CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:31 am

Somos obreiros da trama caprichosa das nossas próprias vidas.
As mãos, que hoje cortam as felicidades alheias, amanhã se recolherão como galhos - ressequidos nas frondes verdes da Vida.
As iniquidades de um Herodes podem desaparecer sob o manto de renúncias de um Vicente de Paulo.
O sensualismo de Madalena foi expurgado nos prantos amargosos da expiação e do arrependimento.
Quando pudermos ver o passado em todo o seu desdobramento, depois de contemplarmos a Messalina em sua noite de regalados prazeres, vê-la-emos de novo, arrastando-se nas margens do Tibre, enfiada num vestido horripilante de negras monstruosidades.
Faltou-me na vida terrena semelhante compreensão, para entender a Verdade.
Que essa pobre mãe maranhense considere esses realismos que nos edificam e nos salvam.
E, como um anjo de Dor à cabeceira do seu filho, eleve o seu apelo ao coração augusto d’Aquele que remove as montanhas com o sopro suave do seu amor.
Sua oração subirá ao Infinito como um cálice de perfume derramado ao clarão das estrelas que enfeitam o trono invisível do Altíssimo, e, certamente, os anjos da Piedade e da Doçura levarão a sua prece, como cândida oferta da sua alma sofredora, à magnanimidade daquela que foi a Rosa Mística de Nazaré.
Então, nesse momento, talvez que o coração angustiado da mãe que chora, na Terra, se ilumine de uma claridade estranha e misericordiosa.
Seu lar desditoso e humilde será, por instantes, um altar dessa luz invisível para os olhos mortais.
Duas mãos de névoa translúcida pousarão como açucenas sobre a sua alma oprimida e uma voz carinhosa, embaladora, murmurará aos seus ouvidos:
"Sim, minha filha!... ouvi a tua prece e vim suavizar o teu martírio, porque também tive um filho que morreu ignominiosamente na cruz."
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:32 am

12 - O "TÊTE À TÊTE" DAS SOMBRAS
28 de agosto de 1935

Quando ainda no mundo, não me era dado avaliar o "tête-à-tête" amigável dos Espíritos, à maneira dos homens, apenas com a diferença de que as suas palestras não se desdobram à porta dos cafés ou das livrarias.
E é com surpresa que me reúno àqueles que estimo, quando se me apresentam oportunidade: para uns dedos de prosa.
Estávamos nós, quatro almas desencarnadas como se fôssemos no mundo quatro figuras apocalípticas, discutindo ainda as coisas mesquinhas da Terra, e a palestra versava justamente sobre a evolução das ideias espíritas no Brasil.
- "Infelizmente - exclama um do grupo, provecta figura dessas doutrinas, desencarnado há bons anos no Rio de Janeiro - o que infesta o Espiritismo em nossa terra é o mau gosto pelas discussões estéreis.
O nosso trabalho é contínuo para que muitos confrades não se engalfinhem pela imprensa, demonstrando-lhes, com lições indirectas, a inutilidade das suas polémicas.
Mesmo assim, a doutrina tem realizado muito. Suas obras de caridade cristã estão multiplicadas por toda parte, atestando o labor do Evangelho."
Foi lembrada, então, a figura respeitável de Bettencourt Sampaio, no princípio da organização espírita no país, recordando-se igualmente a covardia de alguns companheiros que, guindados a prestigiosas posições na sociedade e na política, depressa esqueceram o seu entusiasmo de crentes, bandeando-se para o oportunismo das ideologias novas.
Ia a conversação nessa altura, quando o Doutor...
C..., um dos mais caridosos facultativos do Rio, recentemente desencarnado e cujo nome não deve mencionar, respeitando os preconceitos que se estendem às vezes até aqui, explicou:
- “É pena que venhamos a compreender tão tarde o Espiritismo, reconhecendo a sua lógica e grandeza moral só depois do nosso regresso de mundo”.
"Nós, os médicos, temos sempre o cérebro trabalhado de canseiras, na impossibilidade de resolver o problema da sobrevivência..
É certo que nunca se encontrará o ser na autópsia de um cadáver mas, tudo na vida é uma vibração profunda de espiritualidade.
Como, porém, a Ciência vigia as sua: conquistas do Passado, ciosa dos seus domínios ainda que sejamos inclinados às verdades novas, somos obrigados, muitas vezes, a nos retrair, temendo os Zaratustras da sua infalibilidade.”
"Eu mesmo, nos meus tempos de clínica no Rio de Janeiro, fui testemunha de casos extraordinários, desenrolados sob as minhas vistas.
Todavia, fui também presa do comodismo e do preconceito."
E o Dr. C..., como se mergulhasse os olhos no abismo das coisas que passaram, continuou pausadamente:
- "Eu já me encontrava com residência na praia de Botafogo, quando lavrou na cidade um surto epidémico de gripe, aliás com mínima repercussão, comparado à epidemia de após a guerra.
E como sempre contava, entre aqueles que recorriam à minha actividade profissional, diversos amigos pobres dos morros e particularmente da Prainha, foi sem surpresa que, numa noite-fria e nevoenta, abri a porta para receber a visita de uma garota de seus dez anos, humilde e descalça, que vinha, trémula e' acanhada, solicitar os meus serviços.
- "Doutor - dizia ela -, a mamãe está muito mal e só o senhor pode salvá-la. . .
Quer fazer a caridade de vir comigo?"
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:32 am

"Impressionaram-me a sua graça infantil e o estranho fulgor dos olhos, bem como o sorriso melancólico que lhe brincava na boca miúda.
"Considerei tudo quanto esperava a minha atenção urgente e procurei convencê-la da impossibilidade de a seguir, prometendo atendê-la no dia imediato.
Todavia, a minha pequena interlocutora exclamou com os olhos rasos d’água:
- "Oh! doutor, não nos abandone.
Ninguém, a não ser a protecção de Deus, vela por nós neste mundo.
Se o senhor não nos quiser auxiliar, a mamãe estará perdida e ela não pode morrer agora.
Venha!... o senhor não teve também uma mãe que foi o anjo de sua vida?"
A última frase dessa menina tocou fundo o meu coração e lembrei-me dos tempos longínquos, em que minha mãe embalava os sonhos da minha existência, comprando-me com o suor da sua pobreza honesta os alfarrábios e o pão.
Eu devia auxiliar aquela pequena, fosse onde fosse.
A Medicina era o meu sacerdócio e dentro da noite chuvosa que amortalhava todas as coisas, como se o Céu invisível chorasse sobre as trevas do mundo, o táxi rolava connosco, como fantasma barulhento, atravessando as ruas alagadas e desertas.
Aquela menina, triste e silenciosa, tinha os olhos brilhantes, perdidos no vácuo.
Seu corpo magrinho recostava-se inteiramente nas almofadas, enquanto os pés minúsculos se escondiam nas franjas do tapete.
Lembrando as suas frases significativas, quis reatar o fio do nosso diálogo:
"Há muito tempo que sua mãe se acha doente?"
- "Não, senhor. Primeiro, fui eu; enquanto estive mal, tanto a mamãe cuidou de mim que até caiu cansada e enferma, também."
- "Que sente a sua mãe?"
- "Muita febre.
As noites são passadas sem dormir.
Às vezes, grito para os vizinhos, mas parece que não me ouvem, pois estamos sempre as duas isoladas...
Costumamos chorar muito com esse abandono; mas, diz à mamãe que a gente precisa sofrer, entregando a Deus o coração."
- "E como soube você onde moro?"
- "Foi a visita de um homem que eu não conhecia.
Chegou devagarzinho à nossa porta, chamando-me à rua, dizendo-se amigo que o senhor muito estima e, ensinando-me a sua casa.
Prometeu que o senhor me atenderia, porque também havia tido uma mãe boa e carinhosa."
"Nosso diálogo foi interrompido.
A pequena enigmática mandou parar o carro.
Apontou o local de sua residência, estendendo a mão descarnada e miúda e, com poucos passos, batíamos à porta modesta de uma choupana miserável.
- "Espere, doutor - disse ela -, eu lhe abrirei a porta passando pelos fundos."
"E, já inquieta, desembaraçada, desapareceu das minhas vistas.
Uma taramela deslizou com cuidado, no meio da noite, e entrei no casebre.
Uma lamparina bruxuleante e humilde, que iluminava a saleta com o seu clarão pálido, deixava ver, no catre limpo, um corpo de mulher, desfigurado e disforme.
Seu rosto, sulcado de lágrimas, era o atestado vivo das mais cruéis privações e dificuldades.
Níobe estava ali petrificada na sua dor.
Todos os martírios se concentravam naquele pardieiro abandonado.
As minhas primeiras perguntas, respondeu numa voz suave e débil:
- "Não, doutor, não tente arrancar minha alma desesperada das garras da Morte!
Nunca precisei tanto, como agora, deixar para sempre o calabouço da Vida."
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:32 am

"E prosseguia, delirando:
- "Nada me resta...
Deixem-me morrer!..."
"Sobrepus, porém, minha voz às suas lamentações e exclamei com energia:
- "Minha senhora, vou tomar todas as providências que o seu caso está exigindo.
Hoje mesmo cessará esse desamparo.
Urge reanimar-se!
Resta-lhe muita coisa no mundo, resta-lhe essa filha afectuosa, que espera o seu carinho de mãe extremosa!..."
- "Minha filha? - retrucou aquela criatura, meio-mulher e meio-cadáver, enquanto duas grossas-lágrimas feriram fundo as suas faces empalidecidas - minha filha está morta desde anteontem!...
Olhe, doutor, aí no quarto e não procure devolver a saúde a quem tanto necessita morrer!. . .
"Então, espantado, passei ao apartamento contíguo.
O corpo de cera daquela criança misteriosa, que me chamara nas sombras da noite, ali estava envolvido em panos pobres e claros.~
eu rosto imóvel, de boneca magrinha, era um retrato da privação e da fome.
Os grandes olhos fulgurantes estavam agora fechados, e na boca miúda pairava o mesmo sorriso suave das almas resignadas e tristes.
"Eu deslizara nas avenidas com uma sombra dos mortos."
E, cobrindo melancolicamente o painel das suas lembranças, o nosso amigo terminou:
- "Decorridos tantos anos, ainda ouço a voz do fantasma pequenino e gracioso; e, na luta da Vida, muita vez me ocorreu o seu conselho suave, que me ensinou a sofrer, entregando a Deus o coração. "
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:32 am

