A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 10, 2017 8:07 pm

Está muito doente e quer te pedir perdão.
_ Me pedir perdão?
Mãe, o que fiz não tem perdão!
Ele teve toda razão!
Fui o único culpado!
Continuavam abraçados, falando e esquecidos de onde estavam.
A presença daquele carro, ao parar diante do bar, atraiu a atenção.
Muitas pessoas vieram para ver de perto.
Todos acompanhavam aquele encontro.
Simão se aproximou, colocou a mão sobre o ombro de Zeca:
—Zeca, acho melhor irem conversar em outro lugar.
Todos estão curiosos e olhando.
Vá para sua casa.
— Vou, sim, Simão, mas antes preciso dizer uma coisa — levantou-se, olhando para as pessoas, disse:
— Fui muito bem recebido por todos, aqui na cidade.
Quero que conheçam a minha mãe!
E a mulher mais fabulosa deste mundo!
As pessoas, surpresas, começaram a aplaudir.
— Simão, você tem razão.
Levarei mamãe para casa e lá conversaremos.
Preciso contar tudo o que me aconteceu.
Olhou para Regina que, como os outros, não estava entendendo e continuou falando com Simão:
— voltarei mais tarde e lhes contarei tudo.
Vamos, mamãe, para a minha casa.
Robertinho, leve o João até em casa e eu irei caminhando com minha mãe.
— Pode deixar, Zeca, eu levo o seu João!
Seu Simão!
Não disse que ele parecia... um mendigo... mas que não era?
— É, Robertinho, você tinha razão. — disse sorrindo.
Mãe e filho saíram abraçados.
Robertinho, todo imponente, entrou no carro.
As pessoas foram se afastando, só ficando ali os amigos que se olhavam.
Clara se aproximou de Regina:
— Mamãe, o que significa tudo isso?
_ Não sei, Clara, mas parece que o seu mendigo, não era tão mendigo assim!
Estou muito feliz por ele...
— Vamos tomar alguma coisa? — perguntou Simão, abismado, e não vai ser refrigerante!
Preciso de algo coisa mais forte!
— Nós ficaremos com refrigerante.
Sabe que não bebemos, Simão — disse Paulina.
— Está bem, mas o que estão achando de tudo isso?
— Ele é muito educado.
Sempre me tratou muito bem e elogiou a minha pintura.
Ficaram conversando.
Cada um imaginando quem seria Zeca e por que havia largado tudo.
Regina pensou:
Por que não me contou que era rico?
Eu estava tão feliz e agora?
Como vai ser?
A mãe dele é uma pessoa fina e educada, não vai aceitar uma moça pobre, sem instrução."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 10, 2017 8:07 pm

O carro estacionou na frente da casa de Consuelo.
Robertinho desceu correndo e gritando:
— Mãe! Mãe!
Vem ver que carrão!
Consuelo ouviu os gritos do filho, saiu assustada:
— O que aconteceu?
Por que está gritando tanto?
Ao ver o carro parado em sua porta, parou, dizendo:
— Robertinho! Que carro é esse?
— É da mãe do Zeca!
Eles estão chegando!
— Que mãe? Quem está chegando?!
— O Zeca e a mãe dele, mamãe!
Parece que ele é rico...
— Moço, não ligue para o meu filho, ele é um pouco estabanado.
Posso saber o que deseja?
— Sou motorista.
A minha patroa está chegando.
Olhe lá, ela está vindo com o meu patrão.
Ela olhou e viu Zeca chegando abraçado com a senhora.
- Dona Consuelo, — disse aproximando-se — esta é a minha mãe.
Mamãe, esta é Dona Consuelo, o anjo bom que me acolheu em sua casa e me deu todo o carinho como se fosse uma mãe.
Este é o Robertinho, que a senhora já conhece.
— Sou o primeiro amigo dele!
A mãe de Zeca passou a mão sobre a cabeça de Robertinho, sorriu e estendeu a mão para cumprimentar Consuelo que estava envergonhada, com as mãos enroladas no avental e sem saber o que fazer ou dizer.
Soltou uma das mãos e estendeu-a para a senhora tão fina, mas que mantinha no rosto um sorriso feliz tão humilde.
Muito prazer, minha senhora.
Quero lhe agradecer por ter acolhido o meu filho e ter cuidado dele todo esse tempo.
Consuelo, tímida, por estar na presença dela, gaguejou:
— O prazer é todo meu, mas não foi difícil.
Seu filho é um óptimo rapaz.
Vamos entrar?
— Vou ficar aqui no carrão com o seu João, posso?
— Pode, Robertinho, mas o seu João talvez queira entrar.
— Não, senhora.
Obrigado, vou ficar aqui fora.
Entraram. Zeca levou a mãe até o seu quarto.
Consuelo sabia que eles tinham muito que conversar, disse:
— Acredito que tenham muito que conversar.
Vou preparar um suco.
Assim que terminarem a conversa, eu levarei.
— Obrigada, Dona Consuelo, — disse a senhora — temos mesmo muito para conversar.
— Mamãe! Este é o meu quarto! abrindo a porta.
Ela entrou pela porta que ele abriu e olhou.
Como pode viver em um lugar como este?
Uma cama, um guarda-roupa!
Teve tudo na vida!
Essas roupas que está vestindo, parece um mendigo!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 10, 2017 8:08 pm

Como diz o Robertinho, "Pareço, mas não sou" — disse, imitando Robertinho — Mamãe, não se deixe enganar pelas aparências.
Estou vivo e muito feliz.
Hoje, entendo que foi preciso que tudo aquilo acontecesse para que eu pudesse encontrar a verdadeira felicidade!
_ Não estou entendendo!
Como pode ser feliz morando em um lugar como este?
Deve estar louco!
_ Nunca fui tão feliz em toda minha vida, mamãe!
_ Meu filho!
Agora que te encontrei, não precisa mais ficar aqui!
Tá passou muito tempo. Tudo terminou!
Voltará comigo.
Precisa falar com seu pai, ele está ansioso para te ver.
— Estou muito feliz por vê-la.
Mas não sairei daqui.
Tenho muitos amigos que me aceitaram sem mesmo saber quem eu era.
São amigos verdadeiros, como nunca tive.
— Não pode continuar aqui!
— Depois falaremos sobre isso, mas, como me encontrou?
— Seu pai contratou vários detectives.
No dia em que telefonou para casa, um deles foi até a companhia telefónica.
Não me pergunte como, pois não sei, mas conseguiu descobrir a cidade de onde você havia telefonado.
Daí foi fácil.
— Muito inteligente.
Adoro a senhora!
Não telefonei antes porque não queria voltar.
Naquele dia senti muita saudade, por isso telefonei.
Não podia imaginar que me encontraria.
Agora, já sabe onde estou, volte para casa e diga ao papai que estou bem e que logo irei até em casa para vê-lo.
— Não posso te deixar aqui!
Vivendo dessa maneira!
- Por favor, mamãe!
Estou feliz, descobri a magia que existe em trabalhar com a terra e sou muito feliz mesmo!
Pode acreditar! Não voltarei!
A não ser que os meus amigos mudem de atitude, ao saberem que não sou um simples jardineiro!
— Você estudou tanto!
Foi um aluno brilhante!
Como pode ser feliz sendo jardineiro?
— Sou feliz, mamãe. Pode acreditar!
Irei até em casa.
Agora, não tenho mais motivo para me esconder!
Acho que Deus está me dando uma nova oportunidade.
_ Deus?! Você está falando em Deus?
Não posso estar escutando isso do meu filho!
O maior ateu que conheci!
— Está vendo como mudei?
A vida nos ensina muito, além disso, estou ouvindo certas coisas que estão me fazendo pensar.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 10, 2017 8:08 pm

