CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:47 am

As árvores oferecem sua sombra, seus frutos e utilidades a todas as criaturas, como braços misericordiosos do vosso amor paternal, estendidos sobre o solo do Planeta.
Quando maltratadas, sabem ocultar suas angústias, prestando sempre, com abnegação e nobreza, o concurso da sua bondade à existência dos homens.
Algumas, como sândalo, quando dilaceradas, deixam extravasar de suas feridas taças invisíveis de aroma, balsamizando o ambiente em que nasceram...
E as flores, meu Pai, são piedosas demonstrações das belezas celestiais nos tapetes verdoengos da Terra inteira.
Seus perfumes falam, em todos os momentos, da vossa magnanimidade e sabedoria...”
E o Senhor, das culminâncias do seu trono radioso, abençoou o servo fiel, facultando-lhe o poder de multiplicar a beleza e as utilidades das árvores e das flores terrestres.
Logo após, falou o Anjo dos Animais, apresentando a Deus um relato sincero, a respeito da vidas dos seus subordinados:
- “Os animais terrestres, Senhor, sabem respeitar as vossas leis, acatara vossa vontade.
Todos vivem em harmonia com as disposições naturais da existência que a vossa sabedoria lhes traçou.
Não abusam de suas faculdades procriadoras e têm uma época própria para o desempenho dessas funções, consoante aos vossos desejos.
Todos têm a sua missão de cumprir e alguns deles se colocaram, abnegadamente, ao lado do homem, para substituí-lo nos mais penosos misteres, ajudando-o a conservar a saúde e a buscar no trabalho o pão de cada dia.
As aves, Senhor, são turíbulos alados, incensando, do altar da natureza terrestre, o vosso trono celestial, cantando as vossas grandezas ilimitadas.
Elas se revezam, constantemente, para vos prestarem essa homenagem de submissão e de amor, e, enquanto algumas cantam durante as horas do dia, outras se reservam para as horas da noite, de modo a glorificarem incessantemente as belezas admiráveis da Criação, louvando- se a sabedoria do seu Autor Inimitável!...”
E Deus, com um sorriso de júbilo paternal, derramou sobre o dedicado mensageiro as vibrações do seu divino agradecimento.
Foi quando, então, chegou a vez da palavra do Anjo dos Homens.
Taciturno e entre angústias, provocando a admiração dos demais, pela sua consternação e pela sua tristeza, exclamou compungidamente:
- “Senhor!... ai de mim! enquanto meus companheiros vos podem falar da grandeza com que são executados os vossos decretos na face do mundo, pelos outros elementos da Criação, não posso afirmar o mesmo dos homens...
A descendência de Adão se perde num labirinto de lutas criado por ela mesma.
Dentro das possibilidades do seu livre-arbítrio, é engenhosa e subtil, a inventar todos os motivos para a sua perdição.
Os homens já criaram toda sorte de dificuldades, desvios e confusões para a sua vida na Terra.
Inventaram, ali, a chamada propriedade sobre os bens que vos pertencem inteiramente, e dão curso a uma vida abominável de egoísmo e ambição pelo domínio e pela posse; toda a Terra está dividida indebitamente, e as criaturas humanas se entregam à tarefa absurda da destruição das vossas leis grandiosas e eternas.
Segundo o que observo no mundo, não tardará que surjam os movimentos homicidas entre as criaturas, tal a extensão das ânsias incontidas de conquistar e possuir...”
O Anjo dos Homens, todavia, não conseguiu continuar.
Convulsivos soluços embargaram-lhe a voz; mas o Senhor, embora amargurado e entristecido, desceu generosamente do sólio de magnificências divinas e, tomando-lhe as mãos, exclamou com bondade:
- “A descendência de Adão ainda se lembra de mim?
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:47 am

- Não, Senhor!...
Desgraçadamente os homens vos esqueceram... - murmurou o Anjo com amargura.
- Pois bem - replicou o Senhor paternalmente -, essa situação será remediada!...”
E, alçando as mão generosas, fez nascer, ali mesmo no Céu, um curso de águas cristalinas e, enchendo um cântaro com essas pérolas liquefeitas, entregou-a a seu último servidor, exclamando:
- “Volta à Terra e derrama no coração de seus filhos este licor celeste, a que chamarás água das lágrimas...
Seu gosto tem ressaibos de fel, mas esse elemento terá a propriedade de fazer que os homens me recordem, lembrando-se da minha misericórdia paternal...
Se eles sofrem e se desesperam pela posse efémera das coisas atinentes à vida terrestre, é porque me esqueceram, olvidando a sua origem divina.”
E desde esse dia o Anjo dos Homens derrama na alma atormentada e aflita da Humanidade a água bendita das Lágrimas remissoras; e desde essa hora, cada criatura humana, no momento dos seus prantos e das suas amarguras, nas dificuldades e nos espinhos do mundo, recorda, instintivamente, a paternidade de Deus e as alvoradas divinas da vida espiritual.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:47 am

23 - CARTA ABERTA AO SR. PREFEITO DO RIO DE JANEIRO
18 de dezembro de 1936

Sr. Prefeito do Distrito Federal. Dirijo-me a V. Exª. para ponderar um dos últimos actos de sua administração na velha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, não obstante as minhas condições de jornalista desencarnado, e apesar do estado de guerra vigente no país.
Todavia, declinando essas circunstâncias, devo confessar, em defesa de meu gesto, que minha palavra humilde não visa a nenhum intuito político ou social do Brasil, para fixar-se somente na questão da humanidade.
É verdade inconteste que V Exª. se torna duplamente respeitável, não só pela sua condição de autoridade suprema de uma cidade em que palpitam seguramente dois milhões de corações humanos, senão também pela sua qualidade de sacerdote, e é talvez por isso que a minha ponderação se faz um tanto mais grave.
Não lhe venho falar dos inquéritos administrativos nos departamentos públicos, afectos à sua autoridade, e sim dizer-lhe do seu acto pessoal, opondo o veto à subvenção de cinquenta contos, concedida pelos seus antecessores ao Abrigo Teresa de Jesus, instituição venerável que um punhado de espiritistas abnegados fundou no Rio, há alguns anos, e que todos os cariocas se habituaram a admirar, com o seu apoio e com o seu respeito.
A atitude de V. Exª. é estranhável, não só em face da sua condição de ministro da Igreja Católica, como pelo seu conhecimento acerca das misérias da nossa urbe, que os apaixonados do samba brasileiro apelidaram de cidade maravilhosa.
Cinquenta contos, Sr. Prefeito, como subvenção a uma instituição dessa natureza, que já conseguiu afastar os antros viciosos algumas centenas de criaturas, infundindo-lhes a noção do dever social, cívico e humano, modelando heróis para os combates com as adversidades terrenas, representa uma percentagem muito mesquinha, em face das verbas despendidas com as obras sumptuárias dos serviços públicos.
Antes de regressar desse mundo, onde perdi todas as ilusões e todas as esperanças, com respeito à objectivação de uma sociedade organizada na base dos verdadeiros interesses cristãos, muitas vezes deixei escapar do peito dilacerado o meu grito de dor pela nossa infância desvalida.
Enquanto os governos instituíam as mais grossas subvenções para as festas carnavalescas e para a propaganda turística do Brasil no estrangeiro, via eu as nossas crianças desamparadas, doentes e esqueléticas, estendendo a mão mirrada à piedade das praças públicas.
Se as dores não me viessem sufocar tão cedo os sagrados entusiasmos do coração, teria objectivado um largo movimento intelectual, em favor da instituição do livro e do pão para o menino dos nossos morros, onde com as vozes inocentes do samba se misturam os gemidos de todas as misérias.
Veja pois, Excelência, a necessidade de se subvencionarem, e largamente, todas as iniciativas sociais que se organizem para proteger a criança desamparada, que virá a ser o homem de amanhã.
Nesses tempos de negro materialismo, que parece invadir todos os institutos criados com o rótulo da civilização cristã, as autoridades legalmente constituídas têm de colocar os interesses humanos acima de todos os preconceitos sociais e religiosos.
Seu coração de administrador e de cristão possui vasta experiência desses assuntos, sendo desnecessário que a minha palavra lhe encareça a inoportunidade do seu veto pessoal a esse auxílio financeiro à instituição referida, que é um admirável
núcleo cultural do Rio de Janeiro, onde se criam as células sadias do organismo colectivo de amanhã.
V. Exª. Não ignora que todas as questões transcendentes, apresentadas como insolúveis às vistas dos sociólogos modernos, complicando o mecanismo da vida dos povos, são de natureza educativa.
Os problemas brasileiros são quase todos dessa ordem.
Bem sabe que, mesmo em nossa história, existem páginas que implicam em si a veracidade do que afirmamos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:48 am