13 - NO DIA DA PÁTRIA
7 de setembro de 1935

O Brasil celebra hoje o seu "Dia da Pátria".
As bandeiras ouro e verde serão desfraldadas aos quatro ventos.
Nas grandes cidades serão ouvidos os ecos dos clarins, nas paradas militares, e uma vibração de entusiasmo percorrerá o coração dos patriotas.
Sei também que muitas personalidades desencarnadas, que antigamente lutaram pela organização da nacionalidade, hoje se voltam para São Sebastião do Rio de Janeiro, onde pretendem participar das cerimónias comemorativas; muitos dos chefes tapuias e tupis, legítimos donos da terra conquistada pelos portugueses, ainda no espaço não desdenharão igualmente de passear os olhos pelo cenário das suas passadas existências, recordando hoje as suas tabas solitárias, os seus costumes, que os brancos perverteram, a imensidade das selvas e as belezas melancólicas das suas praias desertas.
Todavia, lembrando Paicolás, reconhecerão alguns benefícios de sua influência, ao lado de seus inumeráveis defeitos.
Hão de contemplar, enlevados, a Avenida Central, a Avenida Atlântica, a praia de Copacabana, o Rússel, o Leblon, as obras de saneamento e o casario imenso da cidade maravilhosa, derramando-se pelos vales, pelas serras e planícies, numa alucinação de progresso vertiginoso.
Os homens e os Espíritos desencarnados se reunirão, celebrando a data festiva.
Essas solenidades são sempre lindas e alegres, quando encaradas dentro da sua formosa significação.
As pátrias devem ser as casas imensas das famílias enormes.
Unidas fraternalmente, realizariam o sonho da Canaã das Escrituras, na face da Terra.
Contudo, quanto mais avançou a civilização nas suas estradas, mais o conceito de pátria foi viciado . na essência da sua legítima expressão.
O progresso científico eliminou quase todos os problemas da incomunicabilidade.
A radiotelefonia fez do Planeta uma sala minúscula, onde os países conversam, como as pessoas.
Os paquetes para as. viagens transoceânicas são cidades flutuantes, como hífens gigantescos, unindo os povos.
As máquinas aéreas, aperfeiçoadas e admiravelmente dispostas, sulcam os ares devorando as distâncias.
Por toda parte rasgam-se estradas.
Há uma ânsia de comunhão em todas as coisas. Tudo tende a unir-se, aproximando-se.
Entretanto, nunca as pátrias estiveram tão afastadas umas das outras, como agora.
Jamais se fez uma apologia tão grande da política de isolamento.
As pátrias andam esquecidas de que a existência depende de trocas incessantes.
Os maiores desequilíbrios financeiros e económicos são infligidos às nações, no seu egoísmo colectivo.
Deslumbrada, num período esplendoroso de sua evolução, e sentindo-se no limiar de transformações radicais em todos os sectores de sua actividade, a sociedade humana escuta a voz dos seus génios e dos seus apóstolos, desejando eliminar as fronteiras de todos os matizes que separam os seus membros, fundindo-se nesse abraço de Unidade que ela começa a compreender.
Mas, a política representa o passado multimilenário.
Os governos se concentram à base da força e o antagonismo que impera entre todos os elementos da actualidade apresenta um espectáculo interessantíssimo.
Todos os pactos de paz são mentirosos.
Haverá maior contradição que a de um instituto de paz, que deve ser pura e espontânea, guardado por exércitos armados até os dentes?
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 03, 2017 8:33 am

Em todos os sistemas políticos dos tempos modernos predominam, apenas, os pruridos da hegemonia internacional.
Em virtude de semelhantes disparates, a guerra é inevitável.
Não haverá confabulações diplomáticas que a eliminem, por enquanto, dó caminho dos homens.
E a guerra de agora será mais dolorosa e terrível.
Todas as conquistas da ciência serão mobilizadas a seu serviço.
A bacteriologia, a electricidade, a mecânica, a química, todos os elementos serão requeridos pelo polvo insaciável.
Deus criou a Paz, o Amor, a Fraternidade, mas os homens criaram os seus próprios destinos. Confundidos no labirinto de suas maldades, só têm podido iluminar os caminhos da Vida com os fachos incendiados da Morte.
Na actualidade, a guerra das pátrias representa a guerra dos sentimentos; porque uma era nova, de fraternidade cristã, desabrochará nos horizontes do mundo.
Todos os Espíritos falam nessa renovação e ela aparecerá, clareando o dia novo da Humanidade...
Nessa época de ouro espiritual, que talvez não venha longe, o mundo entenderá a mensagem de paz do Divino Cordeiro.
Uma brisa suave de conforto e de alívio descerá do Céu sobre as 'frontes atormentadas das criaturas.
Terminará o dilúvio de expiações em que o homem há séculos está envolvido, e um pássaro simbólico trará novamente a oliva da esperança.
E o Brasil que, embora com sacrifícios ingentes, vem colaborando na disseminação da mensagem da imortalidade e da esperança, nessa era nova entoará, com as nações irmanadas, o hino da Paz, compreendendo, pela evolução moral dos seus filhos, a beleza maravilhosa da Pátria Universal.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:09 pm

14 - UM CÉPTICO
13 de Dezembro de 1935

Ainda não me encontro bastante desapegado desse mundo para que não me sentisse tentado a voltar a ele, no dia que assinalou o meu desprendimento da carcaça de ossos.
Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das sombras, que é a vida daí, o cinco de dezembro representou a minha volta ao país de claridades benditas, cujas portas de ouro são escancaradas pelas mãos poderosas da morte.
Nessa noite, o ambiente do cemitério de São João Batista parecia sufocante.
Havia um "quê" de mistérios, entre catacumbas silenciosas, que me enervava, apesar da ausência dos nervos tangíveis no meu corpo estranho de espírito.
Todavia, toquei as flores cariciosas que a Saudade me levara, piedosa e compungidamente.
O seu aroma penetrava o meu coração como um consolo brando, conduzindo-me, num retrospecto maravilhoso, às minhas afeições comovidas, que haviam ficado a distância.
E foi entregue a essas cogitações, a que são levados os mortos quando penetram o mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um dos companheiros que me ficavam próximos ao bangaló subterrâneo com que fui mimoseado na terra carioca.
- O senhor é o dono desses ossos que estão por aí apodrecendo? - interpelou-me.
- Sim, e a que vem a sua pergunta?
- Ora, é que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete subterrâneo.
Recordo-me bem, apesar de sair pouco dessa toca para onde fui relegado há mais de trinta anos...
- O senhor se lembra?
A urna funerária, portadora dos seus despojos, saiu solenemente da Academia de Letras, altas personalidades da política dominante se fizeram representar nas suas exéquias e ouvi sentidos panegíricos pronunciados em sua homenagem.
Muito trabalho tiveram as máquinas fotográficas na camaradagem dos homens da imprensa e tudo fazia sobressair à importância do seu nome ilustre.
Procurei aproximar-me de si e notei que as suas mãos, que tanto haviam acariciado o espadim académico, estavam inermes e que os seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando aprofundar os problemas humanos, estavam reduzidos a um punhado de massa informe, onde apenas os vermes encontrariam algo de útil.
Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a celebridade, o senhor veio humildemente repousar entre as tíbias e os úmeros daqueles que o antecederam na jornada da Morte.
Lembra-se o senhor de tudo isso?
- Não me lembro bem...
Tinha o meu espírito perturbado pelas dores e emoções sucessivas.
- Pois eu me lembro de tudo.
Daqui, quase nunca me afasto, como um olho de Argos, avivando a memória dos meus vizinhos.
O senhor conhece as criptas de Palermo?
- Não.
- Pois nessa cidade os monges, um dia, conjugando a piedade com o interesse, inventaram um cemitério bizarro.
Os mortos eram mumificados e não baixavam à sepultura.
Prosseguiam de pé a sua jornada de silêncio e de nudez espantosa.
Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha, vestidos ao seu tempo, segundo os seus gostos e opiniões.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:09 pm

Muito rumor causou essa parada de caveiras e de canelas, até que um dia um inspector da higiene, visitando essa casa de sombras da vida e enojado com a presença dos ratos que roíam displicentemente as costelas dos traspassados ricos e ilustres que se davam ao gosto de comprar ali um lugar de descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em 1888.
Ora bem:
eu sou uma espécie dos defuntos de Palermo.
Aqui estou sempre de pé, apesar dos meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se encontraram com os ossos dos que foram meus inimigos.
- A vida é assim disse-lhe eu; mas, por que se dá o amigo a essa inglória tarefa na solidão em que se martiriza?
Não teria vindo do orbe com bastante fé, ou com alguma credencial que o recomendasse a este mundo cujas fileiras agora integramos? -
Credenciais? Trouxe muitas.
Além da honorabilidade de velho político do Rio de Janeiro, trazia as insígnias da minha fé católica, apostólica romana.
Morri com todos os sacramentos da igreja; porém, apesar das palavras sacramentais, da liturgia e das felicitações dos hissopes, não encontrei viva alma que me buscasse para o caminho do Céu, ou mesmo do inferno.
Na minha condição de defunto incompreendido, procurei os templos católicos, que certamente estavam na obrigação de me esclarecer.
Contudo, depressa me convenci da inutilidade do meu esforço.
As igrejas estão cheias de mistificações.
Se Jesus voltasse agora ao mundo, não poderia tomar um átomo de tempo pregando as virtudes cristãs, na base, luminosa da humildade.
Teria de tomar, incontinenti, ao regressar a este mundo, um látego do fogo e trabalhar anos afio no saneamento de sua casa.
Os vendilhões estão muito multiplicados e a época não comporta mais o Sermão da Montanha.
O que se faz necessário, no tempo actual, no tocante a esse problema, é a creolina de que falava Guerra Junqueiro nas suas blasfémias.
- Mas, o irmão está muito céptico.
É preciso esperança e crença...
-Esperança e crença?
Não acredito que elas salvem o mundo, com essa geração de condenados.
Parece que maldições infinitas perseguem a moderna civilização.
Os homens falam de fé e de religião, dentro do esnobismo e da elegância da época.
A religião é para uso externo, perdendo-se o espírito nas materialidades do século.
As criaturas parecem muito satisfeitas sob a tutela estranha do diabo.
O nome de Deus, na actualidade, não deve ser evocado senão como máscara para que os enigmas do demónio sejam resolvidos.
Não estamos nós aqui dentro da terra da Guanabara, paraíso dos turistas, cidade maravilhosa?
Percorra o senhor, ainda depois de morto, as grandes avenidas, as artérias gigantescas da capital e verá as crianças famintas, as mãos nauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e pálidos das mães sofredoras, enquanto o governo remodela os teatros, incentiva as orgias carnavalescas e multiplica regalos e distracções.
Vá ver como o câncer devora os corpos enfermos no hospital da Gamboa; ande pelos morros, para onde fugiu a miséria e o infortúnio; visite os hospícios e leprosários.
Há de se convencer da inutilidade de todo o serviço em favor da esperança e da crença.
Em matéria de religião, tente materializar-se e corra aos prédios elegantes e aos bangalós adoráveis de Copacabana e do Leblon, suba a Petrópolis e grite a verdade.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:10 pm

