A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:00 pm

Não sabia o que significava, mas fiz de conta que entendi para não parecer ignorante.
Quando todos foram embora, permaneci esperando o telefonema.
Estava triste, pois sabia que ele não viria.
Entretida em meu trabalho, não percebi quando ele entrou e ao vê-lo me observando, levei um susto e meu coração começou a disparar.
Vendo a minha expressão, ele, sorriu:
— Não se assuste, Paulina, estou aqui há algum tempo.
Você leva o seu trabalho muito a sério, não é? "
Completamente desajeitada por estar na sua presença, que eu não esperava, respondi:
— Tenho um trabalho que está atrasado e, como tenho de esperar, achei melhor terminar.
— Pode continuar, não se preocupe com a minha presença.
— O senhor não foi viajar?
— Precisava ir, mas essa ligação que está esperando é muito importante.
Por isso, resolvi adiar a viagem.
Assim que obtiver a resposta, poderei ir mais tranquilo."
— Continuei a fazer o meu trabalho.
Tudo o que havia planeado no fim de semana, não consegui colocar em prática.
Estávamos ali, sozinhos, e eu não conseguia dizer o que havia estudado.
Finalmente, o telefone tocou.
Atendi, anotei e passei a ele.
Ao terminar de ler, ele disse sorrindo:
_ Aceitaram!
Menina, você me dá sorte, mesmo!
Com esse contrato, vou ganhar muito dinheiro!
Vamos embora!
— Fico contente que tudo deu certo."
Entramos no elevador.
O prédio era velho, por esta razão o elevador era pequeno.
Cabiam cinco pessoas.
Enquanto descia, ele fez um barulho e parou bruscamente.
Nos assustamos e quando dei por mim, estava em seus braços e me segurou com força.
Senti o meu rosto em seu peito.
Um calor imenso tomou conta de todo o meu corpo.
Lentamente, levantei a cabeça e nossos olhos se encontraram.
Ficamos nos olhando por alguns minutos, nossos lábios foram se aproximando e nos beijamos.
Não sei como explicar aquele momento.
Parecia que não existia chão, que eu estava levitando.
Aquilo em nada se comparava a tudo que eu havia planeado.
Ao nos separarmos, ele, constrangido, disse:
— Desculpe, não sei como isso aconteceu.
Gosto de você há muito tempo, só não disse por ser muito mais velho.
Agora, com a sua reacção, sinto que posso ter esperança."
Fiquei calada, apenas me aproximei e nos beijamos novamente.
O elevador voltou a funcionar.
Rimos e descemos.
No saguão não havia ninguém, tornamos a nos beijar.
" — Confia em mim? — disse olhando em meus olhos. "
— Eu disse que sim com a cabeça.
" — Então, vamos até a minha casa?
Lá poderemos conversar mais à vontade, tenho muito para lhe dizer."
— Não respondi, não conseguia, deixei-me levar.
Entrei em seu carro.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:00 pm

Ao parar em um sinal, me beijou novamente.
Eu só pensava na felicidade que estava sentindo.
Chegamos em sua casa.
O portão foi aberto por um homem.
O carro seguiu por uma alameda.
Parou o carro em frente a uma casa enorme.
Ele desceu e abriu a porta do carro para que eu descesse também.
Tudo parecia um sonho.
Estava me sentindo a própria Cinderela.
Abriu a porta de entrada e entramos em uma sala ampla e vi um ambiente maravilhoso.
Era tudo tão bonito, nada que eu já tivesse visto em qualquer lugar.
Sempre abraçados, me conduziu a um sofá.
Sentei-me, ele foi até o bar e me ofereceu um drinque.
Nunca bebi e não sei qual será a minha reacção.
— Não se preocupe, nada vai te acontecer, talvez fique um pouco tonta, mas afinal, esta é a nossa noite.
Estamos felizes e temos que comemorar..."
— Peguei o copo e bebi.
A princípio não gostei, mas aos poucos fui me sentindo muito bem.
Meu corpo começou a esquentar, mais do que já estava.
Ele sentou ao meu lado e começou a me beijar.
Eu não opus resistência, estava adorando tudo aquilo.
Para mim, o sonho estava se tornando realidade.
Começou a acariciar meu corpo e eu fiquei quieta, apenas sentindo suas mãos.
Abriu os botões de minha blusa.
Eu, feliz, não tinha preocupação alguma.
De repente, ele parou.
Abotoou a minha blusa, dizendo:
Vamos parar!
Não te quero só por uma noite.
Te quero para toda a vida.
Quero me casar com você.
_ Casar?! — perguntei assustada — Casar comigo?!
_ Isso mesmo, casar e sermos muito felizes.
Te amo, por isso, vamos embora agora mesmo.
Vou te deixar em casa e quero que marque um dia para eu falar com a sua tia e depois com os seus pais.
Vamos fazer tudo certo."
— Não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo.
Ele me beijou novamente e fomos embora.
Minha tia viu quando o carro parou em frente à minha casa.
Ele me beijou pela última vez.
Entrei em casa, com um sorriso enorme no rosto.
Minha tia, furiosa, disse:
" — Já é muito tarde!
Estou preocupada!
Que carro é esse?
Quem é esse homem?"
— Fique calma, tia.
Desculpe por ter chegado tão tarde, mas é que hoje foi um dia muito especial.
Esse homem é o meu patrão.
Estive com ele até agora.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:01 pm

Ele quer se casar comigo!
— Casar?! Um homem rico como esse jamais se casaria com uma moça como você!
O que esteve fazendo com ele?
— Não fizemos nada, tia!
Apenas conversamos!
Ele quer se casar, sim!
Por isso, quer marcar um dia para vir falar com a senhora e depois com os meus pais.
Você foi criada no interior, por isso é muito ingénua.
Ele só quer se aproveitar!
Não vou permitir!
Ele quer se casar!
Quer falar com a Senhora e com os meus pais!
Ele quer fazer tudo certo!
Não estou acreditando e não posso ficar com essa responsabilidade.
Amanhã, vou mandar um telegrama para seus pais virem.
Eles resolverão.
Agora, vamos dormir."
— Hoje ainda são poucos os telefones aqui na cidade, imaginem há anos atrás.
Minha tia estava preocupada e hoje entendo.
A sua responsabilidade era muito grande.
Imaginem se ele estivesse mesmo querendo me enganar.
O que poderia acontecer?
Não me preocupei, sabia que ele estava sendo sincero.
Se quisesse me fazer mal, teria feito, porque eu não opus resistência alguma.
No dia seguinte, contei a ele a conversa que tive com a minha tia e que meus pais, provavelmente, viriam no sábado.
Ele disse para eu não me preocupar que, no sábado, estaria na minha casa, apesar de estar indo viajar no dia seguinte.
Não o vi por alguns dias.
Não sabia quando voltaria, mas sabia que meus pais chegariam, antes do sábado.
Na quinta-feira, eles chegaram.
Vieram preocupados, pois no telegrama, minha tia não disse qual era o motivo, mas exigia a presença deles.
Quando cheguei do trabalho, minha mãe me beijou:
—Minha filha, o que está acontecendo?
Sua tia não quis nos contar.
Achou melhor você mesma contar."
— Eu estava insegura, pois durante toda a semana não telefonou.
Fiquei calada, não sabia o que responder.
Lembrei daquela noite em que parou dizendo que queria tudo certo.
" — Mamãe, papai, tenho de contar uma história que está acontecendo comigo.
Vou me casar!
— Casar?! Como?!
É ainda uma criança!"
— Contei como tudo havia acontecido, omitindo a parte dos beijos e tudo o mais.
Não tinha essa liberdade com eles.
Naquele tempo e acredito que ainda hoje, as famílias não falem muito sobre essas coisas.
Meus pais ficaram assustados, não por eu estar namorando, mas por ele ser muito mais velho e principalmente, muito rico.
Para mim, nada daquilo importava.
Eu o amava, sendo rico ou não.
Sendo mais velho ou não.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:01 pm

