir onde quero.
Os amargores do mundo eram pesados demais para o meu coração.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:16 am

03 - AOS MEUS FILHOS
08 de Abril de 1935

Meus filhos venho falar a vocês como alguém que abandonasse a noite de Tirésias, no carro fulgurante de Apolo, subindo aos cumes dourados e perfumados do Hélicon.
Tudo é harmonia e beleza na companhia dos numes e dos génios, mas o pensamento de um cego, em reabrindo os olhos nas rutilâncias da luz, é para os que ficaram, lá longe dentro da noite onde apenas a esperança é uma estrela de luz doce e triste.
Não venho da minha casa subterrânea de São João Batista [O espírito se refere ao cemitério de São João], como os mortos que os larápios, às vezes, fazem regressar aos tormentos da Terra, por mal dos seus pecados.
Na derradeira morada do meu corpo ficaram os meus olhos enfermos e as minhas disposições orgânicas.
Cá estou como se houvesse sorvido um néctar de juventude no banquete dos deuses.
Entretanto, meus filhos, levanta-se entre nós um rochedo de mistério e de silêncio.
Eu sou eu.
Fui o pai de vocês e vocês foram meus filhos.
Agora somos irmãos.
Nada há de mais belo do que a lei de solidariedade fraterna, delineada pelo Criador na sua glória inacessível.
A morte não suprimiu a minha afectividade e a ainda possuo o meu coração de homem para o qual vocês são as melhores criaturas desse mundo.
Dizem que Orfeu, quando tangia as cordas de sua lira, sensibilizava as feras que agrupavam enternecidas para escutá-lo.
As árvores vinham de longe, transportadas na sua harmonia.
Os rios sustavam o curso nas suas correntes impetuosas, quedando-se para ouvi-lo.
Havia deslumbramento na paisagem musicalizada.
A morte, meus filhos, cantou para mim, tocando o seu alaúde.
Todas as minhas convicções deixaram os seus lugares primitivos para sentir a grandeza do seu canto.
Não posso transmitir esse mistério maravilhoso através dos métodos imperfeitos de que disponho.
E, se pudesse, existe agora entre nós o fantasma da dúvida.
Convidado pelo Senhor, eu também estive no banquete da vida.
Não nos palácios da popularidade ou da juventude efémera, mas no átrio pobre e triste do sofrimento onde se conservam temporariamente os mendigos da sua casa.
Minha primeira dor foi a minha primeira luz.
E quando os infortúnios formaram uma teia imensa de amarguras para o meu destino, senti-me na posse do celeiro de claridades da sabedoria.
Minhas dores eram minha prosperidade.
Porém qual o cortesão de Dionísio, vi a dúvida como a espada afiadíssima balouçando-se sobre a minha cabeça.
Aí na Terra, entre a crença e a descrença, está sempre ela, a espada de Dâmocles.
Isso é uma fatalidade.
Venho até vocês cheio de amorosa ternura e se não posso me individualizar, apresentando-me como o pai carinhoso, não podem vocês garantir a impossibilidade da minha sobrevivência.
A dúvida entre nós é como a noite.
O amor, entretanto, luariza estas sombras. Um morto, como eu, não pode esperar a certeza ou a negação dos vivos que receberem a sua mensagem para a qual há de prevalecer o argumento dubitativo.
E nem pode exigir outra coisa quem no mundo não procederia de outra forma.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 01, 2017 9:16 am

Sinto hoje, mais que nunca, a necessidade de me impessoalizar, de ser novamente o filho ignorado de dona Anica, a boa e santa velhinha, que continua sendo para mim a mais santa das mães.
Tenho necessidade de me esquecer de mim mesmo.
Todavia, antes que se cumpra este meu desejo, volto para falar a vocês paternalmente como no tempo em que destruía o fosfato do cérebro a fim de adquirir combustível para o combustível para o estômago.
-Meus filhos!... Meus filhos!...
Estou vivendo... Não me vêem?...
Mas olhem, olhem o meu coração como ainda está batendo por vocês!...
Aqui, meus filhos, não me perguntaram se eu havia descido gloriosamente as escadas do Petit Trianon; não fui inquirido a respeito dos meus triunfos literários e não me solicitaram informes sobre o meu fardão académico.
Em compensação, fui arguido acerca das causas dos humildes e dos infortunados pelos quais me bati.
Vivam pois com prudência na superfície desse mundo de futilidades e de glórias vãs.
Num dos mais delicados poemas de Wilde, as Órcades lamentara a morte de Narciso junto de sua fonte predilecta, transformada numa taça de lágrimas.
-Não nos admira - suspiram elas - que tanto tenhas chorado!... Era tão lindo!...
-Era belo Narciso? - perguntou o lago.
-Quem melhor do que tu poderás sabê-lo, se nos desprezavas a todas para estender-se nas relvas da tua margem, baixando os olhos para contemplar, no diamante da tua onda, a sua formosura?...
A fonte respondeu:
-Eu adorava Narciso porque, quando me procurava com os olhos, eu via, no espelho das suas pupilas, o reflexo da minha própria beleza.
Em sua generalidade, meus filhos, os homens, quando não são Narciso, enamorados de sua própria formosura, são as fontes de Narciso.
Não venho exortar a vocês como sacerdote; conheço de sobra às fraquezas humanas.
Vivam, porém a vida do trabalho e da saúde, longe da vaidade corruptora.
E, na religião da consciência rectilínea, não se esqueçam de rezar.
Eu, que era um homem tão perverso e tão triste, estou aprendendo de novo a minha prece, como fazia na infância, ao pé de minha mãe, na Parnaíba.
-Venham, meus filhos!...
Ajoelhemos de mãos postas...
Não vêem que cheguei de tão longe?!
Fui mais feliz que o Rico e o Lázaro da parábola, que não puderam voltar...
Ajoelhemos no templo do Espírito; inclinem vocês a fronte sobre o meu coração.
Cabem todos nos meus braços?
Cabem, sim...
Vamos rezar com o pensamento em Deus, com a alma no infinito.
Pai nosso... que estais no céu... santificado seja o vosso nome...
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:04 pm

