REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 9:28 am

De facto, sem despender maior esforço, descemos a uma região de sombras muito espessas.
Assemelhava-se, antes de tudo, a uma grande caverna pestilenta e húmida, como deveriam ser os calabouços da Idade Média.
Viam-se ali criaturas estiradas, em gemidos lancinantes.
Conservando-se a distância, Rogério exortou-me a permanecer em sua companhia e enviou alguns auxiliares em busca do desventurado Tomasino.
O infeliz aproximou-se, de rastros.
Parecia um monstro, tal a desfiguração pelo sofrimento.
Observando os fluidos luminosos que envolviam Rogério a esperá-la, mísero supôs que defrontava um dos mais altos emissários de Deus.
Enganado ainda pelas falsas concepções da Terra, começou a chorar, convulsivamente, acreditando que o Altíssimo lhe dispensava honrosas deferências, como se fora um herói esquecido, em revisão de processo.
- Anjo celeste - murmurou prostrando-se ante Rogério - eu sabia que Deus me faria justiça.
Fui um infortunado na Terra, vaguei como cão sem dono entre aqueles que desfrutavam o banquete da vida humana; atravessei a existência incompreendido e aqui estou, em abandono, em pavorosa caverna de martírios, aguardando a Providência Divina...
As lágrimas caiam-lhe em suprema desesperação.
O interpelado, porém, mantinha-se em serenidade impassível e disse-lhe com firmeza :
- Tomasino, esquece o vício da queixa.
Não sou um anjo celestial, sou teu irmão no mesmo caminho evolutivo.
Não vim até aqui para arquivar as tuas lamentações, mas para sugerir-te calma e boa-vontade, atendendo a muitas rogativas dos que se interessam por ti.
Não consta, no plano espiritual mais elevado, que hajas sido tão infeliz e sim que sempre foste rebelde aos alvitres divinos, quanto preguiçoso nas realizações para a vida eterna.
O suicida experimentou indisfarçável surpresa.
Esperava que todos os emissários do mundo superior fossem portadores de uma doçura de mel.
Viciado como criança caprichosa e exigente, não entendia a bondade fora dos prismas da ternura.
Assustado, Tomasino assumiu atitude diversa.
- Venho para ser útil às tuas necessidades presentes - continuou Rogério sem emoção - prestando-te este ou aquele informe que julgues necessário ao soerguimento do teu espírito.
Via-se que o choque fora benéfico a Tomasino.
Começando a compreender que a responsabilidade não dispensa a energia, fazia esforços para esquecer as velhas lamúrias e enveredar por expressões sérias, condizentes com a sua posição espiritual.
- Desejaria receber notícias de meus filhos! - disse num gesto mais digno.
- Todos realizam as suas tarefas satisfatoriamente - esclareceu Rogério, delicado.
Como deves saber, as obras de Deus não sofrem solução de continuidade, porque este ou aquele dos trabalhadores delibere escapar aos compromissos assumidos.
Teus filhos são homens de bem, úteis à sociedade de que são parte integrante e activa; tuas filhas, nos dias que correm, são mães devotadas e generosas.
Eles confiavam em ti, quando não possuías nenhuma parcela de confiança em ti mesmo.
E porque hajas fugido ao lar, desamparando-os, nunca te esqueceram nas intercessões amorosas.
- Infeliz que fui! - exclamou o suicida com acento amarguroso.
- Devias afirmar, antes de tudo, que foste tolo!
Extremamente desapontado, Tomasino quis desviar o assunto e interrogou:
- Creio que tendes poder para auxiliar-me.
Que devo fazer para melhorar esta situação?
Sinto a cabeça tonta, sem direcção...
Desejaria, pelo menos, alcançar um tantinho de saúde...
- Perguntaste bem - disse-lhe o meu amigo - esse desejo evidencia as tuas melhoras espirituais.
O que te poderá restaurar a saúde e o equilíbrio é a nova aplicação de terra.
- Aplicação de terra? - revidou Tomasino assombrado.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 9:28 am

- Sim, terás de ser revestido, novamente, de um corpo terrestre.
No Planeta encontrarás o remédio para teus males.
Despedaçaste o crânio e voltarás a exibir, no mundo, o crânio despedaçado.
Não te faltará a medicação...
- Medicação?
- Perfeitamente - esclareceu Rogério - o idiotismo, a loucura, o desequilíbrio nervoso...
- São doenças - atalhou o suicida prontamente.
- É verdade, Tomasino, os seres terrenos ainda não compreenderam; mas, enquanto curam as enfermidades, acabam curados por elas.
Aceitas, pois, o remédio do porvir?
Reconhecia-se o pavor do infeliz, em face da indicação, mas, ao cabo de longos minutos de meditação, murmurou humilhado:
- Aceito... Quando deverei voltar?
- Quando nossa irmã Olinda estiver em condições de te receber nos braços maternos.
O suicida compreendeu e entrou em profundo silêncio.
Daí a instantes, era novamente recolhido ao seu cárcere de dor.
Acerquei-me, então, de Rogério, admirado.
Meu amigo trazia agora os olhos húmidos, revelando enorme piedade e comoção.
Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, tomou-me delicadamente o braço e murmurou compungido:
- Imensa é a tragédia dos Espíritos sofredores.
Mas, no auxílio efectivo, é indispensável considerar que cada doente reclama o seu remédio.
A maioria dos suicidas requisita a dureza e a ironia para que possa entender a verdade.
Até que se verifique a próxima experiência terrestre, Tomasino Pereira estudará sinceramente a própria situação e não se queixará mais...
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 9:29 am

10 - O INVESTIGADOR INCONSCIENTE
O velho operário, em companhia da filha, identificou a placa brilhante no saguão do enorme edifício e galgou a escada, de olhos serenos e confiantes.
Depois de bater respeitosamente à porta, atendido por distinto cavalheiro, apresentou a jovem enferma e explicou:
- Doutor, minha filha há muito vem apresentando sintomas perturbadores.
Frequentemente apresenta-se tomada por forças estranhas, absolutamente incompreensíveis.
Parece alucinada e, no entanto, patenteia o dom da adivinhação, com elementos irrefutáveis.
Uma carta, um cofre fechado, não lhe oferecem segredos.
Já procuramos ouvir alguns médicos, que, afinal de contas, apenas me agravaram as preocupações.
Soube, porém, que o senhor é espiritista, e como já temos recorrido aos préstimos de alguns vizinhos, estou certo de que a sua ciência nos dará a solução necessária.
O Dr. Matoso Dupont fixou o olhar percuciente na doentinha e apressou-se a esclarecer:
- Não sou propriamente espiritista, mas um observador dos fenómenos comuns; sou metapsiquista...
O consulente, naturalmente acanhado, guardou silêncio, enquanto o médico atacava a enferma numa saraivada de perguntas.
E revelava, no olhar, a alegria do pescador quando fisga o peixe inocente, ou do experimentador que encontra uma cobaia preciosa.
O pai acompanhava a cena com interesse.
O Dr. Dupont esfregava as mãos, visivelmente surpreendido.
Após cerrado interrogatório, procedeu a experiências com resultados positivos.
Objectos, cartas, livros, foram trazidos à prova.
O médico não dissimulava o enorme assombro.
Homem do trabalho e de horas contadas, o velho operário resolveu intervir e perguntou, respeitoso:
- Doutor, que me diz o senhor?
Que conselhos nos dá para o caso?
O profissional coçou o queixo e falou solene:
- Sem dúvida, estamos diante de um caso espantoso de criptestesia pragmática.
O cliente esboçou um gesto de timidez, como que a desculpar-se da própria ignorância, e aventurou:
- Não poderá o senhor fornecer-me esclarecimentos mais simples?
Leio muito pouco, o trabalho não me dá folgas...
- Trata-se de manifestação metapsíquica.
O pobre homem, diante da complicada terminologia cientifica, mostrou-se algo desanimado e pediu licença para sair, a fim de trazer um amigo ao consultório.
O Valdemar, rapaz inteligente, versado no Espiritismo e empregado na farmácia próxima, ajudá-lo-ia a interpretar os pareceres médicos.
Fora tão difícil conseguir ensejo para a consulta ao Dr. Matoso; tão elevado o preço da mesma, que o amoroso pai não hesitou.
Não deveria perder a oportunidade.
Precisava recolher as opiniões da Ciência. O ensejo era único.
Daí a minutos, regressava ao gabinete, com o amigo prestativo e diligente.
O doutor compreendeu as preocupações paternais e passou a esclarecer o assunto com todas as cores científicas da respectiva técnica.
Referiu-se aos investigadores do Psiquismo mundialmente consagrados; às experiências europeias falou do ectoplasma, do magnetismo, do subconsciente desconhecido, dos distúrbios orgânicos, rodando pela neurologia, pela fisiologia, pela psicologia experimental.
Enquanto a jovem conservava uma expressão de idiotismo e o genitor esboçava gestos de justificável assombro, Valdemar aguardou a pausa do falastrão e ponderou com inteligência :
- Doutor, estou convencido de que o senhor tem suas razões; mas, não concordará que estes fenómenos são velhos quanto o mundo?
Não admite que o caso da pequena se resuma em simples manifestações de mediunidade?
- Ah! naturalmente deseja aludir às novas descobertas - ao sexto sentido - tornou o esculápio como quem necessita fazer uma rectificação indispensável.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 9:29 am