Disse a meus pais que ele viria no sábado.
—Minha filha, tome cuidado.
Você não tem experiência e um homem como esse sabe como enganar uma moça, ingénua e do interior, como você...
— Não se preocupe, mamãe.
Nada aconteceu comigo.
Ele quer realmente se casar!
— Assim espero minha filha, assim espero..."
— No dia seguinte, sexta-feira, fui para o trabalho apreensiva.
Prometi a meus pais que ele iria em casa, mas já não tinha tanta certeza.
Esperei a tarde toda, mas ele não chegou.
Durante a semana, nem um telefonema, nada.
Recebi uma mensagem que deveria esperar um telefonema do Exterior.
Já estava acostumada, por isso não dei muita importância.
A minha única preocupação era a de que ele voltasse.
Não sabia qual desculpa daria a meus pais se isso não acontecesse.
O expediente terminou e nada.
Comecei a arrumar o arquivo para fazer o tempo passar.
O telefone tocou, apreensiva atendi:
— Alô! Quem fala?
Paulina, sou eu.
Preciso que anote uma mensagem.
— Sim, um momento. — eu disse muito nervosa.
— Meu amor.
Estive trabalhando muito, não tive tempo para te ligar.
Mas te amo! Anotou?
— Arnaldo?!
Tem certeza do que está dizendo?
— Claro que sim, por que está perguntando isso?
— Estou ansiosa para te ver!
Você não telefonou, pensei que tivesse me esquecido...
— Sabia que teria de fazer esta viagem.
Não te esqueci.
Te amo e vamos nos casar.
Vou embarcar esta noite e amanhã bem cedo estarei aí.
Seus pais chegaram?
— Sim, estão te esperando em casa, amanhã, às seis horas.
Vou dizer que está viajando e por isso não poderá vir...
— Nada disso!
Chego de manhã e às seis horas estarei lá.
Não quero adiar por muito tempo o nosso casamento.
Preciso do consentimento deles para dar entrada no cartório os papéis de nosso casamento."
— Tem certeza?
— Claro que tenho!
Por quê? Mudou de ideia?
— Não! Te amo muito!
Está bem.
Agora, pegue um táxi e vá para casa.
Amanhã nos veremos e marcaremos a data do nosso casamento.
Um beijo, não se esqueça de mim, te amo muito...
Um beijo.
Mesmo que quisesse não conseguiria te esquecer.
Te amo também..."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:02 pm

— Desliguei o telefone.
Eu estava feliz.
Todo o meu sofrimento, durante a semana, havia sido perda de tempo.
Como poderia pensar, que ele não me amava e não quisesse se casar?
Fui para casa e confirmei com os meus pais.
Eles, ainda desconfiados, queriam conhecê-lo.
Meu pai não se conformava.
Eu, com dezoito anos, e ele com trinta e seis.
Dezoito anos de diferença.
Para eles era muito. Para mim não.
Ele era tudo o que eu queria.
No dia seguinte acordei tarde, pois não conseguira dormir.
A ansiedade não permitira, embora estivesse feliz, notei que a minha família não sentia o mesmo.
Nada me importava.
Limpei toda a casa, que ficou bonita e cheirosa.
Um pouco antes das seis horas, um carro parou em frente da casa.
Era o carro dele.
Veio acompanhado de um motorista que desceu antes e abriu a porta.
Meu coração batia forte.
Fui recebê-lo.
Meus pais e minha tia não saíram.
Ao chegar perto de mim, beijou a minha testa, sem dizer nada.
Peguei a sua mão e o conduzi até a porta da sala.
Meu pai estava nos esperando.
Arnaldo, sorridente, estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Meu pai estendeu a sua, mas sem sorrir.
Diria até, que no fundo, queria matá-lo.
Arnaldo não se deixou intimidar e entrou.
Minha mãe e minha tia estavam sentadas no sofá e ao vê-lo se admiraram com a sua beleza.
Ele se aproximou e beijou as mãos delas que receberam aquele beijo, um pouco acanhadas, pois, como eu, eram pessoas muito simples.
Sentou-se em um sofá.
Meu pai continuou em pé, sempre com o rosto fechado.
Arnaldo, após sentar-se, olhou para eles e disse com a voz firme:
" — Como sabem estou aqui para lhes dizer que gosto da Paulina e quero me casar com ela.
Espero que concordem para que tudo possa ser feito da melhor maneira possível.
Meu pai, agora, um pouco mais calmo, respondeu:
— Não entendo como um homem, na sua condição, pode estar interessado por uma moça como a minha filha.
Ela vem de uma família humilde, não tem as mesmas condições das moças que o senhor deve conhecer.
— O senhor pode estar certo, mas amo a sua filha.
Não me importo com a sua origem.
Conheço várias moças, mas nenhuma delas me trouxe tanta felicidade quanto Paulina.
— Ela é jovem. Não sabe bem o que quer.
Está estudando.
Se casar, vai abandonar os estudos.
Não foi isso que sonhamos.
Ela não precisa abandonar os estudos.
Ao contrário, se quiser continuar, terá todo o meu apoio.
Quanto a sua idade, não se preocupe, é uma moça inteligente e sabe o que quer.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:03 pm

_ Não sei o que responder, não estava preparado para essa notícia.
Vocês se me pegaram de surpresa..."
Minha mãe segurou a mão de meu pai, dizendo:
" Meu velho, só pode concordar.
Não adianta querer impedir.
Quando essa hora chega, não há o que fazer. "
Ele sabia que não iria adiantar tentar impedir:
" Está bem, concordo.
O que o senhor pretende fazer?"
Eu estava sentada e calada, ao seu lado.
Meu coração batia forte.
Ele segurou a minha mão e sorriu:
" — Já que concordaram, peço permissão para segunda-feira ir até o cartório e fazer correr os papéis.
Paulina e sua mãe, claro que a tia também, podem ir até a igreja.
Vamos nos casar o mais rápido possível.
Não quero esperar muito tempo."
— Eu estava muito feliz.
Apenas sorri, mas os meus olhos demonstravam a minha felicidade.
Ficou mais um tempo.
Minha tia serviu um lanche.
Depois de alguns minutos, ele já dominava toda a conversa.
Eu havia lhe dito que meu pai gostava de pescar.
Ele aproveitou e começou a falar sobre as pescarias que havia feito.
Logo, todos conversavam, como se já se conhecessem há muito tempo.
Na segunda-feira, durante a manhã, eu, minha mãe e minha tia fomos à igreja.
Marcamos o casamento para dali a dois meses.
À tarde, ele me levou ao cartório.
O casamento foi marcado para dois dias antes da cerimónia na igreja.
Daí para frente a minha vida se transformou em uma roda viva.
Não quis parar de estudar e de trabalhar.
O resto do meu tempo gastei no preparo do meu enxoval e do vestido de noiva.
Fui apresentada a sua família.
Sua mãe me recebeu com muito carinho:
Paulina, estou feliz por ver meu filho sorrir novamente.
Ele é muito bom e merece toda felicidade.
Farei tudo o que for possível para que isso aconteça."
Finalmente o grande dia chegou.
Eu estava muito feliz.
Meu vestido de noiva, apesar de simples, pois o casamento seria realizado durante o dia, era muito mais do que tudo que eu pudesse um dia ter imaginado.
Nossa casa foi aberta aos convidados.
A festa foi requintada, tudo organizado pela irmã de Arnaldo, que se tornou minha amiga.
Estava feliz por ver o seu irmão voltar à vida.
Desde que sua esposa morrera, ele se tornou triste e pensativo.
A noitinha quando as pessoas foram embora, ele mostrou a surpresa que havia me reservado.
Sem me contar, reservou passagens e hotéis na Europa.
Começaríamos por Paris, na França, e depois Itália e Alemanha.
Eu havia lhe dito que gostaria de um dia conhecer esses países.
Com muita alegria partimos.
Pude realizar um sonho.
Conheci a Torre Eiffel, a Igreja de Notre Dame, o Vaticano, a Capela Cistina, passeamos de gôndola em Veneza.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:03 pm

