REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:26 am

33 - OBSESSÃO DESCONHECIDA
Os pais de Isolina Faria aproximaram-se do grupo espiritista, ansiosos de curar a filha.
Desde muito, vivia a jovem sob o império de singulares manifestações.
Olhos cerrados a denunciar profunda insensibilidade na expressão fisionómica, gestos rudes, Isolina contorcia-se estranhamente e dava guarida a uma entidade ignorante e sofredora, que a tornava possessa.
O Espírito perturbado, que parecia ter-se-lhe agarrado, prorrompia então em blasfémias, lágrimas, soluços.
Lastimava-se, praguejava, acusando pessoas e envenenando circunstâncias, qual louco que força alguma conseguia deter.
Esgotados os recursos comuns, a família deliberou apelar para o Espiritismo, antes de qualquer providência para interná-la no manicómio.
Vizinhos e amigos não poupavam definições.
Aquilo deveria ser obsessão cruel.
Tanta gente não se havia curado, em trabalhos da consoladora doutrina dos Espíritos?
Por que não tentar as melhoras de Isolina mediante esses recursos?
Quando o chefe da casa se inclinou à decisão, o generoso Nolasco Borges, velho conhecido de infância, prontificou-se aos serviços iniciais.
- Sossegue, meu amigo - esclareceu ao companheiro inquieto -, em nossas reuniões a doente encontrará as melhoras precisas.
Hoje mesmo começaremos os trabalhos de doutrinação da infeliz e, a breve tempo, Isolina será restituída à saúde e à alegria a que sua mocidade tem direito.
De facto, na noite imediata, pequena caravana, Nolasco à frente, penetrava o modesto salão dos Pachecos, onde se efectuavam sessões íntimas.
O velho Araújo, doutrinador carinhoso e esclarecido, organizou a reduzida assembleia, cônscio da responsabilidade que lhe cabia.
Logo após a oração de abertura, a moça doente caía em contorções estranhas.
Palidíssima, boca espumejante, gritava dolorosamente, reproduzindo emoções da entidade desconhecida.
- Oh! meu irmão - exortava Araújo bondosamente -, por que violentas desta maneira uma pobre criança, necessitada de equilíbrio para atender aos próprios deveres?
Por quem és, meu amigo, esquece o mal e ouve a lição de Jesus.
Estamos aqui votados à prática do bem.
Somos imperfeitos, inferiores.
Tacteamos nas sombras da ignorância e não te desejamos impor ensinamentos.
Sabemos que a obra de redenção final pertence ao Mestre Divino; entretanto, creio que podemos advertir teu coração, pois aqueles que caíram como nós outros, neste mundo, estão habilitados a comentar os próprios males e evitar que outros incidam nos mesmos erros.
Por vezes, poderá parecer que somos excessivamente ousados, tentando estabelecer normas aos que vivem em esfera indevassável aos nossos olhos; contudo, este esforço obedece ao amor fraternal que Jesus abençoa.
Volta, amigo!
Abandona a tarefa ingrata de subjugarão desta jovem, que deve enriquecer-se com as experiências da vida terrestre.
Solicitamos tua boa- vontade, por amor de Deus!...
A voz do amoroso doutrinador silenciara-se ligeiramente.
Araújo, emotivo e bondoso, enxugava os olhos húmidos, enquanto a reduzida assistência permanecia sob enorme impressão.
O Espírito ignorante demonstrava aflição.
A palavra do doutrinador tocara-o profundamente, mas, como se estivesse preso a inflexíveis algemas, soluçava mais fortemente e bradava:
- Ai de mim! Não posso!... Não posso!...
- Não podes? - tornava Araújo, dedicado - quando temos vontade, Jesus nos confere o poder.
Anima-te. Por que perseverar no sofrimento do mal, quando o bem nos oferta alegrias eternas?
Levantemo-nos para Deus, edificando-nos na própria fraqueza.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:27 am

Se guardas reminiscências amargas, esconde-as de ti, desfaz-te do vinagre acumulado no coração.
Se foste ofendido, perdoa!
Se as feridas te reclamam vingança, aplica-lhes o bálsamo do amor que sabe viver da esperança em Cristo.