O seu fantasma seria corrido a pedradas.
Todos os homens sabem que hão de chocalhar os ossos, como nós, algum dia, mas um vinho diabólico envenenou no berço essa geração de infelizes e de descrentes.
- Por que o amigo não tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa hoje toda nossa esperança.
- Já o fiz.
É verdade que não compareci em uma reunião de sabedores da doutrina, conhecedores do terreno que perquiriam; mas estive em uma assembleia de adeptos e procurei falar-lhes dos grandes problemas da existência das almas.
Exprobrei os meus erros do passado, penitenciando-me das minhas culpas para escarmentá-los; mostrei-lhes as vantagens da prática do bem, como base única para encontrarmos a senda da felicidade, relatando-lhes a verdade terrível, na qual me achei um dia, com os ossos confundidos com os ossos dos miseráveis.
Todavia, um dos componentes da reunião interpelou-me a respeito das suas tricas domésticas, acrescentando uma pergunta quanto à marcha dos seus negócios.
Desiludi-me. Não tentarei coisa alguma.
Desde que temos vida depois da morte, prefiro esperar a hora do Juízo Final, hora essa em que deverei buscar um outro mundo, porque, com respeito a Terra, não quero chafurdar-me na sua lama.
Por estranho paradoxo vivo depois da morte, serei adepto da congregação dos descrentes. .
- Então, nada o convence?
- Nada. Ficarei aqui até à consumação dos evos, se a mão do Diabo não se lembrar, de me arrancar dessa toca de ossos moídos e cinzas asquerosas.
E, quanto ao senhor, não procure afastar-me dessa misantropia.
Continue gritando para o mundo que lhe guarda os despojos.
Eu não o farei.
E o singular personagem, recolheu-se à escuridão do seu canto imundo, enquanto pesava no meu espírito a certeza dolorosa da existência dessas almas vazias e incompreendidas na parada eterna dos túmulos silenciosos para onde os vivos levam de vez em quando as flores perfumadas da sua saudade e da sua afeição.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:10 pm

15 - A ORDEM DO MESTRE
20 de Dezembro de 1935

Avizinhando-se o Natal, havia também no Céu um rebuliço de alegrias suaves.
Os Anjos acendiam estrelas nos cômoros de neblinas douradas e vibravam no ar as harmonias misteriosas que encheram um dia de encantadora suavidade a noite de Belém.
Os pastores do paraíso cantavam e, enquanto as harpas divinas tangiam suas cordas sob o esforço caricioso dos zéfiros da imensidade, o Senhor chamou o Discípulo Bem-Amado ao seu trono de jasmins matizados de estrelas.
O vidente de Patmos não trazia o estigma da decrepitude como nos seus últimos dias entre as Espórades.
Na sua fisionomia pairava aquela mesma candura adolescente que o caracterizava no princípio do seu apostolado.
- João - disse-lhe o Mestre - lembras-te do meu aparecimento na Terra?
- Recordo-me, Senhor.
Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade de frei Dionísios, que colocou erradamente o vosso natalício em 754, calculando no século VI da era cristã.
- Não, meu João - retornou docemente o Senhor - não é a questão cronológica que me interessa em te arguindo sobre o passado.
É que nessas suaves comemorações vem até mim o murmúrio doce das lembranças!...
- Ah! sim, Mestre Amado - retrucou pressuroso o Discípulo - compreendo-vos.
Falais da significação moral do acontecimento.
Oh!...se me lembro... a manjedoira, a estrela guiando os poderosos ao estábulo humilde, os cânticos harmoniosos dos pastores, a alegria ressoante dos inocentes, afigurando-se-nos que os animais vos compreendiam mais que os homens, aos quais ofertáveis a lição da humildade com o tesouro da fé e da esperança.
Naquela noite divina, todas as potências angélicas do paraíso se inclinaram sobre a Terra cheia de gemidos e de amargura para exaltar a mansidão e a piedade do Cordeiro.
Uma promessa de paz desabrochava para todas as coisas com o vosso aparecimento sobre o mundo.
Estabelecera-se um noivado meigo entre a Terra e o Céu e recordo-me do júbilo com que Vossa Mãe vos recebeu nos seus braços feitos de amor e de misericórdia.
Dir-se-ia, Mestre, que as estrelas de ouro do paraíso fabricaram, naquela noite de aromas e de radiosidades indefiníveis um mel divino no coração piedoso de Maria!...
Retrocedendo no tempo, meu Senhor bem-amado, vejo o transcurso da vossa infância, sentindo o martírio de que fostes objecto; o extermínio das crianças de Vossa idade, a fuga nos braços carinhosos da Vossa progenitora, os trabalhos manuais em companhia de José, as vossas visões maravilhosas no Infinito, em comunhão constante com o Vosso e nosso Pai, preparando-Vos para o desempenho da missão única que Vos fez abandonar por alguns momentos os palácios de sol da mansão celestial para descer sobre as lamas da Terra.
- Sim, meu João, e, por falar nos meus deveres, como seguem no mundo as coisas atinentes à minha doutrina?
- Vão mal, meu Senhor.
Desde o concílio ecuménico de Nicéia, efectuado para combater o cisma de Ario em 325, as vossas verdades são deturpadas.
Ao arianismo seguiu-se o movimento dos iconoclastas em 787 e tanto contrariaram os homens o Vosso ensinamento de pureza e de simplicidade, que eles próprios nunca mais se entenderam na interpretação dos textos evangélicos.
- Mas não te recordas, João, que a minha doutrina era sempre acessível a todos os entendimentos?
Deixei aos homens a lição do caminho, da verdade e da vida sem lhes haver escrito uma só palavra.
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Ave sem Ninho

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:10 pm

- Tudo isso é verdade, Senhor, mas logo que regressastes aos vossos impérios resplandecentes, reconhecemos a necessidade de legar à posteridade os vossos ensinamentos.
Os evangelhos constituem a vossa biografia na Terra; contudo, os homens não dispensam, em suas actividades, o véu da matéria e do símbolo.
A todas as coisas puras da espiritualidade adicionam a extravagância de suas concepções.
Nem nós e nem os evangelhos poderíamos escapar.
Em diversas basílicas de Ravena e de Roma, Mateus é representado por um jo0vem, Marcos por um leão, Lucas por um touro e eu, Senhor, estou ali sob o símbolo estranho de uma águia.
- E os meus representante, João, que fazem eles?
- Mestre, envergonho-me de o dizer.
Andam quase todos mergulhados nos interesses da vida material.
Em sua maioria, aproveitam-se das oportunidades para explorar o vosso nome e, quando se voltam para o campo religioso, é quase que apenas para se condenarem uns aos outros, esquecendo-se de que lhes ensinastes a se amarem como irmãos.
- As discussões e os símbolos, meu querido - disse-lhe suavemente o Mestre - não me impressionam tanto.
Tiveste, como eu, necessidade destes últimos, para as predicações e, sobre a luta das ideias, não te lembras quanta autoridade fui obrigado a despender, mesmo depois da minha volta da Terra, para que Pedro e Paulo não se tornassem inimigos?
Se entre meus apóstolos prevaleciam semelhantes desuniões, como poderíamos eliminá-las do ambiente dos homens, que não me viram, sempre inquietos nas suas indagações?...
O que me contrista é o apego dos meus missionários aos prazeres fugitivos do mundo!
- É verdade, Senhor.
- Qual o núcleo de minha doutrina que detém no momento maior força de expressão?
- É o departamento dos bispos romanos, que se recolheram dentro de uma organização admirável pela sua disciplina, mas altamente perniciosa pelos seus desvios da verdade.
O Vaticano, Senhor, que não conheceis, é um amontoado sumptuoso das riquezas das traças e dos vermes da Terra.
Dos seus palácios confortáveis e maravilhosos irradia-se todo um movimento de escravização das consciências.
Enquanto vós não tínheis uma pedra onde repousar a cabeça, dolorida os vossos representantes dormem a sua sesta sobre almofadas de veludo e de ouro; enquanto trazíeis os vossos pés macerados nas pedras do caminho escabroso, quem se inculca como vosso embaixador traz a vossa imagem nas sandálias matizadas de pérolas e de brilhantes.
E junto de semelhantes superfluidades e absurdos, surpreendemos os pobres chorando de cansaço e de fome; ao lado do luxo nababesco das basílicas sumptuosas, erigidas no mundo como um insulto à glória da vossa humildade e do vosso amor, choram as crianças desamparadas, os mesmos pequeninos a quem estendíeis os vossos braços compassivos e misericordiosos.
Enquanto sobram as lágrimas e os soluços entre os infortunados, nos templos, onde se cultua a vossa memória, transbordam moedas em mãos cheias, parecendo, com amarga ironia, que o dinheiro é uma defecação do demónio no chão acolhedor da vossa casa.
- Então, meu Discípulo, não poderemos alimentar nenhuma esperança?
- Infelizmente, Senhor, é preciso que nos desenganemos.
Por um estranho contraste, há mais ateus benquistos no Céu do que aqueles religiosos que falavam em vosso nome na Terra.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:10 pm