04 - NA MANSÃO DOS MORTOS
09 de Abril de 1935

- O amigo sabe que os fotógrafos ingleses registaram a presença de sir Conan Doyle no enterro de lady Gaillard?
Esta pergunta me foi dirigida pelo coronel C... da C..., (1) que eu conhecera numa das minhas viagens pelo Nordeste.
O coronel lia por desfastio as minhas crónicas e em poucos minutos nos tornamos camaradas.
Há muito tempo, todavia, soubera eu da sua passagem para o outro mundo em virtude de uma arteriosclerose generalizada.
Tempo vai, tempo vem, defrontamo-nos de novo no vagão infinito da Vida, em que todos viajamos, através da eternidade.
E, como o melhor abraço que podemos dar longe dos vivos, ali estávamos os dois tête à tête, sem pensar no relógio que regulava os nossos actos no presídio da Terra, nem nos ponteiros do estômago, que aí trabalham com demasiada pressa.
C. tinha no mundo ideias espíritas e continuava, na outra vida, a interessar-se pelas coisas de sua doutrina.
Então, coronel, a vida que levaremos por aqui não será muito diversa da que observávamos lá em baixo?
Um morto, pode apresentar-se nas solenidades dos vivos, participar das suas alegrias e das suas tristezas, como no presente caso?
Aliás, já sabemos do capítulo evangélico que manda os mortos enterrar os mortos.
-Pode, sim, menino - replicou o meu amigo como quem evocasse uma cena dolorosa - mas, isso de acompanhar enterros, sobra-me experiência para não mais fazê-lo.
Costumamos observar que, se os vivos têem medo dos que já regressaram para cá, nós igualmente, às vezes, sentimos repulsa de topar os vivos.
Porém, o que lhe vou contar ocorreu entre os considerados mortos.
Teve medo de dois espectros num ambiente soturno de cemitério.
E o meu amigo, com o olhar mergulhado no pretérito longínquo, monologava:
-Desde essa noite, nunca mais acompanhei enterros de amigos...
Deixo isso para os encarnados, que vivem brincando de cabra-cega no seu temporário esquecimento...
-Conte-me, coronel, o acontecimento - disse eu, mal sopitando a curiosidade.
-Lembra-se - começou ele - da admiração que eu sempre manifestava pelo Dr. A.F., que você não chegou a conhecer em pessoa?
-Vagamente...
-Pois bem, o Antonico, nome pelo qual respondia na intimidade, era um dos meus amigos do peito.
Advogado de renome na minha terra, já o conheci na elevada posição que usufruía no seio da sociedade que lhe acatava todas as acções e pareceres.
Pardavasco, insinuante, era o tipo do mulato brasileiro.
Simpático, inteligente, captava a confiança de quantos se lhe aproximavam.
Era de uma felicidade única.
Ganhava todas as causas que lhe eram entregues.
O crime mais negro apresentava para a sua palavra percuciente uma argumentação infalível na defesa.
Os réus, absolvidos com a sua colaboração, retiravam-se da sala de sessões da justiça quase canonizados.
O Antonico se metera em alguma pendência?
O triunfo era dele.
Gozava de toda a nossa consideração e estima.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:05 pm

Criara a sua família com irrepreensível moralidade.
Em algumas cerimónias religiosas a que compareci, recordo-me de lá o haver encontrado, como bom católico, em cuja personalidade o nosso vigário via um dos mais prestigiosos dos seus paroquianos.
Chefiava iniciativas de caridade, presidia a associação religiosa e primava pela austeridade intransigente dos seus costumes.
Quando voltei desse mundo, que hoje representa para nós uma penitenciária, trouxe dele saudosas recordações.
Imagine, pois o meu desejo de reencontrá-lo, quando vim a saber, nestas paragens, que ele se achava às portas da morte.
Obtive permissão para excursionar à Terra e fui revê-lo na sua cama de luxo, rodeado de zelos extremos, numa alcova ensombrada de sua confortável residência.
As poções eram ingeridas.
Injecções eram aplicadas.
Os médicos eram atenciosamente ouvidos.
Contudo, a morte rondava o leito de rendas, com o seu passo silencioso.
Depois de ter o abdómen rasgado por um bisturi, uma infecção sobreviera inesperadamente.
Apareceu uma pleurisia e todas as punções foram inúteis.
Antonico agonizava.
Vi-o nos seus derradeiros momentos, sem que ele me visse na sua semi-inconsciência.
Os médicos à sua cabeceira, deploravam o desaparecimento do homem probo.
O padre, que sustinha naquelas mãos de cera u delicado crucifixo, recitando a oração dos moribundos, fazia ao céu piedosas recomendações.
A esposa chorava o esposo, os filhos o pai!
Aos meus olhos, aquele quadro era o da morte do justo.
Transcorridas algumas horas, acompanhei o fúnebre cortejo que ia entregar à terra aqueles despojos frios.
Desnecessário é que lhe diga das pomposas exéquias que a igreja dispensou ao morto, em virtude da sua posição eminente.
Preces. Aspersões com hissopes ensopados n'água benta e latim agradável.
Mas, como nem todos os que morrem desapegam imediatamente dos humores e das vísceras, esperei que o meu amigo acordasse para ser o primeiro a abraçá-lo.
Era crepúsculo.
E, naquela tarde de agosto, as nuvens estavam enrubescidas, em meio do fumo das queimaduras, parecendo uma espumarada de sangue.
Havia um cheiro de terra brava, entre as lousas silenciosas, ao pé dos salgueiros e dos ciprestes.
Eu esperava.
De vez em quando, o vento agitava a ramaria dos chorões, que pareciam soluçar, numa toada esquisita. Os coveiros abandonaram a sua tarefa sinistra e eu vi um vulto de mulher, esgueirando-se entre as lápides enegrecidas.
Parou junto daquela cova fresca.
Não se tratava de nenhuma alma encarnada.
Aquela mulher pertencia também aos reinos das sombras.
Observei-a de longe.
Todavia, gritos estentóricos ecoaram aos meus ouvidos.
-A. F. - exclamou o espectro - chegou o momento da minha vingança!
Ninguém poderá advogar a tua causa.
Nem Deus, nem o Demónio poderão interceder pela tua sorte, como não puderam cicatrizar no mundo as feridas que abriste em meu coração.
Todas as nossas testemunhas agora são mudas.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:05 pm