O corpo frágil da jovem contorcia-se violentamente, ao passo que o sofredor murmurava em pranto:
- Sou infame, desventurado!
Não posso... não posso...
As reuniões de esclarecimento prosseguiam sem alteração.
Duas vezes por semana, agrupavam-se os companheiros, repetindo-se as mesmas cenas.
Araújo não podia ser mais paciente.
Ensinava bondosamente, como quem sabe corrigir amando.
A entidade perturbadora, porém, não correspondia ao esforço senão com gritos, protestos e soluços de causar dó.
Decorridos alguns meses, a pequena assembleia começou a impacientar-se.
Tão logo se manifestava o infeliz, formavam-se pensamentos contrários à simpatia fraternal.
Na opinião da maioria, aquele Espírito requisitava punições e conselhos ásperos.
Isolina era tida como vitima infortunada nas mãos de audacioso algoz da esfera invisível.
Admirava-se a paciência do dedicado orientador das sessões, que punha em jogo todos os recursos afectivos.
Nolasco, porém, a certa altura da tarefa, não se conteve, e, depois de tumultuosa reunião, interpelou Araújo amigavelmente:
- Não julga você necessário e conveniente punir esse perseguidor implacável?
Creio tratar-se de perverso bandido das trevas.
O velho doutrinador percebeu as dúvidas que pairavam no ambiente geral e acrescentou:
- Há muito, venho lidando por compreender que cada coisa permanece no lugar que lhe é próprio.
Em nossa apreciarão fragmentária, o perturbador de Isolina é um Espírito diabólico; entretanto, é imprescindível não esquecer que as nossas definições são incompletas.
Há oito meses trabalhamos para lhe levantar as energias, sem resultados satisfatórios.
À primeira vista, estamos fracassados no serviço de socorro espiritual; mas, como firmar nosso ponto de vista neste sentido, se desconhecemos as causas profundas?
Nolasco e os demais companheiros respeitaram-lhe o parecer, mantendo-se em silêncio expressivo.
- Esgotadas nossas possibilidades de compreensão - prosseguiu o amorável velhinho -, não será justo apelar para o Plano Superior?
Nós que desejamos socorrer, precisamos igualmente ser socorridos.
Peçamos a Melânio, amoroso guia de nossos trabalhos, que se pronuncie.
É possível que a sua bondade fraterna nos conceda a chave do enigma.
Ninguém discordou da criteriosa sugestão.
Na noite seguinte, a reunião em casa dos Pachecos foi mais íntima.
Acorreu Melânio gentilmente e, depois de recomendar a cessação temporária dos trabalhos de doutrinação, prometeu chamar o obsessor a esclarecimentos.
Examinaria o caso com atenção, a fim de tentar providências justas.
Em seguida, voltaria a notificar os irmãos relativamente às tarefas que se impunham.
Dias decorreram antes que o emissário regressasse com as instruções espirituais.
Após três semanas de expectativa, em sessão comum do agrupamento, eis que Melânio se manifesta, e, depois das carinhosas saudações usuais, discorre, bondosamente, com surpresa geral:
- Quanto ao caso da irmã Isolina Faria, devo esclarecer preliminarmente que os aprendizes da Terra conhecem a obsessão somente em sentido unilateral.
O infeliz perturbador, que atende pelo nome de Juliano Portela, de sua última existência terrena, não foi encontrado facilmente.
Precisei reunir-me a companheiros da Espiritualidade, a fim de chamá-lo a explicações directas.
Tendes, nas vossas sessões, a presença do enfermo encarnado, ao passo que, nas nossas, examinamos os doentes invisíveis a vós outros.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:27 am

Entreguei-me à solução do assunto, com a maior boa-vontade; entretanto, o perturbador de Isolina queixa-se amargamente do assedio que experimenta, na esfera em que se encontra.
Declara-se perseguido, atormentado por ela.
Não tem paz, nem rumo certo.
A mente da jovem, com o seu grande poder magnético, requisita-o em toda parte.
O pobrezinho não consegue progredir, nem furtar-se ao ambiente de inquietação a que ela o sujeita.
Se ao vosso olhar permanece a nossa amiga assediada, à nossa vista surge o infortunado Juliano em terrível desespero do coração, como quem se sente prisioneiro de garras inflexíveis.