Aprendi muito e o mais importante foi que, hoje, eu amo a senhora e o papai muito mais de que antes.
Ela recomeçou a chorar.
Zeca a abraçou e beijou seu rosto.
— Perdoe, mamãe, por todo mal que fiz.
Sei que a fiz sofrer muito, mas hoje sou outro homem.
Descobri que a felicidade está nas coisas mais simples.
Está no rosto das pessoas quando recebem uma ajuda.
Está também no rosto de quem ajuda sem interesse, fique tranquila.
Volte para casa.
Para que tanta coisa boa esteja acontecendo, é porque Deus já me perdoou.
Estou agora envolvido em um projecto que vai ajudar muitas pessoas.
Essa, agora, é a minha felicidade.
— Que projecto?
Zeca contou para ela, desde o dia em que chegou na cidade, quando Robertinho o encontrou na escadaria da igreja.
Contou até mesmo sobre o sanduíche de mortadela, chegando ao projecto do Grotão.
Ela ouvia calada, mas prestando muita atenção.
Quando ele terminou, ela disse:
Viveu uma experiência maravilhosa!
Por isso mudou.
Jamais eu poderia imaginar que você, um dia, se preocuparia com outras pessoas!
Podemos ajudar nesse projecto.
— Sei disso, mamãe, mas por enquanto não.
Tentaremos mobilizar os moradores.
Se não conseguirmos o dinheiro necessário, falarei com a senhora.
— Está bem, não vou insistir.
Vejo que está muito bem.
Mais forte e bronzeado, só me prometa que não fugirá novamente e que irá em casa falar com seu pai.
— Prometo, mamãe.
Não tenho mais motivos para fugir.
Estou feliz por me ter encontrado.
Vamos falar com Dona Consuelo?
Ela, como os outros, não deve estar entendendo.
— Vamos, sim.
Tenho muito que agradecer a essa senhora!
— Dona Consuelo, — a mãe de Zeca disse entrando na cozinha.
Agora que sei de tudo, só posso agradecer novamente por tê-lo acolhido e ajudado.
— Não tem o que agradecer!
Ele só nos trouxe alegria.
Estavam conversando, quando seu Pedro chegou.
Ao entrar na sala e vendo aquela senhora conversando e tomando um suco, parou sem saber o que falar.
Olá, seu Pedro!
Esta é minha mãe.
Mamãe, este é o senhor Pedro, esposo da Dona Consuelo e pai de Robertinho.
Assim como dona Consuelo, também me recebeu em sua casa.
Ela estendeu a mão.
Pedro abismado com tudo aquilo, também estendeu a sua e ela disse:
" Muito prazer, obrigada por ter cuidado de meu filho.
—Seu filho é um óptimo rapaz.
Eu o considero como se fosse meu próprio filho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 10, 2017 8:08 pm

— Obrigada, senhor.
O seu filho também é uma gracinha!
Agora preciso voltar para casa e contar ao meu marido tudo o que aconteceu aqui.
Meu filho, você prometeu que irá visitar o seu pai.
Ele não está bem e precisa muito falar com você!
— Irei, sim, ainda tenho mais surpresas!
— Mais?! Não sei como o meu coração está aguentando toda a emoção que senti hoje!
Todos riram.
Zeca acompanhou a mãe até o carro.
Robertinho, dentro do carro, mexia na direcção.
— Zeca! Que carrão!
Nunca vi um igual!
Posso ir com o seu João e a sua mãe até a entrada da cidade?
— Se sua mãe deixar, pode.
Consuelo concordou.
A senhora beijou o filho, entrou no carro e foi embora.
Robertinho, feliz, a acompanhou.
— Dona Consuelo, seu Pedro, tenho que ir conversar com meus amigos que estão lá no bar.
Depois lhes contarei tudo.
Não se preocupem.
Continuo o mesmo Zeca de sempre e não quero, por favor, que nada mude!
Estou e ficarei nesta cidade.
Acenou com a mão e foi para o bar.
Ao chegar, todos o olharam como se fosse um desconhecido que havia chegado.
— Que é isso pessoal?
Que caras são essas?
Sou o Zeca! O jardineiro!
Lembram de mim?
Eles tentavam encontrar algo diferente no amigo, mas por mais que olhassem não encontravam.
Ele parecia ser o mesmo Zeca, sente aqui. — disse Simão.
Sabemos agora, que não é quem dizia ser, mas para nós isso não muda nada.
É nosso amigo.
Está aqui e será sempre bem-vindo!
Se quiser, se achar necessário, pode contar tudo.
Caso contrário, sente-se e continuaremos de onde paramos, falando sobre o Grotão.
— Obrigado, Simão.
Só poderia esperar isso de vocês.
Foram e serão sempre meus amigos.
Chegou a hora de contar tudo, não tenho mais o que esconder. Contarei.
Por favor, tenham paciência, porque a história é longa!
— Está bem, vou pegar mais alguns refrigerantes.
Simão levantou-se e voltou logo depois:
— Vamos fazer uma coisa diferente?
Esse assunto parece que vai ser demorado e importante.
Quero ouvir tudo sem perder nada.
Se ficarmos aqui, estaremos sendo interrompidos a todo momento.
Que tal irmos para a casa de alguém?
Pedirei ao Juca que fique aqui no bar.
Todos concordaram com a cabeça.
Simão foi ao telefone e ligou para o Juca, um estudante de toda confiança, que às vezes o ajudava em troca de algum dinheiro.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:14 pm

Além disso, era muito bem aceito por toda clientela.
Assim que ele chegou, os outros se levantaram e foram todos para a casa de Paulina.
Simão levou refrigerantes.
Sentaram-se ao redor da mesa, na sala.
Depois de todos acomodados, Zeca começou a falar:
_ Quando eu terminar de contar a minha história, entenderão o motivo de eu estar aqui e talvez não me queiram mais como amigo.
Esse será o preço que terei de pagar por tudo de errado que fiz, a mim e a outras pessoas.
Paulina olhou para os outros e disse:
— Zeca, não seria melhor não contar e tudo permanecer como está?
Não vejo necessidade.
- Obrigado, Paulina, mas preciso contar.
Pretendo recomeçar a minha vida e isso só será possível se não houver mais mistério.
Agora, não tem mais volta...
— Se é assim que quer, assim seja! — disse Simão.
Estavam um tanto apreensivos.
Zeca respirou profundamente, soltou lentamente o ar e apertando as mãos, começou a contar:
— Começarei do início.
Meu nome é Púcardo.
Nasci em Santa Catarina.
Meu avô, um jovem inglês, veio para o Brasil no início do século.
Na Inglaterra, pertencia a uma família rica e de tradição.
Levado pelo desejo de aventura, veio para cá trazendo muito dinheiro e sonhos.
Chegou em São Paulo, na época em que o estado começava a se industrializar.
Casou-se e teve três filhos, meu pai, um tio e uma tia.
Começou com dois teares em um galpão.
Depois o galpão ficou pequeno, mudou para um outro maior e comprou mais teares.
O negócio foi se expandindo e logo ele possuía várias tecelagens espalhadas por todo Brasil.
Mais tarde, meu pai e tios resolveram entrar no ramo de confecção.
Os bens da família cresceram cada vez mais.
Meu pai casou-se com minha mãe, que pertencia a uma família rica e tradicional.
A fortuna dela se somou com a do meu pai.
Estou contando tudo isso para que saibam que nasci em berço de ouro.
Por ter nascido homem, fui a felicidade de toda a família.
Fui muito bem criado, frequentei as melhores escolas.
Meu pai queria que eu continuasse no lugar dele à frente das indústrias e ao lado de meus primos, mas eu não gostava e nem queria ser um industrial.
Desde pequeno, sempre assistia a filmes de tribunais e lia sobre advogados, esse era o meu sonho, ser um bom advogado.
Quanto às indústrias, poderia no máximo dar assistência jurídica.
A gravidez de minha mãe foi muito difícil, por isso, quando nasci, ela foi proibida, pelos médicos, de ter outro filho.
Depois de doze anos, não sei como, talvez tenha sido um descuido, minha mãe teve mais um menino.
Embora essa gravidez tenha sido também difícil, o menino nasceu saudável e bonito.
Como eu já era grande, ele se tornou a alegria de toda família.
Seu nome, Cláudio.
Fiquei feliz com a chegada dele.
Eu era muito sozinho e agora tinha uma companhia.
Crescemos felizes e nos dávamos muito bem.
Embora a diferença de idade fosse grande, isso não atrapalhava as nossas brincadeiras.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:14 pm

