A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:39 pm

Recomeçando
No dia seguinte, as pessoas foram acordando e retomando as suas actividades. Zeca acordou tarde.
Perdeu a hora, estava atrasado porque não havia dormido bem.
Sonhou com seu irmão.
Não se lembrava do sonho, mas sabia que havia sonhado.
Levantou, escovou os dentes, olhou pela janela.
O sol já estava alto, por isso sabia que o dia seria quente.
_ Algo não está bem comigo.
Preciso voltar, nem que seja para rever os meus pais.
Não devia ter falado com a minha mãe.
Embora saiba que para ela foi muito bom saber que estou bem.
Será que foi mesmo?
Ou ela estará assim como eu?
Talvez eu volte, nem que seja só para visitar.
Gosto daqui.
Estou muito bem e não pretendo viver aquela vida novamente.
Saiu e foi tomar o seu café no bar de Simão, como fazia todos os dias.
Simão já estava lá, esperando os fregueses.
— Bom-dia, Zeca!
Estava preocupado, você está atrasado!
Já vou preparar o seu café.
— Hoje acordei tarde.
A esta hora, já devia estar trabalhando.
Mas eu recupero até o fim do dia.
— Você trabalha por conta própria, não tem que ser tão rígido com o horário.
Pode começar a trabalhar a qualquer hora.
— Tem razão, mas gosto de começar cedo, antes que o sol fique muito quente.
— Bom-dia!
— Bom-dia, dona Paulina, como vai a senhora?
— Estou bem, senhor Simão.
Vim buscar manteiga.
Ontem esqueci de levar.
Parece que hoje vai ser um bonito dia, não?
— Tem razão. A senhora não quer tomar café com a gente?
— Sim, obrigada. Não gosto de fazer as refeições sozinha.
— Então, sente-se aí com o Zeca.
Tomem, juntos, o café.
Eu não posso, porque agora é a hora de mais movimento, mas participarei da conversa aqui de longe.
— Bom-dia, Zeca!
Estava mesmo precisando falar com você.
Estive olhando o meu jardim.
Ele está precisando de cuidados.
Poderia cuidar dele?
— Claro, Dona Paulina!
Assim que terminar o do delegado, irei cuidar do seu e ele vai ficar uma beleza.
— Não tenho dúvida, por isso estou te pedindo.
Você é um óptimo jardineiro!
Estudou jardinagem em algum lugar?
— Não! Eu apenas gosto de flores, me sinto muito bem cuidando delas e mexendo com a terra.
Célia se aproximou, com um lenço branco na cabeça e os inseparáveis óculos que escondia quase todo o seu rosto, deixando só a boca aparecendo.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:39 pm

— Bom-dia para todos!
— Bom-dia, Célia, mas o que faz aqui tão cedo?
— Ontem fiquei de trazer o dinheiro do aluguel, Simão.
— Não precisava ser tão cedo, mas já que está aqui, por que não se senta aí com o Zeca e a dona Paulina?
Como vai morar na cidade, é bom que comece a fazer algumas amizades.
— Se eles permitirem, eu gostaria.
Estou muito sozinha!
— Claro que pode! — disse Zeca sorrindo.
Estamos só jogando conversa fora!
Esta é dona Paulina.
Mora a duas casas da sua.
São vizinhas.
— Que bom! Muito prazer, dona Paulina!
— O prazer é todo meu, mas não precisa me chamar de dona, não sou tão velha assim...
— Tem razão, não é velha mesmo.
É jovem e bonita.
Está bem, todos nos chamaremos pelo primeiro nome.
Eles concordaram com a cabeça.
Paulina sorriu. Célia, que já conhecia Zeca, sentou-se.
— Então, Célia, resolveu mesmo ficar aqui?
— Sim, Zeca, ficarei por um tempo.
A cidade é calma e hospitaleira.
Sinto-me bem aqui.
Estou precisando de paz e tranquilidade.
Creio que não exista melhor lugar que este!
— Se é isso que está procurando, posso lhe garantir que achou o lugar certo!
Aqui encontrará o que procura.
— Eu também estou muito sozinha. — disse Paulina.
Se quiser, pode vir à tarde tomar um chá em minha casa.
— Gostaria muito, Paulina, mas estou mudando.
Comprei alguns móveis na loja do senhor Guerino e ele ficou de entregar hoje.
Assim que me instalar, poderemos combinar, não só de ir a sua casa, mas também de recebê-la na minha.
— Então, fica combinado.
Já que todos vivemos aqui, nada melhor do que sermos amigos!
— Zeca, após cuidar do jardim da dona Paulina, poderia cuidar do jardim da casa que aluguei para a Célia?
— Pode deixar, Simão, vou sim.
Parece que vou ter muito trabalho por esses dias e isso é muito bom!
— Olhem lá! Gustavo e a Clarinha estão brigando novamente. — disse Simão apontando para a praça.
Os três, seguindo o espanto de Simão, olharam para a praça.
Realmente, Gustavo e Clara estavam conversando:
— Clara! Não sei como vai ficar!
Meu pai não quer o nosso casamento!
Disse que se eu continuar com você, não vai me ajudar a ir para a faculdade.
Não sei o que fazer.
— Também não sei!
Só sei que não pode deixar de estudar por minha culpa!
Sempre foi o seu sonho!
— Não? O que não posso é ficar longe de você, sabendo que agora poderia estar ao meu lado para sempre!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:39 pm

— Se eu fosse embora com você?
— Seria muito bom, mas iríamos viver do quê?
Vou estudar o dia inteiro, não vou ter tempo para trabalhar.
Vou morar em uma república.
Meu pai vai pagar tudo.
— Se eu tivesse um pai, também poderia ir.
Do que adiantou eu passar no vestibular se não tenho como pagar?
— Tem razão. Não sei o que fazer.
Se tivéssemos dinheiro, alugaríamos um apartamento, você também estudaria.
— Como não temos dinheiro, Gustavo, o melhor é você ir, se formar e quando voltar, nos casaremos.
Acho que essa será a melhor solução.
Não quero que desista do seu sonho!
— Talvez seja essa a única solução, mas ainda temos um tempo.
Quem sabe eu consiga convencer os meus pais.
Você só tem que ter uma certeza: te amo muito!
Abraçaram-se.
Do bar todos acompanhavam a cena.
Não dava para ouvir o que falavam, mas sabiam que algum problema existia.
Terminaram de tomar o café.
— Gostei muito da companhia para o café, mas tenho que ir.
Estou ansiosa para arrumar a minha casa.
Preciso ainda comprar algumas roupas de cama, mesa e banho. — disse Célia.
— Eu também vou, Célia.
Preciso ir cuidar do jardim da dona Carmem.
Ela deve estar preocupada.
Zeca e Célia saíram, iam para o mesmo lado.
Paulina continuou sentada, olhando para a praça.
— Sabe, Simão, aqui é muito bom mesmo.
Parece que tudo caminha tranquilamente.
Durante o tempo em que estive fora, muitas vezes nas minhas atribulações, eu lembrava daqui e sentia saudade.
E, algumas vezes, fiquei tentada em voltar.
— É mesmo. Aqui parece um pedacinho do céu...
— Por que será que a Célia esconde o rosto, Simão?
Tem um corpo bonito e parece ser jovem.
— Não sei, Paulina, já me perguntei, mas não obtive resposta!
Deve ter um motivo... quem sabe um dia saberemos!
_ É! Deve haver um motivo para todo esse mistério.
Mas quem não tem seus segredos, não é?
Creio que todos nós os temos.
— Está certa.
Todos sempre têm um segredo qualquer.
— Você tem algum?
— Eu?! Não, não tenho nenhum.
— Nem eu. Segredos só podem nos fazer muito mal. Estou indo.
Até mais tarde!
— Até mais tarde, Paulina!
Paulina saiu pensativa.
Clara e Gustavo não estavam mais na praça.
Zeca e Célia seguiam juntos.
Ao chegar na esquina, Célia se despediu e entrou em uma loja, onde eram vendidas roupas de cama, mesa e banho.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:40 pm