Diante do que observamos, o verdadeiro obsessor é a médium obstinada.
A vigorosa potencialidade magnética de Isolina é a gaiola, e Juliano o pássaro cativo.
É preciso restabelecer o equilíbrio da verdadeira situação.
Tanto existem perseguidores na esfera invisível, quanto nos círculos de vossa actividade comum.
Aclarai o próprio espírito, amigos meus.
Expulsemos a sombra de nossa região interior.
Desencarnados e encarnados não significamos duas grandes raças diferentes e irreconciliáveis.
Todos somos semelhantes na vida eterna, com as mesmas possibilidades, deveres e obrigações.
Nos dramas pungentes dos obsidiados, lembrai que, se na justiça humana não ocorrem processos absolutamente iguais nos detalhes, no resgate divino cada situação apresenta característicos diferentes.
Guardai o brilho do cristal e reflectireis a luz na sua pureza; retende o mel do bem e as abelhas da sabedoria cercar-vos-ão as pétalas interiores!...
Melânio calara-se enquanto a assembleia chorava comovida.
O bondoso Araújo agradeceu com lágrimas de alegria:
- Obrigado, meu irmão!
O mensageiro orou ainda, emocionadamente, e declarou ao despedir-se:
- Em vista do que observamos, queridos companheiros não bastará espantar as moscas do mal.
É indispensável, antes de tudo, curar as feridas da imperfeição.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:27 am

34 - A CONSELHEIRA INVIGILANTE
Á frente da amiga alarmada, Dona Deodata Chagas prosseguiu aconselhando:
- Não deves proceder levianamente.
É necessário aprender a tolerância, minha irmã.
Ignoras, acaso, os princípios da nossa consoladora doutrina?
Quantas criaturas se perdem diariamente, por ignorância das verdades que Jesus nos confia?
- Mas - perguntava a interpelada timidamente -, e meu martírio doméstico?
Será justo suportar a perseguição de pessoas sem consciência? Meu marido parece olvidar comezinhos deveres do homem de bem.
- E por que não perdoar ao pobrezinho? - atalhava a outra, firme e resoluta.
Não dês ouvidos a intrigas, nem te detenhas na observação do mal, ainda mesmo quando se positivem as tuas desconfianças.
Lembra o perdão evangélico, minha boa Cacilda.
Esquece a infelicidade dos espíritos inferiores que te não podem compreender.
Além disso, convém não esqueceres que o ciúme é o monstro
insaciável.
Foge-lhe às garras enquanto é tempo.
Afinal de contas, a esposa e mãe precisa fortaleza e serenidade.
A ouvinte enxugava o pranto copioso, mostrava-se mais calma e despedia-se resignada, recebendo novos apelos da amiga solícita.
Deodata Chagas era sempre assim.
Dona de maravilhosos recursos verbais, tinha imensa facilidade para dar conselhos.
Ninguém conseguia ausentar-se de sua porta, sem um punhado de exortações.
Era interessante observar, porém, que seu espírito se revelava sumamente despreocupado do próprio lar.
Os filhos menores viviam habitualmente à gandaia, sem qualquer expressão de vigilância materna.
A progenitora nunca examinou o problema dos seus costumes, conversações e companhias.
O esposo, Edmundo Chagas, homem do comércio, chegava a casa a horas determinadas, durante o dia; mas, não raro, ao almoço, Dona Deodata permanecia na sala de visitas a esboçar orientações para as amigas desesperadas.
- Germana, não posso compreender-te a exaltação descabida.
Não te deixes dominar tanto assim.
- E os filhos, Deodata? - inquiria Dona Germana, olhos inchados de chorar.
São eles o motivo de meus sofrimentos invariáveis.
Nos tempos de hoje, raríssimos consideram deveres, poucos se dispõem a obedecer.
- Entendo-te - replicava a conselheira, revelando forte interesse -, entretanto, é imprescindível renovar energias próprias.
Ninguém se entregará à dor sem prejuízos graves.
Reanima-te! Que é isso?
Enquanto a amiga soluçava, prosseguia traçando directrizes, demonstrando valor e superioridade:
- E a fé? Onde colocaste os ensinamentos recebidos?