- Sim, pode ser, referindo-nos à Ciência actual - esclareceu o rapaz serenamente - todavia, há milhares de anos a India e o Egipto conheciam os iniciados, os judeus reverenciavam os profetas.
Há vinte séculos o mundo assistiu à iluminação do Pentecostes.
Não concorda que todas estas manifestações sejam formas diversas da revelação espiritual, espalhando no mundo a luz de Deus?
- Ora - retrucou o metapsiquista contrafeito -, que motivo nos levaria a meter a Religião em problemas desta natureza?
E a palestra animou-se vivamente.
Valdemar prosseguia tranquilo, enquanto o Dr. Matoso atingia o auge da exaltação.
O primeiro defendia a lógica da fé raciocinada; o segundo acusava os espiritistas de beócios, doentes, histéricos, fanáticos.
Ao terminar a discussão, o velho retirou-se desalentado, levando a menina enferma e resolvido a contentar-se com o processo lento da cura, mediante as instruções evangélicas da água efluviada e dos passes ao alcance da família, no grupo dos vizinhos.
Tal ocorrência constituía, porém, pequenina amostra do investigador renitente.
O Dr. Matoso não saía nunca dos seus domínios de experimentador.
Visitava núcleos doutrinários, atormentava os médiuns; fazia questão de exibir o cartaz de inimigo declarado de todas as expressões religiosas.
Afirmando-se discípulo de Richet, adoptava a dúvida com atitude preceitual.
Em qualquer observação, preocupava-o a possibilidade da fraude e, fosse onde fosse, preferia comentar a exploração grosseira, o charlatanismo, a má-fé.
A sociedade o conceituava entre as grandes inteligências do meio e ninguém lhe negava títulos de competência.
Entretanto, à força de contacto com os detalhes anatómicos, ele enrijara as fibras emotivas.
Mero cavador de fenómenos, tratava as mais belas sugestões da Espiritualidade à maneira de factos banais, sem maior significação.
Não suportava as reuniões onde se fizessem rogativas a Deus, e aos companheiros de índole religiosa preferia os amigos levianos, prontos ao comentário científico, entre um sorriso de mulher sem escrúpulos e um trago de vinho capitoso.
Nada obstante, em todos os acontecimentos os homens dispõem o jogo da vida, mas Deus é que distribui as cartas.
Ninguém vive sem contas, indefinidamente.
Chegou, afinal, o dia em que o Dr. Matoso foi compelido a recolher a bagagem material ao cofre vasto da Terra, entrando em nova modalidade de existência.
Achava-se, porém, atónito, estarrecido.
Em vez de experimentar, sentia-se agora objecto de observação, por parte de gigantes ocultos e intangíveis.
Ele que tanto falara de ectoplasma e subconsciente, via formas indescritíveis, completamente estranhas às suas tabelas de classificação.
Aqueles fantasmas que despertavam tamanho sensacionalismo, nas sessões de materialização, passavam-lhe ao lado, sorridentes e tranquilos, sem lhe dispensarem a mínima atenção.
Estaria louco?
Que forças misteriosas o haveriam arrebatado àquela região sombria e desconhecida?
Perseguira materiais de observação durante a existência inteira, dilacerara instrumentos da verdade, procurara fraudes e proclamara desafios e, agora, ali, sem qualquer intermediário, verificava ele próprio a multiformidade de revelações da vida.
Tentava manter a atitude do experimentador que dispensa a cooperação religiosa, mas os reinos psíquicos multiplicavam-se, os materiais novos excediam a qualquer possibilidade de exame.
Sozinho, sem o estímulo de companheiros com quem pudesse trocar impressões, o antigo investigador experimentou enorme cansaço.
Ele que sempre fora avesso a orações andava desejoso de recolher-se ao mundo íntimo, a fim de solicitar a contribuição do Mais Alto.
No fundo, admitia que semelhante atitude representava capitulação; entretanto, a seu ver, não rogaria à maneira de outros crentes.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 11, 2017 9:29 am

Formularia simplesmente um pedido de auxílio; mas... a quem?
Na secura das experimentações do mundo, jamais cultivara afeições quaisquer.
Agravando-se-lhe, porém, as necessidades no meio de situações que não conseguia definir nem compreender, sentiu-se fraco e implorou a Deus lhe concedesse luz para os enigmas que o cercavam.
Não demorou muito e um orientador generoso fez-se visível, atendendo a súplica:
- Amorável benfeitor - solicitou humilhado por quem sois, não me negueis mão amiga no labirinto em que me encontro.
- Escuta, Matoso - respondeu o interlocutor com intimidade -, que fizeste de tanto material precioso concedido à tua alma no mundo?
- A Ciência transformou-me num investigador inconsciente - explicou, evidenciando grande embaraço.
- Não desejo saber que títulos gratuitos te proporcionou a Ciência convencionalista e sim o que fizeste da cultura enorme, e como usaste os patrimónios vultosos que te foram conferidos na Terra.
O interpelado impressionou-se com a profunda observação e, ganhando alguma coragem, relacionou as antigas inquietações, aludindo aos grandes cientistas do século e às rigorosas preocupações que adoptara pessoalmente nas pesquisas efectuadas.
Ao termo da longa exposição, o orientador espiritual falou, bondosamente:
- Falas de Crookes, de Flournoy, de De Rochas, de Lombroso, de Richet, mas esqueces que precisas de construção própria.
Tanto vacilaste no Planeta, que terminaste a última experiência duvidando de ti mesmo.
Quando procuravas ansiosamente a fraude nos outros, não vias que fraudavas a própria alma.
Desafiaste médiuns e trabalhadores; entretanto, não atendeste aos desafios que a luta nobre te facultou em cada dia terreno.
- Não, não é bem isto - contestou Dupont, buscando justificar-se -, o que nunca pude tolerar foi a manifestação religiosa.
- Por quê? Detestavas a Religião, malsinavas a prece, zombavas da fé; contudo, em que lugar do Universo a vida não é ato religioso?
Considerando-se o laço imperecível que une o Criador às criaturas e às coisas do caminho evolutivo, tudo é permuta e actividade divina.
O sapo coaxando no pântano, a estrela enfeitando o céu no deserto, o diamante oculto nas pedras abandonadas não estão à procura de admiração humana, mas de identificação com a Divindade.
Anotaste, pesaste, classificaste como simples escravo da estatística, mas a cultura espiritual não se constituí apenas de terminologia técnica.
A cor é aspecto, nunca o objecto em si mesmo.
É incontestável que sabedoria e amor representam as asas sem as quais é impossível ascender aos cumes da perfeição eterna mas, sabedoria não significa cristalização no círculo individual, antes é penetração no país infinito da verdade divina, cuja luz palpita no maravilhoso plano de unidade, através de todos os seres.
Não te detenhas no exterior.
Busca o teu mundo de belezas ignoradas e observa a ti mesmo.
Meu amigo, meu amigo, Deus é Amor, Vida, Suprema Luz!...
Nesse momento, o benfeitor desapareceu numa torrente de claridades infindas.
Sem explicar o que se passara, Dupont achou-se de joelhos, face lavada em lágrimas abundantes.
O cérebro febril banhava-se em energias desconhecidas.
Pela primeira vez, sentia a grandeza divina e parecia constituir, ele próprio, harmoniosa nota de amor no cântico universal.
Por quanto tempo demorou em adoração indefinível?
Não poderia responder.
Quando, porém, examinou a necessidade de integração no trabalho redentor, uma voz carinhosa e familiar lhe timbrou brandamente aos ouvidos:
- Vamos, meu filho! o Pai jamais regateia a oportunidade de rectificação e serviço.
Voltemos para o mundo.
Tu que observaste tanto os semelhantes, sem finalidade justa, regressarás agora a fim de seres observado.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:03 am

11 - O APELO INESPERADO
- Espero nos ajude a vencer tão grande obstáculo - dizia uma inquieta senhora ao Firmino.
Sua cooperação fraternal é a minha última esperança.
Minha filha precisa de conselhos urgentes.
- Quem sabe estará a pobrezinha perseguida de algozes das trevas? - lembrava o interlocutor sorridente.
Conheço casos dessa natureza, em que tudo não passava de simples influenciação de elementos inferiores.
- Estou disso convencida, não tenho mesmo qualquer dúvida.
A menina sempre pautou seus actos pelo sincero desejo de acertar.
Nunca desprezou o trabalho, nunca deu mostras de rebeldia.
Agora, entretanto, parece obcecada por pensamentos indignos.
- Hoje mesmo solucionaremos o assunto - asseverava o doutrinador prestativo -, irei a sua casa, logo à noite; fique tranquila.
Esses maninhos da sombra preparam ciladas a torto e a direito, mas havemos de vencer o mal, dirigindo energias para o bem.
Enquanto a senhora se despedia evidenciando gestos desordenados de inquietude, outro cliente assomava à porta, requisitando orientação.
- Firmino - exclamava atencioso -, a situação de minha mulher continua desesperadora.
Tenho a impressão de que ela permanece insensível a qualquer advertência.
A obsessão empolga-lhe o sistema nervoso de maneira absoluta.
Ainda ontem, vi-me em situação vexatória, na Polícia, devido a sérias denúncias
de vizinhos.
Até quando suportarei este martírio doméstico, meu bom amigo?
Não poderia você ir até a nossa casa, a fim de ministrar algum esclarecimento?
O interpelado inclinou a fronte em sinal de assentimento e acrescentou:
- Poderemos fazer, à noite, alguma doutrinação.
Espere-me depois de onze horas.
Mal não se havia retirado o esposo aflito, um velho batia à porta, em companhia de um rapaz renitente e preguiçoso.
Admitido no interior, começou a desfiar o longo rosário de queixas comuns.
- Este meu filho, Sr. Firmino, de há muito vem sendo perseguido por entidades perturbadoras.
Ninguém mo disse; mas não se engana o meu coração de pai.
A princípio, recorremos à Medicina, gastei o que pude, batendo a consultórios e farmácias; todavia, não colhi qualquer resultado animador.
O rapaz continua fazendo loucuras sobre loucuras.
Disseram-me que o senhor dá conselhos como ninguém e venho apelar para a sua caridade.
Por favor, veja se nos pode prodigalizar o beneficio de uma orientação.
O jovem mirava os interlocutores de soslaio, dando a entender mais peraltice que demência; entretanto, o conselheiro, em vez de receitar-lhe um susto adequado, começou a dizer levianamente:
- É incontestável.
O pobrezinho está obsidiado.
Não é de estranhar, visto que as influências maléficas povoam todos os lugares deste mundo.
E rematava, imprudente, após longa pausa:
- Você, meu filho, está envolvido nas perigosas malhas de perseguidores invisíveis, mas de amanhã em diante faremos serviços de auxilio a seu favor.
Qualquer pessoa, nas suas condições, pode cometer os mais negros crimes.
Não conhece os escândalos do noticiário comum? a obra destruidora dos maus Espíritos.
Assassínios, suicídios, erros, paixões, resumem a perigosa actuação dos seres diabólicos das sombras.
O genitor; embalado pela ideia de socorro gratuito, não ocultava a satisfação em largos sorrisos, enquanto o rapaz dissimulava gestos cínicos.
E era esse o feitio daquele ingénuo e bondoso Firmino da Conceição.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:03 am

