A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:20 pm

A Missão De Cada Um
Elisa Masselli

O que levaria quatro pessoas, com suas histórias e seus segredos, chegarem a uma cidade como aquela, perdida no fim do mundo com costumes e cultura diferentes dos seus?
Elas mesmas não saberiam responder, pois estavam por demais desiludidas, sofridas e atormentadas para entenderem o destino que traçavam.
O que mais desejavam era esquecer um passado de angústias e desacertos.
Mas a vida exige escolhas e decisões.
Muitas vezes nos desviamos do compromisso assumido, porém as oportunidades são dadas e os caminhos mostrados para que possamos entender que, a qualquer momento e em qualquer lugar, será reencontrada "A Missão de Cada Um".
Elisa Masselli

Todos, quando nascemos trazemos uma missão.
Para poder cumpri-la amigos não faltarão
'Dedico este livro a todos aqueles a quem Deus deu a missão de bem usar o dinheiro, a mediunidade e o poder.
Principalmente o "Poder Político. "

Sumário
O Mistério
Alguns moradores da cidade
A hora da verdade
Recomeçando
Início de missão
Conhecendo o Grotão
O mistério continua
Ingratidão
Encontro casual
Recordação
Nunca estamos desamparados
A Resposta do Prefeito
Surpresa para todos
Zeca conta sua história
A Reacção de Clara
Obsessão por afinidade
O Aniversário de Robertinho
Uma história inacreditável
O reencontro
Amor de Mãe
A verdade sempre aparece
Uma história de poder
História de perdas
O despertar de Fábio
Um ritual necessário
Cada um colhe o que plantou
Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:20 pm

O Mistério
A cidade de Céu Dourado ficava em um rincão bem distante.
Tinha esse nome porque, em quase todas tardes ao pôr-do-sol, o céu torna-se amarelado e a seguir dourado, em contraste com as montanhas verdes.
Era uma cidade pequena.
Formou-se a partir de imigrantes italianos, espanhóis e escravos que para lá foram no fim do século XIX.
Casaram-se entre si e formaram uma comunidade alegre e festiva.
Conservaram suas tradições e costumes.
Por isso, em todos os anos, havia festas comemorativas de cada uma das colónias.
Igual a quase todas as cidades do interior existia lá, uma praça com sua igreja, um coreto e muitas árvores floridas, aonde aos sábados e domingos os jovens passeavam, encontravam-se e começavam a namorar.
A cidade vivia da agricultura.
Era uma cidade, aonde o progresso ainda não havia chegado.
Possuía uma única agência do Correio e um pequeno posto médico, onde eram atendidos pacientes com doenças sem gravidade, sendo que as mais sérias eram tratadas em um hospital que ficava numa cidade próxima.
Todo o transporte era feito por cavalos, carroças e charretes.
Existia apenas um carro, que era usado como táxi.
Tudo caminhava normalmente, até aquele dia.
— Seu Simão! Seu Simão!
O senhor já sabe o que aconteceu com o seu José?
— Não, Robertinho!
O que aconteceu?
— O dinheiro, seu Simão! O dinheiro!
— Que dinheiro? Acalme-se!
Fale devagar, Robertinho!
— O senhor sabe que o filhinho dele está muito doente e que precisa ir até a Capital, não sabe?
— Claro que sei!
O que aconteceu?
O menino morreu?
— Não! O seu José recebeu um montão de dinheiro para levar o menino para a Capital e cuidar dele lá!
Tem dinheiro, nome do hospital, do médico! Tem tudo!
— Quem mandou esse dinheiro?
— Aí é que está o mistério!
Ele chegou ao Correio com o nome do seu José, mas sem o nome de quem mandou!
— Deve ter sido algum parente!
— Não pode ser, seu Simão!
O seu José e a Dona Emília nasceram aqui, toda a família deles também.
Não têm nenhum parente rico, não!
Todos moram aqui!
— Então, quem terá sido?
— Isso é o que todo mundo está querendo saber!
— É muito estranho mesmo, Robertinho.
— Vou embora, seu Simão!
Preciso contar para todas as pessoas!
Se eu não contar, como elas vão ficar sabendo?
— Tem razão...vai Robertinho, vai...
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:21 pm

O menino saiu correndo, Simão ficou olhando e pensando:
" Eta garoto esperto!
Um grande fofoqueiro, mas esperto!"
Em seguida, olhou para a praça.
Seu bar, além de servir lanches e café, vendia mantimentos, frutas e verduras.
Era também um lugar de encontros.
Todas as tardes, alguns moradores lá se encontravam para conversar.
Por isso, ele sabia de tudo o que acontecia na cidade.
Quando não sabia, Robertinho vinha lhe contar.
Seu bar ficava ao lado da igreja.
— Bom-dia, Simão! Está pensando na vida?
— Bom-dia, Zeca!
Estou olhando para a praça e tentando descobrir quem enviou o dinheiro para o José.
— Pois é! Quem terá sido?
É mesmo um mistério...
— Não tenho a menor ideia... estou pensando, mas não encontro ninguém que possa ter feito isso!
Tem que ser alguém da cidade, Zeca, pois o José nunca saiu daqui!
Mas quem?
— Não foi você, Simão?
— Eu? Imagine!
E muito dinheiro!
Eu não tenho tanto!
Estou pensando que poderia ter sido você!
Ninguém sabe de onde veio, nem quem é!
Talvez você seja um rico excêntrico!
Fala muito bem.
Quando chegou aqui parecia um mendigo.
Vai ver, foi você quem enviou, Zeca!
— Eu? — disse Zeca, soltando uma gargalhada.
Sou um pobre maltrapilho que vive de bico!
— Estou me lembrando agora do dia em que chegou aqui.
Você se lembra?
Faz quanto tempo?
Não sei, talvez dois ou três anos.
Só sei que comecei a viver, realmente, naquele dia.
Esta cidade me mostrou uma maneira nova de viver.
Ficarei aqui até morrer!
— Por que nunca me contou de como era a sua vida antes de vir pra cá, Zeca?
Sempre me considerei seu amigo!
— Você é meu amigo, Simão.
Foi a segunda pessoa a me receber na cidade.
Esse assunto me faz muito mal, não gostaria de falar sobre isso, sou o Zeca... só o Zeca.
Agora preciso ir.
Estou indo até a casa do delegado, prometi arrumar o seu jardim e sabe como é, preciso garantir o aluguer do quartinho...
— Está bem. Já que não quer, não fale!
Mas, não precisa ir embora, antes tome um café.
Um dia, quem sabe, me contará tudo.
Além do mais, quem você foi não tem importância.
Agora é meu amigo e isso me basta.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:21 pm