Zeca continuou o seu caminho.
Na loja, Célia comprou tudo o que precisava.
Saiu acompanhada por um menino que a ajudou com os pacotes.
Entrou em casa.
Logo depois, dois homens chegaram.
Vieram montar os móveis.
Ela deu algumas moedas para o menino.
Deixou os pacotes e foi para a pensão, onde estivera hospedada.
Conversou com a dona da pensão, pagou sua conta, foi até o quarto, pegou suas coisas e voltou para casa.
A cozinha já estava montada.
Um fogão, uma geladeira, um armário, uma mesa e quatro cadeiras.
Lembrou-se de que não tinha louças nem talheres.
Voltou para a praça e entrou em outra loja.
Comprou o que precisava.
Para a sala, comprou dois sofás, um aparelho de televisão e uma pequena estante.
Para o quarto, uma cama e um guarda-roupa, cuja montagem os homens estavam agora terminando.
" Esse cheiro de móveis novos está me fazendo muito bem.
Agora, recomeçarei a minha vida.
Talvez, daqui a algum tempo, eu consiga me encontrar novamente. "
Os montadores terminaram e saíram.
Sozinha, começou a arrumar suas roupas.
Percebeu que a hora do almoço chegou e que não tinha nada para comer.
Foi até o bar do Simão.
— Simão, já está tudo montado, só que não tenho nada para comer.
Vou tomar um lanche.
— Já está instalada? Está feliz?
— Muito feliz.
Sei que vou retomar a minha vida. Comeu um sanduíche e voltou para casa.
"Agora está tudo certo.
Ficarei aqui, até conseguir. descobrir tudo.
Esta casa é exactamente o que eu precisava.
Amanhã irei até a cidade comprar algumas telas e bisnagas de tinta e voltarei a pintar.
Será um meio de me distrair e também de poder investigar.
Quem sabe eu consiga descobrir tudo.
Paulina em sua casa também pensava:
"Já estou aqui há um bom tempo.
Não sei como será, mas somente aqui poderei viver tranquilamente, até que tudo aconteça"
No dia seguinte, Célia levantou-se, tomou o táxi de Elias e foi para a cidade vizinha, que era maior e possuía um comércio grande.
Voltou trazendo vários pacotes.
Já em casa foi abrindo todos.
Comprou tintas, pincéis, telas e um cavalete.
Estava radiante.
Começaria uma nova etapa em sua vida.
Na manhã seguinte, ela montou o cavalete na praça, em frente à igreja.
Resolveu que a pintaria.
Esticou a tela e começou a pintar.
Estava lá por algum tempo, quando Robertinho se aproximou:
— Célia, você vai pintar a igreja?
Você sabe pintar?
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 05, 2017 7:40 pm

— Vou sim, Robertinho!
Gosto muito de pintar.
Este quadro vai ficar muito bonito!
Você vai ver!
— Será que vai?
Só estou vendo uns rabiscos!
Eu também gostaria muito de aprender a pintar.
— Estes rabiscos logo tomarão forma e você verá a igreja surgindo.
Se quiser, eu te ensino a pintar, não é difícil.
— Não é difícil?
Você me ensina mesmo?
— Ensino sim.
Se quiser, poderá vir até a minha casa que eu te ensino.
Verá como é fácil!
— Quero! Vou falar com a minha mãe e vou aprender.
— Óptimo, gostarei muito de te ensinar.
Robertinho se despediu, correu até em casa e falou com sua mãe.
Consuelo gostou.
Sabia que o filho ficava andando por toda parte, querendo saber de tudo.
Enquanto ele estivesse pintando, ela saberia, com certeza, onde ele estava.
— Célia! Minha mãe deixou! — Robertinho disse, ao voltar correndo.
Amanhã venho aqui para você me ensinar!
— Venha sim.
Verá como é bom pintar e ver os rabiscos se tornarem belas figuras.
Célia estava feliz.
Encontrava agora um novo sentido para a sua vida.
As pessoas paravam para ver aquela moça com o rosto coberto, que pintava com tanta facilidade.
Se encantavam com a firmeza com que ela movimentava os pincéis.
A igreja ia se transportando para a tela.
Zeca voltava do seu dia de trabalho.
Viu aquela aglomeração, parou para saber o que estava acontecendo.
Como os demais, também ficou encantado.
Ela estava tão absorta, que não sentiu a presença dele, que ficou por algum tempo lá.
Depois, foi para o bar.
— Simão, você viu a tela que a Célia está pintando?
Parece que ela resolveu sair da casca, não é?
— É sim, Zeca. Já vi a tela e parece que ela sabe o que está fazendo.
Deve ser uma pintora famosa que está, por algum motivo, se escondendo aqui.
— Que é isso, Zeca?
Está com devaneio?
Ela deve estar matando o tempo, nada mais!
Em uma cidade pequena como aquela, as notícias corriam depressa.
Logo, muitas pessoas chegaram para ver a tela. Célia começou a sentir-se mal e sob, protestos, resolveu ir embora.
Quando começou a pintar, sabia dos riscos que corria, mas mesmo assim tentou.
Gostava de pintar e precisava fazer alguma coisa para que o tempo passasse.
“Estando na praça, conhecerei mais pessoas e, talvez, descobrirei tudo.
Preciso saber onde ele está.
A maldade que fizeram comigo, não tem perdão, mas mesmo assim, tenho, de perdoar.
Guardou o material de pintura, tomou um copo de leite, deitou-se e começou a ler um livro.
A noite já vinha caindo. Célia saiu e foi andar pela praça.
Não conhecia muito da cidade.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:11 pm

Só sabia que era um lugar agradável.
Entrou na igreja, ajoelhou-se e começou a rezar.
“Meu Pai! Estou aqui, mais uma vez, para pedir que me mostre o caminho a seguir.
Estou perdida e sem rumo, mas sei que Tenho a sua protecção Faça com que alguma coisa aconteça para que eu possa encontrar a minha paz!"
Saiu da igreja e foi para a sua casa.
No coração, sentia um misto de alegria e solidão.
Já tivera tudo na vida e agora estava sem saber o que fazer, sem um caminhar.
— Olá, Célia!
Que aconteceu?
Parece que está triste.
— Oi, Paulina! Não estou triste, não.
Só fui até a igreja e agora estou voltando para casa.
— A noite está linda e quente.
Por isso saí de casa.
Gosto do cheiro das árvores e desta brisa.
Vamos nos sentar, Célia?
— Não seria melhor tomarmos um suco no bar?
Podemos nos sentar em uma daquelas mesinhas e olharmos a praça.
— Boa ideia, está calor mesmo.
Foram em direcção ao bar.
Simão estava conversando com Zeca, que tomava um refrigerante.
Elas chegaram, pediram um suco e sentaram-se.
Eles, sorrindo, cumprimentaram-nas. Célia perguntou:
— Paulina, você é daqui mesmo, não é?
— Sim, Sou daqui.
Morei aqui até terminar o primeiro grau.
Quando eu tinha quinze anos, meus pais me mandaram para São Paulo.
Fui morar com minha tia e comecei a estudar.
Arrumei um emprego como recepcionista em uma grande indústria.
Casei e, por quinze anos, fui muito feliz, até ele morrer.
Voltei para cá e estou recolhendo meus cacos.
Tenho ainda muitos para recolher.
— Que história interessante.
— Outro dia qualquer eu te conto. Hoje, não.
A noite está muito bonita e não quero ficar lembrando de coisas que só me trazem tristeza.
— Desculpe! Estou sendo indiscreta...
— Não se preocupe.
Um dia te contarei tudo.
Simão e Zeca ficaram olhando as duas conversando.
— Zeca, parece que elas estão se tornando amigas, não é?
— É sim, Simão.
Vou até lá conversar com elas.
— Vá mesmo, Zeca!
Você está precisando conversar.
— Posso me sentar e tomar parte da conversa?
— Claro que pode, Zeca!
A noite está quente, mas agradável!
Estamos aqui só jogando conversa fora.
— Sabe, Paulina, não há coisa melhor a fazer do que jogar conversa fora.
Às vezes, a gente trabalha tanto, faz tanta coisa que deixamos passar esses momentos de paz e tranquilidade!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:11 pm

