A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:01 pm

Sabe por quê?
Porque continua até hoje um simples professorzinho idealista, achando que conseguirá mudar o mundo!
Minha mulher frequenta os melhores cabeleireiros e as melhores lojas!
Rosana não deve ter dinheiro nem para cortar os cabelos, deve andar de ônibus para dar aula!
Meus filhos frequentam as melhores escolas!
Os teus devem estar em alguma escola pública!
Tenho dinheiro aqui e em bancos do exterior!
Se eu perder este emprego, viverei para o resto da minha vida com a mesma qualidade!
Quanto dinheiro você tem?
Junto ao poder, eu também sou poderoso! Gosto de viver assim!
Nada, nem ninguém, pode acabar com isso!
Quer saber mais? Nem Deus!
Se é que realmente existe!
— Realmente, Teo, sou tudo isso que está dizendo!
Não tenho boas roupas, nem boa casa ou carro novo.
Meus filhos não frequentam boas escolas, minha mulher não frequenta cabeleireiros e lojas caras, muito menos tenho dinheiro guardado aqui, ou no exterior!
Se, hoje, um de nós perdesse o emprego, seria difícil, mas temos muito amor em nossa família e vivemos em paz!
Tenha certeza de uma coisa.
Deus existe sim, só Ele tem todo o poder!
Não percebe que, enquanto desvia dinheiro com suas trapaças, muitas crianças estão sem escolas e até morrendo de fome?
— A culpa não é minha!
É do sistema! Eu apenas faço parte dele e confesso que gosto!
Me preocupo com os meus filhos, você com os seus!
Cada pai que se preocupe com os filhos deles!
Por que filho de pobre precisa estudar?
Serão sempre uns perdedores, assim como você!
_ Não sou um perdedor!
Tenho paz e dignidade para olhar bem em sua cara e dizer:
você é um canalha!
Na sua opinião, filho de pobre não tem que estudar para quando crescer, sem escola, sem instrução, continue votando em canalhas como você?
Realmente, o nosso país tem no poder muitos homens como você e políticos que são escolhidos por esse mesmo povo, que continuará sem escola, instrução e dignidade!
Mas um dia, eu acredito que, tudo mudará!
Luiz saiu muito nervoso, sem se despedir.
Eu, sorrindo, sem querer entender o que ele havia me dito, pensei:
É mesmo um perdedor, se tivesse aceitado o emprego que lhe ofereci, poderia hoje estar tão bem, quanto eu."
— Logo depois, o pessoal da construtora chegou.
A comissão que eu receberia seria muito grande.
Aquela prática já se tornara normal.
Eu encaminhava ao deputado os projectos, sempre super-facturados.
O deputado apresentava a quem era responsável e aí, se aprovado, a gorda comissão viria.
O meu deputado estava há muito tempo na política e agora tentava a reeleição.
Como era muito conhecido, por estar sempre em evidência na mídia acreditávamos que a reeleição seria tranquila.
Ele continuando, eu continuaria também.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:01 pm

Durante todo o tempo em que estive com ele, consegui muito dinheiro.
Embora nunca houvesse sido pobre.
Minha família sempre pertenceu à política.
Meu pai havia sido deputado, ministro e senador.
Esteve sempre ao lado do poder.
Quando veio a ditadura, eu estudava Direito.
Ele ficou do lado dos militares, o que me revoltou e fez com que eu me tornasse um grande lutador.
Junto com Luiz e muitos outros lutamos, fomos presos, torturados e exilados.
Quando entrei para a política, foi com as melhores intenções, mas aprendi rápido que, para continuar, teria que me adaptar ao sistema.
Percebi, também, que poderia ganhar muito dinheiro.
Com o tempo, fui ganhando sempre mais.
O povo e seus problemas ficaram distantes.
Na eleição que se aproximava, eu ainda continuaria sendo assessor, mas na próxima seria candidato.
Tudo caminhava bem.
Nada poderia me parar.
Meu destino, eu já havia traçado.
Seria, um dia, deputado.
Ganhava muito como assessor, ganharia muito mais como deputado, senador ou até governador.
O meu orgulho e ambição não tinham fim.
Enquanto falava, Simão suava muito e tremia.
Regina percebendo a sua aflição, disse:
— Simão, quer parar um pouco?
Você parece cansado.
— Não, Regina, como aconteceu com Zeca e a Célia, não posso mais parar.
Estou nervoso, não por estar contando, mas por me imaginar naquela situação.
— Tome, pelo menos, um pouco de água, ou café.
Tomou água e continuou:
— Depois que Luiz saiu eu continuei com o meu trabalho, que consistia em dar telefonemas para saber como andavam os projectos que já havia enviado.
Durante toda a tarde recebi várias pessoas, que vinham pedir desde emprego até médicos e remédios.
Atendia a todos, dizendo que iria providenciar ajuda.
Anotava nomes e endereços.
Assim que saíam, e u jogava os papéis no lixo.
Não tinha tempo para perder com aqueles assuntos, tão insignificantes.
Quase seis horas da tarde, estava ainda no escritório, quando o telefone tocou.
A secretária já havia ido embora, por isso, eu mesmo atendi.
— E o senhor Teodoro?
— Eu mesmo, quem está falando?
— Aqui é da polícia rodoviária, sinto comunicar, mas a sua esposa sofreu um acidente.
— Como? Que está dizendo?
Isso é uma brincadeira?
" — Sinto muito, mas não é uma brincadeira.
O acidente foi grave, é melhor que venha até aqui."
— Tremendo muito, anotei o endereço que me passou.
Antes de ir ao endereço, pedi a Gaspar que fosse pela estrada para ver se havia algum acidente.
Meu coração batia forte.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:02 pm

Estava com medo do que iria encontrar.
A voz da pessoa que ligou estava muito tensa.
Não me deu o endereço de um hospital o que me deixou ainda mais, apreensivo.
Faltando uns dois quilómetros para a saída que levaria até a minha sogra, vi um aglomerado de pessoas e os carros passando devagar.
Meu coração se apertou mais ainda.
Gaspar, que também havia visto, parou o carro no acostamento:
- Doutor, não quer que eu vá na frente?
Notei que, assim como eu, ele estava preocupado.
_ Claro que não!
Não devia ter parado!
Vamos logo.
Ele acelerou o carro, que, para mim, parecia estar parado.
Não chegava nunca.
Finalmente chegamos, fora realmente o carro de Cláudia que estava ali, todo retorcido.
Ao vê-lo, fiquei parado dentro do carro, sem forças para sair.
No estado em que o carro estava, realmente, algo muito grave havia acontecido.
Dificilmente alguém escaparia com vida.
Sem forças, sentindo até falta de ar, não conseguia sair do carro.
Gaspar, vendo a minha aflição, disse:
— Doutor, fique aqui.
Vou até lá ver o que aconteceu."
Saiu. De longe, fiquei olhando.
Eu, que sempre fui tão forte e, estava ali, paralisado e com muito medo de saber o que temia ter acontecido.
Gaspar se aproximou de um dos vários policiais que estavam ali.
De longe, vi meu motorista conversando e gesticulando.
Colocou a mão na cabeça, como se estivesse desesperado.
Não suportei.
Saí do carro e fui correndo em direcção ao carro de Cláudia.
Nesse instante, Simão começou a chorar e colocou as mãos no rosto.
Suas mãos e corpo tremiam.
Os amigos, adivinhando o resto da história, também estavam abalados.
Não sabiam o que falar, aliás, não havia o que ser dito.
Paulina se levantou, deu a volta, colocou as mãos, por trás, nos ombros de Simão:
— Simão, pode parar de falar, já podemos imaginar o que aconteceu.
Relembrar está te fazendo mal.
Não queremos que sofra.
Entendemos, agora, porque está escondido aqui.
O único que te conhece é Fábio e, com certeza, não vai contar a ninguém que te encontrou.
Não é mesmo, Fábio?
— Pode ficar tranquilo, Simão.
Eu sabia o que havia acontecido com a sua família, mas não conhecia os detalhes.
Não vou comentar com ninguém que te encontrei aqui.
Simão enxugou com as mãos as lágrimas.
— Estou bem, meus amigos, mas preciso continuar.
Estou com estas lágrimas lavando a minha alma.
Sei que são meus amigos e que continuarão sendo.
Regina, também abalada, segurou as mãos de Simão:
Entre amigos não deve haver segredos.
Aos poucos, estamos nos mostrando quem realmente somos.
Isso nos mostra que Deus é nosso Pai e que sempre nos dá a chance de refazermos a nossa vida.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:02 pm