— Obrigado, Simão.
O mesmo lhe digo eu.
Pode ter certeza de que sempre serei seu amigo, a qualquer hora!
Agora, por favor, me dê um café e um pão com mortadela.
— Mortadela? — agora quem riu foi Simão.
— Está mesmo se lembrando daquele dia!
— Estou sim...
Zeca tomou seu café e comeu o lanche em silêncio.
Despediu-se, foi embora.
Simão acenou um adeus.
_ "Que terá acontecido na vida desse rapaz?
Tem boa educação, por que se transformou num andarilho? "
Zeca foi para a casa do delegado.
Iria trabalhar no seu jardim, poderia assim pagar o quartinho que alugou na casa de Dona Consuelo, a mãe de Robertinho.
Enquanto caminhava, ia pensando naquele dia em que chegou à cidade.
" Só me lembro que já era noite e eu estava cansado.
Havia andado muito, não sabia por quantos dias, desde que aquela coisa horrível aconteceu.
Sabia e sei que foi minha culpa!
Da estrada, vi a cidade.
Caminhei em direcção a ela.
Cheguei aqui e precisava de um lugar para descansar.
O melhor lugar que encontrei foi um degrau na escadaria da igreja.
Estava cansado me recostei no degrau e adormeci.
Pela manhã, quando acordei, vi que pessoas passavam e entravam na igreja, provavelmente, indo à missa.
Olhei a minha volta e deparei-me com uma praça.
O dia estava apenas clareando.
Do interior da igreja, ouvi uma música cantada por várias vozes.
Vi também pássaros cantando e voando sobre as árvores muito verdes.
Naquele momento me extasiei com tanta beleza. Lembro-me que soltei um suspiro profundo.
- Quanta beleza tem este mundo!
Como nunca prestei atenção em tudo isso!? — eu disse em voz baixa.
Estava assim, extasiado com tanta beleza, quando um menino aproximou-se, dizendo:
— Bom-dia! O senhor dormiu aí?
— Acho que dormi!
Estava cansado e nem percebi...
— Deve estar com as costas doendo!
Esse chão é muito duro!
Aposto que está com fome também!
— Estou não só com as costas doendo, mas com todo o corpo também.
Esse chão é duro mesmo!
Está perguntando se estou com fome?
Estou, mas não tenho dinheiro para comer.
— Como não? O que é isso aí no chão?"
" Olhei e tinha uma porção de moedas.
Provavelmente as pessoas, ao entrarem na igreja, jogaram-nas ali."
— Não posso ficar com esse dinheiro!
Não sou mendigo!
— Não é? Mas que parece, parece!
— Não, eu não sou!
Pareço, mas não sou!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:21 pm

— Está bem. — disse com a voz pausada.
Não é um mendigo, mas que parece, parece.
As pessoas quiseram te dar esse dinheiro!
Ele é seu! Por isso, vamos até o bar do seu Simão.
Eu estou com muita fome...
— Você está com fome?
— Estou! Meu nome é Robertinho.
O seu como é?
- Muito bem, Robertinho, vamos comer, depois irei embora.
Meu nome é... Zeca... é isso mesmo... Zeca!
— Daqui pra frente vai ser o meu amigo Zeca!
Vem comigo, Zeca!
A gente vai lá no seu Simão!
" Segui o menino como se ele fosse o adulto e eu a criança.
Eu estava mesmo com fome.
Não me lembrava de quando fora a última vez em que havia feito uma refeição."
" — Bom-dia, seu Simão! — Robertinho disse com a voz pausada.
Esse aqui é o meu amigo Zeca!
Ele parece mendigo, mas não é!
Nós estamos com fome.
Quero um copo de café com leite e uma sanduíche de mortadela e o mesmo para o meu amigo.
Não se preocupe, ele tem dinheiro para pagar as duas sanduíches.
— Está bem, Robertinho.
Se ele é seu amigo, é meu também.
Vou preparar as sanduíches.
— Eu poderia usar o seu banheiro? — perguntei.
Queria lavar as mãos.
Estão muito sujas...
— Pode ir, é ali naquela porta."
^Entrei no banheiro.
Olhei para o espelho e não reconheci aquele que via a minha frente.
Meus cabelos estavam compridos e a barba grande. As roupas sujas, estavam rasgadas.
" Há quanto tempo estarei andando?
Não sei... só sei que, por mais que ande, não esquecerei dele e nem me perdoarei."
Saí do banheiro, voltei para o balcão.
Simão terminava de colocar na frente do Robertinho, um copo de café com leite e um enorme sanduíche de mortadela."
" — Vem, Zeca! — disse Robertinho com o copo na mão — Vem comer a sua sanduíche de mortadela!
— Mortadela?!
— O que foi? Nunca comeu mortadela?
_ Bem, eu não me lembro, mas acredito nunca ter comido mortadela em toda minha vida...
— Nunca comeu?
Então não sabe o que está perdendo!
Sei que vai gostar, e muito!
Não é verdade, seu Simão?
— É verdade sim! Sanduíche de mortadela é muito bom."
" Tomei o café e comi a sanduíche de mortadela.
Descobri que, por nunca ter comido, havia perdido muito, pois era saborosa.
Assim que terminamos de comer, Robertinho disse:
" — Agora, quero que venha comigo, Zeca.
Acho que está muito cansado e precisa descansar.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:21 pm

— Obrigado, Robertinho, você foi muito bom por me ajudar, mas preciso ir embora.
— Embora? Para onde?
— Não sei, vou continuar andando.
Até poder parar...
— Não pode parar? Por quê?
Está fugindo da polícia?
— Não! Não estou fugindo da polícia, só não posso parar... preciso continuar andando mesmo que seja sem destino.
— Está bem, mas antes vem comigo."
" Até hoje não entendo o que esse menino tem.
Só sei que continuei seguindo-o.
Chegamos a uma casa que fica em uma rua atrás da praça.
Uma casa modesta, mas bem pintada, com um jardim, onde havia roseiras plantadas. Entramos."
" — Mamãe! Este é o Zeca!
Ele parece mendigo, mas não é!
É meu amigo! Ele está com as roupas sujas!
Será que a senhora não tem alguma roupa do papai para dar a ele?
— Bom-dia, senhora.
O Robertinho trouxe-me até aqui, mas já estou indo.
Robertinho, obrigado por tudo!
Você é mesmo um amigão!
Até qualquer dia...
— Bom-dia, moço! Por que tanta pressa?
Se meu filho disse que o senhor é amigo dele, será bem-vindo a minha casa!
Ele tem razão, está muito sujo, precisa trocar de roupas.
Tenho algumas que meu marido não usa mais.
Devem servir no senhor.
Estou vendo que está precisando de um banho também.
— Não precisa se preocupar, senhora.
Não quero incomodá-la, já estou indo embora...
— Por quê? Não gostou da cidade?
— Gostei! E muito! É acolhedora!
— Então, não precisa ter pressa de ir embora.
Lá no fundo do quintal, tem um quarto e um banheiro.
Pode tomar um banho.
Vou lhe dar algumas roupas.
— Obrigado, senhora.
Acho que aceitarei, estou mesmo precisando de um banho!
— Robertinho, leve o moço e esta toalha até os fundos, mostre o banheiro para ele.
Depois, venha buscar as roupas.
— Está bem, mamãe!
Vem Zeca! Vem comigo!
" Acompanhei Robertinho.
Precisava de um banho.
Há vários dias eu estava andando sem parar.
Enquanto eu tomava o banho, Robertinho foi buscar as roupas.
Fiquei por muito tempo embaixo daquela água, que caía quente sobre o meu corpo.
Estava sentindo-me muito bem.
Depois de limpo e com roupa nova, senti-me um rei.
Olhei-me em um pequeno espelho que havia na parede.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:22 pm