Os anjos aqui são de pedra e as capelas de mármore, cheias de cruzes caladas, são estojos de carne apodrecida.
Lembras-te de mim?
Sou a R. S., que infelicitaste com a tua infâmia!
Já não és aquele moreno insinuante que surripiou a fortuna de meus pais, destruindo-lhes a vida e atirando-me no meretrício abominável.
A fortuna que te deu um nome foi edificada no pedestal do crime.
Recordas-te das promessas mentirosas que me fizeste?
Envergonhada, abandonei a terra que me vira nascer para ganhar o pão no mais horrendo comércio.
Corri mundo, sem esquecer a tua perversidade e sem conseguir afogar o meu infortúnio na taça dos prazeres.
Entretanto, o mundo foi teu.
Réu de um crime nefando, foste sacerdote da justiça; eu, a vítima desconhecida, fui obrigada a sufocar a minha fraqueza nas sentinas sociais, onde os homens pagam o tributo das suas misérias.
Tiveste a sociedade, eu os bordéis.
O triunfo e a consideração te pertenceram; a mim coube o desprezo e a condenação.
Meu lar foi o hospital, donde se escapou o último gemido do meu peito.
Meus braços, que haviam nascidos para acariciar os anjos de Deus, como dois galhos de árvores cheios de passarinhos, foram por ti transformados em tentáculos de perdição.
Eu poderia ter possuído um lar, onde as crianças abençoassem os meus carinhos e onde um companheiro laborioso se reconfortasse com o beijo da minha afeição.
Venho te condenar, ó desalmado assassino, em nome da justiça eterna que nos rege, acima dos homens.
Há mais de um lustro, espero-te nesta solidão indevassável, onde não poderás comprar a consciência dos juízes...
Viveste com o teu conforto, enquanto eu penava com a minha miséria; mas, o inferno agora será de nós dois!...
O coronel fez uma pausa, enquanto eu meditava naquela história.
-A mulher chorava - continuou ele - de meter dó.
Aproximei-me dela, não sendo notada, porém, minha presença.
Olhei a cruz modesta e carcomida que havia que havia sido arrancada poucas horas antes, daqueles sete palmos de
terra, para que ali fosse aberto um novo sepulcro, e, não sei se por artes do acaso, nela estava escrito um nome com pregos amarelos, já desfigurados pela ferrugem: R. S. - Orai por ela.
Por uma coincidência sinistra, reencontravam-se os dois corpos e as duas almas.
Procurei fazer tudo pelo Antonico, mas quando atravessei com o olhar a terra que lhe cobria os despojos, afigurou-se-me ver um monte de ossos que se moviam.
Crânio, tíbias, úmero, clavículas, se reuniam sob uma acção misteriosa e vi uma caveira chocalhando os dentes de fúria, ao mesmo tempo em que umas falangetas de aço pareciam apertar o pescoço do cadáver do meu amigo.
-E ele, coronel, isto é, o Espírito, estava presente?
-Estava, sim.
Presente e desperto.
Lá o deixei, sentindo os horrores daquela sufocação.
-Mas, e Deus, coronel?
Onde estava Deus que não se compadeceu do pecador arrependido?
O coronel me olhou, como se estivesse interrogando a si mesmo, e declarou por fim:
-Homem, sei lá!... Acredito que Deus tenha criado o mundo; porém, acho que a Terra ficou mesmo sob administração do Diabo.
------------------
(1) No original da mensagem foram dados por extenso os nomes das pessoas nela mencionados.
Como, porém, essas pessoas deixaram descendentes, que poderiam molestar-se com as referências que lhes fez Humberto de Campos, resolvemos indicá-las apenas pelas suas iniciais.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:05 pm

05 - JUDAS ESCARIOTES
19 de Abril de 1935

Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa.
A antiga capital da Judeia parece dormir o seu sono de muitos séculos.
Além descansa Getsémani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre.
E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.
Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.
Os espíritos podem vibrar em contacto directo com a história.
Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos.
Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável.
Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça.
Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.
Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor baptizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra.
De sua expressão fisionómica irradiava-se uma simpatia cativante.
- Sabe quem é este? - murmurou alguém aos meus ouvidos.
Este é Judas.
- Judas?!...
- Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos.
Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro.
Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus actos de antanho...
Aquela figura de homem magnetizava-me.
Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo.
O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.
-O senhor é, de facto, o ex-filho de Iscariote?
- Sim, sou Judas - respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica.
Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...
- É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?
- Em parte...
Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus actos predominaram na nefanda crucificação.
Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galileia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:05 pm

Sempre a mesma história.
O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra.
Jesus estava entre essas forças antagónicas com a sua pureza imaculada.
Ora, eu era um dos apaixonados pelas ideias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador.
Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória.
Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade.
Planejei então uma revolta surda como se projecta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado.
O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo.
Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?
- Não. Não consegui.
O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores.
Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta.
Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado.
Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV.
Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...
- E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.
- Sim... Estou recapitulando os factos como se passaram.
E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos.
Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino...
Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe...
Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor...
Olho complacentemente os que me acusam sem reflectir se podem atirar a primeira pedra...
Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio.
Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.
Quanto ao Divino Mestre - continuou Judas com os seus prantos - infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...
- É verdade - concluí - e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.
Judas afastou-se tomando a direcção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:06 pm

