CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:34 am

- Mas - ponderei -, não seria aconselhável movimentarem-se os elementos da doutrina, projectando-se as expressões de seus valores no mundo das realizações?
- “Não reprovamos quantos se entregam, desde já, aos trabalhos dessa natureza, reconhecendo que o Espiritismo é um campo imenso onde cada qual tem a sua tarefa a desempenhar, e onde o exclusivismo pecará sempre pela inoportunidade; mas, julgamos prudente criar-se a mentalidade evangélica antes das obras espíritas, a fim de que elas não se percam nos labirintos do mundo e para que sejam devidamente cultivadas pelos verdadeiros discípulos do único Mestre, que é Jesus Cristo”.
As palavras esclarecedoras de Richard calaram-me no espírito.
Compreendi que, de fato, nunca, como agora, a sociedade humana precisou tanto de recorrer ao auxilio sobrenatural do mundo invisível para reorganizar as suas energias, a fim de manter a sua própria estabilidade moral.
Em companhia do mesmo amigo, voltei para o saguão de entrada do edifício, onde se reunia a legião de aflitos e de consolados.
Era noitinha.
A Avenida Passos regurgitava de automóveis de luxo, plena de luz e de movimento.
E enquanto os sujeitos felizes procuravam, no coração enorme da cidade, as casas alegres da noite, uma grande multidão de pessoas, ricas e pobres, subia com humildade as escadas do grande edifício, para se curvarem sobre o Evangelho, procurando aí a lição divina e o socorro espiritual.
E antes que me confundisse, de novo, com as coisas da minha nova vida, lembrei-me das primitivas assembleias cristãs, onde se misturavam todas as posições sociais no exemplo de fraternidade apostólica, no recanto humilde das catacumbas romanas.
Pedro Richard estava com a razão.
É verdade que Nero não está hoje no poder, mas os circos dos suplícios foram substituídos, prevalecendo a mesma perversidade entre os homens, envenenando-lhes o coração.
Aos funestos efeitos de uma nova aliança com Constantino, é preferível, portanto, esclarecer e iluminar o coração de Constantino.
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Ave sem Ninho

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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:34 am

34 - CARTA A MINHA MÃE

Hoje, mamãe, eu não te escrevo daquele gabinete cheio de livros sábios, onde o teu filho, pobre e enfermo, via passar os espectros dos enigmas humanos, junto da lâmpada que, aos poucos, lhe devorava os olhos, no silêncio da noite.
A mão que me serve de porta-caneta é a mão cansada de um homem paupérrimo, que trabalhou o dia inteiro buscando o pão amargo e quotidiano dos que lutam e sofrem.
A minha secretária é uma tripeça tosca à guisa de mesa e as paredes que me rodeiam são nuas e tristes, como aquelas da nossa casa desconfortável em Pedra do Sal.
O telhado sem forro deixa passar a ventania lamentosa da noite e desse remanso humilde, onde a pobreza se esconde exausta e desalentada, eu te escrevo sem insónias e sem fadigas, para contar-te que ainda estou vivendo para amar e querer a mais nobre das mães.
Quereria voltar ao mundo que deixei, para ser novamente teu filho, desejando fazer-me um menino, aprendendo a rezar com o teu espírito santificado nos sofrimentos.
A saudade do teu afecto leva-me constantemente a essa Parnaíba das nossas recordações, cujas ruas arenosas, saturadas do vento salitroso do mar, sensibilizam a minha personalidade e, dentro do crepúsculo estrelado da tua velhice cheia de crença e de esperança, vou contigo, em espírito, nos retrospectos prodigiosos da imaginação, aos nossos tempos distantes.
Vejo-te com os teus vestidos modestos, em nossa casa de Miritiba, suportando com serenidade e devotamento os caprichos alegres de meu pai.
Depois, faço a recapitulação dos teus dias de viuvez dolorosa, junto da máquina de costura e do teu “terço” de orações, sacrificando a mocidade e a saúde pelos filhos, chorando com eles a orfandade que o destino lhes reservara, e, junto da figura gorda e risonha da Midoca, ajoelho-me aos teus pés e repito:
- “Meu Senhor Jesus-Cristo, se eu não tiver de ter uma boa sorte, levai-me deste mundo, dando-me uma boa morte.”
Muitas vezes o destino te fez crer que partirias antes daqueles que havias nutrido com o beijo das tuas caricias, demandando os mundos ermos e frios da Morte.
Mas, partimos e tu ficaste. Ficaste no cadinho doloroso da saudade, prolongando a esperança numa vida melhor no seio imenso da Eternidade.
E o culto dos filhos é o consolo suave do teu coração.
Acariciando os teus netos, guardas com o mesmo desvelo o meu cajueiro, que aí ficou, como um símbolo plantado no coração da terra parnaibana, e, carinhosamente, colhes das suas castanhas e das suas folhas fartas e verdes, para que as almas boas conservem uma lembrança do teu filho, arrebatado no turbilhão da Dor e da Morte.
Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de seiva, na carne moça da terra, pedi velasse pelos teus dias de insulamento e velhice, substituindo-me junto do teu coração.
Todos os nossos te estendem as suas mãos bondosas e amigas e é assombrada que, hoje, ouves a minha voz, através das mensagens que tenho para quantos me possam compreender.
Sensibilizam-me as tuas lágrimas, quando passas os olhos cansados sobre as minhas páginas póstumas e procuro dissipar as dúvidas que torturam o teu coração, combalido nas lutas.
Assalta-te o desejo de me encontrares, tocando-me com a generosa ternura de tuas mãos, lamentando as tuas vacilações e os teus escrúpulos, temendo aceitar as verdades espíritas, em detrimento da fé católica, que te vem sustentando nas provações.
Mas, não é preciso, mãe, que me procures nas organizações espíritas e, para creres na sobrevivência do teu filho, não é preciso que abandones os princípios da tua fé.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:34 am