Premido pelas contínuas solicitações, abandonara a actividade profissional, passando a viver a expensas das duas filhas, que definhavam nos trabalhos afanosos do bordado e da costura.
Sempre vigilante no círculo das necessidades dos vizinhos e conhecidos, como que se habituara à desordem do próprio lar.
Ambas as moças sentiam-se à frente da maré invencível.
As remunerações incertas mal chegavam para as despesas inadiáveis.
E a velha esposa, quando os cobradores rondavam a porta, aguardava o marido pacientemente, alegando em tom afável:
- Ora, Firmino, esta situação precisa modificar-se.
Nossas filhinhas parecem cansadíssimas.
E seu emprego?
Você não esperava colocar-se este mês?
- Sim, sim, mas não podemos esquecer a tarefa.
Os apelos são muitos e não posso desatender a essa boa gente que me procura.
Imagine que, presentemente, estou a serviço espiritual para beneficio de vinte e duas famílias.
- Mas, lembre-se igualmente de que é chefe desta casa e que não estamos isentos de responsabilidade familiar.
Notando que a dedicada companheira estava a ponto de irritar-se, o doutrinador afagava-lhe a fronte cismarenta e dava-se pressa em buscar meditações e leituras, acentuando:
- Deixe-se de ideias tolas.
Perdeu então a fé em Deus?
Meses e anos corriam para o abismo do tempo e Firmino era sempre o mesmo homem, determinado a satisfazer pedidos importunos e extravagantes.
Diariamente, entregava-se a demorados exercícios espirituais, a fim de multiplicar os valores positivos de sua doutrinação.
Desenvolvera a visão psíquica.
Agora, recebia apelos do visível e do invisível.
Espíritos ociosos, ou inquietos, deste e do outro lado da vida, procuravam-no incessantemente.
Vendo-se em tal situação, julgou-se dono de vastos poderes e a vaidade não demorou a surgir como escalracho invasor.
O nosso homem não admitia orientação estranha, no seu modo de interpretar, e julgava-se detentor de dons infalíveis.
Chegou, porém, a ocasião de ser abalado nas convicções profundas.
Quando a família esgotava o enorme cálice de sofrimento, eis que uma noite, feita a oração habitual, Firmino é visitado por entidade desconhecida.
Auréolas de luz cercavam-na inteiramente.
Estampando amoroso sorriso, aproximou-se do velho doutrinador que se ajoelhara, e falou com bondade:
- Venho da parte de Jesus fazer-te um apelo.
Firmino, quase em êxtase, parecia esmagado de júbilo.
Solicitação do Cristo?!
Que não faria por atender imediatamente?
Desde muitos anos, empregava as menores possibilidades na solução dos problemas alheios.
Certo, Jesus premiava-lhe a boa-vontade, designando-lhe nova tarefa.
Enquanto essas reflexões lhe vagavam na mente, o sábio mensageiro continuou:
- Trata-se de pessoa que requer auxilio urgente; alguém que precisa do teu interesse efectivo e desvelada atenção.
Não te negues a cooperar, meu amigo.
Essa criatura guarda a melhor intenção nos serviços comuns, mas, há muito tempo, internou-se pelos abismos da incompreensão.
Jesus, porém, observa os discípulos generosos e sinceros e jamais lhes faltará socorro celeste.
O teu concurso é, todavia, indispensável.
Esse irmão bem-amado permanece em perigo.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:04 am

Ervas daninhas lhe cresceram no campo espiritual, ameaçando as flores da esperança e os frutos da verdade.
Viajor descuidado, apesar de bondoso, numerosas sereias tentam encantá-lo.
O pobrezinho começou a dormir, mas é preciso arrancá-la do sono.
Ainda que seja necessário, submete-o a disciplinas, acorda-o a golpes de força, dada a hipótese de necessidade premente.
Não o deixes a meio da estrada, longe de si mesmo.
Jesus confia em ti.
Diz-lhe que o Mestre não deseja ver os seus serviços fraternos sujeitos a solução de continuidade e sim, que, acima de tudo, conserve o trabalho da própria iluminação.
Não se interrompa a actividade carinhosa do irmão, mas, tampouco se olvide a realidade do homem.
Ensina-o a respeitar a beneficência de Deus, a clarear os próprios horizontes e a estruturar a personalidade do discípulo perfeito em si mesmo, a fim de que socorra os necessitados com as medidas da justiça e do amor.
Jesus dissemina a caridade, todos os dias, nos mais ínfimos recantos do Globo, e espera que cada habitante do mundo lhe dissemine os dons sublimes; entretanto, essa caridade constrói, rectifica, educa, eleva e redime.
A bondade não endossa a preguiça, nem suprime o valor da necessidade de luta, na evolução das almas.
Vai, meu amigo, ainda é tempo.
Corrige, amando, a quem adormeceu inadvertidamente na estrada tentadora.
O interpelado guardava profunda impressão.
Debalde tentava localizar o necessitado nos escaninhos do pensamento.
A quem se referia o emissário solícito?
Algum dos obsidiados em estudo? Habituado a fixar o exterior, lembrou repentinamente o irmão de nome Donato, que nascera sob o mesmo tecto, velho companheiro de trabalho terrestre, o qual, apesar de bondoso, nunca lhe aceitara os conselhos e pontos de vista.
Penetrando-lhe a ideia recôndita, falou ainda o mensageiro:
- Refiro-me à única pessoa a quem deves e podes impor a necessária reforma espiritual, mesmo à custa de ásperas disciplinas...
O doutrinador ergueu os olhos preocupados e interrogou:
- Trata-se do mano Donato?
A lúcida entidade sorriu, entre a compaixão e a serenidade, e, como quem necessita atirar o golpe a descoberto, depois de esgotados os recursos da delicadeza fraternal, acentuou com firmeza:
- Não, Firmino; ainda uma vez estás equivocado; a pessoa necessitada a que aludi, és tu mesmo.
O apelo de Jesus refere-se a ti.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:04 am

12 - A CURA COMPLEXA
Aquele lar fundamentado em bases sólidas de amor e trabalho, desde algum tempo parecia invadido por tempestades incessantes de dor.
Feliciano Azevedo, na idade madura, era iniciado nos mistérios da lágrima, envolvido em terríveis tormentas de desventura.
A filha amorosa, que resumia as esperanças paternas, perdera o equilíbrio mental logo após um curso escolar brilhante, anulando, assim, alegres expectativas familiares.
A esposa sensível baixara ao hospital, com a saúde abalada para sempre.
Desarvorado, qual viajante cujo barco vai impelido pelas ondas revoltas, antevendo os momentos do naufrágio cruel, Feliciano agarrava-se à fé em Deus, em supremo desespero do coração.
As economias fartas de outro tempo dissiparam-se em poucos meses.
Agora, dividia as horas entre o hospital e o manicómio.
Os empréstimos asfixiavam-no.
Quando a situação assumia aspectos ainda mais graves, eis que surge inesperadamente um amigo, aconselhando:
- Ora, Feliciano, por que não tenta o Espiritismo?
É possível que o caso da jovem seja simples obsessão.
Os benfeitores do Além, quando podem, costumam ligar-nos o corarão ignorante com a Fonte infinita das bênçãos.
Experimente...
Feliciano ponderou a advertência amiga e deliberou atender sem delonga.
Na noite desse mesmo dia, foi a casa da família Macedo, que mantinha um grupo espiritista muito íntimo.
Recebido com muita simpatia, pela sinceridade de suas expressões, ouviu por intermédio de jovem sensitiva a palavra de prestativo amigo da Espiritualidade, que lhe falou mais ou menos nestes termos:
- Meu irmão, não olvides a coragem para o êxito necessário.
A passagem pela Terra pode ser um aprendizado angustioso, mas é parte de nossa marcha para a sabedoria infinita.
No curso dos maiores infortúnios, lembra que Deus é Pai
bondoso e justo.
O caso da tua filhinha procede de tenaz perseguição, do plano invisível.
Irmão nosso, perturbado e cego, há lançado amarguras na tua estrada dos tempos que correm.
Não desesperes, porém.
É razoável que a Justiça trabalhe, enquanto houver necessidade de reparações.
Contribuiremos para que se aclarem os horizontes.
Esforça-te, pois, connosco, atendendo à Providência Divina.
Aquelas palavras, pronunciadas com imensa ternura, lhe balsamizaram o coração entristecido.
Tinha a impressão de que imergia o espírito sequioso em fonte cristalina, ardentemente esperada no deserto da sua angústia.
Os amigos presentes incumbiram-se de lhe consolidar as esperanças.
O chefe da casa relatou difícil experiência doméstica, em que se valera do socorro espiritista.
Cada companheiro trouxe à baila o seu caso pessoal, revelando a excelência do auxílio, oriundo das mãos intangíveis dos desencarnados.
Feliciano exultava.
Pela primeira vez, depois de longos e laboriosos tempos de luta, dormiu sossegadamente, empolgado por singulares pensamentos de paz.
Os Macedos, aliando-se à boa-vontade de outros irmãos, começaram a prolongada série de reuniões íntimas, destinadas ao esclarecimento do infortunado obsessor, consagrando, neste mister, as suas melhores energias.
Três vezes por semana reuniam-se os benfeitores encarnados.
O pai e esposo aflito mantinha-se firme na sua fé, presente a todos os trabalhos.
O irmão perturbado, mal se pronunciava a prece inicial, incorporava-se prestemente, apossando-se por completo do aparelho mediúnico.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:04 am