Não tinha um pente, por isso passei os dedos por meus cabelos que, por serem lisos, rapidamente se ajeitaram.
Tornei a me olhar, gostei do que vi.
Me vesti e sai do banheiro.
Robertinho entrou, olhou e disse com a voz pausada:
— Agora sim... não parece mais um mendigo...
Eu, calado, acompanhei-o até a cozinha de dona Consuelo.
— Obrigado, senhora. Muito obrigado.
A senhora tem um bom coração.
Agora, estou indo embora...
— Sabe, senhor, enquanto tomava o seu banho, fiquei conversando com Robertinho.
Ele me convenceu de que o senhor poderia morar no quarto do fundo.
Está vazio mesmo.
Posso lhe alugar por um preço muito bom.
— Desculpe, senhora, mas eu não posso alugar.
Não tenho dinheiro e não posso parar de andar...
_ Se não está podendo parar de andar, deve ser para fugir de alguma coisa.
Não vai adiantar porque essa coisa está dentro do seu coração.
Como não pode viver sem coração, para onde, for, essa coisa o seguirá.
Quanto ao aluguel, não se preocupe, arranjará algum trabalho e, quando puder, me pagará.
Fique por alguns dias para recuperar as forças.
Depois, se quiser, poderá ir embora...
— Fique, Zeca! — Robertinho disse pulando.
Vou falar com algumas pessoas e você vai arrumar algum trabalho!
— Está bem, preciso mesmo descansar.
Ficarei, mas só por alguns dias."
Fiquei e estou aqui até hoje.
Não pretendo ir embora tão cedo.
Faço alguns bicos, ganho o suficiente para comer e pagar o aluguel, mas não consigo esquecer tudo aquilo que aconteceu..."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:22 pm

Alguns moradores da Cidade
Zeca seguia pensando, ouviu uma voz.
— Bom-dia, Zeca!
Pensei que não viesse!
— Espero que cuide do meu jardim.
— Bom-dia, Dona Carmem!
Fique tranquila, cuidarei de seu jardim e ficará bonito!
— Sei que posso ficar tranquila.
Você cuida muito bem do jardim, por isso, ele sempre dá belas flores.
Vou entrar e preparar o almoço.
Assim que o Manolo chegar, almoçaremos.
Estou preparando aquela carne que você tanto gosta.
— Obrigado, dona Carmem.
A senhora e toda a cidade me receberam muito bem e eu agradeço por isso.
— Não foi difícil.
Você é muito educado e gentil.
Até logo, meu filho. Cuide do meu jardim.
Dona Carmem entrou.
Zeca seguiu-a com os olhos.
Era uma senhora de mais ou menos quarenta anos.
Alegre e sorridente.
Era esposa do delegado.
Delegado que não tinha muito o que fazer, pois na cidade nada acontecia, só alguns casos de bebedeira ou brigas de vizinhos e que ele cuidava sempre com muita sabedoria.
"No dia em que cheguei, — Zeca continuou pensando — após tomar o banho, estava passando por aqui com o Robertinho.
Ele parou em frente à casa e disse, daquela maneira pausada:
— Dona Carmem... bom-dia.
Este é o meu amigo Zeca.
Chegou hoje na cidade.
Eu estava passando por aqui e vi que o seu jardim está muito feio.
O Zeca é um óptimo jardineiro e pode cuidar do jardim!
Sei que vai deixar tudo uma beleza!
— Eu? — perguntei espantado.
_ Você não acabou de falar que gosta de flores e de jardim, Zeca? — me perguntou piscando um olho.
Tenho certeza que vai deixar esse jardim uma beleza!
Não vai?!
— Vou?! Vou... é... vou!
— Está bem.
Se a dona Carmem quiser... nós vamos cuidar do jardim.
Sabe, Dona Carmem, eu não entendo nada de jardim, mas o meu amigo aqui sabe tudo.
Por isso, vou ficar com ele para que me ensine.
Você me ensina, Zeca?
— Eu?! Ensino, claro que ensino!
— Está bem, o meu jardim está precisando de limpeza.
Adoro as minhas rosas e está na hora de tratar delas.
Podem começar.
Se eu gostar, pagarei muito bem e darei almoço.
— Pode deixar, Dona Carmem. O seu jardim vai ficar uma beleza.
Não vai, Zeca?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:22 pm

_Vai...claro que vai, Robertinho — respondi, aturdido com aquela situação.
Dona Carmem nos levou até a um quartinho no fundo do quintal e nos deu as ferramentas que iríamos usar.
Em seguida, entrou em casa.
Eu estava muito nervoso com tudo aquilo.
Olhei para Robertinho, dizendo, nervoso:
— Robertinho, o que você fez?
Não entendo nada de jardim!
Nunca coloquei as minhas mãos na terra!
— Nunca colocou?
Mas agora vai ter que colocar.
Você disse que ia me ensinar... agora vai ter que ensinar...
— Como vou te ensinar uma coisa que não sei fazer?
— Não sabe?!
Então... a gente vai ter que aprender!
Não posso chegar agora para Dona Carmem e dizer que você não sabe nada de jardim!
Ela vai pensar que sou mentiroso!
E eu não sou!
Você vai ter que limpar o jardim!
Leva essa enxada e vamos começar.
Você precisa me ensinar!
Não tem outro jeito de sair da confusão em que você meteu a gente..."
" Fiquei calado.
Sabia que a intenção dele era de me arrumar um trabalho.
Assim começou a minha vida de jardineiro.
Robertinho foi me ensinando tudo.
Era tempo de férias, por isso podia ficar comigo o dia inteiro.
Após dois dias, o jardim estava todo limpo e as roseiras podadas.
Dona Carmem ficou contente e me recomendou para outras pessoas.
Desde então, sou o jardineiro oficial da cidade."
Enquanto Zeca ia relembrando, Simão continuava olhando para a praça e tentando descobrir quem havia mandado o dinheiro.
Viu entrar na pensão aquela moça.
"Quem será essa moça?
Chegou há pouco tempo na cidade, alugou um quarto, não fala com ninguém.
Anda sempre com um lenço na cabeça, acho que ninguém viu o rosto dela."
Estava assim distraído, olhando para aquela moça estranha, não percebeu que uma pessoa se aproximou:
— Bom-dia, seu Simão!
Preciso levar algum mantimento para preparar o meu almoço!
O senhor está bem?
— Estou muito bem, dona Paulina!
Estou olhando para aquela moça que entrou na pensão e que está sempre com o rosto todo coberto.
Quem será?
— Não tenho a menor ideia de quem ela seja, mas o senhor já soube do dinheiro?
Quem será que mandou?
— Não sei, estou pensando, mas por mais que pense, não consigo chegar à pessoa que mandou, é muito dinheiro!
Ninguém aqui na cidade parece ter tanto, a não ser a senhora!
— Eu?! Por que acha isso?!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:22 pm

— Nasceu aqui, depois foi embora, casou e todos sabem que o seu marido era um homem muito rico.
Ele morreu e a senhora voltou, deve ter ficado rica também!
— O senhor está certo em quase tudo.
Só que o meu marido perdeu tudo no jogo.
Quando morreu, fiquei sem nada, só com uma pequena pensão, que dá exactamente para eu viver.
Ainda bem que tenho esta casa que foi dos meus pais.
Não tive filhos, sou sozinha no mundo.
Essa é a verdade.
— Desculpe-me, Dona Paulina!
Acho que fui indiscreto e mal-educado, perdoe-me por favor...
_ Não tem importância.
É bom que as pessoas pensem que tenho dinheiro.
Uma pessoa com dinheiro sempre é mais bem recebida.
Já pude constatar isso...
_ A senhora tem razão.
Por que será que as aparências valem tanto?
Por que será que só as pessoas ricas têm valor?
— Não sei, mas infelizmente é assim.
Por isso, peço ao senhor que não comente com ninguém o que acabei de dizer.
Deixe que as pessoas pensem que muito rica.
Gosto disso!
— Desculpe-me, por favor, pode ficar tranquila.
Tudo o que falamos vai ficar aqui mesmo.
— Vou pegar os meus mantimentos e ir embora, senão o meu almoço vai atrasar.
Tenha um bom dia!
Ela pegou a mercadoria, pagou e foi embora.
Quem sou eu para criticar ou julgar a vida dos outros!
Logo eu? O mais infame dentre todas as criaturas!
Vim para cá, me escondi e sou respeitado por todos.
Tão respeitado que até eu mesmo esqueci do canalha que fui e do mal que fiz a tantas pessoas.
Sou mesmo um cretino!"
— Olá, seu Simão!
Está pensando na vida? Parece tão distante.
Viu o Robertinho por aqui?
— Olá, senhor Pedro!
Estou pensando na vida mesmo, mas às vezes é melhor esquecer.
O Robertinho passou aqui pela manhã.
Veio me contar sobre o dinheiro que o José recebeu, saiu dizendo que ia contar para a cidade toda.
— Aquele menino é danado mesmo.
Saiu de casa cedinho e até agora não voltou.
A mãe dele está preocupada.
— Não devia, já conhece o filho que tem.
Enquanto ele não contar para a cidade toda, não vai sossegar.
— O senhor tem razão.
É meu filho, mas não posso negar, ele é mesmo um fofoqueiro, não?
Falando no dinheiro, o senhor tem ideia de quem pode ter mandado?
— Não ligue para o menino, é coisa de criança, mas ele é muito querido por todos.
Quanto ao dinheiro?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:23 pm