— É isso mesmo!
E você, Zeca, como está?
— Estou bem! Estava observando vocês conversando.
Parece que estão se tornando amigas.
— É, estamos nos conhecendo.
Falei para a Célia que, em um lugar pequeno como este, é bom conhecermos as pessoas.
Zeca, você vai me desculpar, mas não aguento a curiosidade.
Por que um rapaz culto como você vive aqui dessa maneira?
Você não é jardineiro, basta te ouvir falando, para se notar que é uma pessoa com boa educação e, com certeza, deve ser formado.
_ Realmente sou formado, mas, agora, estou aprendendo outras coisas e pretendo me formar na vida.
Tentar entender o porquê de certas coisas acontecerem.
Para isso, nada melhor do que mexer com terra e flores.
_ Essa matéria é a mais difícil.
A vida é tão estranha!
_ Tantas coisas nos acontecem, somos levados de um lado para outro.
Acho que uma força estranha nos comanda.
Célia prestava atenção na conversa dos dois, mas pensava:
" Ele é um bonito rapaz e realmente deve ter tido uma boa educação.
Quem será?
O que estará fazendo nesta cidade?"
— E você, Célia? — perguntou Zeca — Está pensativa?
Estou prestando atenção na conversa de vocês.
A vida é realmente estranha.
Às vezes nos prega trotes, nos abandona e ficamos sem saber que caminho tomar e o que fazer.
_ Você é muito misteriosa, — Zeca disse sorrindo — mas agora parece que encontrou um caminho.
Estive te observando hoje, lá na praça.
Parece que pinta muito bem.
Não vejo a hora de ver o seu quadro pronto.
— Você gostou? Eu adoro pintar!
Quando estou pintando, me transporto para o mundo das tintas, fico viajando.
— Qualquer expressão de arte faz muito bem para o espírito.
Infelizmente, não tenho aptidão alguma para a arte.
A única coisa que sei fazer é plantar.
— Ouvindo isso, — disse Paulina — acho que também tenho uma aptidão.
Adoro tocar piano e faz muito tempo que não o toco.
Acho que vou recomeçar.
Quem sabe assim, eu consiga afastar os fantasmas que me perseguem.
Você deve tocar sim, Paulina! — disse Zeca
Os fantasmas existem, mas todos devem ser afastados.
Estou aprendendo a enfrentá-los e sinto que estou conseguindo.
_Olha o que uma conversa pode fazer!
Aqui, conversando como quem não quer nada, estamos cada um de nós, encontrando um caminho para as nossas vidas!
Você, Célia, vai pintar.
Você, Zeca, plantar, e eu, a partir de hoje, tocarei piano.
Cada um de nós, fazendo o que gosta, afastará seus fantasmas e, quem sabe um dia, voltaremos a ser felizes e a sorrir verdadeiramente!
Zeca olhou para Paulina e sorriu.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:11 pm

Depois disse:
— E você, Simão?
Qual é a sua aptidão?
— Artística?
Acho que não tenho nenhuma!
O que sei fazer é ficar ouvindo as pessoas.
E isso me faz muito bem!
— Saber ouvir também é muito importante.
Pronto! Está surgindo aqui um quarteto muito bom.
Quem sabe, através de nossas aptidões, possamos nos ajudar mutuamente.
Os quatro riram.
Realmente sentiam-se muito bem.
Uma amizade estava nascendo ali.
Quatro almas perdidas, que se encontravam, para que e por quê?
Já estava tarde.
Despediram-se e foram para suas casas, cada um envolvido por seus pensamentos.
Paulina entrou em casa.
Lá estava o seu piano.
" Meu pai o comprou quando eu tinha sete anos.
Dona Francisca me ensinou.
Todos os dias eu tocava por duas horas.
O meu sonho e o dos meus pais era que eu me tornasse uma concertista, mas o meu caminho foi outro.
Estou aqui por tanto tempo e até agora nunca abri a sua tampa, mas hoje, não sei por qual razão, estou com uma vontade imensa de tocar."
Sentou-se, abriu a tampa e começou tocar.
A música invadiu o ambiente e a sua alma.
Ela foi entregando-se e esqueceu de tudo o que havia acontecido em sua vida.
Célia entrou em casa.
Olhou a sua volta:
Tudo simples, mas tão aconchegante.
Estou realmente começando uma nova vida e com novos amigos.
Consegui ficar ao lado de outras pessoas, sem me sentir mal.
Coisa que já muito tempo não fazia.
Voltei a pintar, estou começando a entender que a vida não pára.
Acredito que descobrirei tudo.
Só assim poderei voltar a ser feliz..."
Zeca, por sua vez, também pensava.
"Falei que estou estudando a vida, mas o que é a vida?
Será que é aquela que eu tinha ou a que tenho hoje?
Por que ela muda tão de repente?
Por que parece que tudo está acabado e de repente tudo recomeça?
Estou me sentindo muito bem.
Essas duas moças que estão se tornando minhas amigas, me parecem duas pessoas boas.
Embora, talvez, carreguem problemas, assim como eu."
Simão viu cada um dos três seguindo o seu caminho e pensou:
Em se tratando de vida, ninguém sabe nada mesmo...
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:11 pm

Início de Missão
Durante aquela noite choveu.
O barulho da chuva fez com que todos dormissem com tranquilidade.
O dia amanheceu com o sol escondido entre as nuvens, mas todos sabiam que ele logo brilharia.
Para aquelas pessoas, ele, já brilhava, mas de uma forma diferente.
Eles estavam com seus corações mais leves.
Encontraram amigos, com os quais aos poucos conseguiriam falar e, quem sabe, contar seus problemas.
Zeca chegou ao bar para tomar seu café.
— Bom-dia, Simão! Parece que Paulina está mesmo se encontrando.
Passei agora por sua casa e ela está tocando piano.
Não entendo muito de música, mas o meu ouvido gostou.
Portanto posso dizer que ela toca muito bem.
— Ainda não ouvi, mas se você está dizendo acredito.
Olha lá a Célia!
Está na praça pintando a sua tela.
Temos artistas aqui na cidade e não sabíamos!
— Vou passar por lá para ver a tela.
Do jeito que ela esconde o rosto, vai ver é uma grande artista escondida aqui.
Após tomar o seu café, Zeca foi até a praça e parou perto de Célia que, distraída, pintava.
Por isso, não percebeu a sua presença.
Ele ficou parado, olhando.
A cabeça de Célia estava envolvida pelo lenço e continuava com aqueles óculos escuros, que só deixavam aparecer sua boca.
" Como será o rosto dela? — Zeca pensava enquanto a olhava.
Parece ser jovem e bonita, por que se esconde assim?
— Bom-dia, Célia.
A sua tela está ficando bonita!
— Bom-dia, Zeca.
Está mesmo. Eu adoro pintar.
Este jogo de cores me faz muito bem.
Estou muito feliz.
— Fico contente por você.
Irei agora para junto das minhas flores.
Hoje vou tratá-las melhor ainda.
Depois daquela conversa que tivemos ontem à noite, me convenci ainda mais de como elas me são importantes.
— Oi, Zeca! Oi Célia!
— Olá, Robertinho!
Está indo para a escola?
— Não, Zeca! Hoje não tem aula e achei muito bom, porque vou poder aprender a pintar com a Célia!
Ela disse que ia me ensinar!
Você vai, não vai, Célia?
— Claro que vou!
Pensei que viria só à tarde.
Por isso, não trouxe a sua tela.
Se ficar aqui, tomando conta de tudo, vou até em casa buscá-la.
— Pode ir! Eu fico aqui e não saio nem um pouquinho.
Vou pintar uma tela todinha e levar pra minha mãe ver!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:12 pm

Célia sorriu enquanto dizia:
— Não é bem assim.
Você não vai pintar uma tela todinha em um só dia!
Vai levar alguns dias, mas ficará muito boa.
— Estou indo para aquele lado, Célia, podemos ir juntos.
— Está bem, Zeca, vamos!
Saíram juntos.
Caminhavam lado a lado.
Zeca perguntou:
- Célia, não sei por que esconde o rosto, mas estou curioso para saber!
Qual é a sua idade? Parece que é jovem.
— Tenho um bom motivo para esconder o meu rosto.
Não sou velha, tenho vinte e oito anos.
Estou conhecendo você agora.
Ainda não me sinto à vontade para falar da minha vida.
Quem sabe, daqui a algum tempo, eu tenha coragem de contar tudo.
Por enquanto vamos ficar assim, está bem?
— Claro! Mas precisa entender que, assim como eu, todos estão curiosos para saber o motivo de esconder o seu rosto.
Alguns dizem que você é muito feia.
Eu não acredito, embora a beleza não esteja só no rosto.
Essa, com o tempo, termina mas, o tipo de beleza que vejo em você, não terminará nunca.
— Paulina tem razão ao dizer que você não é um simples jardineiro.
Fala muito bem e também é galanteador.
Obrigada pelo que disse, mas, por enquanto, vamos deixar como está.
Chegaram à porta da casa.
Ele se despediu com um sorriso e foi embora.
Ela entrou. Pegou a tela de Robertinho e voltou para a praça.
Ele estava rodeado de pessoas e dizendo, animado:
— Vou aprender a pintar!
Logo vou fazer uma tela igual a essa.
A Célia vai me ensinar.
Se alguém quiser pode ficar e aprender também, ela não se importa!
Célia chegou.
Todos a olharam.
Ela sorriu:
— Robertinho vai mesmo aprender.
Isso se ele tiver dom para a pintura e, se alguém mais quiser, eu posso ensinar.
Um menino olhou para ela dizendo:
— Meu nome é Maurício.
Também quero aprender.
Célia olhou para o menininho.
Um menino bonito com os cabelos pretos, olhos muito espertos e brilhantes.
— Está bem, se quiser, eu ensino.
Se vai aprender, eu não sei; mas vou tentar ensinar.
Quantos anos você tem?
— Tenho nove anos.
Minha mãe trabalha no Correio.
— Ela sabe que você está aqui?
— Sabe, o Robertinho foi avisar pra ela e pediu para deixar você me ensinar. Ela deixou.
Vai passar aqui pra me pegar.
Se você for embora antes, é para eu ir até lá no Correio.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:12 pm