Estamos envolvidos em um projecto que fará bem a muitas pessoas e será a nossa chance de recomeçar uma nova vida.
— Obrigado, Regina, mas vou continuar:
saí correndo.
Gaspar e os policiais tentaram me impedir de chegar junto ao carro.
Assim que cheguei, parei.
A cena que vi, nunca mais vou esquecer.
Cláudia e as crianças ainda estavam lá, no meio dos ferros retorcidos.
A cena era dantesca!
Mais tarde fiquei sabendo que morreram na hora.
Por isso, ainda estavam ali.
Seriam logo mais retirados e levados ao Instituto Médico Legal.
Os policiais falavam, mas eu não ouvia.
Tudo parecia um pesadelo, do qual eu fazia um esforço enorme para acordar.
Passaram-se alguns minutos até que Gaspar e um policial me retirassem dali.
Gaspar me levou para casa, onde encontrei parentes e amigos que me receberam constrangidos, sem saberem o que dizer.
Vi todas aquelas pessoas me olhando.
Reconheci algumas, outras não.
Fiquei parado respondendo algumas perguntas, mas não esquecia a cena que havia presenciado.
Não podia me conformar!
As três pessoas que mais amava, que eram tudo para mim, não existiam mais.
Não conseguia chorar, porque não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo.
Alguém me levou para o meu quarto e me aplicou uma injecção.
Dormi não sei por quanto tempo.
Quando acordei, minha mãe estava ao meu lado:
— Meu filho, sinto muito por tudo que aconteceu, mas agora tem que se levantar e ir até o velório."
Ouvi a sua voz, mas ainda parecia um sonho.
Olhei e vi que estava em meu quarto.
Naquele maravilhoso quarto!
O quarto que eu havia trabalhado tanto para construir e ver Cláudia feliz.
Levantei, tomei um banho e acompanhei minha mãe até o velório.
Quando lá chegamos, as pessoas correram para me cumprimentar.
As horas se arrastaram, queria ficar sozinho, mas tinha que cumprir a minha obrigação social.
Toda a minha vida se resumia, agora, em três caixões lacrados.
Finalmente o sepultamento foi feito.
Minha mãe me acompanhou até em casa.
Chegando lá, eu disse:
— Por favor, mamãe, me deixe sozinho, preciso colocar em ordem os meus pensamentos.
Preciso entender o que aconteceu e o porquê de tudo isso.
Não se preocupe, eu estou bem.
Muito triste, cansado e confuso, mas estou bem.
— Tem certeza?
Não será melhor ir para a nossa casa?
—Não, mamãe, preciso ficar aqui e colocar os meus pensamentos em ordem.
Não se preocupe, ficarei bem."
Estávamos sentados em um sofá na sala.
Me levantei e a abracei.
Ela me beijou e foi embora.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:02 pm

Assim que fiquei sozinho, olhei a imensa sala com sua decoração bonita e caríssima.
Abri a porta da varanda que dava para a piscina.
Aquela mesma piscina, onde meus filhos e Cláudia brincavam.
Parecia que os via, rindo e correndo.
Só que eu nunca estava ao lado deles.
Sempre os via de longe, sem participar de suas alegrias e brincadeiras.
Sempre estava entrando ou saindo.
Lembrei que já fazia alguns dias que não via meus filhos.
Quando eu chegava em casa, eles já estavam dormindo.
Quando eu acordava, eles já haviam saído para ir à escola.
Voltei para a sala, tomei um drinque e subi para os quartos.
O quarto de Carina era decorado na cor rosa.
Em sua cama, havia bichinhos de pelúcia, bonecas e muitos brinquedos.
Naquele quarto havia tudo o que uma criança poderia desejar.
Só não havia mais a minha filhinha, a não ser em uma fotografia.
Olhei tudo, tentando vê-la surgir correndo de algum lugar para me abraçar.
Mas foi em vão, ela não surgiu, pensei:
Há quanto tempo não a abraçava?
Há quanto tempo não brincava ou simplesmente via meus filhos?
Há quanto tempo eu não dava atenção para minha família? "
Deitei em sua cama e chorei muito.
Depois, saí e fui ao quarto de Caio.
Também ricamente decorado com tudo o que uma criança possa sonhar.
Dei tudo a eles, manos a minha presença, e o meu carinho e o meu amor.
Também ali, eu o amei em voz alta, esperando que a qualquer momento ele aparecesse.
Foi em vão.
Fui até o meu quarto, também amplo e bonito.
Na minha cama tentei ver Cláudia.
Ela também não estava lá.
Lembrei que naquela manhã havia quase me obrigado a amá-la.
Não tinha tempo para essas pequenas coisas.
Não tinha tempo de amá-la.
Estava sempre correndo precisava ganhar dinheiro.
Dinheiro e poder que eu precisava cada vez mais e que, para conseguir, abandonei a minha família e deixei de ter com eles momentos de felicidade.
Agora, o que faria com todo aquele dinheiro?
Com todo o poder?
Com aquela linda casa?
Com os carros?
Enfim, com tudo que possuía?
Não havia resposta, não sabia o que fazer.
Deitei em nossa cama e mais uma vez chorei.
Lembrei de Luiz, Rosana e tantos outros, que sacrificaram a sua juventude para o bem do nosso país.
Lembrei de nossas lutas, dos momentos de medo e de fuga.
Lembrei dos meus sonhos de juventude, que havia jogado fora e da desilusão que senti ao entrar para a política e ver como o sistema era tão corrompido.
Lembrei que, ao invés de lutar contra ele, preferi me agregar e jogar todos os meus sonhos para o alto, em troca de dinheiro e poder.
Dinheiro? Para quê?
Poder? Para quê?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:02 pm

Nem o dinheiro, nem o poder poderiam me trazer de volta, as pessoas mais amadas e que os usei como desculpa para cometer todos aqueles crimes.
Minha cabeça parecia que ia estourar.
Meus sentimentos eram de dor e sentimento de culpa.
Lembrei-me de Deus.
"Será que Deus existe mesmo?
Se existe, por que ao invés de castigar Cláudia e os meus filhos, não matou a mim?"
— Lembrei-me mais ainda de Luiz e em todas as verdades que ele disse e que insisti em não aceitar.
Ele disse não possuir tudo o que eu possuía, mas que era fez, pois vivia em paz, com sua família.
Lembrei de Cláudia me dizendo essas mesmas coisas.
Fiquei ali por muito tempo.
Não recebia visitas e só atendia ao telefone quando fosse minha mãe.
Os dias se passaram e eu sem vontade de reiniciar as minhas actividades.
Não havia motivo, nada mais me importava.
Fiquei assim por alguns dias, até que minha mãe me telefonou:
— Teo, seu tio que mora lá em Céu Dourado telefonou querendo que vá passar alguns dias com ele.
A cidade é pequena e tranquila, lá poderá descansar.
Talvez encontre um novo caminho.
A princípio não quis aceitar, mas depois pensei:
" Não posso continuar assim.
Preciso tomar uma atitude.
Vou para Céu Dourado, ficarei lá por alguns dias e quem sabe encontre uma maneira de me redimir de todos os meus erros."
_Vim para cá de ônibus.
Não queria mais usar aquele dinheiro que havia roubado.
Meu tio, irmão de minha mãe, me recebeu com muito carinho.
Idoso, solteiro e não tinha filhos.
Logo que cheguei comecei a me sentir melhor.
A cidade simples e as pessoas vivendo de forma simples, mas me parecendo felizes.
Comecei ajudando no bar.
Vim para ficar alguns dias, mas encontrei aqui a paz tão procurada.
Fui ficando.
De repente, meu tio sofreu um ataque do coração e também morreu.
Novamente a dor, pois naquele pouco tempo em que vivi com ele, me afeiçoei.
Toda a lembrança e a dor daquele dia voltaram ao ver o meu tio morto e ser enterrado.
Outra vez a fatalidade se abatia sobre a minha vida.
Novamente perdi a vontade de viver.
Resolvi que voltaria para casa, que ainda estava aberta e sendo cuidada por empregados.
Estava arrumando minhas coisas, quando vi um envelope com o meu nome.
Abri e encontrei uma carta.
Comecei a ler:
Querido sobrinho
Você não sabe, mas estou muito doente.
O meu velho coração não vai resistir por muito tempo.
Em nossas conversas, pude sentir o grande arrependimento que sente por tudo que julga ter feito de errado.
Logo mais partirei para a Glória de Deus.
Desde que chegou, você mudou completamente.
Está corado e feliz.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:03 pm