Bertoldo, o director da reduzida assembleia, falava-lhe com sincera dedicação fraternal e, contudo, o infeliz parecia aferrado a sinistros propósitos.
- Este homem é um criminoso - apontava o Feliciano, com sarcasmo -, em outro tempo destruiu-me o lar, escarnecendo das minhas sagradas aspirações familiares.
Companheiro desleal e ingrato, esqueceu a mão amiga que o erguera da miserável condição de servo ínfimo!...
E com lágrimas de ódio continuava, depois de mordentes acusações:
- Malvado!... Monstro! Seguirei no teu encalço, onde quer que te escondas!...
- Mas, meu irmão - replicava o orientador, bondosamente - quem de nós outros estará sem erros?
Todos procedemos de um passado sombrio e delituoso.
Na longa jornada, por trás de nossos passos, há rios de lama e sangue, que precisamos purificar com a tolerância recíproca.
Comecemos novo dia de fraternidade.
Deus, que é Pai e Senhor Supremo do Universo, renova incessantemente as nossas oportunidades de serviço e edificação.
Se Deus atende, assim, que razão nos assiste para eternizar a vingança nos caminhos da vida?
Esquece o mal, meu amigo.
Contempla o nosso Feliciano humilhado, torturado, vencido!...
Não te doerá vê-lo assim, de cabelos nevados prematuramente?
Que prazer poderás sentir martirizando uma pobre mãe no hospital e uma criança no manicómio?
Sejam quais forem as tuas mágoas de existências anteriores, olvida o mal e perdoa...
O director amorável dizia essas palavras, de olhos molhados, convencido de que esclarecer não é ordenar, e que doutrinar não significa impor violentamente.
Aquele generoso Bertoldo não ignorava a extensão das misérias, nas experiências humanas, sabia conjugar os próprios conhecimentos, ofertando-os ao próximo como ramalhetes de flores luminosas.
O perseguidor chorava, entre o ódio e o desespero, e a reunião terminava sempre num mar de emoções reconfortantes e profundos ensinamentos, porque os companheiros ali se uniam, antes de tudo, nos elos cariciosos da humildade e do amor.
Ao fim de alguns meses, o infeliz cedia terreno, demonstrando-se transformado à luz do Evangelho do Cristo, não pelas palavras ouvidas, mas pela vibração do sentimento colectivo.
Em breve, a esposa e a filha, convalescentes, regressavam ao ambiente doméstico.
A pequena família não podia traduzir o intenso júbilo.
Trazidas igualmente aos trabalhos espirituais, mãe e filha pareciam banhadas por ondas reconfortantes de energia nova.
O antigo obsessor convertera-se em benfeitor solícito.
A tranquilidade agora revelava maravilhoso conteúdo de fé e alegria.
Decorridos seis meses sobre a nova situação, eis que o lar de Feliciano parece envolvido em novas tormentas.
A precariedade de recursos financeiros levara o chefe da casa a experimentar diversos labores sem resultados favoráveis.
Todos os objectos valiosos foram levados às casas de penhor e, por fim, após difícil experiência numa oficina de acessórios, Feliciano cai no leito, desolado e paralítico.
Em vão, recorre a filha a relações prestigiosas, em busca de colocação condigna.
Todas as portas se apresentam impenetráveis.
Nos concursos a que compareceu, esperançosa, era invariavelmente mal classificada.
Diariamente, à noitinha, voltava a, casa, desanimada, pernas trôpegas e olhos inchados de chorar.
Enquanto isso, a genitora precisava agarrar-se à máquina de costura, para que lhes não faltasse o pão cotidiano.
A pequena família começou a peregrinar de rua em rua, pela carência de dinheiro com que pagar o aluguei da casa.
A esse tempo, Feliciano voltou ao país sombrio do desespero.
Os generosos irmãos na fé buscavam-lhe a companhia, semanalmente, reunindo-se em preces, no seu aposento de dor.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:04 am

Por maior que fosse, porém, o carinho fraterno, o enfermo não mais se livrou de angustioso abatimento.
Os pensamentos lhe erravam pesadamente da queixa incessante para o desalento sem limites.
Por que motivo lhe fora reservado um cálice tão amargo?
Não aceitara a fé?
Não se esclarecera o obsessor terrível?
Assim se mantinha ele mergulhado num mar de inquirições dolorosas.
Após dois anos pesados de infortúnio, valeu-se do momento em que se reuniam os amigos, no quarto estreito, para indagar ao sábio Instrutor espiritual a causa dos longos padecimentos.
O benfeitor invisível, procedendo delicadamente, à maneira de alguém que, embora percebendo uma ferida, não lhe acusa a existência, esclareceu com intimidade e doçura.
- Não percas a coragem, meu amigo.
A fonte das bênçãos divinas não estanca a distribuição dos benefícios.
Resigna-te na dor, como quem lhe conhece as utilidades sublimes.
O catre do sofrimento é um barco de salvação, nas tempestades do mundo, para o crente identificado com a própria fé.
Usa a provação como termómetro da confiança em Deus e não desanimes!...
O doente estava comovido, mas insatisfeito.
Incapaz de perceber a subtileza fraternal do comunicante, voltou a considerar:
- Agradeço as vossas palavras confortadoras, mas não me posso furtar a dúvidas amargosas.
Não era o sofrimento de minha família um simples caso de obsessão?
Não trabalhamos, meses a fio, a fim de esclarecer o irmão
perturbado?
Não se tornou ele nosso amigo e colaborador?
Todavia, tenho mesmo a impressão de que nossos tormentos se agravaram pesadamente.
Minha mulher saiu do hospital para internar-se na miséria mais dura; minha filha regressou do hospício para transformar-se em pedinte sem esperança...
Engasgado de pranto, fez longa pausa e continuou a dizer:
- Como chegar a uma conclusão aceitável?
Não estamos curados da obsessão, meu amigo?
O benfeitor espiritual, incorporado na jovem médium, levantou-se e, denunciando a imensa sabedoria que lhe brilhava n´alma, acentuou depois de afagar o doente com um gesto de amor:
- Feliciano, é verdade que tens sofrido muito, mas não esqueças que os amigos encarnados e desencarnados te ofereceram andaimes; as dificuldades e padecimentos te proporcionaram pedras; a fé carreou cimento divino para o teu coração, entretanto, a construção é tua.
Nunca reclames ante a justiça de Deus, porque, se estás curado da obsessão, ainda não saldaste as próprias dívidas.
Foi então que o enfermo revelou novo brilho no olhar e, enquanto os companheiros choravam de alegria com o profundo ensinamento, Feliciano Azevedo beijou a mão que o sábio mentor lhe oferecia, e baixou humildemente a cabeça.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:04 am

13 - O TRABALHADOR FRACASSADO
Na paisagem de luz, antes da imersão nos fluidos terrestres, Efraim recebia as últimas recomendações do Guia venerável:
- Vai, meu filho.
Seja a próxima experiência na Terra, uma estação nova de trabalho construtivo.
Recorda que és portador de nobre mensagem.
A tarefa a que te propões é das mais edificantes.
Distribuirás o pão do conforto espiritual, no esforço de amor em que te inspiras.
Não olvides que energias diversas se conjugarão no mundo, para distrair-te a atenção dos objectivos traçados.
É indispensável que te fortaleças na confiança em Deus, em todos os momentos da vida humana.
Cada homem permanece no Planeta com a lembrança viva dos compromissos assumidos, revelando singularidades que a ciência das criaturas considera vocações espontâneas.
A luta começa na infância, porque raros pais, na Terra, estão aptos a orientar conscientemente os filhos confiados à sua guarda.
Resiste, porém, e aprende a conservar tuas energias nos altiplanos da fé.
Lembra a tarefa santificante, cometida ao teu esforço, e não escutes vozes tentadoras, nem desfaleças ante os tropeços naturais, que se amontoam nos caminhos da redenção.
Há operários que, embora possuídos de belas intenções, estacionam inadvertidamente, por darem ouvidos aos enigmas que o mundo inferior lhes propõe em cada dia.
Segue na estrada luminosa do bem, de olhar fixo no trabalho conferido às tuas mãos.
Não olvides que Deus ajuda sempre; mas, nem por isso, poderás prescindir do próprio esforço em auxílio de ti mesmo.
O candidato à nobre missão, reconhecido e feliz, osculou as mãos do benfeitor e partiu.
A esperança lhe acariciava os sentimentos mais puros.
Não cabia em si de contentamento, pois recebera a formosa tarefa de repartir esclarecimentos e consolação entre os sofredores da Terra.
Com que enlevo e satisfação lhes falaria das verdades sublimes de Deus!
Mostraria a função aperfeiçoadora do sofrimento, enaltecendo o serviço construtivo da dor.
Enquanto fornecesse testemunhos de fé na redenção própria, exemplificando no esforço dos homens de bem, reuniria materiais divinos para melhor atender ao imperativo do trabalho conferido à sua responsabilidade individual.
Todavia, consoante as observações ministradas pelo mentor compassivo e sábio, o trabalhador encontrou as primeiras dificuldades no próprio lar a que foi conduzido pelas teias de carinhosa atracção.
Ao passo que os amigos da esfera invisível buscavam multiplicar-lhe as noções de ordem superior na recapitulação do período infantil, os genitores inutilizavam diariamente o serviço espiritual, com a ternura viciosa e imprudente.
Na libertação parcial do sono, Efraim era advertido pelos amigos do caminho eterno, a respeito da preparação necessária, mas logo que regressava à vigília, no corpinho tenro, a mamãe o tratava como bebé destinado às guirlandas de uma festa infantil; e o pai, voltando da repartição, preocupava-se em aumentar entretenimentos e frioleiras.
Assim, a criança aprendia os nomes e gestos da gíria, acostumava-se a repetir as expressões menos dignas, a atacar com as mãozinhas cerradas, a insultar por brinquedo.
Quase reduzido à condição de papagaio interessante e voluntarioso, foi instado pelos amigos da esfera invisível a reconsiderar as obrigações assumidas.
Entretanto, quando falava dos sonhos que o visitavam durante a noite, a mãezinha ralhava descontente:
- “É pura imaginação, meu filho!
Vives impressionado com as histórias da carochinha”.
O pai ajuntava de pronto:
- “Esquece os sonhos, Efraim, lembra que o mundo sempre pediu homens práticos”.
O rapazinho daí por diante começou a dispensar menos atenção ao plano intuitivo.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:05 am