— Quer dizer que Robertinho sabia que eu ia te ensinar?
— Ele sabe de tudo!
E muito inteligente!
É muito inteligente e parece conhecer a todos.
Hoje, você ficará somente olhando e, amanhã se quiser, trago uma tela e começará pintar.
Robertinho sorrindo satisfeito disse:
— Célia, eu não quero fazer esses rabiscos...
— Se quiser aprender a pintar, terá que começar com os rabiscos.
Vamos começar?
Maurício sentou-se no chão e ficou atento a tudo o que Célia ensinava para Robertinho que, devagar, pegou o pincel e seguia os movimentos que ela ia lhe ensinando.
Ao meio dia, Zeca voltou e parou novamente.
Célia estava preparando-se para ir embora. Paulina também chegou:
— Célia, sua tela está ficando muito bonita mesmo!
— Está mesmo, obrigada.
Ouvi dizer que você estava tocando piano, mas não pude ir até lá, pois agora sou professora.
— Olha, dona Paulina, o quanto já pintei!?
A Célia disse que depois de todo esse rabisco, vai aparecer uma tela muito bonita!
A senhora acha?
— Acho, sim, Robertinho.
Não entendo de pintura, mas se a Célia disse, deve ser verdade.
Vamos esperar para ver.
— Sabe, dona Paulina, a tela da Célia também era só rabiscos, mas agora está ficando bonita.
Robertinho tomou uma certa distância para ver a tela, falou:
Está ficando bonita mesmo, mas... olhando bem... a igreja está precisando ser pintada...
Eu nunca tinha prestado atenção... mas está precisando mesmo....
Olharam para a tela e para a igreja, Zeca disse:
— Eu também não tinha prestado atenção!
Está desbotada!
Na sua tela, Célia, é que dá para ver!
— É mesmo, Zeca!
Quando estava pintando, notei, mas não dei muita atenção.
— Só mesmo você, Robertinho, — Paulina disse passando a mão nos cabelos dele — que tudo sabe, poderia ter notado.
— Dona Paulina, eu sei de tudo!
Só não sei por que o padre não mandou pintar a igreja!
Vou perguntar pra ele!
— Espere, Robertinho! — disse Célia.
Para pintar uma igreja precisa de muito dinheiro.
Acho que o padre não tem.
— Não tem, Célia? Mas precisa arrumar!
A igreja não pode ficar feia desse jeito!
A minha mãe disse que a igreja é a casa de Deus!
A casa de Deus deve ser bonita!
_ Ele mora lá mesmo e em todos nós!
— Em todos nós? Como?
- Está dentro dos nossos corações.
— Assim não vale, Célia!
Ele tem que ter uma casa pra morar e essa casa tem que ser bonita!
Vou falar com o padre!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:12 pm

_ Quem sabe as pessoas não ajudem? Podemos pensar nisso.
O Prefeito também pode ajudar.
— Ora, Célia, — disse Paulina com ar de deboche.
Esse Prefeito não faz nada pela cidade.
Ele só quer fazer estradas que vão até as suas fazendas.
_ Se ele é assim, por que as pessoas votam nele?
— A sua família já está no poder há muito tempo.
Sempre que há eleição, ganham.
Todos os candidatos são da família, qualquer um que ganhe, a Prefeitura pertencerá a eles.
Isso não está certo. — Célia disse irritada.
Tem que haver alguém para derrotá-los!
Alguém que seja respeitado!
— Sabem de uma coisa, — disse Paulina.
Estou pensando em alguém! Venham comigo.
Paulina foi na frente, os outros a seguiram.
— Simão! — ela disse quando chegaram no bar.
Você viu que a igreja está precisando de pintura?
Simão foi até a porta do bar e olhou para a igreja.
— Está mesmo, Paulina!
Eu não tinha notado!
— Ninguém tinha notado, mas hoje, todos notamos depois que o Robertinho, como não poderia ser outro, a viu através da tela da Célia.
Simão, sabe por que estamos aqui?
Queremos que você seja o nosso candidato a Prefeito!
— O quê?! Eu, Prefeito?
Nunca! Vocês estão loucos?!
Nunca serei político!
Muito menos Prefeito!
— Por que não?
Você é a pessoa mais conhecida da cidade!
Seria o único em condições de competir com o Prefeito e sua família, que mandam nesta cidade há muito tempo!
— Não, Paulina.
Nunca serei político! — disse Simão irritado.
Vocês escolherão outro!
Eu não posso e nem quero!
— Com um Prefeito diferente daqueles que temos tido até hoje, a cidade e as pessoas viverão melhor!
— Não! Eu não!
— Esta cidade precisa de tanta coisa, Simão!
Essa família, já está há muito tempo no poder.
Eles não têm mais interesses sociais.
Um Prefeito diferente viria com ideias novas.
Simão respondeu jurioso, num misto de raiva e tristeza:
— Não! Não quero! Escolham outro!
Se continuarem insistindo, irei embora da cidade e não voltarei nunca mais!
— Por que está tão nervoso?
Por que não quer ser político?
Qualquer um ficaria feliz com uma proposta dessa!
— Qualquer um, menos eu! Não quero!
Nunca serei Prefeito ou qualquer outra coisa nesse sentido!
Não insistam!
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:12 pm

— Está bem, não precisa ficar tão nervoso.
Arrumaremos outro, vamos pensar.
Mas, a sua atitude é muito estranha..
— Não tem nada de estranho!
Só quero continuar assim, como estou desde que cheguei.
Com certeza existe, na cidade, alguém com muito mais qualidades do que eu.
Prometo ajudar e apoiar em tudo o que for preciso.
Desde que não seja eu!
— Está bem, não vamos mais falar sobre isso.
Até mais.
Saíram do bar.
Estavam abismados com a reacção de Simão.
Foram até a praça. Sentaram-se.
Robertinho sentou-se também. Em seguida, levantou-se e voltou para o bar.
Simão estava pensativo, com uma expressão triste no rosto.
— Seu Simão, por que está triste?
— Eu não estou triste, Robertinho.
Só estou pensando...
— Não precisa ficar triste!
Minha mãe sempre diz que tudo dá sempre certo.
Se não quer ser Prefeito, não precisa.
Vou continuar gostando do senhor do mesmo jeito.
Mas... que parece que o senhor ia ser um bom Prefeito... parece...
— Obrigado, Robertinho, mas para ser Prefeito, tem que ser primeiro político e isso não sou.
Um bom político tem que estar voltado para o bem-estar do povo e isso é difícil.
— Como sabe tudo isso?
Já foi político?
— Quem?! Eu?! Não! Nunca!
— Parece que foi e que não gostou... parece... mesmo...
— Não! Nunca fui, mas já li muito e sei que a maioria deles não cumpre o que promete e nem com suas obrigações.
— Eu ainda não entendo nada disso, mas, quando crescer, vou ser o Prefeito desta cidade!
— Acredito que vai ser mesmo! — Simão disse sorrindo.
Da maneira que conhece a todos, com certeza, quando crescer o seu eleitorado já estará pronto!
— O que é eleitorado?
Nunca ouvi falar disso...
— São as pessoas que irão votar para que você possa ser o Prefeito e são elas que, na maioria das vezes, são enganadas.
— Bom, agora que o senhor já deu uma risada vou lá, perto deles escutar o que estão falando!
Aposto que estão falando do senhor, não acha?
— Devem estar, sim, mas são meus amigos e, com certeza, esquecerão essa ideia louca de eu ser Prefeito.
Robertinho afastou-se.
Simão ficou olhando.
Meu filho poderia ser como ele e estar aqui.
Se não fossem O meu orgulho.
Ganância e desmandos..."
Robertinho se aproximou dos outros, que realmente estavam falando de Simão.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:13 pm