Assisti a uma missa realizada pelo Papa e me encantei com as casas da Alemanha e com as suas montanhas cobertas de neve.
Tudo aquilo me parecia um sonho.
Eu me sentia realmente a própria Cinderela.
Após um mês de sonhos, voltamos com a promessa, por parte dele, de que em breve retornaríamos.
A princípio gostei de ficar naquela casa imensa só aproveitando tudo aquilo.
Tinha empregados para me servir.
Arnaldo realizava o meu mais profundo desejo.
A irmã dele me levou a cabeleireiros e lojas caras.
Duas vezes por semana eu os frequentava.
Eu comprava roupas, jóias e tudo o que quisesse.
A empresa cresceu muito, o que obrigou Arnaldo a viajar mais vezes.
Aos poucos fui me sentindo muito sozinha.
Quis voltar ao trabalho, mas ele não deixou.
Disse que queria me ver sempre bonita quando voltasse à noite para casa.
Decidimos que eu teria um filho.
Tentamos por seis meses, mas não consegui.
Fomos a um médico e, após alguns exames, ele nos disse que não havia problema algum, que talvez a minha ansiedade estivesse fazendo com que eu não engravidasse.
Finalmente, depois de oito meses, eu engravidei.
A alegria foi geral em toda a família.
Depois de muitos anos, uma criança que nasceria.
Novamente, eu estava vivendo um sonho.
Arrumamos o quarto do bebé, comprei roupinhas.
Essa criança teria tudo para ser feliz.
Embora não fosse a primeira da família, seria a de Arnaldo e isso a tornava privilegiada.
Além de coisas materiais, teria o amor e carinho de todos.
Embora Arnaldo continuasse viajando, a sua ausência já não me incomodava.
Tinha, agora, algo mais para pensar.
Quando estava com três meses de gravidez, durante a noite senti muita dor.
Arnaldo me levou imediatamente ao hospital.
Foi constatado que eu estava com hemorragia interna.
A criança foi gerada nas trompas.
Me submeti a uma cirurgia, na qual o médico foi obrigado a retirá-las.
Nunca mais poderia ter filhos.
Aquilo, para mim, foi como se a morte tivesse chegado.
Entrei em depressão.
Só chorava, nada mais me importava.
Era a pessoa mais infeliz deste mundo.
Meus pais e a família de Arnaldo tudo fizeram para que eu me recuperasse, mas foi em vão.
Eu não reagia, não queria mais viver.
Todo aquele luxo e riqueza, nada representava.
Um dia, ele me disse:
" — Meu amor, sei que está triste, mas não adianta, temos que continuar a nossa vida.
Vamos voltar à Europa.
Iremos reviver a nossa lua-de-mel.
Quando voltarmos, pensaremos no assunto.
Existem muitas crianças que precisam de um lar e de pais.
Poderemos adoptar uma ou mais.
Vamos recomeçar. "
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:03 pm

— A cada dia que passava eu o amava mais.
Nunca pensei em adoptar uma criança, mas a ideia, agora, parecia ser boa.
Viajamos novamente.
Só que, desta vez, não existia toda aquela magia e eu já não era a mesma.
Havia passado por momentos difíceis que me fizeram crescer e mudar.
Mesmo assim, aproveitamos muito.
O nosso plano, agora, seria adoptar primeiro uma criança e depois outras.
Dinheiro não faltava.
Talvez por não poder ter filhos meus, agora queria muitos.
Olhava para aquela casa tão grande, rica e sentia ser um desperdício, só eu e Arnaldo morarmos lá.
Eu pensava:
— Logo, haverá muitas crianças correndo por aqui."
— A viagem me fez bem.
Voltei com outra alma.
Decidimos que adoptaríamos uma criança.
Arnaldo, sempre ao meu lado, continuou me tratando com carinho e muito amor.
Agradecia todos os dias a Deus aquele homem que havia colocado em minha vida.
Tinha consciência do quanto me amava e de como havia suportado a minha depressão.
Precisava fazer tudo para que ele também fosse feliz.
Possuía muitos amigos, entre eles, o doutor Ferraz, seu amigo de infância.
Essa amizade continuou para sempre.
Sabendo do nosso desejo em adoptar uma criança, nos disse:
— Trabalho em um hospital na periferia.
Lá existem muitas mulheres que deixam seus filhos para adopção.
Os motivos são vários, mas o mais frequente é a impossibilidade de criá-los por falta de dinheiro.
Se quiserem, poderei escolher uma criança para vocês."
Eu e Arnaldo gostamos do que ele disse:
— Qual é o procedimento nesses casos, Ferraz?
— A criança fica por um tempo no hospital.
Quando está bem e fora de perigo, é enviada para uma instituição."
Arnaldo pensou um pouco e disse:
— A mãe ou o pai poderá mais tarde reclamar a criança?
— Normalmente, as crianças deixadas não possuem um pai.
Na maioria das vezes, são filhos de mães solteiras e pobres que as deixam por saberem ser difícil criá-las.
Por isso, no momento que renuncia à criança, perde também o pátrio poder.
Não saberá, nunca, para onde a criança foi enviada."
Ao ouvir aquilo, falei:
—Não entendo como uma mãe pode abandonar um filho!
Se ela se arrepender?
O hospital ou a instituição não daria o endereço ou nome da família para onde a criança foi levada? "
" — Paulina, — disse o médico, pacientemente — existe muita miséria e moças inocentes que se deixam iludir.
Normalmente, ao descobrir que sua filha está grávida, os pais as abandonam a sua própria sorte.
Sem elas poderem, sequer, se sustentar, menos ainda a uma criança, preferem doá-la."
Arnaldo, que assim como eu, queria um filho, disse:
— Pode nos avisar quando aparecer uma, Ferraz?
— Claro que sim, Arnaldo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:04 pm

Conheço vocês e sei que a criança terá não só conforto, como também muito amor.
Vocês têm preferência por tipo físico ou sexo?
— Quanto ao sexo, não me importo, — respondi — mas quanto ao físico, gostaria que fosse parecido com o nosso.
Pretendo criar essa criança como se fosse nossa.
Não quero que saiba que não é nosso filho biológico.
— Se pensa assim, tem que ser do mesmo tipo físico que o de vocês.
Crianças assim demoram mais para aparecer, mas a experiência já me provou que é melhor para a criança adoptada saber por seus pais adoptivos de sua condição, antes de saber por outras pessoas.
A mentira nunca foi boa conselheira.
Não quero que saiba, justamente para protegê-la.
Quero que se sinta amada e nunca rejeitada.
As pessoas do nosso relacionamento entenderão e respeitarão a minha vontade.
Espero que tenha razão, Paulina.
Assim que houver uma criança eu os avisarei."
Fiquei feliz e esperançosa.
Teria, finalmente, uma criança em meus braços e seria a primeira de muitas.
Arnaldo também estava esperançoso.
Notou que voltei a ser aquela menina que havia conhecido.
Eu sonhava com a criança.
Fui preparando o seu quarto.
Comprei roupas e tudo o que fosse necessário.
Dois meses depois, doutor Ferraz nos telefonou:
— Tem aqui uma criança que a mãe deixou para a adopção.
É um menino saudável.
Se quiserem, podem vir amanhã."
Arnaldo desligou o telefone e me abraçou:
" — Paulina! Vamos amanhã conhecer o nosso filho!"
Eu chorava e ria ao mesmo tempo.
Esperei tanto por aquele dia e felizmente chegou.
Naquela noite, quase não dormi.
Não via a hora que amanhecesse.
Pela manhã, bem cedo, fomos até o hospital.
O doutor Ferraz já nos esperava:
" — Chegaram cedo!
Vamos até o berçário ver o menino?"
Fomos ao berçário.
A um sinal do médico, a enfermeira nos mostrou através do vidro, um recém-nascido.
Ele estava dormindo, mas achei a criança mais linda do mundo!
Depois, acompanhamos o doutor Ferraz até o seu consultório.
— Por essa expressão que estou vendo em seus rostos, posso deduzir que gostaram da criança, não? "
A emoção era tanta que não conseguimos responder.
Apenas concordamos com a cabeça.
O procedimento normal seria eu enviar a criança para uma instituição, mas seria uma adopção demorada.
Conheço vocês e sei de que tudo farão para o bem dela, vou dar um Papel, dizendo que você deu à luz aqui no hospital, Paulina.
Com esse papel, poderão registá-lo, como se fosse seu."
— Agradecemos.
Ele nos deu o papel e nos levou até o berçário novamente.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:05 pm