Acostumou-se com o trabalho no bar.
Vivi boa parte da minha vida aqui e sempre fui muito feliz.
Quando eu morrer, não terei para quem deixar as minhas propriedades e principalmente, o bar e a mercearia que são importantes para os moradores.
Por isso, peço que os aceite e continue o meu trabalho, vivendo aqui, até o dia que se sinta forte o bastante para voltar a tua antiga vida.
Todos os documentos já estão assinados e guardados nesta mesma gaveta.
Basta levar a um cartório para que tudo seja legalizado.
O dinheiro que tem e diz ter sido roubado, haverá aqui na cidade, um meio de devolvê-lo, pois existe muita gente carente na região.
Estou entregando a você não só os meus bens, mas toda a minha vida de trabalho e um caminho para seguir.
Que Deus te abençoe.
Tio Mário
— Ao terminar de ler, senti um imenso carinho por aquele homem que, por tão pouco tempo, eu havia conhecido.
Simples, embora com muita instrução.
Um dia, também abandonara a sua vida na cidade grande, vindo viver aqui em Céu Dourado para nunca mais voltar.
Fiquei com aquela carta em minhas mãos, vendo o seu sorriso.
Resolvi que ficaria até encontrar alguém para ficar no bar.
Mas o tempo foi passando, as pessoas me aceitando e gostando de mim.
Gostando de mim, não por eu ser rico e influente, mas por mim mesmo.
Todos se tornaram meus amigos.
Estando aqui no bar, conhecia a todos, bem como os seus problemas.
Um dia, apareceu você, Zeca, e depois todos vocês.
Foi do bar que soube do problema do filho do José.
Queria ajudar, mas sem que as pessoas soubessem.
Com a ajuda de minha mãe, mandei o dinheiro.
Depois para Clara e para a igreja.
Com o projecto do Grotão poderia ajudar muito mais.
A minha casa, carros e dinheiro, ainda estão lá.
A minha intenção era transformar tudo em dinheiro e usar no projecto.
O dinheiro chegaria da mesma maneira, pelo correio, mas agora, vai ser impossível.
Todos vocês já sabem.
Os amigos arregalaram os olhos, Zeca disse:
— Então foi você quem mandou o dinheiro misterioso?
— Sim. Minha mãe providenciou tudo.
— Por que não nos disse?
_ Não havia motivo.
O importante era que as pessoas precisavam de ajuda e eu podia ajudar.
Quero pedir algo para vocês.
Prometam que não contarão isso para ninguém.
Todos concordaram com a cabeça.
_ Só não entendo uma coisa. — disse Regina.
Como soube do problema da Clara?
Não comentamos com ninguém!
_ Esqueci de dizer.
Quando eu era criança minha mãe como voluntária, dava aulas de linguagem dos sinais e também leitura labial em uma instituição para deficientes auditivos.
Eu a acompanhava, achava interessante e quis aprender também.
Vi Clara e Gustavo conversando na praça.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:03 pm

Entendi o que falavam.
Por isso fiquei sabendo.
Como sabia também do amor de vocês, Regina, mesmo antes de me contarem.
Vi os dois conversando sentados no banco da praça.
— Quem poderia acreditar em uma história como essa?
— Mas é verdadeira, Paulina, agora que terminei de contar, estou me sentindo muito bem.
Não aceitei ainda a morte dos meus amores.
Penso muito neles e parece que os vejo a todo instante em que fico sozinho.
Mas sei que, aos poucos, estou recebendo o perdão de Deus, se é que ele existe mesmo...
Desde que chegou, Regina viu uma moça e um senhor que ficaram o tempo todo atrás de Simão, enquanto ele contava a história.
Regina ficou olhando por trás dos ombros dele como se ouvisse algo.
Depois de algum tempo, disse:
Simão, não sei se vai acreditar, mas está aqui o seu tio, que eu conhecia e uma moça morena, com os cabelos longos, muito pretos e olhos azuis.
Você a conhece?
_ Cláudia era assim!
Não pode ser!
Ela morreu!
_ Ela está viva, como antes.
A morte é apenas uma transformação.
Não existe morte para o espírito.
Ela quer te talar algo.
Se você quiser poderá ser por meu intermédio.
_ Você não a conhecia, eu não disse como ela era, só pode estar dizendo a verdade!
Se puder falar com ela, é claro que quero!
Ficaria imensamente feliz!
- Vamos nos dar as mãos e fazer a Deus uma prece para que nos conceda a graça de podermos falar com essa nossa irmã.
Tenham em seus pensamentos um único desejo: ajudar.
Assim fizeram.
Em poucos minutos, Regina viu a sala toda se iluminar.
Perto dela estava Dona Júlia, que colocou a mão em sua garganta.
Cláudia também se aproximou, ficando por trás dela que, aos poucos, começou a falar:
_ Teo, meu amor.
Estou feliz por finalmente você ter retornado ao seu verdadeiro caminho.
Quando veio aqui para a Terra, foi para ajudar o próximo e assim redimir os erros cometidos em encarnações passadas.
Se afastou desse caminho, quando escolheu usar mal o dinheiro e o poder.
Hoje, finalmente, está pronto para recomeçar a sua vida, inclusive na política, usando-a para ajudar o povo desta cidade e talvez de todo o país.
Como político, tem em suas mãos a ferramenta para promover o bem estar de todo um povo.
O teu erro não foi em se envolver na política, mas em fazer mau uso dela.
Para te dar a certeza que sou eu mesma que estou falando, quero que se lembre da minha marca de nascença que tenho na perna direita.
Agora está no rumo certo.
Eu e as crianças estamos muito bem, torcendo para a tua vitória.
Abra o teu coração para um novo amor.
Não voltarei mais, mas estarei esperando o teu retorno, te amo, hoje e sempre.
Regina voltou, agradecendo a Deus aquela oportunidade.
O ambiente todo estava reluzente.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:03 pm

_ Foi ela mesma! — disse Simão em lágrimas.
Você não poderia saber da marca de nascença, Regina!
Então a morte não existe mesmo?
Ela está viva em algum lugar?
_ Sim, Simão, a morte do corpo existe.
Um dia, também morreremos, mas o espírito não morre nunca.
Em algum lugar a vida continua.
A morte é só um breve até logo, pois um dia nos reencontramos com amigos e inimigos.
Vamos torcer para que os amigos sejam em maior número.
Zeca não se admirou, há vários dias, acompanhava Regina com suas visões, mas Simão, Célia, Paulina e Fábio estavam boquiabertos.
Regina aproveitou a oportunidade para dizer.
— Entendeu, Célia, por que te disse ser necessário perdoar seu pai?
Ele está sempre ao teu lado pedindo perdão.
Enquanto não obtiver, continuará perdido e vagando.
Ficará sempre ao teu lado.
A energia dele é diferente da tua, mesmo não querendo, vai te prejudicar.
Nenhum ser humano é perfeito, todos temos os nossos defeitos, mas Deus, nosso pai, sempre nos dá o seu, perdão.
Quem somos nós para negar o perdão a um irmão, companheiro de jornada?
— Ela tem razão, meu amor. — disse Fábio emocionado com tudo que viu.
Embora ainda não entenda tudo o que Regina está falando, em algo ela tem razão.
Não somos perfeitos, estamos hoje juntos e com nosso filho.
Temos uma vida inteira pela frente.
Vamos esquecer o passado e recomeçar sem mágoa, ou ressentimento.
Tudo já passou, vamos perdoar para que, assim como ela diz, seu pai possa continuar a sua jornada e nós, a nossa.
Eu também fui vítima de sua maldade, mas se Deus nos deu a oportunidade de estarmos juntos hoje, e se tudo for verdade, por que não dar a seu pai a oportunidade de se redimir, também?
_ Tem razão.
Estou muito feliz para guardar rancor ou mágoa.
Papai, se estiver me ouvindo, quero que seja feliz, que continue o seu caminho.
Eu já o perdoei.
Meu filho está aqui por sua vontade.
Poderia tê-lo matado ou sumido com ele e eu jamais o encontraria.
Desejo que seja feliz.
Regina sorria enquanto via Ofélia, saindo com aquele homem, que há muito já havia amargado os seus pecados.
Ele se aproximou da filha e beijou a sua testa.
Depois sorrindo para ela, agradeceu e saiu feliz com Ofélia para uma nova etapa em sua vida.
Mais uma vez, Regina agradeceu a Deus.
_ Bem, meus amigos, agora está tudo em paz.
Vamos comemorar esta noite de felicidade.
Que a paz continue em nossos corações!
Já está tarde.
Não vimos o tempo passar e amanhã será um novo dia, cheio de muito trabalho e realizações.
Que Deus nos abençoe, que a nossa amizade seja eterna...
Sorriram.
Despediram-se e foram para suas casas sentindo em seus corações uma paz infinita.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 17, 2017 8:03 pm