06 - AOS Q UE AINDA SE ACHAM NAS SOMBRAS DO MUNDO
23 de Abril de 1935

Antigamente eu escrevia nas sombras para os que se conservavam nas claridades da Vida.
Hoje, escrevo na luz branca da espiritualidade para quantos ainda se acham mergulhados nas sombras do mundo.
Quero crer, porém que tão dura tarefa me foi imposta nas mansões da Morte, como esquisita penitência ao meu bom gosto de homem que colheu quando pôde dos frutos saborosos na árvore paradisíaca dos nossos primeiros pais, segundo as Escrituras.
Contudo não desejo imitar aquele velho Tirésias que à força de proferir alvitres e sentenças conquistou dos deuses o dom divinatório em troca dos preciosos dons da vista.
Por esta razão o meu pensamento não se manifesta entre vocês que aqui acorreram para ouvi-lo como o daquelas entidades batedoras, que em Hydesville, na América do Norte, por intermédio das irmãs Fox, viviam nos primórdios do Espiritismo, contando histórias e dando respostas surpreendentes com as suas pancadas ruidosas e alegres.
Devo também esclarecer ao sentimento de curiosidade que os tangeu até aqui, que não estou exercendo ilegalmente a medicina como a grande parte dos defuntos, os quais, hoje em dia, vivem diagnosticando e receitando mezinhas e águas milagrosas para os enfermos.
Tampouco, na minha qualidade de repórter “falecido” sou portador de alguma mensagem sensacional dos paredros comunistas que já se foram dessa vida para a melhor, émulos dos Lenine, dos Kropotkine, cujos cérebros, a esta hora, devem estar transbordando teorias momentosas para o instante amargo que o mundo está vivendo.
O objectivo das minhas palavras póstumas é somente demonstrar o homem...
desencarnado e a imortalidade dos seus atributos. O fato é que vocês não me viram.
Mas contem lá fora eu enxergaram o médium.
Não afirmam que ele se parece com o Mahatma Gandhi em virtude de lhe faltar uma tanga, uma cabra e a experiência “anosa” do “líder” nacionalista da Índia.
Mas historiem, com sinceridade, o caso das suas roupas remendadas e tristes de proletário e da sua pobreza limpa e honesta que anda por esse mundo arrastando tamancos para a remissão de suas faltas nas anteriores encarnações.
Quanto a mim, digam que eu estava por detrás do véu de Ísis.
Mesmo assim, na minha condição de intangibilidade, não me furto ao desejo de lhes contar algo a respeito desta “outra vida” para onde todos têm de regressar.
Se não estou nos infernos de que fala a teologia dos cristãos, não me acho no sétimo paraíso de Maomé.
Não sei contar as minhas aperturas na amarga perspectiva de completo abandono em que me encontrei, logo após abrir os meus olhos no reino extravagante da Morte.
Afigurou-se-me que eu ia, directamente consignado ao Aqueronte, cujas águas amargosas deveria transpor como as sombras para nunca mais voltar, porque não cheguei a presenciar nenhuma luta entre São Gabriel e os Demónios, com as suas balanças trágicas, pela posse de minha alma.
Passados, porém, os primeiros instantes de “inusitado” receio, divisei a figura miúda e simples do meu Tio Antoninho, que me recebeu nos seus braços carinhosos de santo.
Em companhia, pois, de afeições ternas, no reconto fabuloso, que é a minha temporária morada, ainda estou como aparvalhado entre todos os fenómenos da sobrevivência.
Ainda não cheguei a encontrar os sóis maravilhosos, as esferas, os mundos comentários, portentos celestes, que descreve Flammarion na sua “Pluralidade dos Mundos”.
Para o meu espírito, a Lua ainda prossegue na sua carreira como esfinge eterna do espaço, embuçada no seu burel de freira morta.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:06 pm

Uma saudade doida e uma ânsia sem termo fazem um turbilhão no meu cérebro:
é a vontade de rever, no reino das sombras, o meu pai e a minha irmã.
Ainda não pude fazê-lo.
Mas em um movimento de maravilhosa retrospecção pude volver à minha infância, na Miritiba longínqua.
Revi as suas velhas ruas, semi-arruinadas pelas águas do Piriá e pelas areias implacáveis...
Revi os dias que se foram e senti novamente a alma expansiva de meu pai como um galho forte e alegre do tronco robusto dos Veras à minha frente, nos quadros vivos da memória, abracei a minha irmãzinha inesquecida, que era em nossa casa modesta como um anjo pequenino da Assunção de Murilo, que se tivesse corporificado de uma hora para outra sobre as lamas da terra...
Descansei à sombra das árvores largas e fartas, escutando ainda as violas caboclas, repinicando os sambas da gente das praias nortistas e que tão bem ficaram arquivadas na poesia encantadora e simples de Juvenal Galeno.
Da Miritiba distante transportei-me à Parnaíba, onde vibrei com o meu grande mundo liliputiano...
Em espírito, contemplei com a minha mãe as folhas enseivadas do meu cajueiro derramando-se na Terra entre as harmonias do canto choroso das rolas morenas dos recantos distantes de minha terra.
De almas entrelaçadas contemplei o vulto de marfim antigo daquela santa que, como um anjo, espalmou muitas vezes sobre o meu espírito cansado as suas asas brancas.
Beijei-lhe as mãos encarquilhadas genuflexo e segurei as contas do seu rosário e as contas miúdas e claras que corriam furtivamente dos seus olhos, acompanhando a sua oração...
Ave Maria... Cheia de graça...
Santa Maria... Mãe de Deus...
Ah! de cada vez que o meu olhar se espraia tristemente sobre a superfície do mundo, volvo a minha alma aos firmamentos, tomada de espanto e de assombro...
Ainda há pouco, nas minhas surpresas de recém-desencarnado, encontrei na existência dos espaços, onde não se contam as horas, uma figura de velho, um espírito ancião, em cujo coração milenário presumo refugiadas todas as experiências. Longas barbas de neve, olhos transudando piedade infinita doçura, da sua fisionomia de Doutor da Lei, nos tempos apostólicos, irradiava-se uma corrente de profunda simpatia.
- Mestre! - disse-lhe eu na falta de outro nome - que podemos fazer para melhorar a situação do orbe terreno?
O espectáculo do mundo me desola e espanta...
A família parece se dissolve... o lar está balançando como os frutos podres, na iminência de cair... a Civilização, com os seus numerosos séculos de leis e instituições afigura-se haver tocado os seus apogeus...
De um lado existem os que se submergem num gozo aparente e fictício, e do outro estão as multidões famintas, aos milhares, que não têm senão rasgado no peito o sinal da cruz, desenhado por Deus com a suas mãos prestigiosas como os símbolos que Constantino gravara nos seus estandartes...
E, sobretudo Mestre, é a perspectiva horrorosa da guerra...
Não há tranquilidade e a Terra parece mais um fogareiro imenso, cheio de matérias em combustão...
Mas o bondoso espírito-ancião me respondeu com humildade e brandura:
- Meu filho...
Esquece o mundo e deixa o homem guerrear em paz!...
Achei graça no seu paradoxo, porém só me resta acrescentar:
- Deixem o mundo em paz com a sua guerra e a sua indiferença!
Não será minha boca quem vá soprar na trombeta de Josafá.
Cada um guarde aí a sua crença ou o seu preconceito.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:06 pm