Não consigo descobrir quem mandou.
Deve ser alguém daqui, mas quem foi?
Aí é que está o mistério. O senhor não tem ideia?
— Já pensei muito, mas não encontrei ninguém aqui na cidade, com tanto dinheiro.
O José não tem parente algum fora daqui.
Terá sido o Prefeito?
-Ele não! Se fosse ele, teria feito um discurso, festa e até banda de música.
Simão disse isso gargalhando.
— Jamais faria uma coisa dessas sem um espectáculo!
O senhor o conhece, sabe como ele é...
_ Tem razão. Não foi ele, não!
Então, quem terá sido?
— Não sei, mas um dia saberemos, com certeza.
Mesmo porque quem mandou, não interessa.
O importante é que o menino agora vai ter uma chance para se curar, não é?
— Sabe que é isso mesmo, seu Simão!
O importante é que o menino se cure.
Preciso ir.
Se o Robertinho passar por aqui, por favor, peça a ele para ir para casa.
E o nosso caçula, o meu outro filho está em Brasília e só vem aqui de vez em quando.
Por isso, a mãe fica tão preocupada com o pequeno.
— O senhor e a sua esposa são daqui mesmo?
— Sim, nascemos aqui.
Só saímos quando o meu filho precisou ir para a Capital estudar.
Resolvemos ir junto para que não ficasse sozinho.
Ficamos lá por um bom tempo.
O Robertinho nasceu lá.
Como as coisas não estavam dando muito certo, resolvemos voltar.
Robertinho era ainda um bebé.
— O senhor sabe que não conheço o seu outro filho?
Ele faz o quê em Brasília?
Ele já esta lá há oito anos.
Fez faculdade na Capital, prestou um concurso e foi para Brasília.
E advogado. Tem trinta anos e até agora não se casou.
Amou muito uma moça, mas os pais dela não permitiram o casamento.
Ficou muito triste e até agora não se envolveu com mais ninguém.
Trabalha muito. Aliás, só pensa no trabalho.
Acho que é para esconder a dor que ainda sente pela separação.
Eu, como pai, fico triste, mas não tenho o que fazer.
— A diferença de idade com o Robertinho é muito grande!
O senhor não teve outros filhos?
— Seu Simão... seu Simão... o senhor está pior que o Robertinho.
Gosta de fazer muitas perguntas.
Não, não tivemos outros filhos.
Só o Robertinho quando não esperávamos mais.
Veio de susto, como se costuma dizer!
— Sabe que o senhor tem razão! — disse Simão, soltando outra gargalhada.
— Estou me saindo um grande fofoqueiro!
É só falta do que fazer.
Fico o tempo todo atrás deste balcão, vendo todos passarem pela praça e fico tentando adivinhar o que acontece com a vida de cada um.
Pode uma coisa dessa?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:23 pm

Vá tranquilo.
Se o Robertinho passar por aqui, eu falo que o senhor está procurando por ele.
Até logo, seu Pedro.
— Até logo, seu Simão.
" Não entendo, — Pedro pensava assim que saiu — como falei tudo isso para o Simão.
Não comentamos a nossa vida com ninguém.
Mas senti que poderia contar, me parece ser de confiança.
Se a Consuelo souber disso vai ficar muito braba."
Simão continuou olhando para a praça.
Enquanto isso, Paulina chegava em casa.
Colocou tudo o que comprou sobre a mesa.
Estava de volta à cidade, há mais de um ano.
Olhou para a sala.
Sobre um móvel, viu um porta-retrato com a fotografia de seus pais.
— Papai... mamãe — disse com a voz chorosa.
Quando me casei, sei que ficaram felizes.
Nunca poderiam imaginar que um casamento tão grandioso, com uma festa tão bonita, fosse terminar assim.
Quando saí daqui, tinha apenas quinze anos.
Estava com a cabeça cheia de sonhos e a certeza de que iria vencer na vida.
Olhem o que me restou.
Fiquei casada por anos e agora?
O que vou fazer?
Não tenho escolha!
Não tenho um caminho para seguir!
Começou a chorar.
Seu corpo balançava com os soluços.
Desde que tudo aconteceu, nunca mais havia chorado.
Agora, sem saber o porquê, não conseguia conter as lágrimas.
Meu Deus do céu, por favor, mostre-me um caminho para que eu possa seguir.
Não sei o que fazer da minha vida, a não ser continuar fingindo que sou feliz.
Me ajude, Senhor."
Depois de muito chorar, foi até a janela.
Olhou para a rua.
Aquela hora as crianças estavam na escola.
A tarde seria aquela gritaria, com todas elas brincando na praça.
"Crianças. Por que Deus não me deu um filho?
Não! Foi muito melhor não ter tido um.
Agora, seria pior se eu tivesse um ou mais filhos.
Bem, não adianta ficar chorando.
Preciso fazer alguma coisa com o meu tempo, mas o quê? "
Enquanto isso, Zeca continuava no jardim de dona Carmem.
Ele aprendeu a mexer com a terra e a plantar.
Tratava as plantas com tanto amor que, tanto a terra como as flores, respondiam.
Tudo o que plantava florescia lindamente.
Naquele dia, por mais que tentasse, não conseguia esquecer o passado.
_”Fazia tanto tempo que eu não pensava no que passou.
Porque será?
Porque o Simão tinha que tocar nesse assunto sobre o dia em que cheguei?
Estou bem, longe de tudo e de todos.
Mas e os meus pais? Como estarão?
Desde aquele dia não dei mais notícias.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:23 pm