Paulina ficou sozinha, intrigada com tudo que presenciou.
Nunca poderia imaginar que Simão, um homem tão simples e camarada, tivesse uma história como aquela.
Obtivemos prova incontestável de que sua esposa estivera ali.
A vida após a morte existe mesmo, não podemos mais duvidar.
Se realmente existe, ele ainda está vivo e quem sabe ao meu lado.
Regina falou em perdão.
Gomo perdoar todo o mal que ele me fez?
Já que realmente existe vida pós-morte, ele deve estar sofrendo muito.
É o que mais desejo.
Desculpe, Deus, mas não consigo ter outro sentimento em relação a ele!
Não podia ter feito aquilo comigo!
Acabou com a minha vida!
Simão, por sua vez, na rua olhou para o céu.
A noite estava linda, o céu muito estrelado.
Havia uma brisa fria, mas que não incomodava.
Seu coração estava leve.
Agora, sabia que sua esposa e filhos continuavam vivos e felizes.
"Depois de tudo o que aconteceu hoje, não posso mais duvidar da existência de Deus.
Agora que tudo foi esclarecido, posso continuar o projecto do Grotão sem ter que me esconder.
Todo aquele dinheiro que consegui por meios inconfessáveis será usado para ajudar as pessoas desta cidade.
Aprendi que não preciso de nada além do que já tenho para ser feliz."
Entrou em casa.
Sobre uma cómoda, havia a fotografia de seu tio, que parecia estar sorrindo para ele.
Deitou-se e dormiu tranquilo, sem pensar no que acontecera.
Dormiu com a figura de Cláudia, viva, falando com ele através de Regina.
Zeca e Regina chegaram ao portão da casa dela.
Haviam combinado que não dormiriam mais juntos enquanto Clara não fosse embora, ainda mais por ser antes do casamento.
O amor deles era puro e não queriam trazer constrangimentos para a menina.
Beijaram-se e ele foi para o seu quarto nos fundos da casa de Robertinho.
Fábio também se despediu de Célia e se encaminhou para sua casa.
Encontrou com Zeca quando chegavam ao portão.
Fábio perguntou:
— Zeca, o que me diz de tudo o que aconteceu hoje?
- Estou há alguns dias com Regina presenciando muitos factos parecidos.
Por isso, não me admirei do que vi.
Ela tem um dom que faz com que veja e ouça espíritos.
— Acredita mesmo nisso?
_ Acredito, pois só me contou, após eu ter dito a ela que também havia visto.
— Você também viu?!
— Sim, mas é uma longa história, outra hora te contarei.
Vamos entrar?
Amanhã será um outro dia.
Entraram.
Na casa de Consuelo todos dormiam.
Fábio não fez barulho. Estava cansado.
Tudo estava acontecendo muito rápido.
Sua vida mudava sem que pudesse evitar.
Ainda bem que foi para melhor.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:25 pm

Agora com a mulher amada e a descoberta de seu filho, só poderia ser feliz. Deitou-se.
Amanheceu. O sol brilhava forte.
Zeca acordou e ficou por algum tempo deitado, pensando em tudo o que havia acontecido em tão poucos dias.
Os segredos iam sendo desvendados.
Ele, Célia e Simão, agora, estavam unidos por revelações que surgiram espontaneamente.
Para eles poderem se revelar, como realmente eram, foi muito bom.
Não precisavam mais se esconder no anonimato.
Poderiam, agora, trabalhar no projecto e ajudar com o dinheiro necessário.
O dinheiro que os três possuíam era muito!
Levantou-se, tomou um banho.
Havia combinado de arrumar um jardim.
Adorava o seu trabalho, jamais deixaria de ser jardineiro.
Mexer com a terra, ver a semente germinar e crescer, era tudo o que queria na vida.
Encontrou nessa profissão a sua verdadeira vocação.
Não precisava de mais dinheiro do que aquele que conseguia com o seu trabalho.
Durante o pouco tempo em que estava na cidade, foi mais feliz do que nunca.
Conheceu o verdadeiro valor da amizade e o prazer de trabalhar em algo que realmente gostava.
Foi para a casa de Consuelo que estava terminando de coar o café.
— Bom-dia, dona Consuelo.
— Bom-dia, Zeca.
Entre e venha tomar café.
Entrou e sentou.
Ela lhe ofereceu café com leite e um pão quentinho.
Ele não aceitou, só queria mesmo o café e conversar.
— Fiquei feliz em saber que tudo acabou bem.
Célia e Fábio estão felizes.
Robertinho, como está?
A tempestade esteve em cima do meu telhado, mas passou, graças a Deus.
Robertinho está muito bem.
Feliz com o namoro dos dois.
Logo mais, não vou conseguir mantê-lo na cama.
Ainda bem que deu a ele os carrinhos, Zeca.
Ele gostou muito e passa a maior parte do dia brincando.
É um garoto forte, logo estará bem e voltará a contar as novidades para as pessoas.
Todos estão sentindo a sua falta.
— Ainda bem que tudo voltou ao normal.
Onde esteve ontem com Fábio?
Ouvi quando chegaram e já era muito tarde.
— Estivemos na casa da Paulina, ouvindo uma história.
— História?!
Que história? De quem?
— Dona Consuelo!
Dona Consuelo... está querendo saber muito.
Até contaria, mas não tenho tempo, os meus amigos já devem estar me esperando para o nosso café matinal e hoje vou trabalhar.
Fábio tem mais tempo e lhe contará tudo.
— Está bem, Zeca.
Não entendo como ainda quer continuar sendo jardineiro.
Agora que tudo foi esclarecido, poderia voltar para sua casa e retomar a sua profissão.
Não, dona Consuelo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:26 pm

A minha profissão é de jardineiro.
Com as plantas e a terra, encontrei uma felicidade imensa.
Tudo o que tive no passado foi só aparência.
Hoje, tenho a mulher que amo ao meu lado e trabalho no que gosto.
— Falando nela, quando vão se casar?
Onde vão morar?
Quando Clara for para a faculdade e continuaremos morando na casa de Regina.
Eu não pretendo comprar outra, para quê?
Depois da história que ouvi ontem, tenho mais certeza ainda.
Nada vale mais do que o amor entre duas pessoas.
O resto é resto..
— Concordo, já têm uma casa, não precisam de outra.
Mas você pode ter uma bem melhor... não tenho nada a ver com isso, só o que quero realmente é que sejam muito felizes!
— Seremos, Dona Consuelo, seremos.
Até logo.
O seu café, como sempre, está muito bom.
Zeca saiu de casa.
Olhou o céu e respirou fundo.
Foi cumprimentando as pessoas que encontrava pelo caminho:
"O que preciso desta vida?
Este ar puro, a terra e essas pessoas que gostam de um simples jardineiro.
Como a vida é estranha.
Pessoas se matam para conseguir mais dinheiro, sem, saber que ele pode dar tudo, menos a alegria de viver..."
Chegou ao bar.
Célia, Paulina e Simão conversavam:
— Bom-dia, pessoal!
Estou atrasado porque tomei um café com Dona Consuelo.
— O Robertinho, como está?
_ Não se preocupe, Célia, logo ele estará andando por aí, descobrindo e transmitindo as novidades.
_ Sabem no que estive pensando?
Meu filho será um grande jornalista!
O que acham?
Acho que sim - respondeu Zeca enquanto os outros riam, jardineiro, embora ele tenha dito que era, não será.
_ Ele ficaria bem, aqui atrás do balcão do bar, — disse sorrindo Simão — é o lugar ideal para se saber tudo.
_ Mas aí, Simão, ele seria o segundo!
Quer ser sempre o primeiro!
Concordo com a Célia, vai ser mesmo jornalista!
_ Bom-dia, — disse Regina chegando — desculpem por chegar atrasada, dormi demais.
— Não tem problema, sente aí que já vou te servir.
Regina sentou-se ao lado de Zeca.
Simão terminou de servir a todos.
Como sempre, tinha que ficar atrás do balcão servindo aos clientes, mas participando da conversa:
— Preciso agradecer, por toda a paciência que tiveram em me ouvir e como estou notando, agora, tudo continuará como antes.
Estão aqui, como se nada tivesse acontecido...
— Acham que mudou alguma coisa? — perguntou Regina.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:26 pm