No fundo, porém, não conseguia trair as tendências próprias.
Dedicava inexcedível carinho aos livros de sabor individual, onde a elevação de sentimentos constituísse tema vitorioso.
Exaltava-se facilmente no exame dos problemas da Religião, como se quisesse, resistindo às incompreensões domésticas, desferir os primeiros voos.
No íntimo, adivinhava a realidade das obrigações que lhe competiam, mas a ternura excessiva dos pais contribuía a favor da preguiça e da agressividade.
Onde Deus atirava sementes divinas, os responsáveis humanos cultivavam heras sufocantes.
No colégio, Efraim não era mau companheiro; os progenitores, porém, desenvolviam tamanho esforço por destacar-lhe a condição, que, em breve, a vaidade sobressaía como estranha excrescência na sua personalidade.
E a experiência humana continuou, marcando o conflito entre a vocação do trabalhador e o obstáculo incessante do mundo.
O plano invisível buscava insistentemente conduzi-lo ao clima espiritual adequado as realizações em perspectiva.
Enquanto na Igreja Católica Romana, o rapaz não encontrava senão motivos para acusações e xingamentos; transportado ao ambiente do culto protestante, apenas fixava expressões humanas, esquecido das substâncias divinas.
Intimamente, Efraim experimentava aquela necessidade de instruir e consolar as almas.
Às vezes, não conseguia sopitar os impulsos e desabafava em longas conversações com os amigos.
Guardando, porém, os títulos académicos em vez de usá-los como forças ascensionais para um conhecimento superior, convertia-os em entulhos lastimáveis, mantendo futilidades pouco dignas.
Embalde a esfera espiritual o convidava à luta enobrecedora, em profundos apelos do pensamento.
Agora, casado e fundamente modificado pelas circunstâncias, Efraim parecia impermeável aos conselhos directos e indirectos.
Enfim, depois de costear o continente infinito da Revelação divina em diversas modalidades, foi dar às praias ricas do Espiritismo cristão.
Estava deslumbrado.
A fé lhe revelava perfumes ignotos ao coração, semelhando-se a olorosa flor de mata virgem.
Experimentou imediatamente a certeza de haver encontrado o lugar próprio.
Ali, certamente, desenvolveria o plano construtivo de que lhe faltava a intuição nos recessos do espírito.
Esqueceu, no entanto, que o trabalho é fruto do esforço e que todo operário precisa improvisar ou manejar ferramentas.
Com dois anos de observação, ele, que se habituara à ociosidade, recolhia-se ao desalento.
Queixava-se de tudo e de todos.
Tinha a convicção de que necessitava edificar alguma coisa em beneficio dos semelhantes, mas não se conformava com os obstáculos.
Quando um dos velhos amigos vinha convidá-lo ao serviço espiritual, replicava enfaticamente:
- Ora, “seu” Cunha, quem poderá destrinçar essa meada de médiuns charlatães e exploradores sem consciência?!
Francamente, sinto-me cansado...
Depois que o visitante encarecia as excelências da cooperação e a necessidade do testemunho, Efraim exclamava desanimado:
- Não posso ocupar-me com ficções nem partilhar dessa batalha invencível.
Os amigos da vida real são, contudo, infatigáveis na esperança e no optimismo; para que o trabalhador encontrasse concurso fraterno, formou-se repentinamente um grupo mais íntimo, na vizinhança de sua residência, onde reduzido número de companheiros se propunham estudar os problemas de auto-aperfeiçoamento, colimando elevados serviços no futuro.
Efraim prometia cooperar na tarefa, mas em vão o chamavam ao esforço diariamente.
Estava sempre solícito na indicação dos tropeços, mas nunca resoluto na execução da própria tarefa.
Cada dia apresentava uma desculpa aparentemente mais justa, a fim de justificar a ausência no trabalho.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:05 am

Para ele a chuva estava sempre gelada e o calor sufocante; os resfriados chamavam-se amigdalites, bronquites, febres, dispneias; os desarranjos do estômago classificavam-se como hepatites, estreitamentos e gastralgias.
A mente viciada exagerava todos os sintomas.
Quando assim não era, aludia às contrariedades com o chefe de serviço no Instituto em que leccionava, referia-se às enxaquecas da esposa, dizia das enfermidades naturais dos filhinhos em desenvolvimento.
A hora, a situação ocasional, o estado físico, a condição atmosférica, eram factores a que recorria invariavelmente por fugir à contribuição fraternal.
Por fim, embora experimentasse o desejo sagrado de realizar a tarefa, chegou ao insulamento quase completo, num misto de tristeza e ociosidade.
Foi nessa estação de amargura que a morte do corpo o requisitou para experiências novas.
Durante anos dolorosos, Efraim errou sem destino, qual ave desesperada da sombra, até que um dia, esgotado o cálice dos remorsos mais acerbos, conseguiu ouvir o antigo mentor, após angustiosas súplicas:
- Meu filho, não te queixes senão de ti mesmo.
O Dono da Vinha jamais esqueceu os trabalhadores.
Materiais, ferramentas, possibilidades, talentos, oportunidades, tudo foi colocado pela bondade do Senhor, em teus caminhos.
Preferiste, porém, fixar os obstáculos, desatendendo a tarefa.
Reparaste o mau tempo, a circunstância adversa, o tropeço material, a perturbação física e, assim, nunca prestaste maior atenção ao serviço real que te levara ao Planeta.
Esqueceste que o trabalho da realização divina oferece compensações e tónicos que lhe são peculiares, independentemente dos convencionalismos do mundo exterior.
O Senhor não precisa de operários que passem o tempo a relacionar óbices, pedras, espinhos, dificuldades e confusões, e sim daqueles que cooperem fielmente na edificação eterna, sem interpelações descabidas, desde as actividades mais simples às mais complexas.
Enquanto olhavas o chão duro, a enxada enferrujou-se e o dia passou.
Choras? O arrependimento é bendito, mas não remedeia a dilação.
Continua rectificando os desvios da actividade mental e aguarda o futuro infinito.
Deus não faltará, jamais, à boa-vontade sincera!
- E quando poderei voltar à Terra, a fim de renovar meus esforços? - perguntou Efraim soluçando.
O benfeitor demorou a responder, esclarecendo finalmente:
- Por agora, meu filho, não posso precisar a ocasião exacta.
Todo trabalho edificante, em suas expressões diferentes, tem órgãos orientadores, executivos e cooperativos.
Ninguém pode iludir a ordem na obra de Deus.
Ante os novos caminhos tens largo tempo para amadurecer os arrependimentos sinceros, porque, somente aqui, nesta zona de serviço a que te subordinas presentemente, temos duzentos mil e quinhentos e vinte e sete candidatos ao trabalho de consolação e esclarecimento, no qual fracassaste no mundo.
Como vês, não podes regressar à Terra antes deles.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 12, 2017 10:05 am

14 - INVOCAÇÕES DIRECTAS
Nos primeiros movimentos de intercâmbio com a esfera invisível, Casimiro Colaço experimentara sensações de indefinível inquietude.
Aquelas comunicações com o Além assombravam-no.
Povoavam-lhe a alma profundas indagações.
Aquele novo mundo que se lhe descortinava aos olhos, trazia maravilhosas incógnitas para cuja solução daria, de bom grado, todas as possibilidades terrestres.
Casimiro não se contentava com as reuniões de experimentação mediúnica, num esforço metódico e gradativo.
Embora o arraigado amor à família, vivia mentalmente muito distante dos deveres inadiáveis e justas.
Viciado pela curiosidade doentia, esperava a noite com singular ansiedade.
Ao regressar do estabelecimento bancário, após a luta do ganha-pão, trancava-se a sós no quarto, dilatando observações por catalogar conhecimentos novos, no vasto círculo de entidades espiritual.
Longe de aceitar com proveito as manifestações espontâneas, preferia impor os próprios caprichos, perdendo-se em longas evocações directas e ignorando sistematicamente se possuía credenciais ou merecimento para isso.
Entre as entidades que costumava invocar impertinentemente, contava-se um velho tio - o ex-sacerdote Leão Colaço, que partira do mundo, anos antes.
Padre inteligente e devotado ao bem colectivo, Leão convertera-se em ídolo dos parentes.
Por isso mesmo o sobrinho, ao menor obstáculo utilizava a concentração, pedindo-lhe esclarecimentos.
O ex-sacerdote era obrigado a abandonar trabalhos sérios, no plano de acção onde se localizava quase sempre, para solucionar espantosas futilidades.
Decorrido algum tempo em que Leão se destacou pela paciência e o sobrinho pela leviandade, reconheceu o nobre emissário que a situação requeria outros rumos.
Muito delicado, falou confidencialmente em mensagem carinhosa:
- Meu filho, nas relações com o Invisível, não queiras impor a vontade caprichosa, quando não identificas, ao certo, as próprias necessidades.
Faz a prece, observa, medita e espera com paciência.
A oração e o esforço mental, por si sós, valem imensamente, ainda mesmo que não recebas conselhos directos dos amigos.
Porque invocar violentamente os desencarnados, se não desconheces que também eles assumiram certas responsabilidades de serviço ante os desígnios de Deus?
Por que insistir nominalmente no comparecimento de quem sofre ou de quem trabalha?
Submetes o primeiro à dor da vergonha e ao segundo impões o pernicioso esquecimento do dever.
Não recordas a lição de Jesus na prece dominical? O Mestre ensinou ao homem rogasse a Deus o cumprimento da Vontade Divina, assim na Terra como no Céu.
Trabalha, meu filho, e sê atento às obrigações próprias.
Se não é justo pedir o aluno aos instrutores a necessária solução de problemas condizentes ao aprendizado em curso, também não é razoável abandone a criatura a possibilidade de novas luzes, recorrendo, nas ocorrências mais fúteis, à bondade daqueles que a seguem de mais alto.
Organiza reuniões, continua observando os planos invisíveis, mas não olvides a espontaneidade.
Se o irmão infeliz bate à tua porta, consola-o; se recebes a visita generosa de respeitável instrutor, pondera-lhe os conselhos e guarda-lhe a sabedoria.
Aprende a interpretar os desígnios de Deus, no local de serviço ou testemunho onde te encontres, nas horas mais diversas.
O trabalho divino sempre requisitou devotamento, mas dispensa a provocação, por desnecessária e inconveniente.
Casimiro leu e releu a mensagem e, contudo, continuou agindo com a mesma leviandade que o caracterizava antes dela.
A qualquer frioleira, repetia o antigo estribilho:
- Chamemos o tio Leão Colaço e teremos a solução precisa.
Submergia-se a prestimosa entidade em verdadeiro mar de preocupações, atenta à confusão que se desdobrava, quando certo amigo lhe observou:
- Não te entregues a exagerada inquietação.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:00 pm