Já não há mais tempo para que teu espírito excursione em experiências no caminho vasto das filosofias religiosas.
Numa de suas páginas, dizia Coelho Neto que as religiões são como as linguagens.
Cada doutrina envia a Deus, a seu modo, o voto de súplica ou de adoração.
Muitas mentalidades entregam-se, aí no mundo, aos trabalhos elucidativos da polémica ou da discussão.
Chega, porém, um dia em que o homem acha melhor repousar na fé a que se habituou, nas suas meditações e suas lutas.
Esse dia, mamãe, é o que estás vivendo, refugiada no conforto triste das lágrimas e das recordações.
Ascendendo às culminâncias do teu Calvário de saudade e angústia, fixas os olhos na celeste expressão do Crucificado e Jesus, que é a providência misericordiosa de todos os desamparados e de todos os tristes, te fala ao coração dos vinhos suaves e doces de Caná, que se metamorfosearam no vinagre amargoso dos martírios, e das palmas verdes de Jerusalém, que se transformaram na pesada coroa de espinhos.
A cruz, então, se te afigura mais leve e caminhas.
Amigos devotados e carinhosos te enviam de longe o terno consolo dos seus afectos e, prosseguindo no teu culto de amor aos filhos distantes, esperas que o Senhor, com as suas mãos prestigiosas, venha decifrar para os teus olhos os grandes mistérios da Vida.
Esperar e sofrer têm sido os dois grandes motivos, em torno dos quais rodopiaram os teus quase setenta e cinco anos de provações, de viuvez e de orfandade.
E eu, minha mãe, não estou mais aí para afagar-te as mãos trémulas e os cabelos brancos que as dores santificaram.
Não posso prover-te de pão e nem guardar-te da fúria da tempestade, mas, abraçando o teu Espírito, sou a força que adquires na oração, como se absorvesses um vinho misterioso e divino.
Inquirido, certa vez, pelo grande Luiz Gama sobre as necessidades da sua alforria, um jovem escravo observou:
- “Não, meu senhor!... a liberdade que me oferece me doeria mais que o ferrete da escravidão, porque minha mãe, cansada e decrépita, ficaria sozinha nos misteres do cativeiro.”
Se Deus me perguntasse, mamãe, sobre os imperativos da minha emancipação espiritual, eu teria preferido ficar, não obstante a claridade apagada e triste dos meus olhos e a hipertrofia que me transformava num monstro, para levar-te o meu carinho e a minha afeição, até que pudéssemos partir juntos, desse mundo onde tudo sonhamos para nada alcançar.
Mas, se a Morte parte os grilhões frágeis do corpo, é impotente para dissolver as algemas inquebrantáveis do espírito.
Deixa que o teu coração prossiga, oficiando no altar da saudade e da oração; cântaro divino e santificado.
Deus colocará dentro dele o mel abençoado da esperança e da crença, e um dia, no portal ignorado do mundo das Sombras, eu virei, de mãos entrelaçadas com a Midoca, retrocedendo no tempo, para nos transformarmos em tuas crianças bem-amadas.
Seremos agasalhados, então, nos teus braços cariciosos, como dois passarinhos minúsculos, ansiosos da doçura quente e suave das asas maternas, e guardaremos as nossas lágrimas nos cofres de Deus, onde elas se cristalizam como as moedas fulgurantes e eternas do erário de todos os infelizes e desafortunados do mundo.
Tuas mãos segurarão ainda o “terço” das preces inesquecidas e nos ensinarás, de joelhos, a implorar, de mãos postas, as bênçãos prestigiosas do Céu.
E, enquanto os teus lábios sussurrarem de mansinho - “Salve Rainha... mãe de misericórdia...” começaremos juntos a viagem ditosa do Infinito, sob o dossel luminoso das nuvens claras, ténues e alegres do Amor.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:35 am