— Claro que não!
Só se preferir ser chamado de Teodoro.
— Não, obrigado.
Prefiro continuar sendo só, o Simão.
Riram, continuaram conversando e tomando o café.
— Zeca, posso ir trabalhar com você?
É meu dia de folga no posto.
Também adoro mexer com a terra.
— Claro que pode, Regina.
Vai ser um prazer.
Simão estava recolhendo a louça do café, quando Paulina quis ajudar.
As suas mãos se tocaram.
Um olhou nos olhos do outro.
Ficaram olhando-se como se fosse a primeira vez que se viam.
Os outros notaram que algo diferente estava acontecendo ali.
Paulina olhou para a sua mão, que ainda continuava sob a mão de Simão.
Arregalou os olhos e a retirou.
Começou a chorar e saiu correndo.
Eles ficaram espantados.
Zeca perguntou:
— O que deu nela?!
Por que saiu correndo dessa maneira?!
Simão ainda sentindo o calor da mão de Paulina, respondeu assustado:
_Não estou entendendo!
É melhor eu ir atrás dela.
_ Acho que sei o que aconteceu. — Regina, tranquila como sempre, disse:
— Ela descobriu algo, só não entendo por que ficou tão nervosa.
Vamos deixá-la pensar, mais tarde nos encontraremos aqui e saberemos de tudo.
Simão, acho bom você também ir pensando no que aconteceu...
Simão ficou sem saber o que dizer.
Foi tudo muito rápido.
Célia foi para a praça, onde as crianças a esperavam.
Zeca e Regina foram embora.
Simão ficou sozinho, pensando:
O que aconteceu aqui?
Por que senti aquilo assim que toquei sua mão?
Por que ao olhar em seus olhos, senti como se fosse a primeira vez?
Por que ela ficou tão nervosa?"
Os fregueses começaram a chegar, ele foi atendendo um a um, mas não conseguia esquecer de Paulina e de seus olhos.
— Regina, você sabe que estou ansioso para falar sobre ontem à noite, não é? — Perguntou Zeca enquanto caminhavam.
— Desconfiei, Zeca, o que quer saber?
— Entendi tudo que aconteceu, mas tenho dúvidas...
— Quais são?
— Aprendi muito com você, mas, nesse caso, não entendi.
Deus seria capaz de castigar uma ou mais pessoas por erros cometidos por outra?!
Simão acredita que a morte da mulher e dos filhos foi um castigo.
Terá sido?
Ele errou, mas a sua família não tinha nada a ver com os erros dele!
Depende de como entendermos um facto.
Já te disse que não sei de tudo, mas por aquilo que ele contou, posso tirar algumas conclusões.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:26 pm

A humanidade aprendeu a encarar a, morte como sendo um castigo.
O que ela não é.
Pois, um dia, todos nós morreremos.
Então todos seríamos castigados?
Inocentes ou não?
O tempo que passamos aqui na Terra á muito curto para a eternidade.
Setenta ou até cem anos passam muito depressa.
Pense em todas as pessoas que conhece, ou já conheceu.
Poderá me garantir que alguma delas é ou foi completamente feliz?
Não, Regina, não posso.
Todos temos momentos de felicidade, mas nunca é para sempre...
— Está vendo?
Deus é perfeito e não faria algo para não dar certo.
Se somos seus filhos, somos seus herdeiros, portanto com direito a tudo, toda glória e toda felicidade.
Se não conseguirmos é porque, aqui, não é o nosso verdadeiro lugar.
Estamos na Terra apenas aprendendo e crescendo espiritualmente.
A morte não é um castigo ou um fim... é apenas a volta ao lar.
Simão não foi castigado, nem sua família.
Foi tudo a vontade maior que conduz a nossa vida.
— Ele acredita ter sido o culpado!
- Como você acreditava ser o culpado da morte do seu irmão.
Ele mesmo te disse que não foi culpa sua, esqueceu?
— Não, mas com ele foi diferente.
Ele escolheu o seu caminho.
A família de Simão não!
— Jesus disse:
mujo será pedido a quem muito foi dado...
— Não entendi...
— Já te disse que, quando nascemos, trazemos connosco alguns deveres.
Deveres que nós mesmo escolhemos e nos propusemos a fazer.
No caso de Simão, ele veio para ser político, mas um bom político.
Ao político é dado o poder de elaborar as leis.
Leis estas, que devem ajudar o povo de uma Nação.
Na maioria das vezes, esse poder é usado em benefício próprio, sem importar a quantos está prejudicando.
Quando isso acontece, estão acumulando dívidas que deverão ser pagas.
Como todos, o político um dia voltará para o plano espiritual e dele será cobrado muito mais do que de qualquer outro.
Ele, com a sua ambição, não prejudicou a uma, ou duas pessoas, mas a pessoas de uma Nação inteira.
Simão deve ter se comprometido em ser um bom político.
Ao chegar aqui, no corpo físico, se deixou envolver e se desviou do rumo.
A sua família veio junto com ele para ajudá-lo a cumprir a sua missão.
Talvez, no momento em que se desviou do rumo, não houvesse mais necessidade dela aqui permanecer.
Ela não foi sacrificada, como muitos possam pensar.
Simplesmente voltou ao seu lugar original.
A missão deles era ajudar Simão, ele, mais uma vez, usou a sua família como desculpa para a sua ambição.
Deus, em Sua infinita sabedoria, os tirou de seu convívio para que ele, sozinho, pudesse reencontrar o seu caminho e crescer espiritualmente.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:26 pm

Novamente, usando seu livre-arbítrio, ele se retirou e agora está voltando ao seu rumo, rumo esse que se traduz no projecto do Grotão.
— Se não tivesse acontecido coisas ruins com todos nós, não realizaríamos o projecto?
— Talvez sim, pois de uma maneira ou de outra nos encontraríamos, teríamos a oportunidade.
Dependeria só do nosso livre-arbítrio.
— Com essa explicação chego quase a entender...
— Quase?! O que mais está lhe incomodando?
— Ainda assim, a morte deles foi causada por ele?
_ Não sei, talvez eles teriam morrido da mesma forma, se estivesse em seus destinos.
Não entendo tudo sobre os caminhos de Deus.
Só sei que Ele sabe tudo e que nós nada sabemos.
O importante é que, hoje, Simão está no rumo certo e com essa atitude ajudará muitas pessoas.
Poderá, agora, voltar à política, se candidatar, ser eleito e desta vez, usar o seu poder para o bem.
Essa é a vontade de Deus.
Quanto a sua esposa, pelo que vi, ela está muito bem e cercada de muita luz.
Chegaram à porta da casa, em que Zeca ia trabalhar.
Passaram o dia juntos, ela ajudando-o a replantar as mudas das flores.
Havia uma harmonia perfeita.
Paulina, em prantos, chegou em sua casa:
O que aconteceu?
Por que senti aquele arrepio pelo corpo, quando a minha mão tocou a dele?
Nunca olhei para ele com outra intenção que não fosse amizade.
Por que aquele olhar foi diferente?
Será que está surgindo algo diferente entre nós?
Será que estou apaixonada?
Não, meu Deus. Não pode ser!
Jamais poderei me unir a ele, ou a qualquer outro!
Jamais! O que vou fazer?
Talvez seja melhor eu ir embora, voltar para minha casa na Capital.
Sei que um dia pedi um caminho, mas não esse!
Regina fala em perdão!
Como poderei perdoar Arnaldo?
Ele acabou com a minha vida!
Enquanto isso, Fábio, ao acordar, foi para a cozinha.
— Bom-dia, meu filho, — Consuelo disse — chegou tarde ontem, que aconteceu?
- Nada aconteceu, mamãe, por que está perguntando?
— O Zeca disse que você tem uma história para me contar.
— Ele disse isso?
— Disse que é uma longa história.
Começou a contar, mas teve de ir embora.
Tinha contratado um jardim para cuidar.
— Vou lhe contar, mamãe.
Estou abismado até agora!
Ele começou a contar desde o momento em que havia reconhecido Simão.
Enquanto ouvia o filho, Consuelo ficou pesarosa.
Quando ele terminou de falar, ela disse:
— Estou muito triste. Gosto do Simão.
Lembro do dia em que chegou.
Estava abatido e triste, mas com o tempo a sua fisionomia se modificou.
Quando o seu tio morreu, ele voltou a ficar abatido.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:26 pm