A enfermeira nos entregou o menino vestido com roupas que eu havia lhe dado.
Ao pegá-lo em meus braços, não consegui evitar as lágrimas.
Ele dormia, mas quando o segurei, esboçou um sorriso.
Eu e Arnaldo riamos felizes.
Ao sair dali fomos ao consultório do pediatra, que fora indicado por minha cunhada.
Ele examinou o menino:
— Ele está muito bem.
Tem todos os reflexos perfeitos.
Podem ficar tranquilos.
Vou dar uma dieta alimentar.
Quero que me tragam o bebé todos os meses para acompanhamento.
— Traremos, doutor.
Queremos que tenha muita saúde."
— Chegamos em casa.
Os empregados vieram correndo para ver o bebé.
Mostrei a todos como se fosse uma jóia preciosa, e era!
Arnaldo, assim que me deixou em casa, foi para o cartório e o registou com o nome de Clóvis.
Daquele dia em diante, ele tomou todo o nosso tempo.
Arnaldo quis contratar uma babá para me ajudar, mas eu não deixei.
Queria acompanhar o seu crescimento.
Ele crescia saudável e feliz.
Cada sorriso, cada som era para nós, motivo de alegria.
Começou a engatinhar, depois a andar.
Arnaldo continuava com suas viagens, mas eu, agora, não me sentia mais só.
Tinha aquele pequeno ser para me fazer companhia.
O tempo foi passando.
Um dia me chamou de "mamã."
Eu queria morrer de tanta alegria.
Tudo, agora, estava perfeito em minha vida.
Amava, era amada e tinha Clóvis que completava a minha felicidade.
Os dias, meses e anos foram passando.
Estava próximo o seu aniversário de cinco anos.
Estávamos animados com a festa, principalmente Clóvis.
Um menino arteiro, mas muito carinhoso.
Corria o dia inteiro e brincava com os primos que vinham sempre nos visitar.
Uma semana antes do seu aniversário, a festa estava contratada.
O tema seria "O Circo".
Palhaços e mágicos viriam.
Durante a noite, Clóvis acordou chorando.
Corremos para o seu quarto, ele chorava muito dizendo que a cabeça doía.
Coloquei a mão em sua testa.
Percebi que estava muito quente:
" — Arnaldo! Ele não está bem, telefone para o pediatra."
Arnaldo telefonou e em menos de meia hora, ele já estava em casa examinando Clóvis que não parava de chorar.
Assim que terminou, nos olhou e disse preocupado:
« Precisamos levá-lo agora mesmo para o hospital.
— Hospital?!
O que ele tem?
Não sei ainda, Paulina, mas com esse pequeno exame, notei alguns sintomas que estão me preocupando.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:05 pm

Lá poderemos elaborar um diagnóstico mais detalhado e teremos um resultado mais exacto."
Eu e Arnaldo ficamos desesperados.
Não conseguíamos falar.
O pediatra não permitiu nem que eu o trocasse.
Enrolei-o em um cobertor.
Arnaldo o carregou nos braços, o colocou no carro e saiu em disparada.
Arnaldo dirigia e eu atrás com ele no meu colo.
Clóvis não parava de chorar.
Ao chegarmos no hospital, já havia uma enfermeira nos esperando.
Pegou Clóvis e entrou em uma sala.
Eu e Arnaldo fomos impedidos de entrar.
Ficamos lá fora, calados.
Meu coração, mais uma vez, batia forte.
Lembrei do dia em que soube haver perdido o meu filho.
Arnaldo andava de um lado para outro.
Não sei o que pensava, mas devia ser o mesmo que eu.
Após alguns minutos que nos pareceu horas, o pediatra entrou na sala:
— Infelizmente as minhas suspeitas se confirmaram.
— O que ele tem, doutor?
Por favor, diga logo!
— Está com meningite e é a das mais complicadas.
Só um milagre poderá salvá-lo."
— Não ouvi aquilo!
Não quis ouvir!
Paulina, que havia falado sem parar, começou a chorar.
Em seu rosto podiam ver todo o sofrimento que sentia.
— Paulina, pare um pouco.
Não está bem e já falou muito, deixe o resto para outro dia.
Não precisamos saber de tudo agora.
Está lhe fazendo muito mal recordar. — disse Célia.
Não, Célia, não posso parar.
Se fizer isso, não voltarei a falar novamente.
Só preciso de um pouco de água, por favor.
Regina levantou-se, foi pegar um copo d'água e trouxe para eles também.
Como Paulina, eles também estavam emocionados.
Simão, a cada palavra dela, sentia que a amava mais.
Ela bebeu a água e recomeçou:
Embora eu não quisesse ouvir, as palavras estavam em meus ouvidos.
Eu e Arnaldo choramos, um nos braços do outro.
Uma freira passou por nós e parou dizendo:
_ Sei que estão passando por um momento triste.
Nessas horas só encontramos apoio em Deus.
Se quiserem, podem ir até a Capela.
Lá poderão encontrar um pouco de paz."
_ Olhamos para ela.
Em seus olhos havia tanto carinho, que já nos confortou um pouco.
Seguindo a direcção que ela nos apontava, fomos para a Capela.
Entramos e lá havia muita paz, realmente.
Nos ajoelhamos.
Eu, chorando, falei:
Deus, meu Pai, sei que tem todo o poder.
Por favor, salve o meu filho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:06 pm

Ele é muito pequeno, tem toda a vida pela frente.
E tudo para nós.
Senhor, me leve em seu lugar."
Arnaldo também rezava.
Horas de esperança e sofrimento passaram.
Voltamos para a sala de espera.
Clóvis estava isolado.
O pediatra voltou, algum tempo depois.
— Estamos fazendo o possível para que saia do estado crítico, mas preciso dizer que se ele sair deste estado, provavelmente ficará com alguma sequela.
- Não faz mal, doutor.
Eu não me importo!
Sabe o quanto amamos esse menino!
Eu cuidarei dele sempre, de qualquer forma que esteja!
Só não quero que morra!
— Vamos esperar, está nas mãos de Deus.
Tudo o que pode ser feito estamos fazendo, agora é só esperar."
— Mais horas de angústia.
Eu e Arnaldo não saíamos do hospital, nem por um minuto.
Voltamos várias vezes até a Capela e rezamos muito.
Não sei quanto tempo se passou.
O médico voltou.
Em seu rosto havia muita tristeza:
— Infelizmente, ele não resistiu.
Acabou de falecer..."
Desesperada, chorando e gritando, eu disse:
" — Não! Não pode ser!
Como deixou isso acontecer?
— Fizemos o possível, mas Deus é quem sabe...
— Deus? Que Deus?
Ele não existe!
Se existisse não nos teria tirado o nosso filho!
Como pôde levar uma criança que tinha tudo, saúde, dinheiro, carinho e deixar que muitas outras pobres e doentes continuem vivendo?
Que Deus é esse?
— Não sei, o poder humano tem limites.
Esgotamos todos.
Só nos resta acreditar que foi a vontade de Deus."
— Saí correndo, Arnaldo não me seguiu, não chorou, não gritou e nem falou.
Apenas ficou ali, parado, como se nada daquilo estivesse acontecendo.
Fora do hospital, sentei em um banco e chorei muito.
A única pergunta que me fazia, era:
"_Por quê? Por quê? Por quê? "
Estava ali sem saber para onde ir ou o que fazer.
Lembrei-me de Arnaldo que também deveria estar sofrendo muito.
Levantei-me e fui para porta do Hospital, quando o vi se aproximando.
Não chorava.
Corri para ele que me abraçou, mas ainda sem chorar.
Ao vê-lo fiquei preocupada:
" — O que você tem?
Seu rosto está estranho!
Perdemos o nosso menino!
Como vai ser?! "
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:06 pm