35 - TRAGO-LHE O MEU ADEUS SEM PROMETER VOLTAR BREVE
Apreciando, em 1932

O “Parnaso de Além-Túmulo” que os poetas desencarnados mandaram ao mundo por intermédio de você, chamei a atenção dos estudiosos para a incógnita que o seu caso apresentava.
Os estudiosos, certamente, não apareceram.
Deixando, porém, o meu corpo minado por uma hipertrofia renitente, lembrei-me do acontecimento.
Julgara eu que os bardos “do outro mundo”, com a sua originalidade estilística, se comprometiam pela eternidade da produção, no falso pressuposto de que se pudessem identificar por outra forma.
Encontrando ensejo para me fazer ouvir através de suas mãos, escrevi crónicas póstumas que o Sr. Frederico Figner transcreveu nas colunas do “Correio da Manhã”.
Não imaginei que o humilde escritor desencarnado ainda na lembrança de quantos o viram desaparecer.
E as minhas palavras provocaram celeuma.
Discutiu-se e ainda se discute.
Você foi apresentado como hábil fazedor de pastichos e os noticiaristas vieram averiguar o que havia de verdadeiro em torno do seu nome.
Colheram informes.
Conheceram a honestidade da sua vida simples e as dificuldades dos seus dias de pobre.
E, por último, quiseram ver como você escrevia a mensagem dos mortos, qual uma Remington accionada por dedos invisíveis.
Tive pena quando soube que iam conduzi-lo a um “test” e recordei-me do primeiro exame a que me sujeitei aí, com o coração batendo forte.
Fiz questão de enviar-lhes algumas palavras, como o homem que fala de longe à sua pátria distante, através das ondas de Hertz, sem saber se seus conceitos serão reconhecidos pelos patrícios, levando em conta as deficiências do aparelho receptor e os desequilíbrios atmosféricos.
Todavia, bem ou mal, consegui falar alguma coisa.
Eu devia essa reparação à doutrina que você sinceramente professa.
Esperariam, talvez, que eu falasse sobre os fabulosos canis de Marte, sobre a Natureza de Vénus, descrevendo, como os viajantes de Júlio Verne, a orografia da Lua.
Julgo, porém, que, por enquanto, me é mais fácil uma discussão sobre o diamagnetismo de Faraday.
Admiraram-se, quando enxergaram a sua mão vertiginosa correndo sobre as linhas do papel.
A curiosidade jornalística é agora levantada em torno da sua pessoa.
É possível que outros acorram para lhe fazer suas visitas.
Mas, ouça bem: não me espere como a pitonisa de Endor, aguardando a sombra de Samuel, para fazer predições a Saul sobre as suas actividades guerreiras.
Não sei movimentar as trípodes espiritistas e, se procurei falar naquela noite, é que o seu nome estava em jogo.
Colaborei, assim, na sua defesa.
Mas, agora que os curiosos o procuram na sua ociosidade, busque você, no desinteresse, a melhor arma para desarmar os outros.
Eu voltarei provavelmente, quando o deixarem em paz na sua amargurada vida.
Não desejo escrever maravilhando a ninguém e tenho necessidade de fugir a tudo o que tenho obrigação de esquecer.
Fique, pois, com a sua cruz, que é bem pesada, por amor d'Aquele que acende o lume dos estrelas e o lume da esperança nos corações.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:35 am