Devem estar preocupados.
Vou telefonar, ao menos para que saibam que estou bem. "
— Oi, Zeca!
Você sabe se o Gustavo está em casa?
— Bom-dia, Clarinha! Ele não está.
Vi quando saiu logo cedo e não voltou até agora.
— Zeca, por favor, quando ele chegar, diga que preciso falar urgente com ele.
Peça para ele me telefonar.
— Pode deixar, eu falo.
O que aconteceu?
— Nada importante, não precisa ficar preocupado.
Assim que eu conversar com Gustavo, vai dar tudo certo. Tchau.
— Tchau, Clarinha...
" O que será que está acontecendo com essa menina?
Ela está nervosa.
Esse namoro com Gustavo não vai dar certo..."
Voltou a cuidar do jardim.
Estava quase na hora do almoço.
" Dona Carmem disse que ia fazer a carne do jeito que gosto.
Isso é muito bom, estou mesmo com fome!"
— Oi, Zeca. O jardim está ficando muito bom!
— Está sim, delegado.
Esta terra é muito boa.
Em setembro, tudo estará florido.
O senhor verá!
— Você não vai entrar para o almoço?
Já está na hora.
Vou comer e voltar para a delegacia.
Estou tentando descobrir quem mandou o dinheiro para o José.
— Por quê? É contra a lei?
— Não! Não é contra a lei, Zeca!
Só é estranho.
Por que alguém mandaria tanto dinheiro, sem dizer quem é? Porquê?
— É estranho mesmo, delegado.
Deve ser alguém da cidade que tem muito dinheiro e não quer que ninguém saiba.
— Também já pensei nisso, mas quem seria?
Embora ninguém possa negar que esse dinheiro tenha chegado em boa hora.
O menino estava mesmo precisando e urgente.
— Isso é verdade, delegado.
Sem esse dinheiro, o José não poderia cuidar do filho.
Ele estava muito angustiado.
— Zeca, deve ser horrível não poder cuidar de um filho.
A doença do menino é grave.
Agora ao menos, não vai morrer por falta de tratamento.
Seja quem for essa pessoa, que Deus a abençoe.
Vamos entrar.
Você viu se o Gustavo chegou?
— Não, ele ainda não chegou.
A Clarinha também está procurando por ele.
— Não estou gostando desse namoro.
Essa menina é filha daquela mulher que não sabe nem quem é o pai da filha.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:23 pm

— Mas a Clara é uma boa moça!
A mãe dela também!
Sabe-se lá por que não quis dizer quem ele é.
— Não sei, não.
Ela nasceu aqui na cidade.
De repente ficou grávida e nunca quis dizer quem era o pai.
Nasceu a Clara e até hoje ninguém sabe. Gosto da menina.
Só que é preciso saber tudo a respeito da família, para que não haja problemas para os futuros filhos.
Tomara que esse namoro seja só um passatempo para o meu filho.
Não gostaria de vê-lo casado com uma moça igual a ela.
Já vivi muito, delegado, e aprendi que dinheiro e posição social não mudam o carácter das pessoas.
Elas são boas ou não, independentemente do dinheiro ou da posição social.
A Clara, embora tenha sido criada sem pai, é uma óptima menina.
— Pode ser, mas não gostaria que se casasse com meu filho.
Vou conversar com o Gustavo.
Preciso fazê-lo entender que ela não é uma boa moça para se casar.
— Quem sou eu para lhe dar um conselho.
Mas mesmo assim vou dar.
Deixe-os resolver.
Em casos assim, não adianta interferir.
Quanto mais proibido for, pior ficará.
Afinal, se eles se amarem mesmo, não adiantará o senhor proibir.
— Que é isso, Zeca?
Conheço o meu filho!
Ele jamais ousaria me desobedecer!
Sabe que precisa da minha ajuda para continuar estudando!
Sem o meu dinheiro, nunca conseguirá ser médico e esse é o sonho da vida dele.
Ele ainda é muito jovem.
Está indo para a Faculdade de Medicina.
Sem o meu auxílio, jamais conseguirá!
— O senhor tem razão.
Ele é ainda muito jovem.
Por isso, não há com o que se preocupar.
Vamos almoçar?
Dona Carmem disse que ia fazer aquela carne assada que só ela sabe preparar.
Aquela, que nós dois tanto gostamos.
_ É isso aí, vamos comer e na hora da comida não se deve discutir sobre problema algum.
_ Tem razão. Ainda mais quando a comida é a da dona Carmem, é um pecado estragar.
Entraram e a mesa para o almoço já estava arrumada.
O casal tinha outros dois filhos.
Sónia, com quatorze anos, e Wagner, com onze.
Dona Carmem chamou as crianças que vieram e se sentaram.
— Carmem, onde está o Gustavo?
— Foi até a biblioteca, já deve estar chegando.
— Preciso falar com ele sobre a Clara.
— Ora, Manolo! Não se preocupe com isso.
São duas crianças!
Ele vai para a faculdade e esse namoro vai terminar.
— Mesmo assim vou falar com ele.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 04, 2017 7:23 pm

— Bom-dia, gente! Cheguei na hora!
— Bom-dia, meu filho. Sente-se aqui.
— Gustavo! — disse o delegado com a voz ríspida.
Depois do almoço precisamos conversar.
— Está bem papai, mas agora estou com muita fome.
Esta comida está cheirando muito bem.
Comeram. Zeca tornou-se parte de todas as famílias para quem trabalhava.
Falava e se portava muito bem à mesa, o que fez com que todos tivessem a certeza de que ele era uma pessoa de educação refinada.
Por isso, queriam a sua amizade.
Na realidade, o que queriam mesmo era saber quem ele era.
Após o almoço, Zeca voltou para o jardim.
O delegado chamou o filho e foram para a varanda.
Carmem foi levar os outros filhos para a escola.
Na varanda, o delegado disse:
— Gustavo, a Clara veio lhe procurar.
Quero saber o que está acontecendo entre vocês e por que ela está te procurando?
— Estamos namorando, mas o que ela queria?
— Não sei o que queria.
Ela falou com o Zeca.
Só quero que termine esse namoro.
Ela não é uma boa moça para você!
— Como não é uma boa moça?
— Ela não sabe nem quem é o pai!
_ O que tem isso a ver com a moral dela?
É uma óptima moça, educada, estudiosa e fiel.
Gosto muito dela.
— Você é muito jovem e está indo para a Faculdade.
Por isso, acho melhor terminar esse namoro.
Mais tarde, quando voltar, já sendo um médico, poderá resolver.
— Papai! Estou namorando!
Não vou me casar agora!
Gosto muito dela, mas só estou namorando.
— Está bem, meu filho.
Só espero que não queira se casar com uma moça como ela.
— Não se preocupe.
Vou falar com o Zeca e ver o que ela queria.
Até, logo papai.
O senhor tem que voltar para a delegacia?
— Tenho e já estou indo.
— Tchau, Zeca! — disse ao passar por ele.
— Tchau, delegado.
Zeca ficou olhando o delegado ir embora.
Não ouviu o que os dois falavam, mas percebeu que estavam nervosos.
— Zeca, o que a Clara queria comigo?
— Não sei, Gustavo.
Ela disse para você telefonar e que estaria em casa a tarde toda.
— Está bem, vou telefonar.
Obrigado, Zeca.
Gustavo entrou, ligou para Clara.
— Gustavo, preciso falar, urgente, com você.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:36 pm

— Clarinha! O que aconteceu?
Por que está tão nervosa?
— Não posso falar por telefone.
Vamos nos encontrar na praça, lá pela seis horas.
Então, conversaremos.
— Está bem, estarei lá.
Mas não fique tão nervosa.
Preocupado, desligou o telefone.
À tardinha, após terminar o serviço, Zeca recebeu o dinheiro e foi embora.
No caminho parou em um telefone público e telefonou para sua mãe.
— Alô, mamãe! Sou eu!
_Ai, meu filho! — ela disse chorando — Ainda bem que telefonou!
Estou muito preocupada com você!
Onde está? Como está?
Volte para casa! Estamos todos te esperando!
_ Calma, mamãe. Deixe-me falar.
Liguei porque sabia que estavam preocupados comigo, mas não há necessidade.
Estou muito bem, porém ainda não posso voltar.
Estou vivendo em uma cidade muito boa.
Não se preocupe.
Ainda não estou preparado para voltar.
Talvez um dia eu volte, mas o importante é que estou muito bem.
- Meu filho, volte!
Já passou muito tempo e você não teve culpa de nada.
Aconteceu o que tinha que acontecer...
- Eu sei que tive culpa!
Se tivesse cumprido com o meu dever, nada daquilo teria acontecido.
Não posso voltar ainda e, para ser sincero, acho que jamais voltarei!
— Não diga isso, meu filho!
Onde você está?
Posso te mandar pelo menos um pouco de dinheiro para se manter!
— Não precisa!
Estou morando e comendo muito bem!
Estou bem, mamãe!
Acredite nisso e fique tranquila!
— Você está trabalhando?
Está vivendo do quê?
— Estou trabalhando!
Sou um óptimo jardineiro!
Jardineiro?!
Depois de estudar tanto?
De sempre ter sido um dos melhores alunos?
Deve estar louco!
— Não, mamãe. Não estou louco!
Estou muito feliz!
— Filho, diz onde está!
Não aguento mais de saudade...
Eu também estou com saudade de todos, mas ainda
não tenho condições de voltar.
Quem sabe um dia. Não se preocupe.
Estou muito bem! Vou desligar!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:37 pm