Se o sobrinho vem buscar-te tantas vezes por semana, compelindo-te à dilação de serviços tão graves, por que não o invocas igualmente?
Se é verdade que os companheiros do mundo podem chamar-nos, não desconhecemos a possibilidade de lhes retribuir no mesmo grau.
Experimentando a inconveniência das invocações directas, o Casimiro renovará as concepções sobre o assunto. E creio que uma vez será o bastante.
O ex-sacerdote aceitou o alvitre, evidenciando indisfarçável contentamento.
Escolheu, por isso, a noite mais oportuna e, reunindo alguns companheiros, invocou o sobrinho de modo a lhe proporcionar excelente lição.
Enquanto se lhe enrijecia o organismo no leito, alarmando a família, Casimiro Colaço compareceu em Espírito ante a reduzida assembleia que o atraía intencionalmente.
Revelava-se indisposto e perturbado, o mísero sentindo-se presa de inenarrável angústia.
Em frente dos amigos espirituais, rojou-se de joelhos e exclamou em pranto amargo :
- Benfeitores amados, por quem sois, não me deixeis voltar por enquanto ao vosso plano, quando tenho filhinhos a esperar por mim!...
Após doloroso gemido, prosseguiu num véu de lágrimas:
- Ah!... quem me chamou aqui com tamanha insistência?
Deixai-me regressar à Terra, por amor de Deus!
Aproximou-se então o bondoso tio e esclareceu:
- Sou eu quem te chama, Casimiro.
- Oh! sois vós, meu tio?
Porquê? desconheceis, porventura, a bagagem dos meus deveres?
Tendes seguido carinhosamente meus passos e compreendeis, certamente, que me não posso furtar ao cumprimento de obrigações intransferíveis.
Não me retenhais aqui por mais tempo!...
Depois de soluços convulsivos, rematava diante do ex-sacerdote que sorria, bondoso:
- Afinal, por que me buscastes assim nesta violência terrível?
Colocou-lhe a entidade a mão paterna no ombro, evidenciando amorosa solicitude e respondeu:
- Chamei-te por amor e porque não devia desprezar o ensejo de entregar-te novos valores educativos.
Aprende a considerar as situações alheias, meu filho!
Também nós, aqui, temos deveres e trabalhos, responsabilidades e compromissos.
Não somos figuras aéreas, catalogadas entre seres ociosos ou vagabundos.
Já que percebeste o quanto dói a perturbação infligida ao homem no trabalho honesto e intransferível, não procures desorientar serviços de nossa esfera de acção, onde colaboramos na estruturarão espiritual de um mundo melhor.
Tanto se pode invocar a entidade celeste, quanto atrair a criatura terrestre, na mesma lei que rege o constante intercâmbio das almas.
Não olvides, pois, estas preciosas verdades!
E, mergulhando o olhar penetrante no sobrinho angustiado, concluía:
- Voltarás, imediatamente, ao serviço que Deus te confia no mundo; entretanto, faze tudo por não esquecer a valiosa lição desta noite.
Em casa de Casimiro, todavia, observava-se o vaivém dos familiares alarmados.
Durante quatro horas, permanecia o pobre rapaz no leito, pálido, ofegante, semimorto.
Multiplicavam-se cataplasmas e injecções, sob o olhar atento do médico que o assistia.
Quando o suposto enfermo revelou os primeiros sinais de melhora, o facultativo chamou em particular o velho genitor de Casimiro e esclareceu, demonstrando justificada alegria:
- Felizmente o problema está resolvido.
- E que pensa o senhor? - interrogou o ancião aflito.
- Trata-se de caso para observar - retrucou o interpelado, confidencialmente -, aplicarei tratamento decisivo, pois a meu ver a moléstia tem todos os característicos de fenómeno epileptóide.
Mas Casimiro Colaço, daí a dois dias, estava refeito para o trabalho comum.
E embora não recordasse o ensinamento senão na tela mágica de sonho mal definido, jamais se atreveu a repetir invocações directas e nominais, renunciando à imposição da vontade caprichosa em relação ao plano invisível.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:01 pm

15 - A GRANDE SURPRESA
Quem poderia definir a perturbação do desventurado Leo Marcondes, confinado em tenebroso circulo de angústia?
Seria difícil relacionar-lhe as lágrimas e padecimentos.
Comerciante abastado, no Rio de Janeiro, nos derradeiros anos do século XIX, não pudera furtar-se ao portal escuro do suicídio.
Temperamento fogoso e personalista, nunca se acomodara ao benefício da fé religiosa e, atirando-se às teorias do materialismo demolidor, dera-se aos mais estranhos distúrbios ideológicos, como quem se perde na sombra, caminhando a esmo pela noite a dentro.
Sempre fizera questão de espalhar os princípios dissolventes.
Em casa, na rua, nos cafés, tornara-se proverbial sua atitude iconoclasta e desrespeitosa.
Saturado de conceitos dos filósofos pessimistas, destacava-se-lhe a palavra pelas afirmativas ingratas e impróprias, a respeito da Providência Divina.
Longe de suspeitar dos escritores cépticos, verdadeiros doentes intelectuais interessados em seduzir atenções alheias ao catre de ideias enfermiças, internava-se, sem maior exame, no cipoal das mentiras brilhantes.
Ao seu ver, o mundo era vasta casa de miséria e trevas sem limites.
À menor contradita, desmanchava-se ele em considerações amargas e venenosas:
- Valores na Terra?
Onde o desgraçado que poderia manter a perigosa ilusão?
Não tivessem qualquer dúvida.
Se existisse um Criador - e acentuava essas palavras ironicamente - deveria ser expulso da Natureza.
Que viam na Humanidade infeliz senão loucura, desolação e sombra impenetrável?
Tudo caminhava para a morte, para a eterna extinção.
Flores apodrecidas disfarçam os túmulos, que escarnecem da esperança mais pura.
A carne moça era fantasia ocultando caveiras de amanhã, nos mais belos rostos.
Vemos cadáveres em toda a parte.
Raia o dia para transformar-se em noite; cresce a árvore por sepultar-se na terra, ou para queimar-se em terrível desolação.
Que é nosso destino senão a cópia burlesca desses movimentos viciosos e destruidores?
Que seria a alegria humana senão a luz frágil que se apaga no vendaval das trevas?
E que seria a existência senão jornada angustiosa para o continente de cinzas sepulcrais?
Era inútil qualquer esforço por subtraí-lo de semelhante estado mental.
Leo reduzira-se à condição de cego voluntário, segregado em sombras, apesar da alvorada permanente de luz.
Desprevenido de socorro íntimo, em vista da situação de miséria moral a que se votara, num momento de excitação profunda cometeu incompreensível homicídio, eliminando antigo companheiro de infância.
Dominado de cegueira fatal, não resistiu ao remorso incoercível e suicidou-se pouco tempo depois.
Anos amargosos e escuros abateram-se-lhe sobre o espírito desventurado.
Embalde chamava familiares queridos, invocando auxilio espiritual.
Tinha a impressão de neblinas geladas cercando-lhe o caminho, no meio de trevas indevassáveis, caindo... caindo sempre.
No círculo de angústias em que se via algemado, recordava a Terra, experimentando revolta infinita.
Atribuía ao Planeta a causa de todos os fracassos, a fonte de todas as amarguras.
Na sua desdita, jamais pôde, entretanto, esquecer a esposa, alma simples e generosa, inteiramente consagrada ao bem-estar dele, nos mínimos incidentes da jornada humana.
Lembrava-lhe a figura humilde e meiga, com verdadeiros transportes de amor e reconhecimento.
Essa recordação se convertera na única estrela a lhe brilhar no abismo de sombras indefiníveis.
Mais de cinquenta anos assim decorreram, de padecimentos incalculáveis, quando o mísero foi convocado a reorganizar caminhos, referentemente ao futuro.
Enfrentando o sábio instrutor que o atendia afectuoso, o infeliz exclamava, angustiado:
- Conscientemente, devo dizer que nunca fui homem perverso.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:01 pm

A Terra, todavia, deprimiu-me e inutilizou minhas forças, com fatalidades tremendas e paisagens tenebrosas!...
- Cala-te, amigo! - observou a entidade generosa - a queixa no serviço divino nem sempre será rogativa honesta.
Por vezes, não passa de manifestação de revolta ou indolência de nossa escassa compreensão do dever sagrado.
Aqui estou para atender-te, à face do porvir.
- Abomino a Terra!... - soluçou o desventurado.
- Esclarece teus projectos quanto às oportunidades futuras.
Não nos percamos em lamentos ou palavras ociosas.
Após meditar longos minutos, Leo interrogou hesitante:
- Magnânimo instrutor, poderei reencontrar a inolvidável companheira de luta?
- Por que não? Deus nunca nos fechou a porta da bondade infinita.
- Oh! - gemeu o infeliz, quase esmagado por um raio de júbilo - concedei-me a possibilidade de procurá-la no Paraíso que terá merecido pela imensa virtude; dai-me a ventura de esquecer, por momentos, os quadros escuros da Terra, a fim de acariciar a ideia do reencontro...
Em que estrela maravilhosa permanecerá minha santa?
O venerável orientador contemplou-o, benigno, e explicou intencionalmente:
- Tua companheira se encontra numa escola de Esperança.
- Ah! informai-me relativamente às grandezas dessa paragem sublime!
Poderei penetrar-lhe as estradas formosas?
Depois de um gesto afirmativo, que o desventurado recebeu com transportes de alegria, continuou o bondoso mentor:
- Trata-se de primorosa região de Esperança, onde Nosso Pai tudo preparou, facilitando a edificação das criaturas.
Dias deslumbrantes enfeitam-lhe continentes e mares, repletos de vida sublime e vitoriosa.
Arvores amigas lá estendem seus ramos pejados de frutos suculentos e saborosos.
Água divina corre gratuitamente de mananciais cantantes, e na atmosfera embaladora a claridade e a melodia não encontram obstáculos...
Lá e reveste a alma de fluidos adequados ao trabalho, qual operário a receber o traje de serviço, segundo as próprias necessidades, sem preocupação de retribuir a mão dadivosa e oculta que lhe concede o beneficio.
No aprendizado de todos os dias, ouvem-se risos infantis, observam-se esperanças da juventude, recebem-se bênçãos de anciães coroados de alvinitentes lírios.
São manifestações sagradas de companheiros que ali permanecem, prosseguindo na grande romagem para Deus, cada qual representando nota de amor e trabalho no cântico universal...
Em razão da pausa mais ou menos longa que o mentor interpusera nas considerações, Marcondes, enlevado, solicitou, a demonstrar novo brilho nos olhos :
- Falai, falai ainda desse plano prodigioso!...
- As noites nessa esfera - continuou o benfeitor - são cariciosas estações, destinadas à prece e ao repouso.
Astros luminosos povoam o céu, chamando os Espíritos a meditações divinas.
Constelações fulgurantes passam no infinito em sublime silêncio.
Luzes brandas dão novo colorido às paisagens.
Ainda há, por lá, pobres e sofredores, pois que se trata duma escola de Esperança; ninguém, contudo, está abandonado por Deus, que manda distribuir as lições segundo as necessidades dos filhos bem-amados...
Tudo ali é promessa de vida, caminhos de realização, oportunidades sacrossantas!...
- Benfeitor inesquecível - rogou Leo Marcondes, agora sem lágrimas -, poderei, ao menos, visitar esse plano divino?
- Não somente visitá-lo como também procurar a companheira, em seus caminhos, e unir-se novamente a ela, no trabalho de Deus, na elevação e resgate justo - esclareceu o instrutor, mostrando carinhoso sorriso.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:01 pm