Não se lembra da luta armada de Canudos, onde pereceram tantas energias da mocidade brasileira?
O resultado dessa campanha seria outro, se, em vez da primeira expedição militar, mandássemos para ali uma dúzia de professores.
As armas a serem detonadas naquele ambiente sertanejo deveriam ser as do alfabeto, como asseverava o nosso Euclides.
O banditismo do Nordeste, as falanges de “Lampião”, as multidões místicas e delinquentes que, de vez em quando, surgem no quadro mesológico da nossa evolução colectiva, são problemas do livro e nada mais.
Desejaria, pois, o Sr. Prefeito do Distrito Federal absorver-se no partido político, nas intrigas de gabinete, nas homenagens dos louvaminheiros da autoridade pública, esquecendo-se da parte mais importante de suas atribuições, junto à colectividade do seu país?
Não acreditamos, igualmente, que o seu ato seja o fruto de uma represália à atitude desassombrada de criaturas estudiosas, que tentam elucidar as questões da Igreja Católica, da qual é um dedicado servidor.
A luta é de princípios e não de personalidades; e esse combate ideológico é indispensável, nos bastidores em que se processa a evolução das consciências e das doutrinas.
E para todos os combatentes, irmanados no mesmo idealismo do Evangelho, deverá existir, indubitavelmente, um traço de união acima de todas as polémicas e de todas as controvérsias, que é o da fraternidade do Cristo.
Um homem ou uma instituição podem crescer no conceito das colectividades pelas suas conquistas, pelos seus poderes transitórios, pela sua fortuna, mas serão sempre assinalados pela ilusão, se lhes faltarem os princípios humanos da caridade.
Conta-se aqui, Sr. Prefeito, que um dia quis o Senhor reunir sob os seus olhos todos os sábios que chegavam da Terra.
Teólogos eminentes, filósofos, artistas do pensamento e da acção, matemáticos, geómetras e literatos ilustres.
- “Senhor - dizia um deles -, eu ampliei a técnica dos homens, no problemas das ciências...”
- “Eu - repetia outro - procurei imprimir uma fase nova às letras do mundo...”
- “Minha vida, Senhor - exclamava ainda outro -, foi toda empregada no laboratório, em favor da Humanidade...”
Mas o Senhor replicou-lhes na sua misericórdia:
- “Todas as vossas ciências são respeitáveis, mas valerão muito pouco se não tivestes caridade.
Toda sabedoria, sem a bondade, é como luz que não aquece, ou como flor que não perfuma...
A questão da felicidade humana está claramente resolvida na prática do meu Evangelho, como a solução algébrica define os vossos problemas de matemática.
O Reino do Céu ainda é a mansão prometida aos simples e pobres da Terra, que vêm a mim isentos de soberba e de vaidade!...”
Aqui, Sr. Prefeito, não se mede o espírito pela posição que haja ocupado no mundo.
A indumentária nada representa para as leis sábias e justas da espiritualidade.
Não obstantes os seus conhecimentos teológicos, não se esqueça que os manuais dos santos são compêndios de teorias da Terra.
A prática é bem outra e é desta que voltamos para lhe falar dos argumentos mais firmes.
Aproveite a oportunidade que Jesus lhe colocou em mãos e reconsidere seu acto, reparando-o. sua memória será então abençoada pela infância brasileira, votada ao desamparo pelos nossos políticos, que cuidam durante a vida
inteira dos seus interesses e dos seus eleitorados.
E um dia, quando não for mais o Sr. Prefeito Municipal e sim o nosso irmão Olímpio, seu coração há de sentir, nos mais recônditos refolhos, a suavidade das mãos veludosas do Jardineiro Divino, plantando os lírios perfumados da paz nas profundezas do seu mundo íntimo.
E, quando essas flores destilarem nos seus olhos o aroma bendito das lágrimas de gratidão e reconhecimento, uma voz branda e suave murmurará aos seus ouvidos:
- “Guarda, meu filho, a minha recompensa.
Regozija-te no Senhor, pois que foste meu servo e tiveste caridade!...”
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:48 am

24 - A PAZ E A VERDADE
2 de janeiro de 1937

Os grandes Espíritos, que sob a tutela amorosa de Jesus dirigem os destinos da Humanidade, reuniram-se há pouco tempo, nos planos da erraticidade, para discutirem o método de se estabelecer o Génio da Paz na face da Terra.
A essa assembleia de sábios das coisas espirituais e divinas, compareceram anciãos da sociedade de Marte, estudiosos de Saturno, cientistas e apóstolos de Júpiter e outros representantes da vida do nosso sistema solar.
Estudaram, reunidos, todos os séculos passados, esmerilhando a antiguidade egípcia, as eras clássicas, o império romano, o advento do Cristianismo, os tempos apostólicos, a Idade Média, a Revolução Francesa, o progresso científico
e filosófico do século XIX e a última experiência dolorosa das criaturas humanas, em 1914, concluindo que, depois de tantas lições sábias e justas, a humanidade terrestre estaria preparada para receber em seu seio o Génio da Paz, edificando-lhe um templo no coração atormentado e sofredor.
E os mentores dos destinos humanos deliberaram aceitar unanimemente essa hipótese, marcando, porém, um dia para nova reunião colectiva, a fim de ouvirem o Mensageiro da Paz, que partiria com a tarefa de investigar todos os elementos ao seu alcance, para a consecução desse grandioso projecto.
E o mensageiro partiu.
Deixava os seus penates celestes cheios de harmonias e de carícias maravilhosas.
O sistema solar era todo uma lira de luz, desferindo um cântico de glorificação a Deus no infinito dos espaços:
Saturno com as suas luas e com os seus anéis rutilantes, Marte com os seus satélites graciosos, Vénus com a sua vida primária, enchendo o Céu de perfume, e as estradas aéreas formadas no éter delicioso, alcatifadas de estrelas e flores evanescentes.
Após atravessar essa região de belezas indefiníveis e depois de penetrar as camadas de ozone que revestem as massas atmosféricas do orbe terrestre, colocando as criaturas vivas a salvo dos raios desconhecidos e mortíferos do espectro solar, o Mensageiro sentiu-se oprimido sob uma atmosfera de fumo sufocante, e, em breve, estudava a situação de todos os países para colher notícias necessárias aos seus superiores, dos planos espirituais.
No dia aprazado, comparecia, torturado e abatido, à presença dos seus maiores.
Os anciãos veneráveis, que haviam deliberado a sua vinda ao planeta terreno, esperavam-no com expectativas promissoras.
Mas, o nobre expedicionário começou a expor as suas opiniões sem optimismo e sem esperança:
- “Senhores - disse inicialmente -, nossas previsões não se realizaram.
A Terra toda, na actualidade, é um perigoso rastilho de pólvora.
Todas as nações estão prontas para a guerra.
A luta, ali, é um produto inevitável dos labores ideológicos das criaturas humanas.
Procurei um lugar onde fosse possível estabelecer as minhas actividades, sem encontrar elementos para esse fim, em parte alguma.
Debalde tentei sobrepor as minhas influências nos gabinetes públicos, nas doutrinas da colectividade, ou no santuário dos corações.
Os homens ainda não conseguem entender nossos alvitres e conselhos.
Nenhum deles cuida da necessidade de paz, com sinceridade e desinteresse.
Alguns falam em meu nome, para levantarem recompensas e honrarias nos torneios políticos, ou literários.
Desgraçadamente, porém, não podem prescindir das necessidades negras da guerra!”
Verificou-se, na assembleia augusta e respeitável, um movimento penoso de assombro.
Ali se encontravam Espíritos directores de povos, de raças, e de todos os ideais que nobilitam a Humanidade.
E os antigos génios, inspiradores das raças eslavas e germânicas, solicitaram notícias dos seus subordinados, mas a entidade amiga respondeu com franqueza:
- “Os povos que se acham sob a vossa carinhosa tutela vivem a fase terrível do mais desenfreado armamentismo.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:48 am

A Alemanha já reocupou a Renânia, readquirindo, igualmente, o território do Sarre e preparando-se para reconquistar o seu império colonial.
Antevendo as grandes guerras que se aproximam, os alemães estão aproveitando toda as suas capacidades inventivas na criação de novos elementos de destruição, nas indústrias bélicas.
Seus zepelins atravessam todos os continentes do mundo, a pretexto de turismo, estudando a situação topográfica dos outros países, arquitectando um novo sonho de imperialismo internacional.
Com a teoria do racismo, ela procura levantar o plano nefasto da sua hegemonia no Globo, criando toda a espécie de aparelhos para o domínio do mundo.
A Rússia prepara-se, inventando novos engenhos para a indústria da guerra, arrancando o suor dos seus filhos para fomentar a sua ideologia política na face da Terra, incentivando revoltas e sacrificando corações.
A Polónia gasta, na actualidade, um terço dos orçamentos com as forças armadas e todas as outras pequenas nacionalidades, que floresceram nas margens do Danúbio, não escondem a sua posição na corrida armamentista destes últimos tempos, fortificando-se para a luta do porvir...”
E vieram os génios inspiradores das raças latinas, obtendo a mesma resposta:
- “A França e a Itália - prosseguiu o embaixador solícito -, que foram sempre as nações directoras do pensamento da latinidade, estão entregues a todos os desregramentos das indústrias da guerra.
A primeira, dominada pelas obrigações de ordem política, coloca-se em uma posição perigosa em face dos países que eram seus antigos aliados; a segunda, acaba de realizar a campanha condenável de conquista do território abissínio, com os mais abjectos espectáculos da força.
As aviações francesas e italianas, seus vasos de guerra, seus milhares de homens da infantaria motorizada, causam dolorosa surpresa aos espíritos pacifistas do mundo.
A Espanha afoga-se numa onda incendiária de sangue, e todas as outras nações europeias, inclusive a Inglaterra, que despedaça no momento todas as lanças ao seu dispor, para a conservação do seu império colonial, se preparam para a carnificina do futuro.
Não se pode esperar nenhum esforço em favor da paz, por parte das raças latinas.”
E vieram, em seguida, os seres tutelares dos povos da Mongólia, recebendo idêntica resposta:
- “A China está cheia de fogo e de sangue...
O Japão, repleto de associações secretas, de espionagem, para a realização dos projectos nipónicos na guerra futura.
As ilhas orientais estão dominadas pelo imperialismo do século, fomentando-se dentro delas as lutas sociais, políticas e religiosas...”
E chegaram, depois, nesse inquérito, os génios que presidem ao destino das livres Américas, obtendo sempre a mesma resposta:
- “Os vossos subordinados - exclamou o lúcido e bem informado Mensageiro - inconscientes dos tesouros económicos que possuem, perdem-se num labirinto de lutas políticas de todos os matizes.
As nações do Norte vivem idealizando todos os poderes destrutivos para serem utilizados na sua defensiva, esperando-se, ali, mais tarde, o perigo das forças amarelas.
Atormentados pelos preconceitos, entregam-se, por vezes, a linchamentos e distúrbios sociais, incompatíveis com o seu alevantado progresso.
Os americanos do Sul esquecem suas possibilidades na solução do problema da concórdia humana, entregando-se, de vez em quando, aos excessos das paixões políticas, que os arrastam à sangria fratricida das guerras civis, cujo único objectivo é multiplicar o número dos infelizes e dos desafortunados do mundo...”
Depois de penosas discussões, vieram os grandes génios inspiradores das ciências físicas e morais da Humanidade terrestre; todavia, o Génio da Paz continuou com a sua palavra inflexível e dolorosa:
- “Não se pode esperar um esforço sério das correntes religiosas da Terra, a favor da tranquilidade dos homens; com raras excepções, quase todas estão divididas em núcleos de combate recíproco, dentro de actividades e interesses anticristãos.
Quanto às ciências físicas, todas as suas atenções estão voltadas para o extermínio e para a morte.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:48 am