- Entretanto - sussurraram os lábios divinos docemente - consagro o mesmo amor à humanidade sofredora.
Não obstante a negativa dos filósofos, as ousadias da ciência, o apodo dos ingratos, a minha piedade é inalterável...
Que sugeres, meu João, para solucionar tão amargo problema?
- Já não dissestes, um dia, Mestre, que cada qual tomasse a sua cruz e vos seguisse?
- Mas prometi ao mundo um Consolador em tempo oportuno!...
E os olhos claros e límpidos, postos na visão piedosa do amor de seu Pai Celestial, Jesus exclamou:
- Se os vivos nos traíram, meu Discípulo Bem-Amado, se traficam com o objecto sagrado da vossa casa, profligando a fraternidade e o amor, mandarei que os mortos falem na Terra em meu nome.
Deste Natal em diante, meu João, descerrarás mais um fragmento dos véus misteriosos que cobrem a noite triste dos túmulos para que a verdade ressurja das mansões silenciosas da Morte.
Os que já voltaram pelos caminhos ermos da sepultura retornarão à Terra para difundirem a minha mensagem, levando aos que sofrem, coma esperança posta no Céu as claridades benditas do meu amor!...
E desde essa hora memorável, há mais de cinquenta anos, o Espiritismo veio, com as suas lições prestigiosas, felicitar e amparar na Terra a todas as criaturas.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:11 pm

16 - A PASSAGEM DE RICHET
21 de Janeiro de 1936

O Senhor tomou lugar no tribunal da sua justiça e, examinando os documentos que se referiam às actividades das personalidades eminentes sobre a Terra, chamou o Anjo da Morte, exclamando:
- Nos meados do século findo partiram daqui diversos servidores da Ciência que prometeram trabalhar em meu nome, no orbe terráqueo levantando a moral dos homens e suavizando-lhes as lutas.
Alguns já regressaram, enobrecidos nas acções dignificadoras, desse mundo longínquo.
Outros, porém, desviaram-se dos seus deveres e outros ainda lá permanecem, no turbilhão das dúvidas e das descrenças, laborando no estudo.
“Lembras-te daquele que era aqui um inquieto investigador, com as suas análises incessantes, e que se comprometeu a servir os ideais da Imortalidade, adquirindo a fé que sempre lhe faltou”?
- Senhor, aludis a Charles Richet, reencarnado em Paris, em 1850, e que escolheu uma notabilidade da medicina para lhe servir de pai?
- Justamente.
Pelas notícias dos meus emissários, apesar da sua sinceridade e da sua nobreza, Richet não conseguir adquirir os elementos de religiosidade que fora buscar em favor do seu próximo.
Tens conhecimento dos favores que o Céu lhe tem adjudicado no transcurso da sua existência?
- Tenho, Senhor.
Todos os vossos mensageiros lhe cercaram a inteligência e a honestidade com o halo da vossa sabedoria.
Desde os primórdios das suas lutas na Terra, os Génios da imensidade o rodeiam com o sopro divino de suas inspirações.
Dessa assistência constante lhe nasceram os poderes intelectuais, tão cedo revelados no mundo.
A sua passagem pelas academias da Terra, que serviu para excitar a potência vibratória da sua mente, em favor da ressurreição do seu tesouro de conhecimentos, foi acompanhada pelos vossos emissários com especial carinho.
Ainda na mocidade, leccionou na Faculdade de Medicina, obtendo a cadeira de fisiologia.
Nesse tempo, já seu nome, com os vossos auxílios, estava cercado de admiração e respeito.
As suas produções granjearam-lhe a veneração e a simpatia dos seus contemporâneos.
De 1877 a 1884, publicou estudos notáveis sobre a circulação do sangue, sobre a sensibilidade, sobre a estrutura das circunvoluções cerebrais, sobre a fisiologia dos músculos e dos nervos, perquirindo os problemas graves do ser, investigando no círculo de todas as actividades humanas, conquistando o seu nome a admiração universal.
- E em matéria de espiritualidade - replicou austeramente o Senhor - que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?
- Nesse particular - exclamou solícito o Anjo - muito lhe foi dado.
Quando deixastes cair, mais intensamente, a vossa luz sobre os mistérios que me envolvem, ele foi dos primeiros a receber-lhe os raios fulgurantes.
Em Carqueiranne, em Milão e na Ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram, junto de Eusápia Paladino, quando o seu génio se entregava a observações positivas, com os seus colegas Lodge, Myers e Sidgwick.
De outras vezes, com Delanne, analisou as célebres experiências de Alger, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.
“Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade à sua poderosa organização psíquica, apelando para o seu coração, a fim de que ele afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das vossas verdades, porém apenas conseguiram que ele escrevesse o “Tratado de Metapsíquica” e um estudo proveitoso a favor da concórdia humana, que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz em 1913.” (1)
“Os mestres espirituais não desanimaram nem descansaram nunca em torno da sua individualidade; mas apesar de todos os esforços desprendidos, Richet viu, nas expressões fenomenológicas de que foi atento observador, apenas a exteriorização das possibilidades de um sexto sentido nos organismos humanos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:11 pm

Ele que fora o primeiro organizador de um dicionário de fisiologia, não se resignou a ir além das demonstrações histológicas.
Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de investigador se caracterizam pela dúvida que lhe martiriza a personalidade.
Nunca pôde, Senhor, encarar as verdades imortalistas, senão como hipóteses, mas o seu coração é generoso e sincero.
Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se veio inclinando para a fé, até hoje inacessível ao seu entendimento de estudioso.
Os vossos mensageiros conseguiram inspirar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no planeta como “A Grande Esperança” e, nestes últimos dias, a sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica em prol dos estudos espiritualistas.”
- Pois bem, - exclamou o Senhor - Richet terá de voltar agora a penates.
Traz de novo aqui a sua individualidade para as necessárias interpelações.
- Senhor, assim tão depressa? - retornou o Anjo, advogando a causa do grande cientista.
O mundo vê em Richet um dos seus génios mais poderosos, guardando nele sua esperança.
Não conviria protelar a sua permanência na Terra, a fim de que ele vos servisse, servindo à Humanidade?
- Não - disse o Senhor tristemente.
Se, após oitenta e cinco anos de existência sobre a face da Terra, não pôde reconhecer, com a sua ciência, a certeza da imortalidade, é desnecessária a continuação de sua estada nesse mundo.
Como recompensa aos seus esforços honestos em benefício dos seus irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, a centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu nos seus labores ingratos e frios.
No leito de morte, Richet tem as pálpebras cerradas e o corpo na posição derradeira, em caminho da sepultura.
Seu espírito inquieto de investigador não dormiu o grande sono.
Há ali, cercando-lhe os despojos, uma multidão de fantasmas.
Gabriel Delanne estende-lhe os braços de amigo.
Denis e Flammarion o contemplam com bondade e carinho.
Personalidades eminentes da França antiga, velhos colaboradores devotados dos “Anais das Ciências Psíquicas” ali estão para abarcarem o mestre, no limiar do seu túmulo.
Richet abre os olhos para as realidades espirituais que lhe eram desconhecidas.
Parece-lhe haver retrocedido às materializações da Vila Cármen; mas, ao seu lado, repousam os seus despojos, cheios de detalhes anatómicos.
O eminente fisiologista reconhece-se no mundo dos verdadeiros vivos.
Suas percepções estão intensificadas, sua personalidade é a mesma e, no momento em que volve a atenção para a atitude carinhosa dos que o rodeiam, ouve uma voz suave e profunda, falando do infinito:
- Richet - exclama o Senhor no tribunal de sua misericórdia, por que não afirmaste a Imortalidade, e por que desconheceste o meu nome no seu apostolado de missionário da ciência e do labor?
Abri todas as portas de ouro, que te poderia reservar sobre o mundo. Perquiriste todos os livros.
Aprendeste e ensinaste, fundaste sistemas novos do pensamento, à base das dúvidas dissolventes.
Oitenta e cinco anos se passaram, esperando eu que a tua honestidade me reconhecesse, sem que a fé desabrochasse em teu coração...
Todavia, decifraste, com o teu esforço abençoado, muitos enigmas dolorosos da ciência do mundo e todos os teus dias representaram uma sede grandiosa de conhecimentos...
Mas, eis, meu filho, onde a tua razão positiva é inferior à revelação divina da fé.
Experimentaste as torturas da morte com todos os teus livros e diante dela desapareceram os teus compêndios, ricos de experimentações no campo das filosofias e das ciências.
E agora, premiando os teus labores, eu te concedo os tesouros da fé que te faltou na dolorosa estrada do mundo!
Sobre o peito do abnegado apóstolo desce do Céu um punhal de luz opalina como um venábulo maravilhoso de luar indescritível.
Richet sente o coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciências nunca lhe haviam dado.
Seus olhos são duas fontes abundantes de lágrimas de reconhecimento ao Senhor.
Seus lábios, como se voltassem a ser os lábios de um menino, recitam o “Pai Nosso que estais no Céu...”
Formas luminosas e aéreas arrebatam-no, pela estrada de éter da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apóstolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade.