Um beijo para todos.
Eu amo vocês de todo o meu coração!
— Espere, meu filho! Não desligue.
Ele desligou.
De seus olhos, duas lágrimas desceram.
" Por que o Simão me fez lembrar daquele dia?
Pobre mamãe. Mas não posso dizer onde estou, pois, com certeza, todos viriam me buscar e eu não quero voltar para tudo aquilo.
Não por enquanto.
Quem sabe um dia. "
Saiu do telefone e foi para o bar do Simão.
Assim que chegou, foi recebido com um sorriso de Simão:
— Olá, Zeca! Terminou mais um dia de trabalho?
— Terminei e estou cansado.
Esse negócio de enxada é um bocado pesado.
Mas o jardim do delegado vai ficar bonito!
— Olha lá quem vem vindo para cá!
— O Robertinho com aquela moça estranha!
O que será que esse menino aprontou agora?
— Só temos que esperar para ver, assim que chegarem, pois estão vindo para cá.
— Oi, seu Simão! Oi, Zeca!
— Olá, Robertinho, mas o que traz você aqui?
Esta aqui é a minha amiga, Célia!
Ela esconde o rosto... porque diz que não gosta que as pessoas vejam a cara dela, mas disse também que não é feia não, é até muito bonita!
Ela precisa falar com o senhor, seu Simão!
— Pois não, senhorita!
O que deseja?
Todos os amigos do Robertinho serão sempre bem-vindos!
— Obrigada, senhor.
Já descobri que é um privilégio ser amiga dele.
Todos o recebem muito bem.
— Pode ter certeza disso!
Ele é uma espécie de mascote da cidade.
Mas, o que a senhorita deseja?
— O Robertinho me disse que o senhor tem uma casa, aqui na praça, e que ela está vazia.
Gostaria de saber se pretende alugar.
— Tenho a casa, sim, e está toda reformada.
Quero e preciso alugar.
Se a senhorita gostar, terei o maior prazer!
— Poderia me mostrar?
— Claro! Só tem um problema.
Estou aqui sozinho.
O Juca foi até em casa, voltará daqui a pouco.
— Pode ir, Simão.
Eu fico aqui até o Juca voltar.
— Obrigado, Zeca. Não vou demorar.
— Pode ir tranquilo.
Simão saiu com a moça.
Zeca ficou pensando:
" Por que será que ela faz questão de não mostrar o rosto?
Será que é muito feia? "
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:37 pm

Simão, também curioso, seguia com ela e dizia:
— Senhorita. A casa não é grande.
Só tem um quarto, sala e uma cozinha.
— Pode me chamar de Célia.
Afinal, agora vou ser uma moradora oficial.
O tamanho da casa está óptimo. Moro sozinha.
O importante é que seja aqui na praça.
— Sendo assim, seja bem-vinda.
Falo em nome da cidade!
Chegaram à casa.
Célia olhou tudo e falou:
— Gostei! Era uma casa assim que estava procurando.
Quanto é o aluguel?
— Duzentos mil cruzeiros. É muito?
Não, está óptimo! Alugarei por seis meses.
Não decidi ainda por quanto tempo ficarei.
Por isso, faremos assim.
— Está bem, pode ficar o tempo que quiser!
Vamos voltar para o bar? Lá combinaremos.
Voltaram para o bar.
Zeca e Robertinho conversavam alegremente.
Célia, ao vê-los, disse:
— Robertinho, gostei muito da casa.
Vou alugá-la!
— Que bom que gostou!
Mas se não tivesse gostado eu arranjava outra!
Você é minha amiga!
— Quando ele diz isso é um perigo.
Meu nome é Zeca, muito prazer em conhecê-la, senhorita. Seja bem-vinda.
— Muito prazer e obrigada.
Como eu disse ao senhor Simão, pode me chamar de Célia.
Serei moradora daqui por um tempo.
— Está bem, Célia.
Sendo assim, me chame de Zeca!
— Seu Simão, o que está achando dos meus dois amigos?
— Parece que, desta vez também, você soube escolher, Robertinho.
Bem senhorita, preciso dos seus documentos para fazer o contrato de locação.
— Sem documentos.
Vou pagar os seis meses adiantados.
— Não precisa. Pode pagar por mês.
— Obrigada, mas prefiro pagar adiantado.
— Está bem. Se é assim que quer. Vou lhe dar um recibo.
— Não quero recibo, confio no senhor.
Simão olhou para Zeca e Robertinho.
Os dois abanaram a cabeça para que ele aceitasse.
— Está bem. Se a senhorita confia, está tudo certo.
— Olha lá o Gustavo e a Clarinha! — quase gritou Robertinho — Parece que estão brigando!
Olharam para um dos bancos que existia na praça.
— Robertinho, você tem razão. — disse Zeca — Parece que eles estão brigando mesmo.
Ela está chorando.
Na realidade, eles estavam apenas conversando:
— Clarinha, que boa notícia está me dando!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:37 pm

— É isso que te contei, Gustavo!
Passei no vestibular.
Eu era a primeira da segunda chamada da lista de aprovados.
O último aprovado desistiu e recebi esta carta da faculdade dizendo que fui aprovada e que posso fazer a minha matrícula!
— Então, poderemos ir juntos?
Isso vai ser a glória!
— Como irmos juntos?
Não tenho dinheiro para fazer a matrícula, muito menos pagar as mensalidades e me manter lá!
Estou nervosa.
Já tinha aceitado a sua ida para a faculdade.
Agora, eu também poderia ir, mas como?
Se eu tivesse um pai, com certeza, me ajudaria, mas com o que minha mãe ganha lá no posto de saúde nunca conseguirá me manter estudando.
Estou tão triste.
— O ideal seria você ir comigo para a Capital.
Alugaríamos um apartamento e poderíamos morar juntos, mas também não tenho como pagar os seus estudos e sua estadia.
Meu pai vai me custear, jamais aceitará o nosso amor.
Ele acha que ainda sou criança e tem grandes planos para o meu futuro.
— Eu posso trabalhar!
— O que vai ganhar não dará para pagar nem o aluguel!
Vou falar com o meu pai.
Quem sabe ele mude de ideia!
— Se eu soubesse ao menos quem é o meu pai, mas minha mãe se recusa a me dizer, por mais que eu insista.
Clara chorava muito. Gustavo a abraçava.
Do bar, os quatro continuavam olhando aquela cena.
— Vou até lá ver o que está acontecendo!
— Robertinho! — disse Zeca nervoso — Vai ficar aí mesmo!
Não tem que ir até lá!
Deve ser um assunto sério e eles estão resolvendo.
Vai embora comigo.
Sua mãe está nos esperando para o jantar.
Até logo, Simão. Até logo, Célia.
Célia e Simão riram do jeito como Zeca falou com o menino.
— Esse menino é terrível, Célia — disse Simão rindo.
Quer saber tudo o que acontece para ser o primeiro a contar.
— Ele é uma gracinha, Simão.
Vou precisar de alguns móveis.
Poderia me dizer onde encontrá-los?
— Vá até a loja do Guerino lá na esquina.
Ele tem móveis muito bons.
Diga a ele que fui eu quem o indicou.
— Hoje já está tarde.
Irei amanhã cedo e também trarei o dinheiro dos seis meses.
Se tudo der certo, mudarei amanhã.
— Tudo bem, espero que seja feliz na nova casa.
Enquanto Célia saía, José entrou no bar.
_ Olá, José! Como vai?
Não sei se sabe, mas hoje você foi o assunto preferido da cidade.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:37 pm