Criaram-se na Terra os mais terríveis aparelhos de defesa antiaérea, que fazem explodir aviões e outras poderosas máquinas de guerra, gases mortíferos, torpedos do ar e do mar, salientando-se o torpedeiro moderno, que poderá carregar 2.800 toneladas e que destrói fatalmente o alvo objectivado e atingido; metralhadoras eléctricas, cómodas e velozes, de tiros rápidos, graças ao sistema rotativo; canhões antiaéreos oferecendo capacidade para o tiro vertical de 15.000 metros...
A Terra é um vasto pandemónio de armas, de maquinarias e munições...
Percorri todas as cidades, todas as organizações e todos os lares, improficuamente!...”
A essa altura, quando a confusão de vozes se estabelecia no recinto iluminado, onde se reuniram as falanges espirituais do Infinito, o Génio da Verdade, que era o supremo director desse conclave angélico dos espaços, exclamou gravemente:
- “Calai-vos, meus irmãos!...
Ninguém, na Terra, poderá colocar outro fundamento a não ser o de Jesus-Cristo.
A evolução moral dos homens será paga com os mais penosos tributos de sangue das suas experiências.
As criaturas humanas conhecerão a fome, a miséria, a nudez, a carnificina e o cansaço, para aprenderem o amor d'Aquele que é o Jardineiro Divino dos seus corações.
Transformarão as suas cidades em ossuários apodrecidos, para saberem erguer os monumentos projectados no Evangelho do Divino Mestre.
Chega de mensagens, de arautos e mensageiros...
No fumo negro da guerra o homem terá a visão deslumbradora da luz maravilhosa dos planos divinos!...”
E depois de uma pausa, cheia de comoção e de lágrimas no espírito de todos os presentes, a lúcida entidade sintetizou:
- “Nunca haverá paz no mundo, sem a Verdade!...”
E enquanto as aves celestes voejavam nas atmosferas radiosas e eterizadas do infinito e a luz embriagava todas as criaturas e todas as coisas, num turbilhão de claridade e de perfumes, ouviu-se uma voz indefinível, bradando na imensidade:
- “Ninguém, na Terra, pode lançar outro fundamento além daquele que foi posto por Jesus- Cristo!”
E, confundida numa luz imensa e maravilhosa, a grande assembleia da Paz foi dissolvida.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:49 am

25 - SÓCRATES
7 de janeiro de 1937

Foi no Instituto Celeste de Pitágoras(1) que vim encontrar, nestes últimos tempos, a figura veneranda de Sócrates, o ilustre filho de Sofronisco e Fenareta.
A reunião, nesse castelo luminoso dos planos erráticos, era, nesse dia, dedicada a todos os estudiosos vindos da Terra longínqua.
A paisagem exterior, formada na base de substâncias imponderáveis para as ciências terrestres da actualidade recordava a antiga Hélade, cheia de aromas, sonoridades e melodias.
Um solo de neblinas evanescentes evocava as terras suaves e encantadoras, onde as tribos jónias e eólias localizaram a sua habitação, organizando a pátria de Orfeu, cheia de deuses e de harmonias.
Árvores bizarras e floridas enfeitavam o ambiente de surpresas cariciosas, lembrando os antigos bosques da Tessália, onde Pan se fazia ouvir com as cantilenas de sua flauta, protegendo os rebanhos junto das frondes vetustas, que eram as liras dos ventos brandos, cantando as melodias da Natureza.
O palácio consagrado a Pitágoras tinha aspecto de severa beleza, com suas colunas gregas à maneira das maravilhosas edificações da gloriosa Atenas do passado.
Lá dentro, agasalhava-se toda uma multidão de Espíritos ávidos da palavra esclarecida do grande mestre, que os cidadãos atenienses haviam condenado à morte, 399 anos antes de Jesus-Cristo.
Ali se reuniam vultos venerados pela filosofia e pela ciência de todas as épocas humanas, Terpandro, Tucídides, Lísis, Esquines, Filolau, Timeu, Símias, Anaxágoras e muitas outras figuras respeitáveis da sabedoria dos homens.
Admirei-me, porém, de não encontrar ali nem os discípulos do sublime filósofo ateniense, nem os juízes que o condenaram à morte.
A ausência de Platão, a esse conclave do Infinito, impressionava-me o pensamento, quando, na tribuna de claridades divinas, se materializou aos nossos olhos o vulto venerando da filosofia de todos os séculos.
Da sua figura irradiava- se uma onda de luz levemente azulada, enchendo o recinto de vibração desconhecida, de paz suave e branda. Grandes madeixas de cabelos alvos de neve molduravam-lhe o semblante jovial e tranquilo, onde os olhos brilhavam infinitamente cheios de serenidade, alegria e doçura.
As palavras de Sócrates contornaram as teses mais sublimes, porém, inacessíveis ao entendimento das criaturas atuais, tal a transcendência dos seus profundos raciocínios.
À maneira das suas lições nas praças públicas de Atenas, falou-nos da mais avançada sabedoria espiritual, através de inquirições que nos conduziam ao âmago dos assuntos; discorreu sobre a liberdade dos seres nos planos divinos que constituem a sua actual morada e sobre os grandes conhecimentos que esperam a Humanidade terrestre no seu futuro espiritual.
É verdade que não posso transmitir aos meus companheiros terrenos a expressão exacta dos seus ensinamentos, estribados na mais elevada das justiças, levando-se em conta a grandeza dos seus conceitos, incompreensíveis para as ideologias das pátrias no mundo actual, mas, ansioso de oferecer uma palavra do grande mestre do passado aos meus irmãos, não mais pelas vísceras do corpo e sim pelos laços afectivos da alma, atrevi-me a abordá-lo:
- Mestre - disse eu -, venho recentemente da Terra distante, para onde encontro possibilidade de mandar o vosso pensamento.
Desejaríeis enviar para o mundo as vossas mensagens benevolentes e sábias?
- Seria inútil - respondeu-me bondosamente -, os homens da Terra ainda não se reconheceram a si mesmos.
Ainda são cidadãos da pátria, sem serem irmãos entre si.
Marcham uns contra os outros, ao som de músicas guerreiras e sob a protecção de estandartes que os desunem, aniquilando-lhes os mais nobres sentimentos de humanidade.
- Mas. . . - retorqui - lá no mundo há uma elite de filósofos que se sentiriam orgulhosos de vos ouvir! ...
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:49 am

- Mesmo entre eles as nossas verdades não seriam reconhecidas.
Quase todos estão com o pensamento cristalizado no ataúde das escolas.
Para todos os espíritos, o progresso reside na experiência.
A História não vos fala do suicídio orgulhoso de Empédocles de Agrigento, nas lavas do Etna, para proporcionar aos seus contemporâneos a falsa impressão de sua ascensão para os céus?
Quase todos os estudiosos da Terra são assim; o mal de todos é o enfatuado convencimento de sabedoria.
Nossas lições valem somente como roteiro de coragem para cada um, nos grandes momentos da experiência individual, quase sempre difícil e dolorosa.
Não crucificaram, por lá, o Filho de Deus, que lhes oferecia a própria vida para que conhecessem e praticassem a Verdade? O pórtico da pitonisa de Delfos está cheio de actualidade para o mundo.
Nosso projecto de difundir a felicidade na Terra só terá realização quando os Espíritos aí encarnados deixarem de ser cidadãos para serem homens conscientes de si mesmos.
Os Estados e as Leis são invenções puramente humanas, justificáveis, em virtude da heterogeneidade com respeito à posição evolutiva das criaturas; mas, enquanto existirem, sobrará a certeza de que o homem não se descobriu a si mesmo, para viver a existência espontânea e feliz, em comunhão com as disposições divinas da natureza espiritual.
A Humanidade está muito longe de compreender essa fraternidade no campo sociológico.
Impressionado com essas respostas, continuei a interrogá-lo:
- Apesar dos milénios decorridos, tendes a exprimir alguma reflexão aos homens, quanto à reparação do erro que cometeram, condenando-vos à morte?
- De modo algum. Méletos e outros acusadores estavam no papel que lhes competia, e a acção que provocaram contra mim nos tribunais atenienses só podia valorizar os princípios da filosofia do bem e da liberdade que as vozes do Alto me inspiravam, para que eu fosse um dos colaboradores na obra de quantos precederam, no Planeta, o pensamento e o exemplo vivo de Jesus-Cristo.
Se me condenaram à morte, os meus juízes estavam igualmente condenados pela Natureza; e, até hoje, enquanto a criatura humana não se descobrir a si mesma, os seus destinos e obras serão patrimónios da dor e da morte. .
- Poderíeis dizer algo sobre a obra dos vossos discípulos? .
- Perfeitamente - respondeu-me o sábio ilustre - é de lamentar as observações mal-avisadas de Xenofonte, lamentando eu, igualmente, que Platão, não obstante a sua coragem e o seu heroísmo, não haja representado fielmente a minha palavra junto dos nossos contemporâneos e dos nossos pósteros.
A História admirou na sua Apologia os discursos sábios e bem feitos, mas a minha palavra não entoaria ladainhas laudatórias aos políticos da época e nem se desviaria- para as afirmações dogmáticas no terreno metafísico.
Vivi com a minha verdade para morrer com ela.
Louvo, todavia, a Antístenes, que falou com mais imparcialidade a meu respeito, de minha personalidade que sempre se reconheceu insuficiente.
Julgáveis então que me abalançasse, nos últimos instantes da vida, a recomendações no sentido de que se pagasse um galo a Esculápio?
Semelhante expressão, a mim atribuída, constitui a mais incompreensível das ironias.
- Mestre, e o mundo? - indaguei.
- O mundo actual é a semente do mundo paradisíaco do futuro.
Não tenhais pressa.
Mergulhando-me no labirinto da História, parece-me que as lutas de Atenas e Esparta, as glórias do Pártenon, os esplendores do século de Péricles, são acontecimentos de há poucos dias; entretanto, soldados espartanos e atenienses, censores, juízes, tribunais, monumentos políticos da cidade que foi minha pátria, estão hoje reduzidos a um punhado de cinzas!...
A nossa única realidade é a vida do Espírito.
- Não vos tentaria alguma missão de amor na face do orbe terrestre, dentro dos grandes objectivos da regeneração humana?
- Nossa tarefa, para que os homens se persuadam com respeito à verdade, deve ser toda indirecta.
O homem terá de realizar-se interiormente pelo trabalho perseverante, sem o que todo o esforço dos mestres não Passará do terreno do puro verbalismo.
E, como se estivesse concentrado em si mesmo, o grande filósofo sentenciou:
- As criaturas humanas ainda não estão preparadas para o amor e para a liberdade...
Durante muitos anos, ainda, todos os discípulos da Verdade terão de morrer muitas vezes!. .
E enquanto o ilustre sábio ateniense se retirava do recinto, junto de Anaxágoras, dei por terminada a preciosa e rara entrevista.