07 - A SUAVE COMPENSAÇÃO
31 de julho de 1935

- Foi Wells que, em uma das suas audaciosas fantasias, descreveu o vale escuro e triste onde um punhado de homens havia' perdido as faculdades visuais.
Tudo para eles era a mesma noite uniforme, onde se arrastavam como sombras da vida.
As gerações se haviam sucedido incessantemente, os séculos passaram e aqueles seres apagaram da lembrança as tradições dos antepassados que lhes falavam do estranho poder dos olhos, os quais, em seus organismos, nada mais eram que duas conchas de treva.
O mundo para eles estava circunscrito àquela prisão escura.
Os trovões e o vozerio lamentoso dos ventos da tarde significavam, para a sua acuidade auditiva, as advertências das bruxas que povoavam o seu deserto, e o chilrear dos passarinhos o suave consolo que lhes prodigalizavam os génios carinhosos e alegres.
Eis, porém, que, um dia, desce ao vale misterioso um homem que vê.
Fala aos filhos da treva das grandes maravilhas do mundo, dos tesouros amontoados nos seus impérios, das faiscantes grinaldas de luz dos plenilúnios, do entusiasmo colorido das auroras de primavera, de tudo o que as mãos dadivosas do Senhor puseram nas páginas imensas do livro da Natureza, para o encanto fugitivo dos homens.
Em resposta, porém, ouve-se no calabouço um clamor de gargalhadas e de apreensões.
O homem da noite examina com as suas mãos o homem do dia e supõe descobrir a origem dos seus disparates, descrevendo coisas inverosímeis para ele, atribuindo aos seus olhos a causa da sua loucura, concluindo pela necessidade de se lhe arrancarem esses órgãos incómodos, como excrescências daninhas.
Essa fantasia é aplicável ao mundo terreno, em se tratando das verdades novas.
Eu sei disso porque também perambulei entre as furnas sombrias desse vale de treva misteriosa, onde se reúnem os que tiveram a infelicidade de perder
os olhos da1ma, desviando-se do progresso moral.
Envergando a minha camisa pobre na penitenciária do mundo, ri-me dos que me vinham contar as maravilhas deslumbrantes da pátria das almas.
E, readquirindo os meus olhos nos países da Morte, aonde não cheguei a encontrar as águas tenebrosas do Tártaro e do Estige, venho hoje, como o viajante incompreendido, falar aos que são objecto da acção inibitória de uma cegueira cruel.
Não acredito na compreensão dos outros, com respeito aos meus argumentos de agora.
Um morto nada tem que fazer no mundo daqueles que se presumem os únicos sobreviventes do Universo e preferi, por isso, o retraimento, quando os jornais abriram as suas colunas aos debates em torno das minhas palavras póstumas, recompensa justa ao meu péssimo gosto de voltar a essa prisão nevoenta da Vida.
Cheguei mesmo a ponderar que, na passagem evangélica em que o Senhor não permitiu a caridosa atenção de Lázaro para com a súplica do Rico, não foi com o objectivo de justiçá-los na balança do mérito e do demérito.
Ainda aí, nessa hora de surpresas da lei das compensações, não poderia o Senhor fazer a apologia da indelicadeza.
Nem o Rico voltou das labaredas fumegantes da sua consciência culpada e nem o Pobre do seu banquete de delícias, porque não valeria a pena transpor-se imensuráveis distâncias para dizer aos encarnados apenas aquilo que constitui para o seu entendimento uma verdade inacessível.
Muito antes de Hermes Tot, os homens já se curvavam ante os mistérios indevassados da Morte.
Todos conhecem as suas realidades terríveis.
Alexandre tinha conhecimento de que, sob o seu látego impiedoso, teria de apodrecer, apesar da opulência da sua glória, da pompa de suas conquistas, tendo as suas cinzas nobres confundidas, talvez, com a poeira do último dos miseráveis.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:07 pm

Mas, se há essa vida onde predominam a Justiça e o Amor, com o divino característico da eternidade esplendorosa, os homens estão absortos no Letes, afogados na carne para chorar e esquecer.
Os vivos são os vivos.
Os mortos são os mortos.
Toda a lógica da ciência humana está nessas frases curtas.
Quando, porém, me entregava aos solilóquios do meu espírito, que nunca se considerou um vencido, ouvi a voz solene dos génios que velam por nós das regiões azuladas para onde se elevam todas as nossas aspirações como fios de rosa e de ouro:
- "Não desanimes, tu que vieste da luta insana na amargurada existência das provas!
Leva aos teus irmãos que sofrem o lenitivo da tua mensagem!...
Diz-lhes da Misericórdia de Deus e da Suprema Justiça que rege os destinos!
Se, na Terra, inúmeros Espíritos se perdem nos desfiladeiros do orgulho e da impiedade, lembra o microcosmo em que viveste, onde os mais pesados tributos são pagos ao Céu, em súplicas e esperanças..."
Energias novas infiltraram-se no meu ser.
Uma atracção incoercível conduziu-me a Sebastianópolis, que faiscava.
As luzes do dia arrancavam das suas praias uma paisagem fulgurante.
E gritei a todos, do alto do meu deslumbramento:
- "Não me vêem?..
Eu estou vivendo sem a tutela de espíritos malignos.
Quase já não sou mais o homem carrancudo e triste, fechado na sua amargura de sofredor.
É verdade que não poderei comparecer às reuniões de Espiritismo, como às sessões das quintas-feiras na Academia; mas, a morte não aniquilou a minha vida.
Penso, luto e sofro como dantes, crendo, porém, na eternidade luminosa!. . ."
Ninguém, no entanto, me ouvia.
Não pude fazer-me sentir nas avenidas ruidosas, regurgitando de transeuntes, parecendo-me, sob a influência das impressões físicas, que estava prestes a ser esmagado pelos automóveis de luxo.
Na minha desilusão, porém, ouço uma voz humilde e saltitante:
- “Olhem as Mensagens de Além Túmulo”!...
Mensagens de Humberto de Campos!...
Era a figura miúda do Vendedor de jornais.
Mãos generosas entendiam-lhe os seus níqueis em troca da minha lembrança.
O seu mercado, nesse dia, foi certamente farto de compensações, porque um sorriso triunfante lhe aflorava nos lábios, enfeitando-lhe o corpo magrinho.
Bastou a tua alegria, oh! Menino amargurado dos morros que és triste ornamento da Cidade Maravilhosa, para que eu me sentisse compensado de muitas labutas, porque, se os meus companheiros não me compreenderam no património rico da sua intelectualidade, tu tiveste nesse dia, em memória do meu humilde nome, um pouco de alegria, de conforto e de pão.
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Ave sem Ninho