O chefe da casa, após consultar a mesa deserta, onde se não reconhecia o mínimo sinal de almoço, observava, neurasténico, o colóquio amistoso da sala, enterrava o chapéu na cabeça e voltava à rua, encaminhando-se à pensão da esquina próxima.
Somente muito depois, erguia-se Deodata para atender às crianças famintas.
A noite, frequentemente, de regresso ao lar, ansioso de aconchego doméstico, o chefe da família encontrava a mesma cena, embora a modificação de personagens.
A esposa continuava aconselhando:
- Dona Lisota, a vida pede a sua compreensão e boa-vontade.
Desaprovo a sua atitude de inconformação aos desígnios do Eterno.
Dessa vez, era uma velhinha de cabelos brancos que considerava, chorando:
- Nunca esperei, no entanto, por isto... meu único amigo morreu.
Os filhos desprezaram-me, os parentes relegaram-me ao abandono!...
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:27 am

- Todavia - exclamava Deodata sempre disposta a ensinar - é preciso revelar coragem na luta.
Guarde intacta a sua confiança em Deus. Tenha fé.
É indispensável atender à vontade superior e não à nossa. Presentemente, não posso concordar com seu modo de agir.
Enquanto a anciã fazia o possível por levantar-se do abatimento doloroso, a conselheira rematava:
- E a fé, minha amiga?
Onde coloca você tão imenso tesouro?
Já pensou nisso?
O crente não deve respirar outra atmosfera que não seja a do optimismo sadio e franco.
Edmundo relanceava o olhar pelo interior, reconhecendo a inutilidade de qualquer chamamento afectivo.
A companheira tornara o hábito de aconselhar, qual se fora venenoso excesso do espírito, tal a insistência com que desejava regenerar pessoas, reavivar as forças alheias, consertar o mundo, enfim.
Muitas vezes, tentara arrancá-la de semelhante situação, mas todo o esforço redundara inútil.
Mergulhado em amargas reflexões, Edmundo percebia que os rapazes se entregavam a terríveis disputas na copa e, desanimado, entristecido, tornava à rua sem esperança.
Aos poucos, adquiriu o costume de beber, coisa que nunca lhe ocorrera em tempo algum.
Sem forças para corrigir o desentendimento da companheira, sufocava no copo as desditas do coração.
Dona Deodata parecia não perceber o curso dos acontecimentos e mantinha a mesma atitude mental.
Almas desesperadas, ociosas e viciosas, batiam-lhe à porta em onda crescente.
- Por que tão grandes demonstrações de amargura? - exclamava para a inquieta visitante de bairro longínquo.
Não posso justificar o teu desânimo.
A interpelada, revelando os profundos padecimentos que lhe roíam a alma, observava aflita:
- Quando o marido nos abandona, tudo parece escuro em nossos caminhos.
A senhora é feliz, Dona Deodata.
Nunca experimentou sofrimento igual a este.
Não posso conformar-me com a separação!...
É preciso, porém, perdoar e ser forte - interpunha a conselheira, imperturbável -, estamos neste mundo para testemunhar espiritualidade na procura de Deus.
Pareces demasiadamente enfraquecida no trabalho comum. Levanta o ânimo.
Resiste! Não te deixes levar por arremedos de tempestade.
Despedia-se a infeliz, reconhecidamente.
Chegou, entretanto, o momento em que Deodata Chagas deveria tomar conhecimento da sua própria situação.
Depois de alguns dias, nos quais supunha o marido em viagem de serviço, veio a saber que Edmundo montara nova casa em bairro distante.
O álcool trouxera-lhe o olvido de obrigações sagradas.
O bar incumbira-se de conduzi-lo a relações diferentes, e, com a embriaguez dos sentidos, veio a embriaguez dos sentimentos.
A senhora Chagas, contudo, sempre eficiente na orientação dos outros, recebeu a noticia sem ocultar a mágoa imensa.
Aquela alma tão forte e tão clara, que sabia traçar os caminhos alheios, semelhava-se agora a um lago turvo, em face das pedras da tempestade e das rajadas do vento.
Humilhada, chorosa, procurou os filhos para torná-los participes da sua profunda revolta; entretanto, encontrou neles as mais ásperas observações.