Quem falava agora era Célia:
— Por que será que ele ficou tão nervoso, Paulina?
— Nervoso não, Célia!
Ele ficou quase histérico!
— Poderia simplesmente dizer que não queria!
Zeca, pensativo, as interrompeu:
— Alguma coisa de muito grave deve ter acontecido para que ele ficasse daquela maneira.
— E mesmo — disse Paulina — Parece que já foi político.
— Será que ele foi?!
— Não sabemos, Célia, mas ele é nosso amigo.
Um dia talvez confie em nós o suficiente para nos contar a sua história.
Se não quer contar é porque deve ter os seus motivos.
Devemos respeitar.
Quem não tem os seus segredos, não é?
— É, Zeca... — respondeu Célia — quem não os tem...
Robertinho estava sentado no chão, escutando a conversa dos outros.
Levantou-se dizendo:
— Não adianta ficar falando do seu Simão.
Acho melhor a gente ir falar com o padre para ver se ele vai pintar a igreja!
Todos se voltaram e começaram a rir.
Você tem razão, Robertinho! — Zeca disse, enquanto passava a mão sobre os cabelos do menino.
Essa história de Prefeito deve ficar para outra hora.
As eleições estão longe.
Teremos muito tempo.
É melhor irmos falar com o padre.
Padre Jorge estava ajoelhado diante do altar quando eles chegaram.
Robertinho aproximou-se, tocou devagar em seu ombro.
Ele voltou-se e, ao ver o menino, sorriu:
— Robertinho, como vai?
Que bom que está aqui!
Faz tempo que não vem à igreja.
Posso saber por quê?
— A bênção, seu padre, é que ando muito ocupado!
Estou pintando uma linda tela!
— Não sabia que você era pintor!
— Não sabia?
Pois eu sou um grande pintor.
Quando a minha tela ficar pronta, vou trazer ela aqui prô senhor ver.
Estes são meus amigos e estão aqui para falar com o senhor.
Esta é a dona Paulina, que o senhor já conhece.
Esta é a Célia e este é o Zeca.
Eles têm uma coisa muito séria pra falar.
— Pois não, estou à disposição, qual é o assunto?
— Nós notamos que a igreja está precisando de uma pintura e queríamos saber o que o senhor acha disso?
— Bem, como é o seu nome mesmo?
— Zeca...
Pois bem, Zeca.
Eu já havia notado há muito tempo que a igreja está precisando de pintura, mas o senhor deve saber que esta cidade é muito pobre e as ofertas são pequenas.
Uma pintura, agora, seria quase impossível.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:13 pm

Além do mais, existem aqui muitas pessoas pobres que precisam de ajuda e, se eu tivesse dinheiro para pintar a igreja, naturalmente eu só o faria depois de ajudar as famílias que moram lá no Grotão.
— Padre, moro já há algum tempo na cidade e não sou muito religioso.
Nunca entrei na igreja, conheço o senhor só de passagem.
Não está interessado na pintura?
— Eu sei desde quando está aqui, Zeca.
Você não me conhece, mas eu te conheço muito bem.
No dia em que chegou, eu te vi dormindo na escada.
Durante a missa pedi aos meus poucos fiéis que, se pudessem, te ajudassem.
Quando a missa terminou, saí para falar
com você, mas não estava mais lá.
— Então foi por isso que, quando acordei, havia aquele dinheiro em minha volta?
Muito obrigado, padre!
Eu não estava mais ali, porque não comia já há muitos dias e então o Robertinho me levou até o bar do Simão, e estou aqui até hoje!
— Sei que está aqui até hoje e me parece que muito bem.
Tenho acompanhado a sua vida.
Sei que é uma pessoa querida.
— Sou sim e quero muito bem a todos.
Aqui encontrei um paraíso, por isso quero ajudar em tudo o que puder.
— Garanto a você que há muito para ser feito.
A pintura da igreja não é a minha prioridade.
Mas falaremos disso mais tarde.
Paulina, por que desde que voltou, não veio à igreja?
—Não tive vontade, estou muito triste com o seu Deus.
— Meu Deus?
O que é isso?
Ele é Deus de todos nós!
O nosso Pai!
Que está sempre ao nosso lado, nos ajudando.
_ Comigo, Ele não foi pai.
Ao contrário, foi um padrasto, e dos mais cruéis!
Posso lhe garantir!
— Não, minha filha!
Deus é sempre bom! Nós é que nem sempre sabemos entendê-lo.
- Pode ser, mas não entendi o que aconteceu comigo.
Por isso, ainda não estou com vontade de conversar com Ele.
Célia percebeu que a amiga estava ficando nervosa e que tinha que quebrar aquele clima:
— Padre, esse assunto deve ficar para outro dia.
Estou interessada na pintura da igreja e saber mais sobre esse Grotão.
— Como é o seu nome?
— Célia. Eu cheguei há pouco tempo na cidade, mas sempre frequento a sua igreja.
— Tenho te visto várias vezes, mas não veio falar comigo.
— Só hoje senti necessidade.
Primeiro pela pintura da igreja e agora por causa do Grotão.
O que é que acontece lá?
— Lá é o lado pobre da cidade.
Muitas famílias que ali vivem têm trabalho só na época da colheita das laranjas.
Durante o resto do ano passam por várias dificuldades.
Tento ajudar, mas os meus recursos são poucos.
Por isso é que, quando falaram em pintar a igreja, lembrei de todas aquela pessoas e prefiro ajudá-las, ao invés de gastar dinheiro com a pintura.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:13 pm

Se tiverem uma ideia para arrumar dinheiro, prefiro usá-lo para ajudar as pessoas do Grotão.
— O senhor tem razão.
Não sabemos como conseguir dinheiro, mas se conseguirmos, iremos discutir como será gasto.
_Foi Deus quem os iluminou!
Há muito tempo estou tentando conseguir alguém para me ajudar nesse assunto.
— Agora conseguirá.
Conversaremos e depois voltaremos.
Muito obrigado e que Deus os abençoe!
Despediram-se do padre e foram para o bar do Simão.
Robertinho entrou na frente, falando:
— Seu Simão!
O padre vai deixar gente pintar a igreja!
— Que bom, Robertinho, mas como farão isso?
— Fique quieto, menino! — Zeca disse tapando, com a mão, a boca de Robertinho.
Simão, não é nada disso.
O padre disse que a sua prioridade é ajudar as pessoas que vivem no Grotão.
Ele disse que são muito pobres.
Você já foi até lá?
— Nunca, Zeca, mas sei que é um bairro muito pobre...
— Também nunca fui até lá.
Já ouvi falar alguma coisa, mas nunca me despertou muito interesse!
E você Paulina?
—Fui lá algumas vezes, quando era criança.
Lá perto tem um pequeno rio, onde meu pai me levava para pescar.
Se não fosse pela pobreza que existe, seria um lugar muito mais bonito.
No domingo, poderíamos ir até lá conhecer.
— Eu só posso ir à tarde.
Não posso deixar o bar sozinho!
— Está bem, — disse Zeca — iremos domingo à tarde.
— Também vou, Zeca! — gritou Robertinho.
— Se sua mãe deixar, irá! Como deixar você fora? Foi quem começou tudo!
— Nossa! — disse Célia — Quando Paulina nos trouxe até aqui, saí correndo e esqueci as telas e tintas lá na praça! Célia saiu correndo, os outros a seguiram.
Ao chegarem lá, pararam e ficaram olhando.
Maurício continuava sentado perto das telas.
Ao vê-los, disse:
— Fiquei aqui tomando conta, ninguém mexeu em nada.
— Obrigada, Maurício.
Ainda bem que você ficou aqui.
Agora pegaremos tudo e amanhã, se quiser, pode vir que trarei outra tela.
— Célia disse passando a mão por sua cabeça.
— Eu quero sim!
Quero pintar igual a você!
Recolheram todo o material e foram até a casa de Célia, que os convidou para entrarem.
Zeca e Paulina não aceitaram, foram embora.
As crianças entraram e ela deu a cada um deles um copo com suco.
Beberam e também se foram.
_Tudo está mudando na minha vida.
Indo até o Grotão, talvez eu consiga descobrir alguma coisa.
Sinto que está perto o dia da minha felicidade."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:13 pm