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 02, 2017 12:07 pm

08 - DO ALÉM TÚMULO
5 de agosto de 1935

Dizem que os fantasmas dos mortos têm preferência pelas sombras da noite, para trazerem aos vos um reflexo esbatido do mistério em que se lhes fecharam os olhos.
Em todos os lugares, conhece-se a história das almas aflitas, que, agrilhoadas ao mundo pelo pensamento obsediante acerca dos que ficaram para trás, regressam dos orbes indevassados, onde quase todas as religiões colocaram o seu inferno e o seu céu.
Eu não venho, nessa "hora que apavora", copiando as deliberações das "damas brancas", que surgem nas casas solarengas como abantesmas de luar e de neblina, contrastando com a pesada escuridão da meia-noite.
É até muito cedo para que um "morto" apareça, contrariando as opiniões gerais.
Ainda há réstias de sol evadindo-se entre os arvoredos, como as rolas morenas e ariscas fugindo à noite cheia de sombras.
Há uma grandiosa placidez na paisagem que se aquieta como ovelha mansa para ouvir a voz carinhosa do pastor.
Vem aos olhos do meu pensamento aquele quadro de há dois mil anos.
Quando o Cristo pregou o Sermão da Montanha, especificando as bem-aventuranças celestes, devia ser assim o crepúsculo.
A mesma paz evangélica, os mesmos perfumes entornando-se da taça imensa do céu, a mesma esperança florindo no coração atormentado dos homens, beduínos extenuados desses desertos.
Um alvoroço suave de recordações me conduz ao passado. . .
É debalde, porém, essa tentativa de confinarmos a Palestina nas montanhas do sertão brasileiro.
Se é verdade que os Espíritos sempre falaram sobre os pontos alcantilados da Terra, como no Sinai e no Tabor, nós não somos o Divino Mestre.
Há quem afirme que nós, os desencarnados, somos precursores, como João Batista.
Mas, ainda não encontrei aqui viva alma nessa situação especialíssima.
Coroo os que hoje andam aí atribulados com o progresso, estamos longe da época messiânica, em que os homens puros, para viverem sob a guarda de Deus, nada mais precisavam que um cântaro de mel.
Mas, não venho hoje para tecer considerações dentro da mística religiosa.
Venho para falar a quantos estranham as minhas palavras depois da morte, admirando-se, de que eu não apareça clamando perdão e misericórdia, penitenciando-me dos mais nefandos pecados.
Desejariam que o Senhor derramasse sobre mim todas as suas cóleras sagradas; todas as torturas do Averno seriam poucas para me consumir a alma.
Os vermes que corroeram o corpo leproso do patriarca da Bíblia seriam, para as minhas culpas, como leves carícias.
Meus tormentos de Além-Túmulo deveriam exceder os de Tântalo.
E tudo porque andei espalhando umas anedotas lidas pelas consciências que, condenando-me hoje lá das suas sacristias, vivem pensando no Céu, sentindo na boca um gosto rubro de pecado.
São as almas imaculadas que se esqueceram das minhas feições humanas, olvidando que os palhaços também divertem o público para conquistar os vinténs negros da vida.
Se existem aí os que se confortam no luxo dos seus automóveis, deslizando no asfalto das avenidas, outros, para baterem à porta de uma padaria, é preciso que hajam passado através de um picadeiro.
Já tive ocasião de afirmar que não encontrei o paraíso muçulmano.
Encontrei, nesse "outro mundo", a minha própria bagagem.
Meus pensamentos, minhas obras, frutos dos meus labores, da minha regeneração no sofrimento.
Sem estar na beatitude do Céu, não conheço igualmente a topografia
do inferno.
Os uivos de Cérbero ainda não ecoaram aos meus ouvidos.
O "nessun maggior dolore", que Dante escutou dos lábios de Francesca da Rimini, em sua peregrinação pelas masmorras do tormento, constituiu provavelmente um resultado da perturbação dos seus nervos auditivos, porque eu afirmo o contrário.
Não há maior prazer que recordar, na paz daqui, as nossas dores na Terra.
E todos aqueles que vêm à ribalta, lamentando o meu relativo sossego, cuidem de conservar a sua pureza.
A Terra é tão inçada de abismos que, às vezes, procurando olhar em excesso pelos que nos acompanham, costumamos cair neles.
Eu sou, de fato, grande culpado, não pelos meus esgares de caveira para arrancar o riso dos outros, mas diante da minha consciência, pela minha teimosia e incompreensão referentes aos problemas da Verdade.
Todavia, Deus é a misericórdia suprema e, sem me acorrentar as colunas incandescentes, já prendeu meu coração de filho pródigo nas algemas suaves do seu amor.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:30 am

09 - OH! JERUSALÉM ... JERUSALÉM ...
11 de agosto de 1935

É possível a estranheza dos que vivem na Terra, com respeito à atitude dos desencarnados, esmiuçando-lhes as questões e opinando sobre os problemas que os inquietam.
É lógico, porém, que os recém-libertos do mundo falem mais com o seu cabedal de experiências de passado, do que com a sua ciência do presente adquirida à custa de faculdades novas, que o homem não está ainda à altura de compreender.
Podem imaginar-se, na Terra, determinadas condições da vida sobre a superfície de Marte; mas que interessam, por enquanto, ao mundo semelhantes descobertas, se os enigmas que o assoberbam ainda não foram decifrados?
Para o exilado da Terra não vale a psicologia do homem desencarnado.
Tacteando na prisão escura da sua vida, seria quase um crime aumentar-lhe as preocupações e ansiedades.
Eu teria muitas coisas novas a dizer; todavia, apraz-me, com o objecto de me fazer compreendido, debruçar nas bordas do abismo em que andei vacilando, subjugado nos tormentos, perquirindo os seus logogrifos inextricáveis, para arrancar as lições da sua inutilidade.
Também o homem nada tolera que venha infringir o metro da sua rotina.
Presumindo-se rei da Criação, não admite as verdades novas que esfacelam a sua coroa de argila.
Os mortos, para serem reconhecidos, deverão tanger a tecla da mesma vida que abandonaram.
Isso é intuitivo.
O jornalista, para alinhavar os argumentos da sua crónica, busca os noticiários, aproveita-se dos acontecimentos do dia, tirando a sua ilação das ocorrências do momento.
E meu espírito volve a contemplar o espectáculo angustioso dessa Abissínia abandonada no seio dos povos, como o derradeiro reduto da liberdade de uma raça infeliz, cobiçada pelo imperialismo do século, lembrando-me de Castro Alves nas suas amarguradas “Vozes da África":
Deus, Ó Deus, onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela tu te escondes, Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde, desde então, corre o infinito. Onde estás, Senhor Deus?
Da Roma poderosa partem as caravanas de guerreiros.
Cartago agoniza no seu desgraçado heroísmo.
Públio Cornélio consegue a mais estrondosa das vitórias.
Os cérebros dos patrícios ilustres embriagam-se no vinho do triunfo; e nas galeras sumptuosas, onde as águias simbolizam o orgulhoso poder da Roma eterna, lamentam-se os escravos nos seus nefandos martírios.
Os Césares enchem a cidade das sabinas de troféus e glórias.
Todos os deuses são venerados.
Os países são submetidos e os povos entoam o hino da obediência à senhora do mundo.
Já não se ouve a melodiosa flauta de Pan nos bosques da Tessália, e nas margens do Nilo apagam-se as luzes dos mais suaves mistérios.
Vítima, porém, dos seus próprios excessos, o grande império vê apressar-se a sua decadência.
No esboroamento dos séculos, a invencível potência dos Césares é um montão de ruínas.
Sobre os seus mármores sumptuosos crescem as destruições.
Roma dormiu o seu grande sono.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:30 am