Me abraçou e só naquele momento começou a chorar:
" — Não é justo! Não é justo! "
— Nossa família foi chegando.
O enterro foi sofrido.
Para mim, nada daquilo estava acontecendo.
Depois que tudo passou, eu não tinha forças para chorar ou reclamar.
Odiava esse Deus tão injusto.
Minha mãe ficou alguns dias comigo, mas a presença dela me incomodava.
Não queria falar com ela ou com ninguém.
Arnaldo, sempre em silêncio, entrava no quarto de Clóvis e ficava lá por horas, deitado em sua cama.
Muitos dias se passaram.
Ele voltou a trabalhar.
Eu fiquei novamente sozinha naquela casa imensa.
Tentei ler, sair e fazer algo, mas não conseguia.
Tudo havia terminado.
" — Sei que está muito sozinha, Paulina.
Arnaldo disse depois de alguns meses.
— Preciso viajar e o meu trabalho me toma muito tempo.
Estive pensando, que tal falarmos com o Ferraz e pedir que nos encontre outra criança?
— Nunca! Nunca mais!
Para quê? Para morrer também?
Eu não suportaria! Não quero!
Acha que é só você que está sofrendo?
Eu também sofro muito!
Perdi primeiro a minha mulher a quem amava, depois meu filho e agora Clóvis!
Só que ainda estamos vivos e precisamos continuar!
Eu o abracei, sentindo toda a sua dor.
— Podemos continuar, só que sozinhos. — falei baixinho."
Eu sabia que tinha razão, mas era mais forte que eu, não suportaria amar outra criança e perdê-la também.
Choramos abraçados.
Ele foi se deitar.
Eu fiquei ali na sala.
Olhei para o canto, vi o piano.
Quando criança havia estudado, mas, após ter crescido, nunca mais toquei.
Naquele momento, senti desejo de ouvir o som do piano.
Sentei e comecei a tocar Chopin.
Estava tocando quando senti a mão de Arnaldo me abraçando por trás e seu rosto em meus cabelos.
Ele chorava muito e não conseguia evitar.
Naquele momento, deixou que sua alma fosse lavada.
Eu me levantei e o abracei.
Desta vez, não chorei, somente o abracei:
- Paulina, te amo mais que tudo na vida.
Estou vendo você murchar, quase desaparecer.
Quero te pedir que não me deixe.
Se continuar assim, vai morrer também.
Esse é o meu maior medo.
Nosso menino está no céu.
Sei que é um anjo e que está velando por nós.
Reaja meu amor.
Por favor, reaja..."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:07 pm

— Senti uma profunda ternura por aquele homem, tão forte, seguro e que estava ali chorando como se fosse uma criança.
Beijei os seus olhos, dizendo:
" — Não quero mais correr o risco de sofrer.
Não quero mais filhos.
Vamos ajudar a alguma instituição, mas sem trazer criança para casa.
Preciso mesmo reagir, por você e por mim mesma.
Se continuar aqui em casa, sem nada para fazer, vai ser muito difícil.
Por isso, quero voltar para o escritório.
Trabalhando, vou ocupar os meus pensamentos.
Daqui para frente, vamos viver um para o outro."
— Ele me abraçou e beijou:
" — Tem razão, volte para o trabalho.
Preciso te confessar algo, nunca mais tive uma secretária tão boa como você."
— Fiz isso. Voltei para o escritório.
O trabalho realmente ocupou meus pensamentos.
Nunca esqueci de Clóvis.
Só que agora pensava cada vez menos.
O tempo foi passando, aos poucos a nossa vida voltou ao normal.
Mamãe ficou doente.
Veio para minha casa junto com papai.
Levamos a todos os médicos, mas foi em vão, em seis meses faleceu.
Outra vez a dor da perda e aquela impotência diante de uma força maior.
A única coisa que me confortava era que, agora, Clóvis teria alguém para cuidar dele.
Um ano depois, papai, que amava muito mamãe, também ficou doente e se foi.
Agora eu estava sozinha tinha somente Arnaldo, ele me amava e era amado por mim.
Esteve ao meu lado nos momentos em que sofria pela perda de meus pais.
Continuamos a nos amar como sempre.
Apesar de tudo o que passamos, o nosso amor nunca foi abalado.
Arnaldo continuava com suas viagens.
Um dia, amanheceu com muita febre.
Pensamos ser uma gripe, tomou um comprimido e fomos trabalhar.
Passou mal o dia inteiro.
Resolveu ir ao médico.
No fim da tarde, ele foi e eu fiquei no escritório.
Voltou mais tarde para me pegar.
Notei que estava abatido e tinha um semblante preocupado, perguntei o que estava acontecendo, ele respondeu:
— O Ferraz achou melhor eu fazer alguns exames."
— Ao ouvir aquilo, senti um nó na garganta.
Com Clóvis, havia acontecido o mesmo.
Disfarcei para que ele não percebesse a minha preocupação.
No dia seguinte, foi para o hospital.
Fiquei com o coração nas mãos, pedindo a Deus que os exames dessem negativo.
Ele voltou na hora do almoço:
— Está feito, Paulina, fiz os exames.
Agora, teremos que esperar o resultado.
Ainda estou com um pouco de febre.
Isso é o que está preocupando o Ferraz.
Apesar de ter tomado vários remédios ela não baixou.
Só temos que esperar.
— O Ferraz te disse o que pode ser?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 8:07 pm

— Não, apenas pediu os exames."
— Os dias passaram, a febre continuava, não sumia.
Ferraz telefonou avisando que os exames estavam prontos.
Quis ir com Arnaldo ao consultório, mas ele não permitiu:
— Não precisa ir comigo, tem muito trabalho.
Vou e depois te conto tudo."
Foi sozinho.
Fiquei, ansiosa esperando:
Pode ficar tranquila, — disse sorrindo quando voltou os exames estão todos bons.
Ferraz acha que seja um vírus e que dentro de alguns dias irá embora."
Ao ver a sua tranquilidade, fiquei feliz.
Depois de alguns dias ele foi viajar outra vez.
Desta vez o destino era os Estados Unidos.
Estranhei, pois seria a primeira vez que iria para lá a trabalho.
Seus negócios sempre foram na Europa, no Oriente ou América Latina.
Ele me disse que estava tentando um novo mercado.
Viajou, continuei trabalhando.
Ele me telefonava todos os dias.
Acreditei que tudo estivesse bem.
Voltou dez dias depois e me trouxe uma miniatura da estátua da Liberdade.
Disse não ter conseguido o contrato.
A febre continuava.
Percebi que ele estava abatido, mas o trabalho continuava muito e não me preocupei.
No dia em que voltou de viagem foi falar com Ferraz.
Depois de falar com ele voltou para o escritório e disse:
— Hoje vamos jantar fora, quero te levar a um restaurante caro e bonito.
Sei que vai gostar.
Esta noite tem que ser maravilhosa, quero que fique bem bonita! "
— Sorri e não estranhei.
Aquela não seria a primeira vez que ele me proporcionava uma noite com muita alegria.
Fomos para casa, nos trocamos e procurei colocar uma roupa bonita.
Estava feliz. Ele parecia estar bem melhor.
Antes do jantar, fomos ao teatro.
Após o teatro, jantamos e dançamos.
Tudo estava perfeito.
Ele pediu champanhe, ao fazer o brinde, disse:
" Paulina, tudo o que quis na vida foi te fazer feliz.
Aconteça o que acontecer, nunca esqueça que sempre te amei e amarei.
Você foi e é tudo para mim, te amo."
—Estranhei aquele brinde e disse:
"— Por que está dizendo isso?
Sei que me ama e também te amo muito.
O que está acontecendo?
— Nada, só me deu vontade de renovar o meu amor por você.
Nunca quis te fazer mal.
— Você nunca me fez mal!
Ao contrário, só me fez feliz durante todo o tempo em que estivemos juntos.
Mesmo nos piores momentos que passamos, sempre estivemos juntos.
— Sei disso, mas hoje é um dia de festa, só quero que não esqueça que sempre te amei e que te amo muito."
— Continuamos comendo.
Ao terminar, voltamos para casa.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:29 pm