Conhecendo o Grotão
O tempo passou.
No domingo, após o almoço, quando chegaram diante do bar, Simão já estava fechando.
Ajudaram-no a guardar as mesinhas e cadeiras.
Quando terminaram, fecharam o bar e foram para o Grotão, que ficava há vinte minutos distante da cidade.
Eles foram andando e conversando.
Robertinho ia na frente com um galho na mão, parecendo um cajado.
A estradinha era de terra, mas toda cercada por árvores.
A tarde estava agradável.
Seguiram conversando.
A amizade aos poucos foi se cristalizando.
Ao chegarem no Grotão, admiraram-se.
O lugar era realmente pobre.
As casas eram pequenas e de madeira.
A rua principal tinha muitos buracos e a água corria livre por ela, trazendo um cheiro não muito agradável.
Perceberam que não havia água encanada, só pequenos poços.
A água era tirada com um balde, preso a uma corda sobre uma roldana.
Sem luz eléctrica, as pessoas iluminavam suas casa com velas, lamparinas e lampiões.
Crianças brincavam correndo pela rua.
Homens e mulheres com suas roupas gastas e aparência doentia.
Eles andavam pela rua.
Os moradores estranharam e olhavam desconfiados.
Robertinho ia acenando com a mão e sorria para todos, no que era correspondido.
Zeca perguntou:
— Robertinho, você já esteve aqui?
— Já, venho sempre com a minha mãe.
Ela sempre traz roupas e comida.
Ela tem muita pena de todos aqui.
— Eu não sabia disso!
Você nunca contou, Robertinho!
_ O senhor é que nunca me perguntou, seu Simão.
Minha mãe falou que quando a gente ajuda alguém, não deve ficar comentando.
Ela sabe o que fala... sabe sim...
Célia sentiu uma ternura muito grande por aquele pequeno menino que às vezes falava como gente grande:
— Sua mãe tem razão, Robertinho.
Ela parece ser uma boa mulher.
É isso mesmo que tem que fazer.
Zeca lembrou do dia em que chegou à cidade:
Pode ter certeza de que é a pessoa mais humana que já conheci, Célia.
E uma grande mulher e eu a respeito muito.
Continuaram andando e observando tudo.
Robertinho parou em frente de uma casa.
Uma senhora estava sentada, penteando os cabelos de um menino que, pela aparência, parecia estar doente.
— Boa-tarde, dona Rosaura!
Estes são meus amigos, vieram conhecer o Grotão!
— Boa-tarde, Robertinho.
Sejam bem-vindos, embora aqui não tenha muita coisa bonita pra se ver.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:13 pm

Robertinho deu uma batidinha com a mão no ombro do menino doente e, olhando para os outros, disse:
— Como não?
O Paulinho é muito bonito! Não é?
Sorriram, concordando com a cabeça.
Simão perguntou:
— Dona Rosaura, o que ele tem?
Parece que está doente!
— O doutor lá do posto disse que ele está com o sangue ruim porque, desde que nasceu, eu nunca dei pra ele uma boa comida.
Disse que agora ele tem que tomar remédio, também comer muita carne, fruta e tomar leite, mas tudo isso é muito caro e não posso comprar.
Como vou poder dar tudo isso pra ele?
Não tenho dinheiro e ainda tenho mais duas crianças.
— E, minha gente, — disse Paulina — acho que o padre Jorge tem razão.
A pintura da igreja não é prioridade!
Estavam perplexos com aquela situação.
Simão não acreditava.
Aquele menino, tão bonito, naquela situação - Sentiu uma saudade imensa e um aperto no coração.
— Dona Rosaura, tenho um bar e mercearia lá na cidade.
Compro muito mantimento.
Quero que a senhora me dê uma lista de tudo o que precisa, mandarei todas as semanas a comida necessária para ele e também para seus outros filhos.
— Quanto aos remédios, pode deixar por minha conta. - continuou Paulina.
Mandarei todos que precisar.
Esse menino lindo vai ficar bom, a senhora verá.
Rosaura, com os olhos cheios de lágrimas, quis beijar as mãos deles, mas não permitiram.
— Quantas famílias vivem aqui? — perguntou Zeca.
— Não sei muito bem, mas devem ser umas trinta.
Todas estão na mesma situação.
Só ganhamos um pouco de dinheiro na colheita das laranjas, mas é apenas uma vez por ano.
— Aqui não tem só tristeza, não! — Robertinho disse ao perceber a tristeza dos amigos.
Tem um lugar muito bonito.
Vem ver! Vocês vão gostar!
Saiu correndo e os outros o seguiram.
Chegaram a um rio que seguia mansamente.
Robertinho continuou correndo até surgir diante deles uma linda cachoeira.
— Olha aqui! Alguém já viu um lugar como este?
Olharam, abismados, a beleza do lugar.
A cachoeira, com uns cinco metros de altura, caía fazendo um barulho ensurdecedor.
Em baixo, após a queda, a uns cinquenta metros, havia uma área muito grande de água quase parada, no meio de pedras formando, assim, uma espécie de piscina natural.
Dali em diante o rio corria manso.
Tudo cercado por muitas árvores coloridas.
Pássaros voavam em volta da água.
Peixes nadavam tranquilamente.
Aquilo parecia um pedaço do paraíso.
Simão olhava tudo, não podendo acreditar no que estava vendo.
Observou por um bom tempo:
O que essas pessoas precisam é de trabalho! — disse animado.
Aqui está uma fonte muito grande de recursos.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:14 pm

Os outros olharam admirados para ele, que parecia estar em outro lugar.
Parecia, também, ser outra pessoa.
— O que está querendo dizer com isso, Simão?
— Zeca! Isto aqui é uma beleza!
Pode ser tudo transformado em um lugar de lazer.
Pode ser cercado!
Lá na entrada da estrada que vem para cá, pode ser colocada uma espécie de porteira, onde as pessoas para entrar pagarão uma taxa!
Pode ser feito um estacionamento para carros!
Ao lado do estacionamento, poderão ser construídos quiosques com mesas e churrasqueiras!
Podem ser construídas várias cabines, onde as pessoas trocarão de roupas e nadarão nessa piscina formada pela natureza!
Os moradores terão trabalho, cuidando da conservação!
Com alguma reforma e muita publicidade, isto pode se transformar em uma fonte de renda para o Grotão.
Céu Dourado se transformará em uma cidade turística!
Eles iam acompanhando a descrição de Simão:
— Por essa estrada que viemos, Simão?
Os carros não conseguirão chegar até aqui!
— É só asfaltar a estrada, Zeca.
A distância da cidade não é tão grande assim.
Trinta casas, não são muitas.
Podem ser construídas e se tornarem confortáveis para os moradores!
Zeca, como os outros, estava gostando da ideia.
— Estou gostando de tudo o que está dizendo, mas e o dinheiro para tudo isso?
Estas terras devem ter dono.
— Terras em volta dos rios são mananciais.
Não podem ser usadas para moradia.
Pertencem ao Estado.
Precisamos falar com o Prefeito.
Ele poderá liberar os recursos para construir um parque balneário.
Será bom para cidade toda.
— O Prefeito? — Robertinho disse rindo.
Só se o senhor for o Prefeito, seu Simão!
E olhe gente, ele não está falando como se fosse Prefeito?
Eles riram e tiveram a mesma impressão. Simão parecia um político quando sonha em fazer alguma coisa.
— O que é isso? Já falei que não sou político!
— Tudo bem, seu Simão!
Mas se quiser fazer tudo isso que está sonhando, vai ter que ser o Prefeito, porque o meu pai falou que esse, que é Prefeito, não faz nada pela cidade.
Por isso acho que não vai gastar um tostão pra isso!
— Robertinho! — disse Célia.
Não acredito que o prefeito seja tão insensível assim!
Vamos falar com ele.
Tenho certeza de que farei com que ele entenda que será bom para a cidade e para ele também.
Será uma boa propaganda para conseguir votos na próxima eleição.
— Ele não se preocupa com votos, Célia. — Simão disse mais calmo.
Sabe que não há opositores.
— Por isso queríamos você como Prefeito, Simão.
Paulina! — disse Simão, outra vez nervoso.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 06, 2017 8:14 pm