Alguns estavam dispostos a seguir, sem hesitação, para a nova casa paterna.
Inconformada, a pobre senhora buscou os recursos da justiça do mundo, mas, a cada passo, encontrava a ironia, o desprezo, o desconhecimento deliberado de sua dor.
Incapaz de manter a resistência necessária, surda agora aos apelos que as amigas lhe traziam ao espírito desalentado, Deodata recolheu-se ao leito, dominada de traumatismo singular, que lhe envenenou o organismo para sempre.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:28 am

Depois de três anos de reclusão, entre meditações e lágrimas, voltou novamente ao plano espiritual.
Com surpresa, todavia, experimentava o mesmo abatimento e desolação.
Embora atendida por dedicados enfermeiros da esfera invisível aos olhos mortais, a desencarnada, por muito tempo, permaneceu enleada no fundo obscuro de suas impressões de amargura e revolta íntima.
Chegou, porém, o instante em que conseguiu lobrigar o vulto de um daqueles emissários do bem, que lhe balsamizavam o coração.
Extenuada de angústia no conflito consigo mesma, a pobre criatura ajoelhou-se e rogou ansiosa:
- Oh! mensageiro de Deus, explicai-me por piedade a razão de minhas enormes desditas.
Sinto-me cansada, oprimida...
Por que a dolorosa tragédia que me destruiu o destino cheio de esperanças?
O benfeitor contemplou-a com expressão fraternal e elucidou amorosamente:
- O drama infeliz da tua última experiência na Terra é o das almas que transportam a luz por fora do coração.
Os que ensinam sem aprender, e aconselham sem praticar, são também filhos pródigos na Casa do Pai.
Dissipam tesouros espirituais sem cogitar das necessidades próprias e acordam, mais cedo ou mais tarde, com a miséria e o desconforto.
Deodata compreendeu o alcance profundo daquelas palavras, mas, desejosa de lavar a culpa, objectou:
- Será, então, erro grave ensinar o caminho aos outros?
E Jesus?
Não trabalhou o Mestre no mundo por traçar directrizes ao homem sofredor?
O amigo espiritual contemplou-a afectuosamente e respondeu:
- Jesus indicou a estrada e seguiu-a; pregou a fé e viveu-a; induziu discípulos e companheiros à coragem e demonstrou-a em si mesmo; difundiu a lição do amor, entregando-se amorosamente a cada um, expôs a necessidade do sacrifício pessoal e sacrificou-se; exaltou a beleza do verbo dar e deu sem recompensa; engrandeceu a confiança no Pai e foi fiel até o fim.
A esposa de Edmundo estava perplexa.
E, quando se esforçou por emitir observação nova, o sábio instrutor sorriu carinhosamente e concluiu:
- Renova o padrão de esperança em Jesus - Cristo e não argumentes com a verdade.
O campo continua repleto de trabalho e continuamos ricos de possibilidades.
Realmente, não constitui erro o indicar o caminho ao que se desviou, porque o benefício é sempre um tesouro para quem o recebe com sabedoria; mas, quanto a nós mesmos, é sempre perigoso aconselhar os outros antes de havermos aconselhado a nós próprios.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:28 am

35 - PROSELITISMO DE ARRASTAMENTO
Virgulino Rocha era médium de qualidades apreciáveis no serviço do bem, no entanto, não conseguia furtar-se à preocupação de insistir com os amigos para que lhe seguissem os passos na interpretação religiosa.
Na oficina do ganha-pão, era trabalhador correctíssimo, considerando o carácter sagrado de suas responsabilidades e obrigações, mas, na vida comum, discutia a mais não poder, no intuito de intensificar o proselitismo.
Quando surgiam conhecimentos novos, nas actividades diárias, revelava imediatamente a posição extremista.
Tratava-se de alguém com opinião igual à dele, em matéria de fé?
Estava disposto a todos os favores.
Caso contrário, porém, Virgulino se retraía.
Não odiava, mas também não dispensava às novas relações o menor interesse fraternal.
Em se aproximando de alguém estranho aos seus pontos de vista, deixava-se dominar firmemente pelo espírito de discussão e disputa.
Nesse capítulo, não esclarecia, nem convidava.