Ele parou o carro na alameda, de onde se podia ver a casa.
Desceu e ficou olhando.
Estranhei aquela atitude, mas naquela noite ele estava diferente e estranho.
Eu só não conseguia descobrir o porquê.
Começou a andar e ficou olhando a casa, as árvores e flores.
Eu o segui em silêncio.
Entramos em casa.
Ele me beijou na testa:
- Preciso ir ao escritório. — disse sussurrando.
Tenho que olhar alguns papéis, vá se deitar."
Estranhei aquela atitude, pois pensei que teríamos uma noite de amor, mas não discuti.
Fui para o quarto.
Arnaldo entrou no escritório.
Antes de entrar no quarto, olhei para a porta do escritório.
Entrei no banheiro, tomei um banho.
Sentia que algo estava acontecendo, só não entendia o porquê dele ter sido tão maravilhoso naquela noite e, agora, estar tão estranho.
Assim que entramos no jardim de nossa casa, mudou.
Seu rosto se tornou grave, distante.
Terminei de tomar o banho, voltei ao quarto, sentei-me em frente ao espelho e comecei a escovar meus cabelos.
Não entendia o que estava acontecendo.
De repente, ouvi o barulho de um tiro vindo do escritório.
O meu susto foi tremendo.
Corri para a porta.
Minha empregada e o motorista também ouviram e chegaram correndo.
Eu fiquei parada do lado de fora, sem ter coragem de entrar.
A porta estava trancada por dentro.
O motorista, um homem forte, deu alguns chutes e a abriu.
Eu chorava e gritava, abraçada a minha empregada.
O motorista entrou, ela me segurou para que eu não entrasse, mas me soltei e entrei.
Arnaldo estava sentado na cadeira com a cabeça caída sobre a mesa com muito sangue em volta.
Fiquei desesperada e comecei a gritar sem parar.
Não queria acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
Novamente, diante dos amigos, Paulina chorava sem parar.
Em seus olhos muita dor e sofrimento.
Eles, agora, mostravam em seus rostos, horror.
Regina sentiu um aperto no coração.
— Paulina, que momentos tristes você passou... pare um pouco.
Está muito emocionada, isso poderá lhe fazer mal.
Paulina continuou chorando.
Em seu rosto, as marcas do sofrimento agora se faziam notar.
Revivia aquele momento com toda intensidade.
Célia levantou-se, dizendo:
Vou para na cozinha passar um café bem forte, acredito que todos estejamos precisando.
-Meu Deus, — começou a chorar, assim que entrou na cozinha — sofri muito, mas acho que nunca, tanto.
Sempre soube que um dia encontraria meu filho, mas ela perdeu tudo.
Coou o café, voltou à sala trazendo uma bandeja com xícaras.
Todos estavam calados.
Paulina chorava, só que agora baixinho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:29 pm

Zeca e Regina, de mãos dadas, também pensavam.
Simão olhava para ela com muito amor.
Todos estavam condoídos de sua situação, mas não sabiam o que dizer.
Regina foi a primeira a falar:
— Vamos tomar o café?
Já está tarde, a noite já vai alta...
Olharam para ela agradecidos.
Foi a única que teve a coragem de quebrar aquele silêncio sinistro.
Tomaram o café em silêncio.
Quando terminaram, Paulina disse:
— Sinto muito por ter causado este constrangimento.
— Que é isso!
Não estamos constrangidos!
Estamos é pesarosos por você!
Acredito que, assim como eu, todos pensamos ser melhor que pare de falar.
Está sofrendo demais ao relatar e reviver todos esses factos.
— Não, Regina, por favor, não me peçam isso.
Estou revivendo sim, só que agora não estou sozinha.
Tenho vocês ao meu lado.
Só vou parar se vocês disserem que estão cansados e que não querem mais me ouvir.
— Se achar que vai lhe fazer bem, ficaremos aqui.
Confesso, que todos estamos curiosos para saber qual foi o motivo do teu marido ter praticado essa loucura, mas você é quem sabe.
— Quero e preciso, Célia.
Sinto que, agora, não pode mais haver segredos entre nós.
Hoje, eu descobri algo que me obriga a isso.
Olhou para Simão, enquanto falava.
Vou continuar.
O motorista pegou o telefone e ligou para a polícia.
A empregada me levou para fora do escritório.
Eu não queria acreditar naquilo que havia visto.
Estava perdendo outra pessoa que amava.
Deus não podia estar fazendo aquilo comigo.
Estava no quarto, quando a polícia chegou.
Os pais de Arnaldo e sua irmã chegaram também e perguntaram o que havia acontecido.
Contei a eles tudo sobre aquela noite, o teatro e o jantar.
Tudo havia sido perfeito.
Sobre uma cadeira ainda estava o vestido que eu havia usado e sobre a minha penteadeira as minhas jóias.
Estava tudo ali, mostrando como a noite havia sido perfeita.
Um policial veio até nós e me entregou uma carta, que encontrou sobre a mesa.
Tremendo, peguei aquela carta.
Olhei para ela, mas não consegui ler.
Entreguei ao meu sogro que também estava abatido, mas não chorava.
Ele começou ler em voz alta.
Querida Paulina, queridos pais.
Quando lerem esta carta, estarei morto.
Quero pedir perdão a todos por tudo o que ainda sofrerão com essa minha atitude.
Paulina, meu amor, sabe que sempre te amei e que nunca pensei em te fazer mal, mas infelizmente acredito ter feito.
Nos Estados Unidos, descobri que estou com uma doença muito grave.
Doença essa que não tem cura.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:29 pm

Foi adquirida em um momento de loucura, em um momento que esqueci o quanto te amava e era amado por você.
Essa doença é muito cruel e castiga o corpo, mas, muito mais, a alma.
Preciso que me perdoem por essa covardia, mas não suportaria sentir todo o sofrimento que ela traz.
O meu pior pesadelo é imaginar que eu a tenha transmitido para você, Paulina.
Converse com o Ferraz, ele lhe dará todas as instruções de como proceder.
Precisa saber que nunca deixei de te amar.
Que Deus, se puder, me perdoe.
Arnaldo
— Quando terminou de ler, nos olhamos incrédulos.
Eu revivia toda a nossa vida e principalmente aquela noite.
— Que doença é essa? — comecei a gritar e chorar.
Preciso falar com Ferraz.
Telefonem para ele, por favor!
Ele foi avisado, já deve estar chegando."
Quem falou foi o motorista.
Ele sofria muito.
Era motorista da casa, desde quando Arnaldo era um menino.
Sentia por ele um amor paternal.
Ninguém esperava por aquilo.
Logo depois, Ferraz chegou.
Meu sogro pegou a carta de minhas mãos e lhe entregou, perguntando:
— O que significa isto, Ferraz?
Que doença meu filho tinha?
Por que você não nos contou, antes desta tragédia?
— Ferraz também estava abatido.
Pegou a carta e leu:
— Paulina, não pensei que ele chegasse a esse ponto.
Disse que te daria uma noite maravilhosa e que depois te contaria tudo.
Ferraz disse emocionado.
— Por favor, Ferraz, diga, que doença é essa?
É chamada de AIDS.
É uma doença nova que está surgindo agora.
Pouco se sabe sobre ela.
Só sabemos que ela ataca o sistema imunológico e que não tem cura.
Já fez algumas vítimas e só agora os cientistas a estão estudando.
— Por que ele não podia esperar?
Talvez a cura apareça!
Nunca poderia ter feito isso com todos nós!
— Ele não esperou, porque, lá nos Estados Unidos, visitou alguns dos melhores médicos e alguns doentes terminais e viu todo o sofrimento que ela impõe a quem se contamina.
O medo maior que sentiu, foi pensar que pode ter te transmitido.
— A mim? Como?
— Dessa doença ainda não se sabe muito, só que é adquirida e transmitida através da transfusão do sangue e do acto sexual, pelo que se sabe até agora.
— Ele nunca fez transfusão!
O que está dizendo?!
Ele se contaminou através do acto sexual?
É isso que está me dizendo?
— Foi em uma de suas viagens, saiu com alguns amigos e manteve relação sexual com uma moça, que tinha o vírus.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:30 pm