— Olá, Simão! Eu sei, ainda bem que esse dinheiro chegou.
Estou aqui para ver se você viu o Elias por aqui.
Preciso do táxi dele para levar o meu menino amanhã bem cedo para a Capital.
— Ele acabou de sair.
Foi levar um passageiro, mas deve voltar logo.
Enquanto isso, vamos conversar?
Você não sabe mesmo quem mandou esse dinheiro?
— Não! Não sei. Acho que foi Deus.
Estávamos desesperados.
O meu filho precisava ser operado, mas eu não tinha condições.
Rezamos muito, eu e a Emília.
Sem esperarmos, chegou um aviso do Correio.
Fui até lá e o Germano me contou sobre o dinheiro que estava a minha espera, e me deu uma carta com o endereço do médico que devo procurar.
Tinha muito dinheiro e na carta estava escrito que era para levar o menino àquele médico e naquele hospital.
Tem também um quarto reservado em um hotel, perto do hospital, para eu e a Emília ficarmos hospedados, enquanto durar o tratamento do menino.
Eu e a Emília, a princípio, não acreditamos, mas era tudo verdade.
— Você não tem algum parente com muito dinheiro?
Ou alguém conhecido?
Não tem ideia mesmo de quem foi?
— Não! Nunca saímos daqui!
Os nossos parentes também nasceram, foram criados e estão todos aqui!
Além do mais, aqui nesta cidade, acredito que não tenha alguém com tanto dinheiro.
Talvez a Prefeitura, mas acho que não foi o Prefeito.
Não sei quem foi, mas agradeço a Deus e a essa pessoa.
Que Deus lhe pague.
Olha o Elias chegando!
Vou falar com ele!
Até logo, Simão!
José saiu.
Simão o acompanhou com os olhos.
José ficou conversando com Elias.
Enquanto isso, Clara e Gustavo se despediam, indo cada um para sua casa.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:38 pm

A Hora da Verdade
Clara chegou em casa com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— O que aconteceu, minha filha?
— Não aconteceu nada!
— Como não aconteceu nada?
Seus olhos estão vermelhos!
Você chorou, e muito!
— A culpada de toda minha infelicidade é a senhora!
— Eu?! O que foi que fiz?
— Não sabe quem foi meu pai?
Se sabe, por que não quer me diz quem é ele?
Por não ter pai, sou apontada por todos!
Por isso, não vou poder me casar com ninguém!
— O que é isso, Clara?
Você não tem culpa de nada!
— Vá dizer isso para o delegado!
Ele nunca vai deixar eu me casar com Gustavo!
Só porque não sabe quem é o meu pai!
Diz mamãe, por favor!
Quem é meu pai?
— Já te disse muitas vezes, mas vou repetir.
Seu pai foi um caixeiro-viajante que passou por aqui, me apaixonei e ele foi embora.
Nunca mais voltou.
Nem sabe que você nasceu.
Não tem nada que eu possa fazer.
Sempre fiz o impossível para te ver feliz.
Gustavo é um bom rapaz e vai conversar com os pais.
Se eles entenderem que vocês se amam, aceitarão.
Nunca! — Clara disse olhando com ódio para a mãe.
Conhece a mentalidade das pessoas desta cidade.
Nunca aceitarão! Como a maioria não aceita!
Diz, quantas amigas eu tenho?
Para quantas festas fui e sou convidada?
— Você nasceu! Está viva!
É uma óptima menina.
Tem a vida toda pela frente!
Ainda vai ser muito feliz!
— Feliz como a senhora foi?
Por que não se casou até hoje?
Por que não foi embora daqui?
Por que não me criou longe de tudo e de todos e, principalmente, desta cidade?
— Você tem muitas perguntas.
Vou tentar responder.
Sou muito feliz porque tenho você.
Não me casei porque não encontrei ninguém a quem amasse.
Não fui embora porque não tinha e continuo não tendo condições financeiras.
Sinto que o seu pai faça tanta falta.
Infelizmente, não posso te ajudar nesse sentido, mas eu posso te ajudar com todo o resto.
Clara não respondeu.
Foi para o seu quarto e, chorando, bateu a porta.
Regina ficou pensando:
_ Como posso contar tudo a ela?
Como posso dizer quem é seu pai?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:38 pm

Faz tanto tempo!
Eu era ainda uma menina.
Meu Deus! Tudo está se repetindo!
Do mesmo modo que Gustavo, ele também estava indo estudar fora.
Ele foi e eu fiquei.
Quando voltou, estava casado.
Não me procurou. Nunca quis saber da filha. Não quis nos assumir.
Casou-se por interesse, por dinheiro, para continuar com o nome da família.
Meu Deus.
Eu devia mesmo ter ido embora..."
Gustavo, por sua vez, também falava com os pais.
— Papai, mamãe.
A Clara também passou no vestibular.
Queria que ela fosse comigo.
— Como?! Quem vai financiar?
Ela nem sabe quem é o pai!
Você deve se afastar dela.
É igual à mãe, logo estará esperando um filho sem pai!
Deus queira que não seja seu!
— Manolo! Deixe ele falar.
Gustavo, você gosta da Clara?
— Muito, mamãe.
Não sei o que o papai quer dizer quando diz que ela é igual à mãe.
A dona Regina é uma mulher honesta, que trabalha e cuida com muito carinho da filha!
— Ela devia ter saído desta cidade. — disse o delegado raivoso — Ou ter abortado a criança!
— O senhor está vendo, papai, porque a Clara não sabe quem é seu pai?
Deve ter sido um homem que pensava assim como o senhor e que não quis assumi-la!
Eu amo a Clara e quero que vá comigo para a faculdade.
Só depende do senhor!
— De mim? Está louco!
Não tenho nada a ver com ela!
— Se nos ajudar, poderemos continuar juntos!
— Pode esquecer.
Já está difícil de te mandar!
Esqueça essa menina!
Você vai conhecer moças bonitas e da nossa classe social.
— Não adianta, papai, se ela não for, também não irei!
O senhor tem dinheiro suficiente para nos manter, nós dois!
— Calma! — interrompeu Carmem.
Vocês estão se alterando e começando a falar uma porção bobagens!
Gustavo, vá para seu quarto.
Vou conversar com o seu pai.
Encontraremos uma solução.
No final, tudo dará certo.
Gustavo foi para o quarto.
Estava muito nervoso com a atitude do pai.
Assim que ele saiu, Carmem disse:
— Manolo, vá com calma.
Não adianta agir assim.
O problema está aí, temos que resolver.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:38 pm