Eu me tornei seu amigo e protector.
Quando tinha algum problema na escola ou com os meninos maiores, sempre me pedia socorro, e sempre eu estava presente.
Zeca parou de falar.
Seus olhos estavam distantes.
Do canto de seus olhos uma lágrima insistia em cair.
- Não precisa continuar, Zeca. Pode parar.
Somos seus amigos, gostamos de você do jeito que é.
Essas recordações estão te fazendo mal.
Está sofrendo muito.
— Não posso parar, Regina, preciso continuar.
Sinto que me fará bem.
— Você é quem sabe, Zeca.
Sou seu amigo e também digo que não precisa continuar.
— Simão, sei que são meus amigos, por isso, preciso continuar.
Talvez, quando eu terminar, não me aceitem mais.
Antes que dissessem algo, Zeca continuou:
— Me formei com louvor em Direito.
Estava muito feliz, porque finalmente era um advogado.
Realizei o meu sonho.
_ Quando se tem na vida tudo o que o dinheiro pode comprar, sobram poucas opções.
Ser advogado não dependia de dinheiro, mas de mim mesmo, da minha vontade de estudar.
Quando peguei aquele diploma em minhas mãos, me senti poderoso.
Tinha conseguido conquistar alguma coisa, não por todo o dinheiro da minha família, mas por ter estudado e aquilo me fazia muito bem.
Disse aos meus pais que abriria um escritório e que passaria a meu irmão e primos o trabalho nas empresas.
Queria ser advogado, nada mais.
Meu pai ficou furioso, mas vendo que eu estava decidido, aceitou.
Estava com vinte e quatro anos quando me formei.
Em meu escritório, comecei atendendo causas de família.
Um dia, fui procurado por uma senhora.
Ela chorava muito enquanto dizia:
"Doutor, vi a sua placa aí fora!
Preciso de sua ajuda, nunca mexi com isso, não, mas o meu filho está preso.
_ Minha, senhora, — eu disse ao perceber que ela era uma pessoa humilde e sem recursos — não sei se posso ajudá-la, não trabalho na área criminal.
— Precisa me ajudar, cheguei do Ceará e não conheço ninguém.
Não sei o que fazê. — ela disse chorando.
— O que seu filho fez para estar preso?
— Ele mora aqui, já tem muito tempo.
A polícia pegou ele com muita droga, lá onde ele mora.
— Traficante? Isso é grave!
— Não! Aquelas coisas não é dele, foi alguém que colocou lá.
Meu filho não é bandido, não!
— Como sabe disso?
— Ele falou e eu acredito no meu filho.
Tem só dezanove anos.
Veio pra cá, porque lá no Ceará não tinha emprego.
E um bom menino, nunca ia se misturar com essas coisas não!
Pelo amor de Deus, o senhor precisa me ajudar!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:14 pm

— Está bem, falarei com ele, — eu disse mais para me livrar dela — mas será difícil.
Qual é o nome dele?
Em que delegacia está preso?
Irei até lá para saber o que está acontecendo."
— Ela deu o nome dele e da delegacia, onde estava preso.
Agora, a senhora vai para casa, eu irei até lá e verei o que pode ser feito.
Depois disso, direi se pego o caso ou não.
— Tá bem douto!
Sei que o sinhó vai livrar o meu menino!
— Farei o possível."
Ela foi embora e eu não estava interessado naquele caso, mas, após algum tempo, fui até a delegacia.
Fiquei sabendo que não era a primeira vez que ele havia sido preso.
Estava envolvido com uma quadrilha de traficantes.
Das outras vezes que foi preso, sempre foi por furto, nunca por tráfico.
Conversei com o delegado e consegui permissão para falar com ele.
Encontrei um jovem, magro e nervoso.
" — Sou seu advogado.
Sua mãe me contratou.
Precisamos conversar.
Quero que me conte como aconteceu.
— O senhor tem um "bagulho" pra mim?
— Claro que não!
— Eu preciso Doutor!
Estou ficando louco!
— Não tenho e nem sei onde arrumar.
Nunca estive em uma delegacia a não ser quando estudava, mas não vou ser um advogado porta de cadeia.
Estou aqui só para atender a um pedido da sua mãe, que te julga inocente.
— Doutor, faz um favor, mande a minha mãe de volta pro Ceará!
Ela veio porque eu sempre escrevia dizendo que estava bem, que tinha um emprego.
Cada vez que ia visitar ela, levava muitos presentes e ia sempre com uma bela "beca", mas era tudo mentira.
Faz três anos que cheguei, tentei arrumar emprego, mas foi difícil porque não tinha profissão."
— O rapaz tremia muito enquanto me contava a sua vida, querendo me convencer a ajudar a sua mãe e falou:
" — Quando cheguei, fui morar na casa de um tio.
Ele morava numa favela e trabalhava como pedreiro.
Me arrumou um trabalho como servente.
Comecei a trabalhar, mas o que ganhava era muito pouco e eu tinha que dar quase tudo pro meu tio.
O trabalho era pesado, eu comecei a ficar com raiva de ter vindo pra cá.
Um amigo me ofereceu um cigarro de maconha, eu sabia que aquilo não era bom, mas quis experimentar.
Daí pra frente fui precisando cada vez mais e passei pra outros tipos de drogas.
O dinheiro que ganhava não dava pra comprar.
Então, comecei a vender."
— Ele parou de falar e ficou me olhando, mas parecia não me ver na sua frente.
Na realidade, estava falando para si mesmo.
Parou de falar por alguns minutos, depois continuou:
" — Foi assim que entrei pro mundo do crime e me dei sempre bem.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:14 pm

Tenho muitos amigos, sei que vão me tirar daqui, Doutor.
Por isso, não precisa me defender.
Por favor, só ajuda a minha mãe a voltar pra casa é lá onde ela deve ficar."
— Saí de lá e voltei para o escritório.
Estava sentindo algo estranho.
Sempre tive muito dinheiro, não conhecia esse lado da vida.
A senhora estava me esperando ansiosa.
"-Então Doutor?
Falou com ele?
_ Falei e a senhora não precisa se preocupar.
Pode voltar para a sua terra.
Ele logo ficará livre.
_ Não vai não, doutor!
Ele não está em boa companhia, precisa de ajuda.
Só o senhor pode ajudar!
_Não posso! Ele já tem advogado!
_ Não quero aquele advogado.
Ele precisa ser livre sem a ajuda daquela gente!
Senão, não vai adiantar!"
_ Percebendo todo o desespero da mulher, prometi a ela que iria ajudar, embora soubesse que não poderia.
Ela foi embora e no dia seguinte fui visitado por um sujeito estranho.
" — Olá, Doutor.
Estou aqui porque fui mandado por meu chefe.
Sabemos que o senhor foi contratado pra defender o Jabá.
Meu chefe quer falar com o senhor.
— Não conheço o seu chefe e nenhum Jabá.
Por isso, não preciso falar com ele!
— É bom o Doutor ir.
O chefe não gosta de ser contrariado.
O Doutor pode vir junto com a gente, agora!"
— Fiquei assustado e resolvi ir para me livrar daquela situação.
Chegamos à frente de um restaurante respeitável e frequentado por pessoas da classe alta.
Estranhei que aquelas pessoas me levassem até um lugar como aquele.
— O Doutor vai descer e entrar no restaurante.
Em uma mesa bem em frente da porta, está um homem com um terno escuro e um lenço vermelho no bolso.
O Doutor senta na mesa.
O Doutor entendeu tudo direitinho? "
— Concordei com a cabeça dizendo que sim.
Antes que o manobrista chegasse, eles saíram com o carro, me deixando lá em pé.
Entrei no restaurante e vi na minha frente o tal homem.
Me sentei olhando para ele.
Um homem elegantemente vestido, com um copo com uísque na mão.
Começou a falar com um sotaque estrangeiro.
Eu estava nervoso, ele disse:
"— Doutor, fique à vontade.
Quer beber alguma coisa?
Não, obrigado. Por que me trouxeram até aqui?
O Doutor aceitou a defesa de um dos meus homens.
Preciso saber por que e qual o seu interesse?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:15 pm