Nota: (1) Certamente houve aí um lapso do autor, Richet apesar de ardoroso pacifista, não recebeu o Nobel da Paz e sim o de Medicina pela descoberta da anafilaxia.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 12:12 pm

17 - HAUPTMANN
06 de Abril de 1936

“Na Casa da Morte”, em Trenton, Bruno Richard Hauptmann desfolha, pela última fez, o calendário de suas recordações.
É de tarde.
O condenado sente esvaecer-se-lhe a derradeira esperança.
Já não há mais possibilidade de adiamento da execução depois das decisões do Grande Júri de Mercer, e o caso Wendel representava o único elemento que modificaria o epílogo doloroso da tragédia de Hopewell.
O governador do Estado de Nova Jersey já havia desempenhado a sua imitação de Pilatos, e o senhor Kimberling nada mais poderia realizar que o cumprimento austero das leis que condenaram o carpinteiro alemão à cadeira eléctrica.
Hauptmann sente-se perdido diante do irresistível e chora, protestando a sua inocência.
Recapitula a série de circunstâncias que o conduziram à situação de indigitado matador do baby Lindenbergh, e espera ainda que a justiça dos homens reconheça o seu erro, salvando- o, à última hora, das mãos do carrasco.
Mas a justiça dos homens está cega; tacteando na noite escura de suas vacilações, não viu senão a ele, no amontoado das sombras.
A polícia norte-americana precisava que alguém viesse à barra do Tribunal responder-lhe por um crime nefando, satisfazendo assim as exigências da civilização, salvaguardando o seu renome e a sua integridade.
E o carpinteiro de Bronx, o olhar marcado de lágrimas, recorda os pequenos episódios da sua existência.
A sua velha humilde de Kamentz; o ideal da fortuna nas terras americanas, a esposa aflita e desventurada e a imagem do filhinho,
brincando nas suas pupilas cheias de pranto, Hauptmann esquece-se então dos seus nervos de aço e da sua serenidade perante as determinações da justiça, e chora convulsivamente, enfrentando os mistérios silenciosos da Morte.
Paira no
seu cérebro a desilusão de todo o esforço diante da fatalidade e, sentindo o escoamento dos seus derradeiros minutos, foge espiritualmente do torvelinho das coisas humanas para se engolfar nas meditações das coisas de Deus.
Suas mãos cansadas tomam a Bíblia do padre Werner e o seu espírito excursiona no labirinto das lembranças.
Ao seu cérebro atormentado voltam as orações aprendidas na infância, quando sua mãe lhe punha na boca os salmos de Davi e o santo nome de Deus.
Depois disso ele viera para o mundo largo, onde os homens se devoram uns aos outros no círculo nefasto das ambições.
Suas preces de menino se perderam como restos de um naufrágio em noite de procela.
Ele não conhecera nenhum apóstolo e jamais lhe mostraram, no turbilhão escuro das lutas humanas, uma figura que se assemelhasse àquele Homem Suave dos Evangelhos; entretanto, nunca como naquela hora, ele sentiu tanto o desejo de ouvir-lhe a palavra sedutora do Sermão da Montanha.
Aos seus ouvidos ecoavam as derradeiras notas daquele cântico de glorificação aos bem-aventurados do mundo, pronunciado num crepúsculo, há dois mil anos, para aqueles que a vida condenou ao infortúnio e uma voz misteriosa lhe segredava aos ouvidos os segredos da cruz, cheia de belezas ignoradas.
Hauptmann toma o capítulo do salmo XXIII e repete com o profeta:
“O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.”.
O relógio da Penitenciária prosseguia, decifrando os enigmas do tempo, e o carrasco já havia chegado para o seu terrível mister.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:52 am

Cinquenta testemunhas ali se conservavam para presenciar a cena do supremo desrespeito pelas vidas humanas.
Médicos, observadores das actividades judiciárias, autoridades e guardas, ali se reuniam para encerrar tragicamente um drama sinistro que emocionou o mundo inteiro.
O condenado, à hora precisa, cabelos raspados a máquina zero e a calça fundida para que a execução não falhasse, entra, calado e sereno, na Câmara da Morte.
Havia no seu rosto um suor pastoso como o dos agonizantes.
Nenhuma sílaba se lhe escapou da garganta silenciosa.
Contemplou calmamente o olhar curioso e angustiado dos que o rodeavam, representando ironicamente o testemunho das leis humanas.
No seu peito não havia o perdão de Cristo para os seus verdugos, mas um vulcão de prantos amargos torturava-lhe o íntimo nos instantes derradeiros; considerando toda inutilidade de acção, diante do Destino e da Dor, deixou-se amarrar à poltrona da morte enquanto os seus olhos tangíveis não viam mais os benefícios alegres da claridade, mergulhando-se nas trevas compactas em que iam entrar.
Elliot imprime o primeiro movimento à roda fatídica, correntes eléctricas anestesiam o cérebro do condenado, e, dentro de quatro minutos, pelo preço mesquinho de alguns centavos, os Estados Unidos da América do Norte exercem a sua justiça, não obstante as dúvidas tremendas que pairam sobre a culpabilidade do homem sobre cuja cabeça recaíram os rigores de suas sentenças.
Muito se tem escrito sobre o doloroso drama de Hopewell.
Os jornais de todo o mundo focalizaram o assunto, e as estações de rádio encheram a atmosfera com as repercussões dessa história emocionante; não é demais, portanto, que “um morto” se interesse por esse processo que apaixonou a opinião pública mundial.
Não para exercer a função de revisor dos erros judiciários, mas para extrair a lição da experiência e o benefício do ensinamento.
As leis penais da América do Norte não possuíam elementos comprobatórios da culpa do Bruno Hauptmann como autor do nefando infanticídio.
Para conduzi-lo à cadeira da morte não se prevaleceu senão dos argumentos dubitativos, inadmissíveis dentro da cultura jurídica dos tempos modernos.
Muitas circunstâncias preponderavam no desenrolar dos acontecimentos, e que não foram tomadas na consideração que lhes era devida.
A história de Isidoro Fisch, a acção de Betty Cow e de Violetta Scharp, a leviandade das acusações de Jafzie Condon e a dúvida profunda empolgando todos os corações que acompanharam, em suas etapas dolorosas, o desdobramento desse processo sinistro.
Mas em tudo isso, nessa tragédia que feriu cruelmente a sensibilidade cristã, há uma justiça pairando mais alto que todas as decisões dos tribunais humanos, somente acessível aos que penetraram o escuro mistério da Vida, no ressurgimento das reencarnações.
Hauptmann sacrificado na sua inocência, Harold Hoffmann com desprestígio político perante a opinião pública do seu país e Lindbergh, herói de um século, ídolo do seu país e um dos homens mais afortunados do mundo, fugindo de sua terra a bordo do “American Importer”, onde quase lhe faltava o conforto mais comezinho, como se fora um criminoso vulgar, são personalidades interpeladas na Terra pela Justiça Suprema.
Nos mundos e nos espaços há uma figura de Argos observando todas as coisas.
No seu tribunal do direito absoluto a Témis divina arquitecta a trama dos destinos de todas as criaturas.
E só nessa Justiça pode a alma guardar a sua esperança, porque o direito humano, quase sempre filho da supremacia da força, é às vezes falho de verdade e de sabedoria.
Dia virá em que a justiça humana compreenderá a extensão do seu erro, condenando um inocente.
As autoridades jurídicas hão de se preparar para a enunciação de uma nova sentença, mas o processo terá subido integralmente para a alçada da equidade suprema.
Debalde os juízes da Terra tentarão restabelecer a realidade dos factos com os recursos de sua tardia argumentação, porque nesse dia, quando Bruno Richard Hauptmann for convocado para o último depoimento em favor do resgate de sua memória, o carpinteiro de Bronx, que os homens electrocutaram, não passará de um punhado de cinzas.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:52 am

18 - A CASA DE ISMAEL
12 de Junho de 1936

A crónica abaixo foi recebida por Chico Xavier na residência do Sr. Manuel Quintão.
Belíssima página de literatura, vem mostrar que o grande pensador brasileiro continua tendo, além-túmulo, a mesma facilidade de expressão e maneja o português com a mesma elegância com que fazia na vida terrena.
Um dia, reunindo o Senhor seus Apóstolos, ao pé das águas claras e alegres do Jordão, descortinou-lhes o panorama imenso do mundo.
Lá estavam as grandes metrópoles, cheias de faustos e grandezas.
Alexandria e Babilónia, junto Roma dos Césares, acendiam na terra o fogo da luxúria e dos pecados.
E Jesus, adivinhando a miséria e o infortúnio do Espírito mergulhado os humanos tormentos, alçou a mão compassiva em direcção à paisagem triste do Planeta, declarando aos discípulos:
“Ide e pregai!
Eu vos envio ao mundo como ovelhas ao meio de lobos, mas não vim senão para curar os doentes e proteger os desgraçados.”
E os Apóstolos partiram, no afã de repartir as dádivas do seu Mestre.
Ainda hoje, afigura-se-nos que a voz consoladora do Cristo mobiliza as almas abnegadas, articulando-as no caminho escabroso da moderna civilização.
Os filhos do sacrifício e da renúncia abrem clareiras divinas no cipoal escuro das descrenças humanas, constituindo exércitos de salvação e de socorro aos homens, que se debatem no naufrágio triste das esperanças; e, se a vida pode cerrar os nossos olhos e restringir a acuidade das nossas percepções, a morte vem descerrar-nos um mundo novo, a fim de que possamos entrever as verdades mais profundas do plano espiritual.
Foi Miguel Couto que exclamou, em um dos seus momentos de amargura, diante da miséria exibida em nossas praças públicas:
“Ai dos pobres do Rio de Janeiro, se não fossem os Espíritas.”
E hoje que a morte reacendeu o lume dos meus olhos, que aí se apagava, nos derradeiros tempos de minha vida, como luz bruxuleante dentro da noite, posso ver a obra maravilhosa dos espíritas, edificada no silêncio da caridade evangélica.
Eu não conhecia somente o Asilo São Luís, que se derrama pela enseada do Caju como uma esteira de pombais claros e tranquilos, onde a velhice desamparada encontra remanso de paz, no seio das tempestades e das dolorosas experiências do mundo, como realização da piedade pública, aliada à propaganda das ideias católicas.
Conhecia, igualmente, o Abrigo Teresa de Jesus, o Amparo Teresa Cristina e outras casas de protecção aos pobres e desafortunados do Rio de Janeiro, que um grupo de criaturas abnegadas do proselitismo espírita havia edificado.
Mas, meu coração, que as dores haviam esmagado, trucidando todas as suas aspirações e todas as suas esperanças, não podia entender a vibração construtora da fé dos meus patrícios, que Xavier de Oliveira tachara de loucos no seu estudo mal--avisado do Espiritismo no Brasil.
A verdade hoje é para mim mais profunda e mais clara. Meu olhar percuciente de desencarnado pode alcançar o fundo das coisas, e a realidade é que a organização das consoladoras doutrinas dos Espíritos, no Brasil, não está formada à revelia da vontade soberana, do amor e da justiça que nos presidem aos destinos.
Obra estreme da direcção especializada dos homens, é no Alto que se processam as suas bases e as suas directrizes.
Por uma estranha coincidência defrontam-se, na Avenida Passos, quase frente a frente, o Tesouro Nacional e a Casa de Ismael1.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:52 am