Não serei Prefeito e nada ligado à política!
Nunca! Nunca!
— Está bem! Não precisa ficar tão nervoso.
Pessoal, vamos tentar fazer o prefeito compreender?
Quem sabe ele aceite, não é?
— Isso mesmo! — disse Zeca — Não custa nada!
Amanhã tentarei marcar uma audiência com ele.
Voltaram para a cidade.
No caminho, foram conversando sobre como poderiam transformar aquele lugar.
Sentiam-se renovados.
Em cada coração, uma nova esperança nascia.
Sabiam agora que, embora cada um tivesse passado por experiências ruins e por isso pensaram ter a vida desfeita para sempre, alguma coisa poderia ser feita por aquelas pessoas que tanto precisavam.
Isso lhes fazia muito bem.
No dia seguinte, logo pela manhã, Zeca, Paulina e Célia foram à Prefeitura marcar uma audiência com o prefeito.
Foram informados de que ele estava viajando na Europa e de que só voltaria quinze dias depois.
Saíram de lá e foram para o bar.
— Simão, por favor, — disse Zeca enquanto se sentavam — nos dê um refrigerante, está muito quente.
Temos uma péssima notícia.
Não conseguimos nada!
— Como não conseguiram nada, Zeca?
— Simão! Por favor, nos dê o refrigerante!
— Vou dar, Zeca, mas antes me diga, o que disse o Prefeito?
— Nada! Porque ele não está na Prefeitura, está viajando e só voltará daqui a quinze dias!
— Viajando?! Quinze dias?!
— Isso mesmo! Viajando!
Como se a cidade não tivesse problema algum! — Zeca disse mais nervoso ainda.
Simão serviu o refrigerante.
Outro freguês chegou e ele foi atender.
Enquanto os outros conversavam, ele ficou olhando à distância, querendo saber do que falavam.
— Estão vendo como funciona a Prefeitura?
Foi sempre assim, meu pai já reclamava.
A família tem muito dinheiro, por isso fica viajando pelo mundo todo.
Precisamos dar um jeito de arranjar alguém capaz de enfrentá-los.
Essa família está há muito tempo no poder. — Paulina falou irritada.
Eles concordaram e automaticamente olharam para Simão.
Ele percebeu, sabia que estavam conversando a seu respeito, e com certeza, era sobre aquela ideia ridícula de ser Prefeito.
Assim que atendeu o último cliente, foi para junto deles.
— E daí?! Para quando foi marcada a audiência?
— Vamos ter que esperar um pouco.
O nosso amado prefeito está viajando e, quando voltar, precisará de mais uma semana para descansar da viagem, e aí talvez nos receba.
— Paulina! Você está brincando!
— Não estou não, Simão!
É isso mesmo que ouviu!
É bom que perceba como a nossa cidade funciona.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 7:37 pm

Quem sabe mude de ideia e resolva ser o nosso Prefeito.
— Por favor, Paulina, não venha novamente com essa ideia ridícula.
Não serei prefeito, porque não sei como fazer isso!
Como não? Aquela sua ideia sobre o Grotão!
A riqueza de detalhes com que transformou um lugar imundo como aquele em um lugar maravilhoso!
A maneira como se preocupou em criar emprego para os moradores, em construir casas para dar-lhes conforto.
E uma prova de que você sabe como fazer e de que seria um bom Prefeito!
— Aquilo foi o entusiasmo de momento.
Qualquer um, vendo toda aquela miséria e depois toda aquela beleza, com certeza teria a mesma ideia.
Não precisa ser político para isso!
— Todos nós vimos a mesma coisa e nenhum teve a ideia. Só você!
Por quê? E um engenheiro?
Foi político?
_ Não! Não sou engenheiro e nem político.
Sei enxergar além.
É impossível que não tenham visto também!
— Não adianta ficarmos insistindo nisso, Paulina. — Zeca os interrompeu.
— O importante é conseguirmos fazer o que o Simão idealizou.
Precisamos falar com o Prefeito.
Como isso vai demorar, que tal começarmos a planear no papel?
Assim, quando ele chegar, já teremos um plano de acção para apresentar.
— Mas como faremos isso?
Não somos engenheiros.
— Na cidade deve ter algum. — respondeu Zeca.
— Precisamos escrever o que queremos.
Apresentaremos ao engenheiro e assim ele poderá fazer o nosso projecto.
— Não sei, — disse Paulina — me lembro que no tempo em que morava aqui, o Juarez, um amigo de infância, foi para a Capital estudar engenharia.
Não sei se voltou depois disso.
Preciso descobrir.
Vou até a casa da mãe dele e perguntar.
— Faça isso, Paulina! — disse Célia entusiasmada.
Mas nada impede que cada um de nós vá dando a ideia de como queremos que tudo seja feito.
— Creio que seria melhor falarmos com o padre antes de tomarmos qualquer atitude.
Ele conhece tudo aquilo muito bem.
Saberá se é uma boa ideia ou não!
— Paulina, você tem razão. — disse Zeca.
— Ele conhece e já deve ter tido alguma ideia.
Vamos nos juntar a ele.
Foram até a igreja.
Encontraram Robertinho, que voltava da escola e quis ir junto.
Padre Jorge estava sentado em um banco lendo.
Aproximaram-se e Célia tocou em seu ombro:
— Padre Jorge, precisamos falar com o senhor.
— Pois não, meus filhos.
Vamos até a sacristia.
Seguiu à frente e foi acompanhado por eles.
Paulina tomou a frente.
— Padre, fomos até o Grotão...
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Ave sem Ninho

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 7:37 pm

— O que viram lá?
_Vimos que o seu Deus se esqueceu daquela gente!
_ O meu Deus, que também é o seu, Paulina, não se esqueceu daquela gente, nem se esquece de ninguém...
_ De mim, com certeza, esqueceu.
Mas isso agora não importa.
O que queremos é contar ao senhor a ideia que tivemos para tomar o lugar de seu Deus e ajudar aquelas pessoas.
— Nunca poderão tomar o lugar de nosso Deus, Paulina!
Porque é assim mesmo que Ele trabalha.
Só de ouvir o modo como está falando, vejo que Deus não esqueceu daquela gente e nem de você, mas qual foi a ideia?
Zeca começou a falar, os outros queriam também.
Estavam ansiosos.
Robertinho tentava, mas não conseguia ser ouvido.
— Esqueceram de dizer que precisa fazer um parque de diversão para as crianças! — Robertinho disse, subindo nas costas de Zeca e pulando sobre seus ombros.
Todos pararam de falar.
Zeca tirou o menino de seus ombros, colocando-o em cima da mesa, dizendo:
— Não se preocupe, Robertinho!
Você também faz parte da comissão!
Vá pensando em tudo o que achar ser bom para as crianças.
Depois nos falará e veremos se dará para ser feito.
Padre Jorge agradecia a Deus por aquelas pessoas que Ele havia lhe enviado.
Há tanto tempo acompanhava a vida daquelas pessoas do Grotão.
Ajudava no que podia, mas sabia que precisavam de muito mais.
— Está bem. Sobre tudo o que falaram estou de pleno acordo.
Se conseguirmos fazer tudo isso, os problemas acabarão.
Mas como poderá ser feito?
Onde arranjaremos dinheiro?
— Simão falou que precisamos falar com o prefeito. — Zeca respondeu.
Não sabemos muito bem como funciona.
Ele disse que há necessidade de uma autorização do Prefeito e dos vereadores para que aquelas terras sejam doadas e transformadas em um ponto turístico.
O dinheiro poderá vir da Prefeitura.
— Da Prefeitura? — disse o padre desolado.
Com o Prefeito que aí está?
Vai ser muito difícil!
Já falei com ele muitas vezes a respeito do Grotão.
Ele sempre diz que não pode fazer nada, porque não tem verba.
Na realidade, não se preocupa com o povo...
— Falaremos com ele e demonstraremos que será bom para a arrecadação da cidade.
Com o turismo, ela vai se desenvolver e ele poderá dizer que foi sua ideia.
Será um herói perante o povo.
_Pode ser que, usando a vaidade dele, vocês consigam.
Já foram até a Prefeitura?
— Já, ele não está.
Foi passear pela Europa...
— É o que mais faz, Zeca, viajar.
Mas isso não tem importância.
O importante é conseguirmos fazer tudo isso que me contaram!
Será maravilhoso!
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Ave sem Ninho