—Não sabia que era um de seus homens, fui procurado pela mãe dele que insistiu para que eu o libertasse.
— Essa mulher pode se tornar perigosa para a nossa organização.
Por isso, o Doutor deve continuar a defesa.
Deve libertar o meu homem.
— Não sei se conseguirei.
Nunca trabalhei em um processo criminal e tráfico é um crime muito grave!
— Não se preocupe.
O doutor vai telefonar para estas pessoas.
Eles facilitarão tudo."
— Me entregou uma lista com nomes.
Pagou a conta e se despediu.
Saiu, me deixando sozinho.
Fiquei ali, olhando para aquela lista.
Lá havia nomes de policiais e delegados.
Não queria acreditar no que estava lendo.
Depois de algum tempo, saí.
Assim que cheguei na calçada, um táxi parou:
" — O Doutor está precisando de um táxi?
— Eu?! Estou, sim, obrigado."
— Entrei no táxi e sem falar para onde eu queria ir, o motorista seguiu em direcção ao meu escritório.
Desci do carro.
" — Já tá pago, Doutor." — ele disse, quando tentei pagar.
— Entrei no escritório segurando aquele papel em minhas mãos.
Estava meio tonto, ainda não entendendo, ou não querendo entender, o que havia acontecido.
Já em minha sala, me sentei, peguei o papel e fiquei olhando aqueles nomes.
Fiquei estarrecido com os nomes que encontrei lá.
" Como isso pode estar acontecendo?
Detectives e policiais que deveriam proteger as pessoas e são coniventes com marginais?
Não posso entrar em uma situação como essa!"
— Pensei por muito tempo, até que o meu telefone tocou.
Atendi e era aquela voz com sotaque:
" — O Doutor já telefonou para alguém?
— Ainda não, estou pensando...
— Não pense muito Doutor, o nosso homem não pode ficar preso por muito tempo."
— Assim que desliguei o telefone, peguei novamente o papel.
Comecei a ligar para as pessoas.
" — Amanhã, ao meio dia, esteja em frente à delegacia com um táxi. — disse o último para quem liguei."
No dia seguinte e na hora marcada, eu estava em frente à delegacia.
Meu cliente saiu tranquilamente pela porta da frente, dando adeusinho a todos que encontrava no caminho.
Fiquei abismado vendo a facilidade com que se conseguia burlar as leis.
Jabá se aproximou e entrou no carro, dizendo:
- Obrigado, Doutor!
Eu sabia que ia me libertar."
_ O motorista, assustado, olhava pelo retrovisor:
" — Não se preocupe, sou advogado e este é meu cliente, por favor, nos leve ao mesmo lugar em que me pegou."
— Ele obedeceu, mas ficou o tempo todo olhando e prestando atenção a cada movimento nosso.
Assim que chegamos, paguei à ele o dobro da corrida e mesmo assim, saiu rápido e assustado.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:15 pm

Entramos no escritório.
Não entendia como ele havia sido solto, sem que eu fizesse nada, perguntei:
" — Como saiu assim?
— Não saí de lugar nenhum! Nunca fui preso...
— Está me dizendo que todos os documentos da sua entrada desapareceram?
Como pode ser isso?
— Isso mesmo!
Se eu nunca entrei, como podia estar lá?"
— Disse isso soltando uma gargalhada.
Eu estava ouvindo aquilo, mas não queria acreditar.
— Não pode estar dizendo a verdade!
Não posso acreditar nisso!
A polícia não pode ser tão corrupta.
— Doutor, o senhor é inocente.
Não é a polícia que é corrupta, são alguns policiais, sabe como é... todos têm seu preço.
O senhor não teve hora marcada prá ir lá na delegacia?
— Sim, mas não percebi.
Por que, isso aconteceu?
— Se tivesse vindo em outra hora, os policiais que o senhor ia encontrar, não iam deixar eu sair, não.
Agora o Doutor vai me levar até na casa onde minha mãe está e vai dizer que o Doutor me libertou e que era tudo mentira.
Vou viajar com ela pro Ceará.
Depois eu volto e ela fica lá, entendeu, Doutor?
— Entendi, entendi tudo..! — respondi assustado.
Fiz tudo como o combinado.
Ele viajou com a mãe e eu voltei para a minha vida.
Estava enojado de tudo aquilo, mas não tinha o que fazer.
Quando me formei e montei o escritório, disse ao meu pai que não queria mais o seu dinheiro.
Só viveria com o que conseguisse com o meu trabalho.
Já fazia seis meses que o escritório estava aberto.
Eu estava defendendo algumas causas que, se ganhasse, poderia me render um bom dinheiro.
Mas até o dia em que recebi a visita daquela senhora, estava difícil e tive ainda que pegar algum dinheiro com o meu pai.
Eu estava nervoso por ter que fazer aquilo.
Era muito orgulhoso, queria mostrar a ele, que precisar do seu dinheiro, me fazia muito mal.
No dia seguinte ao que o rapaz e a mãe haviam ido embora, chegou em meu escritório um mensageiro que me entregou um pacote.
Assim que saiu, eu com muita curiosidade, abri o pacote.
Dentro dele havia uma carta e dinheiro.
A carta me cumprimentava pela minha boa actuação na libertação do Jabá e dizia que aquele dinheiro era o pagamento do meu trabalho.
O triplo do que eu receberia, caso ganhasse os processos que estavam tramitando no Fórum.
Fiquei olhando todo aquele dinheiro que tinha ganhado fazendo praticamente nada, sorrindo pensei:
" Até que não foi ruim esse trabalho.
Nunca quis o dinheiro do meu pai, mas para isso preciso ter o meu dinheiro.
Comi trabalhos como este, me manterei financeiramente e não precisarei mais dele."
Zeca novamente parou de falar, continuava com o olhar distante.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:15 pm

Simão o interrompeu:
Que mal há em nascer rico e viver do dinheiro do pai?
Os pais vivem para conseguir exactamente isso.
— Hoje também acredito que não há mal algum, mas naquele tempo achava que não tinha o direito de usar o dinheiro que não fosse conquistado por meu trabalho.
Quando conheci aquela senhora, vi que havia muita pobreza no mundo e me perguntei, por que eu havia sido escolhido para já nascer rico.
Não achava justo e por isso, não acreditava em Deus.
Se existisse Deus, por que escolheria alguns para dar tudo e a outros nada?
Essas perguntas eu me fazia sempre.
Por isso, queria vencer por mim mesmo.
Olhando para todo aquele dinheiro, decidi:
Já que esse Deus injusto me escolheu para ter tudo o que o dinheiro pode comprar, não aceitarei.
Não quero o dinheiro da minha família.
Vou ser muito rico, mas com o meu trabalho.
Desse dia em diante, comecei a trabalhar com a organização.
Não fazia praticamente nada.
Os rapazes eram presos, eu telefonava para as pessoas certas e eles eram soltos.
Descobri que o meu dinheiro vinha da organização, através dos pagamentos feitos pelos presos, que conseguiam vendendo droga, roubando e assaltando.
Mas não me importava.
_ A minha conta bancária foi ficando cada vez mais gorda.
Viajei e conheci muitos lugares sofisticados, guardei dinheiro no exterior para não pagar impostos aqui no Brasil e, o mais importante, assim agindo, não teria que provar de onde viera toda aquela fortuna.
Comprei um apartamento e tinha a mulher que quisesse.
Minha família estava orgulhosa por me ver vencer, pensando que era com cansas justas.
Trabalhei na organização por mais de dois anos.
Um dia meu pai veio me visitar no escritório.
Meu irmão ia fazer quinze anos e a família estava planeando uma festa surpresa para ele.
Papai chegou e eu não estava.
Ele resolveu me esperar.
Enquanto esperava, chegou um rapaz da organização e meu pai o recebeu:
" — O Doutor não está.
Pode esperar ou deixar o recado.
— Diz pra ele que o Alemão está preso e é pra ele ir lá na delegacia hoje mesmo.
O Alemão precisa sair de lá."
— Meu pai não quis entender, falou que transmitiria o recado.
Quando cheguei, ele estava muito nervoso:
" — Você está envolvido com bandidos?
— Quem disse isso?
— Um homem esteve aqui e disse que é para você ir à delegacia libertar um tal de Alemão.
Disse que o chefe o mandou.
Por que, meu filho?
Por que está fazendo isso?
— Por dinheiro, meu pai!
— Você não precisa disso, temos muito dinheiro, todo o que quiser ou precisar!
Não tinha motivo para agir assim!
O seu dinheiro, eu não quero!
Este é meu! Eu ganhei com o meu trabalho!
— Por que não quer o meu dinheiro?
Foi ganho honestamente!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:15 pm