Ei-la, contudo, que desperta.
Mussolini deixa escapar um grito do seu peito de ferro e a Roma antiga acorda do letargo, reconhecendo a perda dos seus imensos domínios.
Urge, porém, recuperar o poderio, empenhando-se em alargar o seu império colonial.
Onde e como?
O mundo está cheio de leis, de tratados de amparo recíproco entre as nações.
A França já ocupou todos os territórios ao alcance das suas possibilidades, a Alemanha está fortificada para as suas aventuras, o Japão tem as suas vistas sobre a China e a Inglaterra, calculista e poderosa, não pode ceder um milímetro no terreno das suas conquistas.
Mas, Roma quer a expansão dá sua força económica e prepara-se para roubar a derradeira ilusão de um povo desgraçado, ao qual não basta a lembrança amarga dos cativeiros multisseculares, julgando-se livre na obscura faixa de terra para onde recuou, batido pela crueldade das potências imperialistas.
Que mal fizeste à civilização corrompida dos brancos, ó pequena Abissínia, grande pela expressão resignada do teu ardente heroísmo?!
Como pudeste, das areias calcinantes do deserto, onde apuras o teu espírito de sacrifício, penetrar nas instituições europeias, provocando a fúria das suas armas?
Deixa que passem sob o teu sol de fogo as hordas de vândalos, sedentas de chacina e de sangue.
Sobre as tuas esperanças malbaratadas derramará o Senhor o perfume da sua misericórdia.
Os humildes têm o seu dia de bem-aventurança e de glória.
Não importa sejas o joguete dos caprichos condenáveis dos teus verdugos, porque, sobre o mundo, todas as frontes orgulhosas desceram do pináculo da sua grandeza para o esterquilínio e para o pó.
Se tanto for preciso, recebe sobre os teus ombros a mortalha de sangue, porque, junto do maravilhoso império da Civilização apodrecida dos brancos, ouve-se a voz lamentosa de um novo Jeremias:
- Oh! Jerusalém!... Jerusalém!...
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:31 am

10 - FALANDO A PIRATININGA
18 de agosto de 1935

Tive ensejo de afirmar aí no mundo que, se algum dia conseguisse liquidar todo o meu débito para com a terra maranhense e o Senhor decidisse mergulhar meu espírito no Letes da carne, eu desejaria ser paulista ou baiano.
São Paulo e Bahia foram os dois braços fortes que me ampararam na provação.
Minha dívida para com ambos é sagrada e irresgatável.
Era do seio afectuoso da Bahia, terra mãe do Brasil, que me chegavam os brados de incitamento para a luta; e dos celeiros fartos e generosos de São Paulo vinha a maior parte do meu pão.
Em seu território vivem os meus melhores amigos e do santuário do seu afecto subiram para Deus, em favor do escritor humilde e enfermo, as preces mais comovedoras e mais sinceras, as quais não lhe iluminaram apenas as estradas pedregosas da Vida, mas constituíram igualmente uma lâmpada suave no seu caminho da Morte.
Ignoro quando o Senhor resolverá o retorno do meu espírito aos tormentos da Terra, mas quero, antes de meditar nos calabouços da carne, falar do reconhecimento do meu coração.
Todas as coisas do Brasil falam particularmente à nossa alma:
Piratininga é, porém, o poema de ouro e de aço das energias do seu povo.
Sua história, dentro da história da Pátria, é uma afirmação gloriosa de heroísmo sagrado.
O mesmo espírito de liberdade e de autonomia, que nos primórdios de sua organização lhe motivou o desejo de aureolar a fronte de Amador Bueno com uma coroa de rei, emancipando-se da sua condição subalterna, trabalha hoje, como trabalhou no passado, para eternizar com o braço realizador a epopeia da sua grandeza.
Entre as energias moças da terra há um delírio contagioso de acção e de trabalho.
O esforço carinhoso do homem une-se à exuberância da seiva e São Paulo - desfralda, nas linhas vanguardeiras, o lábaro do seu progresso e das suas conquistas.
Do conforto de suas cidades modernas eleva-se para o céu a oração do labor que Deus escuta, premiando-lhe a operosidade com as alegrias da fartura.
E dizem que Anchieta, ainda hoje, em companhia daqueles que lançaram a primeira pedra na base do glorioso edifício piratiningano, passeia, entre as bênçãos dos seus cafezais e das suas estradas, enviando sagrada exortação aos que pelejam.
Ele, que soube aliar, no mundo, a energia do homem às virtudes do apóstolo vê do espaço infinito, a sublimidade da sua obra, e quando se aproxima das praias antigamente desertas e dos lugares onde as florestas desapareceram, sob os milagres do progresso, as juritis morenas da terra fremem as asas de arminho, tecendo um pálio inesperado para cobrir a fronte do homem prodigioso que lhes levou a palavra do Evangelho.
Abençoam-no das alturas os indígenas redimidos pela sua fraterna solicitude, e, sob a protecção afectuosa das aves, Anchieta sorri, contemplando a sua Piratininga que trabalha e floresce.
Sempre me referi às coisas de São Paulo com o carinhoso enternecimento da minha admiração.
E agora, longe das perturbações a que nos submete a carne, infligindo-nos a mais amargosa das escravidões, posso apreciar melhormente as suas afirmações de grandeza.
Tenho a visão nítida dos seus valorosos feitos, da enérgica projecção dos ideais da sua gente intrépida, cuja actividade se desdobra no ambiente da confraternização de todas as raças, fundindo-se no seu seio os mais enobrecedores sentimentos da fraternidade humana.
São Paulo de hoje é a bússola dos que hão de estudar amanhã a etnologia brasileira.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:31 am