A mediunidade posta ao serviço do bem é quase a estrada do Gólgota; mas, a fé transforma em flores as pedras do caminho.
Li, certa vez, num conto delicado, que uma mulher, em meio de sofrimentos acerbos, apelara para Deus a fim de que se modificasse a volumosa cruz de sua existência.
Como a filha de Cipião, vira nos filhos as jóias preciosas da sua vaidade e do seu amor; mas, como Níobe, vira-os arrebatados no torvelinho da morte, impelidos pela fúria dos deuses.
Tudo lhe falhara nas fantasias do amor, do lar e da aventura.
- Senhor - exclama ela -, por que me deste uma cruz tão pesada?
Arranca dos meus ombros fracos esse insuportável madeiro!
Mas, mas nas asas brandas no sono, a sua alma de mulher viúva e órfã foi conduzida a um palácio resplandecente.
Um Anjo do Senhor recebeu-a no pórtico, com a sua bênção.
Uma sala luminosa e imensa lhe foi designada.
Toda ela se enchia de cruzes.
Cruzes de todos os feitios.
- Aqui - disse-lhe uma voz suave - se guardam todas as cruzes que as almas encarnadas carregam na face triste do mundo.
Cada um desses madeiros traz o nome do seu possuidor.
Atendendo, porem, à tua súplica, ordena Deus que escolhas aqui uma cruz menos pesada do que a tua.
A mulher preferiu, conscientemente, aquela cujo peso competia com suas possibilidades, escolhendo-as entre todas.
Mas, apresentando ao Mensageiro Divino a de sua preferência, verificou que na cruz escolhida se encontrava esculpido o seu próprio nome, reconhecendo a sua impertinência e rebeldia.
- “Vai - disse-lhe o Anjo - com a tua cruz e não descreias!
Deus, na sua misericordiosa justiça, não poderia macerar os teus ombros com um peso superior às tuas forças.”
Não desanime, portanto, na faina em que se encontra, carregando esse fardo penoso que todos os incompreendidos já carregaram.
E agora que os bisbilhoteiros o procuram, trago-lhe o meu adeus, sem prometer voltar breve.
Que o Senhor derrame sobre você a sua bênção, que conforta todos os infortunados e todos os tristes.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:35 am

EM FRATERNAL SAUDAÇÃO A HUMBERTO DE CAMPOS

Começa assim, no volume de suas “Memórias” [1], o capitulo 32, intitulado: “Um amigo de infância”:
No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena cada dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo.
Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha-de-caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser arvore.
Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão.
A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas húmidas e avermelhadas, as quais eram como duas jóias flexíveis que tentassem fugir ao seu cofre.
- Mamãe, olhe o que eu achei! - grito, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o Sol e com a Vida.
- Planta, meu filho...
Vai plantar...
Planta-a no fundo do quintal, longe da cerca...
Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva.
A trinta ou quarenta metros da casa, estaco.
Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projecto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolos e telhas. Regoo.
Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas.
Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre.
Acompanho com afecto a multiplicação das suas folhas tenras.
Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila.
E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e móbil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.
Pois bem, esse recanto do terreno da casa em que ele, na quadra infantil, residiu longos anos, nessa Parnaíba tão decantada em seus escritos e, particularmente, no volume que vimos de citar, foi, após a sua desencarnação, transformado num jardim publico, a que deram a denominação de - Parque “Humberto de Campos”.
Ocioso dizer que o que inspirou a transformação daquele fundo de quintal em parque, com o nome do humorista notável e talentoso cronista nascido no Maranhão, foi a circunstancia de ostentar-se ali o belo e frondoso cajueiro por ele plantado, quando ainda na primeira infância, e ao qual consagrou em suas “Memórias”, nada menos de sete paginas, donde se evola forte o perfume da saudade e das recordações doces, que tantas emoções despertam nas almas sensíveis, mormente em dias de sofrimento e amargor, se já começaram a descer sobre a criatura as sombras merencórias do ocaso da existência.
Nem só, entretanto, no mencionado capitulo das suas “ Memórias”, fala Humberto da hoje pujante arvore que as suas mãos de criança viva e travessa plantaram um dia, em semente, lá perto da cerca do amplo terreiro em que ele multiplicava, despreocupado, os brincos da meninice, na sua inolvidável Parnaíba.
Além de varias outras referencias ao cajueiro querido, na extensa obra literária que deixou como escritor humano, ainda agora, como escritor do mundo invisível, na penúltima das mensagens que este volume contém - “Carta a minha Mãe” - alude à arvore amada, nestes termos tocantes, como o são, alias, todos os dessa comovente pagina que o Espírito traçou, da outra margem da vida, accionando o lápis de Francisco Cândido Xavier:
Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de seiva, na carne moça da terra...
Exprime ele assim, sem dúvida, quão grata foi, ao seu coração amorável, a ideia de realçarem a beleza do seu “irmão” frondoso, pondo-o em destaque na moldura de um parque singelo, mas donairoso, onde, “como um símbolo plantado no coração da terra parnaibana”, segundo as suas mesmas expressões em “Carta a minha mãe”, aquele, como que orgulhoso do irmão que ali o deixou, se ergue cheio de majestade, a perpetuar, “para as almas boas”, a lembrança de quem, “arrebatado no turbilhão da dor e da morte”, vive agora feliz.
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Re: CRÓNICAS DE ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 08, 2017 8:36 am