Damos emprego para pessoas que mantêm as suas famílias!
Como ganha esse dinheiro?
Com o comércio de drogas?
Destruindo os jovens? As famílias?
— Não vendo drogas!
_ Mas protege os traficantes, deixa-os soltos pelas ruas atraindo jovens e até crianças!
— Não tenho nada a ver com isso!
Cada pai que cuide de seu filho!
Conquistei o meu diploma e vou usá-lo para ganhar dinheiro!
Gosto de dinheiro, mas não quero o seu!
— Estou muito triste por você.
Espero que sua mãe e seu irmão nunca descubram o que está fazendo.
No domingo, faremos uma festa para o seu irmão.
Espero que compareça e, por favor, faça de conta que nada desta sujeira existe!"
— Meu pai saiu do escritório muito nervoso.
Depois que saiu, fiquei por algum tempo pensado, mas peguei o nome do preso e liguei para a pessoa certa.
Ela me garantiu que no dia seguinte ele seria solto e isso aconteceu.
No domingo fui para a casa dos meus pais, onde seria realizado o almoço com toda a família, e à noite a festa surpresa.
Cheguei, meu pai me recebeu como se nada houvesse acontecido, mas me evitou o tempo todo.
Minha mãe estava muito feliz.
Durante o almoço, houve muita alegria.
Após o almoço, Cláudio, saiu dizendo:
" — Vou até a casa de um amigo.
Volto logo mais."
— Minha mãe foi obrigada a revelar a surpresa.
Ele ficou feliz e prometeu que voltaria logo.
A tarde passou, alguns na piscina, outros jogando cartas.
O tempo foi passando e Cláudio não retornava.
Fomos ficando apreensivos.
Onze horas da noite e ele não regressou.
Começamos a entrar em pânico.
O telefone tocou.
Meu pai atendeu e na medida em que ia escutando, seu rosto ia mudando, deixando a todos muito nervosos.
Ele largou o telefone e caiu no sofá.
Enquanto alguém o socorria, peguei o telefone:
" — Alô! Sou o filho dele, meu pai desmaiou!
Por favor, o que está acontecendo?
“ Foi encontrado um rapaz morto, por overdose de cocaína.
Em seu bolso havia o número desse telefone, seu nome é Cláudio.
Ele mora aí?
_ Como? O que está dizendo? "
_ A pessoa repetiu, e eu, da mesma maneira que meu pai, também levei um choque imenso.
A família estava me olhando, querendo adivinhar o que havia acontecido.
Contei. Houve uma correria, ninguém sabia o que fazer, cada um correndo para um lado.
Minha mãe chorava desesperada.
Eu parecia estar num outro mundo.
Junto com meu primo, fomos até o Instituto Médico Legal para reconhecer o corpo.
Durante o trajecto, eu ia rezando para que não fosse ele.
Ao chegar lá me identifiquei e, depois de algum tempo, trouxeram o corpo em um caixão de alumínio.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:16 pm

Quando vi o meu irmão, ali, meu coração começou a bater acelerado, saí correndo para a rua.
Não sabia o que fazer.
Meu primo veio atrás e me segurou.
" — Espere, Ricardo.
Precisamos ser fortes e cumprir toda a burocracia.
Procure se acalmar.
Fique aqui, sentado nesse banco, vou cuidar de tudo e depois voltaremos para casa."
— Fiquei, ali sentado, sem conseguir me mover, ouvindo a voz daquela pessoa no telefone:
- Morreu de overdose de cocaína!
Morreu de overdose de cocaína."
Fiquei ali, até que meu primo voltou:
" — Vamos para casa, está tudo certo.
O corpo só será liberado amanhã.
Não temos mais o que fazer aqui."
— Segui meu primo, como se fosse um autómato.
Não conseguia esquecer aquela voz.
Ao chegar em casa meu pai, ao me ver, correu em minha direcção gritando:
— Você matou o seu irmão! Foi você!
Deixou aqueles malditos nas ruas, envolvendo jovens!
Você é o culpado! Saía da minha casa!
Não quero nunca mais te ver na minha frente!"
Fiquei parado, olhando meu pai que eu amava e que estava sofrendo como ninguém.
Os outros me olhavam, sem saber o que estava acontecendo.
Minha mãe correu para mim, perguntou assustada e nervosa:
— O que ele está dizendo?
O que você fez? "
— Olhei para ela e para ele.
Senti uma dor muito grande na cabeça e no coração.
Com vergonha, de todos e de mim, saí correndo.
Andei sem rumo, tentei me jogar embaixo de um carro, mas não tive coragem.
Sabia que, sem necessidade, havia vendido a minha alma ao diabo e que, com a minha ajuda, o meu irmão se tornou um viciado.
O vício era tanto que chegou a morrer.
A minha dor e remorso eram enormes.
Andei, andei muito.
Não sei por quanto tempo, até chegar a esta cidade e à escadaria da igreja.
O resto vocês já sabem.
Ao terminar, Zeca chorava muito.
Seu corpo tremia.
Os amigos o olhavam com carinho.
Não sabiam o que dizer.
Regina, que estava sentada a sua frente, se levantou e foi até ele.
Colocou as mãos em sua cabeça e afagou seus cabelos.
^ Não podemos mentir e dizer que não errou, mas a culpa da morte de seu irmão não foi sua.
Não sei quanto aos outros, mas eu acredito que, se algum erro praticou, já pagou.
Viveu todo esse tempo humildemente e aprendeu o justo valor do dinheiro.
É amigo de todos que te conheceram.
Sua mãe, te encontrando hoje, é a prova viva que Deus te perdoou.
Levante a cabeça, Deus está ao seu lado e eu também.
Ele continuava chorando.
Eles foram se levantando e o abraçando.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:16 pm

Simão fez com que ele o olhasse de frente:
Meu amigo, o único que conhecemos e amamos é o Zeca.
Queremos agora conhecer o Ricardo.
Toda essa história, em nada mudou o meu sentimento com relação a você.
Quem falou em seguida foi Célia:
- A minha opinião não mudou.
Quem somos nós para julgar?
Todos temos as nossas mazelas.
Ricardo, seja bem-vindo, mas vou continuar te chamando de Zeca! Posso?
Zeca não pôde deixar de sorrir:
— Claro que pode!
Também gosto mais do Zeca!
Bem, meninas! O mistério do nosso jardineiro terminou!
Agora ele já não precisará mais esconder sua origem.
Tudo isso aconteceu em outro tempo e com outra pessoa.
Continuaremos os mesmos amigos de sempre? — disse Célia.
Todos se deram as mãos e as levantaram para o alto:
— Somos, e seremos os mesmos amigos de sempre!
— Voltarei agora para o meu bar, o Juca deve estar louco com a minha demora!
— Espere um pouco, Simão!
Já que me aceitaram, apesar de tudo, tenho um pedido a fazer.
— Você também me aceita, Regina, apesar de tudo?
— Claro que sim!
Como disse a Célia, que seja bem-vindo, mas eu também, como ela, vou continuar te chamando de Zeca.
O que vai fazer agora?
Voltar para a sua casa?
_ Voltarei para falar com meu pai.
Minha mãe disse que ele está doente e querendo me ver.
Hoje, já posso falar com ele e pedir perdão, mas levarei minha noiva comigo!
— Noiva!?
Todos falaram ao mesmo tempo.
Isso mesmo! Noiva!
Se ela ainda me aceitar.
Regina, quer se casar comigo?
Regina ficou vermelha e sem acção, não pensou que ele faria o pedido na frente dos outros:
— Zeca... eu... quero! Claro que quero!
Sabe o quanto te amo!
Não me importa quem você foi. Te amo...
— Eu sim, te amo, e muito!
— Olhem só! Há quanto tempo estão namorando?
Olharam para Paulina que havia feito a pergunta:
— Há exactamente, algumas horas.
Para ser sincero, foi nesta madrugada.
Nos encontramos por acaso.
Todos riram, Célia disse:
— Que sejam muito felizes, é o que desejo de coração.
Foram abraçados e beijados.
Depois dos abraços e cumprimentos, Simão voltou para o bar.
Célia lembrou das crianças que deviam estar na praça esperando por ela.
Regina e Zeca saíram abraçados andando na praça.
Paulina sentou ao piano e começou a tocar uma linda melodia.
Todos pensavam na incrível história de Zeca.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:16 pm