— Não! Não! Não! — comecei a gritar, desesperada.
Ele nunca faria isso!
Sempre nos amamos!
— Foi levado por amigos e bebida.
— Não posso acreditar e muito menos aceitar!
Amigos não fariam isso!
Arnaldo não faria isso se realmente me amasse!
Não posso aceitar e nem perdoar!
Nunca! Nunca!
— Está no seu direito de assim pensar, por isso mesmo ele preferiu se matar a te enfrentar.
É preciso que, assim que tudo termine, vá ao meu hospital para fazer alguns testes."
— Minha cabeça girava.
Ele jamais poderia ter me traído.
Sabia, ou, pelo menos pensava, que me amava.
Agora eu não chorava mais.
Sentia muito ódio por ele.
Além de me trair, me condenado à morte.
Não teve coragem de me enfrentar e nem de enfrentar a doença, eu sabia que nunca conseguiria me matar.
Eu sofreria toda a dor da doença e da traição.
Quis entrar novamente no escritório para brigar com ele, mas um policial me impediu.
O corpo foi levado.
Mandei que todos fossem embora, precisava ficar sozinha e reflectir.
Ferraz me fez prometer que iria ao hospital.
Todos entenderam o meu sofrimento e saíram.
Eu não me conformava com a traição.
Havia sido sempre sincera em meu amor por ele que sempre me pareceu ser correspondido.
Como pôde ter me traído?
O ódio era imenso.
Pensei na doença que provavelmente eu havia adquirido.
No horror que Ferraz havia descrito.
Senti muito medo.
Sabia que um dia todos morrem, mas eu era muito jovem e tinha medo do sofrimento.
Saber que vamos morrer é uma coisa, mas com hora marcada é muito diferente.
O medo, misturado com o ódio, me fez tomar aquela atitude.
Não queria vê-lo e a mais ninguém.
Não iria ao hospital para saber se estava doente ou não.
Pensava que, enquanto não tivesse certeza, não sofreria tanto.
Deixei uma carta, arrumei umas poucas coisas e vim para cá, esta cidade a qual eu havia odiado tanto quando adolescente.
Voltei em busca de minhas raízes.
Na casa em que nasci, me senti protegida.
Depois conheci vocês, um a um.
Em seguida, surgiu o projecto do Grotão.
Senti que, embora, condenada à morte, posso ainda fazer algo em prol de pessoas que muito precisam.
Iria ficar calada a respeito de tudo, mas hoje, pela manhã, senti que o meu coração batia mais forte por você, Simão.
Isso não pode acontecer.
Antes que esse sentimento se torne mais forte e que talvez te atinja, achei melhor contar tudo e voltar para minha casa.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:30 pm

Não sei e nem quero saber sobre essa doença.
Vim para cá e ficaria até sentir algum sintoma.
Quando isso acontecesse, voltaria para me internar em um hospital e morrer.
- Que está dizendo?! — gritou Simão, nervoso.
Como sabe se está doente?
Não fez os exames para ter certeza!
Diz que vai embora, antes que o sentimento que sente por mim me atinja?
Tarde demais!
Desde hoje pela manhã, não faço outra coisa a não ser pensar em você!
Depois de tanto tempo de Solidão e tristeza, voltei a sentir um sentimento bom dentro de mim!
Não vou permitir que se acabe, mesmo antes de começar!
Também não conheço essa doença.
Aliás, só ouvi falar sobre ela muito superficialmente.
Nunca me importei, mas agora vou procurar descobrir tudo sobre ela.
Os outros apoiavam Simão enquanto ele falava.
Regina, com esforço, conseguia manter a sua calma de sempre:
— Paulina, Simão tem razão.
Você não tem certeza de que está doente.
Vá fazer o exame e depois resolverá o que fazer com a sua vida.
Tem, agora um motivo maior para viver.
Além do Grotão, tem esse amor que brotou entre vocês.
— Tenho algo mais para dizer - interrompeu Simão.
Se realmente estiver doente, não me importo!
Perguntaremos ao médico como vai ser a nossa vida sexual e se poderá existir.
Se não for possível, ficaremos juntos, simplesmente, nos amando.
Não vou te deixar, agora que te encontrei.
— Não sabe o que está dizendo, Simão!
Como pode ser uma vida a dois se não houver sexo?
— Não sei, mas não vou te deixar!
-Esperem, os dois! — disse Regina.
Não adianta ficarmos discutindo.
Estamos cansados.
Acho que devemos ir para casa e dormirmos.
Amanhã será outro dia e um novo dia sempre nos traz esperanças.
Acho que viemos para cá com um só propósito.
Nos encontramos e realizaremos algo em favor de outras pessoas.
Na história de cada um pode-se ver que todos nascemos ou nos tornamos ricos.
Apenas eu e Fábio não temos tanto dinheiro.
Vocês tiveram tudo o que o dinheiro pode comprar, mas perceberam que o dinheiro, apesar de ser necessário, não pode nos dar a felicidade.
Dizem que pode comprar, mas como podem ver, isso não é a verdade.
A felicidade, paz e tranquilidade são bens que o dinheiro não compra.
Todos sofremos muito, mas hoje vivemos em paz e ao lado de amigos sinceros, que não foram comprados pelo dinheiro.
Estamos tentando fazer algo que será um bem para aquelas pessoas do Grotão.
Talvez seja essa a missão que viemos cumprir.
Agora já está tarde.
Vamos embora.
Eles ouviram e sentiram que tudo o que Regina disse tinha fundamento.
Estavam cansados.
As emoções haviam sido muitas.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:30 pm

Concordaram e se despediram.
Prometeram que estariam cedo no bar para tomar café.
Foram embora.
Paulina, sozinha em casa, olhou para a fotografia dos pais que estava em cima do móvel.
Parecia que estavam sorrindo para ela.
Lembrou-se do modo emocionado que Simão falara do seu amor.
Sentiu que nem tudo estava perdido:
" Não sei por quanto tempo vou viver, mas viverei intensamente.
Regina tem razão.
Tenho, agora, um caminho para seguir.
Tenho amigos e o amor de Simão.
Tudo isso me dará forças para continuar, até o último dia."
Tomou uma xícara de chá e se deitou.
Estava com sono.
Embora tivesse passado por muitas emoções, sentiu que estava bem.
Lembrou-se de Arnaldo, agora sem ódio.
Pensou nos momentos de felicidade que viveram juntos.
Foi um homem maravilhoso.
Fez tudo para que eu fosse feliz.
Cometeu um deslize, mas quem não comete?
Sinto não o ter acompanhado até o cemitério.
Sei que ele ficou me esperando para ouvir o meu perdão... eu não fiz isso..."
Adormeceu.
Sonhou que estava em sua casa no quarto de Clóvis e que ele corria para ela.
Quando foi abraçá-lo, ele sumiu.
Ela olhou para a porta e viu uma sombra que saía correndo.
Acordou chamando Arnaldo.
Sentou-se na cama:
Foi só um sonho, mas tão real!
Era o Arnaldo quem estava na porta, mas por que teria corrido daquela maneira?
Adormeceu em seguida. Não sonhou mais.
Zeca, Fábio e Simão acompanharam primeiro Célia e depois Regina até suas casas.
Durante o caminho, seguiram em silêncio.
Simão foi o próximo.
Restou Zeca e Fábio, que seguiram juntos caminhando.
Em dado momento, Fábio disse:
— Zeca, o que achou de tudo o que escutamos?
Foi uma história triste.
Sempre pensamos que a nossa e a pior.
Percebemos depois que é só mais uma.
Cada um tem a sua dose de sofrimento.
Nós conseguimos reencontrar os nossos destinos, estamos caminhando para a felicidade, mas e Paulina?
Condenada à morte, sem culpa e sem esperar.
Quantas pessoas não estarão nessa mesma situação?
-Estou pensando naquilo que Regina disse.
Ela me parece sempre tão calma.
Será que ela não tem problemas?
- Tem, sim, como nós todos.
Mas ela vê tudo de uma maneira diferente.
Para ela, a vida não se resume apenas a esta, mas a muitas outras.
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Ave sem Ninho