Tesouros da Terra e do Céu, guardam-se no primeiro as caixas fortes do ouro tangível, ou das suas expressões fiduciárias; e, no segundo, reúnem-se os cofres imortalizados das moedas do Espírito.
De um, parte a corrente fertilizante das economias do povo, objectivando a vitalidade física do país; e, do outro, parte o manancial da água celeste que sacia toda sede, derramando energias espirituais e intensificando o bendito labor da salvação de todas as almas.
A Obra da Federação Espírita Brasileira é a expressão do pensamento imaterial dos seus directores do plano invisível, indene de qualquer influenciação da personalidade dos homens.
Semelhantes àqueles discípulos que partiram para o mundo como o “Sal da Terra”, na feliz expressão do Divino Mestre, os seus administradores são intérpretes de um ditame superior, quando alheados de sua vontade individual para servir ao programa de amor e de fé ao qual se propuseram.
O roteiro de sua marcha é conhecido e analisado no mundo das verdades do espírito e a sua orientação nasce da fonte das realidades superiores e eternas, não obstante todas as incompreensões e todos os combates.
A história da Casa de Ismael nos espaços está cheia de exemplos edificantes de sacrifícios e dedicações.
Se Augusto Comte. afirmou que os vivos são cada vez mais governados pelos mortos, nas intuições do seu positivismo, nada mais fez que reflectir a mais sadia de todas as verdades.
A Federação que guarda consigo as primícias de sede do Tesouro espiritual da terra de Santa Cruz não está de pé somente à custa do esforço dos homens, que por maior que ele seja será sempre caracterizado pelas fragilidades e pelas fraquezas.
Muitos dos seus sempre directores desencarnados aí se conservam como aliados do exército da salvação que ali se reúne.
Ainda há poucos dias, enquanto a Avenida fervilhava de movimento, vi às suas portas uma figura singela e simpática de velhinho, pronto para esclarecer e abençoar com as suas experiências.
- Conhece-o? - disse-me alguém rente aos ouvidos.
- Pedro Richard...
Nesse ínterim passa um companheiro da humanidade, cheio de instintos perversos que a morte não conseguiu converter à piedade e ao amor fraterno.
E Pedro Richard abre os seus braços paternais para a entidade cruel.
- Irmão, não queres a bênção de Jesus?
Entra comigo ao seu banquete!...
Por quê? - replica-lhe o infeliz, transbordando perversidade e zombaria - eu sou ladrão e bandido, não pertenço à sociedade do teu Mestre.
- Mas não sabes que Jesus salvou Dimas, apesar de suas atrocidades, levando em consideração o arrependimento de suas culpas? - diz-lhe o velhinho com um sorriso fraterno.
- Eu sou o mau ladrão, Pedro Richard.
Para mim não há perdão nem paraíso...
Mas o irmão dos infe1izes abraça em plena rua movimentada o leproso moral e me diz suavemente aos ouvidos :
- Jesus salvou o bom ladrão e Maria salvou o outro...
E o que eu vi foi uma lágrima suave e clara rolando na face do pecador arrependido.
Senhor, eu não estive aí no mundo na companhia dos teu a servos abnegados e nem comunguei à mesa de Ismael onde se guarda o sangue do teu sangue e a carne da tua carne que constituem a essência de luz da tua doutrina.
Eu não te vi senão com Tomé, na sua indiferença e na sua amargura, e como os teus discípulos no caminho de Emaús, com os olhos enevoados pelas neblinas da noite; todavia podia ver-te na tua casa, onde se recebe a água divina da fé portadora de todo o amor, de toda a crença e de toda esperança.
Mas não é tarde, Senhor!...
Desdobra sobre o meu espírito a luz da tua misericórdia e deixa que desabrochem ainda agora, no meu coração de pecador, as açucenas perfumadas do teu perdão e da tua piedade para que eu seja incorporado às falanges radiosas que operam na sua casa, exibindo com o meu esforço de espírito a mais clara e a mais sublime de todas as profissões de fé.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:52 am

19- CARTA A MARIA LACERDA DE MOURA
24 de Julho de 1936

É para você, Maria Lacerda, que envio hoje o meu pensamento de espírito.
Tarefa excessivamente arriscada essa de dirigir-se um morto aos literatos da Terra, quase sempre dobrados às injunções de ordem política e social.
É verdade que Berilo Neves, o ano passado, teve a precisa coragem de se referir, na Associação Brasileira de imprensa, às minhas mensagens póstumas; mas, você, na serenidade do seu ânimo e na incorruptibilidade do seu carácter, pode entender o meu pensamento e ouvir a minha voz.
Não sou estranho às suas actividades e aos seus estudos, no plano das investigações espiritualistas.
Saturada de sociologia, você reconhece agora, como eu, nos derradeiros anos de minha peregrinação pela Terra, a possibilidade remota de se concertar o edifício esburacado dos costumes humanos, dentro de uma civilização de barbaria, onde a moral cai aos pedaços e, voltando a sua atenção para o mundo invisível, você conversa com as sombras, tornando-se a confidente abençoada dos mortos.
Seu olhar, acostumado às assembleias saletas das grandes cidades sul-americanas, passeia agora, às vezes, no império do silêncio dos que já partiram do mundo, onde o seu juízo crítico vai buscar um motivo novo para falar caridosamente, acordando os homens.
Quis ainda você construir o seu novo ninho junto das catacumbas e dos salgueiros e, desse calado retiro, estende-se o seu pensamento para o mistério da noite, povoada de sonhos e de constelações.
Os pensadores, Maria Lacerda, são impotentes para salvar o mundo da desgraça em que ele próprio submergiu.
A confusão tem de se processar, para que se destrua o edifício milenar dos hábitos e dos preconceitos de toda ordem.
Uma nova vida terá de florescer sobre os alicerces da morte.
Todos os que lutaram e os que se encontram lutando ainda pelo esclarecimento da colectividade são frutos extemporâneos da civilização do futuro.
Eles oferecem um roteiro de liberdades fulgurantes; mas, em torno do homem contemporâneo respira-se ainda uma atmosfera terrível de destruição.
Há vários decénios, luta-se teoricamente para que um novo estado de coisas se estabeleça no mundo.
Clama-se por leis económicas que regulem nos países a distribuição do necessário e queimam-se produtos, em quase todas as regiões do planeta, objectivando o cumprimento de absurdas determinações da política do isolamento.
A palavra dos Kropotkine soa em vão, conclamando os espíritos de boa vontade.
Mussolini assina um programa socialista nos primórdios da sua carreira política, escondendo a pretensão exclusiva de conquistar um império.
O presidente pacifista dos Estados Unidos idealiza a organização da paz internacional de Genebra, de cujas actividades o seu pais não compartilha.
O Japão fala de seus direitos de nacionalidade, avançando sobre os territórios da China.
A Rússia instigue o comunismo, entendendo-se optimamente com todas as potências capitalistas.
De Roma, que se diz piedosa e cristã, saem as hordas de conquistadores para a mais absurda das guerras.
A Alemanha hitlerista expulsa Einstein, dentro de suas preocupações de racismo.
Nas repúblicas sul americanas, há o movimento de comércio com a Internacional Armamentista.
Na Inglaterra, o “Inteligente Serviço” fomenta o dissídio e a discórdia, nas suas cogitações imperialistas.
A Espanha, embriaga-se no desvairamento da guerra civil.
Em toda parte, bebe-se um vinho de ruína e de morte e, entre os homens atordoados, sopra um furacão maligno de arrasamentos.
Os sociólogos vêem as suas actividades circunscritas ao castelo maravilhoso das palavras, porque os homens estão entregues ao seu infortunado destino.
Não valeu o esforço dos espíritos avançados na solução das incógnitas científicas, porquanto todas as descobertas destes últimos tempos são brinquedos terríveis na mente infantil dessa civilização que se desenvolveu sem a educação individual.
A verdade é que o homem está vivendo para destruir o homem.
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Ave sem Ninho