A Reacção de Clara
Zeca e Regina não cabiam em si de tanta felicidade.
Encabulada, ela perguntou:
— Por que fez o pedido na frente de todos?
Piquei encabulada...
—São nossos amigos, poderia até dizer que são a nossa família.
Ontem à noite, eu não podia te pedir em casamento, porque queria continuar escondendo a minha identidade, mas, agora, isso não é mais necessário.
Poderemos nos casar, só que será com o Ricardo!
—Não tem problema, mas foi por um certo Zeca que me apaixonei e com ele é que quero me casar.
Eu te amo muito.
— Também te amo muito!
Chegaram em casa e entraram.
Clara estava na sala escutando música e lendo um livro.
Zeca com um sorriso disse:
— Boa-tarde, Clara.
- Boa-tarde, Zeca!
Quero te pedir desculpas por todas aquelas coisas idiotas que falei!
— Não tenho o que te desculpar.
Você tinha toda razão.
Onde se viu eu entrar em sua casa durante a noite.
Não se preocupe, já me esqueci.
Preciso te fazer um pedido.
Quero me casar com sua mãe e queria o seu consentimento.
— Casar?!
— Sim, casar!
Se consentir, me tornará o homem mais feliz do mundo!
Pode acreditar.
— Claro que consinto!
Sempre gostei muito de você — disse, com um largo sorriso.
Eu também sempre gostei de você, mas continuaremos morando aqui, nesta mesma casa.
Sua mãe continuará trabalhando no Posto e eu continuarei sendo o jardineiro.
Não pretendo mudar a minha vida.
Estou feliz assim.
_ Continuarão morando nesta cidade?
Nesta casa? Por quê?
Agora todos sabem que você tem muito dinheiro!
_Sua mãe se apaixonou por mim, mesmo pensando que eu era um mendigo.
Não sou rico, quem tem dinheiro é a minha família.
Enquanto tive muito dinheiro, nunca fui feliz.
Só encontrei a felicidade depois que cheguei aqui.
Todos os amigos que conquistei foi por mim mesmo, não por meu dinheiro.
O dinheiro é importante, mas não pode se tornar prioridade em nossas vidas.
Devemos respeitar e ser amigo de qualquer pessoa, independente de sua condição financeira.
— Está me dizendo que não liga para o dinheiro?
— Dou a ele o justo valor!
Você, hoje, tem dinheiro e poderá estudar e ser médica.
Essa profissão exigirá que atenda a pobres e ricos.
Será que terá para ambos o mesmo tratamento?
Será que, realmente, atenderá a todos da mesma maneira?
Sabe o que é ser uma boa médica?
Será que a pessoa que te deu o dinheiro, não esta arrependida por ter dado?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:17 pm

— Por que está dizendo isso?
Foi você quem me deu o dinheiro?
É, só pode ter sido!
— Não fui eu! — Zeca disse muito nervoso.
Mas se tivesse sido, com certeza estaria arrependido!
Tem uma mãe maravilhosa que te deu tudo na vida.
Só não deu mais porque não tinha.
Você a condena por não dizer quem é o seu pai, um canalha que a abandonou sem se preocupar com a criança que iria nascer.
Você é injusta e mesquinha!
Só está me recebendo bem, porque pensa que tenho muito dinheiro!
Repito, não fui eu quem te deu o dinheiro, mas se tivesse sido, estaria arrependido!
Espero que tenha aprendido a não julgar as pessoas por sua aparência.
Não sou ninguém para te julgar, espero que seja uma boa médica, mas seja capaz de atender a todos os seus pacientes da mesma maneira.
Ele falou com tanta firmeza, que elas não ousaram interromper.
Não parecia o mesmo Zeca de sempre.
_ Desculpem, — Zeca disse chorando — não sei o que deu em mim.
Não sou ninguém para julgar.
Clara, não ligue para o que eu disse.
Sei que será uma boa médica, me perdoe.
Saiu correndo.
Já na rua, as lágrimas correram sem que ele conseguisse evitar.
Lembrava do irmão que tanto amava, do pai expulsando-o de casa e da mãe que, apesar de tudo, o procurou por tanto tempo.
" Meu Deus!
Quem sou eu para julgar?!"
Andou por muito tempo.
Quando se deu por conta, estava em frente ao cemitério.
Não soube o porquê, mas teve vontade de entrar.
Já lá dentro, sentiu muita paz.
Foi caminhando por entre os túmulos.
Olhava as fotos das pessoas enterradas.
Não pensava em nada, somente ia olhando.
Chegou em frente a um túmulo, onde havia a foto de um rapaz negro, cujo nome era Cláudio.
Parou e ficou olhando.
A cobertura rasa da sepultura estava bem tratada, com flores plantadas.
Se ajoelhou olhando a foto do rapaz.
Olhou a lápide, notou que ele havia morrido com dezoito anos.
Continuou olhando e pareceu que a fotografia tomava uma nova forma, o rosto de seu irmão foi se formando.
Na foto, Cláudio sorria.
Escutou uma voz:
— Ricardo, meu irmão querido, te conduzi até aqui para que finalmente consiga ver que não estou mais ao teu lado.
Para que finalmente consiga me enterrar e continuar vivendo em paz.
A morte é como um sono, quando acordamos estamos em outro lugar, mas, junto com muitos, amigos.
Não se culpe, nada que tivesse feito poderia mudar o meu caminho.
Caminho este que eu mesmo escolhi, me desviando do verdadeiro.
Deus, na sua infinita bondade, me retirou da Terra, antes que me afastasse mais e fizesse coisas piores.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:17 pm

Mande um beijo para mamãe e papai, diga a eles que não precisam continuar chorando.
Estou muito bem, feliz e esperando a todos, porque um dia, com certeza, chegarão."
Zeca estava paralisado, com medo, porque estava realmente escutando a voz do irmão.
— Devo estar louco!
Não posso estar te ouvindo!
" — Não, Ricardo, não está louco.
Sou eu mesmo.
Te amo muito, quero que seja feliz."
Zeca continuou olhando a foto que, aos poucos, foi se transformando novamente e o rosto do rapaz negro voltou.
Zeca chorava, assustado e emocionado.
Só então percebeu que estava ajoelhado.
Levantou-se dizendo em lágrimas:
_ Cláudio, meu querido.
Não sei se ouvi mesmo a sua voz ou se estou louco, mas espero, do fundo do meu coração, que realmente esteja bem e feliz ao lado de Deus.
Sinto que me perdoou, estou feliz por isso. — falou em voz alta.
Um pouco tonto saiu do cemitério.
Continuou andando e foi parar no Grotão.
As pessoas o reconheceram e acenavam enquanto ele passava.
Chegou na cachoeira.
Ficou olhando para aquele lugar mágico.
— Não tenho certeza se realmente ouvi o meu irmão, mas sinto que agora, estou realmente liberto daquela pressão que sentia em meu peito.
Sinto que realmente ele está bem e feliz.
Acredito que tenha algo para fazer por toda essa gente que mora aqui.
Farei o possível e o impossível para ajudá-los.
Foi até a água.
Com as mãos, molhou o rosto e a cabeça.
Olhou para a mata que circundava a cachoeira.
Respirou fundo.
O ar frio e puro entrou em seus pulmões.
Sentiu seu corpo forte e que havia recebido muita energia.
Voltou para a cidade.
Estava calmo e tranquilo.
Já estava escurecendo quando chegou.
Foi até a casa de Regina, que estava preocupada com a saída dele daquela maneira.
Clara não estava em casa, foi encontrar Gustavo na praça.
Zeca bateu no portão.
Regina abriu, percebeu que ele estava muito bem e com um brilho de tranquilidade nos olhos.
— Zeca! Que bom que voltou!
Logo que você saiu, fiquei conversando um pouco com Clara.
Depois fui até a praça, pensei que estivesse lá, mas não te encontrei, por onde andou?.
Regina, preciso te contar algo que me aconteceu e que até agora não sei se foi verdade ou se estive sonhando.
Contou tudo o que havia acontecido, desde quando saiu de sua casa.
Ela ouviu com atenção, não perdendo uma palavra.
Quando ele terminou de contar, segurou as mãos dela:
O que você acha de tudo isso? — perguntou aflito.
Aconteceu, realmente?
Estou ficando louco?
Aconteceu, Zeca, pode ter certeza.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:17 pm