Preferia arrastar, Em vão os amigos espirituais ofereciam-lhe novas directrizes.
Por vezes, contra todas as suas expectativas, o orientador invisível tornava- lhe a mão e escrevia sem rebuços:
« Virgulino, meu amigo, cada árvore tem condições diferentes para produzir.
No que se refere à fé religiosa, procede à maneira do agricultor inteligente.
Fornece adubos, protege as plantas tenras, não olvides a irrigação, mas não exijas fruto antes da época adequada.
Será justo insistamos pela obtenção de pêssegos, de um pessegueiro mirrado, em terrenos desertos?
Antes da colheita substanciosa e perfumada, não será razoável ministrar à planta elementos de vida, concedendo-se-lhe tempo indispensável, a fim de que se verifique a produção?
Recebia o médium a mensagem sem esconder a própria admiração e inquiria naturalmente:
- Como pode ser isso?
Replicava a entidade generosa:
« O nobre cumprimento do dever com Jesus e com os homens é a melhor pregação.
O discípulo que execute semelhante programa é o cultivador previdente e amigo da Natureza.»
- Mas o Divino Mestre - observava Virgulino, contrafeito -, no próprio Evangelho, não determina que se deve pregar as verdades do Céu a todas as criaturas?
« Sim - tornava o benfeitor amorável -, mas o Cristo expôs o ensinamento sem violentar a ninguém, convidou ao banquete da Boa-Nova, mas não arrastou a quem quer que fosse.
Além disso, deixou bem claro que a prédica eficiente não é problema de palavras apenas e sim de exemplificação.
O aprendiz leal do Evangelho é uma carta viva do Mestre.
Todos poderão ler-lhe os caracteres e afeiçoar a experiência própria pelo padrão da conduta dele.
Por isso mesmo, o homem honesto e trabalhador, em todos os gestos do dia, está pregando a criaturas que o vêem.»
O companheiro inquieto anotava ligeiramente as considerações recebidas, mas, certa vez, quando os conselhos se repetiam, Virgulino acentuou:
- Afinal de contas, não sei como proceder.
Sinto-me animado das melhores intenções.
Se encontrasse uma lição mais explícita ao menos...
O bondoso amigo espiritual não o deixou terminar e traçou no papel levemente:
- «Tê-la-ás.»
O médium manifestou estranheza, em face da resposta lacónica e continuou nos mesmos hábitos, sem emprestar maior atenção ao prometido.
Passou um ano e as observações criteriosas não se repetiram.
Em razão disso, o nosso amigo prosseguia mais ardoroso no trabalho de arrastamento ao proselitismo doutrinário.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:28 am

Os antigos conselhos já estavam quase integralmente esquecidos, quando Virgulino conseguiu o que representava para ele uma vitória de apreciável importância.
O Jerónimo Castro, seu vizinho, com quem discutira durante dez anos, rendera-se-lhe às opiniões.
A cura dum garoto doente inclinara-o ao Espiritismo, afinal.
E o antigo companheiro, seguido da mulher e nove filhos, colocou-se à inteira disposição do médium, para o que desse e viesse, submetendo-se-lhe completamente aos pontos de vista.
Virgulino não cabia em si de contentamento.
Humilde operário em cidade grande, cooperando no seu grupo de realizações doutrinárias, ao lado de outros inúmeros trabalhadores, não saboreara ainda alegria igual àquela, trazendo às suas ideias mais de dez pessoas de uma só vez.
Não pudera perceber que semelhante satisfação era fogo-fátuo de vaidade mal dissimulada, e que o triunfo fictício era somente agravo de responsabilidades na bagagem de deveres a lhe pesarem nos ombros.
Incapaz de compreender o
que reputava agradável sucesso, dava largas ao júbilo infantil e comentava:
- Ah! o Jerónimo, vocês hão-de ver.
A Doutrina efectuou notável conquista.
Recordemos que por trás de sua figura existe enorme bloco de criaturas a considerar. Os filhos, os parentes todos, enfim, serão chamados à luz da verdade e do bem!
E as esperanças lhe brilhavam nos olhos claros e ingénuos.
Em breve tempo, contudo, a realidade surgia diversamente.