(1) Nome convencional para figurar os centros de grandes reuniões espirituais no plano Invisível. - O Autor Espiritual.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 11:49 am

26 - ESCREVENDO A JESUS
8 de março de 1937

Meu Senhor Jesus:
Dirijo-vos esta carta quase como nos últimos tempos em que o fazia na Terra, fechado nas perplexidades da incompreensão.
Muitas vezes imaginei que estivésseis acessível à visão de todos aqueles que se evadem do mundo pela porta escura da Morte, a fim de premiar os bons e punir pessoalmente os culpados, como os modernos chefes de Estado, que distribuem medalhas de honra nas datas festivas e exaram sentenças condenatórias em seus gabinetes.
Mas, não é assim, Senhor!
Todas as ingénua e doces concepções do Catolicismo se esfumaram minha imaginação.
A morte não faz de um homem um anjo; amontoa-nos, aos magotes, onde possa caber toda a imensidade das nossas fraquezas e aí, na contemplação das nossas realidades e das nossas misérias, descerra um fragmento dos véus do seu grande mistério.
Então, sentimo-nos reconfortados pela esperança, e basta esse raio de luz para que sejamos deslumbrados na vossa glória.
Se é verdade que não vos buscávamos nos caminhos da Terra, não era justo que nos viésseis esperar à porta do Céu.
Todavia, Senhor, não é para exprobrar o meu passado, no mundo, que vos dirijo esta carta.
É para vos contar que os homens vão reviver novamente a tragédia da vossa morte.
Muitos judeus influentes promovem, na actualidade, uma acção tendente a esclarecer o processo que motivou a vossa condenação.
É verdade que esses movimentos tardios, para apurar os erros do passado, não são novos.
Joana d'Arc foi canonizada após a calúnia, o martírio e o vilipêndio e, ainda agora, - no Brasil, foi revivido o processo que fizera de Pontes Visgueiro um monstro nefando, movimento esse que lhe atenuou a falta, humanizando-se a sua figura através da análise minuciosa dos fatos recapitulados pelo Sr. Evaristo de Morais.
Os descendentes dos vossos algozes querem reparar a violência dos seus avós.
Objectivam a reconstrução do mesmo cenário de antanho.
A corte provincial romana, o tribunal famoso dos israelitas, copiando a situação com a possível fidelidade.
Eu queria, porém, acrescentar, entre parêntesis, que o mesmo Caifás ainda estará no Sinédrio para punir e julgar.
Foi pensando tudo isso, Senhor, que fui a Jerusalém observar detidamente os lugares santos.
Se ultimamente contemplei a cidade arruinada dos profetas, no momento em que se comemorava a vossa paixão e a vossa morte, tendo fixado no espírito os quadros dolorosos do vosso martírio, não pude observar detalhadamente as suas ruínas, desde o momento em que a minha atenção foi solicitada pela magnânima figura de Iscariotes.
É verdade que os séculos guardarão aí, para sempre, os traços indeléveis da vossa ligeira passagem pelo Planeta.
Jerusalém prosseguirá contando aos peregrinos do mundo inteiro a sua história de lamentações e dores.
Reconheci, contudo, a dificuldade para copiarem o passado com as suas coisas e com as suas circunstâncias.
Conta-se que, anos depois da vossa crucificação, o Rabi Aguiba foi, com alguns companheiros, visitar as ruínas do templo onde haviam ecoado as vossas divinas palavras.
Mas, o local sagrado onde se venerava o Santo dos Santos era refúgio dos chacais, que fugiram espantados com a presença dos homens.
Hoje, igualmente, Senhor, Jerusalém não possui a fisionomia de outrora.
Nos lugares onde se derramava o perfume do incenso e da mirra, há cheiro pronunciado de gasolina e vapores.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:06 pm

Os burricos graciosos foram substituídos pelos automóveis confortáveis.
Os ingleses vivem ocidentalizando as ruínas abandonadas.
Sobre o mar da Galileia, em Tiberíades, foi construído um balneário elegante; cheio de banhistas com seus trajes multicores, sentindo-se ali como em Copacabana, ou Biarritz.
A Judeia está cortada de linhas férreas, de estradas macadamizadas, de cinematógrafos, de iluminações eléctricas, de serviços modernos.
Há, até, Senhor, um poderoso judeu russo chamado Rutemburgo, que captou energia eléctrica nas águas mansas do Jordão à forca de mecanismos e represas.
Aquelas águas sagradas e claras, que baptizaram os cristãos, movem hoje poderosas turbinas.
As usinas estão em toda parte.
Todas essas instalações têm alterado a fisionomia da região.
Certamente, Senhor, conhecestes Haifa, que era um ninho tranquilo e doce, à sombra do monte Carmelo, sobre o qual Elias encontrou os profetas de Baal, confundindo-os com a sabedoria das suas palavras.
Pois, hoje, palpita ali enorme cidade, guardando uma grande estação de depósito de petróleo, onde a marinha inglesa costuma abastecer-se.
O campo suave de Mizpeh, onde a voz de Samuel se fez ouvir durante trinta dias consecutivos, exortando Israel, transformou-se num imenso aeródromo onde pousam as aves metálicas do progresso, cheias de notícias e de ruídos.
Torna-se difícil reconstituir o ambiente da vossa injusta condenação.
Mas os homens, Senhor, nunca dispensaram a teatralidade e as máscaras de suas vidas.
É possível que engendrem um dramalhão, no qual, a pretexto de vos reabilitar perante a História, subvertam, ainda mais, no abismo da sua materialidade, à profunda significação espiritual da vossa doutrina.
As multidões não serão inquiridas agora a respeito da sua preferência por Barrabás.
Os pontífices do Sinedrim não conseguirão colocar nos vossos braços misericordiosos uma cana à guisa de ceptro, nem ferir vossa fronte com a coroa de espinhos.
Certamente mandarão erigir ironicamente um colosso de pedra, à vossa semelhança, injuriando a vossa memória.
Os chamados crentes ajoelhar-se-ão aos pés dessa estátua impassível, suplicando, no seu cepticismo elegante, a vossa bênção, antes de se levantarem para devorar-se uns aos outros, como Cains desvairados.
Ah! Senhor! Nós sabemos que do vosso trono estrelado vindes velando por esse orbe tão pequenino e tão infeliz!
A manjedoura e a cruz ainda constituem o maior tesouro dos humildes e dos infortunados.
Mas, vede, Senhor, como as ervas más se alastram pela Terra.
Cortai-as, Jesus, para que o trigo louro da paz e da verdade resplandeça na vossa seara bendita.
E que os homens, reunidos no mesmo jugo suave da fraternidade que nos ensinastes, descansem embalados no cântico sublime da vossa misericórdia e do vosso amor.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:06 pm

27 - A MAIOR MENSAGEM
17 de abril de 1937

Muita gente boa poderá supor na Terra que o homem, atravessando as águas escuras do Aqueronte, encontrará na outra margem o poço maravilhoso da Sabedoria.
Um homem de bons costumes, que andasse aí na Terra vendendo pastéis, depois dos banhos prodigiosos da Morte voltaria aos cenários da vida sentenciando em todos os problemas que ensandecem o cérebro da Humanidade.
Mas, não é assim.
Cada indivíduo conserva, no Além, a posição evolutiva que o caracterizava na Terra.
Cada entidade comunicante é, portanto, o homem desencarnado, ressalvando-se, todavia, a posição elevada dos Espíritos missionários que, de vez em quando pousam no mundo abnegadamente, sem lhe reparar a miséria e a estreita relatividade.
Arrebatados, assim, para o império das sombras, não estamos vagueando em paisagens lunares, ou no céu dos teólogos.
O nosso mundo é de perfeita transição.
Já Raymond, na Inglaterra, com o apoio da autoridade científica de Sir Oliver Lodge, falou ao mundo terrestre das nossas paisagens bizarras, repletas de coisas semelhantes às coisas da nossa vida e das nossas actividades no Planeta.
Seus arroubos descritivos não comoveram o espírito cristalizado da ciência oficial, e provocaram exclamações pejorativas de muitos filósofos espiritualistas.
De minha parte, porém, já não quero fazer passar os olhos curiosos dos meus leitores sob o Arco de Esopo, movimentando as minhas criações do Tonel de Diógenes.
Agora, mais que nunca, reconheço que cada qual compreende como pode, aí no mundo, e não me animo a provocar o riso despreocupado dos meus semelhantes, desejando somente levar-lhes o coração para as questões nobres e úteis da Vida.
Para contar-lhes, assim, o que fiquei conhecendo daqui como a Maior Mensagem existente da Terra, devo dizer-lhes que, no casarão dos espaços onde nos encontramos. agasalhados, existe o Grande Salão dos Invisíveis.
É aí que nos reunimos, muitas vezes, em amável "tête-à-tête", reconfortando-nos após as lutas terrestres, e recebendo frequentemente as opiniões esclarecidas dos mestres da espiritualidade.
Aparelhos delicadíssimos, de uma radiotelefonia mais avançada, nos colocam em contacto com entidades angélicas, tal como os políticos do Rio de Janeiro podem ouvir o governo de Tóquio trocando entre si as impressões de um movimento, sem se afastarem de suas cidades respectivas.
No dia a que me reporto, encontrávamo-nos ali, em animada palestra.
Escritores franceses, ingleses, asiáticos e americanos, discutíamos os progressos da Terra.
Não há mais aqui a barreira dos idiomas.
Cada qual pode falar à vontade, porque o pensamento já é por si mesmo uma espécie de Volapuque universal.
- "O que mais me admira na actualidade do mundo - exclamava um dos companheiros - é a obra perfeita da Engenharia moderna.
Na América do Norte cuida-se da captação da energia eléctrica existente na força das ondas marítimas, dentro do mecanismo de poderosas turbinas e, talvez, antes que o homem penetre o segredo do aproveitamento das forças atómicas, para repousar as suas actividades na electricidade atmosférica, já terá construído formidáveis usinas captadoras da energia dos ventos, a mais de duzentos metros de altura.
A mecânica da aviação progride a cada minuto e o homem está prestes a adoptar os mais avançados sistemas de locomoção aérea, com os futuros aparelhos de voo individual."
- “Todavia - atalhou outro -, temos de considerar igualmente o elevado plano evolutivo das criaturas, nos laboratórios”.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:06 pm