Você não está louco.
Ao contrário, você é uma pessoa especial.
Deus permitiu que visse o seu irmão para que soubesse que a morte realmente não existe.
Você está recomeçando a tua vida.
Está, agora, no rumo certo e sendo abençoado por isso.
— Só não entendi, quando ele disse que Deus o retirou por estar no caminho errado e antes que fizesse coisas piores.
^-'De acordo com o que aprendi, todos nascemos para sermos bons.
Quando voltamos, sempre trazemos algo para fazer.
Um resgate, perdoar e ser perdoado, encontrar amigos e inimigos, etc.
Cada um de nós tem livre-arbítrio.
Deus nos dá toda a oportunidade para que nossas metas sejam cumpridas, mas, às vezes, por motivos outros, nos afastamos de nossos propósitos.
Esse afastamento pode nos levar a erros piores do que aqueles que já tínhamos.
Nesse momento, dependendo do merecimento e dos amigos que temos, somos retirados antes de cometermos erros maiores.
— Quer dizer que o meu irmão estava se desviando do caminho e por isso morreu?
E isso que está dizendo?
— Sim, deve ter sido isso que aconteceu.
O caminho que tomou seria de difícil retorno.
Sendo jovem um tanto inocente e com amigos espirituais que devem ter intercedido por ele, Deus não permitiu que se prejudicasse ainda mais.
— Quanto a mim?
Também estava desviado do caminho certo.
Prejudiquei a muitas pessoas, por que não morri?
_ Não sei tudo, talvez tenha sido porque no momento em que viu seu irmão morto, você poderia ter tido várias reacções.
Ir atrás dos traficantes para se vingar, culpar seus pais por seu irmão ter entrado no mundo das drogas ou não dar atenção e continuar na mesma vida que antes.
Você usou o seu livre-arbítrio e fugiu de tudo e de todos.
Durante todo esse tempo viveu na mais completa humildade.
Aprendeu que o dinheiro quando, se torna a única prioridade na vida, pode nos causar muito mal.
Quando voltou à Terra, deve ter trazido alguma missão para cumprir.
Por um tempo se afastou dela, agora deve ter voltado para o rumo certo.
Deus te deu uma nova chance, então, deve esperar e ver o que vem por aí.
Acredita mesmo nisso?
O que quer dizer quando fala em voltar à Terra?
-^Acredito sim, Zeca.
Aprendi com a vida, que todos estamos aqui por algum motivo.
Quando digo em voltar à Terra é porque acredito na reencarnação.
Hoje, viu e ouviu o seu irmão falando com você, como se estivesse vivo. Deus, na sua infinita bondade, não iria ter filhos preferidos, não permitiria que um de seus filhos fosse perfeito, sadio, e outros doentes e deformados. Uns ricos com tudo, assim como você, e outros pobres como as pessoas que vivem no Grotão.
Só a reencarnação pode nos dar essas respostas.
Se ela não existir, então, Deus também não existe.
Estamos em um processo de eterno aprendizado.
Sempre evoluindo para chegarmos, um dia, à perfeição.
Aprendemos com a vida.
A reencarnação é um bem enorme que Deus deu à humanidade.
— Da maneira como fala, parece que tem tanta convicção!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 8:18 pm

— Tenho sim, aprendi tudo isso com dona Júlia.
Ela acreditava piamente e ainda conversa comigo em sonhos.
— Gostaria de aprender mais sobre isso.
^Posso te emprestar vários livros, Zeca, tenho muitos.
Acredito que o primeiro que deve ler é o Evangelho.
Nele, você vai poder entender tudo o que Jesus disse.
— Antes eu não queria, mas agora, se emprestar, vou ler.
— Vou te emprestar e se precisar de alguma explicação, estarei sempre aqui para responder as que souber.
— Está bem, vou levar. Nossa!
— O que foi, Zeca?
— Com toda a agitação deste dia, esqueci de almoçar e estou morrendo de fome.
Simão já deve ter fechado o bar!
— Também estou com fome!
Vou preparar algo.
Já que vai ser o meu marido, tem que ver se a minha comida te agrada!
Se eu não gostar da tua comida, te ensino a cozinhar.
Estavam jantando, quando Clara chegou acompanhada por Gustavo.
Gustavo, sorrindo, disse:
— Zeca! Como vai?
— Muito bem, Gustavo e você?
Muito feliz por você.
A cidade toda está comentando!
Robertinho está indo de porta em porta contando para todos que andou no carrão da sua mãe!
— Aquele menino é mesmo um fofoqueiro!
— Está dizendo que o seu nome é Ricardo, mas que você parece com o Zeca!
Espero que continue a ser como sempre foi.
Gosto muito de você sendo Ricardo, ou Zeca.
— Obrigado, Gustavo, você é um bom menino.
Merece e vai conseguir tudo de bom na vida!
Clara, em pé ao lado de Gustavo, com os olhos baixos, ficou calada.
Regina percebeu que a filha não estava bem.
— Vocês não querem jantar?
Tem para todos!
— Obrigado, dona Regina, mas jantei em casa.
Zeca, também percebendo que Clara estava calada, disse:
— E uma pena!
A comida da Regina está muito boa!
Clara! Você está bem?
— Estou, sim, Zeca, só com um pouco de dor de cabeça.
— Por isso eu a trouxe para casa. — Gustavo disse — Está entregue.
Preciso ir embora, boa noite!
— Boa-noite, Gustavo e obrigada por ter trazido a Clara.
Gustavo saiu.
Clara se dirigia para o quarto.
— Clara, — Zeca a chamou — preciso falar com você.
Quero te pedir desculpas por tudo aquilo que te disse.
Não é verdade que, se fosse eu quem tivesse dado o dinheiro, estaria arrependido.
Aconteceu muita coisa hoje.
Fui obrigado a recordar de coisas que durante o tempo todo em que estive aqui, tentei esquecer.
Gosto muito de sua mãe, quero me casar com ela e quero que você me receba de coração.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 8:15 pm

Ela olhou para ele, depois para a mãe e disse emocionada:
— Zeca, sou eu quem tem que te pedir desculpas.
Todas as tuas palavras estavam certas.
Só me mostrou a cretina que tenho sido.
Nunca soube reconhecer o amor de minha mãe.
Com certeza teria sido mais fácil para ela, ter tomado uma droga qualquer e impedido o meu nascimento.
Mas, não, além de me deixar nascer, ainda me criou com todo carinho e amor que havia em seu coração.
Obrigada, Zeca.
Saiba que aprovo o casamento, não por você ser hoje um homem rico, mas por ser quem é, um homem de bem.
Sei que fará a minha mãe muito feliz.
Mamãe, por favor, me perdoe!
Estou sofrendo muito por todas aquelas coisas horríveis que falei!
Regina se aproximou da filha e a abraçou:
Minha filha, eu te amo muito.
É assim mesmo que aprendemos.
Sinto que está sendo sincera, só posso agradecer por este momento.
Agora vá se deitar e tenha uma boa-noite.
Zeca sorriu para ela, concordando com a cabeça.
Após terminarem o jantar, Zeca se despediu e foi embora.
Andando pela praça em direcção a sua casa, sentia o coração leve.
Via em seu pensamento o rosto e as palavras de Cláudio.
Sabia que o seu irmão estava vivo em algum lugar e, o mais importante, estava feliz.
Levava em sua mão o Evangelho que Regina havia lhe dado.
Chegou em casa, já era tarde e todos dormiam.
Devagar, foi para o seu quarto.
Olhou aquele lugar pobre, mas tão aconchegante.
Quantas horas de solidão ali passou.
Tomou um banho, pegou o livro e começou a ler.
Abriu o livro ao acaso. Leu.
"Sem caridade não há salvação".
Parou de ler, pensou um pouco e continuou lendo.
Adormeceu com o livro sobre o peito e a luz acesa.
O sol entrou por sua janela.
Sem perceber, e por ser tarde quando chegou, dormiu com ela aberta.
Olhou o relógio, era ainda muito cedo.
O livro estava caído no chão.
Durante a noite deve ter se virado.
Estava aberto na página que continha uma parábola:
A quem muito foi dado, muito será pedido.
Leu com atenção.
Fechou os olhos e ficou pensando em tudo o que havia lido.
"Deus me deu tudo.
Nasci em uma casa com todo o conforto, muito mais do que precisava.
Meus pais são pessoas de bem, trabalhadores e honestos.
Me desviei de seus ensinamentos, parti para uma vida marginal.
Ganhei muito dinheiro que está agora espalhado por vários Bancos.
No dia em que Cláudio morreu, jurei que nunca mais tocaria naquele dinheiro, mas, neste livro, li que é preciso fazer caridade.
O dinheiro que está lá é meu, ninguém poderá sacá-lo sem a minha autorização.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 8:16 pm