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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 7:37 pm

— Conseguiremos.
Se ele não quiser ajudar, encontraremos outra maneira, mas conseguiremos!
Esta cidade me deu muito.
Preciso retribuir de alguma forma.
Se puder ser dessa maneira, ajudando a toda aquela gente, assim será...
Olharam para Zeca, que dizia essas palavras com o olhar distante, como se estivesse relembrando algo.
— Zeca, do que está lembrando? — Perguntou Paulina.
De quando cheguei e de como fui recebido por todos.
Percebeu que havia, por um momento, deixado transparecer toda a dor que havia em sua alma.
— Bem, o que passou, passou. — Zeca se recompôs e continuou falando.
Hoje, o que precisamos é nos preocupar com o presente.
E de que forma conseguiremos, certo?
Naquele momento, Célia e Paulina também lembraram-se dos seus passados.
Os olhares como o de Zeca, ficaram distantes.
Padre Jorge percebeu e disse:
— Meus filhos, não importa o passado.
Deus sempre nos mostra um caminho.
Vamos seguir na tentativa de fazer com que esse plano dê certo... de alguma forma, conseguiremos fazer tudo o que estão planeando.
Deus nos mostrará o caminho, Temos em nossos corações tristezas e sofrimentos, acções tristezas e sofrimentos, mas Ele é o Pai...
Despediram-se do padre e voltaram ao bar.
Simão atendia aos seus clientes, mas estava ansioso para saber o que tinham falado com o padre.
Contaram tudo o que o padre havia dito.
Resolveram que não tinham o que fazer antes da volta do Prefeito, a não ser, por enquanto, mandar alimentos e remédios para Rosaura.
Simão já havia preparado duas caixas que enviaria a ela através de Elias, no táxi.
Paulina lembrou que havia prometido os remédios.
— Espere, Simão.
Não mande os mantimentos ainda.
Preciso ir até a farmácia comprar os remédios para o Paulinho.
Simão concordou com a cabeça.
Ela foi até a farmácia, comprou tudo e voltou sorridente:
— Aqui estão todos os remédios prescritos na receita.
— Mandarei logo, Paulina.
Aquele menino precisa se alimentar e iniciar o tratamento.
Despediram-se. Foram para suas casas.
Estavam com o coração feliz!
Haviam encontrado um motivo para continuar a lutar.
Robertinho acompanhou Célia.
— Célia, hoje você não me ensinou a pintar...
— Hoje já está tarde, Robertinho, mas amanhã continuaremos as nossas aulas.
Avise ao Maurício para que venha também.
Beijou-o na testa e entrou em casa.
Estava feliz: A minha vida está mudando tão rapidamente!
Há pouco tempo, quando descobri a maldade que me fizeram, pensei que minha vida havia terminado, mas agora, tenho a certeza de que estou recomeçando.
Talvez não consiga consertar o meu passado, mas não importa mais.
Aquelas pessoas precisam da minha ajuda e tudo farei para ajudá-las.
Enquanto for possível, ficarei aqui na cidade.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 7:37 pm

Sinto que este é o meu caminho.
Já que não posso mais ser feliz, ao menos poderei ajudar aquela gente.
Está muito calor.
Vou tomar um banho e fazer algo para comer."
Fez isso. Depois do banho e de comer um lanche, pegou o livro que alguém lhe dera quando esteve internada.
"Naquele tempo, estava tão distante de tudo que não tive curiosidade de ler.
Hoje, estou sentindo vontade de lê-lo."
Pegou o livro na mão, olhou sua capa e leu:
O Evangelho Segundo o Espiritismo.
_ Que será que está escrito aqui?
Já ouvi falar sobre essa religião, conheço alguma coisa da Bíblia.
Quando criança ia à igreja, todos os domingos.
Mas depois que cresci, não dei muita atenção a religião alguma.
Tinha outras coisas para fazer.
Abriu o livro ao acaso.
Falava da Reencamação, através de alguns capítulos do Evangelho.
Começou a ler e assim continuou durante a tarde toda.
Estava escurecendo quando ela fechou o livro e ficou pensando:
"Estranha essa religião, mas tem algo que me convence.
Será que existe mesmo reencarnação?
É uma coisa diferente, mas se existir mesmo, haveria respostas para muitas coisas que não entendi até hoje.
Por que será que aquelas pessoas do Grotão vivem daquela maneira?
Deus não seria justo se escolhesse seus filhos e desse a cada um destinos diferentes.
Por que uns são tão pobres que não têm nem o que comer, enquanto outros têm tanto, que poderiam jogar fora e não lhes faria falta?
Por que algumas pessoas são saudáveis e outras doentes?
Por que umas têm o corpo perfeito e outras não?
Talvez a reencarnação seja uma resposta para tudo isso.
Preciso estudar mais essa religião, saber mais..."
Sentiu calor.
Foi para a praça.
Sentou-se em um banco e ficou pensando em tudo o que havia acontecido em sua vida.
Paulina olhou pela janela.
Viu Célia na praça, e foi até lá.
— Olá, Célia, está pensando na vida?
— Sim e também nas pessoas do Grotão.
Sabe, Paulina, ainda bem que gosto de pintar.
— É mesmo, e a sua tela está ficando muito boa mesmo.
Deve ser uma pintora famosa!
— Por que diz isso?
De onde tirou essa ideia?
— Porque pinta muito bem.
Não entendo muito de pintura, mas posso ver que não é nenhuma amadora.
— Gosto muito de pintar, Paulina, mas não sou profissional, é só um meio que encontrei para me distrair.
Enquanto pinto, não penso em meus problemas.
— Entendo bem o que está dizendo, comigo acontece o mesmo com o piano.
Enquanto toco, minha alma viaja.
— Estive lendo um livro hoje à tarde que me fez pensar em algumas coisas.
Estava aqui reflectindo sobre o que li.
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 07, 2017 7:38 pm

— Que livro, Célia? Adoro ler!
— Você já ouviu falar sobre Espiritismo?
_ Qual? Aquele em que as pessoas colocam coisas nas encruzilhadas e só fazem o mal?
— Não sei, mas pelo livro que li, não me pareceu ser essa!
O livro fala sobre a reencarnação e a responsabilidade que cada um de nós temos com os nossos actos.
Quem escreveu foi Allan Kardec.
— Sobre reencarnação, já ouvi falar alguma coisa, mas nunca me interessei por esse assunto.
— Ganhei este livro quando estive internada, mas até hoje nunca tive curiosidade de lê-lo.
Não sei por que, hoje ao vê-lo, abri uma página e a leitura me interessou.
Fiquei lendo por horas.
O assunto é interessante.
— Você esteve internada, Célia?
— Sim, mas não gostaria de falar sobre isso, Paulina.
— Está bem, não insistirei.
Quando confiar o bastante em mim, talvez queira me contar.
Desabafar faz muito bem.
— Talvez um dia eu te conte toda a minha vida, mas sinto que ainda não chegou a hora.
— Quando precisar desabafar, estarei aqui.
Mas, voltando ao livro.
Há muito tempo deixei de acreditar em Deus e nas religiões.
Acho que nada disso existe.
Se Deus realmente existisse, não permitiria tanta maldade, doenças e diferenças no mundo.
Já terminou de ler?
“Não, ainda não terminei.
Mas percebi que não é um livro para simplesmente ser lido.
E um livro para ser consultado sempre.
Já que você pensa assim a respeito de Deus, acho que seria bom ler!
Talvez, como eu, encontre algumas respostas!
— Estou ficando curiosa, me empresta depois que terminar de ler?
— Com certeza, agora vou embora, já está escurecendo.
— Irei com você até o seu portão.
Estou lendo um livro também, só que o meu é um romance policial.
Quando terminar, se quiser, posso te emprestar.
— Quero sim. Depois de pintar, o que mais gosto de fazer é ler.
Leio sobre todos assuntos.
Célia entrou em casa.
O livro ainda estava sobre a cama, deitou-se e voltou a ler.
_Talvez agora eu consiga entender muita coisa do que se passou na minha vida.
Amanhã irei a uma livraria na cidade e comprarei mais alguns livros que falem desse assunto.
Sinto que me farão muito bem."
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Re: A Missão De Cada Um / Elisa Masselli

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