O alemão Todtenhaupt demonstrou a maneira de se transformar a caseína do leite em lã artificial.
Os tecnologistas descobriram todos os meios de se copiar perfeitamente a Natureza, e os produtos sintéticos fazem, por toda parte, as comodidades da civilização.
Os raios X devassaram a organização de todos os corpos, provando que todas as matérias, na crosta terrestre, são cristalinas facilitando o exame de suas disposições atómicas e moleculares.
Essas revoluções, no campo imenso das indústrias modernas, hão de fatalmente determinar profundas modificações na vida atormentada dos
homens.
Eu ouvia, interessado, esses argumentos, sem poder participar com veemência dos problemas debatidos, em virtude de trazer muito pouca bagagem do nosso pobre Brasil, com excepção das ideias políticas, quando outro amigo interveio:
- "Muito me têm preocupado as questões de Medicina e é com assombro que vejo a evolução dos processos terapêuticos no orbe terráqueo.
Os hormônios, as vitaminas e as glândulas, tão desconhecidos ali, antigamente, são objecto de toda uma revolução científica.
Ainda agora os hospitais de Moscou realizam, com êxito, as mais extraordinárias transfusões de sangue cadavérico.
Os médicos moscovitas descobriram os recursos de conservar o sangue retirado de um cadáver, no instante imediato à morte, por mais de 20 ou 30 dias, aplicando-o com felicidade a outros organismos enfermos.
Os processos de saneamento e de higiene não ficam aquém dessas conquistas.
Há tempos saneou-se, na Itália, a região das Lagoas Pontinas e, onde havia pântanos e focos microbianos, florescem hoje cidades prestigiosas e progressistas."
E, nesse diapasão, todos os escritores desencarnados manifestaram seus pensamentos optimistas.
Falou-se da física, da bacteriologia, dos processos pedagógicos, da industrialização, do nacional-socialismo de Hitler e dos princípios democráticos de Roosevelt.
Mas, quando a palestra atingia o fim de seu curso, uma voz, cuja origem não poderíamos determinar, exclamou em nosso meio com melancólica imponência:
- “Todas as conquistas e todas as comodidades da civilização terrestre da actualidade são questões secundárias nos ciclos eternos da Vida”...
A mão invisível e poderosa que destruiu o orgulho impenitente de Babilónia e de Persépolis, que aniquilou os poderes de Roma e de Cartago, pode reduzir o mundo ocidental a um punhado de cinzas!...
"As plataformas políticas, os laboratórios científicos, os diplomas de novos conhecimentos, são segundos valores em todos os caminhos evolutivos, porque, sem o amor, que é a fraternidade universal, todas as portas da evolução estarão
fechadas...
Pode Einstein devassar novos segredos na teoria das relatividades; Segismund Freud poderá descobrir novas causas dos padecimentos humanos com a perseverança e a paciência de suas análises; a tecnologia pode modificar visceralmente a estrutura das indústrias do Planeta; Hitler, Mussolini, Roosevelt e Trotsky podem aventar novas sistematizações da política, renovando as concepções do Estado; mas a Maior Mensagem no mundo ainda é o Evangelho.
Sem o amor de Jesus-Cristo, todos os povos estão condenados a morrer, com todo o peso de suas conquistas e de suas glórias, porque somente o Amor pode salvar o mundo que se aniquila.”
Podereis todos vós descer à face escura - e triste da Terra, proclamando a vossa imortalidade, porém, nada fareis de útil se não entregardes ao espírito humano essa chave maravilhosa, para que se abram as portas imensas da Paz, no coração amargurado dos homens!...”
“Diante dessa voz suave e terrível, todos nós silenciáramos.
Ao longe, muito ao longe, por um esforço pronunciado de nossa acção, divisávamos a Terra longínqua...
Furacões destruidores pareciam envolver atmosferas -estavam enegrecidas, pejadas de nuvens de fumo e de poeira sangrenta. Um secreto pavor dominou nossas almas e guardamos, íntimo, aquela voz profética e ameaçadora “‘A mão invisível e poderosa que destruiu impenitente de Babilónia e de Persépolis, que aniquilou os poderes de Roma e de Cartago, pode reduzir o mundo ocidental a um punhado de cinzas”!...
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:07 pm

28 - RESPONDENDO A UMA CARTA
20 de abril de 1937.

Minha senhora.
Eu sempre julguei que, terminadas, as lutas da Vida, jamais poderia voltar o meu espírito das correntes tenebrosas do Estige, que os homens colocaram no Peloponeso escuro da Morte.
Mas, eis que volto dos palacetes aéreos onde se reconforta minha alma esquecida do jazigo subterrâneo em que repousam meus alquebrados ossos e recebo o angustioso apelo do seu coração.
A Senhora envia-me uma cartinha breve, escrita com as próprias lágrimas da sua dor, fazendo-me confidente de sua imensa amargura, como se eu ainda estivesse aí no mundo, escravizado a todas as suas algemas e a todas as suas conveniências, por mal dos meus pecados.
Agora porém, graças a Deus, estou sento de todas as pesadas contribuições terrestres, inclusive a do imposto do selo, para enviar-lhe o meu pensamento.
Falo-lhe do mundo de vida nova e de maravilhosa ressurreição, onde a esperam aquele esposo dedicado e amigo e aquele filho valoroso e leal que a senhora viu partirem para as fronteiras tristes e nubladas da Morte, como Níobe petrificada no Seu desespero inconsolável. .
Os movimentos revolucionários do Brasil destroçaram-lhe o coração amoroso e sensibilíssimo.
Em 30, quando os políticos novos se rejubilavam sobre os destroços da República Velha, enquanto se enfunavam bandeiras e vibravam mocidades, a sua alma de mulher, sozinha e triste, chorava sobre o túmulo do companheiro que Deus lhe havia dado e com quem edificara, através da luta e dos anos, o ninho quente e doce em cujos delicados contornos o seu espírito se havia dilatado, prolongando-se nos filhos, satélites abençoados do seu amor e do seu coração.
Esse golpe foi a grande espada de dor, estraçalhando para sempre a tranquilidade da sua vida.
Em 35, eis que perde seu filho, digno sucessor da patente do pai, num outro movimento de forças homicidas. Sua alma de viúva e de mãe cobriu-se então de luto e de lágrimas, para sempre.
Uma saudade oceânica absorve-lhe todas as actividades e todos os momentos, e no silêncio da noite, quando todos se entregam ao amolecimento e ao repouso, seu Espírito está vigilante como os soldados de Pompeia, apesar dos decretos irrevogáveis do Destino, esperando que surjam as visões consoladoras do companheiro bem-amado e do filho in esquecido até que as primeiras claridades do dia venham desfazer o magnetismo suave das suas esperanças.
No mundo das suas recordações fulguram relâmpagos e, assombrada, sua alma vê passar todos os dias, nas estradas imensas da sua amargura, os fantasmas de todos os sonhos mortos, mergulhados no ataúde de suas desilusões.
Para uma alma de mãe que chora, nunca há consolação bastante no mundo.
Um coração materno, pranteando sobre as lutas fratricidas, é sempre um símbolo dos sofrimentos da Humanidade crucificada no madeiro das hostilidades patrióticas, que separaram os povos do amor fraterna, destilando o veneno do ódio nos seus corações.
Já se disse que a guerra é o factor de todos os progressos do orbe, mas temos de convir em que toda a civilização é um produto detestável do martirológio das mães desveladas e sofredoras.
É por isso, talvez, que a civilização dos homens cai sempre, na esteira infinita do tempo, como fruto amargo e apodrecido.
Todos os calendários, surgidos nos milénios, assinalam épocas de opulência e de grandeza, para se desfazerem nos abismos da miséria e da morte.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:07 pm

No declínio de cada período evolutivo do Planeta reúnem-se, em vão, os políticos e os guerreiros para salvá-lo, como agora acontece no mundo, ocidental, no desfiladeiro da destruição.
Criam-se conciliábulos de paz impossível, porque, através de todos os edifícios sumptuosos e de todas as doutrinas políticas, faz-se ouvir a mesma voz compassiva e lamentosa:
- "Caim, que fizeste do teu irmão?"
É que nunca se reuniram os homens para salvar a civilização, com a ternura das mães, com os seus devotamentos e com os seus sacrifícios; nunca se recordaram de uma estatística dos corações maternos antes de prepararem uma batalha, embora se deva à mulher todos os monumentos de fé realizadora que os homens têm construído na face do mundo.
E, no seu caso, a dor que à martiriza fere mais fundo o seu coração, porque o esposo e o filho não pereceram num campo inimigo, onde batalhassem com o título de "bravos", título esse ainda justificável em virtude da ignorância das leis divinas, mas, assassinados por seus próprios irmãos, com estúpida crueldade.
Os factos, em verdade, não pertencem à História Pátria, mas, sim, à legislação do Código Penal. Todavia, minha senhora, não busque a protecção das leis judiciárias, estruturadas pelos homens.
Subordine os julgamentos dos actos perversos, de que foi objecto, ao Tribunal Divino, que legisla acima de todas as forças políticas da Terra.
Sofra o seu martírio com amargurada resignação.
O sofrimento é como um absinto maravilhoso.
Se a sua taça está hoje cheia de fel inevitável, esse líquido amargo nunca se escoa.
Aqueles que lho deram vêm atrás dos seus passos.
O mesmo fel os aguarda nos caminhos tortuosos da Vida.
Eu não tenho argumentos para consolá-la, senão os de minha própria sobrevivência, fornecendo-lhe a certeza de que um dia encontrará, numa vida melhor, os bem-amados do seu coração.
Sua mágoa é daquelas que a esponja insaciável do Tempo não apaga na Terra; mas, viva a sua existência com as esperanças colocadas no Céu.
Lembre-se da Mãe de Jesus:
ela sintetiza as angústias de todos os corações maternos, perdidos como flores divinas entre as urzes e os espinhos do mundo, e sentir-se- tocada de uma luz suave e misericordiosa.
Uma sagrada e terna esperança balsamizará, como um luar perene, a noite das suas desventuras, adquirindo a força necessária para vencer nas estradas ríspidas e espinhosas.
Amparada na fé, espere no altar da oração o dia da sua liberdade espiritual.
Nessa hora de claridades doces e alegres para o seu coração, a senhora verá que, no turbilhão das lutas da Terra, todos os que contemplam o Céu são também por ele contemplados.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:07 pm