Não é justo que fique parado.
Agora estou começando a entender o que aconteceu comigo!
Tenho certeza que meu irmão está vivo em algum lugar e sei que a vida não termina com a morte.
Posso fazer algo com aquele dinheiro."
Levantou e foi para o bar.
Simão estava abrindo as portas:
— Bom-dia, Simão!
— Bom-dia! Mas o que é isso?
Caiu da cama?
Esqueceu que hoje é sábado?
Não dormiu bem?
— Dormi muito bem!
Aliás, como há muito tempo não fazia.
Tive uma ideia e preciso falar com você!
— Entre, o café ainda não está pronto.
Enquanto preparo, vamos ver que ideia é essa.
Zeca contou ao amigo tudo o que havia acontecido no cemitério na noite anterior.
Simão ouvia um pouco descrente.
Zeca falava com tanta certeza, que ele foi obrigado a aceitar, embora um pouco relutante.
— Não será que isso aconteceu pelo facto de ter estado com sua mãe e lembrado de tudo?
— Não, Simão, quando entrei no cemitério, nem sabia por que estava lá, mas não é sobre isso que quero falar.
Quero falar sobre dinheiro.
— Dinheiro? Esse assunto é sempre bom.
— Quanto acha que será preciso para construir as casas?
— Não sei, quem pode calcular é o Juarez.
Por que quer saber?
Estranha essa tua pergunta.
— Tenho muito dinheiro guardado em bancos, não sei bem a quantia.
Talvez dê para construirmos as casas.
— Tanto assim?
Se o dinheiro é seu, por que não ficar com ele e ter uma boa vida, ainda mais agora que vai se casar?
— E um dinheiro sujo que ganhei ajudando a destruir muitos jovens e suas famílias.
Jurei que nunca mais tocaria nele.
Mas, esta noite, lendo um livro, entendi que sempre temos uma nova chance e que os nossos erros sempre poderão ser reparados, nem que para isso leve muito tempo.
Aprendi que o caminho é a caridade.
Por isso, decidi, que o mesmo dinheiro que destruiu a tantos, hoje pode trazer felicidade para muitos.
— Se acredita mesmo, se acha que o caminho é esse, que seja.
Mais tarde iremos falar com o Juarez e pedir que calcule o total.
O café já está pronto, vamos tomar?
Tomavam o café, quando Regina chegou:
— Bom-dia!
_ Bom-dia, Regina.
Chegou em boa hora, terminei de coar o café.
Sente aí com o Zeca, já vou te servir.
Ela sentou.
Zeca segurando a sua mão disse:
_ Temos que conversar, mas faremos durante a viagem.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 8:16 pm

_Viagem?! Que viagem, Zeca?
_ Estou esperando o Elias chegar com o seu táxi, verei se nos leva até a Capital.
Vamos visitar o meu pai, preciso falar com ele e te apresentar a minha família.
— Me apresentar a sua família?!
Assim, de repente?
Ainda é muito cedo.
Não estou preparada!
_ Preparada para quê?
A minha vida está mudando.
Você mesma disse que sempre temos uma nova chance.
Aproveitarei essa chance que a vida está me dando e, desta vez, farei tudo direito.
Nos amamos e vamos nos casar.
O primeiro passo é te apresentar aos meus pais.
Qual é o problema?
— Estou surpresa! Não pensei que faria isso.
Não sei, sua mãe me pareceu uma pessoa fina e educada.
Sou só uma moça do interior.
Não vou saber conversar com ela.
— Por que não?
Como diz Robertinho:
ela parece fina ... mas só parece... é muito boa.
Você nunca saiu daqui?
Não conhece a Capital?
Óptimo! Hoje conhecerá!
— Aproveite o convite dele, Regina!
Vá até a Capital.
No mínimo, fará uma viagem.
Ele está mesmo apaixonado!
Regina apenas sorriu.
Não sabia o que dizer.
Elias chegou com o táxi e, como todos os dias, entrou no bar para tomar o seu café e disse com malícia:
— Bom-dia! Estão todos bem?
Doutor Zeca, como vai o senhor? — disse fazendo uma reverência e rindo.
— Pode parar, Elias.
Não sou doutor, sou só o Zeca!
— Não é isso que estão dizendo.
Não pode mais enganar ninguém.
Todos viram o carrão que veio te procurar e se não bastasse isso, para quem não viu, Robertinho contou!
— Pois é, todos tiveram uma alucinação.
Não veio carrão algum me procurar.
Continuo o mesmo Zeca de sempre.
Ainda bem! Fiquei com medo que fosse mudar...
— Não mudarei. Estava te esperando.
Quer nos levar à Capital.
Esse carro velho conseguirá chegar lá?
— Carro velho?
Respondeu, ofendido — Meu carro está muito bom e chega a qualquer lugar!
Posso ir aonde quiser!
— Então, encha o tanque.
Prepare-o para a viagem.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 8:16 pm

— Zeca! — disse Regina preocupada.
Não posso ir com esta roupa.
Vou até em casa me trocar!
— Você está linda.
Aliás, de qualquer modo que esteja vestida, será sempre a mulher mais linda do mundo.
Mas se lhe fizer bem, vá.
Fico te esperando aqui.
Elias foi preparar o carro e Regina foi trocar de roupa.
Simão ficou olhando para o amigo, após alguns segundos disse:
— Você está bem mesmo. Fico feliz.
_ Tirei um peso das costas.
A vergonha e o remorso me consumiam.
Hoje, estou bem.
Reencontrei os meus pais, encontrei uma mulher divina.
Que mais posso querer da vida?
— Nada mais, meu amigo.
O pior sentimento que um ser humano pode carregar é o da culpa, nem todos tem a mesma sorte que você.
Nem todos conseguem se libertar.
— Por que está dizendo isso, Simão?
— Por nada!
Só estou jogando conversa fora.
— Bom-dia, senhores...
— Bom-dia, Célia!
Como passou a noite?
— Na medida do possível, muito bem, Simão.
E você, Zeca, como está?
Passou bem a noite?
— Ele está bem.
Quem respondeu foi Simão, rindo — Vai para a Capital apresentar a noiva para a família!
Vai se casar mesmo!
— Fico feliz por isso.
É sempre bom ver as pessoas realizarem os seus desejos.
— Sente-se aí, já vou te servir o café.
Célia estava sentando quando Paulina chegou.
Sentou-se também e ficaram tomando o café e conversando.
Zeca contou a elas o que havia acontecido no cemitério.
— Não ficou com medo?
— Não, Paulina, não senti medo.
Ao contrário, fiquei feliz por ver e ouvir meu irmão, mas achei que estava louco.
— Será que não teve uma alucinação, Zeca?!
— Não! Foi real, ele estava lá falando comigo.
_ Sabem de uma coisa?
Desde que comecei a ler aquele livro, também tenho encontrado algumas respostas.
_ Se estiver lendo o Evangelho que Regina me emprestou, posso te garantir que é mágico, Paulina, nos faz pensar.
_Foi esse mesmo a Célia me emprestou.
Simão pensou por um instante e disse:
_Já que todos leram e estão tão impressionados, acho que está na hora de eu ler também.
— Simão, mais tarde trarei para você.
— Tenho uma ideia melhor, Paulina!
Esse livro não é para simplesmente se ler uma vez, mas para se ler sempre.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 8:16 pm

Estou indo para a Capital, trarei um para cada um de vocês!
O que acham?
— Por mim, agradeço, Zeca. — disse Célia.
Eu já tenho o meu.
Precisa trazer um para a Paulina e outro para o Simão.
— Está bem, farei isso.
Regina chegou deslumbrante.
Com um vestido azul e os cabelos presos no alto da cabeça.
— Nossa! O que é isso?
Aonde vamos?
— Ela vai conhecer os futuros sogros! — respondeu Simão.
— É mesmo? Que bom!
Desejo que sejam felizes.
— Obrigada, Paulina.
Estou muito feliz mesmo.
Zeca e Regina se despediram e entraram no táxi.
Regina, ao mesmo tempo em que estava feliz, sentia muito medo; não sabia como seria recebida.
No primeiro posto de gasolina da estrada, Zeca ligou para sua mãe avisando que chegariam logo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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