O mísero não sabia traduzir o próprio júbilo.
Tomando-lhe a destra, o amigo espiritual guiou-o carinhosamente através de sombras e abismos.
Daí a algum tempo, divisavam larga esfera que, embora sem claridade própria, se movimentava num oceano de luz.
A essa altura, Marcondes prorrompeu em gritos de alegria:
- Salve planeta celeste, santuário de vida, celeiro das bênçãos de Jesus!...
Definiste com sabedoria - acrescentou o mentor sorridente.
Mais alguns minutos e penetraram numa cidade alegre e bulhenta.
Observou o pobre Leo que o local não lhe era de todo desconhecido.
Os morros, o casario, o mar, identificavam a paisagem.
Desapontado, hesitante, premiu a mão do generoso amigo e indagou:
- Será que estamos na Terra?
Não é esta cidade o Rio de Janeiro?
Justamente.
- Nunca observei antes tanta magnificência e beleza!...
- Eu bem o sabia - disse o mentor bondosamente -, mas é que nunca procuraste a escola de Esperança que o Pai oferece às criaturas neste plano.
Escutaste os filósofos pessimistas, mas foste surdo aos cânticos da vida; observaste as letras envenenadas que embriagam o cérebro dos homens de teorias aviltantes, mas foste cego ao traço das charruas no solo.
Porque preferias a indolência das almas rebeldes, o frio te incomodava, a chuva aborrecia, o calor sufocava, o trabalho constituía angústia constante.
Em vez de localizar os próprios males, agradava-te identificar os males alheios.
Voluntariamente enceguecido às lições diárias, tropeçaste no crime e na amargura; guardavas conceito irónico para o ignorante, repreensões ásperas para o infeliz, olvidando a disciplina de ti mesmo.
à força de viver na contemplação dos defeitos e cicatrizes do próximo, nada mais viste em torno do coração, além de ruínas e trevas.
Deus, porém, é infinitamente bom e te concede nova oportunidade de elevarão no caminho da vida.
Outras experiências te aguardam nos dias vindouros.
Renascerás no mesmo lugar onde levantaste, inadvertidamente, o braço homicida.
Transforma as algemas pesadas em laços de amor.
Procura a companheira abnegada, que te seguirá os passos amorosamente, na senda redentora.
Não olhes para trás.
Acende a lâmpada generosa da fé e não temas o assédio das sombras.
Enquanto o interpelado o observava, reconhecidamente, surpreendido e silencioso, o magnânimo instrutor concluiu batendo-lhe afectuosamente no ombro:
- Vai, Marcondes! recomeça a viagem, toma novamente o vagão da experiência humana, mas não atires o corpo pela janela do comboio em movimento e espera, resignado, a estação do destino.
O ex-comerciante agradeceu num gesto mudo.
Enquanto o mentor solícito voltava às esferas elevadas, Leo Marcondes era conduzido por outras mãos a uma singela choupana, modestamente erguida num dos bairros mais pobres.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:01 pm

16 - CARIDADE E DESENVOLVIMENTO
Num grupo de inquietas senhoras, após a reunião em que se haviam comunicado diversos Espíritos amigos, estalavam ruidosos comentários.
A palestra não interessava à vida alheia, segundo antiga acusação lançada às filhas de Eva; contudo, a nota dominante era a leviandade.
Falava-se entusiasticamente a respeito da prática e propaganda dos postulados espiritistas.
Umas alegavam perseguições do Invisível, outras aludiam às aventuras dos maridos inconstantes, atribuindo as penas domésticas à influência dos maus Espíritos.
Dentre todas, destacava-se a senhora Laurentina Cardoso pelo fervor sincero que lhe brilhava nos olhos.
Divergindo da maioria, seus pareceres demonstravam singular interesse no assunto.
- Sinto-me transportada a região desconhecida - dirigia-se, impressionada, à directora da feminil assembleia -, o mundo invisível nos arrebata à compreensão nova.
Quão enorme é o serviço do bem a realizar!
E cruzando as mãos no peito, gesto que lhe era característico em instantes de profunda impressão, continuava, bondosa:
- Que fazer para cooperar no trabalho sublime?
Quanto desejava ser útil aos infelizes da esfera espiritual!...
- Sim, minha filha - explicava a presidente -, é preciso desenvolver-se,
aproveitar suas faculdades no esclarecimento de nossos irmãos atrasados.
Seja atenta ao dever e alcançará os mais nobres valores.
- Não poderia a senhora consultar os instrutores espirituais nesse sentido? - indagou dona Laurentina, ansiosa.
- Perfeitamente.
E, decorridos alguns dias, escrevia-lhe solícito o orientador da reunião:
- Minha irmã, Deus te abençoe o propósito de fraternidade e confiança.
Continua devotada ao bem do próximo.
A caridade é luminoso caminho de redenção.
Não a esqueças na experiência humana e, a fim de estenderes a divina virtude, não desprezes o desenvolvimento próprio.
Companheiros abnegados, no plano invisível, seguirão teus passos na edificação de ti mesma.
Ora, vigia, trabalha, espera e sobretudo confia em Deus.
A Srª. Cardoso estava radiante.
Figurou-se-lhe a pequenina mensagem verdadeiro bilhete de luz, habilitando-a a conviver com os génios celestiais.
Leu, releu, dobrou a folha minúscula, guardando-a na bolsa de passeio; enxugou as lágrimas que a emotividade lhe trouxera aos olhos e agradeceu a dádiva jubilosamente.
Desde esse dia, transformou-se o lar de Joaquim Oliveira Cardoso.
O marido de dona Laurentina, homem de negócios activos nos círculos industriais e financeiros, notou a mudança, assaz surpreendido.
A esposa dedicada e carinhosa multiplicava os pedidos de licença para comparecer às reuniões variadas e múltiplas, destinadas a experimentação mediúnica.
Avolumando-se dessarte os pedidos, Joaquim lhe fez ampla concessão a tal respeito.
A companheira nunca o desgostara em qualquer circunstância.
Humilde e abnegada, auxiliara-o na construção da fortuna sólida. Jamais demonstrara a vaidade ridícula dos novos ricos.
Sempre se conduzira à altura da sua expectativa de homem consagrado à cultura intelectual e às boas maneiras.
Desinteressada de exibições sociais, distante do convencionalismo balofo, dividia a existência com ele e os quatro filhinhos.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:02 pm

Por que lhe impor restrições ingratas?
Não compreendia aquele Espiritismo que se instalara na mente da esposa, mas não encontrava razão para proibir-lhe manifestações de fé.
Além disso, Laurentina se entregava a semelhante movimento em companhia de relações respeitáveis.
Esses raciocínios o tranquilizavam, mas, no entanto, os dias se incumbiram de lhe carrear ao cérebro novas preocupações.
Laurentina parecia obcecada.
Não lhe interessava a mudança de cortinas, a limpeza dos quadros, a protecção dos livros predilectos.
Aranhas andavam à solta, os espanadores pareciam aposentados.
O chefe da casa duplicou o número de criadas, temendo situações mais difíceis.
Decorreram um, dois, três anos.
Preocupava-se agora o capitalista, não só com a indiferença da esposa, no tocante ao ambiente doméstico, como também com a conduta maternal.
É que, ao nascer o quinto filho, Laurentina requisitou o concurso da ama de leite.
Alegando falta de tempo, o petiz foi entregue aos cuidados de uma pobre senhora que se prontificou ao serviço, mediante remuneração adequada.
O marido, todavia, atendeu ao problema, fundamente amargurado.
Servidores a mais ou a menos não lhe alteravam o programa económico, mas a disposição da companheira desgostava-o.
Suportou, contudo, a situação, sem queixas que a pudessem magoar.
O panorama caseiro prosseguia sem modificações, quando o sexto filhinho alegrou o casal.
Decorridos dois meses em que a ama regressara ao serviço activo, Joaquim valeu-se de momento íntimo, na hora da refeição, e falou à esposa, delicadamente:
Tens observado a saúde do pequenino?
Não te parece disposto a anemia profunda?
Dona Laurentina não pôde disfarçar o desapontamento ante a observação inesperada, e explicou:
- Ainda ontem ponderei a conveniência de levá-lo ao médico.
Cardoso fez o gesto de quem não deve adiar soluções justas e acrescentou.
- Creio, Laurentina, que o caso não se prende a consultório, mas propriamente ao lar.
Ela empalideceu e o marido prosseguiu:
- Sinto ferir-te a sensibilidade, mas hás-de concordar que o leite materno, sempre que possível, não deve ser negado à criança.
Reconheço, todavia, que multiplicaste talvez excessivamente as obrigações sociais.
Tão ligada aos filhinhos, noutro tempo, não hesitas agora em voltar sempre tarde, confiando-os quase absolutamente às criadas.
Não firo o assunto no propósito de repreender; tuas companheiras são respeitabilíssimas; entretanto...
- É que desconheces o serviço da caridade, Joaquim - atalhou melindrada com a delicada repreensão diante dos filhos -, minha ausência de casa obedece a trabalhos importantes, com que procuro atender aos bons Espíritos.
A pequena Luísa, filhinha do casal, com a gracilidade espontânea dos seis anos, obtemperou com interesse e vivacidade:
- Papai, esses Espíritos devem ser maus, porque não deixam a mamãe voltar cedo. Sinto tanta falta dela!
O chefe da família sorriu significativamente e retrucou:
- Talvez tenhas razão, minha filha.
Esses Espíritos podem ser bons para toda gente, menos para nós.
Dona Laurentina esforçou-se para que as lágrimas não caíssem dos olhos, ali mesmo, e retirou- se desolada ao seu aposento.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:02 pm