29 - TIRADENTES
21 de abril de 1937

Dos infelizes protagonistas da Inconfidência Mineira, no dia 21 de abril de todos os anos, aqueles que podem excursionar pela Terra volvem às ruínas de Ouro Preto, a fim' de se reunirem entre as velhas paredes da casa humilde do sítio da Cachoeira, trazendo a sua homenagem de amor à personalidade do Tiradentes.
Nessas assembleias espirituais, que os encarnados poderiam considerar como reuniões de sombras, os preitos de amor são mais expressivos e mais sinceros, livres de todos os enganos da História e das hipocrisias convencionais.
Ainda agora, compareci a essa festividade de corações, integrando a caravana de alguns brasileiros desencarnados, que para lá se dirigiu associando-se às comemorações do proto mártir da emancipação do País.
Nunca tive muito contacto com as coisas de Minas Gerais, mas a antiga Vila Rica, actualmente elevada à condição de Monumento Nacional, pelas suas relíquias prestigiosas, sempre me impressionou pela sua beleza sugestiva e legendária.
Nas suas ruas tortuosas, percebe-se a mesma fisionomia do Brasil dos Vice-Reis.
Uma coroa de lendas suaves paira sobre. as suas ladeiras e sobre os seus edifícios seculares, embriagando o espírito do forasteiro com melodias longínquas e perfumes distantes.
Na terra empedrada, ainda existem sinais de passos dos antigos conquistadores do ouro dos seus rios e das suas minas e, nas suas igrejas, ainda se ouvem soluços de escravos, misturados com gritos de sonhos mortos, do seu valoroso heroísmo.
A velha Vila Rica, com a névoa fria dos seus horizontes, parece viver agora com as suas saudades de cada dia e com as suas recordações de cada noite.
Sem me alongar nos lances descritivos, acerca dos seus tesouros do passado, objecto da observação de jornalistas e escritores de todos os tempos, devo dizer que, na noite de hoje, a casa antiga dos Inconfidentes tem estado cheia das sombras dos mortos.
Aí fui encontrar, não segundo o corpo, mas segundo o espírito, as personalidades de Domingos Vidal Barbosa, Freire de Andrada, Mariano Leal, José Joaquim da Maia, Cláudio Manuel, Inácio Alvarenga, Doroteia de Seixas, Beatriz Francisca Brandão, Toledo Pisa, Luís de Vasconcelos e muitos outros nomes, que participaram dos acontecimentos relativos à malograda conspiração.
Mas, de todas as figuras veneráveis ao alcance dos meus olhos, a que me sugeria as grandes afirmações da pátria era, sem dúvida, a do antigo alferes Joaquim José da Silva Xavier, pela sua nobre e serena beleza.
Do seu olhar claro e doce, irradiava-se toda uma onda de estranhas revelações, e não foi sem timidez que me acerquei da sua personalidade, provocando a sua palavra.
Falando-lhe a respeito do movimento de emancipação política, do qual havia sido o herói extraordinário, declinei minha qualidade de seu ex-compatriota, filho do Maranhão, que também combatera, no passado, contra o domínio dos estrangeiros. .
- "Meu amigo - declarou com bondade -, antes de tudo, devo afirmar que não fui um herói e sim um Espírito em prova, servindo simultaneamente à causa da liberdade da minha terra.
Quanto à Inconfidência de Minas, não foi propriamente um movimento nativista, apesar de ter aí ficado como roteiro luminoso para a independência da pátria.
Hoje, posso perceber que o nosso movimento era um projecto por demais elevado para as forças com que podia contar o Brasil daquela
época, reconhecendo como o idealismo eliminou em nosso espírito todas as noções da realidade prática; mas, estávamos embriagados pelas ideias generosas que nos chegavam da Europa, através da educação universitária.
E, sobretudo, o exemplo dos Estados Americanos do Norte, que afirmaram os princípios imortais do direito do homem, muito antes do verbo inflamado de Mirabeau, era uma luz incendiando a nossa imaginação.
O Congresso de Filadélfia, que reconheceu todas as doutrinas democráticas, em 1776, afigurou-se-nos uma garantia da concretização dos nossos sonhos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:07 pm

Por intermédio de José Joaquim da Maia procuramos sondar o pensamento de Jefferson, em Paris, a nosso respeito; mas, infelizmente, não percebíamos que a luta, como ainda hoje se verifica no mundo, era de princípios.
O fenómeno que se operava no terreno político e social era o desprezo do absolutismo e da tradição, para que o racionalismo dirigisse a Vida dos homens.
Fomos os títeres de alguns portugueses liberais, que, na colónia, desejavam adaptar-se ao novo período histórico do Planeta, aproveitando-se dos nossos primeiros surtos de nacionalismo.
Não possuíamos um índice forte de brasilidade que nos assegurasse a vitória, e a verdade só me foi intuitivamente revelada quando as autoridades do Rio mandaram prender-me na rua dos Latoeiros."
- E nada tendes a dizer sobre a defecção de alguns dos vossos companheiros? - perguntei.
- "Hoje, de modo algum desejaria avivar minhas amargas lembranças. . .
Aliás, não foi apenas Silvério quem nos denunciou perante o Visconde de
Barbacena; muitos outros fizeram o mesmo, chegando um deles a se disfarçar como um fantasma, dentro das noites de Vila Rica, avisando quanto à resolução do governo da província, antes que ela fosse tomada publicamente, com o fim de salvaguardar as posições sociais de amigos do Visconde, que haviam simpatizado com a nossa causa.
Graças a Deus, todavia, até hoje, sinto-me ditoso por ter subido sozinho os vinte degraus do patíbulo."
- E sobre esses factos dolorosos, não tendes alguma impressão nova a nos transmitir?
E os lábios do Herói da Inconfidência, como se receassem dizer toda a verdade, murmuraram estas frases soltas:
- "Sim... a Sala do Oratório e o vozerio dos companheiros desesperados com a sentença de morte... a Praça da Lampadosa, minha veneração pelo Crucifixo do Redentor e o remorso do carrasco... a procissão da Irmandade da Misericórdia, os cavaleiros, até o derradeiro impulso da corda fatal, arrastando-me para o abismo da Morte..."
E concluiu:
- "Não tenho coisa alguma a acrescentar às descrições históricas, senão minha profunda repugnância pela hipocrisia das convenções sociais de todos os tempos."
- É verdade - acrescentei - reza a História que, no instante da vossa morte, um religioso, falou sobre o tema do Eclesiastes - "Não atraiçoes o teu rei, nem mesmo por pensamentos."
E terminando a minha observação com uma pergunta, arrisquei:
- Quanto ao Brasil actual, qual a vossa opinião a respeito?
- "Apenas a de que ainda não foi atingido o alvo dos nossos sonhos.
A nação ainda não foi realizada para criar-se uma linha histórica, mantenedora da sua perfeita independência.
Todavia, a vitalidade de um povo reside na organização da sua economia e a economia do Brasil está muito longe de ser realizada.
A ausência de um interesse comum, em "favor do País, dá causa não mais à derrama dos impostos, mas ao derrame das ambições, onde todos querem mandar, sem saberem dirigir a si próprios."
Antes que se fizesse silêncio entre nós, tornei ainda:
- Com relação aos ossos dos inconfidentes, vindos agora da África para o antigo teatro da luta, hoje transformado em Panteão Nacional, são de facto autênticos esqueletos dos apóstolos da liberdade? .
- "Nesse particular - respondeu Tiradentes com uma ponta de ironia - não devo manifestar os meus pensamentos.
Os ossos encontrados tanto podem ser de Gonzaga, como podem pertencer, igualmente, ao mais miserável dos negros de Angola.
O orgulho humano e as vaidades patrióticas têm também os seus limites...
Aliás, o que se faz necessário é a compreensão dos sentimentos que nos moveram a personalidade, impelindo-nos para o sacrifício e para a morte. ..”
Mas, não pôde terminar.
Arrebatado num aluvião de abraços amigos e carinhosos, retirou-se o grande patriota que o Brasil hoje festeja, glorificando o seu heroísmo e a sua doce humildade.
Aos meus ouvidos emocionados ecoavam as notas derradeiras da música evocativa e dos fragmentos de orações que rodeavam o monumento do Herói, afigurando-se-me que Vila Rica ressurgira, com os seus coches dourados e os seus fidalgos, num dos dias gloriosos do Triunfo Eucarístico; mas, aos poucos, suas luzes se amorteceram no silêncio da noite, e a velha cidade dos conspiradores entrou a dormir, no tapete glorioso de suas recordações, o sono tranquilo -dos seus sonhos mortos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:07 pm

30 - O PROBLEMA DA LONGEVIDADE
30 de abril de 1937

Os cientistas de todos os continentes se interessam, no mundo, pela solução do problema da longevidade humana.
À maneira do doutor Fausto, ensandecem as suas faculdades intelectivas, buscando o ambicionado xarope miraculoso.
Corações de cães e de galinhas são objecto de experimentos fisiológicos e não faz muitos anos o Dr. Voronoff andava pelo mundo com a sua gaiola de símios, vendendo o elixir prodigioso da juventude aos velhos gozadores da vida.
Agora, um dos seus continuadores, o Dr. Aléxis Carrel, em cooperação com Lindberg, inventou um aparelho para investigar a vida das células e a produção de hormônios, onde se encontra vivo o coração de um gato, pulsando indefinidamente, esquecido de morrer, certamente enganado com a temperatura do recipiente de vidro que o encerra.
Nos últimos tempos é o professor Woodruff o iniciador de experiências novas.
Cultivando carinhosamente um micróbio e sua progénie, no laboratório de suas pesquisas científicas, todos os dias transforma o ambiente do micróbio estudado, mudando a gota de água e o tubo que constituem o seu grande mundo liliputiano, tendo repetido essa experiência mais de mil vezes, constatando a imortalidade do seu paciente e guardando a esperança de poder aplicar seus estudos às criaturas humanas, criando uma nova teoria da longevidade, com a eliminação dos resíduos celulares do organismo, olvidado, porém, de que as células cerebrais do homem, elementos constitutivos do aparelho mais delicado de manifestação do espírito dos seres racionais, não são susceptíveis de nenhuma alteração no decurso da vida.
Os corpúsculos do cérebro nunca se reproduzem.
Podem os cientistas imitar todos os fenómenos da natureza.
Um coração humano pode saltar numa retorta de laboratório.
Os rins e o fígado podem segregar os seus produtos específicos, separados do corpo, mas os estudiosos do mundo inteiro jamais poderão fazer pensar o cérebro de um cadáver.
Todas essas actividades da ciência moderna, através de movimentos mecânicos, poderão organizar novos sistemas terapêuticos, mas nunca afastar do coração inquieto dos homens o gládio afiado da morte.
A par dos professores, cujas teses objectivam a prolongação da existência das criaturas, temos os políticos nacionalistas incentivando a natalidade, como Mussolini, instituindo prémios para as mães italianas e conquistando, a ferro e fogo, o território abissínio, a fim de localizar os súbditos do novo império.
É verdade que o “crescei e multiplicai-vos” representa um imperativo das leis divinas, mas é necessário saber-se o “como” dessa conciliação do espírito com a natureza.
Os homens tentam organizar, em todos os tempos, um código de moral, para que os imperativos evangélicos da multiplicação se cumprissem com decência e pureza.
As igrejas criaram o casamento religioso, e os legisladores o matrimónio civil.
Houve, também, os que tentaram organizar, nesse sentido, uma directriz de ordem económica, como os ingleses, que instituíram o “birth control”.
Mas, eu não voltaria do mundo das sombras ignoradas para fazer a apologia de Roberto Malthus e sim para perguntar se valeria a pena conservar-se indefinidamente a vida do homem, sobre o vale de lágrimas do Salmista.
Quando ainda não se resolveu o problema do pão de cada dia, quando há multidões de famintos e desesperados, quando a sociologia não passa de palavra a ser interpretada, é lícito cogitar-se da longevidade das criaturas?
Se vingassem as teorias modernas, teríamos igualmente a eternização do egoísmo, da ambição e do orgulho, porque cada um não cogitaria senão da sua própria imortalidade.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:08 pm