Ao lado dos seus numerosos institutos de civilização e cultura, Piratininga terá a sua "Sociedade de Estudos Psíquicos" como realidade nova do ideal espiritualista, que, arregimentando as fileiras dos estudiosos, se prepara a fim de constituir a luz da humanidade futura.
Abre-se, desse modo, no cenário da sua evolução, mais um centro de beneméritos, cuja acção não estará circunscrita à pesquisa científica, mas também ao levantamento do nível moral da sociedade, intensificando os elos da fraternidade cristã; por que os verdadeiros estudiosos sabem que, se a ciência contemporânea não está falida, não pode, nas suas condições do momento, oferecer ao homem a chave das felicidades imortais.
A Humanidade está faminta desse amor que só Deus pode outorgar.
Um frio terrível de desespero e desgraça sopra entre os homens, que se esqueceram da meditação e da prece.
E a Ciência é a figura do Édipo electrizado sob os fatalismos inelutáveis do destino.
O erro dos que investigam é buscar a sabedoria sem preparar o coração, invertendo as determinações imperiosas da Vida.
Piratininga está, pois, preparando o coração de seus filhos, e das suas arcas ricas e generosas se derramará muito pão espiritual para os celeiros empobrecidos.
Dos empórios da sua grandeza saíram no passado as bandeiras civilizadoras, rasgando o coração das selvas compactas e, na actualidade, novas bandeiras sairão, rompendo o cipoal da descrença em que os homens se emaranharam, para dizer a palavra da verdade e do amor.
As suas armas de agora serão os ensinos do Evangelho, e o seu objectivo, a descoberta do filão do ouro espiritual.
Um júbilo inexprimível entorna-se do meu coração, dirigindo aos paulistas a minha palavra inexpressiva da tribuna da Morte; e tomado de orgulhosa alegria, posso hoje exclamar:
- "Eu te agradeço, ó Senhor! tão preciosos favores, porque, graças à tua bondade, pude hoje falar com S. Paulo, no momento em que se entregava com valoroso desassombro à obra da imortalidade, que é a obra do Evangelho. . ."
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:31 am

11 - CORAÇÃO DE MÃE
23 de agosto de 1935

Dolorosa e comovedora é a carta dessa mulher maranhense que te chegou às mãos, trazida nas asas de um avião trepidante e ruidoso.
Mãe desesperada, apela para os sentimentos de paternidade que não me abandonaram no túmulo, e grita aflitivamente corno se as suas letras tremidas fossem vestígios arroxeados do sangue do seu coração:
“Eu peço a Humberto de Campos que, mesmo do Além, salve o meu filho”!
Ele, que não se esqueceu dos que deixou na Terra, não pode negar urna esmola à minha alma de mãe extremosa!
E eu me lembro, comovido, dos apelos que me eram dirigidos pelos sofredores, nos derradeiros tempos da minha vida, enquanto eu naufragava devagarzinho no veleiro da Dor, entre as águas pesadas do oceano da Morte.
Eu daria tudo para enviar, a essa mulher sofredora da terra que foi minha, a certeza de que o seu filho é uma criatura predilecta dos deuses.
Tudo faria para imitar aquelas mãos ternas e misericordiosas que descansaram sobre a fronte abatida do órfão da viúva de Naim, ressuscitando para um coração maravilhoso de Mãe as energias do filho que padece sob as provações mais penosas.
A Morte, porém, não afasta do nosso caminho a visão estranha da fatalidade e do destino.
Há um determinismo no cenário das nossas existências, criado por nós mesmos.
O mal, com o seu cortejo de horrores, não está dentro dessa corrente impetuosa e irrefreável, mas todos os seus elos são formados pelos sofrimentos.
Os homens de barro têm de batalhar a vida inteira, repelindo o Crime e o Pecado, mas inevitavelmente andarão atolados no pantanal da Dor e da Morte.
O que mais me pungia, depois de haver perquirido as lições dos sábios daí, era a inutilidade dos seus argumentos ante as determinações irrevogáveis do destino.
Após haver atravessado as estradas da ignorância despretensiosa, no limiar do imenso palácio das experiências alheias, presumia encontrar a solução dos enigmas que confundem o cérebro humano.
Mas, em todas achei o mesmo tormento, as mesmas ansiedades angustiosas.
Frente a frente ao pulso inflexível da Morte, toda a ciência do mundo é de uma insignificância irremediável.
Nesse particular, todo o portentoso edifício da filosofia de Pitágoras não valia mais que as extravagantes teorias doutrinárias propaladas no mundo.
Todos quantos laboram em favor do homem da Terra esbarram nos muros indevassáveis da Sombra.
O Cristo foi o único que espalhou, na masmorra da carne, uma claridade suave, porque não se dirigiu à criatura terrena, mas à criatura espiritual.
Assombrava-me o espectáculo pavoroso do mundo, onde as leis, liberalíssimas para a aristocracia do ouro e severas em face dos infortunados que palmilham o caminho espinhoso com os pés descalços e feridos, reflectem o carácter humano com os seus incorrigíveis defeitos.
E, despertando de longos pesadelos na porta de claridade da sepultura, a minha primeira inquirição, com respeito aos problemas que me atormentavam, foi uma pergunta dolorosa acerca dos contrastes amargos do mundo.
Ainda aqui, porém, os génios carinhosos da Sabedoria abençoam, a sorrir, os que os interpelam, porque a decifração dos enigmas das nossas existências está em nós mesmos.
Apesar do destino inflexível, há uma força em nós que dele independe, como origem de todas as nossas acções e pensamentos.
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