Feliz, sim, porque liberto da prisão da carne, e feliz também porque preso pelos grilhões do afecto transbordante de uma alma de escol, a da veneranda velhinha que aguarda, paciente e resignada, depois de muito sofrer, também lhe soe a hora da libertação, para juntar-se de novo ao filho idolatrado, nos páramos da verdadeira vida.
Assim sendo, gratíssimo igualmente nos é a nós associar-nos à homenagem que a bem inspirada e piedosa iniciativa da criação do Parque “Humberto de Campos” envolve, sem, contudo, a restringirmos ao homem que, pelo fulgor da sua inteligência, se impôs à admiração e à estima dos seus contemporâneos e dos pósteros, tanto quanto pela soma de seus dotes morais.
Antes, rendemo-la, de preferência, ao seu Espírito, pela magnitude do esforço e pela caridosa solicitude com que procura, desde que se romperam os véus que lhe impediam a visão da verdade espiritual, demonstrar, aos homens incrédulos, não só a realidade positiva da sobrevivência da alma, como a da sua existência no Além, qual a revelou e continua a patentear o Espiritismo, esse Espiritismo que na Terra pouco lhe atraiu a atenção.
E é tomado de emoção viva e de legítimo encantamento, ante a grandiosidade desse esforço a que ele se lançou com prodigioso devotamento e que lhe conservará, pelos tempos em fora, o nome e os feitos, mais do que todas as obras que haja produzido e pudesse produzir como homem, como Espírito encarnado, por muito geniais fosse elas, que nos juntamos aos que lhe exalçaram, para os dias atuais, o nome e a lembrança, fundando o parque onde frondeia, opulento da seiva que lhe fornece “a carne moça da terra”, o seu inesquecível cajueiro.
Fazemo-la da maneira que se nos apresenta objectivamente possível neste instante em que, reunidas em volume, entregamos à deleitação dos estudiosos e aos amantes das belas- letras as suas Crónicas de Além-Túmulo:
reproduzindo aqui, como um símbolo, conforme ele próprio o qualificou, símbolo certamente de grandeza e elevação espiritual, pois que instituído “para as almas boas”, a imagem da árvore imponente, numa fotografia do parque onde ela altaneira se levanta, fotografia essa que a sua carinhosa progenitora ofertou a um excelente companheiro nosso, quando, em janeiro do ano corrente, a viajar por todo o Norte, logrou visitá-la, graças a gentileza de um amigo comum.
Deparando-se-lhe, no visitante, um admirador entusiasta do seu saudoso Humberto, em cujo Espírito conta ele bondoso amigo invisível, a respeitável anciã não se contentou com o que presentear a reprodução fotográfica de uma
solenidade que lhe há de ter feito derramar não poucas lágrimas de comoção e saudade:
escreveu-lhe nas costas uma dedicatória bastante eloquente na sua simplicidade.
Esta circunstancia torna para nós a sua transcrição aqui mais que um dever - um acto de culto reverente a esse duplo amor, materno-filial, que de longe nos evos traz enlaçadas duas almas lidimamente irmãs e fundidas, por ele e para sempre, no amor infinito de Deus.
Diz assim a dedicatória:
Ao Sr. José Maria Macedo Santos ofereço, como lembrança da honrosa visita que me fez, a fotografia do parque “Humberto de Campos”, no dia de sua inauguração.
Com sincera gratidão da humilde criada - Anna C. Veras - Parnaíba. 10 de janeiro de 1937.
Excelsior!
Dizemos, ao encerrar estas linhas pobres de uma homenagem que só não é desprezível porque feita de coração aberto, dizendo-o em saudação fraternal, e à maneira de sincero reconhecimento, ao Espírito amigo que foi entre nós - HUMBERTO DE CAMPOS

Caro Amigo
Se você gostou deste livro e tem oportunidade de adquiri-lo, faça-o, pois os direitos autorais são doados a instituições de caridade.
Muita Paz

§.§.§- Ave sem Ninho
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