As actividades inoportunas de semelhantes cogitações, no objecto de se fazer de cada homem um Matusalém sobre a terra, são a criação incessante dos institutos da morte.
A política, que incentiva a natalidade, não quer a criança senão para fazer dela, mais tarde, um soldado ou uma vivandeira, de acordo com a determinação do sexo.
O monstro da guerra aí está ainda, como a Hidra de Lerna envolvendo todos os povos do Planeta nos seus tentáculos destruidores.
Todos os progressos da Civilização se canalizam para esse gosto homicida.
O animal político de Aristóteles não vive senão para destruir seus semelhantes, e nos departamentos de guerra de todos os países existem os técnicos de novos aparelhos de destruição.
Nestes últimos tempos, um ilustre médico europeu inventou piedosamente uma espécie de máscara protectora contra todos os gases mortíferos conhecidos.
Apresentando o invento humanitário ao seu director de laboratório, obteve uma resposta curiosa:
- “Muito bem, meu amigo.
A tua criação merece o apoio do Governo e a admiração dos teus colegas; todavia, é preciso agora que utilizes as tuas faculdades inventivas na criação de um gás mais poderoso do que essa máscara, e que a possa inutilizar no momento oportuno.”
É dentro dessa mentalidade que se desdobram as actividades humanas.
Os cientistas que desejarem prestar o concurso dos seus conhecimentos à Humanidade devem ocupar-se de problemas menos complexos do que o da inconveniente longevidade das criaturas.
Antes de tudo, é necessário educar o espírito para o saneamento moral da vida das colectividades.
Quando o homem conhecer a sua condição de usufrutuário do património divino, as armas da ambição, do egoísmo e do orgulho estarão ensarilhadas para sempre.
A morte, nesse plano ideal de conhecimento superior, deixará de ser a espada de Dâmocles, no banquete da vida, porquanto não mais existirá na imaginação das criaturas integradas no conhecimento de sua imortalidade espiritual.
Os cientistas que estudam a longevidade do corpo são os que tacteiam, voluntariamente, nas sombras da noite, despercebidos de que as claridades do dia virão fatalmente iluminar-lhes o caminho da ascensão para Deus.
Que se desviem de semelhantes excentricidades, empregando os seus esforços na solução de problemas mais úteis e mais urgentes.
Em vez de criarem novas teorias para que o mundo fique repleto de corpos imortais, seria melhor que cultivassem batatas, a fim de que os pobres da Terra tenham um pão pela hora da vida.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 1:08 pm

31 - O ELOGIO DO OPERÁRIO
1º. de maio de 1937

Às portas do Céu bateram, um dia, um Político, um Soldado e um Operário.
Mas, Gabriel, o anjo que na ocasião velava pela tranquilidade do Paraíso, não quis atender-lhes às rogativas, sem previamente consultar o Senhor sobre aquelas três criaturas recém-chegadas da Terra.
Depois de inquiri-las quanto às suas actividades na superfície do mundo, procurou o Mestre, a quem falou humildemente:
- Senhor, um Político, um Soldado e um Operário, vindos da Terra longínqua, desejam receber vossas divinas graças, ansiosos de gozar das felicidades terrestres.
-Gabriel - disse o Salvador - que habilitações trazem do mundo essas almas, para viverem na paz da Casa de Deus?
Bem sabes que cada homem edifica, com a sua vida, o seu inferno, ou o seu paraíso...
Mas, vamos ao que nos interessa: que fez o Político lá na Terra?
O anjo, bem impressionado com a figura do diplomata, que impetrara os seus bons ofícios, exclamou com algum entusiasmo:
Trata-se de um homem de elevado nível cultural.
Suas informações revelaram-me um espírito de gosto refinado no trato da Civilização e das leis.
Foi um preclaro estadista, cuja existência decorreu nos bastidores da administração pública e nos torneios eleitorais, onde consumiu todas as suas energias.
Em troca de seus labores, os homens lhe tributaram as mais subidas honras nas suas exéquias.
Seu cadáver embalsamado, num ataúde de vidro, percorreu duzentas léguas para ficar guardado nos mármores preciosos do Panteão Nacional.
- Mas... - objectou entristecido o Mestre - esse homem teria cumprido as leis que ditava para os outros?
Teria observado a prática do bem, a única condição para entrar no Paraíso, absorvido, como se achava, na enganosa volúpia das grandezas terrenas?
- A luta política, Senhor, tomava-lhe todo o tempo - respondeu solícito o anjo - os tratados jurídicos, as tabelas orçamentárias, as fontes históricas, as questões diplomáticas, os compêndios de ciências sociais, não davam lugar a que ele se integrasse no conhecimento da vossa palavra...
- Entretanto, o meu Evangelho deveria ser a bússola de quantos se colocam na direcção da humanidade...
E, como se intimamente lastimasse a situação do infeliz, o Mestre rematou:
- Aqui não há lugar para ele.
Não se conquistam as venturas celestes com a riqueza de teorias da Terra.
Dir-lhe-ás que retorne ao mundo, a fim de voltar mais tarde ao Paraíso, pela porta do Bem, da Caridade e do Amor.
E o Soldado, que serviços apresenta em favor de sua pretensão?
- Esse - replicou Gabriel - foi um herói na terra em que nasceu.
Seus actos de valor e de bravura deram causa a que fosse promovido pelos superiores hierárquicos à posição de chefe das forças militares em operações, na última guerra.
Tem o peito coberto de medalhas e de insígnias valiosas, das ordens patrióticas e das legiões de honra; seu nome é lembrado no mundo com carinhoso respeito.
Aos seus funerais compareceram representações de vários países do mundo e inúmeras colectividades acompanharam-lhe as cinzas ilustres, que, envolvidas na bandeira da sua pátria, foram guardadas num majestoso monumento de soberbo carrara.
- Infelizmente - exclamou amargurado o Senhor - o Céu está fechado para os homens dessa natureza.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:33 am

É inacreditável que sejam glorificados no orbe terrestre aqueles que matam a pretexto de patriotismo.
Nunca pus no verbo dos meus enviados, no Planeta, outra lei que não fosse aquela do - “amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos”.
Nunca houve uma determinação divina para que os homens se separassem entre pátrias e bandeiras.
De sul a norte, do oriente ao ocidente, todos os Espíritos encarnados são filhos de Deus, e qualquer deles pode ser meu discípulo.
Os homens que semeiam a ruína e a destruição não podem participar da tranquilidade do Paraíso.
E o Operário, que fatos lhe justificam a presença nas portas do Céu?
- Esse - elucidou Gabriel - quase nada tem a contar dos seus amargurados dias terrestres.
Os sopros frios da adversidade, em toda a existência, perseguiram-no através das estradas do destino, e a fé em vossa complacência e misericórdia lhe foi sempre a única âncora de salvação, no oceano de lágrimas por onde passava o barco miserável da sua vida.
Trabalhou com o esforço poderoso das máquinas e foi colaborador desconhecido do bem-estar dos afortunados da Terra.
Nunca recebeu compensação digna do seu trabalho, e consumiu-se no holocausto à colectividade e à família...
Entretanto, Senhor, ninguém conheceu as tempestades de lágrimas de seu coração afectuoso e sensível, nem as dificuldades dolorosas dos seus dias atormentados, no mundo.
Viveu com a fé, morreu com a esperança e o seu corpo foi recolhido pela caridade de mãos piedosas e compassivas que o abrigaram na sepultura anónima dos desgraçados...
- O Céu pertence a esse herói. Gabriel - disse o Mestre alegremente.
Suas esperanças colocadas no meu amor são sementes benditas que frutificarão na percentagem de mil por um.
Se os homens o ignoram, o Céu deve conhecer os seus heroísmos obscuros e os seus sacrifícios nobilitantes.
Enquanto o Político organizava leis que não cumpria, ele se imolava no desempenho dos deveres santificadores.
Enquanto o Soldado destruía irmãos, seus braços faziam o milagre do progresso e do bem-estar da Humanidade.
Enquanto os despojos dos primeiros foram encerrados nos mármores frios e imponentes das falsas homenagens da Terra, seu corpo de lutador se dissolveu no solo, acentuando os perfumes da Natureza e enriquecendo o grão que alimenta as aves alegres, na mesma harmonia eterna e doce que regeu os sentimentos do seu coração e os actos de seu Espírito.
Esse, Gabriel, faz parte dos heróis do Céu, que a Terra nunca quis conhecer.
E, enquanto o Político e o soldado voltavam ao caminho das reencarnações dolorosas da Terra, o Operário de Deus se cobria com as claridades do Infinito, buscando outras possibilidades de trabalho para o seu amor e para o se devotamento.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:33 am