Jerónimo Castro e os seus não se interessaram pelos ensinamentos que a Doutrina lhes oferecia, qual manancial abundante e inestancável.
Em vão, Virgulino Rocha trazia livros, anotações e esclarecimentos.
Os neófitos não queriam saber senão de vantagens.
Não desejavam certificar-se de que haviam chegado à zona espiritual de trabalho e realização pelo esforço individual, apenas saboreavam gostosamente a perspectiva de haverem encontrado Guias invisíveis para a solução de todos os problemas do caminho humano.
À noite, quando o médium visitava a família, a conversação era quase sempre a mesma:
- Jerónimo - indagava Virgulino, curioso -, leu você aquelas apreciações evangélicas que mandei?
- Ainda não consegui - esclarecia o vizinho -, não posso saber o que ocorre.
Tão logo tomo a leitura, sobrevém o sono imediatamente. As letras baralham-se diante dos meus olhos e as pálpebras se fecham, sem que eu possa atinar com a causa.
Um verdadeiro fenómeno!
A essa altura, a esposa intervinha:
- Estou convicta de que se trata de influenciarão dos maus Espíritos. Jerónimo não era assim.
Antes das noções espiritistas, estava bem disposto para divertir-se, sem esquecer o cinema e o teatro.
Mas agora...
E antes que a mulher terminasse, voltava Jerónimo exibindo expressão de vítima:
- São coisas da vida!...
Virgulino compreendia bem a ausência de atenção sincera e, tentando imprimir novo aspecto ao quadro de impressões, perguntava, afectuoso, à dona da casa:
- E a senhora, Dona Ernestina? qual é a sua opinião referente à leitura?
- Oh! quem me dera tempo ao menos para rezar - respondia a interpelada, evidenciando dificuldades íntimas -, quanto mais para ler!
Então o senhor julga que a casa me concede ocasião?
Quando não é a cozinha que me requisita, é a sala que me pede atenção.
Dum lado, está Jerónimo cheio de exigências; do outro, os meninos cheios de caprichos.
Ah! estes pirralhos!... quanto sofrem as mães neste mundo! já não sei como resistir.
E cruzava os braços, dando mostras de esgotamento.
Ante a paisagem sentimental, repleta de sombras e obstáculos, com desapontamento ensaiava o médium outro género de conversação.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:28 am

Comentavam-se as notas do dia.
Todos haviam lido os jornais.
As crianças aproximavam-se.
Estavam a par do suicídio na vizinhança, do crime que se verificara no bairro, relacionavam amarguras de famílias diversas.
Conheciam detalhes ignorados do repórter sagaz.
A palestra vibrava.
Nem Jerónimo sentia sono, nem Dona Ernestina experimentava angústia de tempo.
E Virgulino, computando a bagagem de suas boas intenções, retirava-se entristecido.
A situação, todavia, apresentava complicações crescentes.
Na residência dos Castros, Espiritismo era recurso para aplicações de menor esforço.
Guardava-se mesmo a impressão de que a família vagava em plano de profunda indiferença, no que dizia respeito à fé religiosa.
Se um filho se tornava desatento, pela ausência de governo doméstico, chamavam o Virgulino; se Jerónimo atritava com os chefes de serviço pela própria ociosidade, buscavam o Virgulino; se uma das jovens da casa se excedia nas festas sociais, recorriam ao Virgulino.
O médium não ocultava o doloroso abatimento.
Não se passava um dia sequer, sem que os supostos convertidos apresentassem indagações intempestivas e inconvenientes, Dona Ernestina queria conhecer a intenção dos noivos que surgiam para as filhas, esclarecer intrigas da vizinhança, assinalar as pessoas defeituosas que lhe frequentavam o ambiente doméstico, enquanto Jerónimo se interessava pelas promoções fáceis, pelos favores da sorte e condescendência dos seus chefes de serviço.
De quando em quando, reclamavam do Rocha certas explicações, como se Virgulino fosse obrigado a se responsabilizar por todos os assuntos e questões da família.
Por que o Espiritismo era doutrina tão perseguida das demais confissões religiosas?
Por que se restringia às reuniões, sem espectáculos para demonstrações públicas?
Segundo os Castros, as procissões e outros ajuntamentos populares faziam falta.