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:30 pm

Acredita que tudo que nos acontece, tem sempre um motivo maior e que sempre aprendemos algo.
- Estranho. Esse pensamento não pode ajudar a pessoa?
Pensando assim, vamos aceitar tudo, sem reagir?
Tenho medo das religiões que levam as pessoas a aceitar tudo sem discutir.
Acharem que tudo é culpa de Deus ou do destino.
-^Também já tive esse medo.
Mas a vida me ensinou que, às vezes, somos levados, não conseguimos evitar.
Existe uma força maior que nos conduz, sem que possamos interferir.
— Não sei. No meu caso, acreditei em mentiras.
Se tivesse confiado no amor que sentia e sabia que havia por parte de Marisa, muito teria sido evitado.
A culpa não foi de Deus, nem do destino.
A história de Simão foi a mesma.
Ele usou mal a política.
A culpa não foi de Deus, mas, sim, dele mesmo.
Também usei mal o meu diploma, mas Paulina não.
Ela foi boa esposa, excelente mãe.
Por que teria acontecido tudo aquilo?
Regina me disse que todos nascemos para sermos felizes "
Se não somos felizes, ou não evoluímos, não é por culpa de Deus, mas sim, por nosso livre-arbítrio.
— Está dizendo que se não evoluirmos, a culpa é nossa?
— Sim, mas no caso de Paulina e de muitas outras pessoas, acontecem coisas sobre as quais não têm controle.
— O que devemos fazer?
Esperar as coisas acontecerem?
— Devemos lutar para o melhor, em nossas vidas e para aqueles a quem amamos.
Sem esquecer nunca que cada um é responsável pela sua própria vida, mas o que não devemos, é prejudicar alguém para conseguirmos aquilo que queremos.
— Sabe, Zeca, tudo isso é muito difícil de se aceitar.
— É verdade. Já chegamos em casa e está na hora de dormirmos.
Sua mãe deve estar aflita nos esperando.
— Tem razão, ela diz que não, mas sempre fica acordada até eu chegar.
Gostaria de continuar esse assunto outro dia.
Não sou a pessoa mais indicada para isso.
Estou apenas aprendendo, mas ficarei feliz em falar sobre o que já aprendi.
Fábio entrou.
Zeca foi para o seu pequeno quarto.
Amava aquele lugar.
Lá, encontrou a paz.
Simão, também em casa, pensava em tudo o que ouvira de Paulina.
Não entendia por que Deus permitia que todas aquelas coisas ruins acontecessem.
Por que esse amor por Paulina foi surgir agora em minha vida?
Por que não poderei usufruir?
Por que, agora que pensei ter encontrado a paz, tudo volta a ser difícil?
Por mais que pensasse, não encontrava respostas.
A única coisa que sabia era que faria com que Paulina fosse ao hospital fazer os exames e, se realmente estivesse doente, ficaria ao lado dela até o fim.
Assim pensando, adormeceu.
Regina, em casa, também pensava em tudo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:30 pm

No fundo de seu coração, colocou em dúvida a sua fé.
Estranho. Em todas as outras histórias, havia sempre um espírito ao lado, os envolvendo.
Isso aconteceu com o Zeca, com a Célia e o Simão.
Já com Paulina, não percebi a presença de nenhum.
Por que será?
Por mais que acredite na bondade e justiça de Deus, às vezes, penso que Ele não precisava maltratar as pessoas.
Todos erram, mas também se arrependem.
Simão se arrependeu e encontrou um novo alento no amor de Paulina.
Agora, ela está doente e esse amor não poderá ser consumado.
Ela não teve culpa alguma.
Só teve perdas durante o tempo todo.
Meu Deus, me perdoe.
Quem sou eu para julgar Sua vontade?
Sei que deve ter um motivo para que tudo isso aconteça."
Olhou para os pés da cama e viu dona Júlia, que sorria.
Ouviu sua voz, doce, dizendo:
- Não se atormente, Regina.
Todos temos os nossos momentos de dúvidas.
Esses momentos são bons.
Fazem com que procuremos aprender mais o que Jesus nos deixou.
Existiu alguém mais injustiçado do que Jesus?
Tudo está certo nos planos de Deus.
Procure dormir.
Como você disse, a cada novo dia uma esperança nasce em cada coração.
Antes de Dona Júlia terminar de falar, ela já estava dormindo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:31 pm

O Despertar de Fábio
Amanheceu.
O dia parecendo querer mostrar o estado de espírito das pessoas, surgiu encoberto e chuvoso.
Estava cinza, um pouco frio e uma garoa fina caía.
Um clima estranho para aquela época do ano.
Zeca havia combinado a limpeza de um jardim, mas com aquele tempo seria impossível.
Em frente ao espelho, olhou seu rosto.
Estava queimado pelo sol e seus braços estavam musculosos.
O trabalho ao ar livre lhe fizera bem.
Sorriu para o espelho.
Lembrou-se de Simão e Paulina.
Seu rosto se modificou.
Não aceitava aquilo, embora Regina dissesse ser a vontade de Deus.
_ Fábio tem razão.
Esse negócio de religião, que ensina a as pessoas a aceitarem tudo sem se revoltar, não é boa coisa.
Só não se revolta quem for santo sem pecado.
E isso não existe."
Escutou um barulho de panelas na cozinha de Consuelo.
Terminou de se trocar e foi até lá:
— Bom-dia, dona Consuelo.
Como está essa manhã?
Robertinho passou bem a noite?
— Bom-dia, Zeca.
Já sei, veio aqui para tomar o meu café.
Robertinho está muito bem, está ficando cada vez mais difícil mantê-lo na cama.
Onde estiveram ontem à noite?
Ouvi a hora que chegaram, já era tarde.
Tem outra história por aí?
— Ainda bem que Robertinho está bem.
Quero o seu café e tem outra história também.
Gostou das minhas respostas?
— Gostei.
Já sei que não vai me contar a história.
— Não, não vou.
Estou indo para o bar.
Fábio lhe contará tudo.
Vou encontrar Regina, temos que conversar.
Fábio entrou na cozinha, beijou a mãe, dizendo:
_ A senhora vai ter que esperar, mamãe.
Estou indo com o Zeca.
Agora, já faço parte da turma do café!
_ Zeca, vou sentir a sua falta quando for embora.
_ Não deixarei que sinta saudade, dona Consuelo, não se preocupe.
Voltarei sempre para tomar o seu café, mas agora tenho que ir.
Até mais.
Ela sorriu.
Aprendeu a gostar dele como se fosse seu filho.
Desde o dia em que chegou na cidade e ela o acolheu em sua casa, sentiu por ele uma ternura muito grande.
Zeca saiu pelo portão.
Do lado de fora, olhou para o céu e respirou fundo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 20, 2017 7:31 pm

Pensou em Regina e no seu casamento.
" Sou um homem feliz.
Recuperei a paz de espírito e tenho ao meu lado a mulher que amo.
0 que mais posso querer..."
Caminhava e ao virar a esquina, deu de encontro com Regina que também vinha apressada.
Riram e se abraçaram.
Estavam felizes, apesar de tudo.
Foram para o bar.
Célia e Simão conversavam e olhavam em direcção à casa de Paulina.
— Regina! — Simão disse aflito.
Que bom te encontrar!
Estou preocupado com Paulina, ela até agora não veio.
— Simão, você não pode esquecer que ontem ela viveu momentos difíceis.
Deve ter dormido tarde e não acordou.
Não se preocupe, logo estará aqui.
— E se ela não vier?
— Se ela não chegar, eu e Célia vamos até lá.
— Vamos esperar, mas estou muito preocupado.
Simão preparava a mesa para o café, mas seus olhos não se desviavam do caminho por onde Paulina deveria chegar.
Ela não vem, Regina, acho melhor vocês irem até lá.
Está bem, Simão.
Vamos agora. Você vem, Célia?
Claro, agora também estou ficando preocupada.
Levantaram-se, quando viram Paulina, que chegava:
Bom-dia, pessoal!
Todos a olharam sem entender.
Estava linda com um vestido muito bonito, cabelo preso e uma expressão feliz.
— Que estão olhando?
Não estou bonita?
Simão saiu de trás do balcão, se aproximou, fez uma reverência e a conduziu até uma cadeira para que se sentasse.
— Está mais linda do que já foi.
Estou encantado.
— Obrigada, Simão.
Demorei porque estava me vestindo.
Acredito que todos estavam preocupados.
— Estávamos, sim.
Afinal, ontem tudo foi muito difícil.
Foi, Regina! Hoje não é mais!
Demorei para dormir.
Repassei toda a minha vida.
Só falei o que de ruim me aconteceu.
Sozinha em meu quarto, comecei a lembrar de tudo de bom que me aconteceu e cheguei à conclusão, que tive mais momentos bons do que ruins.
Não fui fazer os exames por medo.
Hoje o dia está chuvoso e até um pouco frio.
Até a natureza tem seus dias bons e ruins.
Hoje o dia está feio, mas amanhã, o sol brilhará!
Assim é a nossa vida!
Tive dias ruins, mas quantas vezes o sol brilhou novamente?
Eles olhavam para ela com estranheza.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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