A pobre senhora se desfez em pranto amargo.
Sentia-se vítima de angustiosa incompreensão.
Não atendia a serviços de caridade?
Não tentava desenvolver faculdades mediúnicas por consagrá-las ao alívio dos sofredores?
Nessa noite, porém, esquivou- se à sessão costumeira.
Precisava orar, meditar, ensimesmar-se.
Rogou fervorosamente a Jesus lhe permitisse receber inspirações da Verdade.
E, com efeito, sonhou que se aproximava de amplo e luminoso recinto, onde pontificava generosa entidade a serviço do bem.
Guardava, por isso, a impressão de haver encontrado um anjo de Deus.
Ajoelhou-se aflita e confiou-lhe as mágoas da alma sensível e afectuosa.
Não acusava o marido nem se queixava dos filhinhos, mas pedia socorro para que lhe compreendessem o intuito.
Ao fim de confidências angustiosas, o amigo afagou-lhe a fronte e explicou:
- Volta ao trabalho, Laurentina, e não te percas em lágrimas injustas.
O companheiro é digno e bom, os filhinhos são flores do coração.
Atende ao dever, minha amiga.
A interpelada quedara perplexa.
Pedia socorro e recebia conselhos?
Sentindo-se incompreendida, voltou a dizer:
- Rogo, por amor de Deus, auxiliardes meu esposo, no concernente às obrigações doutrinárias.
- Joaquim não as tem esquecido - esclareceu o orientador.
De há muitos anos se vem ele revelando mordomo fiel.
Responsável por numerosas famílias de empregados que o estimam, trata os interesses de todos com justiça e honestidade.
Não o deixes sem amparo afectivo, em tarefa tão grave.
Porque não atenda diariamente a problemas de ordem religiosa, no que toca a letras e cerimónias, não quer dizer que permaneça desamparado de Deus.
Entende-se ele com o Pai, no altar da consciência recta, quando organiza os serviços de cada dia, proporcionando trabalho e remuneração aos operários do seu círculo, segundo os méritos e necessidades de cada um.
- Não estou eu, porém, ao serviço da caridade? - pergunta Dona Laurentina, extremamente surpreendida.
- Sem dúvida, e por isso Jesus não te desampara a alma sincera.
Entretanto, existem problemas que não deveriam passar despercebidos.
Já observaste que, antes da caridade, permanece a primeira caridade?
Dona Laurentina esboçou o gesto de quem interroga sem palavras.
- A primeira caridade da dona de casa - continuou o mentor delicadamente - é atender ao lar; a da esposa é ajudar o companheiro; a da mãe é amamentar e nortear os filhos.
Sem isso, o trabalho do bem não seria completo.
Fundamente admirada e sem ocultar o desapontamento que lhe ia n’alma, a senhora Cardoso objectou:
- Mas o próprio orientador de nossas reuniões me aconselhou o desenvolvimento, sempre desejei atender a benefício dos que sofrem nas trevas e, por isso, tenho tentado o desabrochar de minhas faculdades mediúnicas...
- Quando o amigo espiritual te aconselhou desenvolvimento, procedeu sabiamente.
Todos precisamos desenvolver sentimentos nobres, compreensões justas, noções santificantes.
Quanto a faculdades psíquicas, é indispensável considerar que toda criatura as possui, em maior ou menor grau.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:02 pm

Há, sim, trabalhadores com tarefas definidas, nesse particular; no entanto, não podem fugir à espontaneidade, como não escapaste à missão de mãe.
E olvidaste, porventura, que ser mãe é ser médium da vida?
Ignoras que o lar constitui sessão permanente, onde a doutrinação e a caridade com os filhos pedem, às vezes, sacrifício secular?
Não abandones a cooperação de amor junto às amigas do mundo, prossegue servindo aos semelhantes, dentro das possibilidades justas, alivia o sofrimento dos que choram no plano invisível, mas não esqueças a reunião permanente da família, onde tens evangelizações e testemunhos, a todos os minutos do dia e da noite.
Para poder cooperar nos campos imensos da esfera visível e invisível é preciso saber cultivar o canteiro da obrigação própria.
Volta, minha amiga, e que Deus te abençoe.
Dona Laurentina acordou assombrada.
Radiosa alegria estampara-se-lhe no semblante.
Num transporte de júbilo contou ao marido a curiosa ocorrência.
Ele abraçou-a contente e exclamou:
- Agora, interessa-me de facto essa nobre doutrina. Nunca julguei que pudessem existir Espíritos tão sábios e tão bons.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:02 pm

17 - A EXPERIÊNCIA DE CATARINO
No inicio dos trabalhos psíquicos, presididos por Catarino Boaventura, surgiu certa entidade revelando singular carinho e trazendo cooperação interessante, que imprimia novo estímulo à tela viva de cada reunião.
Fez-se conhecer pelo nome de Aquiles, que nenhum dos componentes do círculo conseguiu identificar.
No entanto, apesar do anonimato, criou um vasto ambiente de simpatia, não pela cultura notável, mas pelo préstimo activo que demonstrava.
Impressionado o grupo, em vista das intervenções espectaculares, não houve mais ensejo para o estudo metódico da Doutrina.
Debalde o verdadeiro orientador espiritual exortou os companheiros, no sentido de renovarem sentimentos à luz do Evangelho do Cristo.
Ninguém dava ouvidos à solicitação insistente.
Em vão movimentou-se o mentor dedicado, provocando a vinda de irmãos esclarecidos, no propósito de modificar a situação.
A assembleia não se interessava pelos aspectos elevados, que a nova fé lhe oferecia.
Livros edificantes, jornais bem orientados, revistas educativas, eram relegados a plano secundário, como inúteis.
A amizade de Aquiles representava a nota essencial do agrupamento.
Todos os componentes da sessão costumeira recorriam aos seus bons ofícios, qual se fora ele um semideus.
A entidade prestativa não disseminava maus conselhos, nem menosprezava os princípios nobres da vida ; contudo, subtraía aos amigos invigilantes a oportunidade de caminharem por si mesmos.
Participava de todos os negócios materiais dos companheiros.
Opinava em casos particulares e problemas íntimos.
Chamavam-lhe guia e director infalível.
Via-se, porém, que Catarino Boaventura assumira grande responsabilidade na situação algo confusa, porquanto, na qualidade de orientador encarnado, perdia-se frequentemente em questões e perguntas ociosas.
Os legítimos instrutores, em semelhante regime de leviandade doentia, aliada a forte preguiça mental, afastaram-se discretamente, pouco a pouco.
E Aquiles, parecendo menino bondoso e desajuizado, espécie de criadito diligente e humilde, continuou prestante aos trabalhos de qualquer natureza.
Fortemente ligado a Catarino, por vigorosos laços magnéticos, não se sabia qual dos dois era mais leviano, no capítulo sagrado da responsabilidade individual.
Na residência dos Boaventuras, não se tentava solução de problema algum sem audiência do colaborador invisível.
O chefe da família jamais se cansava de interrogações e consultas.
Frequentemente repetiam-se entendimentos deste jaez:
- Meu irmão, que nos diz relativamente ao meu projecto de sociedade comercial com o Morais e Silva?
- Referes-te ao projecto da fábrica de doces? - indagava o Espírito, demonstrando bondade fraternal.
- Isso mesmo.
- Espera. Estudarei detidamente o assunto.
Dai a minutos, regressava Aquiles informando:
- É inconveniente o negócio. Morais e Silva não é homem de boas intenções.
Não possui capital suficiente e pretende lançar empréstimo fraudulento em casa bancária.
Aceitar-lhe a companhia constituirá erro grave.
Catarino não fazia valer as razões nobres da vida, que mandam alijar intrigas e esclarecer intrigantes, no mecanismo das relações usuais, e, olhos vivazes, agradecia:
- Ainda bem, Aquiles, que tive tua cooperação desinteressada.
Obrigado, amigo.
Amanhã tomarei providências indispensáveis, compelindo o malandro a desembaraçar o caminho.
No dia imediato, desfaziam-se os projectos, sem motivos justos.
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Re: REPORTAGENS DO ALÉM-TÚMULO - Humberto de Campos/Francisco Candido Xavier

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 13, 2017 12:02 pm

O quadro das oportunidades de trabalho surgia diariamente, mas o comunicante, instado pelo companheiro, destacava sempre as dificuldades e impedimentos.
Se observava pessoas, comentava-lhes os defeitos; se examinava situações, expunha as zonas vulneráveis.
- Que me ordenas hoje, irmão? - perguntava Aquiles, zeloso.
- Faço questão que te fixes no caso, trazendo informes detalhados e francos.
Queres conhecer os obstáculos existentes?
- Sim, preciso me mostres o lado obscuro, a fim de agir em confiança perfeita.
E, em todas as situações, obedecia o emissário, cegamente.
O menor problema era considerado com esse critério de relevo à sombra, com esquecimento das probabilidades de luz.
Enquanto passava o tempo, cresciam as demonstrações de preguiça mental.
Aquiles parecia alimentar-se dos fluidos magnéticos de Catarino, e este, a seu turno, revelava-se cada vez mais dependente do companheiro espiritual.
E tão enredada ficou a família Boaventura, no temor das pessoas e situações, que o dono da casa foi compelido a colocar-se em modesta condição de representante de várias instituições comerciais, para que não faltasse o pão quotidiano.
Todas as noites, porém, reunia-se o grupinho, reincidindo o dirigente da sessão nas perguntas invariáveis.
- Aquiles, concordas comigo relativamente à viagem de amanhã?
- Perfeitamente - respondia incorporado à médium -, aquele bairro é futuroso e rico.
Visitei-o ontem à noite, conforme determinaste, e posso dizer que o volume de negócios é dos mais promissores.
Catarino agradecia, solícito, e, feita a viagem inicial, recomeçava na sessão imediata:
- Terminando as actividades atuais, tenciono visitar a cidade a que nos referimos a semana passada.
Desejaria, meu irmão, que trouxesses informações exactas, para saber se serei bem ou mal sucedido.
Aquiles prometia esforçar-se e, vindo a noite, opinava:
Não convém tentar o plano formulado.
A cidade é pequena e pobre, o jogo dos interesses ali predominantes não oferece oportunidades lucrativas.
A população vive de produtos agrícolas, mas, dada a incerteza da colheita, vários estabelecimentos comerciais se aproximam da falência.
- Agradeço-te, amado guia - falava o director da reunião extremamente sensibilizado -, encontro em ti meu apoio diário.
E não satisfeito com a incúria própria, Catarino fazia activa propaganda dos méritos de Aquiles.
Nunca mais se referiu aos mentores sábios que costumavam cooperar nas reuniões doutro tempo, trazendo exortações sérias e estímulos preciosos ao estudo das grandes leis da vida.
Preferia o mensageiro que lhe obedecia às ordens caprichosas.
Afeiçoados, vizinhos e conhecidos vinham pressurosos associar-se-lhe à atitude negativa.
Aquiles atendia as mais estranhas consultas, tornando-se respeitado qual figura miraculosa.
Mas, com o correr inflexível do tempo, Catarino Boaventura acabou entregando o corpo à terra.
Qual não foi, porém, a surpresa que teve, quando, ao entrar em contacto directo com o plano espiritual, divisou lado a lado o comunicante das sessões terrestres!
Uma figura comum, sem qualquer expressão notável que o tornasse digno de veneração.
O antigo director da reunião estava perplexo.
Na cegueira espiritual em que se envolvera no mundo, presumia no amigo obediente qualidades excepcionais de condutor.
Aquiles, todavia, aproximou-se humildemente e perguntou :
- Ainda bem que te encontro, meu velho amigo!
Quais são as tuas ordens, agora?
- Ordens? - indagou Catarino, aterrado - pois não és nosso guia e orientador?
- Não tanto assim - explicou o interpelado -, designaram-me para cooperar em tuas actividades na Terra e, desde então, trabalhando exclusivamente a teu mando, não tenho outra preocupação senão obedecer-te.
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