Por enquanto, você não fará nada!
Vou falar com a Clara e com a mãe.
Depois, veremos o que dá para se fazer.
O que não adianta é querer proibir.
Isso não vai levar a nada.
Só vai precipitar as coisas.
— Está bem, vou esperar.
Se você não conseguir, aí então vou tomar as minhas providências.
Carmem sorriu.
Ela sabia que o marido fazia sempre uma tempestade num copo d'água, mas no fundo não passava de um menino grande que, quando fica assustado, só sabe brigar para se defender.
Foi até o telefone e ligou para Regina.
Combinaram que ela iria até a sua casa para conversar a respeito dos filhos.
Regina estava assustada, mas sabia que aquela conversa era inevitável.
Pediu para Clara ir comprar alguma coisa para o jantar.
Não queria que a visse conversando com Carmem.
A menina estava muito revoltada.
Era preciso ter cautela.
Gustavo sentia-se sufocado dentro de casa.
Resolveu sair e dar uma volta na praça.
Encontrou-se com Clara.
Sentaram-se em um banco.
Ela contou o que havia conversado com a mãe e ele, o que falou com os pais.
Abraçaram-se e ela chorava.
— Não se preocupe.
Falei para o meu pai que, se ele não te mantiver lá, comigo, também não irei.
Ficarei aqui!
— Você não pode fazer isso!
Foi sempre o seu sonho, ser médico!
Minha mãe disse que não pode me manter lá, pois com o que ganha, só dá mesmo para nos manter aqui.
Você vai para a faculdade, sim!
Eu ficarei aqui te esperando.
_ Pode ter certeza de que voltarei e, aí, seremos felizes!
Carmem chegou na casa de Regina, que sorriu ao vê-la:
— Boa-tarde, Carmem!
Vamos entrar. Faz muito tempo que não vem a minha casa!
— Boa-tarde, Regina!
Faz mesmo muito tempo, mas agora precisamos conversar.
Vai ser uma conversa difícil.
— Sim, temos que conversar.
Estou feliz por estar aqui.
Entraram e sentaram-se.
Carmem começou a falar:
— Você está sabendo o que acontece com nossos filhos?
— Estou sabendo e preocupada, sem saber o que fazer.
— Também não sabemos, por isso estou aqui.
— Já conversei com a Clara e disse a ela que infelizmente não tenho meios para ajudá-la.
Não tenho recursos financeiros.
— Gustavo disse que, se o pai não a mantiver na faculdade, ele também não irá.
Estou muito preocupada...
— Ele não pode fazer isso!
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Ave sem Ninho

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:39 pm

É o sonho da vida dele!
Estudou muito!
Infelizmente não posso mandar a minha Clara, mas vocês podem.
Vou falar com Clara.
Ela fará Gustavo mudar de ideia!
— Você é uma boa mulher.
Apesar de todo o preconceito, criou a sua filha com muita dignidade.
— Fiz o possível.
Ainda mais em uma cidade como esta, onde todos acusam e discriminam, mas posso lhe adiantar que nunca, nem por um minuto, eu me arrependi de ter tido a minha filha.
Ela é maravilhosa e é tudo que tenho nesta vida.
— Sabe, Regina, nunca entendi por que você não contou e nem conta quem é o pai da sua filha.
Naquele tempo, éramos amigas, mas mesmo assim você não me contou.
— No momento em que ele não quis assumir, achei que não seria um bom pai e que eu teria de criá-la.
Foi isso que fiz.
— Quem é o pai dela?
Agora terá de dizer.
Sabendo quem é o pai, ele terá que dar todo o dinheiro que ela precisar.
Será também mais fácil convencer o Manolo a aceitar sua filha.
— Minha filha é quem é!
Não importa se é filha minha ou de qualquer outra e, de que pai seja!
Ela é uma moça maravilhosa.
Se não contei há dezanove anos atrás, não será agora que contarei.
Se o Manolo não aceitar, não tem a menor importância.
Clara encontrará um homem que a ame, mesmo sem saber quem é seu pai! — Regina disse muito nervosa.
_ Você não tem o direito de continuar escondendo a origem da sua filha!
Tem que contar a verdade!
— Você é quem não tem o direito de me fazer uma pergunta dessa!
Minha filha decidirá a sua vida e eu estarei ao seu lado! Você pode ficar ao lado do seu filho!
— Não vou deixar meu filho estragar a vida dele!
— Então não temos mais nada para conversar!
Boa-tarde. Vamos ver como tudo vai ficar.
Esse assunto não é nosso!
" Eu a conheço desde menina.
Éramos amigas, mas quando ela ficou grávida, não quis contar a ninguém quem era o pai da criança.
Ela não tinha pais, vivia na casa do coronel como empregada.
Mas não pode ter sido ele, terá sido o Raul?
Ele deve ser uns cinco anos mais velho que ela.
Se foi ele, por que ela não contou?
Hoje ele está casado e tem dois filhos, mas, naquele tempo, ele era solteiro.
Estava estudando na Capital, ele só vinha para cá passar as férias.
Terá sido em uma dessas visitas?
Não sei. Nunca me preocupei muito com isso, mas se ele for o pai, Clara tem o direito de saber!
Não sei o que fazer. — Carmem saiu pensando.
Foi para casa. Manolo não estava lá.
As crianças e Gustavo também não estavam em casa.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:39 pm

Carmem não sabia o que fazer.
Zeca, após conversar com a mãe, ficou tranquilo e foi até o bar do Simão.
Depois de muito tempo, estava sentindo saudade de casa.
Durante o caminho, foi pensando:
"Como minha mãe disse, já faz muito tempo que tudo aconteceu.
Mas ainda parece que foi ontem.
Não posso voltar. Ainda não.
Não tenho esse direito."
Chegou ao bar.
Simão estava lavando alguns copos e pensando em tudo o que estava acontecendo.
Zeca sentou-se em uma cadeira e pediu um refrigerante.
— Você está preocupado com alguma coisa, Zeca?
Parece que não está bem. — Simão perguntou preocupado.
— Estou bem. Só tirei o dia hoje para pensar, e pensar nem sempre é bom.
Olhe o Gustavo e a Clarinha!
Estão novamente conversando lá na praça.
Parece que estão com algum problema.
Simão olhou para a direcção em que os dois estavam e disse:
— Não sei não, Zeca, mas parece que alguma coisa está acontecendo e, do modo como estão, parece ser grave.
— Tem razão, Simão, mas nessa idade, posso apostar que estão fazendo uma tempestade em copo d'água.
— Pode ser, mas parece que é algo grave e só mesmo o Robertinho pode descobrir.
— Simão, você tem razão.
Só mesmo ele.
Zeca sorria enquanto dizia isso.
Em seguida, foi embora. Ele não estava bem.
Queria deitar e ficar pensando em tudo o que havia se passado.
Conversar com a mãe o deixou muito triste.
O que será que aconteceu na vida desse moço? — Simão pensava enquanto Zeca se afastava.
Enfim, quem sou eu para me preocupar com o passado das pessoas?
A minha sorte foi ter o meu tio, que viveu aqui a vida toda e, quando tudo aconteceu, foi-me buscar!
Trouxe-me para cá.
Fiquei por muito tempo na casa dele.
Fui aos poucos aprendendo a lidar com este bar e, quando ele morreu, acabei continuando a viver uma vida que não era a minha.
Vivo hoje com simplicidade e na companhia de pessoas simples.
Nunca me senti tão bem.
Como, de repente, tudo pode mudar na nossa vida?
Agora chega! Vou para casa.
Amanhã será outro dia."
Fechou o bar e foi embora.
No caminho ia olhando as casas.
Todas com jardins muito bem cuidados.
Aquele lugar era o melhor do mundo para se viver.
Longe da poluição e do barulho das grandes cidades.
A noite caiu sobre Céu Dourado.
O sol, que estava amarelado, foi aos poucos ficando dourado e se escondeu.
Surgiu um céu muito estrelado.
A lua cheia iluminava a cidade, que se preparava para dormir.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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