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:53 am

Um dos pensadores modernos contemplando o aspecto doloroso da actualidade, concluía tristemente que, se o homem contemporâneo considera natural o extermínio de mulheres e de crianças, nos últimos movimentos bélicos do planeta, não será extraordinário, daqui a alguns anos, que os homens se devorem uns aos outros.
De facto, a criatura humana parece regredir á, noite escura e misteriosa das suas origens.
Todavia, o estudo psicológico dessa situação nos conduz a muitas reflexões sobre as suas causas profundas e concluímos que os homens atuais são mais infelizes que perversos.
O que se intensificou em toda parte da Terra, arruinando os sectores da actividade humana, foi aquela crise espiritual a que Gandhi se refere em suas exortações.
O Ocidente poderia salvar-se, conservando o equilíbrio do mundo, se o Cristianismo, em sua simplicidade e sua pureza, não fosse deturpado pelas igrejas mercenárias.
A moral cristã teria fatalmente de evoluir para a simplificação suprema da vida, se os religiosos não a tivessem asfixiado no cárcere estreito de suas cogitações político-sociais.
E o resultado de tão nefastos empreendimentos é a actualidade dos homens, inçada de morticínios e crivada de dores.
Contudo, há uma providência misericordiosa acompanhando os surtos evolutivos da Terra, e, na hora justa dos abalos sociais de toda natureza, os túmulos se enchem de vozes e de revelações consoladoras, realizando profecias...
Fascismo, ditaduras para o proletariado, falsas democracias terão de desaparecer nos fragores da luta, para que a política espiritualista inaugure o direito novo, a lei nova, os controladores de todos os fenómenos da economia dos povos. O homem compreendera então a necessidade de um imperativo de paz, solidário com o progresso espiritual dos outros mundos.
É objectivando a construção do edifício da concórdia universal sobre a base da educação de cada personalidade e de leis económicas que façam desaparecer para sempre o quadro doloroso da miséria e da fome, que os mortos voltam para falar aos encarnados, no turbilhão escuro de suas vidas.
Num dos seus últimos artigos na imprensa de Paris, Maurício Maeterlinck considerava erroneamente — “Estes mortos que sobrevivem parecem bem fracos, bem precários e bem miseráveis.
Lembram os fantasmas vaporosos, arrebatados pelos turbilhões no inferno do grande poeta florentino.
Preguiçosos, desamparados, exangues, nada mais tendo a fazer, não persistem eles senão á escuta de uma voz da Terra?
É essa a prova de sua sobrevivência e, se sobrevivem realmente, não poderão realizar outra coisa? Recomeçam a viver ou acabam de morrer?”.
Maeterlink, porém, não conseguiu uma visão exacta das actividades dos que já partiram das fadigas da luta material.
Dentro das preocupações do high-life, não viu a multidão das criaturas consoladas pela confortadora Doutrina dos Espíritos e nem logrou compreende que os mortos não podiam começar por onde os vivos acabaram.
Os homens terminaram sua luta na organização exclusivista, na ciência presunçosa e na suposta infalibilidade.
Mas, os mortos iniciam a sua cruzada junto dos que sofrem e dos que raciocinam.
E, de você, Maria Lacerda, que vive espiritualmente na vanguarda dos tempos, nós esperamos um grande coeficiente de forças em favor do nosso triunfo na alma das massas.
A sua acurada percepção pode reconhecer a vigorosa andaimaria do edifício do porvir, pois não está longe o dia em que os homens se cansarão de lutar uns com os outros, espalhando a miséria e o extermínio.
Os lobos famintos da civilização armamentista ficarão sob os escombros fumegantes de suas grandezas e a alma cristã cantará a glória dos pacíficos e dos bem aventurados.
Você, Maria Lacerda, tem muito que fazer.
Decuplique as suas energias e as suas esperanças...
A sua palavra é a da rainha de Halicarnasso.
Reúna com o seu esforço todos os guerreiros inactivos e vamos lutar.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:53 am

20 - PEDRO, O APÓSTOLO
25 de agosto de 1936

Enquanto a Capital dos mineiros, dirigida pelos seus elementos eclesiásticos, se prepara, esperando as grandes manifestações de fé do segundo Congresso Eucarístico Nacional, chegam os turistas elegantes e os peregrinos invisíveis.
Também eu quis conhecer de perto as actividades religiosas dos conterrâneos de Augusto de Lima.
Na Praça Raul Soares, espaçosa e ornamentada, vi o monumento dos congressistas, elevando-se em forma de altar, onde os altos religiosos serão celebrados.
No topo, a custódia, rodeada de arcanjos petrificados, guardando o símbolo suave e branco da eucaristia, e, cá em baixo, nas linhas irregulares da terra, as acomodações largas e fartas, de onde o povo assistirá, comovido, às manifestações de Minas católica.
Foi nesse ambiente que a figura de um homem trajado à israelita, lembrando alguns tipos que em Jerusalém se dirigem, frequentemente, para o lugar sagrado das lamentações, aguçou a minha curiosidade incorrigível de jornalista.
- Um judeu?! - exclamei, aguardando as novidades de uma entrevista.
- Sim, fui judeu, há algumas centenas de anos - respondeu laconicamente o interpelado.
Sua réplica exaltou a minha bisbilhotice e procurei atrair a atenção da singular personagem.
- Vosso nome? - continuei.
- Simão Pedro.
- O Apóstolo?
E a veneranda figura respondeu afirmativamente, colando ao peito os cabelos respeitáveis da barba encanecida.
Surpreso e sedento da sua palavra, contemplei aquela figura hebraica, cheia de simplicidade e simpatia.
Ao meu cérebro afluíam centenas de perguntas, sem que pudesse coordená-las devidamente.
- Mestre - disse-lhe, por fim -, Vossa palavra tem para o mundo um valor inestimável.
A cristandade nunca vos julgou acessível na face da Terra, acreditando que vos conserváveis no Céu, de cujas portas resplandecentes guardáveis a chave maravilhosa.
Não teríeis algumas mensagens do Senhor para transmitir à Humanidade, neste momento angustioso que as criaturas estão vivendo?
E o Apóstolo venerável, dentro da sua expressão resignada e humilde, começou a falar:
- Ignoro a razão por que revestiram a minha figura, na Terra, de semelhantes honrarias.
Como homem, não fui mais que um obscuro pescador da Galileia e, como discípulo do Divino Mestre, não tive a fé necessária nos momentos oportunos.
O Senhor não poderia, portanto, conferir-me privilégios, quando amava todos os seus apóstolos com igual amor.
- É conhecida, na história das origens do Cristianismo, a vossa desinteligência com Paulo de Tarso.
Tudo isso é verdadeiro?
- De alguma forma, tudo isso é verdade - declarou bondosamente o Apóstolo.
Mas, Paulo tinha razão.
Sua palavra enérgica evitou que se criasse uma aristocracia injustificável, que, sem ele, teria que desenvolver-se fatalmente entre os amigos de Jesus, que se haviam retirado de Jerusalém para as regiões da Batanéia.
- Nada desejais dizer ao mundo sobre a autenticidade dos Evangelhos?
- Expressão autêntica da biografia e dos actos do Divino Mestre, não seria possível acrescentar qualquer coisa a esse livro sagrado.
Muita iniquidade se tem verificado no mundo em nome do estatuto divino, quando todas as hipocrisias e injustiças estão nele sumariamente condenadas.
- E no capítulo dos milagres?
- Não é propriamente milagre o que caracterizou as acções práticas do Senhor.
Todos os seus actos foram resultantes do seu imenso poder espiritual.
Todas as obras a que se referem os Evangelistas são profundamente verdadeiras.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:53 am

E, como quem retrocede no tempo, o Apóstolo monologou:
- Em Cafarnaum, perto de Genesaré, e em Betsaida, muitas vezes acompanhei o Senhor nas suas abençoadas peregrinações.
Na Samaria, ao lado de Cesareia de Felipe, vi suas mãos carinhosas dar vistas aos cegos e consolação aos desesperados.
Aquele sol claro e ardente da Galileia ainda hoje ilumina toda a minha alma e, tantos séculos depois de minhas lutas no mundo, ao lado de alguns companheiros procuro reivindicar para os homens a vida perfeita do Cristianismo, com o advento do Reino de Deus, que Jesus desejou fundar, com o seu exemplo, em cada coração...
- Os filósofos terrenos são quase unânimes em afirmar que o Cristo não conhecia a evolução da ciência grega, naquela época, e que as suas parábolas fazem supor a sua ignorância acerca da organização política do Império Romano:
seus apóstolos falam de reis e príncipes que não poderiam ter existido.
- A acção do Cristo - retrucou o Apóstolo - vai mais além que todas as actividades e investigações das filosofias humanas.
Cada século que passa imprime um brilho novo à sua figura e um novo fulgor ao seu ensinamento.
Ele não foi alheio aos trabalhos do pensamento dos seus contemporâneos.
Naquele tempo, as teorias de Lucrécio, expandidas alguns anos antes da obra do Senhor, e as lições de Filon em Alexandria, eram muito inferiores às verdades celestes que Ele vinha trazer à Humanidade atormentada e sofredora...
E, quando a figura venerada de Simão parecia prestes a prosseguir na sua jornada, inquiri, abruptamente:
- Qual o vosso objectivo, actualmente, no Brasil?
- Venho visitar a obra do Evangelho aqui instituída por Ismael, filho de Abraão e de Agar, e dirigida dos espaços por abnegados apóstolos da fraternidade cristã.
- E estais igualmente associado às festas do segundo Congresso Eucarístico Nacional? - perguntei.
Mas, o bondoso Apóstolo expressou uma atitude de profunda incompreensão, ao ouvir as minhas derradeiras palavras.
Foi quando, então, lhe mostrei o rico monumento festivo, as igrejas enfeitadas de ouro, os movimentos de recepção aos prelados, exclamando ele, afinal:
- Não, meu filho!...
Esperam-me longe destas ostentações mentirosas os humildes e os desconsolados.
O Reino de Deus ainda é a promessa para todos os pobres e para todos os aflitos da Terra.
A Igreja romana, cujo chefe se diz possuidor de um trono que me pertence, está condenada no próprio Evangelho, com todas as suas grandezas bem tristes e bem miseráveis.
A cadeira de São Pedro é para mim uma ironia muito amarga...
Nestes templos faustosos não há lugares para Jesus, nem para os seus continuadores...
- E que sugeris, Mestre, para esclarecer a verdade?
Mas, nesse momento, o Apóstolo venerando enviou-me um gesto compassivo e piedoso, continuando o seu caminho, depois de amarrar, resignadamente, o cordão das sandálias.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:53 am