Depois voltou a ser como antes.
Por várias vezes, presenciei Simão ajudando algumas pessoas com alimentos.
Quem poderia imaginar que por de trás daquele rosto amigo, houvesse um drama tão grande?
— É mesmo, mamãe, mas todos têm uma história.
Nós mesmos temos a nossa.
Ainda bem que no final tudo deu certo.
Vou até a praça.
Marisa deve estar ensinando as crianças.
— Também quero ir até a praça. — Robertinho disse, entrando na cozinha.
— Não pode!
Tem de ficar mais alguns dias em repouso.
— Estou muito bem, mamãe.
A Célia deve estar sentindo a minha falta... vai pensar que não quero mais aprender...
— Robertinho, você já está grande o suficiente para saber que precisa ficar totalmente bom.
Sabe que esse ferimento foi grave, por isso, tem de acatar as instruções do médico.
Ele mandou você ficar em repouso.
Célia sabe o quanto gosta de pintar e também está ansiosa por sua volta, mas ainda não pode.
Volte para a cama.
Vou levar o seu café.
Robertinho amuado, voltou para o quarto.
Pegou os carrinhos e os colocou sobre a cama.
O dia transcorreu normal.
Cada um cumprindo sua obrigação.
No fim da tarde, como todos os dias, Zeca e Regina foram até o bar para o tradicional fim de tarde.
Ao passarem pela praça, viram Célia e Fábio conversando.
Eles estão felizes.
O reencontro de duas pessoas que se amam é sempre uma manifestação de Deus.
Zeca apertou o seu ombro com mais força:
- Assim como o nosso encontro, Regina, também foi uma manifestação de Deus.
Desde que te encontrei, a minha vida mudou e hoje sou o homem mais feliz do mundo.
Felizes chegaram ao bar.
Simão estava sozinho.
— O que está acontecendo, Simão?
Você está sozinho?
— É, Zeca, até agora vocês são os primeiros, estou vendo que Célia e Fábio estão ali no banco da praça, a Paulina já deveria estar aqui.
Será que aconteceu alguma coisa?
— Não deve ter acontecido nada de grave, mas se ela não vier, eu e a Célia iremos logo mais até a casa dela.
Acredito que ela está precisando ter uma conversa só de mulheres.
— Que está querendo dizer, Regina?
Ela está doente?
— Não, Simão!
Ela não está doente, pelo menos não uma doença física, mas do coração.
— Do coração?
Então, ela está doente!
— Não do coração físico, mas ela pode estar apaixonada...
— Apaixonada?
Acredita mesmo nisso?!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:27 pm

— Quem sabe...
— Está bem, então vamos esperar.
O que quer tomar?
— Um suco de laranja, pode ser?
— Claro, minha senhora, já vai sair!
Ele foi preparar o suco, Regina piscou um olho para Zeca.
Fábio e Célia também se aproximaram.
Em seus rostos dava para ver a felicidade que os envolvia.
— Olá, pessoal!
Chegamos atrasados?
— Não, Célia, estou feliz por vê-los tão bem.
— Estamos, sim, Regina!
Graças a Deus, tudo de mal já passou.
O nosso amor foi maior que tudo...
Sentaram-se e começaram a conversar.
Simão quase não participou da conversa.
Seus olhos não desgrudavam da direcção da casa de Paulina.
Não suportando mais, falou:
— Paulina não veio.
Será que aconteceu algo com ela?
— Também estou estranhando a falta dela.
Célia, vamos até lá ver o que está acontecendo? — perguntou Regina.
Célia concordou com a cabeça e saíram.
Simão as acompanhou com os olhos.
_ Que é isso, Simão?
Por que está tão preocupado?
_ Estou assim desde manhã, Zeca.
Não sei por que Paulina saiu correndo sem dizer nada.
_ Não sabe mesmo, Simão?.
Não, Zeca! Também fiquei intrigado.
Ao olhá-la naquele momento, me pareceu tê-la visto pela primeira vez.
Senti algo que há muito tempo não sentia.
Senti um enorme desejo de abraçá-la e beijá-la.
Não sei o que está acontecendo...
— Isso tem um nome... amor...
— Amor?! Está louco?!
Ela é minha amiga!
Quem te disse que, entre duas pessoas que se amam, não pode existir amizade?
— Impossível! Até hoje só senti amizade por ela!
— Por que está tão preocupado?!
Nervoso dessa maneira?
— Estou nervoso e preocupado do mesmo jeito que ficaria se um de vocês não viesse!
São meus amigos! Me preocupo!
— Verdade? Está bem... vamos esperar as meninas voltarem e saberemos o que aconteceu.
Regina e Célia tocaram a campainha da casa de Paulina.
Ela demorou para atender.
Quando abriu a porta, seus olhos estavam vermelhos, parecendo que havia chorado o dia inteiro.
— Podemos entrar, Paulina?
Estamos preocupadas...
— Não sei se serei boa companhia, não estou me sentindo muito bem e não sei se quero conversar.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:27 pm

— Nós queremos conversar com você.
Os amigos são para as horas difíceis.
Talvez o seu problema não seja tão grave e juntas poderemos tentar resolver.
— Não, Regina, o meu problema não tem solução.
Mas entrem, vamos tomar um café e conversar.
Entraram e sentaram-se, Regina perguntou:
Esteve chorando e parece que foi muito!
O que está acontecendo?
Nada é motivo para desespero, tudo sempre tem uma solução.
Deus é nosso Pai e nos cuida o tempo todo...
_ Regina, não me fale em Deus.
Ele pode ser Pai de todos, menos meu.
Para mim foi um padrasto cruel.
Não acredito Nele!
Não fale assim.
Para você também, chegou a hora de desvendar o seu problema, como aconteceu com Zeca, Célia e Simão.
Pelo facto de tudo estar correndo tão rápido, nos mostra que Deus tem pressa.
Todos que abriram seus corações, hoje estão bem.
Zeca e Célia encontraram seus caminhos e Simão também pode agora recomeçar.
Quem sabe com você, não acontecerá da mesma forma?
Por tudo o que estão sentindo, você e Simão, quem sabe não poderão recomeçar juntos?
— Não! Isso não pode acontecer!
Não posso recomeçar com ele nem com ninguém!
Por isso é que estou tão assustada!
— Por que não pode recomeçar a sua vida?
Todos podem!
— Todos, menos eu!
Porque não tenho vida!
Estou condenada!
Não sei quanto tempo ainda me resta!
Regina e Célia levaram um susto.
Nunca poderiam imaginar que ela fosse possuidora de algum tipo de doença.
Saudável, corada e parecendo transbordar saúde.
— Não posso acreditar, Paulina!
Deve estar enganada!
— Não, Célia. Não estou enganada!
Tenho uma doença fatal.
Estou bem, mas a qualquer momento ela vai se manifestar.
— Se quiser, pode nos contar tudo.
Poderá te fazer bem.
— Como você disse, Regina, o teu Deus tem pressa.
Chegou a minha vez, só que quero contar a todos de uma vez.
Não sei se poderei repetir.
Vamos até o bar, falarei com os rapazes e hoje à noite voltaremos a nos sentar aqui, neste mesmo lugar.
Contarei tudo e espero que o medo e o preconceito não os afastem de mim.
— Nada vai interferir nessa amizade, Paulina!
— Espero, Regina.
Já estou mais calma, vamos até o bar?
— Vamos, eles estão preocupados.
Paulina passou a escova por seus cabelos, saíram.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:27 pm