Via-se o médium em apuros na elucidação daqueles Espíritos preguiçosos.
Decorreram quatro anos.
A situação, entretanto, piorava gradativamente.
Jerónimo e os seus começaram a buscar Virgulino em sua oficina de trabalho.
- Agora, não posso - explicava-se o rapaz muito pálido, tentando desenvencilhar-se.
- Oh! não foi o senhor quem nos levou para a Doutrina? - interrogava a jovem mais inquieta.
E lá se ia o nosso amigo para actividades mediúnicas sem propósito sério.
Finalmente, certo dia, o chefe imediato de trabalho chamou-o, com bondade, para admoestação justa:
- Virgulino - disse, em tom grave -, sempre estimei em você o auxiliar competente e honesto.
Jamais interferi nas crenças religiosas de meus subordinados, mas a sua ficha de serviço vem sendo prejudicada pelas saídas sem justificação.
Desde muitos meses, suas obrigações passaram a ser olvidadas, na maior parte do dia.
Acredito chegado o tempo do reajuste.
Sempre ensinei a todos que esta é uma casa de trabalho e realização.
O médium baixou os olhos, envergonhado, e respondeu tímido:
- O senhor tem razão.
Nessa noite chegou a casa, humilde, trancou-se no quarto e chorou, em longo desabafo.
Implorou sincera mente o socorro dos amigos espirituais.
Foi quando reapareceu o antigo benfeitor invisível, exclamando:
- Por que choras, meu amigo?
Cada qual recebe o que pede.
Não desejavas uma lição prática?
Respondeu o médium, mentalmente, em lágrimas:
- Sempre fiz a propaganda da Verdade com sincera intenção de fazer o bem.
- Sim, Virgulino - voltava a dizer a amorosa entidade -, ensinar exemplificando é seguir os passos do Cristo, mas arrastar é perigoso.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 19, 2017 9:29 am

Além disso, Nosso Pai Celestial concedeu pés a todos os homens.
Não será indispensável que cada um caminhe por si mesmo?
Quem espalha a verdade, amando como Jesus amou, edifica na vida eterna; mas quem arrasta uma criatura suportará naturalmente a carga pesada.
Continua adubando e amparando as plantas que vicejam nos teus caminhos, mas não cometas o disparate de arrancá-las com violência!...
No dia seguinte, muito cedo, antes que Jerónimo se dirigisse à repartição, Virgulino bateu à porta dos Castros e, valendo-se do ensejo que reunia a família para o café matinal, explicou resoluto, em voz muito firme:
- Meus amigos, venho solicitar-lhes grande favor.
Não me procurem, doravante, na oficina do meu ganha-pão. Tenho ordens terminantes para não relaxar o serviço.
E antes que os ouvintes voltassem a si do espanto enorme, prosseguiu serenamente:
Não é só isso.
Valho-me da oportunidade para apresentar-lhes minhas despedidas.
Circunstâncias imperiosas obrigam-me a transferir a residência.
- Que é isso, homem? - respondeu Jerónimo, pasmado - não podemos dispensar-lhe a companhia.
- Não é possível! - exclamava a filha mais velha - que será de nós todos doravante?
Não foi o senhor quem nos levou para a doutrina dos Espíritos?
O médium não se deixou impressionar e esclareceu:
- Desfaçamos equívocos enquanto é tempo.
Não precisam manter determinadas atitudes religiosas tão-somente para meu agrado.
São livres para o caminho que melhor lhes pareça.
Quanto a mim, devo conhecer minhas próprias necessidades.
E nunca devemos esquecer que todos precisamos união cada vez mais intensa com o Cristo.
Ele, sim, é a nossa companhia indispensável.
- Entretanto, são mais de quinze anos de vizinhança e convivência - aventurou Dona Ernestina, chorosa -, então isso não se levará em conta?
- Deus opera a mudança para o bem - esclareceu o visitante ao sopro de elevada inspiração.
E antes que os Castros acordassem do assombro, o vizinho esboçou um gesto de adeus e concluiu:
- Não tenho tempo a perder. Jesus os abençoe.
E depois de longas correrias pelos subúrbios, Virgulino Rocha contratou a cooperação de vários veículos de transporte e lá se foi com a família para os confins de Cascadura.

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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