32 - ANIVERSÁRIO DO BRASIL
7 de maio de 1937

Vem o Brasil de comemorar o 437º ano do seu descobrimento.
Em todos os centros culturais do País foi lembrada a célebre expedição de Pedro Álvares Cabral, que, em março de 1500, deixou Lisboa com as mais severas recomendações para os régulos da Ásia e que aportou primeiramente na ilha de Vera Cruz, cheia de árvores fartas e de rolas morenas cantando a inocência das terras inexploradas e virgens, cujo domínio Portugal havia pleiteado em Tordesilhas.
Os naturais ainda pareciam permanecer com a bênção divina no paraíso terrestre, pois não conheciam o sentimento que fizera Adão e Eva buscarem a folha de parra, envergonhados dos seus pormenores anatómicos; mas, frei Henrique de Coimbra, na primeira missa celebrada naquele deserto maravilhoso, tentou pregar para as gentes de Porto Seguro, que não lhe compreenderam as palavras, tomando, logo após aquele ato católico, os seus arcos e os seus tacapes, prosseguindo nas danças exóticas, sobre as ervas rasteiras da praia.
Sobre as grandes comemorações brasileiras destes últimos dias, não podemos mencionar as da política administrativa, que, no momento, estava preocupada com a eleição do Presidente da Câmara Federal, sendo de destacar-se, somente, a Congregação Mariana no Rio de Janeiro.
A Igreja, conhecendo profundamente a psicologia das massas, reuniu mais de dez mil católicos na capital do País, realizando os seus movimentos com o apoio governamental.
Mas, não nos surpreendemos.
Não se tratou de um congresso para a generalização do livro ou de novas facilidades da vida.
Como Frei Henrique de Coimbra, no dia 3 de maio de 1500, entre as madeiras toscas da Bahia, Monsenhor Leovigildo Franca, na Feira de Amostras do Rio de Janeiro, dava explicações da missa ao povo do Brasil, com a diferença de que falava pelo radio e com pouca esperança de ser entendido pelos seus patrícios, que, como outrora, se levantariam dali, com as suas cuícas e os seus pandeiros, procurando a Favela ou a Mangueira, para um samba de quintal.
Aliás, semelhante fato não será estranhável, considerando-se que o governo que apoiou a ultima concentração católica é o mesmo que subvenciona as festas carnavalescas, incentivando, por essa forma, o turismo no Brasil.
Todavia, longe das apreciações superficiais, que teria feito a nação em mais de quatrocentos anos de vida histórica e mais de um século de independência política?
Com um território imenso, onde caberá possivelmente toda a população
da Europa moderna, ela apenas conhece pouco mais de um décimo de suas possibilidades económicas.
Do vale soberbo do Amazonas às planícies do Prata, há um perfume de matas virgens na terra misteriosa e o mesmo livro infinito de sua Natureza extraordinária espera ainda a raça ciclópica que escreverá nas suas páginas, ainda em branco, a mais bela talvez de todas as epopeias da Humanidade, nos triunfos do Espírito.
É lastimável que as paixões políticas aí permaneçam, intoxicando inteligências e corações.
A esses sentimentos nefastos deve-se a sensação de angustiosa expectativa que o País vem experimentando, nestes anos derradeiros, perturbando os seus surtos de trabalho e empobrecendo as suas fontes de produção.
Os espíritos, que aí se entregam ao vinho sinistro do interesse e da ambição, andam esquecidos de que são criminosos todos aqueles que destroem um abrigo diante da tempestade furiosa, sem apresentar um refúgio melhor aos náufragos desesperados.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:33 am

Como inaugurar-se uma nova experiência de novos regimes políticos no País, se o próprio princípio democrático ainda não foi devidamente assimilado?
Contudo, o que vemos no Brasil, nos últimos tempos, é a tendência para a desagregação das forças construtivas da nacionalidade, em lutas esterilizadoras.
Reza a História que, nos séculos passados, quando as hordas de bárbaros ameaçavam a Europa medieval, o sultão Amurat submeteu ao seu domínio as províncias gregas da Trácia, da Albânia e da Macedónia.
Cheio de galardões e de vitórias, avançou para o norte em direcção dos sérvios e dos búlgaros que, comandados por Lázaro e Sisman, lhe opuseram a mais encarniçada resistência.
O orgulhoso sultão ganhou-lhes a grande batalha de Kossovo, mas, quando vitorioso contemplava com feroz alegria o campo forrado de sangue e de cadáveres, orgulhoso do seu feito e da sua glória, o sérvio Miloch levantou-se, no silêncio da praça destruída, e, lesto, cravou-lhe um punhal no coração.
A política brasileira dos últimos anos tem sido a repetição do mesmo quadro.
Sempre um Amurat escalando o caminho da glória e da evidência, sobre as humilhações dos seus semelhantes, e sempre um Miloch saindo do seu anonimato para desferir-lhe o golpe supremo.
Mas... Não falemos de assunto tão ingrato, quanto inoportuno.
No dia de aniversário do Brasil, recordemos que o professor Tyndall acaba de anunciar os dez problemas mais importantes que a ciência terrestre terá de resolver nos próximos cem anos, neles incluindo a viagem à Lua e alimentação química, lembrando ao ilustre catedrático da Pensilvânia que, não obstante as suas mestranças, esqueceu a questão da vitória do Evangelho.
E olhando o país maravilhoso onde todas as raças do Planeta se encontraram para a glorificação da fraternidade e do amor, saudemos, com as emoções de nossa esperança, as terras afortunadas de Santa Cruz.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:33 am

33 - UMA VENERÁVEL INSTITUIÇÃO
2 de agosto de 1937

Parecerá estranho que os Espíritos desencarnados volvam à Terra para visitar as instituições humanas, velando pelo mecanismo dos seus trabalhos e agindo, indirectamente, nas suas deliberações.
A verdade, porém, é que isso constitui um acontecimento natural.
Se os vivos continuam os trabalhos daqueles que os antecederam na jornada da morte, as almas do mundo invisível, nos planos em que me encontro, têm de voltar, em sua maioria, às lutas terrestres.
Todas as edificações de uma época têm as suas bases profundas nas épocas que a precederam.
Nenhum homem pode criar, por si só, alguma coisa e sim desenvolver os princípios encontrados, aproveitando o material disperso para continuar a obra evolutiva, imprimindo- lhe a expressão do seu pensamento pessoal.
Mesmo o inventor e o artista, com as largas reservas de possibilidade e paciência que os séculos de experiências acumularam nos escaninhos de suas personalidades, estão englobados nessa classificação.
É que o progresso é uma obra colectiva.
Cada criatura deixa uma nota na sua admirável sinfonia.
As eras se interpenetram umas às outras, tal como se confundem, no oceano largo do tempo, os vivos e os mortos.
A vida é o resultado das trocas incessantes e o insulamento é a única morte no concerto universal.
É considerando essas verdades que me tenho dedicado a conhecer, dentro das minhas possibilidades, as instituições dos homens, voltando para falar delas com a minha linguagem característica, evitando o terreno do transcendentalismo, para fornecer, espontaneamente, a minha carteira de identificação.
*
Nas proximidades do edifício do Tesouro Nacional, na Avenida Passos, ergue-se a Federação Espírita Brasileira, guardando, na cidade maravilhosa, as grandes tradições da caridade e da esperança, filhas do coração de Ismael, cujo pensamento inspira as actividades do Evangelho nas terras de Santa Cruz.
Já tive ocasião de manifestar o meu respeito por essa instituição venerável, cujas portas se abrem generosas para os famintos do pão espiritual e para os necessitados do corpo, ao lado do formigueiro humano, onde se agitam cerca de dois milhões de pessoas.
Conhecendo-lhe, embora, a finalidade evangélica, em cuja base imortal repousam os seus labores associativos, no objectivo de emprestar a minha colaboração humilde ao desdobramento dos seus programas, procurei alcançar numa visão de detalhe a sua obra edificadora.
A visita de um desencarnado não se verifica conforme as praxes sociais que presidem, no mundo dos homens de carne, a um acto dessa natureza; mas, no pórtico da Casa de Ismael encontrei o mesmo Pedro Richard, que me levou a observar as intimidades do seu santuário.
Visitei, uma a uma, as suas dependências.
Nas escadarias e nos gabinetes amplos, não somente se reúnem os médiuns abnegados e os sofredores que aí os procuram diariamente; verdadeiras legiões de seres invisíveis, que os vivos considerariam como fileiras de sombras, deslizam pelas salas e pelos corredores, revezando-se no sagrado mister da caridade, fornecendo o que podem, no labor piedoso e cristão.
A presença dos enfermeiros invisíveis enche a atmosfera da casa de fluidos suaves e balsâmicos.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:34 am

É, talvez, por esse motivo que alguns amigos meus procuravam descansar na Federação, quando passávamos nas vizinhanças da antiga rua do Sacramento, cansados dos rumores urbanos e das longas distâncias, acreditando alcançar ai um bando regenerador de suas energias psíquicas.
- Aqui - explicava Pedro Richard -, nos reunimos todos nós, os que amamos as claridades do Evangelho, ansiosos de repartir as esperanças da Boa Nova,. Há lugar, nesta casa, para todos os trabalhadores, e basta querer para que cada um seja incorporado à caravana que nunca se dissolve.
À maneira daqueles coxos e estropiados, a que se referia Jesus no seu ensinamento, vivemos pela misericórdia do Senhor, que não nos desampara com a sua bondade infinita.
O banquete de Ismael está aqui sempre posto e, das alturas divinas, caem sobre o seu templo humano as flores da esperança, da piedade e do perdão, transformadas em bênçãos de Deus, repartidas, como a luz do Sol, com todos os corações.
Aproveitamos, nos estudos da doutrina, aquela parte que representava a predilecção de Maria, em contraposição com os trabalhos apressados e inquietos de Marta, segundo a observação do Divino Mestre, e pugnamos pelo esforço da reforma interior de cada um, reconhecendo que somente na assimilação dos princípios morais da doutrina, em sua feição de Cristianismo restaurado, poderemos atingir a finalidade de nossas preocupações.
- Mas - perguntei admirado - a instituição desprezará, porventura, as expressões científicas do Espiritismo?
-“De modo algum - respondeu-me solícito -, seus aspectos fenoménicos merecem da Federação todo o zelo possível, mas essas expressões da ciência representam os meios e não o fim, constituindo, desse modo, corolários das expressões morais do ensinamento dos Espíritos, chegando-se à ilação de que nada se terá feito sem a edificação das consciências, à luz dos seus princípios.
Haja vista o que aconteceu na Europa, bafejada por tantos fenómenos extraordinários.
Com algumas excepções, os sábios que ali se ocuparam do assunto, possuídos do mais avançado personalismo, definiram os factos mediúnicos dentro de suas vaidades pessoais, complicando o estudo da doutrina com o sabor cientifico de suas palavras, desconhecendo a profunda simplicidade dos ensinamentos revelados.”
- É com essa expressão religiosa e regeneradora que o Espiritismo conta esclarecer os problemas do campo social? - perguntei ainda.
-“De facto - continuou o meu generoso amigo -, toda a vitória da doutrina tem de começar no coração.
Sem o selo da renovação interior, qualquer tentativa de reforma constitui um caminho para novas desilusões.
Seria, pois, inútil organizarmos grandes movimentos para uma salvação imediata, se o espírito geral se encontra nas sombras. Onde se terá visto uma colheita sem o trabalho da semeadura?
A missão dos espíritas não representa, portanto, uma tarefa artificiosa e nem lhes compete disseminar os laboratórios de ilusões.
Suas responsabilidades são muito grandes no campo da educação evangélica das massas e no plano da caridade pura, assistindo os sofredores e os desesperados.
Esse campo de trabalho moral é o imenso reservatório das forças indestrutíveis da Nova Revelação, e a beleza dos seus aspectos tem seduzido muitas mentalidades de elite, do mundo inteiro.
Mesmo a esta Casa têm aportado muitos espíritos brilhantes, vindos da Política e da Ciência, considerando que o Espiritismo, verdadeiramente interpretado, é a síntese maravilhosa que abrange todas as actividades humanas, no sentido de aperfeiçoá-las para o bem comum.”
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