Chegando ao bar, os rapazes se levantaram para recebê-las.
Simão estava atrás do balcão.
Olhou para Paulina, vendo os seus olhos vermelhos, não teve coragem de perguntar.
Ela cumprimentou a todos e fez o possível para não olhar nos olhos de Simão.
Ele notou e sentiu um aperto no coração.
-- Desculpem por meu atraso.
E que não estou bem, mas as meninas me convenceram que devia vir até aqui, pois é nas horas difíceis que devemos estar ao lado de nossos amigos.
Zeca olhou para Regina e percebeu um ar de preocupação, viu que algo grave estava acontecendo, preocupado, disse:
Sentem-se. Isso mesmo, Paulina.
Posso ser testemunha de como a presença de amigos só pode nos fazer muito bem.
Simão, pela primeira vez, ficou calado.
Não sabia o que dizer, ou fazer.
Regina, sentindo o sofrimento do amigo, falou:
— Simão, por favor, sirva-nos um refrigerante.
Paulina tem algo para falar, e é importante que todos prestem atenção.
— Regina tem razão.
Em poucos dias, todos os segredos vieram à tona.
Agora, chegou a minha hora.
Gostaria de contar a todos, pois sinto que não poderei repetir.
Por isso, estou pedindo que venham esta noite a minha casa.
Repetiremos o mesmo que fizemos ontem, mas agora, a história será a minha.
Ela falou o tempo todo sem olhar para Simão.
— Também posso ir? — perguntou agoniado.
Só agora ela olhou para ele, e sorrindo respondeu:
— Claro que pode, Simão, é por você que vou contar.
Ele sentiu no olhar dela paixão e dor.
— Ainda bem, pensei que não gostava mais de mim!
— Claro que gosto!
Gosto de todos, são meus amigos verdadeiros, espero que entendam e me ajudem...
Conversaram por mais alguns minutos, mas o ambiente estava tenso.
Foram despedindo-se. Estavam confusos.
Durante o caminho, Zeca, que acompanhou Regina, perguntou:
— Regina, o que está acontecendo com ela?
Você sabe?
— Quase nada, mas o pouco que contou, me preocupou.
Não pelo facto em si, mas por sua atitude em relação a ele.
— Não estou entendendo!
Pode ser mais clara?
— Posso, mas não vou ser.
Prometi que não contaria, a ninguém.
Deixe de ser curioso!
Ela mesma quer contar, devemos respeitar.
Quer jantar comigo, lá em casa?
Quero sim, preciso me acostumar com a sua comida.
Entraram.
Clara estava em casa e, para surpresa de Regina, preparava um belo jantar.
— Que está acontecendo?!
Não acredito!
Minha filha diante do fogão!
Não pode ser!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:27 pm

— Não estou entendendo a o a surpresa.
Sempre cozinhei além do mais, convidei Gustavo para jantar.
Procurei a senhora no posto, me disseram que era o seu dia de folga.
Resolvi que iria preparar o jantar.
Fiz mal, mamãe?
— Não, filha! Fez muito bem.
Estamos com fome.
Eu e o Zeca trabalhamos muito hoje.
— Trabalharam?! Onde?
— Como era o meu dia de folga, fui com ele ser jardineira e te confesso que adorei mexer com a terra.
_ Cada dia, é um dia a mais de aprendizado.
Nunca pensei em ver a minha mãe sendo jardineira.
Gustavo chegou em seguida.
— Olá, Gustavo!
Veio se arriscar com a comida dessas duas?
Será que vamos sobreviver?
— Não sei, Zeca, mas como o nosso corpo produz anticorpos, precisamos acostumá-los, pois pretendo comer a comida da Clara, por muito tempo!
Tenho que estar preparado...
Regina e Clara, que estavam na cozinha preparando o jantar, ao ouvirem a voz de Gustavo, foram para a sala e chegaram no momento em que ele dizia as últimas palavras.
— O que está dizendo, Gustavo?
Dona Regina, já que eu e Clara vamos para a faculdade, já que nos amamos, gostaria de me casar com ela, acho importante seu consentimento para o nosso casamento.
— Casamento?! São muito jovens!
O seu pai já sabe?
— Casamento, sim, ou prefere que sua filha more com um homem sem se casar?
Como a senhora disse, somos jovens, mas nos amamos desde crianças.
Com relação ao meu pai?
Depois que soube do dinheiro que Clara recebeu, mudou de ideia.
Hoje, ela tem muito mais que ele, portanto está feliz em tê-la como nora!
O que o dinheiro não faz.
Regina, atordoada, ouvia Gustavo.
Não esperava por isso.
Zeca por sua vez, se divertia com a expressão dela.
— Feche a boca, Regina!
Sua filha vai se casar!
Qual é o problema?
Fique feliz, ela encontrou um óptimo marido!
— Não sei o que falar, não esperava.
O que eu falo?
— Apenas diga, sim.
Gustavo é um bom moço e fará Clara feliz.
Também acho melhor que se casem.
Morando juntos, um ajudará o outro nos estudos.
Não é, crianças?
— Isso mesmo, Zeca!
Essa foi a nossa primeira intenção.
— Sei disso menino! — Zeca disse com ar de deboche.
Você pensou primeiro no estudo?!
Isso é muito bom!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:27 pm

— Foi por isso que preparei o jantar.
Queremos comemorar! — disse Clara.
— Sabia que havia algum motivo.
Tudo bem, dou a minha bênção e desejo que sejam muito felizes.
— Obrigada, mamãe.
Sabe que te amo muito e que jamais esquecerei a mãe maravilhosa que sempre foi e ainda é.
Eu, sim, por muito tempo, fui uma ingrata, me perdoe, por favor.
_ Ora, minha filha, tudo já passou.
Estou feliz por você.
A vida é mesmo assim, aprendemos todos os dias.
Agora vai começar a sua vida com um homem bom e que te ama.
Nem todas têm a mesma sorte.
Espero que seja muito feliz.
— Que nos dê muitos netos!
Serão meus netos emprestados, mas prometo que os amarei muito!
— Obrigada, mamãe, obrigada, Zeca.
Espero que vocês também sejam felizes.
Mãe, a panela está queimando!
As duas saíram correndo em direcção à cozinha, de onde vinha muita fumaça.
Voltaram logo depois.
Regina trazia nas mãos uma panela de onde ainda saia fumaça.
— Bem, o nosso jantar vai ter que ser sem carne, a não ser que queiram comer carvão.
Clara estava inconsolável.
— Logo hoje, que eu queria tudo perfeito!
— Está tudo perfeito, Clara!
Tenho que ir me acostumando.
Na Capital, existem muitos restaurantes, não se preocupe.
Riram.
Regina pegou alguns ovos, dizendo:
— O que não tem remédio, remediado está.
Vamos comer ovos?
Garanto que será um jantar maravilhoso!
Comeram alegremente.
Entre os quatro, a paz voltou.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:28 pm

Histórias de Perdas
Após o jantar, Regina e Zeca foram para a casa de Paulina.
Estavam preparados para outra noite de muita emoção.
Quando chegaram, Paulina já os esperava.
Um pouco abatida, mas com a expressão tranquila.
Em seguida, chegaram os demais.
Paulina recebeu a todos com um sorriso.
Sentaram-se ao redor da mesa.
Paulina começou falando:
— Meus amigos, o que vou contar é um segredo que está guardado há muito tempo.
É o motivo pelo qual estou aqui.
Simão a olhava e via uma nova mulher, diferente daquela que havia visto até agora.
Não entendia aquele sentimento estranho.
Desde que houve toda aquela tragédia em sua vida, nunca mais sentiu atracção por outra mulher.
Mas agora, sentia um enorme prazer em olhar para ela.
Já a conhecia há tanto tempo!
Por que só agora isso acontecia?
— Paulina, — ele disse — não sei o que vai contar, mas quero lhe dizer que seja o que for, o meu sentimento por você não mudará.
Aprendi a te conhecer e gostar, do modo que é.
Por isso, digo:
não precisa contar, se isso te fizer mal.
— Obrigada, Simão.
Mas acredito que dividindo o meu problema com vocês, se entenderem e me aceitarem, sinto que terei o apoio de todos e de que com certeza, irei precisar.
Pensei muito durante o dia inteiro, cheguei à conclusão que será melhor contar.
É difícil amargar um sofrimento sozinha.
Por isso, vou começar.
Nasci e me criei nesta cidade.
Sempre tive ódio de morar aqui.
Achava a cidade e seus moradores sem graça, além de muito pobres.
Sonhava com uma vida com luxo e viagens por todo o mundo.
Quando fiz quinze anos, consegui convencer meus pais a me deixarem ir para a Capital morar com uma tia, irmã de meu pai.
Prometi que iria estudar, trabalhar, pois se permanecesse aqui, não conseguiria ter uma profissão.
Embora as moças fossem educadas para o casamento e filhos, esse não era o meu sonho.
Queria ter uma profissão e ser independente.
Por fim, eles concordaram e, feliz, parti rumo a Capital e aos meus sonhos.
Lá chegando fui morar com minha tia.
Ela era viúva e morava sozinha.
Seus filhos já estavam casados, por isso, me recebeu com muito carinho, pois a partir daquele momento, eu lhe faria companhia.
Ela me matriculou em uma escola para cursar o magistério.
Queria ser professora.
Embora não pensasse ainda em ter meus próprios filhos, adorava crianças e desejava ensiná-las a ler e escrever.
Adorei o curso e a cidade.
Tudo era novo, as ruas e seus arranha-céus me encantavam.
Quando vi o elevador fiquei com medo, mas ao mesmo tempo me encantou.
Minha tia me tratava com muito carinho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:28 pm