21 - O GRANDE MISSIONÁRIO
28 de setembro de 1936

Como as demais criaturas terrenas, o grande missionário de Lião, que se chamou Hippoly te Rivail, ou Allan Kardec, foi catalogado, em 3 de outubro de 1804, nas estatísticas humanas, retomando um organismo de carne para cumprimento de sua maravilhosa tarefa.
Cento e trinta e dois anos são passados sobre o acontecido e o apóstolo francês é lembrado, carinhosamente, na memória dos homens.
Professor dedicado ao seu grandioso ideal de edificar as almas, discípulo eminente de Pestalozzi, Allan Kardec trazia, desde o início de sua mocidade, a paixão pelas utilidades das coisas do espírito.
Suas obras didácticas estão cheias de amor a esse apostolado.
Até depois de 50 anos, sua palavra confortadora e sábia dirigiu-se às escolas, seus fosfatos foram consumidos nos mais nobres labores do intelecto, em favor da formação da juventude; suas mãos de benfeitor edificaram o espírito da infância e da mocidade de sua pátria.
Sua vida de homem está repleta de grandes renúncias e sublimes dedicações.
Nunca os insultos e as acções dos traidores lhe entibiaram o ânimo de soldado do bem.
Os espíritos das estradas do mundo não lhe trucidaram o coração temperado no aço da energia espiritual e no ouro das convicções sadias que lhe povoaram toda a existência.
Recordando a beleza perfeita dos planos intangíveis, que vinha de deixar para cumprir na Terra a mais elevada das obrigações de um missionário, sob as vistas amoráveis de Jesus, Allan Kardec fez da sua vida um edifício de exemplos enobrecedores, esperando sempre a ordem do Mestre Divino para que suas mãos intrépidas tomassem a charrua das acções construtoras e edificantes.
Só depois de 50 anos sua personalidade adquiriu a precisa preponderância e sua actividade, o desdobramento necessário, prestigiando-se a sua tarefa na codificação do Espiritismo, que vinha trazer à humanidade uma nova luz para a solução do amargo problema do destino e da dor.
Ninguém como ele compreendeu tanto a necessidade da intervenção das forças celestes para que as conquistas do pensamento humano, sintetizado no surto das civilizações, não se perdessem na noite dos materialismos dissolventes.
Ele sentiu, reflectindo as poderosas vibrações do Alto, que os seus contemporâneos preparavam a extinção de toda a crença e de toda a esperança que deveriam fortalecer o espírito humano, nas dolorosas transições do século XX.
As especulações filosóficas e científicas de Comte, Virchow, Büchner e Moleschot, aliadas ao sibaritismo dos religiosos, teriam eliminado fatalmente a fé da Humanidade no seu glorioso porvir espiritual, em todos os sectores da civilização do Ocidente, se o missionário de Lião não viesse trazer aos homens a cooperação da sua renúncia e dos seus abençoados sacrifícios.
Quando Jesus desceu um dia à Terra para oferecer às criaturas a dádiva da sua vida e do seu amor, seus passos foram precedidos pelos de João Batista, que aceitara a dolorosa tarefa de precursor, experimentando todos os martírios no deserto.
O Consolador prometido à Terra pelo coração misericordioso do Divino Mestre, e que é o Espiritismo, teve o sacrifício de Allan Kardec - o precursor da sua gloriosa disseminação no peito atormentado das criaturas humanas.
Seu retiro não foi a terra brava e estéril da Judeia, mas o deserto de sentimentos das cidades tumultuosas; no burburinho das actividades dos homens, no turbilhão das suas lutas, ele experimentou na alma, muitas vezes, o fel do ápodo e do insulto dos malevolentes e dos ingratos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:53 am

Mas, sua obra aí ficou como o roteiro maravilhoso do país abençoado da redenção.
Espíritos eminentes foram ao mapa de suas actividades para conhecerem melhor o caminho.
Flammarion se embriaga no perfume ignorado dessas terras misteriosas do novo conhecimento, descobertas pela sua operosidade de instrumento do Senhor, e apresenta ao mundo as suas novas teorias cosmológicas, enchendo a fria matemática astronómica de singular beleza e suave poesia.
Sua obra - “Lês Forces Naturelles Inconnues” é um caminho aberto às indagações científicas que teriam mais tarde, com Reichet, amplos desenvolvimentos.
Gabriel Delanne e Leon Denis se inflamam de entusiasmo diante das obras do mestre e ensaiam a filosofia espiritualista, inaugurando uma nova época para o pensamento religioso, alargando as perspectivas infinitas da ciência universal.
E, desde os meados do século que passou, a figura de Kardec se eleva cada vez mais no conceito dos homens.
O interesse do mundo pela sua obra pode ser conhecido pelo número de edições de seus livros, e, na hora que passa, cheia de nuvens nos horizontes da Terra e de amargas apreensões no seio de suas criaturas, nenhuma homenagem há, mais justa e mais merecida, do que essa que se prepara em todos os recantos onde a consoladora doutrina do Espiritismo plantou a sua bandeira, como preito de admiração ao ilustre e benemérito codificador.
O Brasil evangélico deve orgulhar-se das comemorações que levará a efeito, lembrando a personalidade inconfundível do grande missionário francês, porque a obra mais sublime de Allan Kardec foi a reedificação da esperança de todos os infortunados e de todos os infelizes do mundo, no amor de Jesus-Cristo.
Conta-se que logo após a sua desencarnação, quando o corpo ainda não havia baixado ao Père-Lachaise(1) para descansar à sombra do dólmen dos seus valorosos antepassados, uma multidão de Espíritos veio saldar o mestre no limiar do sepulcro. Eram antigos homens do povo, seres infelizes que ele havia consolado e redimido com suas acções prestigiosas, e, quando se entregavam às mais santas expansões afectivas, uma lâmpada maravilhosa caiu do céu sobre a grande assembleia dos humildes, iluminando-a com uma luz que, por sua vez, era formada de expressões do seu “Evangelho segundo o Espiritismo”, ao mesmo tempo em que uma voz poderosa e suave dizia do Infinito:
- “Kardec, regozija-te com a tua obra!
A luz que acendeste com os teus sacrifícios na estrada escura das descrenças humanas vem felicitar-te nos pórticos misteriosos da Imortalidade...
O mel suave da esperança e da fé que derramaste nos corações sofredores da Terra, reconduzindo-os para a confiança da minha misericórdia, hoje se entorna em tua própria alma, fortificando-te para a claridade maravilhosa do futuro.
No céu estão guardados todos os prantos que choraste e todos os sacrifícios que empreendeste...
Alegra-te no Senhor, pois teus labores não ficaram perdidos.
Tua palavra será uma bênção para os infelizes e desafortunados do mundo, e ao influxo de tuas obras a Terra conhecerá o Evangelho no seu novo dia!...”
Acrescenta-se, então, que grandes legiões de Espíritos eleitos entoaram na Imensidade um hino de hosanas ao homem que organizara as primícias do Consolador para o planeta terreno e que, escoltado pelas multidões de seres agradecidos e felizes, foi o mestre, em demanda das esferas luminosas, receber a nova palavra de Jesus.
Kardec! eu não te conheci e nem te poderia entender na minha condição de homem perverso da Terra, mas recebe, no dia em que o mundo lembra, comovido, a tua presença entre os homens, o preito da minha amizade e da minha admiração.

(1) Pequeno engano do cronista, pois que o corpo foi sepultado primeiramente no Cemitério de Montmartre.
A trasladação dos despojos para o dólmen do Père-Lechaise fez-se um ano depois.
(Nota da Editora - FEB).
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 9:54 am

22 -A LENDA DAS LÁGRIMAS
27 de novembro de 1936

Rezam as lendas bíblicas que o Senhor, após os seis dias de grandes actividades da criação do mundo, arrancado do caos pela sua sabedoria, descansou no sétimo para apreciar a sua obra.
E o Criador via os portentos da Criação, maravilhado de paternal alegria.
Sobre os mares imensos voejavam as aves alegres; nas florestas espessas desabrochavam flores radiantes de perfumes, enquanto as luzes, na imensidade, clarificavam as apoteoses da Natureza, resplandecendo no Infinito, para louvar-lhe a glória e lhe exaltar a grandeza.
Jeová, porém, logo após a queda de Adão e depois de expulsá-lo do Paraíso, a fim de que ele procurasse na Terra o pão de cada dia com o suor do trabalho, recolheu-se entristecido aos seus imensos impérios celestiais, repartindo a sua obra terrena em departamentos diversos, que confiou às potências angélicas.
O Paraíso fechou-se então para a Terra, que se viu insulada no seio do Infinito.
Adão ficou sobre o mundo, com a sua descendência amaldiçoada, longe das belezas do éden perdido, e, no lugar onde se encontravam as grandiosidades divinas, não se viu mais que o vácuo azulado da atmosfera.
E o Senhor, junto dos Serafins, dos Arcanjos e dos Tronos, na sagrada curul da sua misericórdia, esperou que o tempo passasse.
Escoavam-se os anos, até que um dia o Criador convocou os Anjos a que confiara a gestão dos negócios terrestres, os quais lhe deviam apresentar relatórios precisos, acerca dos vários departamentos de suas responsabilidades individuais.
Prepararam-se no Céu festas maravilhosas e alegrias surpreendentes para esse movimento de confraternização das forças divinas e, no dia aprazado, ao som de músicas gloriosas, chegavam ao Paraíso os poderes angélicos encarregados da missão de velar pelo orbe terreno.
O Senhor recebeu-os com a sua bênção, do alto do seu trono bordado de lírios e de estrelas, e, diante da atenção respeitosa de todos os circundantes, falou o Anjo das Luzes:
- “Senhor, todas as claridades que criastes para a Terra continuam reflectindo as bênçãos da vossa misericórdia.
O Sol ilumina os dias terrenos com os resplendores divinos, vitalizando todas as coisas da Natureza e repartindo com elas o seu calor e a sua energia.
Nos crepúsculos, o firmamento recita os seus poemas de estrelas e as noites são ali clarificadas pelos raios ténues e puros dos plenilúnios divinos.
Nas paisagens terrestres, todas as luzes evocam o vosso poder e a vossa misericórdia, enchendo a vida das criaturas de claridades benditas!...”
Deus abençoou o Anjo das Luzes, concedendo-lhe a faculdade de multiplicá-las na face do mundo.
Depois, veio o Anjo da Terra e das Águas, exclamando com alegria:
- “Senhor, sobre o mundo que criastes, a terra continua alimentando fartamente todas as criaturas; todos os reinos da Natureza retiram dela os tesouros sagrados da vida.
E as águas, que parecem constituir o sangue bendito da vossa obra terrena, circulam no seu seio imenso, cantando as vossas glórias incomensuráveis.
Os mares falam com violência, afirmando o vosso poder soberano, e os regatos macios dizem, nos silvedos, da vossa piedade e brandura.
As terras e as águas do mundo são plenas afirmações da vossa magnífica complacência!...”
E o Criador agradeceu as palavras do servidor fiel, abençoando-lhe os trabalhos.
Em seguida, falou, radiante, o Anjo das Árvores e das Flores:
- “Senhor, a missão que concedestes aos vegetais da Terra vem sendo cumpridas com sublime dedicação.
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