Tudo estava perfeito.
Escrevia para os meus pais, dizendo da minha felicidade.
Estudei muito e, no fim do primeiro ano passei com louvor.
Nas férias, por exigência de meus pais, vim passá-las aqui, mas fiquei o tempo todo ansiosa para que o tempo passasse e eu pudesse voltar.
Eu não tinha nada que me prendesse, ou fizesse com que eu ficasse aqui, por isso, eu só passava férias.
Finalmente o dia chegou.
Voltei feliz para junto de minha tia.
Tinha encontrado finalmente a minha felicidade, longe desta cidade, do seu povo e sua pobreza.
Recomecei as aulas.
Já no primeiro ano, fiz amizade com algumas moças que frequentavam a minha escola, mas a minha preferida chamava-se Norma.
Nos tornamos inseparáveis.
Ela vinha sempre à minha casa e eu ia a sua.
“ Meu tio tem uma empresa, — um dia ela me disse -- pedi a ele para me arrumar uma colocação.
Ele disse que vai ver se tem uma vaga.
Quero ter o meu próprio dinheiro.
Também gostaria de ter o meu próprio dinheiro.
Vou falar com ele, quem sabe arruma para nós duas."
— Ela conseguiu.
Foi trabalhar no sector de contabilidade e eu como recepcionista.
A princípio minha tia e meus pais não queriam.
Diziam que eu não precisava, pois poderiam me manter, mas insisti.
Trabalhava só meio período, o que me permitia continuar estudando.
Logo aprendi o trabalho e com o primeiro salário, comprei roupas e sapatos.
O tio de Norma era um homem agradável.
Tinha trinta e seis anos e era viúvo.
Sua mulher tinha morrido com uma doença longa.
Sempre muito amável, me presenteava com chocolates e frutas.
Depois de seis meses de trabalho, ele me chamou em sua sala e disse:
" — Paulina, estive notando o seu trabalho.
Acho que tem capacidade para mais.
Estou pensando em te contratar como minha secretária.
O salário vai ser maior.
O que acha?"
—Fiquei sem saber o que falar, estava bem no meu trabalho, embora o achasse maçante, mas nunca pensei em mudar.
Aquela oferta me entusiasmou.
Poderia me tornar secretária, uma profissão bem melhor do que recepcionista.
— Se acha que sou capaz, eu gostaria muito. — respondi.
— E capaz, sei disso.
Começará na segunda-feira.
Estou contratando outra moça para ocupar o seu lugar.
— Está bem.
Vou ensinar todo o meu trabalho a ela."
— Cheguei em casa e contei para minha tia que não gostou: "
Secretária não é uma profissão bem vista! "
— Não liguei e fiquei ansiosa para começar a trabalhar.
Ele foi me ensinando todo o trabalho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:28 pm

Depois de dois meses, eu já fazia todo o trabalho sozinha e ele continuou me dando chocolates e frutas.
Em uma tarde, me chamou dizendo sério:
" — Paulina, hoje, vou precisar que fique até um pouco mais tarde.
Estou esperando uma ligação do Exterior e, ao mesmo tempo, preciso ir a uma reunião.
Tem algum problema?
— Não, senhor.
Só preciso avisar minha tia.
— Faça isso, assim que anotar a ligação, poderá ir embora."
— Concordei e telefonei para a minha tia.
Ela não gostou, mas não liguei.
Ele foi embora, fiquei sozinha no escritório.
O telefone tocou, era realmente do Exterior.
Anotei, deixei o papel sobre sua mesa e fui embora.
No dia seguinte, ele me elogiou.
Aquela prática se tornou rotineira.
Uma ou duas vezes por semana eu ficava até mais tarde.
Minha tia ficava preocupada, mas eu sempre a tranquilizava.
Uma noite em que fiquei até mais tarde, ele teve que sair mais cedo:
"— Paulina, preciso sair, mas hoje vai chegar outra ligação.
Por favor, anote e coloque sobre a minha mesa.
Farei isso, não se preocupe."
Ele saiu, eu continuei trabalhando.
Quando todos do escritório saíram, ele voltou trazendo um enorme buquê de rosas vermelhas.
— Desde que se tornou minha secretária, — ele disse sorrindo — os negócios estão indo de vento em popa e, com a sua ajuda, já ganhei muito dinheiro.
Por isso, resolvi lhe presentear com estas rosas.
Espero que goste."
— Constrangida, peguei as rosas envolvidas em papel celofane branco e com um enorme laço vermelho.
Olhei para ele sem saber o que dizer:
" — Muito obrigada, mas não precisa me presentear.
Estou cumprindo apenas o meu dever.
— Não tem obrigação de ficar depois da hora.
Faz isso porque é boa funcionária.
Além das rosas, vou também lhe dar um aumento de salário.
— Isso é muito bom, doutor.
Dinheiro sempre é bem-vindo, se achar que mereço, só posso agradecer."
— O telefone tocou em seguida.
Atendi, anotei e passei para ele, que leu e sorrindo disse:
Mais um contrato aceito!
Mais dinheiro chegando.
Os negócios estão indo muito bem!
Agora podemos ir embora."
— Saímos.
Eu feliz por ter ganhado as rosas e o aumento de salário e ele mais dinheiro.
Fomos conversando sobre o contrato.
Tomamos o elevador e, já na rua, ele disse:
" — Está tarde, aquele táxi vai te levar para casa.
Não precisa!
O ônibus passa ali na esquina!
Não é justo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 18, 2017 7:28 pm

Ficou até mais tarde por minha culpa.
O mínimo que posso fazer é te dar esse conforto. "
Entrei no táxi.
Ele acenou dando adeus.
Durante o caminho fui pensando em como ele era gentil.
Em casa, contei tudo para a minha tia.
— Não estou gostando disso! — disse preocupada.
Tem certeza de que ele não te fez nenhuma proposta? "
— Não, tia, ele não fez.
Aconteceu do modo que contei.
Apenas está contente com o meu trabalho...
- Cuidado, minha filha.
Você é jovem e bonita, ele já é um homem vivido.
Só pode estar querendo algo mais.
— Ele não fez proposta alguma, mas se fizer, saberei como responder.
Não se preocupe, tia, não sou nenhuma boba.
— Espero que saiba mesmo.
O homem sabe como envolver uma mulher, ainda mais uma menina como você."
" Ela está fazendo uma tempestade em copo d'água.
Ele só me vê como uma boa funcionária. — sorri, pensando."
— O tempo passou e realmente ele aumentou o meu salário.
Continuei trabalhando até mais tarde.
Quando chegava pela manhã, sempre me dava um chocolate.
Comecei a pensar nele a todo instante.
Cada ligação que chegava, eu prestava atenção para ver se não era de mulher.
Comecei a achá-lo bonito.
Dormia e acordava pensando nele.
O tempo foi passando e ele continuou atencioso e amável.
Procurava fazer o meu trabalho, sempre melhor, para receber seus elogios.
Em uma segunda-feira, após passar o fim de semana, pensando, resolvi que me faria notar.
Sabia que o amava.
Quando cheguei no escritório, em cima de minha mesa, havia um bilhete.
" Paulina
Vou fazer uma viagem.
Por favor, mantenha todo o trabalho em ordem, anote tudo o que achar necessário.
Até a volta.
Arnaldo "
— Aquele bilhete caiu como um balde de água fria.
Havia pensado em mil maneiras de me fazer notar e agora estava ali com aquele papel em minha mão.
Cheguei à conclusão de que estava sonhando, ele via em mim apenas uma funcionária, nada mais.
Trabalhei a tarde toda, sem muita vontade.
Não conseguia esquecer dos seus olhos e sorriso.
Ele havia se tornado um pesadelo em minha vida.
Um pesadelo que ao mesmo tempo me deixava triste e feliz.
Um sentimento que não conhecia.
À tarde fiquei sabendo que receberia uma mensagem.
Teria de ficar esperando.
Eu já tinha lhe perguntado o porquê das mensagens chegarem após o expediente.
Ele me explicou que era por causa do fuso horário, que em alguns países a diferença de horário era de até doze horas.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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